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A mostrar mensagens de 2010

Feliz Ano Novo

2011 está quase a chegar e, como sabemos, será um ano difícil para todos e dificílimo para alguns. Logo à noite vai haver festa e champanhe, como sempre, e pediremos doze desejos comendo já as passas do Algarve. (Por tradição, também eu o farei, embora deva confessar que no dia 1 já não me costumo lembrar de nada do que desejei.) É, contudo, importante que não deixemos de ler no ano que aí vem. Pondo de parte uma certa ganância inerente à natureza humana (que alguns exacerbam e outros dominam), estou convencida de que, se todos fôssemos pessoas esclarecidas, o mais provável era não termos chegado tão longe. Além disso, mesmo que os livros sejam caros para muitos, a verdade é que os concertos estão sempre lotados e só dão umas horitas de prazer, enquanto um livro pode ser lido, relido, emprestado, consultado e, regra geral, oferece mais qualquer coisa que fica cá dentro, mesmo que não nos apercebamos disso imediatamente. Eu conto manter-me por aqui a falar de livros e espero que no ano que vem se mantenham também os que me lêem. Um feliz Ano Novo e obrigada pela vossa companhia.

O génio simples

Nesta época em que vivemos, parece que já está tudo inventado – e, em matéria de literatura, é de facto muito difícil fazer bom e diferente. O segredo está muitas vezes em «baralhar e dar de novo», uma vez que se trabalha com um material abstracto chamado linguagem que, graças a Deus, não é estanque e aceita constantes combinações. Mas, se muitos críticos dão primazia à linguagem em detrimento da história para definir o génio literário, a verdade é que houve muitos génios da literatura que vingaram com um pelo menos aparente despojamento linguístico. Os escritores norte-americanos, por exemplo, não são lá muito dados a rendas e franzidos, optando, frequentemente, por uma simplicidade quase comovente na escolha das palavras e na composição das frases e apostando quase tudo na estrutura e na temática. É, pois, a todos os títulos, admirável essa novela que todos os jovens deviam ler – e muitos lêem – chamada O Velho e o Mar, que vive com apenas duas personagens (e uma delas não fala) no mesmo cenário, do princípio ao fim da narrativa. Se, por mero acaso, nunca leu a pequena obra-prima do génio Ernest Hemingway, guarde umas duas ou três horas da sua vida para depois nunca mais se esquecer dela.

Três livros grandes

Os livros hoje têm uma vida curta e, como se publica excessivamente, ficam pouco tempo nas livrarias, o que condena muitos deles a uma morte prematura. Os que têm a sorte de sobreviver são poucos e arriscam-se a tornar-se uma espécie de clássicos, embora muitos dos verdadeiros clássicos morram em vez deles e tenham cada vez menos leitores. Quando gostamos muito de um livro, ficamos desesperados ao ver que, nas gerações que se seguem à nossa, já ninguém lhe pega; e, porque creio que seria realmente grave que alguns títulos fossem esquecidos e riscados das leituras actuais, hoje dedico o meu post a três grandes romances (dois deles até no tamanho são grandes) que estão, quanto a mim, entre os maiores da literatura portuguesa. O primeiro é Sinais de Fogo, o romance que Jorge de Sena deixou inacabado e teve já uma adaptação ao cinema; o segundo é Finisterra, uma peça literária única no género da autoria desse poeta maior (e a cair perigosamente no esquecimento) que foi Carlos de Oliveira. O terceiro é Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, que está desde há uns meses disponível em pequeno formato na BIS e tem, por isso, um preço simpático. Se os jovens portugueses só lessem estes três livros, pelo menos já teriam lido qualquer coisa de grande.

Fábricas de livros

Normalmente, quando um autor encaminha o seu livro para uma editora, espera um sim, mas não estranha demasiado quando vem um não e até agradece, se for bem-educado, quando o editor lhe escreve a explicar porque sim e porque não. Às vezes, também recebe um talvez e, depois da conversa com o editor, tenta transformar esse talvez num sim que quer que chegue mais tarde. Há, porém, editoras que substituem a resposta (seja ela qual for) por uma mera tabela de preços. O pai de um amigo meu, a quem a reforma deu para escrever versos (não necessariamente bons), tendo inquirido numa livraria da vizinhança o que devia fazer para ver os seus escritos publicados, acabou a enviá-los para determinada editora que lhe aconselharam. E a resposta – que, quando é séria, frequentemente tarda bastante – não se fez esperar: x euros por cada caderno de 16 páginas e tem o seu livro publicado, além de que lhe fazemos um lançamento numa biblioteca da sua cidade! O senhor, orgulhoso da sua produção literária e ferido com o que considerou uma desfaçatez, não aceitou; mas acabo de conhecer uma rapariga que, noutra editora, concordou em pagar o que lhe pediam para ver o seu livro editado e nunca sequer se encontrou com uma pessoa de carne e osso: mandaram-lhe as provas do livro, puseram-lhe uma capa que ela nem viu e, em mês e meio, tinha o livro à venda... em quase nenhuma livraria, pois claro. Não sei se podemos chamar desonestas às pessoas que assim trabalham – não são, afinal, muito diferentes de uma simples gráfica e não diríamos essa palavra feia se fosse a gráfica a imprimir os versos do pai do meu amigo ou o romance da rapariga; e, porém, há qualquer coisa de feio neste negócio que, se fosse mais sério, teria um crivo e se recusaria a publicar o que não merece estar por aí nas estantes das livrarias (mesmo que sejam poucas). Bem sei que hoje até as editoras ditas sérias põem cá fora muitos livros que nunca deviam ver a luz, mas, pelo menos, arcam com os seus custos...

José e Pilar

Faço um intervalo nas sugestões de livros para falar do filme José e Pilar. Fico, em primeiro lugar, muito feliz por, finalmente, terem chegado os filmes portugueses em que não há desencontro entre o som e a imagem e em que se percebe tudo o que as pessoas/personagens dizem. (Foram tantos anos disso que quase me tiraram a vontade de voltar a ver cinema português.) Em segundo lugar, fico contente com este filme em especial, que é um filme sobre a vida de José Saramago e Pilar del Río num momento particularmente difícil da vida dos dois: o período em que, estando a escrever A Viagem do Elefante, o Nobel da Literatura adoeceu gravemente e teve de ser internado (vê-lo-emos também recuperar e assistir ao lançamento desse livro). Com algumas cenas pungentes (como aquela em que o escritor faz uma declaração em que ouvimos sobretudo a sua dificuldade em respirar), outras muito belas (como a porta do quarto de hospital enfeitada com luzinhas de Natal emoldurando uma Pilar triste e preocupada), outras divertidas (Saramago e García Márquez dormindo numa mesa de um encontro de escritores), esta longa-metragem fala de um amor feito de dedicação e cumplicidade, mas também do dia-a-dia perfeitamente inimaginável de um escritor célebre, que tem de escolher entre trezentos convites porque ninguém o deixa em paz. A ver, absolutamente.

Natal

Hoje, que anda tudo atarefado com as últimas compras de Natal e a preparar-se para uma ceia em família (tudo, não, claro – e o nosso coração tem de estar também com os mais sós e desprotegidos), a minha sugestão tinha mesmo de ser natalícia. Sugiro, assim, que leiam ou releiam a história de Ebenezer Scrooge, o avarento que Dickens imortalizou em Cântico de Natal e se transformou numa pessoa melhor graças às visões bastante aterradoras do próprio futuro. Num ano difícil como aquele que se aproxima – e que será, se não estou em erro, o ano do voluntariado – vamos lá aprender com a moral desta história de Dickens e dar uma ajudinha a quem estiver em piores lençóis.  Um feliz Natal para todos!

Aprender línguas

Quando era professora de Português nos anos 80, zangava-me muito quando os alunos absorviam como esponjas e utilizavam até à náusea palavras e expressões brasileiras – em vez das equivalentes portuguesas – por passarem demasiadas horas a ver telenovelas. Claro que muitas destas expressões eram tão deliciosas e certeiras que era difícil recusá-las («mentira tem perna curta» é obviamente mais redondo e eficaz do que «mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo»); mas eu, que passara a infância a ler o Tio Patinhas em traduções feitas no Brasil, com balõezinhos cheios de «grama» (relva), «bala» (rebuçado), «Oba!» e «bacana», nem por isso passara a utilizá-las no meu discurso (suponho que era por não as ouvir, e que isso muda tudo). Preferia, por isso, que os alunos lessem quadradinhos a que vissem telenovelas, até porque a banda desenhada é um excelente veículo de aprendizagem do mundo, ao contrário do que muita gente pensa e diz. Uma vez, em conversa com o Fernando Pinto do Amaral, hoje a dirigir o Plano Nacional de Leitura, chegámos inclusivamente à conclusão de que muito do francês que sabíamos o aprendêramos nos livros maravilhosos do Tintin, do Astérix e de muitas outras BD que, ao tempo, não estavam traduzidas (ou talvez nós nos recusássemos a esperar pela tradução). É pena que hoje, apesar das reedições destes clássicos, muita gente não faça a mais pequena ideia da sua profundidade e ache que são apenas livros para meninos preguiçosos que não gostam de ler...

Distribuir jogo

Falaram-me há uns dias de um estudo que prova que a maioria das pessoas que compram e lêem livros não tem a mais pálida ideia da editora que os deu à estampa. Imagino que os leitores deste blogue sejam excepção, mas é bem possível que muitos dos meus amigos leitores – de outras profissões e, portanto, alheios às lides editoriais – não saibam efectivamente quem publica os livros que andam a ler (mesmo quando sou eu a editora). Poder-se-ia, pois, pensar que a chancela é coisa secundária e que tanto faz que um romance seja publicado aqui ou acolá. Mas não é bem assim. Estou na LeYa, como sabem, para publicar novos autores portugueses e, como já me disseram, «distribuir jogo», consoante os originais sejam mais populares, comerciais ou literários. E estou a aprender que para os autores, em primeiro lugar, a chancela não é mesmo nada indiferente e marca, por assim dizer, a dose de literatura de cada livro – e, queiramos ou não, a sua qualidade. Mas também já percebi que a crítica dedica uma atenção completamente diferente a um livro que traga determinado selo editorial e quase o ignora se o selo é da editora x ou y, que associa imediatamente a livros de não intelectuais. Por outro lado, uma equipa comercial formada para vender autores literários não vende necessariamente bem um thriller ou um romance mais leve, até porque está habituada a trabalhar pontos de venda distintos daquela que comercializa livros do género com uma perna às costas. Distribuir jogo implica, assim, muita ponderação e ginástica em busca do casamento perfeito entre livro e chancela. Mesmo que depois, como disse, a maioria dos leitores não ligue nenhuma a isso.

