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A mostrar mensagens de abril, 2011

O que passa e o que fica

A Ática publicou recentemente a Antologia de Poemas Portugueses Modernos, organizada por Fernando Pessoa e António Botto em fascículos no ano de 1929, agora prefaciada pelo poeta Eduardo Pitta. Não se estranhe, porém, a inclusão de poesias de alguns dos heterónimos de Pessoa, uma vez que foi Botto, já depois da morte daquele, quem terminou a antologia que viria a ser publicada em forma de livro em 1944. Mas o que é curioso numa obra como esta – para lá do lado pedagógico apontado pelo prefaciador – é verificar que uma boa parte do que ambos os poetas consideravam moderno não chegou até nós; e, embora até hoje se leiam autores como Pascoaes, Camilo Pessanha, Cesário Verde, Guerra Junqueiro ou António Nobre (os dois últimos menos), muitos dos nomes constantes da antologia foram pura e simplesmente esquecidos (António Molarinho, Fausto Guedes Teixeira...) e outros arrumados na categoria de poetas menores, como Júlio Dantas, Afonso Lopes Vieira e Augusto Gil – que ainda faziam parte dos meus livros de leitura da velha instrução primária, mas de que recordo sobretudo poemas muito fáceis de decorar para as festas da escola, como “Balada da Neve” (Batem leve, levemente, / Como quem chama por mim. / Será Chuva? Será Gente? / Gente não é certamente / E a chuva não bate assim.). Quantos, pois, dos poetas do presente serão lembrados e lidos daqui a cinquenta anos?

Destinos infernais

As agências de viagens vendem férias em muitos paraísos de águas transparentes e recifes de coral, com praias de areias brancas e finas e um sol maravilhoso sempre suspenso de um céu sem nuvens. Mas estes paraísos têm o seu reverso. Há muitos anos, decidi ir passar férias aos míticos mares do Sul e aborreci-me terrivelmente com o mau serviço e o pouco que havia para ver e fazer. E a paisagem natural, embora absolutamente luxuriante e bela, estava vista ao fim de três dias e já não consolava. Sobre umas férias assim, tem David Lodge um romance fenomenal em tom de comédia que se intitula Notícias do Paraíso e mostra bem o inferno em que se podem transformar viagens a destinos ditos de sonho. Mestre da sátira, o escritor britânico não poupa os tansos, como eu, que andam milhares de milhas de avião para sofrerem uma das suas maiores desilusões de sempre...

Vida e obra

O ser humano é, por natureza, curioso e acontece frequentemente, numa entrevista a um escritor, inquirir-se sobre a natureza autobiográfica da sua obra. Não interessa muito, na verdade, se o que lemos tem que ver com a vida do autor – e sabermos isso não muda muito o que sentimos com a leitura. No tempo em que eu era estudante universitária, caía-se até no exagero de não permitir uma análise da obra que recorresse à biografia do escritor, valorizando-se as interpretações formais e olhando-se o texto como entidade independente do seu criador. Mesmo assim, tenho a certeza de que, se Melville não tivesse trabalhado a bordo de uma baleeira, não teria escrito Moby Dick; que Primo Levi, não tendo passado o que passou em Auschwitz, nunca teria produzido uma obra como Se Isto É Um Homem; e ainda que o Dom Quixote – que é provavelmente o primeiro romance moderno – nunca seria o que é se Cervantes não tivesse tido a vida aventurosa que teve e que vale a pena conhecer em pormenor. Percebo que a obra não tenha de ser vista apenas como um reflexo da vida, mas, na maioria dos casos, se a vida não tivesse sido fascinante, ou horrível, os livros teriam sido seguramente diferentes.

