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A mostrar mensagens de dezembro, 2013

Férias de Natal

Hoje, dia 24 de Dezembro, publico aqui no blogue o último post de 2013. Vou tirar uns diazinhos de férias, como se ainda fosse estudante, para pôr a vida e a papelada em dia, e voltarei no primeiro dia útil de 2014. Quero desejar a todos os leitores destas Horas Extraordinárias o melhor Natal que lhes seja possível viver num período especialmente difícil para Portugal e os Portugueses (soou-me a discurso político, mas é sincero, juro). Não exagerem nos doces, que o dentista é caro, nem recebam demasiados presentes (dar é outra coisa), que os tempos não estão para exageros. Leiam, se puderem, que é o que também tentarei fazer. E, sobretudo, regressem no ano que vem, que esta sala comum não é nada sem os vossos acertados comentários. Eu deixo-vos com um presentinho, um anúncio curioso que um amigo me contou ter encontrado um dia num jornal francês: «Realizador de cinema procura anão para pequeno papel em curta-metragem.» Não é literatura, bem sei, mas já estou em mood de férias e temos de nos rir de qualquer coisa. Boas festas a todos. Vemo-nos por aqui no ano que vem.

A velha guarda

Quando Cavaco Silva ganhou as eleições e tomou posse como Presidente da República, logo se percebeu que a sua relação com a cultura era absolutamente nula (quer dizer, já se desconfiava, mas deu para confirmar). O professor de números é bastante parco em conhecimentos literários e artísticos; e, mesmo para os que nunca gostaram de Soares e Sampaio, é inegável o fosso que existe entre o que estes dois senhores sabiam de literatura, música e pintura e o que Cavaco Silva (não) domina. Não é, claro, o único político ignorante (antes fosse) – e a nova geração de políticos formatados nas juventudes partidárias é toda mais ou menos desinteressante e com pouco ou nenhum mundo (além de Cuba, Cancún e Punta Cana, suponho). No dia 2 deste mês, fui a uma sessão comemorativa dos 25 anos da publicação de Gente Feliz com Lágrimas, o multipremiado romance de João de Melo – que é, de resto, a sua obra mais emblemática e acaba de ter uma edição especial. Para falar dela, além do autor, estava o jornalista Fernando Alves (brilhante condutor da conversa) e Jaime Gama – sim, esse mesmo, que foi, além de deputado e ministro, presidente da Assembleia da República aqui há uns anos (e é açoriano como o autor). Devo dizer que fiquei absolutamente boquiaberta com a sua prestação. Já sabia que se tratava de alguém inteligente, o que não sabia era que tinha tanta bagagem cultural (perdemos o hábito de acreditar em políticos cultos, lá está) e, melhor ainda, que tivesse capacidade para fazer uma leitura crítica do romance digna de um professor universitário de literatura (relacionando o romance com obras de muitos outros autores ou situando-a num contexto de ruptura com movimentos e escolas anteriores) e, ao mesmo tempo, que expusesse o seu ponto de vista com clareza suficiente para que todos os presentes o acompanhassem sem quaisquer espinhos (não levava papel, note-se). Já no fim da sessão, percebi que todos estavam igualmente maravilhados com ele e que tudo o que se comentava a esse respeito era que a geração de Jaime Gama (não importa de que partido) era, de facto, de outra cepa e que, a partir dela, tem sido sempre a descer... Ora, se o exemplo vem de cima, como diz o povo, estamos mesmo com um irremediável azar.

