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A mostrar mensagens de outubro, 2017

O menino e a menina

O politicamente correcto às vezes (quase sempre) enerva… E aquela história de não poder haver livros e brinquedos diferentes para meninas e meninos é um bocado irritante. Todos conhecemos meninas que adoram ser princesas e rapazes que só querem carros e bolas, e isso é tão normal que até se diz que uma menina é maria-rapaz se preferir correrias ao ar livre a brincar aos pais e às mães (era o meu caso, supostamente por ter um irmão pouco mais velho). Enfim, tudo quanto é demais é erro, e agora foi a vez da Real Academia Espanhola (RAE) se insurgir contra a forma como os políticos se dirigem ao eleitorado, com um «caros e caras» e «todos e todas», que considera um abuso do politicamente correcto, uma vez que os falantes de espanhol (e o mesmo acontece com os de português) não estão necessariamente a discriminar quando usam o plural masculino «caros» ou «todos» para se referirem a homens e mulheres, nem precisam de mudar a sua língua para fugir ao sexismo. O relatório da RAE critica as novas tendências linguísticas usadas por universidades, sindicatos e governos regionais em Espanha, que propõem a utilização de palavras como «cidadania» para substituir «os cidadãos» (cá também houve a polémica do Cartão de Cidadão acho que por causa do BE) ou «o professorado» para falar de professores dos dois sexos. O jornal argentino La Nación concorda, dizendo que não é preciso ser lexicógrafo para perceber que a palavra «infância» não equivale a dizer «os miúdos». O autor do relatório defende que «o uso genérico do masculino para designar os dois géneros está muito enraizado no sistema gramatical espanhol» e que não faz sentido «forçar as estruturas linguísticas». E foi aprovado por unanimidade pelos membros da Academia, da qual fazem parte muuuuuuuuuitos escritores. Então, aqui no blogue, quando eu falar de Extraordinários, não estou a omitir as mulheres, certo?

Influência e influências

Numa recente entrevista ao vivo conduzida pela jornalista Isabel Lucas na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, o grande romancista norte-americano Jonathan Franzen «pediu» para não responder a uma pergunta sobre os autores que mais o influenciaram. Essa pergunta é sempre incómoda para um escritor (e também para os escritores que não cita e ainda estão vivos e gostariam de ter influenciado os mais novos); incómoda porque talvez um crítico a sério perceba melhor quais são as influências de um escritor do que ele próprio (por vezes, até as inventam – como quando disseram que a minha poesia era claramente influenciada por um livro que nunca li). Contudo, o mesmo Jonathan Franzen, numa entrevista ao The Guardian, confessou que a obra que certamente teve mais influência na circunstância de se tornar escritor (atentem na nuance, pois não é a mesma coisa que Isabel Lucas lhe perguntou em Lisboa) era As Crónicas de Narnia, essa série juvenil do britânico C. S. Lewis que vendeu mais de 100 milhões de exemplares em todo o mundo e na qual as crianças entram num guarda-fatos e saem do outro lado num mundo mágico. Aí convivem com feiticeiras boas e más, animais humanizados, criaturas míticas, estrelas, anões e sei lá que mais. Embora durante muitos anos esta colecção de aventuras fantásticas tenha parecido a muitos uma obra menor, a verdade é que levanta questões muito interessantes e tem um leque de personagens capaz de fazer qualquer jovem querer ser outra pessoa – ou, como no caso de Franzen, querer ser escritor. Nesta perspectiva, o poeta que mais me influenciou a escrever poesia foi seguramente João de Deus – mas isso não tem nada que ver com as outras influências de que ela provavelmente sofre.

