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A mostrar mensagens de fevereiro, 2019

Manicómio

Antes, mandar alguém para o manicómio podia ser deveras insultuoso, mas deparei recentemente com um artigo de jornal em que um artista se dizia muito contente por ir trabalhar para o Manicómio. Bem, tenho de explicar porquê: é que este Manicómio é um espaço de trabalho conjunto (de coworking, como agora se diz) no Beato, em Lisboa, para artistas e escritores com doença mental; na companhia uns dos outros, seja qual for a área (desenho, escultura, escrita), podem ali criar com dignidade e sem preconceito (e até pedir opiniões ou inspirar-se no trabalho alheio). O projecto foi criado por Sandro Resende e José Azevedo, que trabalharam durante vários anos no Hospital Júlio de Matos com pessoas com «experiência de doença mental», cruzando às vezes os seus trabalhos com os de artistas plásticos de renome (Pedro Cabrita Reis, Jorge Molder...) e artistas internacionais (Kusturica, por exemplo). Segundo eles, a ideia é tirar as pessoas dos hospitais psiquiátricos e integrá-las em espaços de criatividade, recebendo elas além disso um salário pelo seu trabalho. Com este artigo, descobri que a poetisa Cláudia R. Sampaio está neste espaço a desenhar (além de escrever) e que é sua a frase sobre a felicidade de ir para o Manicómio (diz que este é mesmo um bom nome para um grupo de artistas com uma sensibilidade muito apurada). Os seus desenhos são, aliás, bem bonitos (há um vídeo em que a vemos pintar) e estão à venda como qualquer outro objecto artístico, sem preços de favor. Existe ainda a ideia de abrir um restaurante chamado Manicómio neste espaço. O nome é tão bom (ou melhor) do que qualquer outro.

Jornalismo cultural

Todos os anos a Sociedade Portuguesa de Autores atribui um prémio de jornalismo cultural àqueles que se dedicam especialmente a divulgar a cultura nos nossos meios de comunicação; e deve estar a fazer mais ou menos um ano que falei aqui de Nuno Pacheco, jornalista do Público que se tem dedicado, entre outras coisas, à divulgação da música portuguesa (e a bater no Acordo Ortográfico, o que também é importante) e foi o vencedor em 2018. Anunciado há dias, o prémio de 2019 irá ser entregue, no próximo dia 7 de Março, ao jornalista Luís Caetano, que é uma voz inconfundível da Antena 2 da RDP. Depois de ter apresentado, com Inês Fonseca Santos, o programa diário Câmara Clara na RTP 2, Luís Caetano é responsável por apresentar na rádio, entre outros, os programas A Força das Coisas, A Ronda da Noite e A Vida Breve. E, além disso, sabe conduzir mesas-redondas e ler poesia, o que não é para todos. Parabéns!


 

A bibioteca de um estilista

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Karl Lagerfeld, o estilista de alta-costura que foi responsável por marcas tão conhecidas como a Fendi ou a Chanel, morreu há mais ou menos uma semana e foi chorado por muitos, incluindo a princesa Carolina do Mónaco, que era sua amiga. Rui Zink, na sua prestação nas Correntes d’Escritas uns dias depois do acontecimento, disse, com o humor de sempre, que a partir de agora já não vai saber como se vestir; mas curiosamente não é a sua roupa (a desenhada por Lagerfeld, entenda-se) que aqui me traz hoje, mas a sua biblioteca. Antes de tudo, é gigantesca, já que compreende centenas de catálogos de colecções; e, formada sobretudo por álbuns (de pintura, arquitectura e design), foi uma exigência do costureiro alemão a colocação dos volumes nas estantes horizontalmente, para a fácil e rápida identificação dos títulos. Com o pé-direito altíssimo, a sala onde foi instalada é quase totalmente preenchida por livros, exceptuando uns sofás confortáveis em que os leitores podem sentar-se a ler e umas escadas para chegar ao topo das estantes. Noutras salas de casa do estilista, também há livros, colocados sempre na horizontal com a lombada para fora. Não sei o que será agora desta colecção de livros de Lagerfeld – e espero que não venham a ser vendidos a peso, como tantas vezes sucede quando as gerações seguintes não ligam aos livros nem têm onde os pôr. E, enquanto não desfazem a biblioteca, deixo-vos algumas imagens para se extasiarem.