Premonições

Há uns tempos, escrevi um post sobre a falta que me iam fazer num futuro não muito longínquo as presenças activas dos editores com quem fui aprendendo ao longo dos anos; e, na semana seguinte, um deles teve de ir desentupir uma carótida de urgência e outro abandonou na LeYa a chancela que dirigia há mais de vinte anos. Alguém me disse que esse meu post tinha qualquer coisa de premonitório e, se eu acreditasse em premonições, passaria a ter mais cuidado com aquilo que escrevo. Mas não acredito – e encontrei durante a vida um livro excepcional de um cientista – Carl Sagan – que desmistificava, entre outras superstições e crenças, os sonhos premonitórios, dizendo que basta fazer uma estatística sobre a quantidade de vezes que sonhamos coisas que não acontecem para ficarmos convencidos de que, quando acontecem, não estamos senão perante uma coincidência. A obra, recentemente reeditada, intitula-se O Cérebro de Broca, vindo este Broca do nome do homem que terá identificado a área do cérebro que aloja a capacidade de articular o pensamento com o discurso (deve ser mais complicado do que isto, mas corrijam-me os especialistas nestas coisas) e explica de forma acessível (como era usual em Sagan) as muitas fraudes ou falsidades bem construídas que, ao longo do tempo, convenceram milhões de ingénuos em todo o mundo. Feito de pequenos capítulos, aquele que mais me deslumbrou foi o que se debruçava sobre as experiências próximas da morte e os relatos dos que passam por isso e contam que viram uma luz branca e a imagem de Deus – e que o cientista interpreta como uma memória do nascimento (a expulsão do bebé que vem do corpo escuro para a luz e as imagens difusas do médico ou da parteira que o esperam cá fora). Lê-se como um romance e é muito bom para afastar crendices e pôr as coisas no devido lugar.

Alunos de Ciências

De há uns anos para cá, tenho assistido a uma mudança muito curiosa em Portugal: os jovens mais cultos e interessantes com quem me tenho cruzado são, regra geral, alunos de Ciências, e não de Letras, como acontecia no meu tempo, em que a gente mais ilustrada e profunda vinha sobretudo das Literaturas e da Filosofia. Talvez as médias requeridas para licenciaturas em Medicina, Arquitectura, Economia e outros cursos ditos técnicos sejam bastante mais elevadas do que as exigidas para as Humanidades e isso leve a que esses estudantes leiam mais, estudem mais e desenvolvam um gosto diferente pelo saber. Em todo o caso, é muito gratificante falar hoje com um jovem físico, médico ou biólogo e ouvi-lo acerca de grandes romances, correntes de pensamento, poetas-mitos e escritores marginais com um à-vontade que falta aos que estudam justamente literatura. Aconteceu-me recentemente com um autor cujo romance publicarei no ano que vem (é cedo para falar disso, mas prometo fazê-lo oportunamente) e que, por detrás de uma carreira científica (creio que o conheci em Pisa a fazer um mestrado ou um doutoramento há dois anos), se vê que tem uma cultura literária e artística apreciável e a usa para dar largas ao seu génio e talento incontestáveis (mas estes nasceram de certeza com ele). Não é caso único, tenho recebido mais romances interessantes de gente de ciência, e a Madalena – que trabalha comigo e de quem falei há dias – também se iniciou nos estudos na área científica e só mais tarde emendou a mão. Será que todos aqueles para quem a Matemática é um papão têm, na verdade, medo apenas do que parece difícil?

Uma história irlandesa

Há uns anos, o escritor irlandês William Trevor teve um livro na shortlist do Booker Prize (que não ganhou) – romance belo e muito triste chamado, despretensiosamente, A História de Lucy Gault. Passava-se nos anos 1920, no seio de uma família que sofria constantes agressões pelo facto de o seu patriarca irlandês se ter casado com... uma inglesa. Na sequência de uma tentativa frustrada de lhe incendiarem a casa, decide, pois, o capitão Gault afastar-se com a mulher e a filha para um lugar onde possam, enfim, viver em paz e segurança. Desconhece, porém, que Lucy – a filha de nove anos apenas – não os acompanhará: a sua casa é o seu pequeno mundo e tomou a decisão de não a abandonar. Esta tomada de posição, que arrasta consigo um acontecimento inesperado (a sua suposta morte), mudará para sempre as vidas dela e dos pais, vidas que acompanharemos ao longo dos anos e das páginas e que, evidentemente, nunca mais serão as mesmas. Contada como só um irlandês sabe fazer, esta narrativa chega a ser pungente, mas é paradigmática na forma como nos quer dizer que um pequeno acaso pode mudar tudo.

Chefe, mas pouco

Quando estava na Temas e Debates, trabalhou connosco durante algum tempo uma rapariga muito inteligente chamada Maria Mendes, que me tratava carinhosamente por «patroinha». Hoje, na LeYa, conto com a ajuda imprescindível da Madalena que, quando vê a hora adiantar-se, me manda ternurentamente para casa (como se ela também não devesse já estar a caminho) com um: «Chefinha, olhe as horas.» Dei-me sempre bem com as pessoas a quem era suposto ensinar alguma coisa, e o certo é que, dessa boa relação, tirei a vantagem de ir eu aprendendo imenso – como me aconteceu na QuidNovi com a Sofia (a quem hoje ainda telefono com dúvidas de revisão) e actualmente com a Madalena (que, além de ter um humor corrosivo absolutamente desarmante, noutro dia me apanhou uma data de vírgulas em falta num texto que eu já tinha lido umas três vezes). Gosto de trabalhar com gente que pensa e que gosta de aprender, porque a maior tristeza da minha vida profissional foi, durante sete anos, ter um chefe com o qual não aprendi uma única coisa (e a quem, infelizmente, não consegui ensinar nada, porque não era dos que aceitam aprender com quem está «abaixo»). Quando olho para trás, acho, aliás, que devo muito mais às pessoas que tive de «chefiar» do que às que deviam orientar o meu trabalho. É para todas elas, desde que entrei na edição, o post que escrevo hoje.

O doce fado

Quem gosta de bolos de pastelaria pergunta-se frequentemente se poderia fazê-los em casa. E, sim, pode. Há mais ou menos um ano que a fotógrafa Clara Azevedo e o designer Luís Chimeno reuniram num livro intitulado Doce Lisboa as receitas dos bolos das principais pastelarias da capital; e, por isso, se alguém se quiser atrever a confeccionar em casa jesuítas, bolos-de-arroz, palmiers, duchesses ou bons-bocados (entre muitos outros ícones da pastelaria portuguesa), tem à sua disposição uma verdadeira cartilha – com a vantagem de as receitas terem o aval das confeitarias que fazem as nossas delícias: da Benard à Mexicana, passando pela Suíça, a Confeitaria Nacional, a Versalhes ou a Rosa Doce. Mas o par de autores ganhou balanço e não sossegou enquanto não repetiu a façanha: um ano depois, resolveu oferecer-nos Tudo Isto É Fado, obra que reúne os petiscos que podem ser saboreados nas principais casas de fado de Lisboa. Para quem não gosta de doces, portanto, aqui estão os salgados mais fadistas da capital, numa apresentação gráfica cuidada que, a quem não cozinha (é o meu caso), dá vontade de visitar as tasquinhas e as catedrais e ouvir um ou mais fados enquanto se delicia com umas iguarias.

Passar a palavra

Quando era estudante na Faculdade de Letras, estava convencida de que os meus professores tinham lido tudo o que eu tinha lido e, obviamente, muito mais. O «muito mais» era, de resto, verdade, mas nem sempre as suas leituras e as minhas, afinal, coincidiam. Aquilo que se vive e publica em determinada época marca quase sempre as leituras de uma geração – e a verdade é que eu já não li muitos dos livros que leram os que têm mais quinze anos do que eu, mas também não lerei muitas das obras que fazem hoje as delícias dos meus jovens autores. E, porém, há que confessar que foi por publicar jovens autores que me encontrei com dois livros excepcionais que, por razões que agora não importa aprofundar, me tinham até então escapado. Um deles é o delicioso Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, de que João Tordo me falou sempre entusiasticamente e comprei na fantástica colecção reunida por Borges e agora publicada pela Presença. O outro (que, de tanto se falar nele, teria acabado por vir parar-me à mão) é As Velas Ardem até ao Fim, de Sandór Márai, uma pequena maravilha de que tomei conhecimento há uns anos, acompanhando o José Luís Peixoto a uma comunidade de leitores na Biblioteca de Almada, onde ele falaria sobre o seu Morreste-me; Maria João Seixas, que então animava essa comunidade, indicou no fim da sessão aos participantes que a próxima leitura seria a novela do escritor húngaro, e o José Mário Silva, que também estava presente, fez o favor de partilhar comigo as suas impressões muito positivas sobre a obra. Ambos são literatura a não perder e agradeço aos mais novos que mas tenham aconselhado tão vivamente. Agora, passo a palavra.

Classificações

Classificar uma obra literária nem sempre é fácil, menos ainda quando há que obedecer a uma nomenclatura. Quando era mais nova, na primeira editora onde trabalhei, tinha de preencher uma ficha bibliográfica por cada livro que era publicado e – o que era pior – de o classificar, cingindo-me a uma lista fornecida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros que, por muito extensa que fosse, me parecia sempre lacunar. Embora alguma coisa tenha sido feita para diminuir a confusão, a verdade é que os problemas de classificação subsistem, e não só quando o livro que temos na mão é mesmo uma obra inclassificável. Quando publiquei Atlântico, Um Romance Fotográfico, de Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena – belíssimo livro –, reparei que as livrarias o arrumavam sistematicamente na secção dos álbuns ilustrados e livros de arte, roubando-lhe provavelmente os seus leitores preferenciais – que visitavam sobretudo a sala de literatura. Agora, que recentemente dei à estampa o último romance de Miguel Real, encontro-o frequentemente arrumado na secção de História, porque, como se chama As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia – e embora tenha a palavra ROMANCE na capa –, é interpretado pelos livreiros como uma obra não ficcional. Nos Estados Unidos, um livro como As Cinzas de Ângela, de que aqui já falei, aparecia sempre nas listas de Não Ficção (uma vez que era autobiográfico), enquanto em Portugal foi sempre considerado um romance. E, para dar apenas mais um exemplo da desarrumação em que andamos, na zona dos livros Gay & Lesbian, não raro encontro títulos que nada têm que ver com essa temática, mas lá estão apenas porque alguém na livraria sabe que, por acaso, os seus autores eram gay ou lesbian... Enfim, nem tudo é mau: pode ser que um leitor que procure apenas uma coisa alinhada acabe a ler Oscar Wilde e se apaixone...

Marcas de sucesso

Num mundo cada vez mais concorrencial, as empresas esgadanham-se por achar um produto que se afirme no mercado e lhes dê lucro certo e sem espinhas. Quando falamos de livros, isso é tanto mais difícil quanto cada livro é um livro e nada garante que um autor ou género aparentemente bem-sucedido num determinado período consiga manter o êxito cinco anos depois. No tempo em que comecei na edição, quando um escritor era lançado e se vendia bem, quase sempre os leitores procuravam o seu livro seguinte; hoje, porém, as coisas já não são bem assim – até porque muita gente desconhece o autor do livro que anda a ler e, se este não se der ao trabalho de mostrar a sua carinha (que, sendo bonita, tem vantagem) pelos sete cantos do País, não poderá almejar a uma reputação que mereceria apenas pelo que escreveu. Mesmo assim, há temas que conseguem instituir-se como marcas de sucesso e raramente dão mau resultado. De há alguns anos a esta parte, os editores descobriram que Salazar é um deles – e, desde então, todos os livros que tragam no título o nome e na capa o retrato do homem que se manteve mais tempo à frente dos destinos da Nação são um negócio praticamente seguro. O problema é que, a par de uma fantástica biografia como a de Filipe Ribeiro de Menezes – que apresenta, efectivamente, muitos elementos novos para reflexão e conhecimento –, outras obras há que exploram o filão de modo mais à scandale, prontificando-se, por exemplo, a ilustrar-nos sobre a vida sexual e amorosa do nativo de Santa Comba Dão. Atentando no número de livros recentemente dados à estampa, parece que Sá Carneiro, trinta anos decorridos sobre a sua morte, corre o risco de se tornar outra marca de sucesso.