Nada é por acaso

Embora muita gente escreva e publique livros, continuo a pensar que o talento é a excepção, e não a regra. E, apesar de nem todos os livros que publico serem de autores inegavelmente talentosos, o que procuro é a excepção, o texto que há-de, como dizia o editor Michael Krüger de quem falei há dias, sobreviver ao autor. Hoje lemos ainda Kafka e Pessoa – que, na sua época, estavam talvez demasiado à frente para poderem ser entendidos... Mas também há os que publicam livros e estão, de certo modo, atrás do seu tempo. Contaram-me há uns dias que uma apresentadora de televisão com romances publicados perguntou a um senhor no seu programa qual era a capital da China. Quando este lhe respondeu Hong Kong (o que já de si é grave), ela afirmou logo a seguir: «Eu disse China, não disse Japão!» Foi, porém, na televisão que ouvi uma frase que só podia vir de um escritor. Numa série de documentários que a Maria João Guardão filmou em África, um deles foi dedicado ao meu autor-ministro caboverdiano Mário Lúcio Sousa, a quem pediram que regressasse à casa do Tarrafal onde tinha nascido. Chegando lá, reparou que esta se encontrava de novo ocupada e disse: «Ainda bem: uma casa de porta fechada é a morte de véspera.» Não se é escritor por acaso.

A memória não se apaga

A pequena depressão

Confesso que ando um bocado deprimida com a situação que atravessamos. Custa-me que tenhamos o FMI portas adentro (presumivelmente por dez anos, o que é uma vergonha) e que tenha sido possível chegarmos a este ponto. E custou-me que um capitão de Abril dissesse numa entrevista que, se soubesse que o futuro era assim, não teria lutado pela democracia. Não sei exactamente o que falhou, mas tenho a convicção de que, entre outras coisas, os responsáveis pela educação não aproveitaram a liberdade senão para, de cada vez que mudava o partido do Governo, fazer tábua rasa de tudo o que os seus oponentes haviam feito, bem ou mal. E que, por isso, há gerações que fizeram quase toda a escolaridade num caos de mudanças que em nada contribuiu para que se lesse e escrevesse melhor em Portugal. Quando ouço alguns políticos falarem, pergunto-me se já terão lido um livro inteiro, de tal forma é pobre o seu discurso. Uma vez, no Dia Mundial do Livro, entrevistaram num programa de rádio vários políticos, inquirindo-os sobre o último livro que tinham lido. Muitos responderam Os Maias – e fiquei a pensar se ainda teria sido na Escola Secundária... Como dizia Padre António Vieira: «Quem não lê, não quer saber; quem não quer saber, quer errar.»

O organismo vivo

Conhecem-se mal os editores de outros países, mas muitos têm fama internacional e construíram catálogos e editoras que fizeram ou estão a fazer história. Embora nunca tenha tido grandes relações com editores de língua alemã, sempre ouvi falar de Michael Krüger, poeta, romancista e editor da Hanser, uma das editoras mais literárias em toda a Europa. Num dos seus poemas, sobre a memória, Krüger diz: «Às vezes, a infância manda-me postais.» Recentemente, li uma entrevista sua e fiquei tocada por este verso e muito do que ali afirmava. Entre outras coisas, que o texto tem vida própria, na medida em que pode ser lido de formas completamente distintas por gente culta, inteligente, burra e ignorante, e pelo facto de os livros durarem para além da vida do autor, com o qual se relacionam apenas porque o seu nome figura na capa. Acrescenta que, como organismos vivos que são, não podemos deixá-los morrer – e que os editores são os únicos que podem velar pela sua vida depois da morte do autor. Mais adiante, depois de confessar nunca publicar um livro com o qual nada aprenda, remata: «A vida de um ser humano é demasiado curta e, por isso, devíamos ler os bons livros que existem.» Confesso que às vezes sinto o mesmo.