O senhor Manguel

O senhor Manguel, de nome próprio Alberto, passou parte significativa da sua juventude a ler para Jorge Luis Borges e apaixonou-se, naturalmente, pela literatura (embora já tivesse um fraquinho por ela antes). É um literato muito respeitado em todo o mundo, tendo vivido, além de na Argentina, onde nasceu, em Israel, no Canadá e em França, onde está actualmente. Foi professor, tradutor, crítico (no New York Times e no Times Literary Supplement, por exemplo) e antologiador, além de romancista, mas é pelos seus estudos literários que é mais famoso e aplaudido. Entre outras obras, escreveu Uma História da Leitura e também o Dicionário de Lugares Imaginários, de que já falei neste blogue e foi recentemente publicado em português pela Tinta-da-China. Ora, por causa da saída desse livro em Portugal, o senhor Manguel foi recentemente entrevistado pela Lusa e deu, nessa entrevista, a sua opinião sobre a literatura portuguesa, afirmando que «tradicionalmente, Portugal tem autores que fazem parte da grande literatura universal, como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Lobo Antunes ou Gonçalo Tavares» (foi, de resto, por causa da menção a Tavares que chamei ao post «O senhor Manguel», quiçá exprimindo o desejo de que o jovem escritor dedique a Manguel um dos seus volumes do Bairro no futuro). Quando um estudioso desta craveira se refere elogiosamente a escritores da pátria, não podemos senão ficar satisfeitos. Digamos que foi um bonito presente de Natal.

Comprar livros

Ainda que os jornais anunciem que os Portugueses, com a crise, diminuíram o seu investimento em produtos culturais, e estudos europeus revelem que há muitos portugueses que nem um livro lêem num ano inteiro, as grandes cadeias de livrarias abrem novas lojas perto do Natal. No Centro Comercial das Amoreiras, onde já existia uma Bulhosa e uma Bertrand, há agora uma nova FNAC, de que foram recentemente padrinhos a fadista Ana Moura e o escritor Valter Hugo Mãe. Nos Restauradores, junto à estação central dos Correios (ai, meu Deus, que será dos Correios daqui por uns tempos?), a Book-it., do Continente, abriu igualmente uma loja e já começou a receber diariamente autores para sessões de autógrafos. E, no Shopping Cidade do Porto, a Bulhosa Books and Living, que era uma das mais interessantes livrarias da Invicta, deu lugar a uma Bertrand que ainda não conheço mas tenciono visitar em breve. Enfim, sendo boas notícias (na verdade, é bem simpático haver mais livrarias aonde ir ver e comprar), também tenho pena de que não seja nada de novo, uma vez que noutros países europeus o que ainda vai safando a literatura são os livreiros independentes, que se apaixonam por determinados livros e autores e fazem tudo por eles. Recentemente, por exemplo, a editora francesa de O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, partilhou connosco uma carta escrita por um livreiro de Toulouse a propósito do romance que era a um tempo uma recensão como já não se faz e uma declaração de amor ao livro. Em Portugal, já quase não conheço ninguém que o pudesse fazer...

Não estamos sós

No início do próximo ano vou publicar excepcionalmente na Teorema dois livros traduzidos, entre os quais o de um autor da Coreia do Sul que dizem ser o melhor da sua geração (nasceu em 1968). Chama-se Kim Young-ha (os nomes dos coreanos escrevem-se com o apelido no princípio) e darei oportunamente conta da sua novela original e algo kafkiana chamada Tenho o Direito de Me Destruir. Mas foi por causa dela que li algumas coisas sobre o mercado coreano na Internet e me apercebi de que, enfim, não estamos sós nas nossas amarguras. A crise no meio editorial é tão grande por aqueles lados que 94% dos editores não lançaram um único livro em 2012. As pessoas, sem um tostão no bolso, deixaram de ler jornais, de ir ao cinema e de comprar livros (onde é que eu já vi isto?) – excepto quando o preço é suficientemente competitivo e, quanto a isto, parece que uma cadeia de livrarias em segunda mão, a Aladino (com dezasseis lojas, incluindo uma em Los Angeles e uma forte presença online) faz um inesperado sucesso em tempos difíceis e «rouba» todas as hipóteses de negócio às editoras, fazendo um desconto médio de 50% aos seus clientes. A Coreia do Sul não tem lei do preço fixo, pelo que é ainda mais difícil combater a política de preços da Aladino, que os editores coreanos consideram míope e precipitada e em nada contribuir para que os leitores do país contactem com novas obras e autores contemporâneos. Parece que, apesar de tudo o que tem acontecido em Portugal no mercado dos livros, ainda há quem esteja pior do que nós.