Hoje há conquilhas

Há uns dias, fui surpreendida com um comentário a um post que não era bem um comentário, mas uma comunicação, igual provavelmente à que outros bloguistas receberam – e digo isto porque me trataram apenas por «caro blogger», sem atenção a nome ou sexo (como notou, de resto, uma leitora), e a informação tinha mesmo ar de ser um copy/paste feito por alguém que teve de mandar a mesma mensagem a sei lá quantas pessoas. Diziam-me que o Horas Extraordinárias fora escolhido pelo programa da TVI 24 Combate de Blogs como candidato ao prémio de «Blog Revelação do Ano» e mandavam-me um link (http://combateblogs.blogspot.com) para ver com quem concorria, quais eram os outros prémios (blogue do ano, bloguista do ano) e quiçá até para poder votar em alguém ou em mim mesma. Fui lá espreitar e, embora o meu blogue seja muito pouco combativo para um combate de blogues, achei graça ver o Horas Extraordinárias, que fala essencialmente de livros, entre tantos que comentam diariamente a actualidade política (e, juro, não votei em mim porque nunca tive jeito para fazer batota). Devo certamente esta recomendação para prémio ao Tomás Vasques, participante no programa da TVI 24 e autor do blogue Hoje Há Conquilhas, Amanhã não Sabemos. Agradeço-lhe aqui publicamente e, como não faço tenções de ganhar, fico contente que a comunicação tenha servido para eu me lembrar de dizer aos meus leitores que leiam também o blogue dele (http://hojehaconquilhas.blogs.sapo.pt).

Uma casa na Palestina

A criação de um Estado palestino merece toda a nossa atenção, sobretudo depois da criação do Estado de Israel. Mas exige também de nós um conhecimento que nem sempre temos quando nos erguemos para defender um lado ou outro. É por isso a todos os títulos recomendável a leitura do romance de Alon Hilu, A Casa Dajani, um livro belíssimo e esclarecedor sobre o velho conflito. A sua acção começa em 1895 com a viagem de um agrónomo judeu – Haim Kalvarisky – para Jafa, na companhia de Ester, a sua mulher linda e frígida. Espera Kalvarisky que o clima da terra dos antepassados devolva a Ester o desejo sexual e, ao mesmo tempo, lhe dê a ele terras férteis donde possa extrair riqueza. Mas nada será linear, e o seu encontro com um rapazinho árabe muito perturbado – Salah Dajani, que tem visões de uma tragédia que se abaterá sobre o seu povo – e a mãe deste – mulher de olhos verdes cujo marido está sempre fora – será decisivo na perseguição dos objectivos do homem loiro e carente. Polémico quanto baste, contado ora pelo judeu, ora pelo menino árabe (e nunca saberemos quem mente e quem diz a verdade), A Casa Dajani traz-nos a história fascinante dos primeiros sionistas e acompanha o destino trágico de Salah e Haim a partir do momento em que o agrónomo seduz a mãe da criança e o pai desta aparece morto misteriosamente. Um desafio permanente para o leitor, o romance recebeu grandes elogios de Shimon Peres e ganhou o mais importante prémio israelita – que logo lhe foi retirado por razões que todos perceberemos ao lê-lo. A capa, com um portão abrindo-se para um pomar de laranjeiras, convida-nos a entrar nele sem preconceitos.

Um pássaro na mão

Não se deixe enganar pelas flores cândidas da capa nem pelo título, que pode parecer o de um romance cor-de-rosa. O romance é leve, sim, mas apenas porque não tem razões para ser denso e pesado – e, além de muito divertido, é sério e há que prestar-lhe a devida atenção. Chama-se As Asas do Amor, porque fala de aves e de amor – um caso triangular que envolve uma viúva e dois pretendentes maduros, todos membros de um clube de ornitologia no Quénia. Ela é branca, mas já foi casada com um negro que terá sido assassinado por opositores políticos. Eles são indianos, descendentes das comunidades de formiguinhas trabalhadoras que ali foram construir os caminhos-de-ferro quando os brancos achavam os negros demasiado indolentes para deixarem tudo pronto a horas (é também dessas comunidades, li algures, que provém o grande número de indianos que vivem em Moçambique). Escreveu o livro Nicholas Drayson e, se estou bem lembrada, ele chegou a estar na longlist do Booker Prize no ano em que saiu. Pois bem: a história de amor entre estas três pessoas de idade respeitável é uma delícia, já que os dois pretendentes a levar a bela viúva ao baile anual são uns senhores e concordam em auto-excluir-se se não conseguirem, num determinado período, listar um número de aves vistas superior ao do rival. E nós, leitores, deixamo-nos arrastar nesta aventura ornitológica cheia de humor britânico, vendo talvez perder o candidato que merecia ganhar, mas inequivocamente simpatizando com o dandy bem vestido e engatatão que consegue maravilhas à conta de alguma batota. Tudo com a maravilhosa África como pano de fundo.

Saudades

Um dia destes estava a arrumar livros – tarefa inglória quando já não sabemos onde os pôr – e dei por mim a reler os poemas de José Agostinho Baptista em vários livrinhos pequenos que a Assírio & Alvim publicou há muito tempo (e que estão reunidos numa espécie de obra completa – 1976-2000 – a que ele inteligentemente chamou Biografia). Tive saudades da poesia do José Agostinho Baptista, que me fez um dia uma dedicatória original que começava com uma frase do tipo: «Para esta parva, que...» A razão para a desfaçatez – se chegava a tanto – prendia-se com a circunstância de eu lhe ter dito que gostara muito das suas traduções de William Carlos Williams, mas não tanto das de Yeats... E ele mostrou a sua não concordância nessa dedicatória que me fez. Ache-se ou não bem, isso agora é irrelevante, o que importa é que se trata de um grande poeta que, talvez pela sua natureza – disseram-me que é um misantropo –, tem passado a muitos despercebido (digo isto, porque o vejo muito pouco citado em blogues de poesia). O último livro que lhe conheço tem um dos títulos mais bonitos de sempre – O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos –, está escrito em prosa e já foi publicado há algum tempo. Espero que saia outro em verso para eu matar saudades.

Uma espécie em extinção

Comecei a trabalhar na edição em 1987, quando o mundo dos livros era muito mais intelectual do que hoje e a capacidade de fazer negócio vendendo livros parecia até coisa secundária. Embora tenha havido aspectos positivos na grande transformação sofrida – a edição é hoje uma indústria cultural de grande peso para o País –, a verdade é que sinto que as editoras ainda estão de certo modo a viver do génio e das ideias dos editores que fizeram as grandes chancelas e se afastaram, foram afastados ou passaram de proprietários a assalariados de grandes grupos nacionais ou multinacionais (excepcionalmente, tornaram-se editores por conta própria e fazem uma preciosidade de vez em quando, mas pouco mais). Foi certamente a observá-los que aprendi quase tudo o que sei. Eles não se limitaram a importar sucessos do estrangeiro ou a convidar as meninas bonitas da televisão a escrever romances xaroposos: construíram colecções e linhas editoriais que ainda permanecem, recuperaram clássicos esquecidos, formaram gerações inteiras com as obras que deram à estampa, encomendaram livros a personalidades de indiscutível renome em várias áreas do conhecimento e trouxeram-nos autores que estão hoje entre os maiores da literatura mundial. E, porém, mesmo que alguns deles ainda trabalhem – e bem –, fico um pouco assustada quando vejo o tempo a passar e me rendo à evidência de que, daqui a dez anos, se calhar já não verei por aí o Zeferino Coelho, o Carlos Veiga Ferreira, a Maria da Piedade Ferreira, o Carlos Araújo, o Nélson de Matos... mesmo o Guilherme Valente, com o seu estranho feitio. Fico contente por poder viver com o Manel (Alberto Valente) – que, tenho a certeza, me ensinará ainda muito se, por hipótese, deixar a edição antes de mim –, mas ficarei muito mais só no mundo dos livros, pois quase todos os que hoje desempenham funções como editores são bastante mais novos do que eu e já começaram num tempo em que a edição era mais comercial e menos intelectual.

Surpresas da China

Como trabalho há mais de vinte anos com livros, as pessoas retraem-se um pouco de mos oferecer. É sempre, por isso, uma grande alegria quando aterra um presente em forma de livro na minha secretária. Um dia destes, estava eu a trabalhar, vieram entregar-me um envelope que alguém que passara a correr – provavelmente sem lugar para estacionar – deixara para mim na recepção da LeYa. Descobri dentro dele um livro chamado A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen, assinado por Raquel Vaz-Pinto e publicado pela Tinta-da-China. Fiquei contente que a autora – que conheço desde os meus tempos da Temas e Debates, ainda ela estava a terminar o mestrado (hoje é investigadora na Universidade Católica) – tenha sistematizado e sintetizado neste volume os seus vastos conhecimentos sobre a China, ela que é uma especialista em Direitos Humanos e fez uma tese sobre a pena de morte na China. Porque este gigante está já a assombrar a Europa e os Estados Unidos com o seu desenvolvimento acelerado, mas ainda se mantém «uma ditadura de pedra e cal», para citar Raquel Vaz-Pinto, este é um livro fundamental para percebermos melhor os caminhos que o país do tamanho de um continente ainda trilhará neste século XXI.

Afinal, havia outra

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Há uns dias, referi uma agenda perpétua recentemente publicada pela Babel que oferecia um verso por dia a quem quisesse usá-la na secretária ao longo do próximo ano (ou de outro qualquer). Alguém comentou – e muito bem – que o Poemário da Assírio & Alvim, pioneiro nesta matéria, servia os mesmos objectivos e, pouco depois, descobri que, em termos de agendas poéticas, afinal ainda existia outra, editada pela Dom Quixote. Chama-se Todos os Dias Felizes e, em relação às já citadas, tem a vantagem de se poder trazer na carteira, pois é fininha e maleável; além disso, tem espaço para telefones e moradas, umas quantas páginas para nos recordar dos aniversários mais importantes e ainda umas folhas de linhas no fim para escrevermos o que nos der na gana. E, claro, excertos de poemas portugueses. Por isso, se gosta de poesia, tem várias opções para passar o ano bem acompanhado.


 


Uma correcção

Para os que não lêem os comentários: depois do meu post de quinta-feira, que desencadeou muitas reacções de indignação, uma funcionária da Livraria Bertrand esclareceu que podemos ir pôr no livrão livros infantis não comprados naquela cadeia desde que sejam novos. Tenho pena de que o anúncio que mencionei não o dissesse, mas fico obviamente contente que assim seja.

Humor britânico

Dizem que os ilhéus são muito diferentes dos continentais e que possuem características próprias. No caso dos Ingleses, é sabido que o humor constitui, de facto, uma das suas marcas distintivas (há umas semanas, ouvi até Pedro Mexia dizer na rádio que mais nenhum país se atreveria, como fez o Reino Unido, a dar um prémio como o Booker a uma comédia). Uma das séries de livros mais divertidas que encontrei até hoje – e que de modo algum poderia ser escrita senão pelos nossos velhos aliados – chama-se The Bluffer’s Guides e veio parar-me à mão há muito tempo, quando os jornais começavam a vender ou oferecer livros e a editora onde eu então trabalhava cuidou da produção de uma dúzia de títulos (tradução revisão, grafismo, capas, etc.) para esse fim. Não sei se o título que se arranjou na altura para a colecção (O Especialista Instantâneo) vingou, se permaneceu o original, mas ri-me a bandeiras despregadas com a ideia geral e cada um dos volumes. Tratava-se, afinal, de aprendermos o suficiente sobre um assunto de maneira a tornarmo-nos especialistas instantâneos e não fazermos feio num encontro de entendidos. A forma de o ensinar era, porém, hilariante, deixando-nos alegres com a aprendizagem, mais cultos do que antes e, mesmo assim, com a sensação de que tudo aquilo que líamos não passava do mais despudorado conjunto de mentiras... Agora, com as livrarias todas do mundo à distância de um clic nas teclas do computador, pode divertir-se muito com estes guias de temas tão variados como sexo, marketing, economia, filosofia, surf, James Bond, mulheres, Idade Média ou música. E, se nunca foi a Paris, experimente ler o correspondente Bluffer’s Guide e arrote postas de pescada junto dos que se julgam experts na cidade do charme.