Descobertas

No ano passado (ou no anterior, já não sei muito bem) fui a Coimbra à Casa da Escrita participar numa apresentação da minha Poesia Reunida por uma investigadora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Teresa Carvalho. Não a conhecia até então, mas passei a estar mais atenta ao seu nome e descobri que não só escrevia regularmente artigos sobre literatura portuguesa ou recensões na imprensa como também era presença regular em festivais na qualidade de entrevistadora e apresentadora de autores. Ontem, muito por acaso, à procura de um livro de que precisava e já não sabia onde tinha metido, descobri uma edição da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) de uma obra intitulada 55 Vidas e Obras de Grandes Autores Portugueses, assinada justamente por Teresa Carvalho (a edição já tem uns cinco anos), obra que lhe foi encomendada na sequência de uma exposição (A Celebração dos Autores) na qual a SPA homenageava cerca de quatro dezenas de autores portugueses, todos eles membros daquela Sociedade. A colecção de olhares sobre as figuras inclui nomes como Alexandre O'Neill ou Aquilino Ribeiro, David Mourão-Ferreira ou Eugénio de Andrade, António Botto ou Fernando Namora. Mas os autores não são apenas escritores, e constam do volume nomes de criadores como o de António Variações ou Frederico de Brito (um homem do fado), Mário Viegas ou Viana da Mota, Carlos Paredes ou Jorge Peixinho… e, por exemplo, alguns menos óbvios como Humberto Delgado e Ribeirinho. Enfim, vou espreitar. Não sei se só os membros da SPA tiveram direito a um exemplar, mas tenho sorte de ter sido uma feliz contemplada.

Escândalo

Por causa de alguém que pôs no Facebook um artigo sobre os ghost writers portugueses (aqui, se lhe apetecer ler ou reler: http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-05-08-Os-fantasmas-que-escrevem-os-livros-dos-famosos), lembrei-me de uma história que há uns anos se passou em Espanha e que fala dos riscos de recorrer a alguém assim, que não assina o livro que escreve (além, claro, de a pessoa poder abrir o bico e contar a verdade). Uma senhora da socialite quis por força escrever um desses romances cor-de-rosa moderninhos e contratou um ghost writer que, por acaso, era o próprio cunhado. Só que o jeitoso nem escritor-fantasma foi porque, na verdade, praticamente não escreveu uma linha: retirou parágrafos de variadíssimas obras já publicadas (entre elas, muitos romances da prolixa autora norte-americana Danielle Steel) e construiu um mosaico ao qual só foi necessário acrescentar as ligações (confesso que deve ter sido preciso talento para construir uma história a partir do já feito). Ignorante de tal procedimento, a autora (?) famosa convidou a mulher de José María Aznar, então primeiro-ministro, para lhe apresentar o livro, o que aconteceu. O pior foi o vexame para ambas quando uma leitora aficionada da senhora Steel começou a perceber que já lera aquilo em qualquer lado e resolveu denunciar a situação. Suponho que a senhora não mais dirigiu a palavra ao cunhado… E a editora teve de tirar o livro das lojas imediatamente. A senhora Aznar, acredito, nunca mais aceitou apresentar um livro.

Livros em viagem

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Hoje, quando pensamos em militares, mais depressa os associamos a actividades físicas do que a intelectuais. Haverá de tudo, evidentemente. No entanto, entre militares famosos de outros tempos estiveram cabeças muito bem-pensantes, grandes estrategas e gente muito lida. Napoleão, segundo alguns dos seus biógrafos, fazia-se sempre acompanhar de um certo número de livros favoritos para onde quer que fosse. E parece que até concebeu os desenhos de bibliotecas portáteis que acabaram fazendo parte da sua bagagem corrente. Leio esta informação no blogue do escritor e ilustrador Austin Kleon (https://austinkleon.com/about/) que, por sua vez,  a divulga a partir das declarações de Louis Barbier, bibliotecário do Louvre durante muitos anos e cujo pai foi o bibliotecário do próprio Napoleão. Conta ele que essas bibliotecas eram uma espécie de caixas com prateleiras dentro, que comportavam cerca de 60 volumes. Feitas inicialmente de mogno, passaram depois a ser de carvalho, por ser uma madeira mais resistente. O interior era forrado a veludo ou cabedal verde e os livros encadernados a pele. Cada um destes «estojos» tinha o respectivo catálogo, que mencionava o número de cada obra para que não se perdesse tempo à procura de um livro. Havia, porém, alguns títulos que Napoleão gostaria de consultar nas suas viagens que não constavam destas bibliotecas por serem demasiado volumosos; então, ele escreveu ao senhor Barbier-pai, encomendando uma biblioteca de 1000 títulos!, na qual os livros, compostos numa letra bonita, fossem impressos sem margens e com capas moles e flexíveis para poupar espaço, abarcando poesia, ensaio, teatro, ficção, religião, história e muito mais. Militares leitores destes já não há...


