Bom Natal
Desejo a todos um óptimo Natal. Sentem-se a ler um livrinho por estes dias. É o que irei fazer também eu. Volto em 2016. Boas festas a todos!
Desejo a todos um óptimo Natal. Sentem-se a ler um livrinho por estes dias. É o que irei fazer também eu. Volto em 2016. Boas festas a todos!
Hoje em dia, os jornais em papel tornam-se frequentemente obsoletos; quando, a caminho do emprego, o rádio do carro dispara as notícias da manhã, já muitos dos textos publicados no Público que trago dentro do saco e acabei de comprar no quiosque da esquina estão ultrapassados, sobretudo se dizem respeito a países com grandes diferenças horárias em relação a Portugal. Claro que é sempre possível consultar a versão online e actualizar a informação – e foi, aliás, o que muita gente passou a fazer, razão pela qual cada vez se vendem cada vez menos exemplares dos jornais em papel. Deveria talvez ter-se apostado mais no jornalismo de investigação para o suporte papel – artigos de fundo escritos por pessoas interessantes que toda a gente quisesse ler; mas os tempos actuais têm outra velocidade e, pelo menos durante a semana, não é crível que alguém que trabalhe possa tirar tempo suficiente para dedicar à leitura de um texto desenvolvido sobre certa matéria. O resultado, porém, é triste: depois do anúncio de que o Diário de Notícias vai ter de vender o seu belo edifício na Avenida da Liberdade; depois da notícia de que os jornais Sol e i vão despedir grande parte do seu pessoal, agora vem a notícia de que o Público tem uma política de rescisões amigáveis que prevê cortes sérios no pessoal (repetindo, no fundo, o que já aconteceu há três anos). Um ano que acaba mal para o jornalismo.
Uma das coisas boas que há na edição independente é a capacidade de fazer coisas que num grupo grande passariam provavelmente despercebidas e não teriam da equipa comercial a atenção necessária. Digo isto a propósito de a Tinta-da-China ir publicar a obra completa de Fernando Assis Pacheco, o jornalista e escritor que morreu à porta de uma livraria (coisa que só lhe fica bem – digo-o sem ironia) e que, além de um poeta notável e mal conhecido, escreveu seguramente divertindo-se muito e contrariando assim a ideia de que os escritores são gente, em geral, muito deprimida. Ainda tive a felicidade de conhecer Assis Pacheco ao vivo nos anos em que dava os meus primeiros passos na edição no mesmo bairro onde ele morava, e sei que não havia televisão em sua casa, pelo que os seus filhos liam bastante. Era um homem culto, o oposto, portanto, do cowboy analfabeto que retrata em Bronco, Angel, primeiro volume da obra completa, saído recentemente para os escaparates; um livro que colige os «fascículos» que escreveu semanalmente para o jornal satírico Bisnau nos anos 1980 com o criativo pseudónimo de William Faulkingway. Humorístico, claro, o folhetim inclui em cada capítulo, à laia de post-scriptum, a suposta resposta a cartas de leitores intrigados com a autoria do folhetim, que não cessavam de avançar hipóteses, todas negadas pelo grande Assis. Não é uma obra-prima, nem pretende sê-lo, mas vale a pena ler a história deste cowboy que nasceu de catorze meses e que apanha que se farta. O prefácio é assinado pelo jornalista Carlos Vaz Marques.
Teimo em associar este nome – Egas Moniz – a uma imagem da minha infância presente no livro de História da instrução primária: o aio de D. Afonso Henriques de corda ao pescoço com a família, pondo a sua vida à disposição na cidade de Toledo. Mas não é desse homem que falarei hoje, antes do nosso único Prémio Nobel antes de Saramago – o cientista de quem em 1949 certamente todos os portugueses se orgulharam, incluindo o ditador, e que se tornou uma figura amada pela Nação. Pois, ao que leio, Egas Moniz era um crítico feroz do regime e, pouco antes das eleições de 1953, deu uma entrevista ao jornal A República dizendo que a comédia iria repetir-se, ou seja, que ganhariam os mesmos com ou sem eleições, até porque os sectores oposicionistas não tinham sido autorizados a fiscalizar o processo eleitoral. E contou que uma das suas obras, intitulada Vida Sexual e dividida em dois tomos – Fisiologia e Patologia –, fora mandada apreender das livrarias; porém, com a popularidade trazida pelo Nobel e a pedido do editor, que alegou ficar altamente prejudicado se não pudesse vender o livro, parece que a censura tomou uma atitude bastante inovadora: a obra poderia ser vendida, sim, mas só no caso de o seu comprador apresentar ao livreiro uma receita médica! Quase apetece pôr o baraço ao pescoço depois de uma destas…
Há muitos anos, quando era a editora de José Luís Peixoto, um dos seus livros foi vendido a uma editora brasileira muito especial: a Cosac & Naify; faziam livros requintados, com materiais especiais e bom gosto, além de escolherem bem os títulos – nada de baixa extracção. Os seus donos, ao que parece, tinham dinheiro e talvez por isso não se importassem muito de não o ganhar com as suas edições de qualidade; mas chega um ponto em que perder dinheiro com a actividade também se torna impossível – e, ao contrário de outras editoras independentes que acabaram por ser vendidas a grandes grupos, a Cosac & Naify declarou preferir fechar portas a ter de fazer livros menores que dêem lucro. Disse numa entrevista o senhor Cosac que «uma editora deve existir exclusivamente para alimentar um projecto cultural» e que, quando viu o seu projecto ameaçado, achou que chegara o momento de encerrar, podendo, desse modo, «perpetuar um sonho belíssimo do qual tantos participaram e que ajudaram a construir». Pois é. Como dizia um outro editor a respeito do assunto, «o sonho continua, o que acabou foi a realidade». Uma maneira de desistir sem perder.
O argumento mais frequente a favor do livro digital e contra o livro em papel é, efectivamente, o facto de este último consumir hectares e hectares de floresta (embora as papeleiras plantem florestas com o propósito exclusivo da produção de papel) e litros e litros de água… É um facto que gostaríamos que assim não fosse, mas… Em todo o caso, um editor independente de livros infantis na Argentina chamado Pequeño Editor teve uma ideia de génio: a de publicar para crianças uma obra ilustrada auto-sustentável , uma espécie de livro-árvore. E como? Pois bem, a receita é uma beleza: o livro, que se chama Mi papá estuve en la selva, não só é impresso com tintas ecológicas em papel reciclado, como traz, incorporadas no papel, sementes de jacarandá – uma árvore linda e em vias de extinção que alegra a Feira do Livro de Lisboa todos os anos e me faz espirrar bastante – que podem e devem ser plantadas depois de lido o livro. Quando as crianças terminam a história, a ideia é devolverem à Natureza o que esta lhes deu, contribuindo assim para o equilíbrio ecológico do Planeta e desenvolvendo nos pequenos leitores uma consciência ambiental. Veja o booktrailer no link abaixo.
Uma mãe só pode ter orgulho nos seus rebentos quando eles atingem conquistas importantes e têm fama por bons motivos. O que não terá então sentido Maria Brontë, que conseguiu ter três filhas escritoras entre os seus seis filhos? Bom, na verdade, Maria morreu muito jovem, pelo que não pôde acompanhar o sucesso de obras como Jane Eyre, da filha mais velha, ou o ainda mais retumbante êxito de O Monte dos Vendavais, da segunda. E, porém, uma descoberta recente leva a crer que, apesar de tudo, a sementinha de Charlotte começou a dar frutos muito cedo. A Sociedade Brontë acaba de descobrir dentro de um livro que pertenceu a Mary – The Remains of Henry Kirke White, de Robert Southey – e que foi passando de geração em geração, acumulando anotações, desenhos e marcas de muitos elementos da família, um conto nunca publicado da talentosa rapariguinha, escrito ainda na adolescência (no qual se retrata, de resto, um reverendo mau que seria provavelmente o antagonista do pai Brontë) e ainda um poema inédito. O biógrafo da família diz que só a descoberta do livro já teria sido boa, mas assim o tesouro é muito mais valioso.
É provável que os leitores deste blogue achem que estou a puxar demasiado a corda, já que esta é, creio, a terceira vez que falo do romance O Coro dos Defuntos, o mais recente agraciado com o Prémio LeYa. Mas acontece que na capital há muitos leitores que não quero privar hoje de assistirem ao lançamento público na Livraria LeYa na Buchholz, lançamento que se segue ao primeiro, realizado na Figueira da Foz, onde vive o autor. A apresentação desta feita será levada a cabo por Maria Carlos Loureiro, que fez parte do júri do Prémio Fernando Namora que seleccionou como finalista o romance anterior de António Tavares – As Palavras Que Me Deverão Guiar Um Dia – e, além disso, tem a particularidade de ser igualmente uma figueirense. Apareça, pois, mais logo, às 18h30, e certamente não se arrependerá. Se não puder ir, leia este aquiliniano livro sobre Portugal entre 1968 e 1974, que mostra como se vivia numa aldeia do interior quase medieval enquanto o homem pisava a Lua e o Dr. Barnard transplantava um coração humano. Vemo-nos lá. Até logo.
Não costumo distrair-me com as Horas Extraordinárias, mesmo quando escrevo ou planeio com antecedência; mas hoje, quando cheguei à empresa e fui consultar o blog, o post que cá estava não fazia sentido, pois prendia-se como uma sessão a que eu pensava ir, mas afinal tive de faltar... Tirei-o a correr para não enganar ninguém, mas, como estou cheia de trabalho hoje, quero apenas anunciar que a razão por que não estou onde devia estar a falar com os leitores tem que ver com um outro evento que se realizará mais logo, às 18h30, no Auditório 2 da Gulbenkian: Mário Cláudio irá receber (pela segunda vez!) o Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB pelo seu romance Retrato de Rapaz, um texto delicioso sobre a relação de Leonardo Da Vinci e um seu discípulo sem talento mas cheio de graça. Vá lá fazer-nos companhia! O ministro da Cultura entrega o galardão.
Leio um interessantíssimo artigo no The Atlantic sobre a grande tradição que tem a corrida e o jogging no meio dos escritores, passados e presentes. Jonathan Swift, o autor de As Viagens de Gulliver, por exemplo, era capaz de correr meia milha de duas em duas horas; e a autora de Mulherzinhas confessou no seu diário sentir um prazer tão absoluto em correr que achava ter sido veado ou cavalo noutra reencarnação… Correr dá uma possibilidade única de liberdade e fuga com um propósito definido e, além disso, ajuda a pensar. Joyce Carol Oates alternava a corrida com a escrita quando confrontada com problemas de estrutura da narrativa que tinha em mãos, enquanto Don DeLillo dizia que, depois das longas sessões matinais a escrever, correr o ajudava a sair do mundo ficcional para o real. Segundo o artigo, a acumulação de quilómetros reflecte a acumulação de páginas, e ambas as formas de libertação de energia contribuem para uma sensação de alegria e auto-satisfação. Através da corrida, os escritores aprofundam a sua capacidade de se focar numa única tarefa – seja palavra após palavra, seja quilómetro após quilómetro. Murakami, apesar de ter então já três livros publicados, revelou que só teve a certeza de que conseguia chegar à última linha de um livro quando começou a fazer jogging. Muitos outros escritores inquiridos explicam que é sempre enquanto correm que conseguem resolver impasses nas suas obras.
