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A mostrar mensagens de 2016

Feliz Natal

Foi um ano maluco, cheio de trabalho e viagens com autores, e nem eu sei como consegui alimentar este blogue para que os Extraordinários tivessem um post novo quase todos os dias. Acreditem que não foi fácil – e que tive de tirar muitas vezes tempo e cabeça ao trabalho, à leitura e à família só para não desiludir os que aqui vêm todos os dias ler e, frequentemente, dizer de sua justiça. Mas amanhã é véspera de Natal e decidi tirar uma semanita para descansar, sabendo que nesta época muitos dos leitores do blogue andam de casa em casa e de terra em terra, vendo amigos e parentes, confraternizando, comendo e bebendo, gozando a vida e sem grande disponibilidade para perder tempo com as minhas opiniões. Por isso, desejo a todos um excelente Natal, com muita saúde e alegria, e umas belíssimas entradas no ano que aí vem – que, espera-se, há-de ser melhor do que este que agora termina. Divirtam-se muito, ofereçam livros a toda a gente e leiam-nos, mesmo que apenas uns minutinhos ao deitar depois das comezainas e das conversas. Eu prometo voltar no dia 2 de Janeiro, refeita e pronta para mais doze meses de Horas Extraordinárias. Convosco, claro.

Há Fadistas!

Na semana passada anunciei aqui o lançamento de Há Fadistas!, de Pedro Teixeira Neves, um álbum fotográfico dedicado a fadistas e casas de fado por esse País fora, que revela como a nossa canção está viva e de boa saúde e continua a atrair artistas e público de todas as idades. Fui convidada pelo autor a produzir um texto sobre as suas fotografias, e saiu-me uma coisa bastante emotiva, que reflecte o papel que o fado desempenhou na minha vida desde pequena, já que comecei a ir aos fados andaria pelos cinco ou seis anos. Mas agora, com o livro na mão, pude apreciar igualmente o texto de Rui Vieira Nery que ao meu se segue, uma maravilha de prosa em que aprendi uma porção de coisas que não sabia, como, por exemplo, o facto de durante o Estado Novo os fadistas não poderem cantar nada que não tivesse passado no teste da censura e isso ter levado naturalmente a que diminuíssem as letras do fado operário, queixosas da situação, dando lugar a narrativas de amores feridos e abandono – que são, curiosamente, as que ainda se cantam hoje, mesmo sem haver lápis azul. Outra feliz notícia é que este livro, profusamente ilustrado e com muitas páginas, só custa 12 euros, pelo que aconselho todos os que se interessam por fado a comprá-lo e oferecê-lo.

Penumbra

Desde que comecei a trabalhar na edição que vejo muitos jornalistas de qualidade desaparecerem de cena em levas sucessivas de despedimentos colectivos. E reparo que, frequentemente, os que saem são justamente aqueles que eu achava desempenharem melhor a sua função, substituídos por moleques e miúdas que têm quantas vezes ordenados de miséria mas dizem a tudo que sim. Desta feita, a injustiça tocou a alguém que está perto de mim – uma autora que, além de galardoada desde muito cedo como jornalista com quase todos os prémios de jeito que havia para ganhar, ainda arrecadou com o seu romance de estreia o prémio mais cobiçado atribuído anualmente a uma obra de ficção. Falo, evidentemente, de Ana Margarida de Carvalho (e de Que Importa a Fúria do Mar), que acaba de ser dispensada da revista Visão, para a qual trabalhava havia muitos anos, e que tinha seguramente mais bagagem, experiência e talento do que muitos dos seus confrades que lemos ou ouvimos actualmente nos meios de comunicação portugueses. Segundo um post que ela própria publicou no seu mural do Facebook, a terrível notícia foi-lhe dada por um membro dos Recursos Humanos da empresa, nem sequer por aqueles que chefiam a redacção ou dirigem a revista, como se as pessoas já nem fossem pessoas, mas meros números, e não merecessem respeito nem gratidão pelo trabalho que fizeram durante anos. Fico muito triste – não só por ela, mas pelo estado a que as coisas chegaram num país que teve de lutar pela liberdade de expressão durante tanto tempo e que, afinal, mais de 40 anos decorridos do estabelecimento da democracia, volta a comportar-se como se estivesse numa ditadura (a ditadura do dinheiro e das vendas): Pensas, logo não podes existir.

Música silenciosa

Li um livro maravilhoso de Vassili Grossman de que já aqui falei (Tudo Passa) e agora tenho em mãos uma outra preciosidade que me remeteu para esse romance, até porque o seu autor, o britânico Julian Barnes (também falei de outros romances dele aqui no blogue), parece adaptar-se ao assunto, a «Rússia soviética», e escrever um pouco à russa desta vez. Chama-se O Ruído do Tempo e trata de um tempo realmente maligno, o do estalinismo, em que as pessoas andavam caladas por causa do terror das purgas, mas o protagonista não podia manter-se silencioso pela simples razão de que fazia música. Estou a falar de Chostakovich, compositor aplaudido no mundo inteiro nesses anos 1930 e admirado pelo regime soviético até um belo dia em que uma ópera sua incomodou o líder e a sua comitiva no Teatro Bolshoi, em Moscovo, e o jornal do dia seguinte trazia na primeira página uma crítica terrível, acusando o compositor de fazer «chinfrim» em vez de música (crítica provavelmente escrita pelo próprio Estaline). O medo que a partir daí se apodera de Chostakovitch, o que ele faz para evitar os interrogatórios, a forma como se prepara para ser chamado a depor, vestido e de mala pronta para evitar a humilhação de ser levado de casa em pijama, são momentos inesquecíveis neste romance que retrata uma época em que os artistas não tinham liberdade e o poder colidia claramente com a arte. Não percam esta jóia.

Um mês a felicitar

Dezembro dá sempre direito a festas, brindes e felicitações. Ele é o Natal, por norma reencontro de familiares, ele é o fim de ano e os desejos de Ano Novo expressos enquanto se mastigam passas com os amigos… Mas não só: e neste específico Dezembro de 2016 há dois autores que têm razões de sobra para festejar e partir para 2017 de cabeça erguida. Falo naturalmente de Frederico Lourenço, o escritor e tradutor que nos trouxe, por exemplo, as obras fundamentais de Homero e está agora a braços com a árdua tarefa de traduzir a Bíblia do grego (um dos volumes já saiu e, para quem esteja sem ideias, dará um excelente presente de Natal) e que ganhou a mais recente edição do Prémio Pessoa. Falo também de José Luís Peixoto, que arrecadou o Prémio Oceanos (o antigo Prémio PT) no Brasil com o seu romance Galveias, no qual retrata a sua terra-natal, que homenageia com uma prosa sublime e musical. É, pois, tempo de os felicitar e desejar que continuem a brindar-nos com a sua arte no ano que vem e por muitos e bons anos.

Fotografar o fado

Conheci Pedro Teixeira Neves enquanto responsável por uma revista de arte e por causa de um conto infantil que me ele pediu que escrevesse sobre um quadro de Fernando Lanhas; mais tarde, reencontrámo-nos numa editora em que trabalhei porque ele tinha um romance para publicar, e que eu lhe publiquei, chamado Uma Visita a Bosch. Ficámos muitíssimo tempo sem nos ver depois disso (intermitentemente, cruzávamo-nos em festivais) e, quando surgiu o Facebook, comecei a prestar atenção ao seu trabalho fotográfico, de que gosto muito, e acabei por convidá-lo para ilustrar com as suas belas imagens alguns poemas meus durante uma sessão dedicada à minha poesia nas Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre. Passados anos, foi a vez de o Pedro propor que eu escrevesse um texto para um livro de fotografias suas. E eu aceitei imediatamente porquê? Bem, em primeiro lugar pelo que já disse: gosto das imagens do Pedro Teixeira Neves. Mas havia mais qualquer coisa: eram sobre fado, eram fotografias de fadistas cantando por esse País fora! E o lançamento é hoje, pelas 18h30, no Museu do Fado, com apresentação de Rui Vieira Nery. Não faltem!