 


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Sprechen Sie Deutsch?

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Há exactamente vinte anos, neste mesmo mês de Outubro, mas em 1997, Portugal era o convidado de honra da Feira Internacional do Livro de Frankfurt (FILF), o mais importante certame à roda do livro e da venda de direitos de autor em todo o mundo. Era então primeiro-ministro o engenheiro António Guterres e ministro da Cultura o professor Manuel Maria Carrilho, mas quem liderava a equipa (à qual me orgulho de ter pertencido) e produzia o programa de festas era o escritor e gestor cultural António Mega Ferreira (e na Alemanha trabalhavam também para o evento o livreiro Teo Mesquita e a agente literária Ray-Güde Mertin, então agente de Saramago). A operação, que incluiu actividades espalhadas por toda a cidade de Frankfurt – teatros, museus, bibliotecas, etc. – visou não apenas a literatura (estiverem lá, evidentemente, dezenas de escritores em mesas-redondas e leituras), mas exposições de pintura, arquitectura e fotografia, concertos de música popular e erudita, espectáculos de dança e uma mostra de cinema. Foi uma presença extraordinariamente bem-sucedida e, durante os anos que se seguiram, Portugal esteve mesmo na mó de cima em termos de festivais literários e prémios (o Nobel veio no ano imediatamente a seguir), tendo sido convidado de honra em Paris, em Genebra e no Rio de Janeiro, pelo menos. Para comemorar os 20 anos de Portugal como país-tema da FILF, Jochen  Nix vai falar e ler Pessoa & heterónimos na Casa Fernando Pessoa logo mais à tarde e  amanhã ler passagens de O Ano da Morte de Ricardo Reis na Fundação Saramago. Em alemão. A programação vai abaixo, em português.


 


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Desdizer

Aprendi muito sobre paradoxos no início da minha carreira editorial por trabalhar numa editora que então se dedicava à divulgação científica e ter lido os livros divertidos de Martin Gardner com capítulos sobre paradoxos, círculos viciosos e outras matérias aliciantes. Lembro-me, por exemplo, da história de um viajante que chega a uma cidade em cuja rua principal há dois barbeiros: um com o cabelo muito bem cortado, o outro com o cabelo numa desgraça. Como precisa de cortar o cabelo, o viajante não hesita em escolher o primeiro. Mas faz mal. Porquê? Ora, porque as pessoas raramente cortam o cabelo a si próprias! Recordo também o paradoxo do mentiroso, que vou parafrasear. Alguém escreve um cartaz que diz: «Todos os lisboetas são mentirosos.» Mas, se quem escreve a frase é um lisboeta, em que ficamos? Giro, não é? Lembrei-me disto a propósito de duas palavras muito portuguesinhas que, portadoras do prefixo «-des» (como em «destruir» ou «desleal») deveriam significar o contrário de uma coisa, mas, paradoxalmente, não significam senão essa mesmíssima coisa. São elas «desandar» (quando dizemos a uma pessoa que desande, o que queremos é que ande, e depressinha, para longe de nós) e «deslargar» (nunca esqueci a Maria Vieira num programa do Hermann José a agarrar  as mãos de um tipo ao seu lado e a apalpar-se com elas, dizendo: «Deslarga-me! Deslarga-me!»). Enfim, hoje era isto que vinha aqui dizer e agora ocorreu-me que «desdizer» também não é ficar calado.

Prémio LeYa 2017

E o vencedor é.... João Pinto Coelho com Os Loucos da Rua Mazur. E esta, hein?