 


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Querida loja de conveniência

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Keiko foi sempre estranha – e os pais perguntam-se onde encaixará ela no mundo real. Por isso, quando a rapariga vai trabalhar para uma loja de conveniência, a notícia é recebida com entusiasmo, até porque na loja ela encontra um mundo bastante previsível, que domina com a ajuda de um manual e copiando os colegas até na forma de falar. Mas aos 36 anos é ainda na mesma loja de conveniência que trabalha, e além disso nunca teve um namorado, frustrando as expectativas da sociedade… Embora Keiko não se importe com isso, sabe que a família e os amigos estão mais ou menos desesperados. Um dia, porém, é contratado para a loja um rapaz com o qual Keiko tem algumas afinidades. Não será então aconselhável para ambos um relacionamento? Este é o ponto de partida de Uma Questão de Conveniência, de Sayaka Murata, uma das vozes mais originais e talentosas da ficção contemporânea japonesa. O romance, que foi traduzido em mais de vinte países e vendeu 650 000 exemplares no Japão, é o retrato de uma heroína deliciosa que promete ser tão memorável como Amélie Poulain. Espero que gostem.


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Crónica e convite

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Hoje é dia de partilhar a crónica, e desta vez tem que ver com acasos (ou não) que, bem vistas as coisas, se podem tornar desagradáveis. Aqui fica o link:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-fev-2019/interior/algoritmo-e-mulheres-nuas-10546818.html


 


E, para que não se esqueçam, deixo também o convite para segunda-feira. Trata-se de uma conversa à roda do romance vencedor do Prémio LeYa, Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior, na qual participam, além do autor, Ana Sousa Dias e Mirna Queiroz. Apareçam!


 


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100 contos curtos

Em Portugal, pelo menos até há uns anos, dizia-se que os livros de contos não tinham grande sucesso e os livreiros também torciam o nariz quando publicávamos colecções de contos, a menos que fossem de um autor já celebrizado por romances. Parece estranho, porque para quem, por exemplo, anda de autocarro entre a casa e o emprego, ou tem de esperar na sala do dentista por uma consulta, ou quer ler só umas páginas antes de adormecer, o conto tem o tamanho ideal e podia, por isso, servir os leitores portugueses como serve os norte-americanos, por exemplo, grandes apreciadores das short-stories. Espero que os os hábitos mudem, ou já tenham mudado, pois há contistas que não se podem perder, sendo Borges, por exemplo, um mestre no género, e Cortázar, seu conterrâneo, outro. Os latino-americanos são, de resto, autores de pequenas histórias incríveis e, para os Extraordinários que não vão na conversa da estatística e gostam de ler contos, deixo aqui uma lista de cem que apanhei por aí numa revista de cem contos curtos da literatura universal. Há mesmo muito por onde escolher!


 


https://www.yaconic.com/lee-100-cuentos-cortos/


 

Que coisa mais linda

Bem, não consigo esconder que, apesar dos malefícios do turismo para as nossas cidades (e já se estão a ver na expulsão de pessoas das casas que há tantos anos habitavam, por exemplo), gosto muito de saber que lá fora consideram Lisboa e o Porto alguns dos melhores destinos turísticos do mundo; chamem-lhe patriotismo. Um dia destes uma poeta mexicana (Blanca Luz Pulido) mandou-me um artigo que começava assim (não traduzo, pois creio que os Extraordinários perceberão): «En Lisboa todos sus moradores son agradables, son corteses, son liberales y enamorados, porque son discretos.» Julguei que era de agora que falavam quando avancei no texto, toda inchada, e dei com isto: «La ciudad es la mayor de Europa y la de mayores tratos, en ella se descargan las riquezas del Oriente y desde ella se reparten por el universo. La hermosura de sus mujeres admira y enamora.» Oh diabo... Reparando melhor, concluí que estas eram palavras de Miguel de Cervantes, calculem, escritas em Los trabajos de Persiles y Segismundo (1617), romance publicado em Lisboa e Madrid um ano depois da sua morte. Pois parece que o autor do Quixote andou por estas bandas a ver se arranjava um emprego na corte de Filipe II. E esta, hein? Parece que nem os especialistas sabiam quase nada da estância de Cervantes na capital portuguesa que, ao que parece, foi justamente onde se fez escritor. Que orgulho, não? Coisa linda mesmo.




 



Correntes x 20 anos!

