Mensagens

A mostrar mensagens de dezembro, 2012

Bom Natal

Neste dia em que andará tudo atarefadíssimo nas compras (baratinhas, bem sei, que isto não está para mais) e nos cozinhados, quero desejar a todos os leitores deste blogue um feliz Natal em companhia dos que amam e umas boas entradas em 2013. Sim, perceberam bem: esta semana vou estar de férias e só volto ao Horas Extraordinárias no dia 2 de Janeiro. Vai ser difícil passar sem os meus leitores tanto tempo, bem sei, mas espero revê-los aqui em breve. Tudo de bom!

Pessoa para pessoano

Foi, recentemente, anunciado mais um Prémio Pessoa (que, no ano passado, calhou a Eduardo Lourenço – uma personalidade tão óbvia para o receber desde a primeira hora que, provavelmente por isso mesmo, passou despercebida e só então o pôde arrecadar). Este ano, porém, a escolha teve, entre outras coisas, muita graça, porque o galardão acabou por ser entregue a alguém a quem cabe que nem uma luva, na medida em que um prémio chamado Pessoa é perfeito para um pessoano. Parabéns, pois, a Richard Zenith, um norte-americano que há muito se dedica a um dos nossos poetas maiores e muito tem feito não só para o traduzir, promover e divulgar nos países de língua inglesa, mas também para o apresentar exaustivamente aqui mesmo na nossa terra, onde é, aliás, responsável pela edição da obra magna (de Pessoa e heterónimos) na editora Assírio & Alvim.

Livros da vida

Frequentemente, em suplementos culturais e revistas literárias, perguntam aos escritores quais foram os livros da sua vida – pergunta incómoda, claro, porque os livros da vida mudam muito ao longo da vida, e um título que, na juventude, foi extremamente importante e enriquecedor pode perder relevância noutro momento em que já se acrescentaram leituras mais significativas. Há também uma certa tendência para, nestas situações, os escritores referirem monstros como a Bíblia ou clássicos inescapáveis como Dom Quixote de La Mancha; e até pode acontecer mencionarem alguns livros só para mostrar que os leram, como o Ulisses de Joyce ou Em busca do Tempo Perdido, de Proust, os exemplos que mais frequentemente aparecem nessas listas. Numa entrevista ao vivo a Lobo Antunes, de que já aqui falei um dia destes, o jornalista Carlos Vaz Marques pediu ao escritor que partilhasse com o público os títulos de três livros da sua vida; ele sorriu sem fingimentos e contou que o mesmo pedido fora feito um dia a Oscar Wilde que, com a sua graça inigualável, terá respondido: Como posso avançar três livros, se ainda só escrevi dois? Os livros da vida de um escritor não serão, acima de tudo, os que escreveu?

Conselhos aos jovens

Cá em Portugal, não conheço muitos escritores consagrados que queiram travar conhecimento com os que se estreiam nas letras e aconselhá-los sobre procedimentos a adoptar na carreira ou avisá-los das contrariedades e desilusões que os esperam. É bem possível que se juntem nas feiras do livro no stand da editora (se a partilharem, claro) e até conversem sobre literatura, mas, francamente, nunca nenhum dos novos autores que publiquei me contou nada de memorável a este respeito. Recentemente, porém, um escritor norte-americano que publicou o seu primeiro romance contou numa entrevista que conhecera Philip Roth num café (pareceu-me até que provocara esse encontro só para ter o supremo gozo de oferecer o seu livro ao mestre que tanto admirava) e que este (mesmo sem ter lido uma linha da obra) o terá imediatamente dissuadido de escrever, explicando que a actividade implicaria um grande sofrimento porque o desejo de se superar a cada novo livro nunca o abandonaria e poderia até dar origem a momentos de decepção e fracasso insuportáveis. Disse-lhe que parasse enquanto pudesse (ao que o jovem respondeu que, infelizmente, era demasiado tarde). Por razões bem distintas, Diderot também aconselhou um jovem poeta a deixar de escrever. Depois de ler os poemas que o rapaz lhe pedira que avaliasse, confessou-lhe que não só eram maus como mostravam claramente que o seu autor nunca escreveria nada de bom – e que, nessa medida, seria mais prudente dedicar-se desde logo a outra coisa. Às vezes, de facto, é bem melhor não pedir opiniões...