Deram-me há uns anos um livro de arte belíssimo chamado As Mulheres Que Lêem São Perigosas, que reproduz uma imensidão de obras de pintura e escultura de todos os tempos em que mulheres estão a ler, actividade que as torna, pelos vistos, perigosas. Também existe um livro que foi um best-seller na altura em que foi lançado e esteve quarenta e cinco semanas nos top dos EUA – e traduzido em todo o mundo, incluindo Portugal – intitulado Ler Lolita em Teerão, de Azar Nafisi, que fala de um clube do livro clandestino organizado por uma ex-professora universitária, no qual ela e outras seis mulheres, suas ex-alunas, pressionadas a não meter o nariz nos livros ocidentais, passavam a obra de Nabokov e outras a pente fino para, afinal, descobrirem e combaterem a pouca liberdade que tinham no Irão. É assim com as mulheres, mas não são só elas quem sofre de falta de liberdade no que toca a leituras. Basta ver o que aconteceu recentemente em Angola, onde uma série de jovens foram presos apenas porque estavam a ler um livro e a debater o seu conteúdo, que era considerado perigoso pelo regime… Esse livro – Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp – acaba de sair em Portugal com a chancela da Tinta-da-China, e o autor, sabendo da história, abdicou dos direitos em favor dos detidos. Leia-o, mesmo que se torne perigoso…
Já aqui falei num interessante ciclo de conversas que leva a designação geral de Os Espaços em Volta (uma alusão a Os Passos em Volta, de Herberto) e é coordenado pelas jornalistas e poetas Inês Fonseca Santos e Filipa Leal. Realiza-se uma vez por mês na Casa Fernando Pessoa em torno de um tema específico sobre o qual os convidados – normalmente duas pessoas de áreas distintas – são interpelados pelas organizadoras. Pois hoje calha-me estar na berlinda a falar sobre «arrependimento» na companhia da minha querida amiga e grande fadista Aldina Duarte. O fado está cheio de arrependimento – ainda há pouco tempo escrevi uma letra para o novo álbum de Ana Moura – Ninharia – que conta a história de uma mulher que, por causa de um ciúme doentio, rifou o amado e se mostra agora arrependida da sua precipitação, certa de que ele era, afinal, o homem da sua vida. Não sou lá muito de me arrepender – confesso – mas, claro, acontece-me de vez em quando pensar, pelo menos, que não devia ter dito o que disse (se calhar até aqui no blogue já ocorreu)… Vamos lá a ver como me saio nesta conversa a quatro, mais logo, às 18h30. Se quiser, apareça; se não for, que não se arrependa.
No mesmo dia em que leio no jornal que o café pode fazer muito pela memória (e eu até posso tomar mais de um porque tenho a tensão arterial baixa), descubro que a poesia estimula a actividade cerebral e é muito mais eficaz na resolução de problemas emocionais do que a leitura de livros de auto-ajuda; mesmo quando é difícil – ou sobretudo quando o é. Especialistas da Universidade de Liverpool em neurociência, psicologia e literatura inglesa monitorizaram a actividade cerebral de trinta voluntários, que leram, primeiro, excertos de textos poéticos clássicos (Pessoa, Shakespeare, T.S. Eliot e muitos outros) e, depois, essas mesmas passagens traduzidas para linguagem coloquial; os resultados mostram que a actividade do cérebro dispara quando o leitor encontra palavras incomuns ou frases com uma estrutura semântica complexa, não reagindo de forma especial quando o conteúdo se expressa com fórmulas de uso corrente. Ora, ao que parece, esses estímulos mais fortes mantêm-se durante bastante tempo e potenciam, entre outras coisas, a atenção dos indivíduos, facilitando a aprendizagem. Além disso, segundo um dos autores do estudo, a descrição profunda de experiências emocionais constante na poesia afecta o lado direito do cérebro, onde são armazenadas recordações, ajudando o indivíduo a reflectir sobre elas e a entendê-las muito melhor do que nos livros de auto-ajuda. E esta, hein? Com café e poesia temos cabeça para dar e vender…
Já fez uma prova cega de vinhos? Não? Então faça. É divertido e gostoso e, além disso, mostra em que estado está o nosso olfacto e o nosso paladar. Mas provar vinho e literatura ao mesmo tempo pode ser melhor ainda. É disso que se trata no festival Tinto no Branco – A Literatura Posta à Prova, que hoje começa em Viseu e se prolonga até domingo. A iniciativa integra-se noutra maior e já na segunda edição – Vinhos de Inverno – que se realiza no Solar do Dão, uma sala-de-estar aberta a todos os viseenses e visitantes que queiram juntar-se-lhes neste fim-de-semana. Como dizem os organizadores, «há grandes nomes para ouvir e muito para aprender sobre os mundos das letras e dos vinhos e as suas ligações – culturais, simbólicas, espirituais e vivenciais.» Entre os convidados para a mesa, estão, por exemplo, Afonso Cruz, Rui Cardoso Martins, Fernando Dacosta, Francisco José Viegas e Paulo Moreiras (um dos meus autores que mais percebe de vinhos e que os sabe combinar muito bem com os condimentos da língua e da literatura). E, entre as mesas-redondas, não faltarão os habituais espaços de prova de vinhos e contacto com os produtores e enólogos da região e, além de «workshops vínicos», animação musical. Bom vinho e bons livros!
Começou ontem um congresso dedicado à Língua Portuguesa como língua de futuro e organizado pela Universidade de Coimbra, que faz 725 anos e os comemora justamente amanhã (parabéns!). É nesse âmbito que será apresentado hoje à tarde, pela professora Clara Almeida Santos, um livro que publiquei em finais de Outubro e de que já aqui falei – Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, Ministro da Cultura de Cabo Verde, de quem já tinha publicado há uns anos O Novíssimo Testamento, em que Jesus era do sexo feminino. O novo romance, que homenageia os contadores de histórias e foi galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga – Câmara Municipal de Coimbra, decorre ao longo de um período de mais de cem anos e tem como protagonista um condenado à morte que, qual Xerazade, se vai salvando do fuzilamento contando a sua história e atraindo multidões. O anfitrião deste lançamento é o belo Convento de S. Francisco e vamos, claro, bater palmas à Universidade de Coimbra. Se puder, venha fazer-nos companhia e apagar uma das 725 velas.
Quando publiquei o primeiro romance de Nuno Camarneiro (No Meu Peito não Cabem Pássaros), era o meu primeiro autor da Figueira da Foz; pensava que não houvesse muitos mais, mas depressa descobri que Afonso Cruz também ali tinha nascido, bem como Maria Manuel Viana (e há mais, mas poupo-vos ao elenco). Com o segundo romance (Debaixo de Algum Céu), Nuno Camarneiro venceu o Prémio LeYa, que foi o primeiro para a Figueira da Foz; mas este ano o galardoado, António Tavares, é o vice-presidente da Câmara da Figueira, fazendo pensar que os figueirenses são especialmente dotados para a literatura e os prémios e que a Figueira está por isso de parabéns. É lá, de resto, que estarei hoje à tarde para ouvir o professor José Carlos Seabra Pereira, membro do júri, dissertar sobre O Coro dos Defuntos, um romance belíssimo que fala do nosso Portugal entre 1968 e 1974 e das milhas a que estávamos do mundo, que então fervilhava de novidade e convulsão – pronto-a-vestir, idas à Lua, guerra no Vietname, transplantes cardíacos, revolução estudantil em França, supermercados… Se estiver nas imediações, venha fazer-nos companhia. E leia o livro, claro.
Nestes tempos obscuros, o religioso é muitas vezes um tema sensível; mas, ao mesmo tempo, falar das aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos na Cova da Iria pode parecer descabido, atrevido ou até fora do tempo, sobretudo se for numa ficção presumivelmente séria. Porém, é mesmo esse, curiosamente, o ponto de partida do último livro de José Luís Peixoto, uma novela intitulada Em Teu Ventre, que se divide pelos meses de Maio a Outubro de 1917, ano das supostas aparições da Virgem a três primos que pastoreavam. Lúcia, a mais velha, é a protagonista, e o autor trabalha sobre as memórias da verdadeira Lúcia (a dos segredos de Fátima) para lhe construir na infância o quotidiano, no qual há irmãs casadas e solteiras que se juntam aos domingos, um irmão que cuida dos animais, um pai bebedolas com tendência para o jogo e, mais importante do que todos, uma mãe ríspida e crente que repudia as visões da menina, menina que – o leitor sabe – ouve na sua cabeça respostas de árvores, flores e lenços com quem conversa. Concentremo-nos, porém, na mãe – Maria de seu nome – pois este é também um livro sobre a maternidade, já que, a par da história da relação de Lúcia com Maria, temos, entre parênteses, uma voz que fala e que é de outra mãe – a do escritor? – para acusar, lembrar, recriminar o filho pela indiferença, a falta de atenção e de reconhecimento. Para temperar estes dois textos, versículos como os da Bíblia, em duas colunas e numerados, que dão voz a um filho que fala com a sua mãe e que, não por acaso, é o próprio Deus. Dito isto, fica certamente quase tudo por dizer, mas é preciso voltar à leitura para o descobrir.
Este é um blogue que fala sobretudo de livros e edição, bem sei, e os seus leitores regulares são quase todos amantes de livros; mas, de vez em quando, gosto de me desviar desses assuntos por boas razões – e esta, creio, é uma delas. Muitos já devem ter conhecimento da campanha levada a cabo pelo Museu Nacional de Arte Antiga para a aquisição de um quadro belíssimo do pintor Domingos Sequeira, A Adoração dos Magos. A oportunidade de o acrescentar ao acervo do museu (que já possui os estudos para esse mesmo quadro e o cartão final) num tempo em que, infelizmente, não há dinheiro nem para mandar cantar um cego levou o director a convidar todos os portugueses a contribuírem com o que puderem, tornando-se verdadeiros mecenas de um dia para o outro. A iniciativa, muito aplaudida, de resto, pelos media e os artistas, teve resultados muito bons na primeira semana – em que imensas pessoas foram escolher um bocadinho desta tela magnífica para oferecer ao museu. Mas o museu precisa ainda de mais contributos e o facto de poderem ser pequeninos faz-me agora usar este blogue para difundir a campanha. Vamos pôr o Sequeira no lugar certo? Veja o link abaixo e ajude.