O gato na figueira

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Dizem que os gatos gostam de subir às árvores (atrás dos pássaros) e que não gostam de viajar, sobretudo de carro; mas eu já tive de fazer uma longa viagem de avião ao lado de uma senhora americana muito gorda que, ainda por cima, trazia aos pés uma dessas caixas grandes de plástico com grades que tinha um bichano lá dentro. (Ele vinha confortável, suponho, porque nem o ouvi miar… Já à dona, transbordando do assento, foi difícil ignorá-la.) Agora, porém, vou ajudar a levar um gato até à Figueira da Foz, já que hoje à noite, pelas 21h30, na biblioteca daquela cidade, será a vez de Ana Margarida de Carvalho falar do seu muito aplaudido Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato nas 5.as de Leitura que ali acontecem uma vez por mês e são moderadas por António Tavares, também escritor e vice-presidente do município. Tenho a certeza de que o gato se portará bem pelo caminho e bem assim quando subir à Figueira, ou não fosse a sua autora excelente conversadora. Se estiver por perto, venha fazer-nos companhia.


 


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Lembram-se dela?

Neste blogue sempre houve comentadores residentes, como António Luiz Pacheco, que comenta quase todos os dias. Outros comentam de forma mais esporádica, mas tenho a certeza de que os frequentadores assíduos deste espaço se lembram de Carla Pais, que aqui vem com alguma frequência deixar as suas opiniões. Pois foi uma grande felicidade – para mim, pelo menos, que a conheci por causa do Horas Extraordinárias há já três anos – saber que esta nossa Extraordinária cometeu o também extraordinário acto de vencer, com obra inédita, o prémio Agustina Bessa Luís! O romance, intitulado Mea Culpa, será publicado em breve e fala de um homem – Amadeu Jesus – que «nasceu do lado torto da sociedade» e de uma mulher – Briosa – que «é criada no seio das montanhas, onde desenvolve o instinto de sobrevivência através dos sinais que o corpo lhe envia». Digo eu que a coisa promete e que prometo à Carla ler este seu livro que lhe provou que, quando se acredita na literatura, respeitar os grandes e tentar alcançá-los é sempre compensador. Cá ficamos à espera, Carla. E, claro, muitos, muitos parabéns!

Recomendações

Eu, que publico actualmente muito poucos livros estrangeiros, fico contente por ter acertado na escolha de A Vegetariana, pois, quando comprei os direitos deste pequeno romance para Portugal, ele ainda não tinha tido nenhum prémio internacional de monta nem fora publicado senão em dois ou três países. Foi, como dizem os franceses, um simples coup de foudre. A sorte acompanhou Han Kang, a sua autora, que arrecadou o Man Booker International Prize pouco depois, e acompanhou-me também a mim, que acreditei no seu talento. De resto, não fui só eu – e os elogios têm-se multiplicado nas últimas semanas; nas listas que muitos jornais e revistas publicam habitualmente quando o Natal se aproxima e as pessoas estão mais receptivas a sugestões porque têm de comprar presentes, seja na Publishers Weekly, no New York Times, na Economist ou no Guardian, A Vegetariana (e, no jornal britânico, também Human Acts, um outro livro da coreana com que brindarei os leitores em 2017) apareceu destacado e foi considerado uma das melhores leituras do ano 2016. A mesma sorte não teve, infelizmente, um romance de uma autora chilena, Andrea Jeftanovic, que me pareceu igualmente fascinante – Amar numa Língua Estrangeira – e que mereceria mais atenção.  Pode ser que os editores de língua inglesa a descubram e façam também dela um sucesso.

Talento desperdiçado

O meu amigo escritor e editor Adolfo García Ortega, residente em Madrid, manda-me regularmente coisas que publica na imprensa espanhola ou em sites dedicados ao nosso ofício. E começou de há dois meses a esta parte a fazer um Abecedário do Leitor realmente fascinante; chegada há uns dias a letra «B», fiquei deliciada com o que me contou sobre as irmãs Brontë. Ora vejam: Charlotte, autora do famosíssimo Jane Eyre e, segundo o meu amigo, a mais inteligente da família, morreu aos 39 anos. Emily, que escreveu o por tantos adorado Monte dos Vendavais – adaptado, de resto, ao cinema numa versão muito teatral –, morreu com 30 anos, deixando apenas esse romance de que ainda hoje se fala. A mais nova das três, Anne, morreu ainda mais cedo, com uns meros 29 anos, tendo escrito dois romances considerados bastante modernos para a época: Agnes Grey e The Tenant of Wildfell Hall. As Brontë constituem um raro exemplo de talento familiar (seria dos genes ou coincidência?) – e as suas obras passaram todas no teste do tempo. Agora imaginem: se todas tivessem vivido mais anos, que livros não poderiam ter-nos deixado?…

Esclarecido? Não

Já aqui disse mais de uma vez que gosto de dicionários – e o mesmo é dizer que as palavras me fascinam, o que não é de estranhar em alguém que passa o dia à volta delas. Consulto muitos dicionários – online e em papel – e, normalmente, basta-me abrir na página certa para ficar esclarecida. Mas um dia destes não aconteceu… Por causa de um ensaio sobre o pecado, da autoria de Miguel Real, que publicarei em 2017, precisei de me informar melhor sobre o conceito de «heteronomia» (e tudo vinha a propósito de Kant, claro). Algo precipitada, resolvi consultar um simples dicionário de língua portuguesa, mas a primeira definição de «heteronomia» pareceu-me mesmo estranha (digam-me se sou só eu a pensá-lo): «Conjunto de leis da natureza cuja violência se exerce nas necessidades e paixões.» Esclarecidos? Pois eu cá senti-me muito estúpida, acabando por desistir do dicionário e por ir àquela enciclopédia que, mesmo que nem sempre fiável, é uma boa bengala. Aí, li: «Heteronomia (do grego heteros, “diversos” + nomos, “regras”) é um conceito criado por Kant para denominar a sujeição do indivíduo à vontade de terceiros ou de uma colectividade.» Esclarecida? Agora, sim. Mas continuo a ler a definição do dicionário sem perceber patavina...

Contar uma história

Se me pedirem um exemplo sobre alguém que sabe contar mesmo bem uma história, a primeira pessoa que me vem à cabeça é Alfred Hitchcock – que nem escritor é. Escrever, no sentido de escrever um romance, é, aliás, muitíssimo mais do que contar uma história, como todos sabemos; mas, se temos uma história para contar por escrito temos também de saber como encadear os episódios, manter algumas coisas em suspenso, surpreender aqui e ali, guardar para o final algo de suculento. Contar uma história num livro é como construir um edifício com palavras, ideias, imaginação – a estrutura tem de ser cuidada a todo o instante sob o risco de o edifício ruir a qualquer momento. E é isso que nos propõe o escritor João Tordo, um excelente contador de histórias, num curso chamado exactamente assim: Escrever – A Arte de Contar Uma História. As aulas vão decorrer de 13 a 16 de Dezembro em horário pós-laboral, entre as 19h00 e as 22h00 (leve uma sanduíche se não quer desfalecer de fome, não vá um dos autores lidos descrever um lauto jantar) e as pré-inscrições estão já abertas. Se conhece uma boa história, gosta de escrever e quer aprender como pode passá-la ao papel, pode aprender com o mestre João Tordo e os mestres da literatura que ele trará para as suas sessões: Hemingway, Carver, Bolaño e muitos outros. Todas as informações no link abaixo.