Humilhação

Humilhação é o título do último livro de Philip Roth publicado em Portugal (na verdade, o seu penúltimo e trigésimo livro). Ainda não o li, mas, do que conheço da obra do autor e de tudo aquilo que li na imprensa e na Internet sobre o romance, não hesito em aconselhá-lo sem reservas. Depois de cinquenta anos a escrever e com 78 anos feitos, Roth – que confessou numa entrevista que agora prefere escrever a marchar como forma de luta – já merecia o Nobel, a par de outros grandes da literatura internacional, como Kundera, que acaba de ver a sua obra publicada na prestigiada Pléiade (e é também um feroz candidato). Repare-se, porém, que, apesar de trinta e um livros publicados, o grande senhor norte-americano não começou demasiado cedo, deixando-se amadurecer antes de se estrear, o que é um óptimo conselho contra a pressa de muitos principiantes que, ainda na Escola Secundária, já enviam livros às editoras. Só não lhes dizemos «Cresça e apareça» porque seria mesmo uma humilhação...

Livros-negócio

A edição tem, como qualquer outro negócio, um lado oportunista. Ouvem-se os factos do tempo, ausculta-se a temperatura dos desejos e produzem-se livros que se crêem necessários ou oportunos – e darão muito dinheiro a ganhar a quem os publica. Foi assim com tudo o que foi saindo sobre os dramas da Casa Pia, com o livro póstumo de António Feio e com muitos outros sobre temas escaldantes num determinado período. Li recentemente que a escritora J. K. Rowling, autora do famosíssimo Harry Potter, se prepara agora para «ajudar» os pais de Maddie na redacção de uma obra, cujas vendas contribuirão para procurar a menina desaparecida. Não consigo descortinar, porém, quem mais lucrará com isso – se a escritora, que há-de fazer vender milhares de livros e não creio que ofereça a totalidade dos seus direitos, se os pais, que têm nela um nome suficientemente forte e mediático para garantir receitas espectaculares, agora que, ao que parece, se lhes acabou o fundo que tinham para tentar encontrar a filha. O que sei é que o assunto está longe de se ter esgotado e o livro vai ser certamente um grande sucesso no Reino Unido… e em toda a parte.

Boas ideias

Num ano de crise, em que não podemos simplesmente comprar todos os livros que gostaríamos de ler, aí está uma belíssima ideia conjunta da Assírio & Alvim e da FNAC para nos pôr a par da poesia de um ano inteiro. Chama-se Resumo – A Poesia em 2010 e o título é elucidativo. Trata-se de um apanhado dos livros e autores publicados no ano passado, dos quais são escolhidos por quatro poetas – José Alberto Oliveira, José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Queirós e Manuel de Freitas – alguns poemas que nos fazem crescer água na boca e nos consolam se não pudermos ler a obra inteira. Por outro lado, nem sempre é fácil encontrar nas livrarias volumes e revistas de poesia, sobretudo quando as editoras são pequeninas, e esta é uma forma simpática de chegarmos a poetas que se calhar não leríamos nunca. Além disso, as receitas deste Resumo revertem para uma ONG, o que é ainda melhor. E mais: a empresa promete repetir-se anualmente. Parabéns, pois, pela excelente lembrança.

O meu salário

O que existe de mais positivo em ter um blogue como este é o estímulo que os comentários acabam por trazer, criando ideias para um sem-número de posts quando andamos com falta de imaginação ou agarrados ao mesmo livro há demasiado tempo para podermos falar de vários. Na semana passada, houve alguém que escreveu num comentário uma frase muito curiosa sobre o meu ordenado, dizendo que ele era provavelmente pago pelos livros que, para abreviar, eu não gosto de ler nem publicar. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Para começar, à excepção das estrelas televisivas, não se pense que a ficção comercial é rendimento garantido. Claro que os autores de renome internacional, que já venderam milhões de exemplares nos seus países, têm a vida facilitada e se tornam quase sempre best sellers. Mas, muitas vezes, isso não é verdade – e o marketing precisa de embrulhar os livros com lacinhos vermelhos ou metê-los em caixas em forma de coração (deixem-me exagerar) para transformar um título num sucesso de vendas; muitos dos que vão despidos para a loja não têm a sorte de vender mais do que a chamada literatura séria e vendem de certeza menos do que qualquer Booker Prize... E também há autores literários que se vendem muito, como é desde logo o caso de Saramago (com tiragens de cem mil exemplares) e de alguns outros que, não conseguindo os recordes dos autores mais mediáticos, contribuem fantasticamente para as receitas que pagam, entre outras coisas, o meu ordenado. Além disso, no grupo em que eu trabalho há imensos editores – mais do que um por cada chancela – e, se me convidaram há cerca de um ano para me juntar a essa equipa, foi certamente pelo que fiz até então, e não para fazer o contrário.