Preconceitos

Toda a gente sabe que a melhor forma de difundir uma ideia, um produto, seja o que for, é pela televisão, que está acesa todos os dias em casa de milhões de pessoas. Mas, curiosamente, mesmo os autores que ajudam muito a promover os respectivos livros, quando são convidados para participar em programas ditos populares, desses que preenchem as manhãs ou as tardes dos desocupados, raramente aceitam, crentes talvez de que a sua imagem – e os seus livros – nada têm a ganhar com o sacrifício, até porque a grande maioria dos que vêem televisão a essas horas são provavelmente os que têm menos hábitos de leitura de todo o País. Curiosamente, fui há uns quinze anos ao Porto participar no Praça da Alegria, nessa altura apresentado ainda por Manuel Luís Goucha. E não só nunca fui tão bem tratada em televisão, como me dei conta de que toda a equipa era de um profissionalismo difícil de igualar (lembro-me, por exemplo, de que o apresentador telefonou à minha mãe uns dias antes de eu ir ao programa – e não fui eu que lhe dei o número – e perguntou tudo sobre a minha relação com os livros desde pequena para poder sustentar a conversa sem hesitações ou lapsos desnecessários). Pouco antes, tinha ido a um outro programa, este mais intelectual, participar numa mesa-redonda sobre o imaginário infantil; e o conhecido jornalista que o conduzia, uns minutos antes de começar a emissão, andou a perguntar os nomes dos intervenientes, como se não tivesse sido ele a convidar-nos (e se calhar não foi). Sei que os programas popularuchos têm hoje em todo o mundo um nível bastante baixo, mas, com o desaparecimento anunciado de outros mais interessantes em termos culturais, não será tempo de pôr os preconceitos de lado? Isto para quem está interessado em ser conhecido, claro, porque também há os eremitas e os que cultivam uma certa distância, e estão no seu pleno direito.

Portugal é nosso

A minha mãe conta que, quando a minha irmã era pequena – uns seis anos, se tanto –, iam as duas de metro para a Baixa quando, já perto da estação do Rossio, onde saíam, a terá avisado: «Agora é a nossa.» Mas, porque se estava numa época terrível e o salazarismo espalhava mensagens que todos ouviam (alguns sem perceber sequer o que implicavam), a miúda terá ouvido mal e repetido num tom de cantilena, para vergonha da minha mãe e consternação dos passageiros: «Angola é nossa! Angola é nossa!» Pois bem, o mundo mudou imenso desde então, e ainda bem, mas também não era preciso os factores inverterem-se… Não só a filha do Presidente Eduardo dos Santos detém importantes participações em bancos (BPI e Millenium BCP) e empresas portuguesas (a Galp ou a Zon), mas também consta que a RTP vai ser vendida a gente de Angola (e a dispensa do jornalista Pedro Rosa Mendes na sequência de uma crítica à subserviência da RTP a Angola já pode ter tido que ver com isso); o jornal Sol é de um grupo angolano, o mesmo se prevendo relativamente aos órgãos de comunicação social detidos actualmente pela Controlinveste, entre os quais se contam a TSF, o DN, o JN e alguns jornais desportivos – o que, a ser verdade, vai obrigar os que ali trabalham a pensar duas vezes antes de falar do país donde vieram milhares de portugueses em 1975. A Tinta-da-China, editora do livro Diamantes de Sangue – Tortura e Corrupção em Angola, do jornalista Rafael Marques – angolano, pois claro –, acaba de ser constituída arguida num processo instaurado em Portugal contra o autor por um grupo de generais que são acusados no livro e foram também objecto de uma queixa-crime de Rafael Marques em Angola pelas práticas de tortura e morte ocorridas nas minas de diamantes das Lundas (e arquivado entretanto  por falta de provas). A liberdade que conquistámos, que entre outras coisas serviu para libertar Angola do nosso jugo imperial, parece estranhamente estar a conduzir a uma situação de medo e subserviência que não é nada boa. Qualquer dia é Angola a dizer: Portugal é nosso...