 


http://palavrasditas.pt/portfolio/escrever-a-arte-de-contar-uma-historia/


 

Para casais

Não, não pensem já em malandrices, pois falo de assuntos muito sérios – de poesia, para ser mais concreta. Tal como acontece anualmente desde 2005, a Câmara Municipal de Matosinhos organiza mais uma Festa da Poesia entre amanhã e dia 9, celebrando pelo meio o aniversário de Florbela Espanca, que dá, aliás, nome à bonita biblioteca do município onde decorrerão várias das actividades do festival, desde conversas (Nuno Júdice é certamente a maior estrela deste firmamento) até leituras públicas (como a Poesia no Quarto Escuro – e não pensem de novo em malandrices – com vários diseurs e poetas, entre eles  Jaime Rocha). Além de uma bateria de sessões em escolas com o rapper Mundo Segundo e alguns declamadores profissionais para familiarizar as crianças com o ritmo da poesia, as ruas encher-se-ão de poemas, que poderão ser lidos junto às passadeiras do centro da cidade, onde o tráfego é mais intenso e o sinal vermelho para os peões fica mais tempo aceso. E, sim, chegou a altura de revelar a surpresa: é que o casal-maravilha – o Manel e eu, bem entendido – estará dia 8, depois de almoço, a cumprir uma troca viva de poemas de amor durante meia hora, a que a organização chama Poemas Que Te Direi. E diremos. Venham, se puderem.

Baobá

No tempo em que andei na escola, os cadernos eram todos feios e as borrachas não cheiravam a nada. Os lápis ou eram vermelhos ou brancos com a tabuada. Mochilas? Estavam a uma enorme distância temporal: usávamos pastas de couro com umas alças (mas também não andávamos carregados como os miúdos de agora). Até os livros infantis eram desengraçados ao pé do que hoje vemos nas nossas livrarias. E, embora as coisas tenham mudado muito e as obrigações estejam agora mais ligadas ao consumismo e ao prazer, a verdade é que não tínhamos ainda uma boa livraria dedicada especialmente aos livros ilustrados. Vai daí a editora da Orfeu Negro, que tem excelente catálogo de literatura infantil, saiu da sua zona de conforto e abriu recentemente a Baobá - numa referência a uma árvore originária de África, "sólida, ligada à memória e a lendas africanas e brasileiras. Inspira a muitas coisas fantásticas, tem um tronco enorme onde podia existir uma porta. No fundo, os livros são como a raiz", disse a fundadora do projecto. Este é um lugar aonde apetece entrar no bairro de Campo d’Ourique, em Lisboa, nem que seja para folhear formosuras e ouvir histórias bonitas. Mas não só: vem aí um serviço educativo que vai servir as escolas e as crianças do bairro. Só é pena eu ter crescido entretanto...

O que ando a ler

Para ser completamente sincera, ainda não deixei de ler poemas que foram cantados no fado, pois estou a preparar um trabalho sobre a matéria. Mas, entre essas leituras e as do trabalho, ando agora a espreitar um livro para o qual a minha curiosidade foi despertada por uma reportagem de fim-de-semana publicada num dos nossos jornais. Trata-se de uma história que poderia chamar-se com propriedade Da Síria, com Coragem, mas se intitula apenas Nujeen, que é o nome de uma autêntica heroína: uma rapariga com paralisia cerebral que atravessou a Síria arrasada pela guerra de cadeira-de-rodas, na companhia da irmã, e juntas, usando o inglês que tinham aprendido nas séries de TV (a televisão às vezes faz milagres) fizeram mais de 5000 quilómetros até alcançarem a Hungria, com a esperança de conseguir asilo na Alemanha. Nujeen tem hoje 16 anos e conta-nos o seu êxodo e como é ser refugiada, narrativa em que foi ajudada por Christina Lamb, a escritora que já fora co-autora de um livro sobre outra menina-coragem: Malala Yousafzai. Se gosta de testemunhos empolgantes e lhe interessa o que se está a passar no mundo sob a indiferença de muitos poderosos, este é um livro importante para se pôr em dia, contado por alguém que esteve do lado de dentro da história.

Uma família em Istambul

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Já toquei o assunto deste livro na semana em que saiu para os escaparates, mas faz sentido trazê-lo de volta, uma vez que hoje fazemos o seu lançamento público em Lisboa. A Escada de Istambul, assinado por Tiago Salazar – um viajante que decidiu dedicar-se finalmente à ficção – fala-nos de uma família muito especial, a dos judeus Camondo que, sucessivamente expulsos das cidades onde se foram instalando ao longo do tempo (na Península, em Itália, na Turquia), acabaram por conseguir regressar a Istambul e praticar a filantropia e o ensino livre das religiões enquanto fabricavam fardas para a tropa do sultão otomano. No seu rasto, deixaram, entre colecções fascinantes de obras de arte e peças de mobiliário e decoração extremamente valiosas, duas escadas muito especiais, destacando-se a de Gálata, bairro da cidade turca, a que Tiago Salazar foi dar numa das suas viagens e cuja história o levou até este romance. E, quando atrás disse “rasto”, foi porque os rastos são tudo o que hoje podemos encontrar destes Rothschild do Oriente, ricos e sábios, mas infelizmente condenados ao desaparecimento nos tempos tenebrosos do Holocausto. O livro, não por acaso, é apresentado mais logo por Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa. Apareçam!


 


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Madrid me mata

Às vezes precisamos de uma boa notícia para nos animar – e uma boa forma de internacionalizar a literatura portuguesa, que é a que eu mais pratico, é vê-la ser destacada e celebrada num país estrangeiro. Melhor ainda é isso acontecer num país que não parece ter-lhe ligado grande coisa durante muito tempo, quiçá devido a inimizades ancestrais (quando eu andava na escola, a Espanha ainda era descrita como um país inimigo, calculem) ou a qualquer outra razão que agora não importa desenvolver. Portugal e Espanha já se deixaram disso e andam actualmente muito mais próximos, tendo havido nos últimos tempos mostras várias da cultura portuguesa na capital espanhola. E a boa notícia é que Portugal será o convidado que se segue da Feira do Livro de Madrid, a 76ª, que terá lugar no Parque do Retiro em 2017 e será uma óptima oportunidade para os editores portugueses apresentarem os seus autores no país vizinho. O único senão? As datas: é que esta feira acontece mais ou menos ao mesmo tempo da Feira do Livro de Lisboa (entre 26 de Maio e 11 de Junho) e eu não estou bem a ver como ser ubíqua... No entanto, vai ter de dar para tudo, que ocasiões como esta não se podem perder.

Tinto ou branco?

Vem aí mais um festival literário, desta vez em Viseu, que tem como objectivo celebrar a velha relação entre o vinho e a literatura (desta vez, nada tem que ver com escritores que bebem, mas com a referência a vinhas e vinhos nas suas obras). Integrado num programa intitulado «Vinhos de Inverno», este Tinto no Branco (vejo aqui uma associação à tinta no papel) inicia-se já no próximo dia 2 e vai até dia 4, tendo por mote o romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, e como convidados, entre outros, os escritores Álvaro Laborinho Lúcio, Bruno Vieira Amaral, Daniel Jonas, Frederico Lourenço, Inês Fonseca Santos, João Tordo, Paulo Moura e o jornalista Pedro Marques Lopes. Haverá sessões de leitura de poesia «às cegas» (tal qual como as provas de vinho), e o ilustrador Paulo Galindro vai levar o vinho até à sua paleta para certamente nos surpreender. Pode-se lá perder uma festa destas…

Relembrar

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O jornalista Joao Morales quer tirar muitos livros do esquecimento, uma vez que as livrarias já não coseguem mostrar senão as novidades e há títulos e autores que correm  o risco de não voltarem a ser lidos e falados, uma espécie de morte completamente imerecida. Vai daí criou uma actividade que decorre mensalmente na Livraria Almedina, ao Saldanha, em Lisboa, para a qual convida normalmente duas pessoas que ali vão partilhar com o público as suas leituras desde a infância e alguns livros que leram e dos quais já pouco gente se lembra. Sim, é uma espécie de «ressurreição» de obras literárias e, por isso, Morales chamou à iniciativa Recordar os Esquecidos (na qual já participei há coisa de um ano com João Paulo Cotrim e pilhas de livros). Amanhã às 18h00 quem vai estar a mostrar os seus livros equecidos são dois autores da nova geração: Nuno Costa Santos e Nuno Camarneiro. Vale a pena irmos ouvir os seus livros lembrados.