Veneza e Varanasi

Uma vez, fui jantar com um amigo a um restaurante entre o Terreiro do Paço e Santa Apolónia que tinha uma particularidade: servia comida indiana e italiana (e não outras). Nunca vira as duas cozinhas associadas em restaurante algum, nem consegui destrinçar por que motivo o proprietário tomara aquela estranha decisão de alimentar os clientes com duas gastronomias tão diferentes. Ignoro se o restaurante ainda lá está, mas o livro de que falarei hoje tem, curiosamente, como cenários a Itália e a Índia. Chama-se Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, escreveu-o Geoff Dyer, e li-o há talvez dois anos em inglês, ainda em versão PDF, mas sei que foi entretanto publicado em Portugal. A primeira parte, que decorre em Veneza, é a história de um daqueles encontros desiguais entre um homem e uma mulher: o homem tímido e discreto, nada good looking, para quem a coisa mais improvável do mundo é ter na sua cama durante os dias que dura uma bienal de arte em Veneza uma mulher que toda a gente aspiraria a ter nos braços. Para ele, é a história de amor da sua vida; para ela um intermezzo fogoso mas aparentemente inconsequente. A descrição é arrebatadora e arrasta-nos ao longo das páginas, desejosos de mais. Eppure, depois da despedida italiana, uma cortina atira-nos o homem para a Índia, mais exactamente para a cidade santa de Varanasi, num estado de declínio que não conseguimos atingir (há que esperar até ao final do livro para saber), perguntando-nos mil vezes se a mulher ali aparecerá para o salvar. Mais espiritual e escura, esta segunda parte irá esclarecer-nos sobre as reais consequências da experiência amorosa e o inescapável destino dos protagonistas. Escrito com dois ritmos inteiramente diferentes, tem uma estrutura bastante original e serve de aviso aos que – passe o paradoxo – se atiram, sem rede, para as redes da paixão.


 

Armados em bons

Um dia destes, chamou-me a atenção um anúncio de página inteira com um ar pré-natalício publicado num suplemento cultural de um jornal diário. Tratava-se de uma campanha aparentemente a favor das crianças que não têm dinheiro para comprar livros e apelava ao nosso sentido de generosidade, caridade ou dever, propondo-nos que comprássemos um livro para essas crianças e o depositássemos num «livrão» – recipiente donde, em Dezembro, os livros seriam retirados e entregues a crianças de determinada instituição. Assim, à primeira vista, uma ideia louvável, claro; eu até tenho em casa muitos livros infantis repetidos ou dispensáveis que não me importaria de ir pôr no dito livrão – e também não me escusaria a comprar mais um ou dois nesse espírito de missão que se traduz em dar livros a quem quer mas não pode ler. O anúncio era, porém, de uma conhecida cadeia de livrarias portuguesa e, no livrão, afinal só podem colocar-se livrinhos acabados de comprar em qualquer das suas lojas... Sim, leu bem. Um negócio para a respectiva livraria, claro, mas disfarçado de acto beneficente... Sem contar com o custo do anúncio – que não se pode desdenhar em tempos de crise – e, provavelmente, da construção de livrões vários, tudo o mais é lucro limpo e sem osso. Nunca gostei muito dos que se armam em bons...

Alisto-me

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João Pombeiro – jornalista e editor – acaba de publicar um livro que é uma delícia e nunca se esgota, podendo ser quase infinitamente consultado. Chama-se O Livro das Listas e tem o curioso subtítulo Tudo o que sempre quis saber e não tem medo de perguntar. Alguns dirão que não serve exactamente para nada, mas a verdade é que se perde tanto tempo entre as nossas mãos que, pelo menos, nos afasta de livros maus ou outros trabalhos menos dignos e interessantes. E está cheio de informações divertidas, surpreendentes, originais (algumas listas são elaboradas por colaboradores como João Miguel Tavares, Pedro Vieira, João Tordo ou Salvato Telles de Meneses) e estapafúrdias. Falemos, por exemplo, dos 7 livros para deixar a bebida sem recorrer aos Alcoólicos Anónimos, dos 5 excertos de livros infantis que podiam ter traumatizado centenas de crianças, dos 12 produtos de uma despensa portuguesa de há cinquenta anos, dos 18 insultos para usar no dia-a-dia, dos 13 pedidos impossíveis de satisfazer numa livraria portuguesa, para além, claro, das goleadas deste ou daquele clube, dos carros ou discos mais vendidos em determinado dia ou ano e dos ciclistas que tiveram mais vezes a camisola amarela junto à pele. Mas a melhor lista de todas é, sem dúvida, a das 15 teses de mestrado e doutoramento sobre... o tremoço! A capa do livro, igualmente bem-disposta, mostra-se abaixo.


 





Obrigada, obrigada

Hoje sinto-me um pouco como Amália a agradecer os aplausos depois de um fado. O Horas Extraordinárias fez seis meses e recebi as felicitações de um… Sapo. Mas estas felicitações dadas à «princesa» devem-se mais a quem consulta e lê do que a quem escreve e, por isso, quero agradecer a todos os que, desse lado – comentando ou em silêncio –, me têm feito companhia ao longo deste primeiro semestre e, sobretudo, me têm feito sentir que vale a pena estar na blogosfera. Não sei se estou a exagerar, mas os números parecem-me extraordinários, como convém a um blogue com este nome: houve mais de 100 000 visualizações e, pasme-se, os «leitores» vieram de 73 países. Cerca de 20% dos acessos fez-se de forma directa – o que quer dizer que já há visitas que vêm a esta casa antes de irem a outras – e cerca de 70% dos visitantes chegaram aqui através de blogues e sítios de referência (obrigada, amigos bloguistas). Os novos leitores também não param de aparecer – e mais de metade vem do Brasil, o que me deixa muito feliz, uma vez que me interessa mais o grande espaço lusófono do que o Portugal pequenino. Por tudo, muito obrigada. Espero contar convosco neste segundo semestre que agora começa.

Um ano de poesia

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Há uns meses, pediram-me da Babel uns cinco versos de poemas meus para incluírem numa agenda que publicaram recentemente na sua colecção K4. Quem gosta de poesia pode, pois, orientar o próximo ano por esta agenda tão bonita e maneirinha, que fica bem em qualquer secretária e iluminará quem nela queira registar os seus afazeres com um verso por dia. Chama-se Dou-te Um Verso e tem um design bonito (faz pena escrever nela, mas para o ano há mais, uma vez que se trata de uma agenda intemporal que pode ser vendida eternamente). Inicia-se com um verso de Cesariny e vai por aí fora, citando imensos poetas, dos mais aos menos conhecidos, dos mortos aos vivos, dos consagrados aos mais jovens, até terminar... outra vez com Cesariny. No fim, lista os poetas participantes e oferece calendários até 2013. É baratinha (à roda dos 7,50 Euros) e dá um belíssimo presente de Natal.


 



 

Fugir de nós

Um dos filmes que mais me marcaram foi o belíssimo Na América, de Jim Sheridan, no qual um casal irlandês a quem morreu um filho parte com as duas filhas vivas (excelentes actrizes de palmo e meio) para os Estados Unidos, em busca de uma vida que os redima dessa terrível morte que não teriam podido evitar. Não sei bem porquê – embora, evidentemente, haja pontos de contacto –, mas há um livro que estará para sempre associado na minha mente a esse filme doloroso e magnífico. Chama-se E Então Fomos Embora e foi escrito no dealbar deste século por Michael Kimball, a quem a crítica chamou, sem hesitações, “o sucessor de Faulkner”. Não deixando de ser absolutamente pungente no relato que faz da vida de uma família que atravessa a América com o caixão de um bebé (e o bebé lá dentro, claro) a caminho de um lugar digno para o sepultar, consegue escapar sei lá por que artes ao melodrama e à lamechice tão típicos do cinema americano de grande audiência. Descrevendo uma cidade atrás da outra através dos olhos de duas crianças que assistem ao desmoronamento dos pais e à perda total de bens e força para os conquistar ao longo do percurso, além de constituir um guia de viagem realista do interior dos Estados Unidos (que é, habitualmente, a parte que desconhecemos daquele país), transforma as maiores e mais penosas contrariedades em factos que as crianças, por serem crianças, aceitam com a maior das naturalidades. Na linha de Faulkner e Steinbeck, este é um livro de um autor a quem se deve prestar atenção, desde que os leitores tenham bons estômagos.

Chocolate, um aviso

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Hoje estarei no lançamento de um livro para o qual participei com um conto. É um livro de contos de mulheres à volta do chocolate para saborear num domingo à tarde – dia em que há tempo para experimentar receitas novas, porque cada conto inclui uma receita. Chama-se Chocolate – Histórias para Ler e Chorar por Mais e tem um design maravilhoso e suculento de Maria Manuel Lacerda. Em algumas livrarias, é vendido numa caixa com forminhas de silicone – coisa para mulher que gosta de pôr a mão na massa, como é bom de ver. Como não sou grande apreciadora de chocolate (gosto, mas quase não consumo), achei graça ser convidada – e aceitei com gosto até pela estranheza; e, como sou péssima cozinheira (o meu primeiro bolo ferveu em vez de cozer no forno), resolvi escrever justamente uma história sobre uma cozinheira exímia e os seus cursos de Culinária. Mas o que quero com este post não é fazer publicidade, mas tão-só avisar as eventuais leitoras de que não devem experimentar nenhuma das receitas da minha protagonista: são coisas inventadas para uma ficção, e não para a realidade, e podem dar mau resultado. A receita final, sim, é verdadeira – e fazia-a quando era criança por ser muito simples; mas, para quem gosta de cozinhar a sério – e de chocolate –, o melhor é ver o que produziram as restantes autoras (Alice Vieira, Catarina Fonseca, Isabel Zambujal, Leonor Xavier e Rita Ferro): em texto e em culinária.


 



Cruzes credo

Quando estava na Temas e Debates, logo no início, publiquei na colecção de romances estrangeiros uma fábula que podia ser lida por jovens e adultos com a mesma facilidade e o mesmo interesse. Passava-se num reino imaginário e altamente democrático (utópico, bem vistas as coisas) em que era decidido organizar um torneio de religiões para escolher a que melhor podia servir aquele território. Os participantes eram todos altos representantes do judaísmo, do cristianismo, do islão, do budismo, do hinduísmo e, se a memória me não falha, também um ateu. Tinham de apresentar as grandes vantagens da sua religião em relação a todas as outras e ser confrontados com acusações dos seus concorrentes ou rivais. Intitulava-se O Rei, o Sábio e o Bobo, assinava-o Shafique Keshavjee – um especialista em questões interconfessionais – e dava, em duzentas páginas, informações de base (crenças, livros sagrados, rituais, etc.) sobre as principais religiões do mundo embrulhadas numa história que incluía atentados, raptos e outras peripécias. Narrado como o relato de um concurso, era de leitura fácil e aliciante, ideal para quem quer aprender o que não sabe e só gosta de falar de determinados assuntos com conhecimento de causa. Não digo, como é óbvio, quem ganhava o torneio – estragaria por certo o prazer a quem o quiser ler.