Diz quem sabe que a geração que já nasceu com toda a tecnologia à disposição (e que não dispensa computador, telemóvel e, quando possível, também tablet, em que assistem a séries e filmes inteirinhos) tem menos vocabulário do que aquela que a precedeu. Sinto, na minha profissão, que de facto muitas palavras e expressões que eu ainda uso regularmente não constam quase nunca dos livros que me mandam para apreciação, embora também me surjam outras novas que não existiam quando eu era jovem (muitas delas aportuguesamentos de vocábulos ingleses, claro). E um dia destes uma colega minha que tem um filho de 15 anos no 11.º ano contou-me uma estranha história. Num teste de Filosofia, quase todos os alunos da turma erraram numa determinada resposta. E porquê? (Se pensam que isto tem que ver com filosofia, desenganem-se.) Pois bem, simplesmente porque nenhum deles sabia que a palavra «hábito» podia designar, além de costume ou prática frequente – o que era um dado adquirido –, a veste dos monges ou das freiras (como na conhecida frase «o hábito não faz o monge»), razão pela qual não conseguiram sequer perceber a pergunta. Olhem, os religiosos que rezem pela pequenada, que eu não sei onde isto vai parar...
A correspondência (no sentido de troca de cartas entre pessoas) deixou simplesmente de existir; todos nós trocamos e-mails quando a coisa exige mais explicações e SMS terrivelmente curtas quando queremos dar apenas um recadinho. No entanto, a correspondência ajudou muito ao estudo dos hábitos desta ou daquela época e geografia; e, na Holanda, encontrou-se recentemente uma arca carregadinha de cartas (mais de 2500) que podem contribuir com dados muito interessantes para o estudo da vida no país durante o século XVII. Parece que as cartas, muitas das quais estavam seladas e nunca tinham sido abertas, foram arrecadadas por um chefe dos Correios; na altura, era costume pagar a franquia quem recebia a carta, e não quem a mandava; e havia, pois claro, quem não quisesse pagar, ou não quisesse receber a carta, como o homem que morria de medo de que ela lhe trouxesse a notícia de que estava para ser pai (e tinha razão). E, assim, durante séculos, toda a correspondência que não chegou ao destino ficou guardada na arca, até que nos nossos dias a arca foi descoberta... e aberta! Agora, os académicos de cinco universidades espalhadas pelo mundo estão a deliciar-se com a leitura de centenas de missivas de aristocratas, espiões, actores, músicos, editores, mercadores e até gente do campo praticamente analfabeta. Uma arca do tesouro, sem dúvida.
Tendemos a associar estudo a obrigação e chatice, sobretudo na adolescência, durante a qual parece sempre que temos muita coisa mais interessante em que aproveitar o tempo. E, porém, um estudo recente realizado pela OCDE sobre as vantagens sociais da educação vem agora confirmar que são mais felizes as pessoas que estudam, até porque podem esperar mais da vida. «A educação ajuda as pessoas a desenvolver capacidades, melhorar a sua condição social e ter acesso a redes que podem ajudá-las a fazer mais conquistas sociais», dizem os autores da pesquisa, que acrescentam ser, em média, o grau de felicidade de quem faz o ensino universitário 18% superior ao de quem fica pelo ensino médio. Mas, além disto, revelam que quem estuda mais tem também sérias hipóteses de viver mais tempo, apresentando como exemplo um homem de 30 anos que viverá, em princípio, mais 51 anos se tiver uma formação superior, mas apenas mais 43 se tiver ficado pelo ensino médio (parece que a diferença para as mulheres não é tão acentuada, mas, ainda assim, há uns três anitos a mais de vida para quem andou na faculdade). Caso para dizer: aprender até morrer...
Por vezes afligem-me algumas pessoas que têm pouca elasticidade mental, não entendem uma metáfora ou um eufemismo e levam tudo à letra. Mas nem sempre a atitude de ser literal é defeito ou falta de inteligência – e a verdade é que se pode inclusivamente construir um objecto artístico bem interessante levando as palavras à letra. Que o diga, por exemplo, um criativo fotógrafo francês chamado Janol Apin, que resolveu pegar no nome de certas estações de metropolitano de Paris para compor imagens hilariantes, tentando fazer com que o cenário das fotografias correspondesse literalmente às palavras. Para achar graça, é necessário saber um pouco de francês, mas estou convencida de que os leitores deste blogue não encontrarão, à partida, grandes dificuldades. Em todo o caso, porque não posso aqui colocar todas as fotografias, adianto duas ou três composições: na estação Gare du Nord está na plataforma um pinguim e um esquimó; na de Porte Maillot, Apin ateve-se ao verbo porter (trazer, usar) e fotografou alguns jovens em maillot; e, na estação Rome, um centurião de coroa de louros olha o comboio que está a chegar. Abaixo, estão outras destas formas adoráveis de levar tudo à letra. Divirtam-se.
Disse-vos recentemente que fui convidada para falar num congresso dedicado às artes da língua portuguesa pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. A iniciativa teve um saldo muito positivo, pois pude ouvir intervenções extremamente interessantes por oradores de luxo em áreas como o teatro, o cinema ou a dança, em que sei menos e, por isso, aprendo mais (mas as da literatura também foram muito boas). Soube igualmente uma coisa curiosa nesse congresso, de que, de resto, já me podia ter dado conta: que muitas vezes, ao publicarem a obra de um autor brasileiro, os editores franceses escrevem «traduit du brésilien», e não «du portugais», como se de facto falássemos línguas diferentes cá e lá ou houvesse, pelo menos, donos diferentes da mesma língua. A este propósito contou Flora Gomes, o cineasta guineense, uma história deliciosa. Os guineenses declaram que o crioulo foi inventado na Guiné, e os cabo-verdianos afirmam que são eles os donos da língua. Ora, para evitar estes puxões para cada lado, alguém resolveu contrapor: nem num lado, nem noutro, mas numa piroga no meio do mar.
Sou pouco tecnológica e fico triste quando vejo dois namorados a jantarem juntos num restaurante sem trocarem palavra e sem conseguirem desviar os olhos dos respectivos telemóveis. Tiram fotografias ao que comem, que logo põem no Facebook, e escrevem SMS a amigos entre garfadas. Quando marcam um encontro, o primeiro a chegar raramente consegue esperar uns minutinhos sem enviar ao outro uma mensagem a avisar que já lá está, se é que não faz imediatamente um telefonema, como se não conseguisse aguentar ficar sozinho aquele lapso de tempo (mas, quando o outro chega, mal lhe fala). Desde que os aparelhos se tornaram não só úteis nos momentos certos, mas imprescindíveis a toda a hora, as pessoas deixaram-se escravizar por eles. Mas há quem pense que essa dependência é nociva e tenha arranjado uma alternativa. Numa estação em Grenoble, para os que ficam à espera há máquinas que imprimem pequenos contos para quem se quiser entreter até vir o seu comboio. O passageiro pode, inclusivamente, escolher entre histórias de um, três ou cinco minutos – e o conto é «dispensado» pela máquina em papel de recibo, próprio para ser deitado fora depois de terminada a leitura. Uma ideia que era bom que pegasse em mais sítios, aumentando a instrução das pessoas e distraindo-as por uns instantes dos malfadados telemóveis.
Vasco Pulido Valente disse uma vez numa entrevista que adorava ler trash (lixo) – e chamava «lixo» a obras menores, mas decerto bem menos poluentes e fedorentas do que muitas que hoje encontramos publicadas e à venda. As artes não estão isentas de lixo – e o facto de o lixo ter começado a ser difundido junto com a arte faz com que muitos de nós tenhamos, em áreas que conhecemos pior, grandes dificuldades em separar o que é moderno, original e ousado do que é simplesmente – isso mesmo – lixo (que ainda não está na lixeira, mas para lá caminha). Houve, aliás, recentemente um bom exemplo disso. Num museu do Norte da Itália, expunha-se numa sala uma instalação da dupla de artistas plásticos Goldschmied & Chiari, que, segundo li, representava nada mais, nada menos do que o «hedonismo e a corrupção política vividas na década de 80». A obra de arte, intitulada Onde Vamos Dançar Esta Noite?, era composta de duas telas, beatas de cigarro, garrafas de champanhe vazias e papelinhos de Carnaval (vulgo confetti); e, por isso, a funcionária da limpeza, quando chegou ao museu de manhã cedo, calculou que tivesse ali havido festança na noite anterior e apressou-se a limpar… A sala ficou num brinquinho, mas a instalação foi parar a uma lixeira, dizendo talvez alguns que era onde merecia estar. Deixo-vos as imagens do antes e depois, para se divertirem.
Ainda ontem vos falava de uma livraria francesa e da esplanada e serviço de cafetaria que montou para potenciar as vendas de livros. Pois não é só lá fora que isto acontece, e a Livraria Lello – a mais bonita do mundo, ou uma das mais bonitas, pelo menos – tinha, segundo vos contei aqui no blogue, tomado a decisão de cobrar uma entrada no valor de três euros, quer para conter as hordas de turistas que não param de lá entrar (mais de mil por dia), quer para facturar (até porque, no futuro, terá de custear obras de restauro, que essas visitas contínuas acabam por provocar muitos danos num espaço como aquele). O bilhete de três euros foi, efectivamente, instituído há uns três meses – e muito criticado também, mas os proprietários defenderam-se bem, dizendo que, se os visitantes comprassem um livro durante a visita, o valor da entrada seria descontado no preço do livro. E agora leio que as vendas da Lello aumentaram, para ser mais concreta, triplicaram, em três meses apenas. Se isso significar que há mais gente a ler livros em virtude de uma simples obrigação de pagar para ver a livraria, então aplica-se aqui o ditado popular de que «há males que vêm por bem».
Quando uma loja do meu bairro fecha – e outra abre no seu lugar –, quase nunca se aguenta muito tempo, excepto, claro, se for um desses sítios onde se pode trincar qualquer coisa e beber café. As pessoas não abdicam da sua bica, são gulosas e gostam de um bolinho e, enfim, têm de almoçar para aguentar ainda algumas horas de trabalho. Uma das mais icónicas livrarias do mundo – a Shakespeare & Company, em Paris – um lugar que foi poiso de Henry Miller e Allen Ginsberg, entre outros – resolveu, pois, criar uma bela esplanada à sua porta, para que os compradores de livros possam sentar-se a tomar o pulso às obras enquanto comem e bebem. O menu é um encontro de culturas – inglesa, francesa, norte-americana –, com vários chás, pâtisserie française e até bagels, sumos feitos na hora, sanduíches diversas e sem glúten, pensando também nos que têm restrições alimentares. Se a livraria da Rive Gauche já atraía turistas de todo o lado pelos seus livros raros, pois agora não se trata apenas de passar por lá, pode ficar-se sentado na esplanada a degustar livros, comes e bebes.