 


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Leitores cegos

Tenho um grupo de amigos desde há muito, e uma dessas amigas, que tem um terrível humor negro, um dia decidiu inventar que todos nós iríamos envelhecer mal – excepto ela, evidentemente, que ficaria generosamente a tomar conta dos outros... A mim vaticinou-me uma espécie de cegueira progressiva (ela lá sabia que eu, sem ler, não conseguiria ser feliz); e, não contente com isso, ameaçou que, mesmo que eu aprendesse a ler livros em braille, mos passaria a ferro se eu me portasse mal… Com amigos assim, quem precisa de inimigos? Mas não se escandalizem, fazia tudo parte de uma brincadeira de velhos amigos (e garanto-vos que rimos até já não podermos com dores de barriga). Lembrei-me dela, aliás, por ler que a Secretária de Estado da Inclusão de Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, ela própria cega, prometeu que tudo fará para que no Plano Nacional de Leitura, mais cedo ou mais tarde, sejam incluídos livros em braille, uma vez que o PNL ainda não abrange «crianças invisuais» e estas têm tanto direito a ler como quaisquer outras. Uma boa decisão, digo eu (de que até poderei beneficiar se os vaticínios da minha amiga se concretizarem).

Acordo, desacordo

Aqui há uns anos, quando se «instalou» o malfadado Acordo Ortográfico, uma das coisas que mais celeuma levantou foi o facto de se tirarem os «c» e os «p» em palavras como «acto», «tecto» ou «excepção», por exemplo. Esse rasgão, dizia-se, afastaria as palavras da sua raiz latina («ato» seria igual à forma verbal da primeira pessoa do singular do verbo «atar» no presente do indicativo…). Ficámos todos com a sensação de que o que se pretendia era aproximar a ortografia portuguesa da brasileira e que, de alguma forma, havia aqui um lado de «submissão» do país pequeno ao país maior por razões que agora não interessa explicar (mas não eram as pertinentes). Num livro de um autor português que uma editora brasileira quis publicar, afadiguei-me, pois, a tirar estes «c» e «p» a mais (com o acordo do autor, claro) antes de mandar o ficheiro (e um pouco em troca de não me mudarem mais nada); mas, quando chegou o texto paginado para nossa revisão, vi enfim a tolice daquele propósito do AO de aproximar as duas ortografias… É que eu tinha tirado os «c» e os «p», mas os editores brasileiros voltaram a pô-los em palavras como «expectativa», «perspectiva» e «espectro» (em que pronunciam o «c») e em palavras como «decepcionar», «recepção» e «excepcional» (em que pronunciam o «p»). Enfim, para que foi aquilo, afinal?

Invasores

Leio um interessante artigo de José Carlos Fernandes no Observador sobre a rapidez com que muitos vocábulos de língua inglesa estão a invadir o português, alterando o sentido que dávamos a palavras da nossa língua. Diz o autor que, por exemplo, «antecipar» sempre significou o contrário de «adiar», mas que, por causa do «antecipate», o verbo é agora usado por muita gente com a acepção de «prever», «esperar» ou «adivinhar», e não raro os nossos economistas «antecipam» a descida das taxas de juros e os promotores de espectáculos «antecipam» o sucesso de um concerto… Outa expressão que já entrou no nosso uso é «por defeito», uma tradução atabalhoadíssima de «by default» (que o Oxford English Dicitionary define como «por falta de oposição»); a expressão «por defeito» em português é muito antiga e significa «um valor aproximado e inferior àquele que é tomado como referência», portanto, nada que ver com defeitos de qualquer espécie. Há mais casos, claro, e o que me mais me põe os cabelos em pé é o «realizar» no sentido de «aperceber-se»… Vamos por isso fazer um esforço para não importar mais vocábulos invasores e usar os nossos, que ainda se extinguem. Combinado?

Uma dúzia

A revista Estante, da FNAC, pediu recentemente a um grupo de cinco pessoas que elegesse as obras maiores da narrativa portuguesa dos últimos cem anos. Estes cinco elementos do júri eram as jornalistas Clara Ferreira Alves e Isabel Lucas, o professor da Universidade de Coimbra Carlos Reis, o editor (e, por acaso, meu marido) Manuel Alberto Valente e o crítico Pedro Mexia (não fiquem já de cabelos em pé as feministas, que as mulheres até estavam bastante bem representadas para o que é costume). Lamento dizer que não li o primeiro – A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino Ribeiro (mas ainda vou a tempo) – e, em relação aos outros onze escolhidos, não posso senão assinar por baixo e recomendá-los aos leitores aqui do blogue, mesmo que um ou outro não me encha as medidas (mas o problema deve ser meu). Então, aqui vai a lista: O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares; Para Sempre, de Vergílio Ferreira; Sinais de Fogo, de Jorge de Sena; Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio; Húmus, de Raul Brandão; Finisterra, de Carlos de Oliveira; A Sibila, de Agustina Bessa Luís; Os Passos em Volta, de Herberto Helder; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes; O Delfim, de José Cardoso Pires; O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Uma dúzia de livros para ler e reler.

Maus hábitos

Na história da literatura, houve muitos escritores que bebiam demais – e basta ler o livro de Hemigway Paris É Uma Festa para perceber que a festa incluía mesmo muito álcool (sobretudo vinho, que era o que Hemingway nesses primeiros tempos podia pagar). Os poetas simbolistas eram valentes bebedores de absinto (a «fada verde») – Rimbaud, ao que parece combinava-o com haxixe – e bebiam-no às cinco em ponto como se fosse chá. Scott Fitzgerald era alcoólico, o que afectou a sua produção literária. Faulkner tinha a febre das apostas em corridas de cavalos – e muitos outros autores gostavam do jogo (Dostoievski, evidentemente!). O cigarrinho também esteve muitas vezes na mesma mão que segurava a caneta; num livro muito giro de Javier Marías chamado Vidas Escritas que li há anos – e, se não me engano, colige crónicas que o espanhol escreveu num jornal – descobri que Joseph Conrad deixava constantemente cigarros acesos nos cinzeiros e teve várias ameaças de incêndio em casa. Fumava também Cortázar (fotografado de cigarro na mão tantas vezes) e o peruano Julio Ramón Ribeyro, que até escreveu um conto chamado «Só para Fumadores». E fumavam Duras, Beckett, Camus, Orwell, Henry Miller, Octavio Paz e muitos, muitos outros. Se os ajudaram a escrever o que escreveram – e acredito que sim – vivam os maus hábitos…

Arquivo

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Quando gostamos muito de uma livraria, gostamos também de lá ir uma e outra vez. É o caso desta minha visita à Livraria Arquivo, em Leiria, logo à tarde, com dois autores que têm uma relação muito especial. Pois é, ele há coisas… No ano passado, quando publicámos no site da LeYa os títulos e pseudónimos dos finalistas do Prémio LeYa, descobrimos pouco depois que dois deles eram… pois, namorados! Olha a grande coincidência… Isabel Rio Novo, que escreveu Rio do Esquecimento, um romance algo camiliano que publiquei em Fevereiro deste ano, e Paulo M. Morais, que chegou à final com uma novela que quis rever e de quem, antes dela, publiquei Uma Parte Errada de Mim, concorreram ambos ao prémio – e nem tiveram de discutir por um ser melhor do que o outro, já que ambos chegaram ao fim na mesma posição. Não será evidentemente sobre esta história – mas também a abordaremos, porque não? – que hoje vamos estar na Arquivo, mas sobre os livros que ambos escreveram e o acto de escrever ficção e não-ficção. Se estiver por perto, vá lá ouvir-nos e perguntar o que quiser.