Editores em livro

Em vários países do mundo – desde logo nos Estados Unidos, mas também na vizinha Espanha – é relativamente comum os editores, chegados a determinada idade, publicarem as suas memórias, às quais não são obviamente estranhas histórias e anedotas sobre a sua relação com os autores que publicaram, o que, diga-se de passagem, apimenta a obra e gera interesse suplementar. Menos comum é a publicação de biografias de editores por mão alheia, mesmo dos célebres e mortos, embora haja casos de grandes figuras retratadas por terceiros, com base em aturada investigação e conversa com quem as conheceu pessoalmente. Em Portugal, porém, temos muito pouca coisa disponível sobre as pessoas que fizeram a história da edição, mas agora, pelo que sei, a situação vai mudar. Os Booktailors, que publicam ocasionalmente livros, inauguraram recentemente uma série exclusivamente dedicada aos editores portugueses que promete cobrir decididamente o vazio nesta matéria. Estreada com Fernando Guedes, o Decano da Edição Portuguesa, entrevistado pela jornalista Sara Figueiredo Costa, são de esperar em breve outros dois títulos na colecção, um sobre a editora do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes, e outro sobre o fundador da Teorema, Carlos da Veiga Ferreira. Tenho pena de que a ideia não tenha surgido nos anos 70 ou 80, pois perdemos definitivamente a oportunidade de aceder às histórias na primeira pessoa de editores como Lyon de Castro, Joaquim Magalhães, ou mesmo Snu Abecassis, que viveram tempos especiais em matéria de livros e partiram deste mundo sem os poderem partilhar connosco; mas estou feliz por ter à disposição o testemunho de Fernando Guedes – da Verbo, claro –, um editor multifacetado com uma história riquíssima, inclusive em termos internacionais.

Acordar melhor

Na sexta-feira passada, acordei com a notícia de que o governo do Brasil decidira adiar a obrigatoriedade do Acordo Ortográfico (AO) até, pelo menos, 2015. Sempre tive a impressão de que fora o Brasil a puxar pelo dito e nós a irmos atrás para não perdermos o comboio, que é como quem diz para não perdermos para eles, entre outras coisas, o mercado nos países africanos de língua portuguesa. Como sou contra muitas das alterações propostas pelo AO (e não vale a pena voltar a isso, porque já falei do assunto aqui bastantes vezes), fiquei aliviada por pensar que, se os brasileiros adiam, é porque perceberam provavelmente que o AO não é assim tão bom e quiçá, mais ano menos ano, o arrumam numa gaveta e o esquecem. Porém, nesse mesmo dia, ao regressar a casa com o rádio sintonizado na TSF, percebo, pela intervenção de alguém com mais informação do que eu, que no Brasil existe um projecto que responde pelo nome Acordar Melhor e que, ao contrário do que acreditei ingenuamente, é uma proposta para se ir ainda mais longe nas alterações, razão por que se sustém agora para planear direitinho (com sotaque brasileiro e tudo) e pôr cá fora lá para 2016 uma versão ainda com mais espinhos para pessoas como eu. Bem, já não se pode, pelos vistos, acordar bem, que vem logo a ameaça do Acordar Melhor para nos tirar de vez o sono…

Patenteado

Passo, como todos calculam, horas infindas a ler livros em bruto, versões que os autores entregaram ao editor cedo demais, nas quais transparece muitas vezes talento e imaginação, mas falta uma revisão atenta e crítica. Esses livros «embrionários» obrigam a mais do que uma leitura, a reflexão demorada, a uma procura de soluções para problemas específicos; e, quando tudo isso é processado, a propostas de alteração frequentemente profundas. Na maioria das vezes, tenho, porém, a sensação de que o autor, se fosse menos ansioso e apressado, acabaria por chegar sozinho às mesmas conclusões, poupando-me, claro, muitíssimo trabalho. António Lobo Antunes, numa entrevista ao vivo conduzida por Carlos Vaz Marques há uns dias numa sala do cinema S. Jorge (por ocasião dos 25 anos da revista Ler), disse que as primeiras versões dos livros lhe saíam relativamente bem e depressa, tendo até a mão dificuldade em acompanhar a rapidez do pensamento; mas era então que começava verdadeiramente o trabalho – ler, reler, rever, refazer, cortar, alterar – e era isso que demorava realmente meses; explicou ainda que era fundamental usar o «detector de merda» [sic] para tirar do «rascunho» tudo o que era excesso, gordura, porcaria. Não há, por acaso, ninguém que queira patentear um instrumento como este para me facilitar a vida?