Livros terapêuticos

Tenho uma grande atracção pela psiquiatria e pela psicanálise e muita fé em terapias que curem estados de alma cheios de escuridão sem recurso a químicos. Sei que não servem para toda a gente e que é preciso – como com um livro – que a combinação entre sujeito e objecto (melhor: entre paciente e médico) funcione. No entanto, não consegui deixar de apreciar a sátira a estas práticas numa grande comédia de David Lodge, que teria dado um fantástico filme realizado por Woody Allen se os argumentos dos seus filmes não fossem sempre ou quase sempre do próprio. Numa altura em que andamos todos cabisbaixos com as notícias de um país à beira da bancarrota, faz bem à alma ler um romance inteligente, informado e divertido como Terapia. Inesquecível desde logo a cena em que o protagonista recebe da mulher um pedido de divórcio e chega à conclusão de que nem sequer tinha a noção de que se davam mal; mas mais hilariante é a tentativa de o mesmo capar com uma tesoura de podar o professor de ténis por quem crê que a sua mais-que-tudo está loucamente apaixonada. Para quem gosta de livros bem-dispostos, muitos dos romances de Lodge são aconselháveis, mas alguns talvez excessivamente britânicos. Este, porém, sobre as fraquezas humanas, não podia ser mais universal.

Edições de luxo

No mesmo dia em que a revista Única dedicava um número aos luxos dos mais e menos conhecidos, participei daquilo a que se pode chamar um lançamento de luxo. Tratava-se da apresentação pública de Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares – um livro em verso-prosa que narra a viagem de um português (estranhamente chamado Bloom, como o Bloom do Ulisses) até à Índia, partindo de Lisboa e parando em Londres e Paris, no século XXI. Escrito de certa forma à sombra d’Os Lusíadas, com os mesmos cantos e estrofes e também algumas glosas em versos precisos (para quem conheça bem o poema de Camões a leitura deve ser ainda mais extraordinária), este é um livro que vai dar que falar cá e em toda a parte, hoje e daqui a cem anos. E, embora não o tenha ainda lido (mal lhe pus a mão, para ser sincera), a verdade é que me sinto desde já à vontade para o recomendar. E porquê? Pois bem: não só a apresentação de Vasco Graça Moura foi suficientemente elucidativa e aliciante, mas também – ou sobretudo – a leitura de vários excertos por Pedro Lamares (um grande, grande diseur) mostrou que o texto é absolutamente genial e tem de ser lido com todo o tempo do mundo. Em época de mediania, como aquela em que vivemos, este é um luxo irrecusável – e a ele voltarei neste blogue para confirmar, com toda a certeza, as minhas suspeitas assim que terminar a leitura.

Plágio ou não, eis a questão

Na véspera do lançamento público do romance Rio Homem, de André Gago (AG), foi o autor informado por uma jornalista que o entrevistara na véspera de que Francisco Duarte Mangas (FDM), jornalista e escritor, enviara para a redacção uma nota acusando André Gago de ter, grosso modo, plagiado uma novela que escrevera em 1993 intitulada O Diário de Link, tantas eram as coincidências e semelhanças que encontrara. Conheço, embora superficialmente, Francisco Duarte Mangas, por quem tenho respeito enquanto autor (acho pena, aliás, que nunca tenha tido o reconhecimento que merece) e estima enquanto pessoa. Também por isso a acusação me pareceu estranha: o romance de AG já passara, no Prémio Leya, o crivo de um júri com nomes de respeito (entre eles, Manuel Alegre, Nuno Júdice ou Pepetela), fora objecto de uma crítica por Miguel Real no JL (que o inseriu numa tradição literária portuguesa, enumerando muitos outros autores, mas nunca FDM) e ia ser (já foi) apresentado por Lídia Jorge em sessão pública. Além disso, as razões invocadas para o «plágio» no comunicado eram demasiado gerais, entre elas o facto de a acção decorrer na mesma aldeia em ambos os romances e haver «uma história de amor arrebatadora»… Porém, porque não gosto de me pronunciar sem ter os dados todos, dei a FDM o benefício da dúvida. Subi então à escada em demanda do seu O Diário de Link nas estantes lá de casa, pois o Manel garantiu-me que possuía um exemplar (e porque só tem 85 páginas, na confusão, foi mesmo difícil de encontrar). Li-o e gostei; mas, com toda a franqueza, não encontrei mais semelhanças entre ele e Rio Homem do que as que existiriam entre dois romances passados em Paris com resistentes ou em Coimbra com estudantes... Pontos de contacto, sim, mas os evidentes em autores que se preocupam e escrevem sobre os mesmos assuntos. FDM apresentou, tanto quanto percebi, uma queixa à SPA; AG diz que fez muito bem.

Recitar

António Lobo Antunes é, segundo me dizem, um amante de poesia – um apreciador e um conhecedor. E há uma ou duas semanas, tendo ido autografar exemplares do seu último romance à editora, parece que deu um espectáculo fantástico a quem lá estava para ouvir, recitando de cor imensos poemas portugueses de várias épocas. Há uns dias, quando me encontrei com o escritor Mário Cláudio para agendar a saída do seu próximo romance, ficámos a conversar sobre Yeats e Robert Frost no fim da reunião e, de repente, também ele me recitou ali mesmo, em inglês, do pé para a mão, um poema lindo de Frost sem a mais pequena hesitação. (Podia ter-lhe retribuído com outro, mas fiquei intimidada e não fui capaz.) Era, porém, bonito juntar estes «craques» num lugar qualquer e deixá-los recitar para nós. Tenho a certeza de que fariam mais pelos poemas e os poetas do que algumas (quase todas) livrarias que temos, onde a poesia está sempre escondida ou nem tem existência. Bom serviço à poesia prestam também João Gesta e os seus diseurs nas Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre, no Porto, uma vez por mês, fazendo um trabalho magnífico. Se nunca assistiu e vive na cidade Invicta, não falte da próxima vez.

Um problema de esquerda

O meu «compadre» (como se dizia antigamente) é canhoto (creio que o termo correcto é esquerdino, mas acho que ele não se ofende por eu usar uma palavra, ao que julgo, pejorativa); parece que ainda lhe tentaram ensinar a escrever e comer com a mão direita, mas não deu resultado, e isso não o impediu de adorar fazer riscos e desenhos e ser há muito director gráfico em agências de publicidade. Ainda assim, sempre o ouvi queixar-se das tesouras e das facas de peixe que, pensadas para quem faz tudo com a mão direita, incomodam bastante quem usa a esquerda e, sobretudo, de pouco ou nada servem, porque ficam com as lâminas viradas para o lado em que não há nada para cortar. Sempre me impressionou bastante na infância a forma como os colegas canhotos colocavam a folha de papel sobre a mesa e escreviam – todos torcidos – e, um dia destes, ao ver na televisão um árabe a escrever da direita para a esquerda, pensei que, se calhar, nesses países onde a direcção da escrita é diferente da nossa há mais esquerdinos e os destros são a excepção. Na verdade, também no Japão os livros começam pelo (nosso) fim e a capa está onde nós, por norma, colocamos uma sinopse, críticas e outro material promocional. Será que lá também os canhotos são privilegiados?

Meias-tintas

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Há muitos anos, numa aula de Literatura Inglesa na Faculdade de Letras, um certo professor declarou, assim sem mais nem menos, que O Último Tango em Paris era um filme sobre a pintura americana. Estranhei, claro, pois o que ouvira dizer do filme nada tinha que ver com a pintura; mas, como na altura não o tinha visto, achei melhor reduzir-me à minha insignificância. Vi-o mais tarde e, mesmo tendo aquela declaração presente e já sabendo mais sobre a pintura americana e sobre outras coisas nessa altura, a verdade é que (mea culpa) não consegui atingir o statement do meu professor. Contudo, ao terminar há dias a leitura de A Beleza e a Tristeza, do japonês Yasunara Kawabata (ouvi alguns conselhos que me deram aqui no blogue e insisti um pouco mais na cultura nipónica), ficou-me a sensação de que, além do enredo, o romance é de certo modo uma obra sobre a pintura japonesa. Claro que trata de outras coisas, do amor quase sempre – magoado, preterido, ciumento, lésbico e vingativo, estados de alma que, descritos por um japonês que ganhou o Nobel em 1968 e se matou em 1972, têm um sentido quase pictórico, sobretudo na cena em que Keiko, a apaixonada e estranha discípula da pintora Otoko, confessa que tem um mamilo insensível e não permite que ninguém o toque. Não foram das horas mais extraordinárias que passei, mas não se pode querer tudo e aprendi muitas coisas sobre o país do Sol nascente e... a sua pintura.


O actor-autor

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Amanhã é lançado publicamente Rio Homem, o romance do actor André Gago que publico na Asa, fruto de muitos anos de investigação e finalista do Prémio Leya no ano passado. Ao contrário do que costuma acontecer com livros de gente que aparece na televisão – quase sempre escritos por mãos alheias ou simplesmente mal escritos –, este é um livro bonito e profundo que cruza duas histórias magistrais: a de um jovem galego foragido da Guerra Civil de Espanha que perdeu as suas referências e a da aldeia comunitária que o acolheu – Vilarinho da Furna – e que hoje jaz submersa na albufeira de uma barragem. O link para o booktrailer (onde o autor fala do romance com a belíssima voz do actor) aí vai. O convite para que apareçam no lançamento também.


 





Com ou sem badanas?

Quase sempre se escreve na contracapa de um livro um texto que resuma o seu enredo ou avance o assunto de que trata. Nem todos os livros têm badanas (eu gosto dos que têm porque as uso como marcadores), mas, geralmente, quando estas existem, são, entre outras coisas, usadas para proporcionar aos leitores um cheirinho da vida do autor (e por vezes até um relance da sua cara, mais ou menos bonita, tanto faz). As pessoas são curiosas e gostam de saber pormenores sobre quem escreve. O problema é que, de vez em quando, esbarramos numa badana biográfica totalmente disparatada... E já nem falo do número de filhos ou da raça dos cães (detalhes que os norte-americanos adoram acrescentar), mas de dados distribuídos pelas linhas à má fila, sem o mínimo bom senso. Um dia destes, por exemplo, caíram-me os olhos numa badana que começava logo por dizer que a autora era escritora. Ora, se tínhamos um livro dela na mão (e sei lá quantos mais escreveu ao longo da vida), seria mesmo preciso dizê-lo? (Quase me apetece sugerir que faria mais sentido explicar em certas badanas que quem assina o livro NÃO é um escritor.) E a verdade é que não dizia que “era” escritora, mas que o “fora” – mais estranho ainda, porque depois das datas de nascimento e morte entre parênteses a seguir ao seu nome, já tínhamos certamente concluído, se também não o soubéssemos já, que a senhora partira deste mundo. Não bastando isso, a frase seguinte informava-nos de que tinha sido casada com determinado escritor, como se isso lhe conferisse um estatuto que, solteira, nunca atingiria (e há muita gente entendida que sempre a achou muito melhor do que o marido, ainda por cima). Pois bem, parei de ler ali mesmo. Como o Joaquim Namorado disse ao Manel quando ele era estudante em Coimbra, os escritores são para se ler, não para se conhecer. Badanas para quê?