Hermanos

Já aqui falei de alguns livros de Adolfo García Ortega (autor de, entre outros, O Comprador de Aniversários, um pequeno grande romance sobre uma vida em Auschwitz), mas talvez nunca tenha dito que ele é igualmente um grande editor que trabalha na Planeta, em Espanha. Uma noite, há uma década, durante a Feira do Livro de Frankfurt, encontrámo-nos para jantar na mais bonita praça da cidade e, sabendo da incapacidade proverbial dos espanhóis para nos perceberem, toda a noite me dirigi a ele no meu fraco castelhano, o que foi apesar de tudo eficaz, não tendo havido qualquer obstáculo à comunicação. Eu não esperava era que, à despedida, ele me brindasse com a surpreendente tirada: «Sabes, estou mesmo contente... Não fazia ideia de que percebia tão bem português.» Piadas à parte, foi no blogue deste amigo, Otra Galaxia/Club Cultura, que encontrei a seguinte afirmação de Borges: «Os espanhóis bem se podem gabar de falar lindamente espanhol, o problema é que não são capazes de escrever um bom livro.» (E eu aqui acrescentaria «Nem de falar outra língua», mas não é o momento para vinganças.) O destinatário da frase era um outro Adolfo, Bioy Casares, mais um grande escritor argentino, e a conversa ocorreu nos idos de 1962. Talvez hoje nos seja difícil concordar com ela (há muitos escritores espanhóis de grande qualidade, como Marsé ou Marías, por exemplo), mas o autor do blogue acaba por dizer que, «salvo raras excepções, efectivamente a literatura espanhola enlanguesce como o país, que há duzentos anos está metido numa campânula que ainda cheira a padres e príncipes». Será? Bem, posso não ter percebido bem... O meu espanhol, já se sabe, é muito fraco.

Vértice

A revista Vértice, fundada em Coimbra no ano de 1942, tornou-se um instrumento de luta política e resistência à ditadura e, simultaneamente, uma espécie de porta-voz do movimento neo-realista. O seu papel como laboratório de ideias progressistas foi tão importante ao longo dos anos que mereceu um livro a propósito (A Revista Vértice e o Neo-Realismo Português, de Viviane Ramond, muito elogiado por Eduardo Lourenço). Mas tudo tem o seu tempo e a Vértice adormeceu há muito... Porém, excepcionalmente, voltou há uns dias com um número inteiramente dedicado ao Ciclo Nacional de Conferências «José Saramago: o escritor e o cidadão», com o apoio da Câmara Municipal da Moita e da Câmara Municipal do Barreiro. Este Ciclo de Conferências fez, de resto, parte de um projecto intitulado Oficina Saramago, que envolveu escolas, associações, colectividades e entidades privadas em várias acções que decorreram entre Novembro de 2011 e Novembro de 2012, e para o qual foram convidadas personalidades nacionais e estrangeiras conhecedoras da obra do nosso Nobel da Literatura. Uma boa razão para termos a Vértice de volta, mesmo que por pouco tempo.