Falta de fé

Um dos leitores deste blogue acusou-me um dia destes de falta de fé no estado actual da educação portuguesa. Fez-me ver que, sendo mais velho do que eu, acreditava, pelo contrário, que as novas gerações estavam francamente mais preparadas cultural e intelectualmente. Não posso negar que, ao longo destes vinte e tal anos que trabalhei, fui tendo colaboradores jovens que, a cada ano, chegavam menos cultos e interessados – e daí, quiçá, a minha falta de fé. Mas, como em tudo, há excepções e já aqui elogiei algumas pessoas que trabalham ou trabalharam comigo e que contrariam a minha desconfiança – e não as considero sequer aberrações. Pelo facto de me dedicar acima de tudo à publicação de jovens autores, sinto, aliás, que bem podiam dispensar-me da acusação de falta de crédito nas novas gerações. Entre os editores activos, sou dos poucos que se dão ao trabalho de ler cem originais para, como agulha em palheiro, encontrar aquele que faz a diferença (e podem, mais uma vez, atirar-me com a questão do gosto, que nem me importo muito, pois quem premeia em Portugal e quer traduzir noutros países tem um gosto, pelos vistos, semelhante ao meu). Sei, obviamente, que há muito mais jovens brilhantes hoje do que noutros tempos, mas também sei que muitos deles estudaram lá fora ou foram trabalhar para o estrangeiro assim que terminaram os cursos. Respeito muito os bons professores, entre os quais talvez se encontre esse meu leitor, mas ainda vão ser precisos muitos anos para me convencer de que foi apenas a escola – e sobretudo a portuguesa – que preparou os melhores.

Subsídios outra vez

Prometi voltar à polémica que surgiu depois de ter escrito um post no qual referi que os escritores poderiam beneficiar dos mesmos apoios que têm os cineastas, as exposições de pintura e os concertos. Não queria, porém, dizer que esses apoios se deviam traduzir no pagamento de um ordenado fixo, suportado – como alguém disse – pelos contribuintes. Não me parece, mesmo assim, que um escritor seja menos artista do que um músico – e a verdade é que sempre que um músico é convidado lhe pagam um cachet, mas o escritor, quando muito, tem direito a gasolina e alimentação. Alguém avançou também que os escritores são frequentemente culpados da sua situação, porque, em lugar de se aproximarem dos leitores, afastam-se deles escrevendo coisas difíceis. A questão é muito relativa, porque nem todos os leitores têm, perante as obras, a mesma dificuldade e, por outro lado, porque há literatura de grande qualidade que não é nada difícil e não deixa de ser literatura por causa disso (estou convencida de que qualquer pessoa leria com prazer e sem esforço A Tia Júlia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa – e o autor ganhou o Nobel da Literatura). Por outro lado, se quisermos agarrar-nos a essa coisa da dificuldade, teremos de deixar de subsidiar a ópera, algumas companhias de teatro e a dança contemporânea, só porque o seu público é minoritário, e patrocinar, no seu lugar, as telenovelas, o cinema de massas e os espectáculos de música pimba? Não me parece. Acho que todos devemos contribuir para que as populações possam de facto ascender culturalmente, e não para que fiquem eternamente emparvecidas ao ponto de um dia meia dúzia de iluminados as dominarem como, aliás, já aconteceu noutros tempos em Portugal. E, se os bancos, por exemplo, patrocinam tanta coisa, não poderiam uma vez por outra distinguir um autor com uma bolsa que lhe permitisse escrever durante dois ou três meses sem ter de pensar como vai pôr o jantar na mesa? Em muitos outros países, ditos civilizados, é isto que acontece – e nós, leitores, agradecemos. O autor do livro As Horas, por exemplo, pôde beneficiar de um destes programas e vive num país onde certamente o número de livros que vende daria para muito mais do que para sobreviver.