As maravilhas da modernidade

Publiquei no virar do século um livro de Bill Gates onde este declarava que o mundo tinha mudado mais nos últimos cinquenta anos do que nos trezentos anteriores. Talvez seja verdade. Quando comecei na edição, no final dos anos 80, escolhia livros nos catálogos que recolhia nas feiras internacionais, pedia os direitos por carta, às vezes respondiam-me que quem os detinha era um agente, voltava a escrever, mandavam-me finalmente um exemplar e concediam-me dois meses para me pronunciar, após os quais eu desistia ou fazia uma oferta (mais uma vez por carta), que normalmente era aceite três semanas mais tarde. Uf! Nunca um livro saía simultaneamente em todo o mundo, como hoje acontece, mas também raramente havia leilões ou tínhamos de fazer ofertas um ou dois dias após a recepção de um ficheiro em Word ou PDF de determinado romance. Pois é verdade que os tempos mudaram e muita coisa foi facilitada e agilizada. Ainda bem, pois já não conseguiríamos viver sem tudo o que a tecnologia nos trouxe. O Manel não resistiu ao iPod, ao iPhone, ao E-Book e agora também aguarda, ansioso, um iPad que há-de chegar de França nos próximos dias; e eu não escreveria isto nem seria lida sem as maravilhas desta modernidade. Mas, se um dia destes me queixava da memória a seguir aos 50, pois a verdade é que os mais novos também se queixam do mesmo e já ninguém sabe um simples número de telefone de cor, porque a máquina ajuda e não vale a pena exercitar os neurónios em coisa tão comezinha. Por outro lado, com os chats e as redes sociais, tenho ideia de que as pessoas se vêem menos e andam mais sozinhas. Ainda na Gradiva, nos primórdios do vírus da Sida, ajudei a publicar um livro (Vox, de Nicholson Baker), que era uma conversa telefónica sobre sexo entre um homem e uma mulher, respectivamente das costas leste e oeste dos EUA, que usavam as linhas eróticas por constituírem uma forma segura de ter relações sexuais. Acabava bem, porque ambos alcançavam o orgasmo, mas não será um orgasmo melhor em presença do outro? E as centenas de amigos que todos temos no Facebook poderão ajudar-nos quando precisarmos deles?

Desporto em português

Divirto-me há anos a coleccionar «preciosidades» em língua portuguesa, melhor dizendo, calinadas fantásticas que fazem rir até às lágrimas; e troco-as todos os anos na Póvoa de Varzim, nas Correntes d’Escritas, com o Henrique Cayatte, que tem o mesmo passatempo e, embora viva em Lisboa, eu quase só o veja por lá. Tenho uma lista fantástica que juro partilhar aqui à medida que me faltarem ideias para o blogue, mas algumas das melhores saíram da boca de gente ligada ao desporto, cuja linguagem específica está, ela própria, carregada de vocábulos fascinantes como «esférico» para «bola», ou frases inesquecíveis como a que diz que «não se fazem prognósticos antes do jogo». Um dia, depois de ao fim de uma qualquer etapa da Volta a Portugal um jovem ciclista ter vestido a camisola amarela, correram a pôr-lhe o microfone debaixo do nariz; e a primeira coisa que ele soltou cá para fora foi um agradecimento sentido a todos os que tinham trabalhado «em prólogo» da sua vitória. Também o futebolista Jardel, por causa de uma qualquer pergunta incómoda que já não recordo, avançou com um ar muito sério que aquilo era «uma faca de dois legumes». E, depois de ter elogiado cem vezes uma determinada égua num concurso hípico e de a ter visto falhar logo o primeiro obstáculo, o senhor que cobria o acontecimento não arranjou nada melhor para dizer do que «era humanamente impossível ao cavalo» saltar aquela altura...

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O João Tordo vai orientar um workshop de escrita de romance. Se se interessar por estas coisas, aí vai a informação.


 


Sem palavras

A poesia é, quanto a mim, muito mais do que as palavras que contém. Se quisesse ser apressada – e agora dá-me jeito sê-lo – diria que, comparada com a prosa, a poesia diz normalmente mais com menos. Claro que nem toda a poesia é assim e nem toda a prosa é assado, mas há uma cadência e uma musicalidade na poesia que, uma vez por outra, quase nos dispensam de ler ou ouvir as palavras que se deitam nos seus versos. Pode parecer estranho, bem sei, mas refiro-me a uma experiência única que vivi em Liège, num festival de poesia, na companhia do poeta José Tolentino de Mendonça (tenho, por isso, testemunhas). Estávamos já um bocado entediados com tanto discurso (era no tempo da guerra na Bósnia e toda a gente politizara as suas intervenções) e só nos apetecia sair do auditório e ir dar uma vista de olhos às livrarias (o conselheiro cultural, contudo, achou que não devíamos). Eis se não quando sobe ao palco um poeta da Eritreia – alto, magro, bonito, com modos de bailarino e gestos largos – e começa a ler um dos seus longos poemas. Mesmo sem percebermos uma palavra do que estava a dizer, o espectáculo foi tão mágico e electrizante que sentimos que o essencial daquele poema tinha passado para nós e para todos os que o ouviam. O feitiço da poesia na voz de um feiticeiro africano. Nas sessões de lançamento de romances, quando alguém se lembra de ler um capítulo em voz alta, quase sempre o público desliga ao fim de uns minutos. Porque será?

Uma questão de pronúncia

Um dia destes, falei aqui de uma espécie de abismo que se criou entre o português de Portugal e o português do Brasil numa situação que vivi no Rio de Janeiro. Todos os países lusófonos têm (e ainda bem) particularidades – e uma delas é a pronúncia (o Manel, que esteve dois anos em Angola nos anos 70, diz que distingue perfeitamente um angolano de qualquer outro africano lusófono quando ele abre a boca para dizer seja o que for). Contudo, esta «pronúncia» ou «maneira de falar» pode dar resultados bastante divertidos. Fui em 1995 a São Tomé e Príncipe fazer uma comunicação sobre autobiografias e descobri, nessa semana, coisas belíssimas (a expressão «leve-leve» para «molenga», por exemplo) e outras curiosas (a uma pergunta do tipo «Já arrumou a sua mala?», a resposta é apenas «Ainda» se houver roupa por arrumar, quando nós diríamos «Ainda não»; disseram-me que o «não» se omite porque, no tempo do império, os negros nunca podiam dizer «não» aos patrões brancos – calculem! – e o hábito foi ficando). Mas houve um noticiário a que assisti uma noite no restaurante do hotel quase hilariante. A data era justamente 25 de Abril, e o jornalista, enquanto mostravam imagens de festa em Lisboa – creio que junto à Fonte Luminosa –, relatava que, naquele mesmo dia, em Portugal, se comemorava a revolução dos... escravos. À mesa só havia portugueses e acabámos todos a perguntar-nos se não havia naquela notícia um fundo de razão...

Guionismo

Um dia destes, tive um brevíssimo encontro com o conhecido dono de uma produtora de cinema e televisão; no meio da conversa, ele avançou que em Portugal não se escrevem bons guiões e que conta muitas vezes com profissionais brasileiros, espanhóis e americanos para conseguir um argumento bem construído e realista. Claro que só começámos a produzir séries e novelas há uns dez anos, pelo que é natural que ainda não tenhamos chegado ao nível dos argumentistas de Hollywood; mesmo assim, haverá certamente alguns bons guionistas em Portugal, quiçá subestimados e mal aproveitados. Em todo o caso, a minha experiência com a leitura de guiões é confrangedora. Depois de me terem proposto fazer a adaptação televisiva de uma série juvenil que escrevi nos anos 90, aceitei com a condição de ler os guiões. Comecei por me escandalizar com o número de erros de ortografia, sobretudo porque os actores eram crianças e iriam ficar certamente cheios de dúvidas (lembro-me de que uma das guionistas não sabia a diferença entre “coro” e “couro”, por exemplo); mas o que mais me chocou foi a completa falta de imaginação (como era preciso haver cenas de suspense – que não estavam nos livros –, em todos os episódios as personagens ficavam fechadas num sítio qualquer, nunca variava) e a incapacidade para perceber que a oralidade e a escrita são coisas completamente diferentes: as frases que as crianças tinham de decorar às vezes pareciam saídas de um compêndio. Como se isso não bastasse, numa história que incluía duas gémeas brasileiras, vi-as transformadas em francesas sem saber porquê. Quando perguntei, explicaram-me que no canal que transmitiria a série havia a regra de ninguém falar com sotaque brasileiro, porque as novelas brasileiras passavam no canal rival... Enfim, depois da duríssima revisão de 26 episódios, percebi que, de facto, é preciso abrir os cordões à bolsa e contratar profissionais em vez de pôr a miudagem a ganhar uns cobres e escrever não importa o quê.

O poderio alemão

No ano em que Portugal foi o país convidado da feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei como directora de publicações no escritório que organizou a presença portuguesa; fizemos vários livros nesse ano e tínhamos de estar constantemente em contacto com os nossos colegas da Alemanha que traduziam os textos para esclarecermos tudo até à exaustão. Embora tivesse aprendido alemão durante quatro anos, não tinha a noção de quão descritiva era aquela língua e que dificuldade sentiam no escritório de Frankfurt os tradutores para verterem para alemão textos aparentemente tão simples. Só para terem uma ideia, em Portugal temos as palavras “doente”, “hospital” e “ambulância” (todas de raízes diferentes) que, numa tradução literal, têm os correspondentes alemães “doente”, “casa do doente” e “carro do doente”... Numa tarde em que precisávamos de um texto sobre o stand de Portugal rapidamente traduzido, tivemos de andar com mensagens de fax para cá e para lá (sim, ainda era o tempo do fax) por causa da expressão “quiosque multimédia”. Parecia óbvio, mas para os alemães colocarem tudo numa palavra (ou em duas) tiveram de saber o formato exacto do quiosque, se servia café, se era de livre acesso, quantos computadores tinha e muitas outras ninharias que, pelos vistos, eram fundamentais para uma tradução correcta. Estivemos horas naquilo e, no fim, o resultado foi surpreendente: qualquer coisa como Kiosk multimedia (ou vice versa, agora já não me recordo). Tanta pergunta para quê?

Português de Portugal

Quando estava na Temas e Debates, a editora tinha um acordo com uma congénere brasileira – a Rocco – para vender em Portugal (depois de revistos ou retraduzidos) livros cujos direitos mundiais para a língua portuguesa pertenciam a essa editora – entre outros, os thrillers de John Grisham como O Cliente ou A Firma. Numa viagem ao Rio de Janeiro para a Bienal do Livro, pediram-me que me encontrasse com uma assistente do senhor Rocco, no sentido de tratar de alguns assuntos pendentes e ver os livros que queríamos publicar em Portugal no ano seguinte. A senhora chamava-se Ana Maria Bergin e, embora fosse bastante mais nova do que eu, não tinha com ela qualquer familiaridade. Como acho o tratamento por “você” bastante feio e até um pouco indelicado, dirigi-me a ela na terceira pessoa, usando, como é costume em Portugal, o seu nome próprio. Estive, assim, cerca de uma hora dizendo coisas do tipo “Como a Ana Maria bem sabe...”, “A Ana Maria não conhece o mercado português, mas...”, “Eu sei o que a Ana Maria pensa sobre esse assunto”, “A Ana Maria podia sugerir-me...” e por aí fora, até que, de repente, ela me interrompeu bruscamente e perguntou: “Desculpa, mas quem é Ana Maria?” Fiquei, como podem imaginar, aparvalhada de todo. E, no abismo que se criou entre ambas, continuo a achar que não há acordo ortográfico que nos valha...

Dá Deus nozes...