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Prémio para Língua

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Na sexta-feira passada, fui agradavelmente surpreendida pela notícia de que Biografia do Língua, de Mário Lúcio Sousa, vencera o Prémio PEN de Narrativa (que será entregue já no próximo dia 29). Falei-vos deste livro certamente há um ano, quando o publiquei, mas aproveito agora a «embalagem» do galardão para vos dizer que a votação do júri foi por unanimidade, o que não deixa dúvidas sobre a qualidade do romance (uma coisa é o editor dizer bem dos seus livros, outra é isso ser confirmado por um júri idóneo). Mário Lúcio Sousa já tinha publicado antes na Dom Quixote O Novíssimo Testamento (também premiado), e Biografia do Língua (que vencera o Prémio Miguel Torga na sua versão inédita) é a história de um condenado à morte a quem os carrascos oferecem a possibilidade de realizar um último desejo e que então pede para contar uma história. O problema é que não só a história parece não ter fim como acaba por atrair tantos ouvintes de tantas partes que dá lugar ao nascimento de uma nova sociedade ligada pelas histórias. Parabéns, Mário Lúcio Sousa, por mais um prémio!


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Dias desassossegados

A partir de amanhã e até ao dia 30 de Novembro (data da morte de Fernando Pessoa e do aniversário da Casa que tem o seu nome) celebram-se uma vez mais os Dias do Desassossego com numerosas actividades que vão desde a promoção da leitura aos debates, concertos, passeios literários e declamação de poemas. A iniciativa, que nasce de uma parceria da Casa Fernando Pessoa com a Fundação José Saramago, vai ter eventos pessoanos e saramaguianos para todas as idades – e um dos mais giros será seguramente o Contatininhas, de Luís Carmelo e Nuno Morão, para crianças a partir dos 4 anos, sobre trava-línguas e fábulas ao som de uma concertina. Mas a Fundação José Saramago receberá a peça A Ilha Desconhecida, do nosso Nobel da literatura, alguns músicos vão mostrar com instrumentos como interpretam o que lêem, especialistas vão partilhar experiências sobre a melhor forma de dar a ler, Pessoa e Saramago vão andar por aí a mostrar-se de todas as maneiras e feitios pelas ruas de Lisboa. Se estiver interessado, deixo aqui o programa completo. A entrada é gratuita.


http://www.josesaramago.org/programa-dias-do-desassossego16/


 


 

A literatura contra o trânsito

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Quem mora e/ou trabalha na capital anda por estes dias com os nervos em franja. Não só a cidade está toda em obras – obras que acontecem em todo o lado ao mesmo tempo e que neutralizaram muitas zonas de estacionamento –, como o trânsito está tão insuportável que mesmo os de índole mais paciente não podem deixar de perder a calma, vociferar, chegar a casa zangados ao fim de um dia de trabalho. E quem não mora em Lisboa sabe-o pelos jornais, pois não param as críticas à Câmara por esta bizarra operação de estética global. Temos de fazer alguma coisa… No Canadá, a literatura decidiu virar-se contra o trânsito (a literatura até para isto serve, calculem) e vários artistas inundaram as ruas com 10 000 livros, numa espécie de manifestação chamada Literature vs Traffic criada por um grupo que se autodenomina Luzinterruptus e que pretende levar a cultura a lugares que são marcados pela poluição e a velocidade. Encheram literalmente o alcatrão de livros iluminados (doados pelo Exército de Salvação) e deixaram-nos lá para quem quisesse ir buscá-los e lê-los. A «instalação» só durou dez horas (a rua era necessária à circulação de carros na manhã seguinte), mas a imagem diz que valeu a pena.


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Ler ou escrever

Dizem que não é possível escrever sem ter lido e que as duas actividades são indissociáveis. Concordo, evidentemente. Calcula-se também que os escritores sejam as pessoas que mais lêem – e é verdade, basta ouvir Lobo Antunes a citar de cor tantos poetas e romancistas de cada vez que fala do que é escrever. E, porém, um dia, numa sessão dedicada à literatura em que participavam três ou quatro escritores, o moderador perguntou-lhes o que estavam a ler nesse momento e uma das intervenientes hesitou tanto que o público percebeu imediatamente que não estava a ler coisa nenhuma e, como dizem os brasileiros, «pintou um mau clima»; emendar a mão e oferecer dois ou três títulos estranhos – e franceses! – não ajudou ninguém a mudar de opinião... Muitos escritores dizem que, quando estão mergulhados num romance novo, simplesmente não lêem: estão tão colados às suas personagens que não conseguem estar com as dos outros – e não há mal nenhum nisso, até porque confessá-lo abertamente evitaria alguns incómodos como o que referi. Ouvi alguém dizer que Cardoso Pires, por exemplo, só lia revistas e literatura barata quando estava a escrever um romance – e se calhar os seus romances beneficiaram dessa atitude. Mas... deixar de ler? Temer as influências? Viver apenas com o próprio texto? Haverá coisa mais inspiradora para quem escreve do que a escrita alheia? Eu teria uma enorme dificuldade em agarrar-me ao meu texto e deixar o dos outros de fora, ou em não ler durante meses se estivesse a escrever um romance. Mas também sou preguiçosa para a escrita e prefiro a leitura. Nunca poderia ser uma escritora a sério, em suma. Bom fim-de-semana.

À mesa em Coimbra

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Não, não vou falar de nenhum restaurante dessa cidade que será eternamente famosa pela sua Universidade. Quando escrevo «à mesa» no título deste post estou, antes de mais, a pensar que logo à tarde estarei sentada a uma mesa para, em suma, lançar mais um livro, que por acaso até fica bem à mesa porque fala de comida. É essa maravilha que já aqui referi no mês passado – Cinco Séculos à Mesa, de Guida Cândido –, um belíssimo receituário que recupera iguarias que podem ter 500 anos mas são perfeitamente confeccionáveis nas nossas modernas cozinhas (fique a saber que o arroz-doce é uma delas, mas há delícias para todos os gostos e as fotografias fazem crescer água na boca). O livro, no entanto, é muito mais do que isso, ou não fosse a sua autora uma especialista em História da Alimentação, e traz uma saborosa introdução sobre hábitos alimentares, tradições, métodos de confecção e ementas ao longo de cinco séculos, para que o leitor saiba, por exemplo, que nem sempre foi possível comer batata ou quais os peixes iam à mesa da Infanta D. Maria. Se se interessa por estas matérias – e, sobretudo, se está ansioso por provar alguns destes sublimes manjares –, esperamos por si hoje às 18h30, na FNAC de Coimbra, onde quem souber ouvir a Professora Maria José Azevedo Santos, que apresenta a obra, terá direito, pois claro, a uns petiscos. Apareça!


 


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100 anos

Falei-vos há tempos do centenário de Vergílio Ferreira. Mas comemora-se este ano o centenário do nascimento de um outro escritor, Mário Dionísio, que também foi artista plástico e professor na Faculdade de Letras (se não me engano, dava aulas de Técnicas da Expressão do Português quando tirei o curso, e os alunos tinham-lhe muito respeitinho). Foi, aliás, nesta Faculdade – e igualmente na Casa da Achada (onde funciona o Centro Mário Dionísio) e ainda no Museu do Neo-Realismo – que recentemente se realizou um congresso dedicado a este autor, um dos mais importantes e polémicos teóricos do movimento neo-realista. A sua Poesia Completa foi recentemente publicada pela Imprensa Nacional num só volume com cerca de 500 páginas e uma introdução do encenador Jorge da Silva Melo; e o seu espólio, devidamente tratado e catalogado, pode ser encontrado e consultado na Casa da Achada, ali à Mouraria, que hoje é um lugar de culto dirigido por Eduarda Dionísio, sua filha e também escritora. Num tempo em que «quem não aparece esquece», a efeméride é um bom pretexto para visitar ou revisitar a obra de Dionísio.