Infâncias sombrias

Conheço mal a literatura nórdica, até porque só de há uns anos para cá as editoras portuguesas começaram a apostar nela (havia, claro, alguns clássicos, mas creio que só depois do sucesso da série Millennium se decidiu olhar com mais atenção para os escritores suecos, por exemplo). Já aqui falei de um autor que apreciei bastante (Per Petterson) e agora acabo de ler outro livro duro e bonito que tem muitos pontos de contacto com a última obra de Valter Hugo Mãe, Desumanização. Trata-se de A Casa com Alpendre de Vidro Cego, da escritora norueguesa Herbjørg Wassamo, que fala da vida de Tora, uma criança, numa ilha onde se vive essencialmente da pesca (e mal). Tora carrega o estigma de ser filha de um soldado alemão que se apaixonou pela mãe, Ingrid, durante a ocupação (e foi morto, sabe-se lá por quem, antes de poder regressar à pátria); mas, como se isso não bastasse, a sua infância é sacudida permanentemente pela perseguição do padrasto alcoólico, uma vez que Ingrid trabalha no turno da noite da fábrica de conservas e não pode acompanhar a filha. E, contudo, esta menina encontra formas de resistir absolutamente notáveis, entre as quais está a leitura de livros e as «conversas» com um rapazinho surdo-mudo chamado Frits. Numa Noruega ferida pela guerra e muito pobre, sempre cheia de frio e vento, esta infância é uma lição de sobrevivência – e a escrita de Wassamo verdadeiramente bela e mágica. Diz-se na contracapa que este é apenas o primeiro livro de uma trilogia. Venham os outros dois, pois estão a fazer falta.

Mais vale tarde

Aqui há um ano escrevi um livro sobre Amália para os mais pequenos, os que nasceram depois da sua morte e não sabem nada da vida de uma das maiores artistas portuguesas, nem o que realmente fez para transformar o fado no que é hoje. Foi também no ano passado que reuni a minha poesia num só volume e prometi ir a Coimbra falar dela em vários sítios, mas não consegui cumprir por – como sempre – excesso de trabalho. Hoje, porém, tirei-me das minhas tamanquinhas e vou estar em Coimbra, que recentemente viu a sua universidade eleita Património Mundial pela UNESCO, para falar destes dois livros. Primeiro, com crianças, numa escola, ao princípio da tarde; e pelas 18.30h na Mercearia de Arte, com o Pedro Beja Alves, que ali faz um trabalho notável de promoção cultural e convida regularmente escritores e artistas para uma conversa informal à roda da respectiva obra. Se estiverem por lá, apareçam.

Escravos modernos

Não se fazem fortunas por acaso (nem por se ser sério e honesto, calculo), e é natural que as gigantescas empresas mais lucrativas do mundo escondam processos de enriquecimento menos bonitos do que gostaríamos. Um jornalista aceitou infiltrar-se num dos cinco armazéns da Amazon no País de Gales e tornou-se funcionário da companhia, montando uma câmara escondida da BBC que acompanhava o seu trabalho a par e passo. Ora, Adam Litter – assim é o nome do jornalista – era obrigado a trabalhar cerca de dez horas e meia e, pasme-se!, a andar cerca de dezassete quilómetros por dia, pois de 33 em 33 segundos deveria recolher um novo pedido e, quando o final do tempo se estava a aproximar, o scanner que trazia na mão começava a apitar tal qual as máquinas que medem a frequência cardíaca e anunciam a morte dos pacientes com um sinal agudo e permanente. Se não cumprisse a média, ficava sob observação e recebia uma advertência de que poderia perder o emprego e ser substituído. Os seus pés, como podem calcular, estavam num estado lastimoso e, quando a Amazon disse cumprir todas as regras laborais, foram suficientes para mostrar que não era bem assim... Enfim, já sabíamos que havia muita coisa a mudar para pior no mundo empresarial moderno, mas temos sempre a esperança de que as empresas que trabalham com produtos culturais se portem melhor do que as outras, não sei porquê.

Presentes (não) muito católicos

Quando chego todas as manhãs ao quiosque para comprar o jornal, além da bisbilhotice sobre os famosos que salta logo à vista em mil capas flamejantes, sobressai um sem-número de objectos que alegram os olhos: carteiras, copos, lenços, toalhas e até faqueiros distribuídos à peça, que quem quer vender revistas oferece como brindes em todas as estações do ano (no Verão, há até toalhas de praia e chapéus). Também alguns livros mais «senhoriqueiros» vêm agora celofanados com frascos de perfume e bolsinhas com estrelas brilhantes e natalícias numa espécie de dois-em-um que pretende convencer o cliente a levá-los e, assim, dar a alguém um presente mais valioso. Mas do que eu não estava mesmo à espera era de que um livro do Papa Francisco, Sobre o Céu e a Terra – no qual o simpático Jorge Bergoglio fala da família, da fé e do papel da Igreja –, aparecesse nos escaparates das livrarias como um produto de quiosque, trazendo colado à capa um saco com uma medalhinha e um santinho como oferta. Enfim, bem sei que os livros se vendem cada vez menos nesta época de crise, mas brindes neste caso não me parece lá muito católico...