Filmes de escritores

Bela ideia teve a RTP de propor a quatro escritores portugueses relativamente jovens, mas já com provas dadas, que escrevessem um guião para um telefilme. São autores com linguagens completamente distintas em matéria de literatura (três deles também poetas) mas da mesma geração: José Luís Peixoto, Pedro Mexia, Valter Hugo Mãe e João Tordo (este último, se não erro, é o único com experiência na área, uma vez que foi durante algum tempo guionista de uma produtora de cinema e televisão e assinou, a meias, o script de, pelo menos, uma longa-metragem). O primeiro dos telefilmes – Entre Mulheres, de Peixoto – é a história de uma viúva com um segredo difícil de confessar e foi transmitido na quinta-feira passada (embora haja uma operadora que permite a recuperação de todos os programas que passaram nos últimos sete dias e essa possa ser a forma de o ver, se por acaso o perdeu). Contudo, ainda vamos todos a tempo de assistir aos outros três para sabermos se os nossos escritores têm também talento para passar da palavra à acção. O próximo a ser exibido chama-se Bloqueio, é assinado por Pedro Mexia e passa já nesta quinta-feira à noite. Nas próximas duas semanas, serão exibidos Crónica de Uma Revolução Anunciada, de João Tordo, e A Morte dos Tolos, de Valter Hugo Mãe. A realização desta mini-série, intitulada Portugal Hoje, é de Henrique Oliveira. Para variar, ver em vez de ler.

Wanted, alive

Três dias antes de a extraordinária Isabel ter aqui expressado por escrito a sua preocupação com a falta de comparência de Cláudia da Silva Tomazi, que foi durante um largo período leitora e comentadora assídua deste blogue, escrevi um post (o que foi publicado no dia 1 de Dezembro) que tinha um post scriptum, entretanto apagado. Coincidência, telepatia ou outra coisa qualquer, a verdade é que esse P.S. era exactamente uma chamada de atenção para o vazio deixado pela brasileira, intempestivamente desaparecida. Não foi, é óbvio, a única que preferiu ir «pregar para outra freguesia»; lembro com facilidade outros nomes que foram muito constantes numa certa altura e depois quiçá desistiram de perder o seu tempo com as minhas bagatelas... Alguns até compreendo porquê, uma vez que chegaram ao blogue no mesmo mês em que me mandaram um livro que haviam escrito e o deixaram um ou dois dias depois de eu o ter recusado. Outros, também desconfio porquê, mesmo que já não os compreenda tão bem (mas é desconfiança que agora não vale a pena partilhar). Com a Cláudia, porém, estou completamente segura de que, se houve pedra no seu sapato, não fui eu que lá a pus – o mais provável é que os meus assuntos tenham deixado pura e simplesmente de lhe interessar. Tenho pena, porque um blogue nunca é feito apenas por quem deixa o post todas as manhãs; mas saber que ela está viva e de boa saúde comentando noutros locais da blogosfera já me aliviou. Pode ser que regresse, sobretudo se chegar a saber que sentimos tanto a sua falta… Em todo o caso, este post serve também para agradecer aos que o frequentam, comentem ou não, e sobretudo aos que se afeiçoam aos outros frequentadores, prova de que são de carne e osso e não olham apenas para o seu umbigo. Obrigada!