As palavras de Lídia

Estive recentemente numa apresentação do último romance de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras, que ainda não li mas a que espero poder lançar a mão em breve. No pequeno debate que se seguiu, uma senhora referiu que os livros da escritora não raro reflectem problemáticas do nosso tempo e da nossa geografia e que é isso que os torna excepcionalmente ricos e interessantes (e Lídia, embora sem perder a habitual modéstia, pareceu concordar). Francamente, tenho dúvidas de que seja esse o motivo da riqueza literária da sua obra e, de algum modo, também duvido de que, para se fazer melhor literatura, tenha o escritor de trazer para o que escreve os dramas do presente. António José Saraiva, creio que no seu ensaio Iniciação à Literatura Portuguesa, diz que não se pode pedir ao escritor que se envolva (senão como cidadão) nos problemas sociais e políticos do seu tempo, advogando, em vez disso, que é escrevendo que cumpre a sua obrigação para com a vida. Ora, embora Lídia Jorge reflicta frequentemente sobre questões de natureza política e social nos seus romances, não é isso que faz dela a excelente escritora que é; pois temos imensa gente a dedicar-se às mesmas questões que não seria capaz de produzir a literatura intensa que nos dá. Disse a romancista na mesma sessão que o material do escritor – as palavras – é o mesmo de que toda a gente dispõe; e que devia haver uma maquineta, como as que contam os batimentos cardíacos ao longo de um dia, que registasse a quantidade de palavras que todos os seres humanos pensam (mas não dizem) pois estas seriam seguramente belíssimas. O escritor – notou então – só se distingue desses seres humanos porque não tem pudor de partilhar essas palavras que não diz. Mais uma vez, acho que foi modesta e que, se houvesse realmente a tal maquineta, Lídia Jorge podia facilmente mudar de opinião...

Sem comentários

Nasci num tempo em que não havia liberdade de expressão e fiz, ainda adolescente, muitas perguntas que não tiveram resposta. Era perigoso falar-se de certas coisas, mais ainda a alguém sem maturidade suficiente para compreender o secretismo das matérias ou as consequências de partilhar ingenuamente assuntos controversos. Talvez por isso, quando iniciei este blogue, tenha decidido não fazer moderação de comentários (e também, não vale a pena negar, porque o meu trabalho quotidiano não me concederia tempo para escolher e publicar apenas os que tivessem realmente interesse para a discussão). Esta possibilidade que ofereci aos leitores encarei-a desde sempre como uma homenagem minha, por pequena que fosse, à liberdade de expressão – e é assim também que a vejo aberta noutros blogues, jornais online e sites de Internet. Às vezes, porém, penso que certas pessoas, quase sempre descompensadas, tomam esta abertura como, desculpem, um autêntico escarrador, no qual depositam, implacavelmente, o pus e o sangue das suas feridas por sarar. Quando foi, por exemplo, noticiada a promulgação da lei do casamento homossexual, os comentários na página de um jornal diário que consultei eram de tal forma alarves e ofensivos que dificilmente acreditei que pessoas como aquelas pudessem ler jornais. Mas também aqui no blogue, por duas vezes, a coisa desceu tão baixo que considerei a hipótese de alterar as regras, sobretudo porque os comentários não eram a nada do que escrevi, mas a pessoas que referi nos meus textos e não se podiam defender - e, o que é pior, assinados de forma impossível de identificar. Porque será que quem se sente no direito de espezinhar alguém de forma gratuita raramente tem coragem para assumir a sua identidade? Agradeço muito, pelo contrário, aos que me desafiam todos os dias, aos que estão contra mim e mo dizem, escrevendo com todas as letras quem são.