A manta do tempo

A terrível velocidade dos tempos que correm (eu até disse «correm») é, na verdade, bastante recente. Talvez os miúdos de hoje já nasçam acelerados, mas quem nasceu antes da invenção dos computadores e dos telemóveis sente que o mundo avança de forma vertiginosa e fica muito stressado (o meu caso). É bastante curioso que no livro que aqui me traz hoje – Num Tempo Que Já Lá Vai, escrito por Rosário Alçada Araújo e ilustrado por Patrícia Furtado – seja a Laura, uma menina, a notar que as coisas estão a andar demasiado depressa e que não devem ter sido sempre assim. Pergunta à avó, que a leva à escola, como era no seu tempo – e essa pergunta inaugura uma bonita história com uma manta tricotada que, ao desfazer-se de volta ao novelo, fala de tempos que já lá vão, quando a trisavó de Laura ainda era viva e o padeiro trazia o pão à porta, havia pregões, varinas, ardinas, bacios de louça, relógios de dar corda, ferros a carvão e muito mais coisas que entretanto se tornaram obsoletas e inúteis. Mas não é um livro saudosista, pelo contrário, nele guarda-se o passado como relíquia mas ensina-se que todos os tempos têm coisas boas e más e, sobretudo, pessoas que vivem, trabalham, conversam, amam – tal como avó e neta nesta história. A edição é da Gailivro e o lançamento é amanhã, ao meio-dia, na Livraria Buchholz, em Lisboa.

Soma e segue

Há uma expressão popular divertida («Cada tiro, cada melro») que hoje faz todo o sentido ser aqui usada. Na manhã de ontem, soube-se que Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, de Ana Margarida de Carvalho, era uma das dez obras finalistas do Prémio Oceanos no Brasil. À tarde, porém, veio uma notícia ainda melhor: a obra vencera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB! Lembro aqui os leitores do blogue que Ana Margarida já tinha ganho o mesmo prémio com o seu primeiro romance, Que Importa a Fúria do Mar, e agora repetiu a proeza, sendo que só seis escritores em 35 anos o conseguiram: Vergílio Ferreira, António Lobo Antunes e Mário Cláudio; Agustina Bessa-Luís, Maria Gabriela Llansol e agora ela própria! Nenhum deles, contudo, com duas obras seguidas. O júri, constituído por José Correia Tavares, que presidiu, Isabel Cristina Rodrigues, José Carlos Seabra Pereira, Luís Mourão, Paula Mendes Coelho e Teresa Carvalho, deliberou por maioria, pois Luís Mourão votou em A Gorda, de Isabela Figueiredo (um romance publicado pelo meu colega Zeferino Coelho, da Caminho, de que também gostei muito). Neste ano, concorreram 93 livros, dos quais 60 eram de homens (2 deles eram produtivos: tinham 2 romances) e 31 eram de mulheres, publicados por 44 editoras. Parabéns, Ana Margarida de Carvalho! Agora é esperar pelo Prémio Oceanos e ver o que dá.


 

Perto e longe

Quando um vizinho recém-chegado se atirou da janela no prédio da minha mãe, mesmo sem o conhecer, ela ficou traumatizada por muito tempo. Se o proverbial sexagenário for atropelado na minha rua faz-me mais impressão do que se o tiver sido noutro lado? É possível. O atentado no Bataclan, em Paris, ou naquela rua larga em Nice, ou nas Ramblas, em Barcelona, está suficientemente perto, em termos sentimentais, para me causar mais mossa do que as centenas de mortes anónimas nos desastres ferroviários da Índia ou causadas por cólera e ébola em África. Aqui na Europa achamos que a América (os EUA, quero dizer) é também um bocadinho nossa e sentimos as mortes do 11 de Setembro como qualquer coisa de próximo. Em termos emocionais, os conceitos de perto e longe nem sempre têm que ver com distâncias reais (os mineiros do Chile nunca deixaram os nossos corações, enquanto choramos os mortos dos nossos incêndios mais recentes sem nos lembrarmos dos 300 mortos na Somália na mesma data). Mas pode ser uma geografia bastante injusta… Leio um artigo de Han Kang no The New York Times sobre os perigos de uma guerra entre os EUA e a Coreia do Norte, coisa, aliás, que nos deveria preocupar a todos nestes tempos malucos. Se essa guerra realmente eclodir, há uma probabilidade de morrerem 20 000 sul-coreanos por dia enquanto durar o conflito… Mas, segundo Han Kang, nos EUA diz-se apenas: «Don’t worry, war won’t happen in America. Only on the Korean Peninsula.» Ou seja, longe da vista, longe do coração. Talvez o artigo me tenha tocado de maneira especial por eu ser agora a editora dos livros de Han Kang e ter passado a ter um laço com a Coreia do Sul. No entanto, chamo a atenção para este belo e lúcido texto da autora de A Vegetariana e Atos Humanos. Para desfazer distâncias.