Mia Couto é um grande escritor de língua portuguesa – e um escritor amplamente reconhecido lá fora, vencedor e finalista de prémios muito importantes (como o Man Booker International, por exemplo). Sempre me perguntei, porém, como seriam as traduções dos seus livros, uma vez que o prodigioso Mia é também um inventor da língua, de termos que poderíamos adoptar assim que os lêssemos na sua obra, como – só para dar um exemplo – «esparramorto» (nunca mais me esqueci desta palavra depois de a ter saboreado em A Varanda do Frangipani). Talvez os seus tradutores saibam mesmo muito português, conheçam a palavra «esparramado» («morto» hão-de conhecer), consigam encontrar uma equivalência qualquer que não perca a graça; mas o resultado não será, decerto, tão gostoso e imediatamente compreensível noutro idioma, mesmo românico. Agora, o escritor moçambicano está a escrever uma trilogia dedicada a Gungunhana – A Mulher de Cinzas já foi, aliás, publicado – e, tanto quanto me foi dado saber por uma entrevista recente, deixou-se das suas palavrinhas mágicas para se centrar noutras coisas. Mesmo assim, não resistiu a dizer que o que fazia ao escrever era «brincriar»... Mais uma para a colecção.
Mergulho num velho livro com a capa a desfazer-se, um desses romances publicados há muito tempo que, por qualquer razão, toda a gente leu na juventude e, no entanto, me passou ao lado. Não se riam: trata-se de Olhai os Lírios do Campo, do brasileiro Erico Veríssimo, tanto quanto sei um dos autores preferidos da escritora Alice Vieira. Se calhar, devia mesmo tê-lo lido mais cedo, porque, não sei se é do papel amarelecido, se da impressão feita ainda a partir de caracteres de chumbo, o livro me está a parecer coisa um pouco antiga, um pouco datada. Conta a história de Eugénio, um rapaz pobre com vergonha dos pais e da sua condição, que com esforço consegue tornar-se médico; mas, atraído desde menino pela vida desafogada dos ricos, troca uma colega muito querida por uma rapariga de famílias finas, dada à psicanálise e saída da casca, com quem será, de resto, muito pouco feliz e que o fará sentir-se permanentemente humilhado. E, lamentavelmente, não poderá voltar à sua vida com a compreensiva e engraçada Olívia (esta, sim, uma personagem interessante) pois, quando o livro começa, está Olívia a morrer num hospital onde pede que chamem o seu Genoca, que – é mais do que provável – não chegará a tempo. Não querendo contar muito mais, para não estragar o prazer a quem se atreva a este clássico, tenho a sensação de que Eugénio ainda vai aprender a gostar de si mesmo olhando os lírios do campo. Estou a cem páginas do fim e já se fala de Hitler e de judeus, pelo que é de esperar que, diante do Holocausto, possa o homem relativizar a sua própria tragédia. Talvez então o romance me consiga agarrar.
Lançamos hoje à tarde na FNAC do Chiado um livro infantil da autoria de Ana Margarida de Carvalho (a autora do premiado romance Que Importa a Fúria do Mar) e de Sérgio Marques, ilustrador também galardoado por várias vezes. É um livro delicioso sobre dois irmãos muito diferentes em tudo – o É e o Não É (mais conhecido por Noé) – e tem por título a Arca do É. Esta arca – ao contrário da arca de Noé que se enche de animais nos dias do dilúvio – vai cheia de legumes que corriam o risco de morrer afogados com a grande chuvada; mas, vinda a bonança, os animais são devolvidos ao seu habitat enquanto os legumes, depois de colhidos, bem… não voltam à terra. Que fazer então com eles? Uma sopa, claro! Não perca hoje a sessão de apresentação, a cargo de uma especialista, Ana Margarida Ramos. E use esta história bonita e bem ilustrada para que os seus filhos e netos passem a dizer sim à sopa.
Ontem saiu para as livrarias o romance vencedor da última edição do Prémio LeYa, intitulado O Coro dos Defuntos e assinado por António Tavares. Nele, vivem-se tempos de grandes avanços e convulsões: os estudantes manifestam-se nas ruas de Paris e, em Memphis, é assassinado o negro que tinha um sonho; transplanta-se um coração humano e o homem pisa a Lua; somam-se as baixas americanas no Vietname e a inseminação artificial dá os primeiros passos. Porém, na pequena aldeia onde decorre a acção do romance, os habitantes, profundamente ligados à natureza, preocupam-se sobretudo com a falta de chuva e as colheitas, a praga do míldio e a vindima; e na taberna – espécie de divã freudiano do lugar – é disso que falam, até porque os jornais que ali chegam são apenas os que embrulham as bogas do Júlio Peixeiro. E, mesmo assim, passam-se coisas muito estranhas: uma velha prostituta é estrangulada, o suposto assassino some-se dentro de um penedo, a rapariga casta que colecciona santinhos sofre uma estranha metamorfose, e a parteira, que também é bruxa, sonha com o ditador a cair da cadeira e vê crescer-lhe, qual hematoma, um enorme cravo vermelho dentro da cabeça. Quando aparece o primeiro televisor, as gentes assistem a transformações que nem sempre conseguem interpretar… Com personagens inesquecíveis e um recurso narrativo extremamente original, um belíssimo retrato do mundo rural português entre 1968 e 1974, a homenagear o grande Aquilino.
A tradução é um trabalho profundamente exigente: é preciso conhecer bem a língua de partida e escrever maravilhosamente na língua de chegada; é preciso ter senso comum, cultura e, quantas vezes, imaginação e elasticidade mental para resolver questões que quem não se quer dar ao trabalho normalmente remedeia com chatíssimas notas de rodapé. Conheço vários bons tradutores que admiro, com intuição para a tarefa, com um sentido apurado para o que fica bem no idioma para que traduzem, com respeito pelo autor e pelo leitor. Nunca lhes chegaria aos calcanhares se tentasse fazer o mesmo, estou certa; mesmo assim, acho que me sentiria muito mais à vontade diante de um livro e alguns dicionários do que numa daquelas cabinas de intérpretes que se dedicam à tradução simultânea em encontros e congressos, sobretudo quando aparecem situações de quase impossível solução. Contaram-me que, um dia, Cesária Évora foi ao Japão e, numa entrevista, tinha, claro, uma intérprete à disposição. Quando, porém, o jornalista perguntou à cantora como ia a sua carreira, ela respondeu, bem ao seu jeito, «que se ia desenrascando». Ficou então estarrecida a pobre intérprete japonesa, que, acto contínuo, lhe perguntou como é que podia traduzir aquele verbo. Mas Cesária respondeu, lacónica: «Olhe, desenrasque-se.»
O narrador deste romance é um condenado à morte a quem é concedido um último desejo; e o que escolhe é contar uma história, mais precisamente a da vida do Língua, um escravo que falou aos sete meses de idade e teve direito a biografia encomendada pelo rei de Portugal. Dá-se então um verdadeiro milagre: não só a história parece não ter fim, porque a vida do Língua está recheada de episódios em que os detalhes são de extrema importância, como começa a juntar-se cada vez mais gente para a ouvir – são às centenas os que todos os dias chegam à falésia de armas e bagagens, filhos, mulas, araras e macaquinhos, dispostos a fazer do lugar a sua casa só para não perderem pitada do relato. E, enquanto o narrador vai ganhando anos no cadafalso parindo magia, é toda uma comunidade que se vai criando em torno da maravilha de contar histórias, passando a língua a ordenar o tempo em vez do relógio. Inspirado na vida de um homem, talvez o único que viveu o colonialismo, a abolição da escravatura, a guerra da independência, a independência, a ocupação, o capitalismo, o imperialismo e o comunismo, sucessivamente e num mesmo lugar, Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, galardoado com o Prémio Literário Miguel Torga, é uma homenagem às pequenas histórias que nos salvam da penosa realidade.
Nunca tinha estado com o padre e professor Anselmo Borges e, num almoço não há muito tempo, tive a sorte de ficar sentada ao seu lado e de o ouvir sobre vários assuntos com muito interesse. Às tantas, ele disse qualquer coisa de polémico e um jornalista que estava na mesa perguntou-lhe se podia publicar o que acabava de proferir. Ele concordou, mas pediu cuidado na reprodução do que lhe ouvira. É que, ao que parece, numa conferência que ocorrera uns meses antes, Anselmo Borges declarara que o futuro teria de passar pelo “ecumenismo”. Encontrava-se, pelos vistos, presente na sala da conferência uma jovem estagiária de um jornal que, nunca tendo decerto ouvido a palavra “ecumenismo”, redigiu a notícia do seguinte modo: Padre Anselmo Borges diz que o futuro terá de passar pelo “comunismo”. Dá vontade de rir, claro, mas é grave; e ainda temos sorte de, falando-se de futuro, não ter pensado nas novas tecnologias e inventado o “e-comunismo”. Enfim...
Ouvi recentemente esta história a Mário Cláudio, que tem uma grande ternura por Agustina, mesmo que tenha um dia escrito que ela era tão depressa uma espécie de mãe como uma bruxa a quem apetecia amordaçar. Num tempo em que Portugal se encontrava numa grande crise que não era esta (às vezes acho que a crise é o nosso estado quase natural e os bons tempos a excepção), Agustina foi convidada a ir com outros escritores a um festival literário perto de Bordéus. Por lá, havia bastante fausto e pompa, e o encontro realizava-se num château riquíssimo e belamente decorado. Antes do jantar, a castelã, calculando que Agustina precisasse de usar o toilette antes de se sentar à mesa e usando um eufemismo, perguntou-lhe se não queria “ir lá dentro”. Ao que a escritora do Norte terá respondido logo, lembrando a crise: “Não, obrigada, estamos numa altura de retenção.” Só ela.
No mês passado, cumpriu-se o primeiro centenário da publicação de Metamorfose, o livro mais lido de sempre do checo Franz Kafka, que conta a história de um homem que um belo dia acorda transformado em barata (é muito mais do que isto, claro, mas era só para explicar de que metamorfose se trata). Pois bem, apesar de Kafka se ter tornado uma figura de proa da literatura de todos os tempos, e de a cidade de Praga o ter – e à sua pequenina e bonita casa – como um dos ícones que mais turistas atraem, leio num blogue que na Checoslováquia o escritor nunca foi realmente muito lido. Parece que a primeira tradução para checo de Metamorfose (o original é alemão) só se fez em 1929 (o texto teve sucesso nos EUA antes de se tornar conhecido na terra natal) e, como foi levada a cabo por intelectuais anarquistas, isso gerou a ideia de que o seu autor era revolucionário (e era, mas de uma outra maneira); o problema foi que, mais tarde, quando a Checoslováquia se tornou comunista, se passou ao outro extremo, e a obra do mestre, então considerado um reaccionário, foi proibida pela ditadura. Enfim, metamorfoses que não ajudaram nada e que, pelos vistos, apesar de em 1990 se ter criado uma fundação com o nome do escritor, não levaram a que a Checoslováquia faça sequer uma comemoração oficial do centenário deste pequeno grande livro.