Hoje começam mais umas Correntes d'Escritas. Mas a data é mesmo especial porque se trata do 20.º aniversário deste fantástico encontro de escritores que, organizado pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim com a querida Manuela Ribeiro como «curadora» (e não é que ela cura mesmo de todos os males?), se tornou o festival literário português mais importante do ano, de tal modo que os editores já escolhem publicar no mês de Fevereiro os títulos de autores de línguas ibéricas que têm em carteira. Eu, como editora, terei este ano muitos autores nas Correntes: Mário Cláudio, Isabel Rio Novo, Afonso Reis Cabral, António Tavares e o estreante Itamar Vieira Junior, de cujo romance ontem aqui falei. Mas vou eu própria participar de um diálogo com Luís Carmelo a propósito da minha maneira de escrever e, bem entendido, assistir ao desempenho de tantos e tantos intervenientes dois dois lados do Atlântico. Entre eles, conta-se a minha querida fadista e amiga Aldina Duarte, que também vai cantar mais logo no Teatro Garrett. Para quem esteja por perto, não perca as lindas Correntes. Quem vai uma vez quer ir sempre! Parabéns pelos 20 aninhos! Programa completo no link abaixo.


 


https://www.cm-pvarzim.pt/areas-de-atividade/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2019/programa


 

O nosso vencedor

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Hoje começarei o dia com o vencedor da última edição do Prémio LeYa, Itamar Vieira Junior, que vem às Correntes d'Escritas e estará em Lisboa para dar entrevistas e lançar o seu belo e comovente romance. Torto Arado fala de duas irmãs, Bibiana e Belonísia, filhas de trabalhadores de uma fazenda no Sertão da Bahia, descendentes de escravos para quem a abolição é uma data marcada no calendário e nada mais. Intrigadas com uma mala misteriosa sob a cama da avó, pagam o atrevimento com um acidente que mudará as suas vidas, tornando-as tão dependentes que uma será até a voz da outra. Mas, com o avançar dos anos, a proximidade vai desfazer-se : enquanto Belonísia parece satisfeita com o trabalho na fazenda, Bibiana percebe desde cedo a injustiça da servidão que há três décadas é imposta à família e decide lutar pelo direito à terra. Para isso, porém, é obrigada a partir, separando-se da irmã... Para a semana, fazemos uma sessão em Lisboa, que lembrarei oportunamente. Entretanto, o livro está aí para quem o quiser ler.


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Crónica e Pessoa

Aqui vos deixo o link da crónica em dívida:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-fev-2019/interior/kundera-e-o-pequeno-ecra-10509639.html


 


Aproveito para dizer que amanhã às 15h00 a casa Fernando Pessoa organiza uma visita de uma hora dedicada a pais e filhos, tios e sobrinhos, avós e netos... As crianças irão descobrir a vida do poeta, os adultos os cantinhos à casa. Os mais pequenos pagam 2 euros (na verdade, o preço é esse até aos 12 anos) e os crescidos 4 euros. E o que é mais bonito é que esta actividade de visita à casa, sob marcação, está também disponível para surdos, em língua gestual. As inscrições fazem-se neste link: servicoeducativo@casafernandopessoa.pt


 

Matar dois coelhos

«Matar dois coelhos de uma cajadada» é o que hoje vou fazer à Figueira da Foz, embora o PAN me aconselhasse certamente a «matar» a expressão de uma vez por todas ou trocar talvez os coelhos por duas pedras, ou qualquer outra coisa que se presuma «insensível» e não possa mexer-se ou queixar-se dos meus «tirinhos». Pois bem: às 18h00 lançamos no edifício do Museu e da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz o mais recente romance de António Tavares, Homens de Pó, que já referi aqui no blogue como sendo uma narrativa que atravessa o ano de 1975 e tem por protagonistas uns quantos desgraçados que, vindos das colónias, constroem uma auto-estrada no Norte de Portugal e assistem à desordem do País num ano muito especial (o da Ponte Aérea, onde também vieram). E depois, no espaço da biblioteca, haverá lugar pelas 21h30 a mais uma sessão das 5.as de Leitura, que desta feita convidam Afonso Reis Cabral para falar do seu mais recente livro, Pão de Açúcar, sobre o homicídio de um transexual na cidade do Porto perpetrado por um grupo de adolescentes. Se estiver por aquelas bandas, não falte.