O poeta e a rainha

No dia 1 deste mês, o poeta Nuno Júdice recebeu das mãos da monarca espanhola, em Madrid, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. Este prémio, que visa galardoar uma obra de inegável interesse no contexto da Península Ibérica e é atribuído pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca, fora apenas entregue uma vez a um português – no caso, Sophia de Mello Breyner Andresen. O autor, que é também ficcionista, ensaísta e dramaturgo, viu já a sua obra merecer muitos outros prémios de relevo, por romances ou colectâneas de poemas, como os da APE e do PEN Clube e bem assim o Prémio D. Dinis ou o Fernando Namora. Mas um prémio desta craveira é excepcional, até porque permitirá certamente maior atenção à nossa poesia por parte dos nossos vizinhos. Nuno Júdice acaba de lançar um novo poemário, Navegação de Acaso, nas Publicações Dom Quixote. Espero que esta distinção, amplamente difundida nos meios de comunicação, leve alguns dos que não o conhecem a lê-lo e apreciá-lo.

Etc & tal

Quando era universitária e havia Feira do Livro, ia lá quase todos os dias cheirar os Livros do Dia e procurar pérolas esquecidas nos tabuleiros laterais dos pavilhões. Tinha tempo para procurar e comprei nessa altura muitos livros que hoje são raridades e, bem vistas as coisas, me custaram quase nada. Entre esses tesouros, muitos são de formato quadrado, com capa acastanhada, como a dos velhos cartuchos, e conteúdo exemplar. Foram publicados pela & etc, uma editora que celebra este ano o seu 40.o aniversário sob a direcção de Vitor Silva Tavares e se conseguiu manter independente neste novo paradigma que é o da edição industrial. A & etc lançou poetas e publicou textos fundamentais (lembro-me, por exemplo, de Fabulário, de Mário de Carvalho, e da estreia de Margarida Ferra com Curso Intensivo de Jardinagem, só para citar dois exemplos separados no tempo). As regras sempre foram particulares: os livros nunca são reeditados e os autores abdicam dos direitos, a tiragem é idêntica para qualquer título e não se oferecem exemplares à comunicação social. A qualidade impera. Para celebrar os 40 anos da & etc, uma outra editora, a Letra Livre, publica sob a coordenação de Paulo da Costa Domingos o livro & etc – uma editora no subterrâneo, especialmente importante para os que só conhecem a edição a partir do século XXI. Um hino à resistência.

Portugueses incultos

De tanto em tanto tempo, a União Europeia faz um inquérito sobre os hábitos culturais dos cidadãos europeus, e o mais recente Eurobarómetro conclui que os Portugueses estão, com os Romenos e os Búlgaros, entre os que têm menos práticas culturais. Não frequentam bibliotecas públicas, não vão ao teatro nem a museus e, mesmo que de vez em quando não resistam a um concerto da sua banda favorita, muitos nunca assistiram a um espectáculo de dança ou ópera na vida. O cinema, que ainda era a área em que os Portugueses escapavam nos inquéritos anteriores, deixou também de ser frequentado pela maioria dos cidadãos nacionais (em dez meses, houve menos 1,2 milhões de espectadores nas salas), que agora preferem ver filmes na televisão. A televisão, aliás, parece ser o que ocupa 70 e tal por cento da população, enquanto apenas 40 por cento confessam ter lido um livro no último ano. As conclusões do relatório apontam para o facto de a crise obrigar a um decréscimo do consumo de produtos culturais – e é óbvio que, entre alimentar os filhos e ir ao teatro ou ver uma exposição, o português (ou outro qualquer) opta pela subsistência da família; mesmo assim, sabe-se que a culpa está em grande parte numa educação muito deficitária em termos de formação artística e na subsequente apatia nacional pelos valores culturais. Claro que o inquérito não distingue cidade e campo, litoral e interior – e os resultados podiam ser bastante diferentes se o fizesse. É pelo menos uma boa notícia que sejam os mais velhos quem menos lê e mais TV consome, pois assim sempre podemos ter alguma esperança no amanhã. De todo o modo, quando olhamos para os números dos países nórdicos (na Suécia, 90 por cento das pessoas leram pelo menos um livro em 2012), ficamos tristes. Nunca conseguiremos lá chegar.