Verdade ou consequência

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Logo mais à tarde, estarei no lançamento do romance Deixem Falar as Pedras,  com apresentação de Mário de Carvalho, de quem gosto muito como escritor e como pessoa. Já aqui vos contei como este livro de David Machado me veio parar às mãos por causa de uma entrevista que dei ao Carlos Vaz Marques. Digamos, pois, que o Pessoal e Transmissível funcionou desta feita como uma espécie de lâmpada de Aladino e que um dos meus três desejos (nenhum era um ovo Kinder, sosseguem) foi realizado. Agora, que o livro está aí nas livrarias, tenho a certeza de que muitos leitores confirmarão que estava certa ao desejar ter David Machado entre os autores que publico. Numa história que é não exactamente sobre o que se passou, mas sobre o que se diz que aconteceu, fica a verdade que cada um quiser para si e as consequências que daí advenham. Entre um neto dos nossos tempos (com os obrigatórios piercings e os Metallica sempre à beira do ouvido) e um avô da época da ditadura às voltas com um casamento que não chegou a realizar-se, este romance atravessa a nossa história recente e constitui um delírio de imaginação que desafia o leitor a concluir que nunca existe uma só verdade e que as consequências são insondáveis.



 

Menos por menos dá mais

Não fui grande aluna a Matemática, embora muitos anos mais tarde, com o trabalho editorial desenvolvido na Gradiva que, na altura, se dedicava sobretudo aos livros de divulgação científica, tenha descoberto como esta pode ser uma disciplina realmente fascinante e me tenha arrependido de não ter trabalhado o suficiente durante a adolescência para consolidar as bases que me permitissem ir mais longe sem o apoio de um professor. E, mesmo assim, tenho ainda na cabeça as tabuadas de 1 a 9, a regra de três simples e muitos truques e atalhos, como, por exemplo, o que dá título a este post, aprendido quiçá no momento em que me iniciava no estudo das equações. Menos por Menos é, porém, neste caso, o título da mais recente colectânea de poemas de Pedro Mexia – e chamo-lhe colectânea porque reúne cem poemas escolhidos pelo autor dos seus seis livros publicados anteriormente. E – mesmo sabendo que vai aparecer quem diga que estou a dar graxa a um crítico do Expresso e que é só por isso que lhe dedico um post inteirinho – estou-me nas tintas. Porque este Menos por Menos dá mais:  dá uma visão rápida do talento de um grande nome da poesia portuguesa contemporânea e dá horas extraordinárias de leitura. Além de que, com a falência da Difel, que tinha a chancela da Gótica, este volume será praticamente a única poesia de Pedro Mexia hoje disponível…

Polémicas

Há uns dias publiquei aqui um texto intitulado «Ser escritor», no qual utilizei a expressão «verdadeiro escritor» referindo-me aos que escrevem literatura, por oposição àqueles que escrevem outro tipo de ficção mais comercial; e «verdadeiro leitor», referindo-me aos que lêem literatura, e não essa outra ficção. As minhas afirmações geraram polémica – o que é sempre gratificante, até porque um blogue que não provoca comentários parece-me apenas um espelho infeliz ou uma parede nua na qual ressoa a nossa própria voz. Houve quem atacasse alguns autores literários por serem difíceis, quem dissesse que é legítimo procurar na leitura apenas diversão, quem sugerisse que a questão do gosto não é estranha às classificações e quem alvitrasse que cada um tem direito ao seu cânone. Muito bem. E, porém, há um Cânone estabelecido pela Academia, que se sobrepõe inevitavelmente aos nossos cânones pessoais e dita, entre outras coisas, que escritores podem ganhar o Nobel da Literatura e, mais importante, quais passarão o teste do tempo. Não é crível que, por mais competente que seja na sua área, Dan Brown alguma vez possa ser indicado para o Nobel ou os seus livros sejam objecto de análise textual em revistas académicas de crítica literária. E que, daqui a cinquenta anos, ainda se reeditem os seus livros, pois haverá seguramente muitos autores a escreverem livros afins provavelmente mais actuais. Para entrar nesse Cânone maior, parece-me que se tem de fazer o novo com o velho, que, com o material de que toda a gente dispõe desde que é alfabetizada, alguns conseguem ainda o milagre da originalidade, enquanto outros se limitam a replicar o que já foi feito. Era aos primeiros que chamava «verdadeiros escritores». Quanto à questão do prazer e do entretenimento, quero ainda dizer que a mim a literatura – alguma dela difícil, como foi referido, mas não necessariamente (Dickens é difícil?) – entretém-me bastante, e dá-me mais prazer ler um texto que me proporcione uma leitura activa e me deixe a pensar muito para lá de terminado o livro do que outro que, por bem construído que esteja, não deixe nada cá dentro. Sobre as outras questões levantadas e a merecerem o meu comentário alongado, deixá-las-ei para outra oportunidade.