Em queda

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem). Depois de, na altura da Feira do Livro de Lisboa, uma agente literária alemã me ter dito que a Alemanha (a Alemanha?) perdeu seis milhões de leitores em quatro anos, ouço agora um testemunho do professor responsável pelo mestrado em Edição na Sorbonne num podcast do site da revista profissional Livres Hebdo e fico de boca aberta: a França teve a sua maior queda de vendas de livros dos últimos dez anos – 45 milhões de exemplares em 2018 contra 54 milhões em 2017. A França, que foi sempre o símbolo do país livre e educado a que aspirávamos (sobretudo, antes do 25 de Abril) está em declínio há já muitos anos (por isso já tão pouca gente aprende francês), mas os resultados da Frente Nacional de Marine Le Pen de há uns tempos para cá e as mais recentes manifestações dos coletes amarelos mostram bem que as coisas vão pior do que gostaríamos. E, sem leitura, a tendência é mesmo para bater no fundo…

Amor, amor

Estamos praticamente no Dia dos Namorados – uma celebração que, quando eu era jovem e namorava, não existia, mas que, como muitas outras coisas que podem dar receitas jeitosas aos comerciantes e fabricantes portugueses (e hoje parece que tudo parte da questão do dinheiro), se importou do mundo anglo-saxónico e se instalou com a mesma força das festas nacionais. Não tem de ser mau só por não ser nosso, atenção. E  é, aliás, objecto de um encontro que acontece hoje ao fim da tarde na Livraria Bertrand do Chiado e que promete ser, no mínimo, divertido. A Quetzal junta dois dos seus autores para a sessão «Vamos falar de... Amor»: Helena Vasconcelos, autora de Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas que os Mereçam (sobre o qual escrevi aqui no blogue quando saiu), e José Riço Direitinho, autor de O Escuro Que Te Ilumina, que ainda não li (embora o tenha lá em casa), mas apenas porque raramente me consigo escapar das prioridades, pois tenho imensa curiosidade sobre esta nova faceta do escritor, que começou a sua carreira literária com romances ambientados sobretudo no meio rural. A sessão decorrerá às 18:30h e os intervenientes são ambos críticos literários (será que escreveram sobre os livros um do outro?) mas, ao mesmo tempo, pessoas muito diferentes, o que vai de certeza enriquecer a conversa. Cupido moderará, suponho.


 

Sete rosas mais tarde

É assim mesmo (Sete rosas  mais tarde, roubado ao poema «Cristal», de Paul Celan) o nome de um ciclo dedicado à solidão que terá lugar no Centro Cultural de Belém durante este mês de Fevereiro e a primeira quinzena de Março. Partindo de textos literários e/ou dramáticos de Dostoévski (Confissões de Um Coração Ardente), Hermann Broch (A Criada Zerlina), Jorge Amado (Os Capitães da Areia) ou até a obra poética do já referido Celan (que será objecto de uma conferência de João Barrento, professor de literatura alemã e grande tradutor), a solidão promete tornar-se epidémica no bom sentido (já o é no mau, infelizmente, com meio mundo metido em casa a olhar para um ecrã e a falar com os «amigos» das redes sociais) e estender-se ao teatro (grandes encenações e interpretações no horizonte), à dança e à música (haverá ópera, música sinfónica e música de câmara – para todos os gostos). Tudo para nos sentirmos menos sozinhos, de certeza, e além disso para vermos como tantas formas de arte trataram o tema desta experiência radical e universal que é a solidão. (Gostei do título de uma performance chamada «Sozinhar» no dia 16 de Março.)

Crónica e exposição

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Aqui vai a crónica que ainda não tinha partilhado:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-jan-2019/interior/erros-seus-ma-fortuna-10482317.html


Aproveito para divulgar uma exposição na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, na Costa de Caparica, de Jorge Calado (também cronista do jornal Expresso), que me pareceu bastante interessante e nasceu de um acaso (uma inundação) com livros (estragados?). Tem que ver com química, claro, mas parece-me belíssima para qualquer leigo na matéria. Deixo um apontamento. Estará patente até final do mês.


 


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Sessão memorável

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Publiquei um livro maravilhoso (gaba-te, cesto) de um escritor flamengo contemporâneo, Stefan Hertmans, que descobri por ter andado quase sempre a par do romance de Han Kang (A Vegetariana) e o New York Times o ter destacado como um dos livros do ano (2017). E é mesmo uma maravilha que não se pode deixar de ler: chama-se Guerra e Terebintina e, resumindo muito, fala de um avô cuja ambição era pintar mas passou anos a combater na Primeira Guerra Mundial e nunca pôde dedicar-se ao que gostava; além disso, casou-se com a irmã da rapariga que amava (só lendo saberão porquê) e acabou a sua vida a registar lembranças nuns caderninhos que foram, depois da sua morte, passados os 90 anos, parar à mão do neto (que é justamente Stefan Hertmans). Aparenta-se com algumas obras de Sebald, foi ultrapremiado internacionalmente e traduzido em metade do mundo. E o autor está cá hoje, para uma sessão que eu presumo vai ser memorável, pois serão dois netos de ex-combatentes na Primeira Guerra Mundial (o autor e Nuno Rogeiro) a conversar sobre os respectivos avôs, e uma grande jornalista a mediar a conversa (Susana Moreira Marques). Venham e não se arrependerão! Na Livraria Buchholz às 18h30.