Muitas vezes falo neste blogue de livros de que gostei e recebo sugestões vossas nos comentários, achando que essa partilha vale muito a pena. Mas, recordando as palavras de Virginia Woolf, prefiro pensar que não vos estou a recomendar nada, mas simplesmente a dar-vos a minha opinião. Senão, vejamos: diz a escritora britânica que o único bom conselho que uma pessoa pode dar a outra sobre o que ler é justamente que não se deve aconselhar, pois cada um deve seguir o seu próprio instinto, servir-se do seu senso comum e chegar às suas próprias conclusões. Deixar que alguém entre na nossa biblioteca e nos diga como ler e o que ler é, segundo Woolf, destruir «o espírito de liberdade que se respira nesses santuários». E afirma também: «Toda a literatura, quando envelhece, tem a sua pilha de desperdícios.» E de que maneira! Frases sábias de uma das escritoras mais interessantes de sempre. Eu, mesmo fazendo a vénia, gosto que me falem de livros que não li e de autores que não conheço, ainda que também descarte muitas leituras de obras que alguém me apregoa mas que, sei lá porquê, não me seduzem. Cada um que decida o que for melhor para si. Os leitores, em suma, devem ser livres de escolher.
Há muito tempo que não lia um livro tão triste, digo eu. Triste e ao mesmo tempo muito belo. Esteve, de resto, na long list do Booker Prize deste ano, mas não passou à short list – e tenho pena, porque adorei este Lila (que é o nome da protagonista), da norte-americana Marylinne Robinson, nascida em 1947 no Iadho, mas há muito a residir no Iowa, a cujos habitantes dedica, aliás, a obra (curioso, lembrou-me Carson McCullers). Lila é, aos quatro anos, arrancada de uma barraca imunda de migrantes esfomeados e levada por uma mulher – Doll – que não lhe é nada, mas decide salvá-la de um destino terrível. Juntam-se as duas a um grupo de trabalhadores nómadas pagos à tarefa, deambulando pela América, experimentando os terríveis tempos da Grande Depressão e o medo de Doll de que alguém venha cobrar-lhe o rapto da menina e fazer-lhes mal, razão por que anda sempre com uma faca – único objecto que lega a Lila quando, uma noite, desaparece. Lila não tem absolutamente mais ninguém no mundo e, por isso, dificilmente escapará a muitos anos de uma vida indigna de sacrifício e deambulação até ir dar a uma terra pequena onde o reverendo John Ames, viúvo e triste como ela, mudará a sua vida. Com diálogos incríveis, personagens densas e humanas, descrições da natureza de tirar o fôlego, citações da Bíblia que são um hino à literatura, um encadeamento perfeito de passado e presente, este romance incomoda-nos e toca-nos muito, magoa-nos e ao mesmo tempo alivia-nos, ensinando-nos que às vezes o amor dedicado a alguém desprotegido pode salvar a vida dessa pessoa, mas sobretudo a nossa. Uma excelente tradução de Maria do Carmo Figueira.
Cai-me no colo um interessante artigo sobre algumas medidas praticadas na capital francesa para defender as livrarias tradicionais. Não é que não fechem também em Paris algumas lojas, sobretudo com a concorrência feroz da Amazon.fr (que tem «espaço» para todos os livros e faz os envios em vinte e quatro horas); mas a Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e, num país com grande tradição de leitura, está atenta aos livreiros que precisam de ajuda. Os que pagam em salários 12% ou mais da sua facturação têm, por exemplo, isenção de impostos e, além disso, direito a um subsídio para actividades de promoção de livros de fundo (sublinho de fundo) na loja. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio (650, dos quais 60 são livrarias) e aluga-os por rendas baixas, a cerca de metade do preço de mercado. Além disso, conscientes da importância das livrarias tradicionais num país onde a compra de e-books é ainda ínfima, os editores reuniram-se e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a actividade sem pagarem nada antes de dois anos decorridos... Por outro lado, as livrarias conseguiram também unir-se na realização de um site colectivo, no qual difundem uma agenda de actividades e – pasme-se! – o cliente pode procurar o livro que quer e saber logo quais são as livrarias que o têm à venda, indo à mais próxima (e assim evitando uma visitinha à Amazon). Boas ideias vindas de França.
Quem tem olho é rei. Falo em sentido figurado, claro, porque Pablo Lecuona, argentino que cegou ainda na infância, tem dois olhos que de pouco lhe servem, mas criatividade e inteligência que ultrapassam a cegueira de muitos com dois olhos sãos. Acaba de ganhar um importante prémio para a sua biblioteca digital para cegos, com cerca de 50 000 livros, galardão que lhe foi atribuído pela Organização dos Estados Americanos entre mais de 600 projectos concorrentes. Lecuona nunca se deixou abater pela sua deficiência, desloca-se pela cidade de Buenos Aires sozinho, apesar de a cidade estar pouco preparada para os invisuais, viaja pelo mundo a partilhar a sua experiência e fundou em 1999 a TifloLibros (o nome tem por base a ilha de Tiflos, onde, segundo a mitologia, os cegos eram banidos), projecto que foi desenvolvendo ao longo dos anos com pouquíssimos recursos, mas que hoje tem já mais de 7500 inscritos e 300 instituições parceiras e ao qual vão dar seguramente muito jeito os 75 000 dólares do prémio. A Internet, as impressoras em braille, os computadores e telemóveis adaptados, abriram caminho a que pessoas cegas ou com visão reduzida tenham uma autonomia nunca antes imaginada e possam ler os livros de que gostam. Lecuona foi convidado para debater e incentivar um Tratado Internacional sobre direitos de autor no que respeita a edições em braille e o TifloLibros é dado internacionalmente como exemplo feliz de inclusão social e respeito pelos direitos dos deficientes. Lecuona não vê, mas tem visão que nunca mais acaba.
No último dia 2, os Peanuts, criação do norte-americano Charles Schulz, nascido no Minnesota, fizeram 65 anos. Publicada pela primeira vez quando o seu autor tinha 27 anos, a tira que tem como personagens o tristonho Charlie Brown, o cão Snoopy e os amigos de ambos saiu em mais de 2000 jornais ao longo destes anos e sobreviveu ao próprio Schulz, que partiu deste mundo no virar do século. O jornal Daily News publicou no dia do aniversário algumas curiosidades em relação aos Peanuts, sendo a mais inesperada o facto de o seu autor não gostar nada do nome desta família alargada, que lhe terá sido imposto por terceiros. Aí se conta também que Schulz foi rejeitado por uma ruiva que pediu em casamento quando era ainda jovem e que é dessa história real que nasceu a ruivinha por quem Charlie Brown se apaixona, bem como todos os amores não correspondidos da série: Sally que ama Linus, Lucy que ama Schroeder (uma das minhas tiras preferidas é com os dois últimos; pergunta Lucy: «Achas-me uma rapariga bonita?» E Schroeder, sempre concentrado no seu piano, responde: «Sei lá, nunca vi nenhuma rapariga bonita.»). Ao que parece, Snoopy também era para se chamar Sniffy (mas já havia uma personagem de BD com este nome) e Charlie Brown acertou, afinal, uma vez com o bastão na bola de baseball numa tira de 1956; consta, aliás, que a falta de jeito para o desporto do autor dos Peanuts foi inspiradora e que o clube da sua terra chegou a perder 40-0. Enfim, novas destes Peanuts a ficarem velhotes.
O ISBN (International Standard Book Number) é o sistema que identifica os livros segundo o autor, título, editora e país de origem. Foi a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) que o introduziu em Portugal em 1988, seguindo a norma internacional, e até ao ano passado os seus custos eram repartidos entre a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) e a APEL. Mas o subsídio da SEC acabou e a APEL elaborou, em conjunto com cerca de 200 associados, uma tabela em que, quanto mais títulos uma editora registe, mais barato lhe sai cada um; por exemplo, se uma editora regista 10 títulos por ano paga 100 euros (10 euros por título), mas se registar 1000 títulos por ano já só paga 3000 euros (ou seja, 3 euros por título). Ora, embora isto possa parecer justo, a verdade é que é um grande problema para as pequenas editoras, que publicam poucos livros por ano e têm menos dinheiro, e para quem o valor do ISBN vai pesar muito nos custos totais de livros geralmente de pequena tiragem. Podia pensar-se, de resto, que algumas abdicariam do ISBN, que não é obrigatório, mas a FNAC e a Bertrand, por exemplo, não aceitam vender livros sem ISBN e, como tal, torna-se de facto imperioso ter o número de registo internacional. Assim, 28 pequenos editores entregaram um protesto na Assembleia da República para que o ISBN volte a ser gratuito e controlado pela Biblioteca Nacional, e não pela APEL, até porque muitos destes pequenos editores não são membros daquela associação. Vamos ver o que acontece.
Escrevemos certamente por muitas razões e não as sabermos nomear é, segundo Duras, justamente uma delas, ou a mais forte. Mas há quem saiba muito bem porque escreve determinadas coisas. É o caso do ficcionista irlandês John Banville, um dos vencedores do Booker Prize com o romance O Mar aqui há uns anos, que, depois de começar a ler os policiais de Simenon em 2004, ficou de tal modo fascinado que criou um pseudónimo – Benjamin Black – só para poder escrever ele próprio policiais que gostaria que fossem tão bons como os do mestre. (Banville diz inclusivamente que Georges Simenon deveria ter ganho o Nobel da Literatura, mas Estocolmo raramente premiou um autor de policiais, se bem que os haja mesmo bons e prolixos, como Simenon e Agatha Christie, por exemplo). Ora, os herdeiros de Raymond Chandler contactaram o romancista irlandês, propondo-lhe que escrevesse uma nova aventura com o herói Philip Marlowe; e, como a mãe de Chandler era irlandesa, Banville (ou Benjamin Black, como queiram) viu aí uma possibilidade de espalhar referências ao seu país no livro, intitulado A Loura de Olhos Negros. Mas o autor literário diz que o autor de policiais é apenas honesto e despretensioso, um artesão, mas não um artista. Black escreve no computador, e Banville numa velha máquina de escrever. Qual vende mais livros? Pois, Banville aparentemente gosta de ganhar o dinheiro que Black lhe rende e divertiu-se tanto que tem vontade de escrever mais policiais.
Hoje, enquanto me estiverem a ler, voo até Paris para participar, a convite da Fundação Gulbenkian, num colóquio dedicado às Artes da Língua Portuguesa comissariado pelo professor Paulo Filipe Monteiro. Vou, infelizmente, perder os intervenientes que falarão esta manhã, mas espero chegar a tempo da mesa da literatura, que me interessa muito, e de ouvir Dulce Maria Cardoso, Rui Zink e Ondjaki, entre outros, e bem assim, depois da sessão, a jovem cantora Luísa Sobral. Amanhã de manhã as artes são outras – cinema, teatro, dança – e à tarde, na companhia do director da Flip (a festa literária brasileira mais badalada) e de um editor francês que durante anos publicou literatura portuguesa, dedicar-me-ei ao tema das estratégias da difusão do português, nomeadamente através dos livros e da literatura. O colóquio promete ser interessante e, se há leitores deste blogue em Paris, pois que apareçam e desfrutem. Eu só regressarei à pátria na sexta-feira, pelo que o blogue só voltará a ter post na próxima segunda. Os interessados podem consultar o programa do colóquio.