O escritor debaixo de olho

Com tudo o que se está a passar actualmente em Portugal – escutas telefónicas, apelo à queixinha, dispensa de jornalistas que falam do que as administrações não querem (normalmente por causa de assuntos que nada têm que ver com a qualidade da informação) – há já quem refira um regresso velado à censura e comece a ter cuidado com o que diz e a quem o diz. É também natural que alguns escritores, enquanto vão compondo a sua obra, sintam espreitar atrás deles o leitor, e isso influencie o que escrevem, embora outros garantam que não. Em todo o caso, esse leitor não é exactamente um espião e nada pode contra o texto. Há, porém, outro tipo de espionagem menos simpática – e um estudo realizado pelo PEN nos EUA revela que, por exemplo, cerca de 85 por cento dos escritores norte-americanos se sentem sob vigilância e acham que isso afecta a liberdade com que escrevem: evitam abordar determinados assuntos, fazer pesquisa na Net sobre outros e, pior do que isso, trocar ideias com colegas estrangeiros. Os que mais temem esta vigilância são os jornalistas e os autores de livros de não-ficção, que precisam de proteger as suas fontes, mas também já muitos romancistas se escusam a escrever sobre certos temas, como o terrorismo ou o fanatismo religioso, a criação do Estado palestino ou a bomba atómica e o Irão. O relatório apresenta números algo impressionantes, sobretudo que 28 por cento dos autores interrogados se recusam a participar em actividades mediáticas, 24 por cento não falam ao telefone sobre questões consideradas sensíveis e 16 por cento desistiram de escrever sobre um tópico específico. Bem, acho que aqui não chegámos a tanto, mas, como diz o povo, o futuro a Deus pertence.

Ler em Cracóvia

A Unesco nomeou a belíssima Cracóvia «Cidade Literária», depois de o ter feito com Norwich e Edimburgo; e, junto à imponente praça do Mercado, foram colocadas as letras da expressão Cracóvia, Cidade da Literatura (em polaco, claro) para que os passantes pudessem divertir-se a com elas construir muitas outras palavras (e parece que algumas foram imediatamente desfeitas por não serem propriamente bonitas). Embora não associemos logo Cracóvia aos livros, a verdade é que ali decorrem anualmente dois festivais literários internacionais (o Festival Milosz e o Festival Conrad), uma feira do livro de grande dimensão e mais uma série de acontecimentos envolvendo escritores de todo o mundo, como Orhan Pamuk, Zadie Smith ou o poeta sírio Adonis, que foram visitas recentes. É também nesta cidade, e não na capital, que fica o Instituto do Livro da Polónia e dezenas de outros locais – igrejas, sinagogas, teatros, museus e cafés – que, durante todo o ano, albergam tertúlias, encontros de poetas, leituras e performances relacionadas com a literatura. Viveram ali os dois prémios Nobel que a Polónia recebeu, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tendo esta última residido na que é hoje a Casa do Escritor, que foi inicialmente um refúgio para autores desalojados na sequência da destruição de Varsóvia pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Se Cracóvia já devia ser visitada antes, agora ainda apetece mais lá ir. E quem sabe um dia a Unesco não se lembra também de premiar uma cidade portuguesa com esta distinção.