 


https://www.nytimes.com/2017/10/07/opinion/sunday/south-korea-trump-war.html


 

Edição global

Quando o mundo se tornou uma aldeia global, a edição não teve outro remédio senão globalizar-se também. Para o bem e para o mal. Para o bem porque, como leitores, em lugar de esperarmos anos pela tradução portuguesa de determinado livro (o que acontecia frequentemente quando eu era jovem), hoje o texto chega ao editor português num PDF ou num ficheiro Word pouco depois de terminado pelo autor e pode começar a ser imediatamente traduzido, fazendo com que a edição portuguesa saia praticamente ao mesmo tempo da original. Para o mal porque, em determinados projectos mais escaldantes ou mediáticos (lembro-me, por exemplo, das biografias de Bill Clinton ou de Nelson Mandela que publiquei há uns anos ou da série Millenium, para citar uma obra mais recente), todas as edições têm de sair obrigatoriamente no mesmo dia e é preciso um tour de force diabólico para cumprir os prazos; além disso, toda a correspondência é absolutamente confidencial e há multas sérias para fugas de informação... E, apesar dos cuidados, por vezes há «distracções». E o que aconteceu agora na Holanda é exemplo disso: a tradução neerlandesa de um livro do escritor britânico Philip Pullman que era muito aguardado (pois dava continuidade a uma trilogia que tinha vendido 17,5 milhões de exemplares e fora adaptada ao cinema e à televisão), saiu antes da edição inglesa... O editor foi repreendido e retirou imediatamente os livros do mercado, mas já houve uns quantos sortudos que se chegaram à frente e têm o livro. Antes mesmo do próprio autor. Custos e vantagens da globalização.

Outono em beleza

Existe há muito uma Escola de Escritas chamada EC.ON, da responsabilidade de Luís Carmelo, ele próprio escritor com obra publicada (a mais recente na editora Abysmo). É uma escola especialmente vocacionada para trabalhar online e acompanhar quem escreve (não apenas literariamente, mas em meios como o da publicidade, o cinema ou o teatro), contando com mais de 20 escritores portugueses entre os orientadores de perto de uma centena de cursos. Mas, a par desta actividade online, também organiza bastantes sessões presenciais e amanhã haverá uma sobre biografia conduzida por Maria Antónia Oliveira (a biógrafa de Alexandre O’Neill) a que, se não tivesse já um compromisso, iria com o maior prazer. No Ciclo de Literaturas Contemporâneas será possível ouvir e dialogar com Gonçalo Tavares, Valério Romão ou Paulo José Miranda e, nas sessões Ícone X, rir com Ricardo Araújo Pereira, João Quadros e Filipe Homem Fonseca, isto tudo até final do ano. Haverá ainda uma oficina de romance por João Tordo e, na verdade, muito mais por onde escolher. Tem é de inscrever-se. O link da agenda aqui vai:


 


http://escritacriativaonline.net/agenda/

Fado e literatura

Os Extraordinários conhecem já a minha relação com o fado e, do mesmo modo, com a fadista Aldina Duarte, que é uma verdadeira intelectual do fado e uma mulher que relaciona de forma consistente a sua arte com as outras, especialmente com a literatura. Depois de discos como Contos de Fados – em que os fados eram baseados em obras literárias ou lendas  e mitos – e de Romance(s), em que se contava uma história de amor em catorze fados com duas abordagens musicais completamente distintas, chega a vez do CD Quando Se Ama Loucamente, lançado mais logo, às 18h30, na Fnac do Chiado e integralmente inspirado na obra da escritora Maria Gabriela Llansol (excepto o fado assinado por Manuel Cruz, dos Ornatos Violeta). Este é um disco também, arrisco-me a dizê-lo, terapêutico (como os meus poemas o foram para mim) e fala das feridas de um amor maior interrompido sem explicação. Quem partiu deixou, porém, para trás um livro de Maria Gabriela Llansol, e é justamente a partir desse e de outros livros desta escritora tão singular que surgem as ideias e frases que servem de mola e epígrafe a estes fados, maioritariamente – como não podia deixar de ser neste caso – da autoria da própria Aldina Duarte. O fado e a literatura juntos mais uma vez. Eu vou espreitar e ouvir. Apareça também.