Para quem gosta de poesia – e especialmente da de T. S. Eliot, modernista, prémio Nobel da Literatura em 1948 – há uma boa surpresa para breve: a editora Faber & Faber anuncia para o próximo mês de Novembro a saída de uma nova edição da obra do mestre com novidades picantes (sim, eu disse picantes) que podem de algum modo redefinir alguns aspectos da biografia do poeta, sobretudo a nível sexual. Eliot fez voto de castidade em 1928, depois da sua confirmação na igreja anglicana (convertera-se ao cristianismo), embora fosse um homem casado. Crê-se, porém, que não era feliz (em parte através dos poemas que retratavam a relação como disfuncional, em parte porque Vivienne sofria de distúrbios mentais) e correu até o boato de que ele seria impotente; mas Eliot voltou a casar-se uns anos mais tarde e, desta vez, a mulher, Valerie, era alta, gira e trinta anos mais nova do que ele (fora sua secretária); numa entrevista posterior à morte de Eliot, Valerie fez então questão de tornar público que a sua vida sexual fora normalíssima e que o marido, apesar da diferença de idades, se tinha portado sempre bem... Ainda que muitos tenham duvidado, agora, pelos vistos, uns quantos poemas eróticos encontrados em caderninhos vêm mostrar que, na verdade, o senhor Eliot gostava de ter a rapariga nua ao seu colo (estando ele igualmente nu) e de outras coisas que só não digo aqui porque, fora da poesia, soariam vulgares, sem a grandeza que Eliot merece. Foi, claro, preciso passarem uns anos da morte de Valerie (que lhe sobreviveu quase quarenta) para os organizadores desta nova edição poderem vasculhar na sua papelada e descobrir este dado novo; e, se bem que não passemos a gostar mais de Eliot por, afinal, ter líbido, pelo menos é bom saber que temos para ler poemas novos do grande poeta nascido nos EUA e naturalizado britânico, pois, além dos já mencionados de cariz erótico, haverá inéditos da sua juventude, versos que escreveu para crianças e ainda novas versões de outros já nossos conhecidos. Mas o sexo, estou convencida, é o grande chamariz desta nova edição.
Hoje estou aqui de rastos, depois de quatro dias de Escritaria, a caminhar pelas ruas cheias de arte urbana dedicada a Mário Cláudio, o homenageado deste ano, a visitar exposições sobre a sua vida e a sua obra, a ouvir conferências mais académicas e testemunhos mais pessoais sobre o escritor e o homem, o parente e o amigo. Estou que não posso e ainda é só segunda-feira, mas adorei a festa, o carinho de toda uma cidade motivada para gostar de literatura portuguesa ao longo de uns dias em que Mário Cláudio foi muito mimado por jovens actores, jovens músicos, pintores seniores e simples curiosos penafidelenses (penso que é assim que se diz). Claro que ele merece, mas a verdade é que há muito não o via tão bem-disposto, cheio de humor e histórias para contar, uma das quais aqui vos deixo. Tendo ele começado a escrever poesia bastante jovem, dava-se o caso de a família passar umas curtas férias no mesmo local em que Régio fazia uns dias de repouso. Ora, o promissor poeta armou-se de coragem e resolveu que haveria de conseguir a opinião do poeta estabelecido sobre os seus escritos. Arranjou quem lhe proporcionasse o encontro como se fosse por acaso e lá conseguiu estar frente a frente com José Régio. Disse-lhe então ao que vinha, pois claro: queria que ele lesse o que andava a escrever. “São versos?”, terá perguntado o mais velho. “É que de versos estou eu farto.” E, sem pensar, respondeu Mário Cláudio: “É natural, já escreveu tantos.”
Hoje em dia muita gente quer escrever um livro – e eu acrescento: acha que pode. Não discutindo as competências de cada um, a verdade é que o facto de todo o bicho-careta, entre apresentadores de TV e actrizes de telenovela, publicar livros faz com que se pense que escrever não implica talento e o que é preciso é ter uma história para contar (quando o como se conta a história é que, normalmente, faz a diferença). Sei que já falei muitas vezes aqui do tema, mas descobri umas novas dicas importantes. William Boyd, escritor, formula algumas perguntas essenciais aos aspirantes a escritores, que servem, no fundo, para que concluam se, efectivamente, estão habilitados a escrever um livro. E a primeira é justamente «Sabem escrever?», ou seja, se dominam a gramática, não cometem erros, são capazes de se exprimir por escrito de forma a serem entendidos e, claro, conhecem mesmo bem a sua língua; sem isso, meu amigo, de maneira nenhuma se tornarão autores de jeito. «Sabem planificar?» é outra das perguntas, uma vez que a organização da intriga ao longo das páginas de um livro é absolutamente fundamental; não é preciso o plano integral antes de começarem a escrever, mas, à medida que escrevem, têm de saber onde entra o quê sem se espalharem ao comprido. «Têm imaginação?» Ah, pois, há quem julgue que não precisa disto, mas é impossível tornar um episódio credível se o seu autor não o conseguir imaginar, diz o conselheiro. «São suficientemente resistentes?» Sim, Boyd acha que não só escrever um romance implica perseverança, aceitar os momentos menos criativos sem desistir, se calhar cortar páginas e páginas que deram muito trabalho na altura de rever, esperar o tempo que for preciso até o livro estar pronto, mas também que é necessária resistência às críticas depois de o livro sair e ao longo da carreira, porque há na profissão de escritor muitos altos e baixos. Enfim, algumas questões que ajudarão os indecisos a tomar uma decisão em consciência.
E eis que a Escritaria está de volta a Penafiel para, depois de Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina, Mia Couto, Lobo Antunes, Mário de Carvalho e Lídia Jorge (espero não me ter esquecido de ninguém) homenagear em 2015 a obra do escritor Mário Cláudio, autor de ficção, teatro, livros infantis, ensaios, em suma, um escritor multifacetado que já venceu prémios de monta (o Prémio Pessoa, por exemplo) e foi duas vezes galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o mais prestigiante galardão literário nacional. Para a Escritaria, Mário Cláudio preparou Astronomia – o romance da vida de um escritor português, contado em três partes: Nebulosa (infância); Galáxia (maturidade); e Cosmos (o envelhecer). Mas muitas outras pessoas lhe prepararam surpresas para estes dias, desde conferências, entrevistas e testemunhos até à transmissão em antestreia de um documentário biográfico e também uma exposição antológica na biblioteca. Arte de rua, teatro, música, cinema, lançamentos de livros e uma hora do conto para as crianças vão, segundo a organização, «contaminar tudo e todos com a vida e a obra do romancista». Um ano excelente para Mário Cláudio que, além do Prémio da APE e da Escritaria, ainda terá um Congresso dedicado à sua obra em Novembro, na Universidade da Beira Interior.
Todos sabemos que as redes sociais – sobretudo o Facebook, que é a mais frequentada (ou mal frequentada, sei lá; digo isto fazendo parte dela, evidentemente) – estão cheias de lixo que as pessoas partilham, crendo muitas vezes que estão a facultar aos «amigos» verdadeiras gemas ou pepitas. Porém, de vez em quando, também lá se encontram coisas mesmo boas, entre vídeos, fotografias e textos. Foi, de resto, do portal de um facebookiano amigo (já não me lembro qual, lamento) que rapinei uma carta que vos quero mostrar, um texto que, como agora se diz, se tornou viral e foi dos mais partilhados dos publicados no jornal El País do último mês. A carta foi escrita por um rapaz de dezassete anos que vai ter, pela primeira vez, a disciplina de Filosofia na escola e está obviamente entusiasmado com isso; mas, ao mesmo tempo, francamente desiludido com o facto de pertencer à última leva de estudantes que aprenderá filosofia no Secundário, pois parece que o Ministério da Educação em Espanha se encarregou de suprimir o estudo desta disciplina, reservando-o apenas a quem queira cursar Filosofia na universidade (os Governos autoritários não gostam que se ensine a pensar, já o sabemos). No entanto, em vez de me pôr aqui a descrever a carta, sugiro que consultem o link abaixo. Um rapaz de dezassete anos humanista já não é coisa que se encontre frequentemente e vale mesmo a pena ler o que escreve.
http://elpais.com/elpais/2015/09/17/opinion/1442504361_281943.html?id_externo_rsoc=TW_CM
Dizem os especialistas que uma boa maneira de motivar para a leitura é contar histórias às crianças desde muito pequenas; melhor ainda, contar as histórias com o livro na mão e mostrar-lhes as imagens à medida que, expressivamente, se lê o texto de cada página. Ler aos filhos pequenos um bocadinho todas as noites é meio caminho andado para os interessar pelos livros. Pois bem, a tarefa pode parecer fácil, mas, quando os filhos são muitos, a coisa, afinal, complica-se. Um professor de artesanato norte-americano, que costumava sentar um filho em cada joelho para ler a ambos a mesma história, viu a sua vida dificultada quando lhe nasceu um terceiro rebento, o que obrigava Rachel, a filha mais velha, a escutar o conto de pé. E o que fez então para não privilegiar ninguém? Como artesão experimentado, criou uma cadeira de balouço que dá para todos três ouvirem confortavelmente a mesma historinha contada pelo papá. Ao seu invento chamou StoryTime Rocking Chair – e a fotografia desta família para quem as histórias são importantes vai aí abaixo. Uma bela ideia!
Esta é a história da Abelhinha, mas não se iludam, porque é tudo menos infantil. É um livro de que me falaram muito – e bem – há já uns anos e cuja leitura fui adiando porque aparecia sempre outra coisa mais urgente, mas agora consegui degustá-lo de uma assentada. Passa-se entre Londres e a Nigéria, e faz-me alguma espécie não ter sido mencionado nos recentes artigos sobre africanos que vêm escondidos nos porões dos cargueiros em busca de estabilidade na Europa, porque é disso mesmo que se trata e não pode estar mais na ordem do dia. Chama-se A Pequena Abelha e escreveu-o Chris Cleave, autor que nasceu nos Camarões. Está traduzido em tudo o que é sítio e fez parte das listas dos livros mais vendidos em países como o Reino Unido e os Estados Unidos no ano da sua publicação, recebendo elogios dos mais prestigiados jornais e revistas (incluindo o Guardian e o New York Times). E fala da história verdadeiramente trágica da Abelhinha, nome escolhido por uma rapariga nigeriana de catorze anos que foi testemunha da destruição da sua aldeia por causa do malfadado petróleo e, conseguindo embarcar clandestinamente rumo a Inglaterra, é internada num centro de detenção para refugiados e libertada dois anos depois em Londres – mas seria talvez mais correcto dizer «despejada por engano» numa das maiores cidades do mundo. Na contracapa do livro pedem aos leitores que não contem a história a ninguém, por isso não vou ser desmancha-prazeres. Direi apenas que tem momentos terríveis, dolorosos, bonitos, duros, também algo lamechas, e – além da Abelhinha – tem mais duas outras personagens de peso: uma jovem viúva inglesa e o seu filho de quatro anos, o fã número um do Batman, que protagonizam cenas impressionantes. E pronto: se estão interessados no assunto dos novos migrantes, aqui têm uma obra para perceberem melhor certas coisas. Além do que já sabem, bem entendido.