Há muitos anos, fui convidada pelo Instituto Português do Livro e da Leitura (que depois se tornou a Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas que acaba de ser, quanto a mim, escandalosamente extinta) para ir a uma Feira do Livro em Cabo Verde. Porque nessas paragens não abundavam livrarias, a feira era um acontecimento nacional e, antes mesmo de as portas se abrirem, havia uma multidão que aguardava, ansiosa, por tocar, cheirar, folhear e comprar livros – desde histórias infantis ilustradas a dicionários e livros de Direito, passando por romances, biografias e livros práticos. Ao final do primeiro dia, já só havia meia dúzia de exemplares nas mesas e escaparates, e os que tinham chegado tarde partiam acabrunhados e de mãos vazias no meio de queixumes surdos e um encolher de ombros. As crianças que tinham apanhado um livrinho pareciam exultantes, mas muitas havia que, à porta, choravam a sua pouca sorte. Nesse tempo, discutia-se muito em Portugal o desinteresse dos jovens pela leitura e fiquei deveras impressionada com a franca desilusão sentida por aqueles meninos. Quando perguntei a um deles – desdentado, com seis ou sete anos – se gostava tanto de ler como parecia, ele respondeu-me que sim e que, à falta de outra coisa, lia todos os dias o jornal e guardava as páginas de que mais gostava. Na semana passada, soube que Cabo Verde tem mais de 90% da sua população alfabetizada e lembrei-me imediatamente deste episódio. E ainda há gente que vive em cidades cheias de livrarias e nunca entra em nenhuma – e, pior, que nem lê o jornal...

Sexo, mas pouco

Nós, os Portugueses, somos um povo algo contido em matéria de sexo, talvez por força da repressão que a Igreja católica exerceu sobre nós ao longo de muitos anos; e, quando a revolução abriu as portas a uma certa libertação e tirou a prática sexual da lista dos pecados a merecerem castigo divino, o estado de graça não durou nem duas décadas, pois logo apareceu o vírus da SIDA, uma outra espécie de ameaça. Provavelmente por isso, na literatura portuguesa o sexo mostra-se pouco, mal ou muito discretamente; e, durante décadas, quem ousava dar-lhe corda raramente ultrapassava um efeito ridículo ou inverosímil. Lembro-me de um artigo publicado no Jornal de Letras há anos sem fim, em que Inês Pedrosa extraía dos romances nacionais cenas de sexo caricatas que, arrancadas ao contexto, podiam realmente fazer rir e chorar. Deve ter sido mais ou menos na mesma altura que li o belíssimo romance A Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, descobrindo um fôlego fantástico para as coisas do corpo e da sexualidade que nunca tinha encontrado num autor de língua portuguesa. É bem possível que a África, mais descontraída e quente, tenha a sua quota-parte de responsabilidade, mas lá que ali o sexo era bonito, ninguém pode negar.

O enciclopedista e o pretenso poeta

Quando tinha dezasseis anos, saiu-me num exame de Francês um texto delicioso. Contava a história de um jovem poeta que tinha ido encontrar-se com o grande Diderot para lhe mostrar o que andava a escrever e auscultar a sua opinião. O enciclopedista não se negou a dar-lha, mas pediu que deixasse os poemas e lhe desse tempo para os ler com atenção. Quando, ao fim de alguns dias, o jovem regressou, seguramente expectante, Diderot explicou-lhe que não só aqueles poemas eram maus como mostravam que o seu autor nunca seria capaz de escrever bons poemas... Como não sou Diderot – e embora às vezes me apetecesse –, não posso dizer nada de semelhante a alguns jovens (e não tão jovens) pretensos escritores que me mandam os seus livros (embora um dia destes Lobo Antunes me tenha dito que só se pode fazer um bom editing com crueldade). Tento, mesmo assim, ser frontal sem magoar demasiado na minha tentativa de dissuasão. Mas nem sei se chego aonde quero, porque, para ser franca, sei de muitos livros que recusei e foram, ainda assim, publicados por outras editoras. Alguns – pasme-se – até me incluíam nos agradecimentos... A propósito, O Poeta de Pondichéry, livro de poemas de Adília Lopes, refere-se a este jovem poeta que Diderot mandou passear.

De olhos em bico

Eu e o Japão não nos damos lá muito bem – mas tenho a certeza de que a culpa é minha, que não consigo entender, entre outras coisas, que, mesmo num país seguro, possam andar sozinhas crianças de quatro anos entre a casa e a escola. Quando estive em Tóquio há uns anos, achei demasiadas coisas estranhas (censuram os pêlos púbicos em livros, filmes e até anúncios de lingerie, tornando-os uma mancha indefinida, mas vendem uma manga horrorosamente violenta e não raro pornográfica); e perguntei-me – sem obter resposta – porque não têm as personagens dos desenhos animados «olhos em bico», e sim uns olhões verdadeiramente arregalados, quando se diz que os Japoneses nos consideram uma raça inferior. Não consigo alcançar o Japão, é o que é. E, ainda assim, há um escritor japonês que vive em Londres que leio com um prazer desmedido. Ganhou o Booker Prize com o magnífico Os Despojos do Dia (que deu um filme vencedor de vários Óscares), mas escreveu muitos outros romances de grande qualidade. Talvez seja um escritor já europeizado, mas a verdade é que, embora os seus cenários sejam frequentemente europeus, as suas histórias não deixam de estar impregnadas de valores tipicamente japoneses. Em Os Inconsolados, por exemplo, vê-se bem que Kazuo Ishiguro não podia ser senão japonês.

Braço de Prata

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Mário Lúcio Sousa estará hoje na Fábrica e Braço de Prata, pelas 22h00, para apresentar simultaneamente o seu romance O Novíssimo Testamento, vencedor do Prémio Literário Carlos de Oliveira, e o seu novo CD, Kreol, no qual canta e toca com Milton Nascimento, Pablo Milanés, Harry Belafonte e Teresa Salgueiro, entre outros. Prometemos boas palavras e bons sons. Apareçam!


 


 

A eternidade ou um dia

Quando perguntam a um escritor porque escreve – e acontece frequentemente em sessões nas quais o público intervém –, as respostas variam, mas não ultrapassam normalmente meia dúzia de hipóteses. Há quem escreva porque quer e quem escreva porque tem de escrever; há quem escreva porque não sabe fazer mais nada e quem ache que nunca se teria tornado escritor se não tivesse uma vida para lá da escrita; há quem escreva para não morrer e até quem escreva para não matar; há quem escreva para dizer alguma coisa ao mundo e quem não saiba o que diz com o que escreve. Pensa-se desde sempre que os escritores, escrevendo, procuram sobretudo a imortalidade. António Lobo Antunes, por exemplo, numa recente entrevista ao Expresso, mostrou-se convicto de que a sua obra lhe sobreviverá e que ainda vai ser lida durante muitos anos (ele falou em séculos, creio eu). Não sei se sermos lidos depois de mortos é consolo maior do que sermos lidos em vida; talvez seja um certificado de qualidade, é certo, mas, em todo o caso, já cá não estaremos para ver os leitores pegarem nos nossos livros. Não será preferível um encontro com um leitor especial num único dia à desconhecida eternidade?

Desespero

Um dia destes, a olhar para as minhas estantes, apercebi-me de uma coisa assustadora: havia muitos livros que eu estava certa de ter lido e dos quais lembrava muito pouco ou coisa nenhuma. Já estou na idade em que me faltam os nomes dos actores que entraram em determinados filmes de que até gostei e, pior do que isso, na idade em que, quinze dias depois de ter visto um filme que não me agradou, já não sou capaz de recuperar senão vagos momentos da história. Isso até aguento. Mas com os livros fiquei preocupada, tanto mais que quero ainda ler todos os que puder e estou sem saber se, ao esquecer-me rapidamente deles, valerá realmente a pena lê-los. Ao mesmo tempo, sinto que a partir dos cinquenta entramos numa espécie de contagem decrescente, e não raro dou por mim a planear furiosamente leituras, com medo de que o tempo se acabe e eu não tenha conseguido pôr os olhos em metade do que queria. Disse-me recentemente alguém (o Manuel Jorge Marmelo, acho, mas com esta memória já não tenho a certeza) que, mesmo que estejamos sempre a ler desde pequenos, nunca, no tempo normal de uma vida, conseguiremos ultrapassar os três mil títulos. Não sei se haverá três mil livros imprescindíveis, claro, mas... como terão então feito aqueles que se gabam de ter mais de vinte mil volumes nas suas bibliotecas?

Uma espécie de loucura

Há uns anos, numa tarde inesquecível na Feira do Livro de Lisboa, Eduardo Prado Coelho comparava romancistas e poetas. Dizia que, enquanto os primeiros eram claramente neuróticos, os segundos eram, sem qualquer dúvida, psicóticos. Ou seja: ambos mentalmente doentes, embora o transtorno dos romancistas não interfira com o pensamento racional e o distúrbio dos poetas implique uma certa perda de contacto com a realidade. Também Eduardo Lourenço, numa sessão belíssima a que assisti na Casa Fernando Pessoa, avançou que os poetas raramente sabem donde lhes vem aquele primeiro verso que provoca o poema, havendo nisso uma espécie de transcendência que faz com que, tradicionalmente, se diga que estão mais próximos de Deus do que as outras pessoas – incluindo os romancistas, que costumam explicar com grande detalhe donde lhes veio a ideia para determinado romance. E, no entanto, Lobo Antunes fala de uma mão que escreve alheia à sua cabeça; e na semana passada, numa sessão em Leiria com, entre outros, o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, autor de O Novíssimo Testamento, este disse ao público que, na verdade, também não sabia bem donde lhe vinham as palavras quando abria o portátil e começava a digitar. Depois, pensando melhor, arriscou, porém, uma hipótese divertida: download cósmico?

Terra Santa

Quando hoje se fala na nova literatura portuguesa, os nomes que vêm à baila são quase sempre os mesmos: José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, valter hugo mãe, João Tordo. Tive a felicidade de poder dar à estampa os romances de estreia de três deles, mas, naturalmente, não deixo de considerar um escritor enorme o único que nunca publiquei: Gonçalo M. Tavares. O seu Jerusalém, que venceu vários prémios cá dentro e lá fora, é um romance absolutamente notável e único no panorama das letras portuguesas, tão próximo da tradição da Europa Central como Tordo está da anglo-saxónica. Enquanto o lia, tinha sempre um aperto no coração, como se soubesse que o mal estava à espreita e havia de se mostrar cedo ou tarde – um mal que era inevitável porque inscrito numa espécie de linhagem histórica que o determinava. As personagens – médicos, loucos, deficientes, traumatizados da guerra, prostitutas – ficam connosco muito para além de o livro fechado, mesmo que algumas delas tenham morrido nas suas páginas. E as ideias por detrás da história pareceram-me, por vezes, tão geniais e novas que, enfim, tive ainda mais pena de não ter sido eu a publicar este livro, mas muito feliz por ele existir.

Diana Bar

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Hoje, no Diana Bar, na Póvoa de Varzim (adoro esta terra!), o jornalista e escritor Manuel Jorge Marmelo apresenta O Novíssimo Testamento, de Mário Lúcio Sousa. Amanhã, haverá nova sessão de apresentação na FNAC do NorteShopping (obrigada, querido Manel Jorge).