Belvedere

Delícia suprema é ler um escritor que, muito além de saber inventar uma boa intriga e de lhe dar o mais surpreendente desfecho, conhece e usa palavras estranhas e deliciosas, que precisam mesmo de que alguém as resgate do desuso para não fugirem dos dicionários nos próximos tempos (nestes em que vivemos, há uma pobreza nos discursos e nos escritos em geral que é de bradar aos céus). Estou a saborear Mário de Carvalho em duas novelas – O Varandim e Ocaso em Carvangel –, ambas no mesmo volume recentemente publicado (um 2 em 1 muito apropriado à época de poupança e falta de desafogo financeiro que atravessamos). E que felicidade é poder entrar assim, pela mão de um escritor que muito sabe e, ainda por cima, gosta de partilhar, na casa do senhor Zoltan, com dois filhos impossíveis e um sogro moribundo que ocupa demasiado espaço (até porque grunhe bastante), na qual um varandim quase esquecido (para o qual dão janelas que se encontravam entaipadas) se torna de um momento para o outro mirador privilegiado de fidalgos e matronas, decididos a não perder pitada de um castigo que o grão-duque, embora levemente contrariado, acabou por concordar em infligir a meia dúzia de anarquistas. Pobre homem sensato e discreto este senhor Zoltan, que é contra a pena de morte e o espectáculo do sadismo e com quem a sorte vai ser – pois claro – injusta, como seria de esperar da ironia de Mário de Carvalho, mestre na dita e noutros equipamentos literários para gáudio dos seus leitores. Agora, lambo os beiços, saciada, e guardo para amanhã Ocaso em Carvangel, sobre um jovem notário numa terra onde todos aguardam um navio (sei lá se virá), porque duas novelas tão boas num só dia podem habituar-me mal, e quem já leu o volume inteiro diz que esta segunda é ainda melhor. Em tempos de escassez, é bom conservarmos pelo menos um kit de sobrevivência para o dia seguinte.

De luto

Na semana passada chegou o anúncio oficial: o programa Câmara Clara, versão diária e versão semanal, tinha os dias contados – e esses dias acabam no fim do mês. Já havia zunzuns sobre o assunto, é verdade, sobretudo desde que a venda de um dos canais da RTP deu parangonas nos jornais e o ministro que comprou o curso na Farinha Amparo declarou que a RTP2 era um canal desinteressante para os investidores (para os quais, certamente, os números contam mais do que as letras). Antes disso, a TVI tinha acabado com os seus dois programas culturais, a Livraria Ideal e o Cartaz das Artes; e, assim, em menos de três meses, ficámos privados de qualquer espaço televisivo, público ou privado, que nos apresente livros, exposições, concertos e outras manifestações interessantes e, simultaneamente, nos traga uma vez por semana a voz e as ideias de escritores e artistas sempre prontos a ilustrar-nos e a acrescentar algo de útil à nossa bagagem. Um buraco negro, diria eu, que aceito cada vez pior que uma nação cuja população escolarizada cresceu exponencialmente desde que eu saí do liceu passe agora a cultivar-se televisivamente apenas à custa de concursos tolos com perguntas de escolha múltipla. Mas, bem vistas as coisas, vinda de quem vem, outra coisa não seria de esperar: pois se o primeiro-ministro sugere que emigrem os jovens licenciados (e, com a situação crítica que nos espera, é natural que volte a aumentar o abandono escolar, pois muitos terão de ajudar os pais desempregados), para que vão servir de facto programas culturais daqui a uns tempos? Estamos, pois, de luto. De luto carregado. E não o vamos poder aliviar tão cedo.

O futuro é sombrio

Andamos tristes lá em casa, o Manel um pouco menos do que eu, é certo, porque gosta mais da vida e, além disso, já era crescidinho quando o doutor Salazar caiu da cadeira e, como tal, o retrato que tem à frente é-lhe, de algum modo, familiar. Mesmo assim, às vezes damos connosco, à noite, a olhar um para o outro bastante macambúzios: à nossa porta (maneira de falar), há cada vez mais homens com fome – e não da que se mata com um prato de comida, que aí ainda poderíamos ajudar (embora a caridade não seja solução), mas da que só se sacia com um trabalho que não existe, independentemente de os braços terem força para tudo e vontade de fazer. E nós, no meio dessa tristeza, publicando livros. Pobres livros... Depois da ilusão do Natal (e já será para poucos, bem sei), quem vai realmente poder comprar livros, goste ou não de ler, quando as mangas dos casacos dos filhos ficarem curtas e os sapatos apertados, apesar dos pés pequenos? Quem cometerá a ousadia de ler um livro novo quando Janeiro se eriçar de frio e a conta da electricidade começar aos gritos de alarme? Quantos dos nossos amigos e conhecidos, muitos deles grandes leitores, gente dos jornais e das televisões, individual e colectivamente despedidos, começarão o ano de 2013 (o 13 do azar) desempregados, ainda para mais com a consciência de que, na sua idade, pode ser (des)ocupação para muitos anos, enquanto o subsídio de desemprego – esse, sim – tem os anos contados? E que será então dos tradutores e revisores, das pessoas que trabalham nas gráficas, nas livrarias e nas editoras? Que será de mim e do Manel, por exemplo, se aquilo em que trabalhámos toda a vida, além de não pôr comida no prato de ninguém, fizer de nós mais dois com fome (maneira de falar), iguais a esses que todos os dias se vão acrescentando à nossa porta? A preto e branco vejo o retrato do futuro próximo. O Manel, que já viveu a sépia, entristece-se menos, aconselha-me a preocupar-me apenas quando (e se) esta ceifeira moderna bater à nossa porta. Sim, ainda temos casa e porta, é um facto. Muitos já as perderam.