O que ando a ler

Infelizmente, este último mês foi de muito trabalho burocrático, de planos e orçamentos, e não li tanta coisa como planeava, especialmente fora da editora, que é quando ler não é obrigação. Mas quero chamar a atenção para um romance de um ainda jovem autor, Bruno Vieira Amaral, que estou a terminar por estes dias. Chama-se As Primeiras Coisas e tem a particularidade de construir um universo bastante original, o Bairro Amélia, conglomerado de habitações precárias na margem sul onde vivem (não tão harmoniosamente como seria desejável) ciganos, retornados, traficantes de droga, abortadeiras, aspirantes a grandes craques de futebol, assassinos, velhinhas, testemunhas de Jeová e muita outra gente. O narrador (cujo nome sabemos a páginas tantas, quando uma personagem o interpela, ser Bruno, como o autor) regressa ao Bairro Amélia ao fim de uns quantos anos de afastamento, por causa do divórcio e da perda do emprego, e instala-se em casa da mãe. E, embora não pareça reconhecer nesses primeiros dias muito do seu passado, arranjará maneira de, com a ajuda de um dos seus contemporâneos que nunca dali saiu, recuperar um catálogo de figuras mortas e vivas que fizeram a história do Bairro Amélia ao longo de anos. Mas, se ao princípio tememos ter apenas uma lista de personagens pela frente – descritas cada uma por sua vez em ficha individual –, a verdade é que o autor sabe cruzar as suas vidas como ninguém, e às vezes apenas através de pormenores aparentemente insignificantes, oferecendo-nos uma panóplia inteligente de vítimas e bandidos, todos sem excepção amaldiçoados pelo «enguiço» de lhes ter calhado morar no Bairro Amélia. O narrador e a sua família não são, de resto, excepção – e muito haveria a dizer sobre esta matéria, mas é preciso ler o livro. De salientar, é também a capacidade de Bruno Vieira Amaral para descrever ambientes e repescar marcas e objectos que, não sendo do seu tempo, integra com enorme sabedoria nos seus cenários.

Pensar antes de agir

Ao longo da minha vida profissional, pude acompanhar algumas polémicas entre intelectuais, fosse através de relatos em livros que li ou editei – de António José Saraiva, por exemplo, ou na reedição de Rumor Branco, de Almeida Faria –, fosse assistindo, mais ou menos em directo, à zanga entre figurões em cartas duras e azedas publicadas nos jornais. Algumas dessas polémicas eram, de resto, notáveis na sua qualidade literária e pensante e dignas de grandes cabeças, mesmo que nem sempre concordássemos com a matéria em discussão. Creio que um autor que é vítima de uma crítica desonesta ou falsa deve responder ao autor do texto. Uma vez, quando eu escrevia livros juvenis, saiu uma recensão a um livro meu na qual se dizia que as personagens eram demasiado bem-falantes para a idade em certas passagens, oferecendo um excerto como exemplo; só que, por acaso, nesse excerto as personagens estavam a ler, e não a falar… Escrevi uma carta ao jornal e a coisa esclareceu-se. Desde então nunca mais respondi a críticos, embora de vez em quando me apetecesse defender os meus autores de alguns textos não muito bem-intencionados sobre obras suas e, sobretudo, quando se percebe que o crítico não os leu, só folheou (como num caso em que o romance tinha três personagens e o recenseador mencionava apenas duas). Recentemente, pareceu-me, mesmo assim, um bocado insólito que um poeta se tenha insurgido contra um crítico que elogiava a sua obra num jornal. Estava furioso com o facto de metade do texto serem citações de poemas do livro e, em blogue pessoal, mandava o crítico meter as quatro estrelas que lhe atribuíra num certo sítio (acentuando, ainda por cima, o U). Com razão ou sem ela, os termos em que se queixou mancharam a excelência da sua poesia – e o crítico respondeu com luva branca e saiu a ganhar. Mais valia o poeta ter pensado antes de agir, digo eu. Nas velhas polémicas, mesmo com verrina e sangue, tenho ideia de que havia (mais) elegância.