 

Central Madrid

As pessoas que gostam de livros têm sempre coisas em comum... Um destes fins-de-semana, aproveitando o feriado e a ponte, fomos a Madrid, o Manel e eu. E, estando lá, não pudemos deixar de visitar livrarias como outros visitam museus ou lojas (e nós também, mas no dia seguinte). Tínhamos conhecido uns anos antes uma livraria fantástica em Barcelona, daquelas que já não encontramos em Lisboa, chamada La Central, e alguém dissera ao Manel que havia agora também uma La Central na capital espanhola, pelo que estávamos com água na boca para a conhecer. Fomos e, claro, comprámos livros. A loja de Barcelona que tínhamos visitado é mais bonita, mas esta tem igualmente aquelas coisas que já não se encontram nas FNAC e similares, e cheira a papel e chão encerado em vez de cheirar a ladrilhos e telemóveis. No dia seguinte, encontrámo-nos com dois amigos que descobrimos estarem também em Madrid nesse fim-de-semana, o Nuno e a Manuela Júdice. E, quando lhes perguntámos que planos tinham para aquela manhã, a resposta foi rápida: La Central, claro. Fomos outra vez. As pessoas que gostam de livros têm sempre coisas em comum.

Dialogar com o corpo

Há muitos anos, em conversa com um psiquiatra sobre as razões que levam tantos jovens ao suicídio, ele explicou-me que, em muitos casos, longe de se tratar de amores mal resolvidos – ideia um tanto romântica essa de morrer de ou por amor –, eram situações em que os implicados tinham uma má relação com o próprio corpo, alguma coisa nele que não conseguiam aceitar (e a verdade é que conheço pelo menos dois casos em que isso era verdade). Disse-me ainda que, quando uma mulher muito magra se acha gorda e não pára de falar nisso, é preciso estar atento, porque pode ser um sintoma de que está desencontrada do seu corpo, e nunca se sabe aonde isso pode levar. Li recentemente um pequeno livro de poesia de uma jovem autora espanhola,  Elisa Levi, que é, a este título, magistral. Chama-se Perdida en un bol de cereales e reflecte sobre o desencontro entre a cabeça e o corpo (os seus, presumo) de uma forma em que ambos dialogam (ou o corpo escuta e a cabeça fala) e, por isso, o tu nunca deixa completamente de ser o eu. É uma recolha de poemas breve, mas intensa,  em que alguém mostra que consegue fazer as pazes com o corpo desavindo e segue em frente. Sei que não será fácil encontrar essa colectânea nas nossas livrarias, mas a rede global apanha tudo e acredito que ajude todos aqueles que em algum momento andaram por aí desencontrados do corpo e da identidade, especialmente os mais jovens. Recomendo vivamente.

Escritores online

Se quer saber alguma coisa sobre um escritor português de quem gosta, morto ou vivo, tem dois bons instrumentos à sua disposição. A Base de Dados de Autores Portugueses, da responsabilidade da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que inclui cerca de 5000 autores (há tantos? Não sabia) e foi construída com base no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses que foi publicado entre 1983 e 2001 e, a partir daí, passou a estar apenas online mas é permanentemente actualizado; e a novíssima plataforma escritores.online, que se centra nos autores contemporâneos, fornecendo informação biobibliográfica, fotografias, links para os respectivos sites e blogues, excertos de obras, entrevistas, notícias e até vídeos enviados pelos próprios escritores, pois muitas vezes a saída de um novo livro gera eventos interessantes e pequenos videoclips elucidativos. Por isso, quando andar à procura de um título de que já se esqueceu, ou quiser averiguar em que cidade ou ano nasceu determinado autor, tudo o que publicou e quando se realiza o lançamento do seu próximo livro, tem aqui tudo aquilo de que precisa. Quer ir espreitar? Os links são estes:


http://escritores.online/


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores.aspx


 


 

Escritores extraordinários

Calculo que, entre os Extraordinários leitores deste blogue haja numerosos escritores, gente que gosta de contar histórias e de exercitar a pluma e que, como todos os que começam, tenha dificuldade em ver a sua primeira obra publicada. Mas existe por aí um prémio anual interessante para abrir portas; destina-se a quem tenha uma novela, um pequeno romance, pronto até Março do ano que vem. Trata-se do Prémio Nacional de Literatura Lions 2016/2017, o seu valor é de 2500 euros e, através dele, a Associação Internacional de Clubes Lions pretende estimular e divulgar a produção literária junto do público em geral. Os interessados devem entregar cinco exemplares impressos das suas obras na Rua Basílio Teles, nº. 17 – 3º. C, 1070-020 Lisboa, ou na Rua Brito Capelo, 223 A, 4º. Piso, escritório 18, 4450-073 Matosinhos, ou enviá-las por correio registado para uma dessas moradas. A data limite da entrega é o dia 15 de Março de 2017. Têm, como vêem, ainda muito tempo. O regulamento do concurso pode ser consultado no link abaixo. Isto é o que se chama um post preguiçoso, bem sei.


 


http://www.lionsclubes.pt/dm115/images/stories/lit-prix.pdf

No Chiado

Eu sei que hoje era dia de dizer o que ando a ler, mas há duas razões para que não cumpra o que se tornou uma rotina aqui no blogue. A primeira é que ando há dias e dias a ler letras de fado por causa de um projecto em que estou envolvida (tenho, claro, um romance à cabeceira, de Juan Marsé, mas estou nas primeiras páginas e, por isso, só falarei dele mais tarde); a segunda é que hoje há uma sessão na Livraria Bertrand do Chiado às 18h30 que me parece a todos os títulos excepcional e achei que devia partilhá-la com os Extraordinários, acreditando que algum deles ali queira deslocar-se. Ler no Chiado – assim se chama a iniciativa que é há muito conduzida por Anabela Mota Ribeiro – traz este mês a vocalista dos Deolinda, Ana Bacalhau, acompanhada por André Santos, para cantar «Livros» de Caetano Veloso e Pedro Lamares para ler poemas de Sophia. Falará sobre a poetisa Carlos Mendes de Sousa, que organizou a sua Obra Poética. Vai ainda ser exibida uma curta-metragem de 1969, realizada por João César Monteiro, sobre Sophia – e, como se tudo isto não bastasse, espera-se que apareça e diga o que lhe apetecer esse pensador que todos adoramos chamado Eduardo Lourenço. Então, não acham que fiz bem?