O Fantasma de Roth

Diz-se que Nathan Zuckerman, o escritor judeu que se passeia por várias obras de Philip Roth (A Lição de Anatomia, Pastoral Americana, A Mancha Humana, entre outras) é o seu alter ego. Pois pode bem ser assim. No livro que hoje me ocupa – O Escritor Fantasma –, Nathan é ainda um aspirante à condição de escritor, com um conto publicado numa revista importante, mas ainda muito verde e cheio de dúvidas. Encontramo-lo, de resto, de visita a E. I. Lonoff (escritor de ascendência russa a viver na América que é um dos seus confessados ídolos literários), a beber cada gesto e palavrinha do mestre que só gosta mesmo de dar voltas a frases e a quem a mulher, na presença do jovem, chega a pedir que a mande embora, pois já não suporta aquela vida de reclusão. Mas Nathan não é a única visita de Lonoff nesse fim de tarde: sentada na carpete de maneira informal a organizar artigos e outra papelada, a jovem Amy Belette (será esse o seu nome?) – uma ex-aluna estrangeira de Lonoff que talvez seja também sua amante – desperta fantasias e a admiração do rapaz até pela forma íntima e desafiadora como fala com o mestre. Nathan ficará a dormir em casa de Lonoff e poderá ouvir conversas sussurradas e inspiradoras que o ajudarão a resolver os seus próprios conflitos interiores. E mais não se conta desta estreia de Nathan Zuckerman, dizendo-se apenas que este é um livro maravilhoso sobre a literatura e a vida e as escolhas que se fazem em ambas. Traduzido por Francisco Agarez, claro.


 

Romeu & Julieta

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Quando eu era pequena, comia muitas vezes queijo e marmelada à laia de sobremesa, sem saber que no Brasil existia uma variante desta guloseima (goiabada em vez da marmelada) chamada Romeu & Julieta. Shakespeare e a sua tragédia amorosa também se relacionaram com comida na encenação de um grupo de teatro polaco que vi há uns anos no Teatro Nacional D. Maria II, na qual os Montecchio e os Capuleto eram donos de pizarias rivais. E agora o Teatro Praga aproveita o par amoroso e leva à cena no Teatro Maria Matos uma peça para crianças (que os adultos também poderão ver) que mistura a história do «romance maldito» com um cheesecake: Romeu & Julieta – Uma Excelente e Lamentável Sobremesa, de Cláudia Jardim, Diogo Bento e Pedro Penim (interpretam-na os dois primeiros). Segundo o anúncio, «o sangue dos amantes é doce de goiaba, as lutas de espadas fazem-se com espátulas e uma dentada numa bolacha Maria pode ser uma alternativa deliciosa para um coração partido.» Parece uma forma interessante de apresentar Shakespeare aos mais novos e a fotografia promocional do espectáculo é também bastante apelativa. De 21 a 29 de Outubro, aos sábados (às 16h30) e aos domingos (às 11h e às 16h30). A obra do bardo continua a dar pano para mangas.