Depois de ter publicado um livro chamado Esse Cabelo de que convém afastar toda e qualquer suspeita de futilidade (é, na verdade, o contrário disso), deixem-me aproveitar um dia sem ideias e assumir um post inteiramente fútil. Acho que todos nós (mulheres e homens, não importa) gostamos de nos apresentar bem ao lado de pessoas de quem gostamos, ou que respeitamos, ou até que não conhecemos, mas a quem queremos causar boa impressão por isto ou por aquilo. Sempre que fui à TV participar em algum programa e aquelas magníficas maquilhadoras profissionais se ocuparam de me pôr mais bonita, a verdade é que toda a gente me dizia depois como ficara tão bem. Ora, apesar de não ter nascido sem dotes para os trabalhos manuais (sei coser e tricotar), acontece que, se me pinto sozinha, na maior parte das vezes fico pior do que com a cara lavada. Percebi recentemente que também para isso é preciso ciência. E como? Pois bem, como haveria de ser? Num livro, que também os há sobre estas coisas comezinhas. Chama-se Maquilhagem Real para Mulheres Reais, escreveu-o a Inês Mocho e quem me falou dele foi a editora, que é minha colega e mo ofereceu quando lhe expliquei como era, de facto, bastante naba em questões de maquilhagem (que não de borrar a pintura). Assim, lá experimentei seguir os conselhos da autora no dia de um casamento para que fui convidada há pouco tempo e não é que os resultados foram compensadores? Tive de comprar alguns produtos novos, mas, enfim, acho que valeu a pena. Desculpem-me a futilidade, mas quem sabe não ajudo algumas leitoras de caminho?
Tenho aqui referido várias vezes que Portugal, pela exiguidade do seu mercado, é um país onde é terrivelmente difícil viver da escrita (a menos, claro, que se seja uma estrela de TV transformada em escritor, mas os casos contam-se pelos dedos de uma mão). Porém, ao que parece, também nos países onde o mercado é substancialmente maior as coisas não andam de feição para quem escreve. Leio no Guardian um artigo que me informa de que, nos EUA, os rendimentos dos escritores desceram 30% em cinco anos (entre 2009 e 2014) e que muitos dos chamados «autores em full time» estão a receber mensalmente um valor que raia o limiar da pobreza. No entanto, não se vendem menos livros do que antes, a razão é diferente. Não só o aparecimento do digital favoreceu a pirataria (circulam pela net milhares de livros pelos quais os autores não recebem quaisquer direitos, tal como acontece, de resto, com filmes), mas também empresas dominantes como a Amazon levaram ao fecho de muitíssimas livrarias tradicionais, incapazes de concorrer com esses gigantes que, usando o seu poder, obrigaram os editores a aceitar condições que nunca aceitariam se não soubessem que, actualmente, sem a Amazon, iriam à falência. E essas condições leoninas passaram também do editor para o autor, que passou a receber menos direitos, sobretudo em edições que praticamente não têm custos, como os e-books, o que a Authors Guild considera profundamente injusto. Em Portugal, as vendas de e-books ainda não ameaçam o livro em papel, mas já existe bastante pirataria e é preciso estar muito atento ao que o futuro trará.
Há uns vinte anos, fiz uma viagem ao Japão para visitar um amigo de infância que, na altura, trabalhava em Tóquio. Na casa dele, já então havia moderníssimos aparelhos de todos os tipos (plasmas, estereofonias, etc.) com ar de terem sido demasiado caros; mas não o eram, porque, segundo explicou o meu amigo, os Japoneses são doidos por tecnologia e estão sempre a vender o que têm em casa para comprar o último modelo (todas as coisas que ele possuía tinham sido compradas em segunda mão, baratas, e eram, portanto, modelos considerados obsoletos em Tóquio, embora por cá fossem o último grito). Isto explica porque no Japão as vendas de livros online superam largamente as vendas de livros feitas pelas livrarias tradicionais que, com o tempo, têm vindo a perder clientes e muito dinheiro, sobretudo para a gigante Amazon.jp. De resto, para disso se defender, uma cadeia de livrarias chamada Kinokuniya (só uma das lojas tem a maluqueira de 66 andares, portanto deve ser outro gigante) resolveu adquirir 90% da tiragem do próximo livro de Murakami (um livro de ensaios) só para não permitir que o mercado digital se ocupe de mais de 10%, propondo-se vender exemplares com desconto a distribuidoras e retalhistas que estejam interessadas em revender. Tudo para que as livrarias tradicionais não morram e também elas possam ter maiores margens de lucro. Enfim, uma luta de Titãs…
A Cecília Andrade, editora da Dom Quixote, tem vindo a publicar a obra de Philip Roth, alternando títulos mais recentes com títulos mais antigos. Aconselho quem goste deste autor a não falhar nenhum e, podendo, começar pelo princípio e ir desbastando a lista. Mas, como não tive essa sorte, falo-vos agora de um romance dos anos 1980, A Lição de Anatomia (com excelente tradução de Francisco Agarez), que saiu recentemente e é para mim um dos melhores e mais divertidos. Inclui – como outros – o alter-ego de Roth como protagonista, o escritor judeu Nathan Zuckerman que, no início do livro, está morto com dores no pescoço e nos ombros há ano e meio, passou por médicos e tratamentos sem fim mas não sente melhoras, tem quatro mulheres a tratarem dele (em todos os sentidos, sobretudo naquele em que não estavam a pensar, tendo em conta que é um doente) e está viciado em analgésicos, vodka e marijuana, a única forma de conseguir alhear-se da dor. Mas, como perceberemos ao longo de muitas peripécias, Nathan tem outros problemas que se prendem com a morte dos pais (que nunca lhe perdoaram certas coisas que escreveu), a página em branco, os críticos literários pouco simpáticos e a saudade de ter amigos e uma ideia de futuro, pelo que decide, aos 40 anos, deixar de escrever e ir tirar medicina para a Universidade de Chicago, onde em jovem estudou literatura… Vale a pena ler o que acontece, claro, mas prepare-se para muito desaforo, muito sexo (dito e feito) e muito descalabro até ao final, sobretudo quando Nathan encontra uma personagem digna da melhor ficção e lhe veste a pele. Um livro que é mesmo à Roth.
Uma investigação recente trouxe ao de cima alguns dados terríveis: nos EUA, ao que parece, o tempo médio de leitura de um artigo na Internet é de 15 segundos (ou seja, não é lido, é apenas espreitado) e, em 2014, um quarto dos cidadãos americanos adultos não tinha lido um livro sequer (e são muitos estes cidadãos, como sabemos). O estudo, do Pew Research Center, refere que todos os que têm hábitos de leitura mostram ter mais memória e mais capacidades mentais em todas as fases da vida do que aqueles que vivem com o nariz colado ao écran do computador, sempre a saltar de imagem para imagem, para além de serem melhores oradores (têm muito mais vocabulário) e, o que não é de somenos, até melhores pessoas em geral. E acrescenta agora uma vantagem que será seguramente uma benesse para quem sofre de insónias: quem lê na cama, mesmo que apenas uns minutinhos, dorme garantidamente melhor! Eu sou mais de ler sentada e é já quando tenho sono que me vou deitar…
Leio no site da TSF uma curiosíssima notícia a respeito da originalidade da pena que certo magistrado no Irão vem aplicando aos adolescentes que se estreiam no pequeno furto ou crime do mesmo tipo. Tomando consciência de que, para gente nova e sem cadastro, a permanência numa prisão ou num reformatório deixa marcas físicas e psicológicas irreversíveis que tantas vezes só podem agravar o comportamento que leva ao delito, o juiz resolveu então aplicar uma receita verdadeiramente interessante: uma lista de livros que é preciso comprar e ler. Estes livros têm temas variados e graus distintos de complexidade; mas, de todos eles, é suposto o réu fazer um resumo que tem de entregar depois ao juiz como prova de ter cumprido o castigo (espero que não roube a sinopse da Internet). Os livros lidos por estes pequenos criminosos serão depois distribuídos por estabelecimentos prisionais, até porque este magistrado acredita que a leitura tem um efeito apaziguador, contribuindo para uma diminuição da violência entre os reclusos. E esta, hein?
Há muitos anos, mesmo muitos (contá-los far-me-ia sentir velha e escuso-me a esse embaraço), li Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que ainda consigo recordar em que lugar da estante se encontrava na casa dos meus pais. Mas, estupidamente, tinha-me esquecido de como este cubano escreve primorosamente, de como cada frase sua, cada parágrafo – às vezes longo, saboroso – é um presente para qualquer leitor digno desse nome. E digo isto porque, à procura de um outro livro, os meus olhos pousaram por acaso em Concerto Barroco, de Carpentier; e, dispondo de um meio dia para leituras não profissionais, logo me apropriei da novela que, por razões que nem eu própria compreendo, nunca me tinha passado pelos olhos (na verdade, nem a tinha, ganhei-a com o casamento – e o dote que o Manel trouxe tem muitas prendas destas). Pois, se a encontrarem à venda (eu sei que não é fácil), não a percam: é daqueles pequenos livros enormes! E tem como protagonista um mexicano (o «índio») que, em viagem à Europa, mais concretamente a Veneza durante o Carnaval, se mascara de Montezuma, o derrotado imperador dos Aztecas, e passa uma noite inesquecível com Vivaldi, Scarlatti e Haendel, além de com o seu criado negro que é uma espécie de improvisador de jazz avant la lettre. Anacronismos à parte – ou não, porque eles são parte integrante do enredo –, esta é uma história de como o Novo Mundo nunca foi bem compreendido pelo Velho Continente e de como as revoluções – como a cubana – são fundamentais para que certas coisas possam mudar. Procurem este Concerto Barroco e deixem-se, por favor, desconcertar.