 


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Retratos ambíguos

Li no Público da semana passada (na véspera da viagem, julgo eu), que os desenhos que as crianças fazem de si próprias variam consoante a pessoa que as observa enquanto desenham (e as respectivas autoridade e familiaridade em relação à própria criança). Assim, se um menino estiver a desenhar o seu próprio rosto ao lado de um polícia que não conhece, é mais susceptível que o desenhe triste; mas, se uma menina estiver a representar-se ao pé da mãe ou de alguém de quem goste e que goste dela, provavelmente o resultado será o oposto, uma carinha risonha. O estudo incluiu 175 crianças de 8 e 9 anos no Reino Unido e foi levado a cabo pela psicóloga Esther Burkitt, que queria provar que a expressividade das crianças varia com a sua audiência (o que podia ser mais ou menos óbvio a nível de reacções ao conhecido/desconhecido, mas já não tanto no que toca ao desenho propriamente dito) . Bem, quando eu era professora, lembro-me de que tínhamos de trabalhar o retrato físico e psicológico na aula de Português e pedir aos alunos que fizessem o seu auto-retrato por escrito. Será que este exercício estará igualmente ligado à «expressividade» e que, tendo uma professora querida e simpática, a miudagem se descreve de uma forma mais positiva e, no caso contrário, deixa sobressair o menos bom? Um psicólogo que o estude – eu cá não sei a resposta.

Bibliotecários Lx

Jorge Luís Borges via o paraíso como uma espécie de biblioteca – e eu diria que, para quem adora ler, nada é mais natural (e que, abstraindo dos ácaros do pó e dos peixinhos de prata – verdadeiras pragas –, todos os Extraordinários gostariam provavelmente de viver num mundo parecido com esse, cheio de livros à mão). Como será, contudo, com os que passam realmente os seus dias numa biblioteca – os bibliotecários? Uma mestranda da FCSH da Universidade Nova (na área do documentalismo) fez uma tese sobre as leituras dos bibliotecários das Bibliotecas Municipais de Lisboa – e, para mim, as surpresas foram bastante grandes. Em primeiro lugar, dos 16 entrevistados (um por biblioteca), só uma minoria falou da leitura por prazer; pelos vistos, lêem sobretudo coisas que têm que ver com a sua profissão, para se manterem informados e actualizados, mas nem todos «desfrutam» como nós de um bom romance ou ensaio, por exemplo. Em segundo lugar (talvez consequência da circunstância que acima referi), a maioria não requisita livros na biblioteca, compra-os; o que é paradoxal, mesmo que saibamos que as bibliotecas não adquirem tudo o que seria necessário e estão muito sequinhas de publicações de nicho e mais recentes (a crise não ajudou e houve anos em que não houve praticamente aquisições). Por fim, todos afirmaram ter grande disponibilidade para ler e fazê-lo diariamente (quando eu pensava que, por estarem sempre ao pé dos livros, se calhar chegavam a casa e queriam ver séries). No fundo, estamos sempre a aprender.

O que ando a ler

Pode parecer estranho (e é), mas ando a ler As Aventuras de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, não tanto por ser uma amante do género ou uma apaixonada do autor, mas porque me interessa muito uma coisa chamada «lógica dedutiva», ou seja, a quantidade de coisas que se podem deduzir só de olhar para alguém (função, origem, nacionalidade, temperamento, personalidade, saúde) ou de observar alguma coisa. O senhor Holmes é um ás nisso e, por vezes, o cliente nem precisa de lhe dizer quem é e ao que vai, porque ele em três tempos adivinha tudo. Há muitas adaptações das aventuras do detective, seja em televisão, seja em filme, e todas representam Holmes com um chapéu de fazenda aos quadrados e um cachimbo curvo, mas a verdade é que nos livros não existe tal descrição, e li algures que foi numa peça de teatro que o encenador introduziu esse dado que ficou para sempre. Uma coisa que desconhecia até há pouco tempo é que Conan Doyle era um médico com muito tempo livre (tal como Watson, que é o narrador das aventuras e um admirador incondicional do detective) e escreveu livros sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo espiritismo. Boas leituras.