 


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Revisitar

Todos nós recebemos seguramente mais e-mails do que gostaríamos provindos de todos os cantos do mundo – e, entre eles, muita coisa irrelevante que se apaga quase sem ler.  Um dia destes, porém, mandaram-me um anúncio de um workshop sobre a importância das cores no vestuário; e, ainda que o assunto esteja longe de despertar a minha atenção, houve qualquer coisa na redacção do primeiro parágrafo que me remeteu para um autor de quem senti saudades. Dizia assim: «O vestuário que escolhe para o dia-a-dia pode ajudar a transmitir a imagem certa e adequada ao contexto no qual se insere. Saber escolher a roupa que vestimos influencia o modo como as outras pessoas se relacionam connosco […]» Foi ao ler esta frase que, no fundo, é bastante banal (perdoe-me a autora), que me recordei de um artigo de Claude Lévi-Strauss que li na minha juventude («O hábito faz o monge») no qual, a abrir, se explicava que quando um homem põe de manhã uma gravata isso já quer dizer alguma coisa. Pois bem, já não sei em que livro ou revista se encontra este texto notável do antropólogo belga; os meus livros de Strauss estão, ainda por cima, numa prateleira alta. No entanto, se algum dos Extraordinários tiver curiosidade em lê-lo e o encontrar antes de mim, avise. Gostaria mesmo de o reler. Ah, e se quiserem ir ao tal workshop e aprender a importância das cores no vestuário, consultem este link:


 


https://docs.google.com/forms/d/1cvOn1HfPWSW6l50TlFACRfylfpq8P-9ThbJqjbSTzkQ/viewform?edit_requested=true


 

Vaiado ou aplaudido?

No dia da tomada de posse de João Lourenço à frente dos destinos de Angola, o público presente parece ter assobiado ao nosso presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse dia, vinha eu no carro pela hora do almoço e ouvi a notícia como se o assobio fosse uma vaia castigadora por Marcelo ter feito a asneira de cumprimentar João Lourenço pela sua vitória antes mesmo de se saberem os resultados das eleições. A seguir, uma jornalista «postou» no Facebook um comentário de uma senhora angolana a dizer que, na terra dela, assobio é coisa boa, e não insulto; e, logo a seguir, no site do Diário de Notícias, podia ler-se que a presença de Marcello tinha sido muitíssimo aplaudida. Bem, uso esta história para dizer que os gestos e sinais não são iguais em toda a parte (apontar com o dedo em alguns países pode ser perigoso e dizer que sim com a cabeça pode significar coisas diferentes em lugares diferentes) e que havia um livro magnífico sobre esta matéria, The Human Animal (O Animal Humano, creio, em português), da autoria de Desmond Morris, que depois deu origem a uma série de TV igualmente boa que deve estar por aí na Internet para ser vista. O livro, imagino, já deve andar fora de mercado, mas pode ser que o encontrem em alfarrabistas e bibliotecas.

Sem pagar

Embora se diga que a cultura não tem preço, o que é verdade é que quem consome cultura se queixa frequentemente do que paga por ela: há os que dizem que os livros estão caríssimos (muitos até dizem não ler por causa disso, ignorando que as bibliotecas os emprestam e que, lidos in loco, são igualmente gratuitos); há os que poupam durante meses para gastar tudo nos festivais de Verão, onde actuam as suas bandas favoritas; há os que ficam com as mãos a arder quando pagam um bilhete para um espectáculo. Sim, a cultura, mesmo sem preço, pode ser bastante cara. Mas também pode consumir-se cultura sem pagar (as leituras de poesia no Povo, por exemplo), e descubro agora que existe um blogue que colige justamente eventos aos quais podemos ir sem gastar um tostão (desculpem, um cêntimo). Chama-se, muito justamente, Cultura de Borla e avisa logo de que não se cinge a acontecimentos na capital, o que também é bom porque nem todos moramos em Lisboa. Teatro, exposições, concertos, conferências, passatempos, existe de tudo um pouco nesse blogue para quem gosta de cultura. Amanhã, por exemplo, no Museu do Oriente, haverá uma palestra que dará uma introdução ao sânscrito das 16h às 18h com entrada… de borla (claro que a sala tem uma lotação). Mas para quem queira lá ir, o endereço do blogue é:


http://culturadeborla.blogs.sapo.pt/

Fotografar escritores

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Este é um blogue mais sobre a palavra do que sobre a imagem, não há dúvida; mas as imagens que hoje me trazem aqui são indissociáveis de quem produz a palavra, ou seja, dos escritores – e, portanto, o assunto não podia ser mais apropriado. Falo-vos da exposição que hoje mesmo se inaugura na Casa da América Latina, assinada por um enorme fotógrafo de escritores: Daniel Mordzinksy, argentino, que trabalhou durante anos para o Le Monde, o El País e outros jornais franceses e espanhóis e retratou centenas de escritores de todas as línguas e todos os países, desde o famoso Jorge Luis Borges, presente no cartaz da exposição, a escritores novinhos em folha, como a Marina Perezagua de que aqui vos falei ainda ontem e que ele quis fotografar dentro de água por ser uma nadadora. A exposição chama-se Objectivo Mordzinsky – Uma Viagem ao Coração da Literatura Ibero-Americana e por isso podemos encontrar por lá poetas, romancistas e ensaístas portugueses, africanos, espanhóis e latino-americanos (incluindo brasileiros) de hoje até dia 29 de Dezembro. Deixo-vos abaixo uma divertida fotografia que encontrei na Internet, de Daniel Mordzinsky com Vargas Llosa. Mas as fotografias de Daniel são, obviamente, outra coisa.


 


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Dedicar

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Quando trabalhamos com autores nacionais, na altura em que a obra vai para paginar, nunca nos esquecemos de perguntar se devemos guardar alguma página para a dedicatória. Nem sempre é precisa, mas muitas vezes é. E foi justamente um dos autores que publico, o Paulo Moreiras, quem me mandou um interessante link sobre dedicatórias que contrariam a monotonia habitual. A primeira é de um manual de Álgebra cujo autor escreve « […] aos meus filhos Ella Rose e Daniel Adam, sem os quais este livro teria ficado pronto dois anos mais cedo.» Ironias à parte, alguém dedica um outro livro a todos aqueles cujos nomes aparecem sublinhados a vermelho no Microsoft Word (imagino que o seu nome seja bastante estranho)… Um outro autor escreve esta dedicatória belíssima: «Para Carley, que era melhor pessoa do que eu, embora fosse um cão.» Joan Rivers dedica o seu Diary of a Mad Diva a Kaney West, pela simples razão de que ele nunca o lerá, enquanto Matthew Kline dedica No Way Back à sua mãe, pedindo-lhe que… salte as cenas de sexo. Há um escritor que dedica o livro ao seu editor, dizendo que foi  forçado a isso (ver imagem abaixo) e outro que, na página da dedicatória, agradece à mulher tê-lo apoiado tanto na escrita de um livro que, afinal, é sobre todas as mulheres com quem dormiu antes dela. Enfim, tudo isto prova que se pode chamar a atenção para um livro logo às primeiras páginas…


 


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O que ando a ler

Já tinha este livro perto de mim há muito tempo, como que reservado, mas só agora consegui efectivamente começar a lê-lo. Trata-se de Yoro, um romance de Marina Perezagua (que esteve presente na última edição das Correntes d’Escritas), uma escritora sevilhana que ensina espanhol numa universidade americana e nada quatro horas seguidas (uf!). É, sem dúvida, uma obra original e, depois de me ter encontrado com a hermafrodita de Arundhati Roy, não fazia ideia de que descobriria outra tão cedo. A deste livro está  a redigir um longo testemunho e assina simplesmente «H» (como a bomba). Sabemos que cometeu um crime (mas não qual) e que é uma sobrevivente de Hiroxima (tinha treze anos na altura da tragédia que ironicamente lhe permitiu, por danos profundos no seu corpo, escolher um sexo que não era o que os pais lhe haviam destinado). Ironicamente também, apaixona-se por Jim, um soldado norte-americano que foi feito prisioneiro (e sujeito a torturas terríveis) pelos Japoneses, a quem é entregue, no fim da guerra, uma órfã japonesa para criar nos primeiros cinco anos de vida – Yoro, a que dá nome ao romance.  É esta  criança que H e Jim procurarão juntos ao longo de anos pelas mais diversas geografias: um culpado de a ter deixado ir, a outra ansiando a filha que não podia ter tido. E, pelo caminho, muito se vai passando, e eu, já não muito longe do fim, percebi finalmente o que está H a fazer no Congo, donde escreve o seu testemunho, mas ainda não o crime que cometeu. Elogiado por Salman Rushdie, Yoro é uma leitura que vale a pena.