 


Grandes equívocos

Agora há poucos jovens que queiram fazer cursos de Letras, provavelmente por falta de saídas profissionais, mas nem sempre foi assim e houve anos em que muita gente foi parar a estes cursos porque as médias de entrada não eram muito altas, e era melhor um curso na mão do que outro a voar. Contaram-me a história de uma aluna do curso de Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa que mostra bem o equívoco de se ir estudar uma matéria para a qual não se tem a menor vocação. Na primeira aula de Literatura Portuguesa (julgo que assim se chamava a disciplina, mas tanto faz para a historia), a professora Clara Rocha estava a comunicar aos alunos todas as obras que iriam estudar ao longo do ano e, entre elas, referiu a poesia de Sá Carneiro. Para admiração da docente e de muitos dos colegas (foi uma delas que me contou o episódio), houve uma aluna que se mostrou admiradíssima e, com a desfaçatez própria da ignorância, inquiriu: «Sá Carneiro?! O quê? Esse também escrevia versos?»

A Vida não Basta

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Hoje, em Leiria, pelas 18.30, na Livraria Arquivo, João Tordo, Vasco Luís Curado, Mário Lúcio Sousa… e eu (a editora dos três) vamos participar numa conversa, animada com música e boa companhia. Se estiver por ali, apareça!


 


 




Os picos do ouriço

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Trabalhar num grande grupo editorial tem algumas vantagens (mesmo que muita gente não acredite, tem mesmo); uma delas é podermos aceder a certos livros antes de os terem as livrarias – e foi isso que me aconteceu recentemente com o novo Lobo Antunes, Sôbolos Rios Que Vão: alguém mo ofereceu sem eu sequer ter pedido. A verdade é que não o ia comprar – tenho demasiadas coisas que ler e sinto há muito que é preciso disposição e disponibilidade para um autor de peso como ele – coisas que habitualmente me faltam. Mas... sim, puseram-me o livro na mão e era um desses exemplares fininhos que, apesar do que exigem, se lêem em relativamente pouco tempo. Foi mais forte do que eu, como se aquela mão que o autor diz que escreve os livros por ele tivesse esticado um dedo acusador como a dizer-me que já não era sem tempo. O romance fala de um homem às voltas com um ouriço bicudo (também podia ser um caranguejo, uma vez que se trata de um cancro, mas o ouriço é bastante mais apropriado) e da sua suposta salvação pelo recurso a memórias de infância junto da nascente do Mondego num tempo em que as botas não lhe duravam mais de um Inverno, o pai abusava da empregada, o avô desdenhava os jornais na varanda, o tio supostamente impotente o ensinava a fazer oitos com a bicicleta, uma estrangeira aparecia nua no hotel dos ingleses, a mãe contava como conhecera o pai e o jovem Virgílio o acomodava numa carroça até à vila entre sacas de batatas que o incomodavam como... ouriços? Depois, havia a avó, pedindo-lhe que não espalhasse o peixe no prato e perguntando-lhe se não ouvia os gatos. A avó, o melhor de tudo. Que dizer? As memórias de infância são quase sempre o que nos salva. E aqui também.


 


O Novíssimo Testamento

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É hoje. Estão todos convidados.



A tia do Nobel

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O primeiro livro que aconselhei quando criei este blogue foi justamente uma obra de Mario Vargas Llosa, o vencedor do Prémio Nobel da Literatura deste ano. Na altura, A Tia Júlia e o Escrevedor, um romance notável confessadamente autobiográfico, encontrava-se esgotado, mas foi reeditado há pouco e está aí de cara lavada para quem nunca o leu. Esse meu post foi dos que mais comentários teve desde que o blogue começou. Acredito, pois, que muitos gostarão de saber esta notícia.


 


Livro, que livro?

Andava atarefada, sempre à procura de bocadinhos livres para me agarrar às capas de um determinado livro, quando o Manel me perguntou que andava eu a ler com tamanha sofreguidão. Respondi-lhe que andava a ler o Livro, mas ele não percebeu imediatamente. E, quando deixei o exemplar num sítio qualquer da casa e não o encontrava, perguntei-lhe se ele por acaso tinha visto o meu livro e ele perguntou outra vez de que livro se tratava. Respondi: o Livro. Ficou confuso, mas, finalmente,  lá se fez luz. Este título de José Luís Peixoto presta-se a confusões e tem, realmente, muito que se lhe diga. O Livro também – e com ele passei muitas horas extraordinárias nos últimos tempos. Quando estava a chegar ao fim, até veio aquela tristeza que temos quando nos separamos de alguém que amamos. A primeira parte é absolutamente magnífica, com muitas passagens e personagens que me recordaram Nenhum Olhar, mas com uma leveza nova e até alguns apontamentos de humor (um surdo que «se descuida» diante de toda a gente porque não ouve os próprios puns, por exemplo). A segunda parte – de que a crítica gostou menos – é uma forma de o autor ser moderno, para não ser apenas clássico. Não tenho nada contra nem acho de forma alguma que esteja a mais, até porque tem dados importantes sobre o desfecho da história do Ilídio, da Adelaide e de outras pessoas. Como eu supunha, é mesmo um senhor livro.

A arte de argumentar

Há muitos anos li um livro admirável que passou completamente despercebido, mas faria certamente as delícias de todos quantos amam a filosofia. Decorria a sua acção num país sem nome, que podia ser Espanha ou Portugal, no tempo da Santa Inquisição; e contava a história de um náufrago que dava à costa numa praia perto de um mosteiro, vindo de um lugar estranho onde ninguém ouvira nunca falar de Deus. Para salvar a pele da fogueira, tem este homem culto e atraente de explicar porque não pode acreditar no que não conhece a um inquisidor inteligente que tenta provar-lhe, com a ajuda de uma menina que foi encontrada entre os lobos, que a ideia de Deus é inerente à criatura humana e anterior a qualquer aprendizagem. Os diálogos entre os protagonistas são de uma riqueza extraordinária em termos de argumentação e desafiam permanentemente o leitor a pôr-se no lugar ora de um, ora de outro. Chama-se esse romance O Conhecimento dos Anjos e foi escrito por uma inglesa, Jill Paton-Walsh, que – tanto quanto sei – não voltou a ser traduzida em Portugal. Mas é uma pérola a procurar nos «baús» dos alfarrabistas.

Parar de ler

Não sou especialmente impressionável – o sangue nunca me afligiu, mesmo em criança, e posso ouvir histórias realmente nojentas à mesa sem perder o apetite. Também raramente choro em filmes e livros (excepto se já estou deprimida), porque, mesmo que me identifique com alguém ou alguma coisa, nunca deixo de sentir que tudo aquilo é ficção. (O defeito é meu, claro, mas tenho de viver com ele, como com todos os outros.) Há, porém, algumas coisas que me comovem – e normalmente têm mais a ver com velhos do que com crianças (talvez por nunca ter sido mãe). Mas foi, curiosamente, por causa de uma cena com bebés que tive um dia de interromper a leitura de um livro, tal era o aperto na garganta e no estômago. O romance chamava-se As Cinzas de Ângela (deu, de resto, um filme terrível) e era construído a partir das memórias de um irlandês, Frank McCourt, que emigrara para os EUA. Ainda na Irlanda, a mãe do autor ia tendo filhos no meio de uma pobreza irremediável e, como não podia deixar de ser, ia-os perdendo quase ao mesmo ritmo a que nasciam. O problema maior (para mim, que me fui abaixo) foi quando a dita senhora teve um par de gémeos e um deles, dois anos depois, não resistiu à grande fome. A reacção do irmão que sobrevive à sua ausência, a procura constante da metade que se foi, é – garanto – demasiado pungente. Mesmo para gente que não se impressiona habitualmente…

Parabéns

A Mario Vargas Llosa pelo justíssimo Nobel da Literatura.

As mulheres dos escritores

As mulheres dos escritores não têm uma fama por aí além – e, se passam a viúvas, a coisa tende a piorar. Ouço esta tirada muitas vezes e sei quase sempre em quem estão a pensar os que a dizem. Claro que há histórias reais de viúvas que se apropriaram das palavras escritas pelos maridos em guardanapos de papel e tentaram ganhar dinheiro com elas; de outras que nunca mais largaram as editoras com exigências; de uma ou duas que bateram o pé e não deixaram tirar o acento grave nos advérbios acabados em «mente» porque era assim que os falecidos tinham escrito no tempo deles; e ainda das que inventavam que eram as musas dos escritores quando o mundo inteiro sabia que o casal dormia há anos em quartos separados. Sim, acredito nestas excepções, mas quantas mulheres e viúvas haverá das quais nunca saberemos a existência – discretas, recatadas, silenciosas? E quantas serão pessoas normalíssimas, que não correspondem minimamente ao figurino de «mulher de escritor» do nosso imaginário? O Manel conta que conheceu a mulher de um escritor que levava o tricô para as conferências do marido e fazia malha enquanto o ouvia; e outra que se levantava a meio da noite, acordada pelo telefone, e se metia no carro para ir buscar o marido que, de tanto beber, não conseguia voltar para casa sozinho... Conheci uma senhora – lindíssima, por sinal – que era escritora e mulher de escritor. Pois o pior que os jornalistas podiam fazer-lhe era falar-lhe do marido...

Ensinar a (gostar de) ler

No tempo em que era professora, infelizmente não havia muitos colegas com os quais pudesse falar de livros. E o que mais me assustava era que, de vez em quando, apareciam na escola promotores de editoras (não necessariamente escolares), abriam o seu estendal na Sala de Professores e muitos dos docentes não só não compravam nada como nem sequer iam lá espreitar (mas perdiam imenso tempo a ver pulseiras, fios e anéis de ouro em bolsas de veludo). Tenho-me perguntado ao longo destes anos como será possível a quem não lê e não gosta de ler fazer aquilo a que hoje se chama «motivar os jovens para a leitura». Mas também não estou certa de que o gosto pela leitura seja transmissível – penso que a descoberta se faz quando um leitor encontra um livro (e nem precisa de ser bom) que, naquele exacto momento, faz um clique e estala qualquer coisa dentro dele; e isso é um milagre a dois, não inclui mais ninguém. Em todo o caso, é sempre preciso que alguém dê livros às crianças, sobretudo às que não têm livros em casa, para esse clique acontecer, e o professor pode, de facto, ser essa pessoa. Por isso, é bom que leia e goste de ler para escolher melhor o que entrega.

Pinga-amor

Publiquei em tempos um livro de um escritor colombiano – Jorge Franco Ramos – de quem García Márquez disse ser um dos autores a quem não se importava de passar a candeia. Foi um elogio merecido, claro, porque esse romance de estreia era uma pequena maravilha (também publiquei o segundo, mas este continuou a ser o meu preferido). Rosário Tesouras (com um título tão tremendo, não sei como o decano dos escritores colombianos sequer se deu ao trabalho de o abrir) conta a história de dois meninos maus de famílias boas que, em Medellín, cidade conhecida sobretudo pelo tráfico de droga, conhecem Rosário, uma bela rapariga de um bairro pobre («súbdita» de um dealer) que, na sequência de uma tentativa de violação, cortou à tesourada os testículos do agressor (daí a alcunha de Tesouras). Mas não se assustem com a crueza, pois ela não dura nem um parágrafo. Tudo o mais é contado com a maior delicadeza por um dos rapazes – o pinga-amor mais querido da literatura que já encontrei – que, apaixonado por Rosário até ao osso, a vê encantar-se pelo amigo e usá-lo a ele apenas para chorar as suas mágoas ou mandar recadinhos (que são sempre dados). Claro que nem tudo acaba bem (droga é droga e o mundo da droga impiedoso), mas o romance não dá um único solavanco e o leitor não tropeça em nada do princípio ao fim senão num amor sincero e incondicional que todos gostávamos que alguém tivesse por nós.