A escritora britânica Joanne Harris desafiou os leitores do seu blogue a enviarem-lhe frases que fossem simplesmente a última coisa que um escritor quereria ouvir – e houve de tudo, mas a autora seleccionou as que considerou pessoalmente mais irritantes, entre as quais figurava uma, fora do comum, que eu achei divertidíssima: «Desculpe, mas só temos descafeinado.» Em todo o caso, as mais contundentes diziam respeito à ideia que os outros fazem da profissão de escritor e do que, na verdade, é escrever. Ora vejam alguns exemplos: «Para além de ser escritora, o que é que faz?» «Ah, escreve livros? Mas qual é o seu verdadeiro emprego?» «Nunca mais acaba o livro porquê? Caramba, não pode ser assim tão difícil.» «Quando me reformar, também vou escrever um livro.» «Eu também escreveria se tivesse mais tempo livre.» «Que sorte ter uma família que a apoie/sustente.» Num outro patamar, estavam frases um tanto inconvenientes que diziam respeito ao completo desconhecimento da carreira da autora, como «Ah é escritora? E que pseudónimo usa?» ou «Ah, pensei que já tinha morrido». Uma outra questão – a de se achar que os escritores devem fazer borlas, que já tem sido aqui discutida – era levantada pela afirmação «Não lhe podemos pagar nada mas é uma excelente oportunidade para ver o seu nome ligado a uma publicação como a nossa». E, entre muitas outras, gostei da que dizia respeito ao veredicto depois da leitura de uma versão final de um romance: «Até que nem está nada mal para um primeiro rascunho. É um rascunho, certo?» Se conhecer algum escritor, já sabe, há coisas que não lhe deve perguntar.
Cada vez mais é preciso encontrar o ovo de Colombo em matéria de turismo – e a literatura também atrai portugueses e estrangeiros. A Direcção Regional de Cultura do Norte (DRCN) lançou, por isso, recentemente o projecto Escritores a Norte, que inclui vários autores portugueses de renome, promovendo as respectivas obras num itinerário traçado a partir dos espaços que lhes são dedicados. «Hoje as pessoas querem visitar um território que se diferencie e nós entendemos que utilizar estes vultos da cultura nacional, que têm uma relação próxima com o Norte, seria uma boa forma de valorizar o território», diz o director da DRCN, que anuncia também, no âmbito deste projecto, a criação de um portal online (ver link abaixo) onde é possível encontrar toda a informação sobre as casas-museus envolvidas no projecto e os escritores e património associados, bem como a publicação de um livro e a produção de nove documentários. Para já, entre os autores visados (e as suas casas), contam-se Miguel Torga e José Régio, Camilo (claro) e Aquilino, Ferreira de Castro, Eça e Guerra Junqueiro. Mas, com o tempo, se a coisa correr bem, quem sabe se não se multiplicam as visitas a outros locais relacionados com outros escritores e vultos da cultura nortenha? Esta pode ser uma bela forma de viajar.
Os meus autores de romances também gostam de escrever livros para crianças e Não Acordem os Pardais, de Nuno Camarneiro (texto) e Rosário Pinheiro (ilustrações), é o primeiro que publico este ano (mais para a frente darei também a conhecer estreia de Ana Margarida de Carvalho na literatura infantil). Neste belo livro do Nuno, a Rita tem o cabelo azul e muitas perguntas para fazer aos pais que, por cansaço, às vezes não dão muita atenção ao que lhe respondem. Daí que a menina tente saber por si própria onde mora o papão, que afinal é bem medricas, para onde vão os sonhos (estarão em caixas de cartão?) e onde dormem os pardais que, por acaso, fazem bailes bem giros no sótão da casa quando ninguém está a ver. Um texto divertido e imagens muito bonitas para deliciar meninos e meninas com cabelos de todas as cores.
Já aqui vos falei de uma actividade organizada pelo jornalista João Morales que dá pelo nome de Recordar os Esquecidos e acontece no último sábado de cada mês, ao fim da tarde, na Livraria Almedina do Atrium Saldanha. Tem normalmente dois convidados, que escolhem uma pequena lista de livros mais ou menos esquecidos pelo público e pelas livrarias, hoje difíceis de encontrar; e sobre eles falam a quem assiste com o intuito de, pelo menos entre os presentes, conseguirem que alguns desses títulos voltem a ser lidos. Vou estar então por lá amanhã a contar dos meus queridos esquecidos; e em muito boa companhia – com o João Paulo Cotrim, editor da Abysmo e, claro, também o organizador do encontro. Falarei, entre outros, dos livros Casa de Campo, de José Donoso, Clube de Cavalheiros, de Anne Harris, Uma Barragem contra o Pacífico, de Marguerite Duras e Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse. Terei todo o gosto em que por lá apareçam para saber o resto.
Já vai sendo hábito. Mas é irresistível quando a Livraria Arquivo, de Leiria, nos convida a visitá-la. Desta feita, teremos para apresentar dois livros que saíram recentemente: a obra do nosso retratista oficial, João Pinto Coelho, intitulada Perguntem a Sarah Gross, um romance admirável sobre Auschwitz antes e depois de o ser, com as histórias de duas mulheres que guardam muito de terrível e secreto; e o delicioso O Caçador do Verão, de Hugo Gonçalves, com algumas das mais belas páginas sobre a infância de um protagonista meio perdido na história do passado da família. Se estiverem por esses lados, por favor, apareçam e de certeza que não se arrependerão.
Já vos falei do belo livro de Paulo Moreiras – Pão & Vinho – que trata de duas coisas de que os Portugueses (e muitos mais habitantes deste mundo) não abdicam e que fazem, de resto, parte da sua matriz identitária. É uma obra fascinante, além de bonita, que aborda as origens destes dois produtos típicos da nossa gastronomia, mas que nos oferece um sem-número de histórias divertidas e curiosas à sua volta, bem como adivinhas, provérbios, lendas e tradições resgatadas ao nosso património etnográfico. Ora, este livro terá uma sessão de apresentação na próxima sexta, na Casa da Cultura, em Setúbal, com o apoio da Livraria Culsete, do BlogOperatório (de José Teófilo Duarte) e do jornal Sem Mais, com a novidade de contar também com a colaboração de uma enóloga, Joana Vida da Adega Venâncio Costa Lima, que organiza no local uma prova de vinhos. Não falte!
Há livros que mudam a nossa vida, que a viram do avesso e nos fazem pensar em coisas que nunca teríamos pensado sem eles. Há livros que nos mudam por dentro, e é bom que isso aconteça, significa que cumpriram o objectivo de dialogar com os leitores. Mas há livros que conseguiram mudar o mundo inteiro com as suas ideias e acabaram por influenciar os homens e mulheres do seu tempo e muitos outros de gerações subsequentes. Podem ser tratados ou romances, livros religiosos ou peças de teatro, não importa. O jornal The Guardian (desculpem estar sempre a citá-lo, mas é um jornal tão interessante) elaborou uma lista de dez títulos desta natureza e põe à cabeça O Segundo Sexo, de Simone De Beauvoir, obra revolucionária no tocante à sexualidade feminina que irritou o Vaticano nos finais dos anos 40, quando foi publicada. Mas do rol fazem também parte a Bíblia, claro, ou Analectos de Confúcio, um texto com 2400 anos que continua a ser lido até hoje. Não podiam também faltar textos científicos, como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, ou Elementos, de Euclides. A Interpretação dos Sonhos, de Freud, tinha de fazer parte desta escolha, tal como O Manifesto Comunista, de Engels e Marx, que revolucionou o mundo. Ainda temos a obra de Shakespeare e o romance Beloved, de Toni Morisson, a afro-americana premiada com o Nobel da Literatura. E um livro que confesso não conhecer, A Sand County Almanac, obra póstuma de Aldo Leopold que é, pelos vistos, considerada um dos mais importantes livros sobre a Natureza.
Já aqui falei de A Zona de Interesse, do britânico Martin Amis, por causa da polémica que criou assim que foi publicado no Reino Unido e que levou alguns dos editores habituais do autor noutros países – especialmente em Franca e na Alemanha – a recusarem a sua publicação. Na altura, quando li o artigo que me serviu de base a esse post, fiquei com a ideia de que Martin Amis quisera apenas brincar com coisas muito sérias, como o Holocausto; mas, depois de ler o livro, não acho que seja brincar – talvez mais falar de um assunto que é muito sensível de forma completamente desbragada e introduzir na temática terrível dos campos de concentração uma história de amor entre as não-vítimas, que começa por ser um engate puro e duro, mas acaba por tornar-se uma paixão inusitada – de uma das partes, pelo menos. O romance, que tem lugar em Auschwitz (a zona de interesse), tem três narradores: o dandy Thomsen (sobrinho do secretário de Hitler e, portanto, intocável); o comandante do campo, Paul Doll, conhecido como o Velho Beberrão e marido de Hannah Doll, que Thomsen cobiça; e por fim o judeu Szmul, um dos homens mais tristes do Lager, escolhido para seleccionar entre os seus pares quem morre e quem se safa e para carregar os cadáveres para fora da vista da leva seguinte de judeus (a parte mais bonita, mas se calhar a mais chocante, sobretudo ao abordar velhos e crianças). Para quem gosta do humor inglês, talvez os editores que recusaram publicar a obra possam parecer demasiado picuinhas, porque, não fosse o tom (basta ler a página que o editor português destaca sobre as vítimas de experiências médicas), tudo o que aqui se conta é tremendo, mas soa autêntico e é profundamente interessante. Para mim, o maior problema foi acompanhar páginas e páginas cheias de palavras alemãs – nomes, cargos, tiques de linguagem das personagens (a extraordinária Cristina Torrão tem de certeza a vantagem de não sentir isto como obstáculo) que tornaram a leitura cansativa e não me permitiram tirar todo o partido da obra que seria desejável. Mesmo assim, acho que deve ler-se – mas, atenção, é um prato que se serve mesmo frio.
O jornal The Guardian revela que, nos dias de hoje, o aspecto das secretárias se tornou uma questão importante para intelectuais e gestores em todo o mundo e que já muito se tem escrito e investigado sobre o assunto. Tenho ideia de que o que temos em cima das nossas secretárias e a forma como as deixamos ao fim de um dia de trabalho dirá bastante acerca da nossa personalidade. Eu sou arrumada na minha desordem, mas tenho de deixar sobre a minha mesa tudo o que é para tratar no dia seguinte, pois, se cometo o disparate de o tirar da minha frente, posso realmente esquecê-lo durante semanas (a memória já não é o que era). O jornal britânico partilha a fotografia da secretária do escritor japonês Haruki Murakami, muito limpinha e organizada: além do computador, uma caneca com a bandeira da suíça, um bibelot de um jogador de baseball do seu clube, alguns talismãs trazidos de viagens, dois copos cheios de lápis iguaizinhos, um candeeiro, uma agenda e pouco mais. Serão assim tão despojadas e vazias as dos outros escritores? E as das pessoas com outras profissões? O Guardian pede que lhes enviemos fotografias das nossas secretárias e promete publicar as suas preferidas, pedindo que, por favor, não as limpemos para o retrato. Quer contribuir ou nem por isso?