Representações

Trabalhei nove anos na Gradiva com o editor Guilherme Valente, um senhor algo distraído que um dia trouxe, de uma reunião na APEL, um sobretudo que não era o seu e, quando entrou no elevador de sua casa e se viu ao espelho, concluiu apenas que já não gostava de se ver com ele como antes... Enfim, Guilherme Valente começou a sua carreira na Europa-América. Estava eu na Gradiva ainda há relativamente pouco tempo, mandou-me em sua representação a um importante almoço no Hotel Ritz com editores e agentes estrangeiros, incluindo estrelas como Antoine Gallimard. Fiquei sentada em frente de Francisco Lyon de Castro (nesse tempo o editor da Europa- América). Quando me estava a sentar, achando-me provavelmente demasiado nova para merecer um lugar entre os craques da edição, perguntou quem eu era. Quando lhe expliquei que estava ali «em representação do Guilherme Valente» e que trabalhava na Gradiva, retorquiu apenas: «Ah, sim? O seu patrão foi meu empregado.» Enfim, gente educadíssima… Por seu turno, Eduardo Lourenço, quando, no acto inaugural das Correntes d’Escritas, foi chamado para a mesa do presidente da Câmara em representação dos escritores, disse aos presentes: «Pois se eu às vezes já nem me represento bem a mim próprio, como é que posso representar os escritores todos?»

Ser escritor

Não se é escritor porque se quer, mas porque se pode. E, porém, há imensos livros que se publicam de pessoas que decidem que a pele de escritor lhes serve às mil maravilhas – e até se vendem muito bem porque, infelizmente, nem toda a gente que aprende a juntar as letras sabe ler. Os verdadeiros leitores, como os verdadeiros escritores, serão sempre uma minoria – e a literatura séria está, com o tempo, condenada a ocupar uma pequena parcela das prateleiras das livrarias, onde hão-de proliferar muitos outros géneros de mais fácil assimilação. É uma pena que não se financie um escritor com provas dadas, como tantas vezes se apoia outro tipo de artista (o cinema é frequentemente subsidiado e os espectáculos e exposições quase sempre têm patrocínios). Os direitos de autor – em média 10% do preço de venda ao público do livro (sem contar com o IVA) – nunca poderão pagar as horas de escrita e reescrita de um romance. Noutros países, existem bolsas ou residências literárias que dão uma ajuda, fomentando a criatividade. Em Portugal, os autores ou têm outro emprego (o que nem é tão mau como pensam) ou vivem miseravelmente. Se escreverem um romance de duzentas páginas por ano (e já é muito) e venderem três mil exemplares (e tomáramos nós que todos os vendessem), receberão menos de quinhentos euros por mês, ou seja, o ordenado mínimo. Num país sem massa crítica como o nosso, quase poderíamos dizer que os escritores são uma espécie de empregadas domésticas intelectuais.