O feitiço da Índia

Publiquei recentemente um romance de Miguel Real com o título deste post, mas não é dele que pretendo falar aqui hoje. Há uns anos, quando estava na QuidNovi, comprámos os direitos de um romance (na verdade, tratava-se de um relato autobiográfico, e não exactamente de uma ficção, mas era «vendido» como romance) cujos direitos de adaptação ao cinema tinham sido adquiridos por uma grande produtora que prometia Johnny Depp no papel do protagonista (mas, que eu saiba, o projecto não foi avante). Ressuscitado agora por qualquer razão que desconheço, Shantaram, de Gregory David Roberts, voltou às livrarias com bastante destaque e tenho-o visto nas mãos de muitos leitores em esplanadas e salas de espera. Fazendo jus ao título de Miguel Real, este é o livro que define, efectivamente, o feitiço que a Índia exerce nos estrangeiros. O autor, um australiano em fuga de uma prisão de alta segurança depois de condenado pelos crimes de tráfico de armas, posse de droga e assalto à mão armada, viaja com um passaporte falso para Bombaim onde, depois de um encontro com um guia turístico, o inesquecível Prabaker, e muitas outras personagens que contribuem para o tal encanto da Índia, se torna um homem completamente diferente – generoso, altruísta, merecedor do nome Shantaram, que significa «homem de paz». Mas não se pense que o livro é uma dessas obras melosas de autoconhecimento ou armada em exemplo moralista para os leitores. Nele, a Índia é retratada no seu melhor e no seu pior, e não faltam descrições dos bairros miseráveis e nauseabundos de Bombaim, das ruas imundas cheias de cães esfomeados que atacam de noite, das aldeias de um atraso indizível onde se morre de fome mas as vacas engordam. Um relato realista, pungente e, às vezes, hilariante faz deste livro um autêntico feitiço, pois, quando se começa a ler, já não se consegue largar.

O que ando a ler

Nos últimos tempos, por uma coincidência inexplicável, li três romances que falam de gémeos, da questão do duplo e do problema da identidade. Nesses romances, os gémeos eram tão depressa do mesmo óvulo como de óvulos diferentes e, num deles, até havia gémeos de ambos os tipos. Dois desses livros eram, curiosamente, de autores brasileiros – e é de um deles que hoje falarei, o que tem por título Dois Rios e vem assinado por Tatiana Salem Levy, uma escritora de quem li há uns anos o magnífico A Chave de Casa. Desta feita, temos uma obra partida ao meio: de um lado, fala-nos Joana, do outro Antonio, gémeos que viveram juntos uma história secreta que nos é contada veladamente, na qual o pai morreu de enfarte, lançando uma sombra de culpa nos irmãos, e a mãe, mais ainda desde que enviuvou, sofre de um distúrbio psíquico que obrigou Joana a ficar com ela depois da partida intempestiva da sua metade masculina. Em ambas as partes, porém, está a irresistível Marie-Ange, uma francesa que entorta a boca quando expele o fumo do cigarro e que tem um dilema cuja resolução recairá ou em Joana, ou em Antonio, ambos loucamente apaixonados por ela e capazes de mudar as respectivas vidas por esse amor. Cada metade do livro é, pois, um rio, o rio por onde Maria-Ange desaparecerá da vista dos amantes num barco de pesca, deixando-os insuportavelmente sozinhos com as suas memórias. Engenhoso e algo transgressor, Dois Rios constrói-se numa sequência de pequenas narrativas na primeira pessoa, ora cruas, ora poéticas, e foi um dos romances finalistas do prémio PT no Brasil.