Futuro

Começa amanhã o Fórum do Futuro, um festival internacional dedicado ao pensamento, que se realiza anualmente com a organização do Pelouro da Cultura do Município do Porto e reúne convidados de variadíssimas proveniências e disciplinas para reflectirem sobre os problemas da sociedade contemporânea. Com eventos espalhados pela Casa da Música, o Museu de Serralves e o Teatro Rivoli, entre outros, este ano o tema será «Políticas e Humanidades» e as sessões prometem ser profundas e interessantes (além de gratuitas, bastando apenas levantar os bilhetes com antecedência). Teremos, por exemplo, a oportunidade de ouvir o cardeal Ravasi sobre Deus, o escritor Tahar Ben Jelloun sobre o estado do mundo e a ameaça terrorista, o cineasta Joshua Oppenheimer, autor de um documentário sobre os sobreviventes do genocídio indonésio dos anos 1960, sobre o dever de não esquecer. Falar-se-á ainda de clima, de guerra, de arquitectura, de refugiados, do papel dos negros na História e de muito mais. Richard Zimler vai entrevistar a escritora Ali Smith e todos os moderadores são gente de respeito. Aproveite, não é todos os dias que há um programa tão suculento! Programação completa aqui:


 


http://forumofthefuture.com/

Cinco séculos à mesa

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Como vamos todos de fim-de-semana (grande, no meu caso), deixo-vos um livro para se deliciarem durante os próximos dias (em que há mais tempo para cozinhar), intitulado Cinco Séculos à mesa e assinado por uma especialista em História da Alimentação, Guida Cândido. A identidade da cozinha portuguesa, os pratos nacionais e regionais, são relativamente recentes em termos históricos. Mas, embora as práticas gastronómicas, os gostos culinários e as técnicas de confecção dos alimentos tenham evoluído ao longo dos tempos, muito do que comemos hoje é herança de um passado remoto, pelo que é possível, em pleno século XXI, preparar uma receita com quinhentos anos e saboreá-la em nossa casa. Este é o propósito da obra que vos trago; apresentando-nos o caminho traçado pela História da Alimentação, propõe que peguemos em cinco obras clássicas de culinária entre os séculos XV e XX e recriemos nas nossas modernas cozinhas uma bateria de cinquenta receitas deliciosas, incluindo entradas, pratos de peixe e carne, sobremesas, refrescos, e muito mais. O livro é prefaciado pelo chefe Hélio Loureiro. Tenham um saborosíssimo fim-de-semana!


 


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Escada para um romance

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Em Istambul, confluência de mundos, uma estranha escada desperta a atenção de Tiago Salazar, conhecido sobretudo como escritor de viagens; e ele decide ir atrás da sua história, que se confunde com a extraordinária saga dos seus construtores, presenteando-nos com o seu primeiro romance. Conhecidos como os «Rothschild do Oriente», os judeus Camondo erraram pela Europa até se instalarem em Istambul, onde viriam a tornar-se banqueiros do sultão e grandes filantropos. Abraham-Solomon, o patriarca, era o judeu mais rico do Império Otomano e combateu a maldição do judaísmo na Turquia fundando escolas que respeitavam todos os credos e legando ao filho e aos netos a importância da caridade e do mecenato. Já em Paris, o seu bisneto Isaac, amigo dos pintores impressionistas, doaria ao Museu do Louvre mais de cinquenta quadros de Monet, Manet e Degas; e o seu primo Moïse abriria um museu que ainda hoje pode ser admirado e visitado na capital francesa. E, porém, apesar do seu poder e da sua influência, poucos conhecem a história desta família magnânima... O mistério explica-se: sobre a dinastia Camondo abateu-se uma fatalidade – a sua fortuna e o seu sangue eclipsaram-se nos campos de Aushwitz. Em A Escada de Istambul, Tiago Salazar resgata do esquecimento várias gerações desta memorável família e compõe, a partir de factos e documentos reais, uma ficção na qual ele próprio deambula como personagem. (A foto abaixo é do grande Cartier Bresson.)


 


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Livros de estreia

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Já me tinham convidado de outras vezes, é certo, mas as datas propostas nunca me davam jeito no meio de tantos trabalhos e de viagens que tenho de fazer para lançamentos e apresentações dos livros que publico. Ao fim de sei lá quantas tentativas, consegui, mesmo assim, arranjar uma abertazita. Trata-se de participar numa sessão na Casa da Escrita, em Coimbra, onde se realizam regularmente sessões sobre o primeiro livro – o princípio de uma carreira literária, portanto – de um dado escritor. E desta vez calhou-me a mim: ouvir, primeiro, Teresa Carvalho falar de A Casa e o Cheiro dos Livros, o meu primeiro livro de poesia, publicado quando já tinha 36 anos; e, depois, decerto dizer eu alguma coisa, ou ler, ou discordar, ou contar como foi. É logo mais, às 18h00, na Rua João Jacinto, n.º 8, em Coimbra. Se estiver por perto, apareça. Dizem que o lugar é bem bonito.


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As senhoras

Falei aqui ontem dos atributos das raparigas – e hoje o post, embora enviesadamente, também tem que ver com elas. Há cerca de um mês, li a notícia boa de que dois autores portugueses tinham sido seleccionados para o Prémio Femina em França (a primeira selecção incluía 14 romances traduzidos). Este é um prémio instituído há mais de cem anos, mas só contempla romance estrangeiro desde 1985, tendo sido ganho, por exemplo, em 1990, por Vergílio Ferreira com o romance Manhã Submersa. Os dois candidatos portugueses deste ano, Valério Romão e Gonçalo M. Tavares (que, por acaso, já foi finalista em 2010), concorrem, respectivamente, com as obras Autismo e Matteo Perdeu o Emprego. Na passada sexta-feira, chegou a segunda boa notícia: os dois passaram à final, ou seja, dos 14 romances seleccionados agora ficaram só 5, e 2 deles são de portugueses! Os concorrentes são romances de Rabih Alameddine, Petina Gappah e Edna O’Brien, e o prémio será anunciado hoje, pelo que peço que torçam todos pelos nossos para ver se funciona. E, afinal, que tem isto a ver com as senhoras? Ah, bom, é que – tal como o nome indica – no júri do Prémio Femina só há mulheres. Espero que elas gostem dos nossos rapazes.

Miúdas versus Rapazes

Um dia, num belíssimo filme de James Ivory, ouvi Vanessa Redgrave (já não recordo o nome da sua personagem) dizer que, se as mulheres mandassem no mundo, haveria muito menos guerras porque elas não quereriam que os seus filhos combatessem e fossem mortos. Serão as mulheres diferentes dos homens a esse ponto? Não fui mãe, mas tenho sete sobrinhos, cinco dos quais são raparigas. Observando-os aos sete ao longo do tempo, sou obrigada a concluir que elas foram sempre mais desembaraçadas, mais desenrascadas, mais auto-suficientes, menos dependentes. Souberam inventar formas de fazer dinheiro para poderem viajar, distribuindo panfletos e sentando convidados VIP em estádios de futebol durante o Euro ou estacionando carros em eventos internacionais como o Open de Ténis do Estoril. Eram (e as mais pequenas serão ainda possivelmente) mais senhoras de si, mais autónomas, mais fura-vidas. Li que actualmente há mais mulheres do que homens a entrarem nas nossas universidades; e, quando dão notícias sobre equipas de pesquisa médica e científica por esse mundo fora que descobrem curas e fazem outras conquistas notáveis, não raro estão nelas várias mulheres. Também as estatísticas confirmam que Elas lêem muito mais do que Eles. Um dia destes, li até a estranha notícia de que no Reino Unido os pais gastam menos 25% em livros para os filhos do que para as filhas, porque os rapazes preferem outros brinquedos. Ora, se os rapazes deixarem de ler, cuidem-se: as raparigas vão mesmo tomar conta do mundo…

Para variar

Este é um blog que fala sobretudo de livros e de edição, mas, para variar, vou hoje falar-vos de um filme, até porque sei que, ao fazê-lo, não estou a sair da minha zona de conforto. Na verdade, o filme trata de livros… e de edição, claro, e em várias passagens – salvaguardadas as distâncias, bem entendido – recordou-me o meu trabalho quotidiano e algumas das vicissitudes deste belo, mas às vezes tão duro, ofício. Trata-se de Um Editor de Génios, realizado por Michael Grandaje, que conta a história da relação entre Max Perkins (o grande editor da Scribner que deu à estampa autores tão grandes como Hemingway e Scott Fitzgerald) e o escritor Thomas Wolfe (não confundir com o autor de A Fogueira das Vaidades) desde o final dos anos 1920 até à morte deste, em 1938. As duas personagens (papéis desempenhados por grandes actores como Colin Firth e Jude Law) são quase antagónicas, mas criam-se entre ambas laços apertados e até uma certa dependência, uma vez que o escritor é demasiado prolixo e é preciso reduzir milhares de páginas adjectivadas e metaforizadas que escreveu a um volume mais conciso e legível, o que sem o editor não é tarefa fácil. Mas estes laços e estes cortes são apenas uma parte das cisões e das ligações desta história que interessará seguramente a todos os que gostam de livros. A ver, evidentemente.

A rapariga e o pintor

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Eu bem sei que já aqui falei de Adoração, de Cristina Drios (e não há muito tempo), mas há razões para que volte à carga. O livro sobre esse pintor maravilhoso que ficou conhecido por Caravaggio (na verdade o seu nome próprio era Miguel Ângelo, mas Miguel Ângelo já havia um) e um dos seus quadros (Natividade com S. Francisco e S. Lourenço, conhecido por Adoração) vai ser apresentado logo à tarde, pelas 18h30, na Livraria Buchholz por Luís Carmelo. Estão todos obviamente convidados para este lançamento, mas, não podendo ir, não falhem a leitura deste irresistível romance que cruza duas épocas e nos traz algumas personagens que ficam connosco até muito tempo depois de acabado o livro, como o agente Salvatore Amato (tentem traduzir este nome; surpreendente, não?), Antonia Rei, uma rapariga perdida, ou o duque de Nottetempo, figura que seria digna de um Fellini, mas também de um Visconti (perceberão se lerem Adoração). Então, aparecem? Ainda por cima há música!


 


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Desmancha-prazeres

Quando Elena Ferrante começou a escrever livros, pôs ao seu editor como condição para os publicar não ter de aparecer em lado nenhum, alegando que era a obra que importava, e não a pessoa que a escrevia. Deu, é bem certo, algumas entrevistas por e-mail ao longo dos anos, mas ninguém sabia quem era Elena Ferrante, embora houvesse dados que configuravam uma mãe, uma napolitana, uma professora com formação em Clássicas. O sucesso que obteve com a tetralogia A Amiga Genial (ainda não li o último, está em fila de espera) estragou, porém, os seus planos; atraído ele próprio pelo sucesso que representaria a descoberta da real identidade da famosa Ferrante, um jornalista decidiu ir atrás dos rastos da escritora e publicou um artigo em que revela que se trata de uma tradutora chamada Anita Raja, filha de uma alemã que foi para Itália a fugir do Holocausto, casada – isso, sim – com um escritor napolitano que algumas pessoas já tinham pensado ser o autor por detrás do pseudónimo. Para tanto, chegou ao ponto de investigar os dinheiros que saíam da editora para pagar trabalhos a Anita Raja (era demasiado dinheiro para uma simples tradutora) e inventariar bens e casas cada vez maiores e mais bem situadas pertencentes ao casal (um escritor e uma tradutora não costumam ter casas assim tão boas). Embora todos nos perguntássemos quem era a Ferrante, chego à conclusão de que o maior gozo era mesmo não o saber. Porque senti a revelação como um acto de um desmancha-prazeres, além, claro, de uma clara devassa da vida privada (mas sobre isso já muitos falaram). Há, porém, quem defenda que é obrigação do jornalista investigar – e que não devemos criticar, portanto, o autor da descoberta, que fez apenas o que lhe compete. Seja como for, eu preferia não ter sabido a verdade. Não há nada como um bom mistério.

Tristes reformas

Leio num jornal que os novos governantes do Brasil vão fazer reformas profundas no ensino médio. Infelizmente, pela voz do jornalista, parece-me que o país se vai virar para um ensino mais técnico e menos abrangente, privilegiando áreas ditas técnicas e científicas e suprimindo a obrigatoriedade do estudo da filosofia e das artes. Os alunos terão uma carga horária muitíssimo superior – passará das actuais 800 horas anuais para as 1400 (nem vão ter tempo para brincar os pobres) – justificada pelo facto de que, só estando na escola a tempo inteiro, com horário de profissional, o aluno terá possibilidade de aprofundar (e se especializar) em uma de cinco áreas: «linguagens [línguas?], matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica e profissional.» Pois, mas então porque é que, mesmo com tanto tempo passado dentro da escola, desaparecem dos programas a filosofia, a sociologia, as artes e a educação física, que passam a ser apenas disciplinas opcionais? Cá para mim, a mudança traz água no bico – e ensinar a pensar deixou de ser uma coisa boa, tal como dar largas à criatividade dos estudantes. Por todo o lado o mesmo, enfim. Tristes reformas.

Estranheza

Consta que a decisão do Prémio Nobel da Literatura se atrasou uma semana em relação ao previsto por ter havido desacordo entre os membros do júri. Disse-se também que talvez tivessem escolhido alguém que se presumia iria recusar o galardão e não queriam repetir o episódio de Sartre; disse-se até que o escolhido morrera desde a primeira reunião e que tinham tido de buscar outro nome; disse-se que.. que.. que… Depois de saber quem arrecadou o prémio, imagino que não tenha sido fácil pôr os jurados todos a acreditar que Bob Dylan seria uma boa ideia. Quando Woody Allen escreveu o seu primeiro livro, um crítico literário americano desapontado referiu: «Could you stick to movies?» Talvez esse mesmo crítico concordasse, porém, que muitos dos scripts de Woody Allen são geniais, mas são geniais porque andam à boleia da imagem, lidos de per si não constituem decerto obra literária. E, porém, já me estou aqui a perguntar se um bom guionista de cinema ou televisão, um bom libretista de ópera ou da Broadway, não poderá no futuro ser agraciado com o Nobel da Literatura… Chamem-me bota-de-elástico. Não me importo. Eu, que por acaso até escrevo letras para canções e fados, não concordei com a escolha de Bob Dylan no passado dia 13. Por muito belas e profundas que sejam as suas canções, são isso mesmo, canções: texto + música (e ainda interpretação). Não creio que o texto sem a música se aguente e estou convencida de que, se Dylan nunca tivesse cantado os seus textos (poemas, para quem prefira), não teria ascendido à condição de poeta respeitável e nobelizável. A poesia de outros que foram anteriormente premiados – Seamus Heaney, Brodsky, Eliot, Quasimodo, Neruda, só para citar alguns – tem uma música intrínseca, diferente de caso para caso, que não precisa de nenhuma outra música para o texto brilhar. Ter a bengala de outra arte – a música, o cinema – para valorizar um texto é, de algum modo, diferente de se ser puramente escritor. Chamem-me chata. Não me importo.

Contra a violência doméstica

Dizemo-nos um país de brandos costumes, e é bem verdade que em Portugal ainda se respira com segurança e até se pode caminhar por muitos dos bairros da capital sem perigo nem sensação de ameaça. E, porém, todos os anos morrem cada vez mais mulheres, assassinadas por maridos, ex-maridos e namorados, sendo os números das que não morrem mas são igualmente vítimas de violência doméstica também cada vez maiores. Ana Cristina Silva, de quem publiquei vários livros nos últimos anos, o mais recente dos quais A Noite não É Eterna, escreveu em 2003 A Mulher Transparente, um romance que se encontrava esgotado havia muito e que relata justamente a vida de uma mulher marcada pela brutalidade de um homem que sobre ela exerce um poder absoluto. Agora, com prefácio da Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, o livro, reescrito pela autora, foi oportunamente reeditado. Apresentado no ISPA no final do mês passado pela escritora e procuradora da República no Tribunal de Família e de Menores Julieta Monginho, os seus direitos revertem integralmente para a APAV. Vamos colaborar?

Húmus

Em Março do ano que vem – mais exactamente no dia 12 – comemoram-se 150 anos do nascimento do grande escritor Raul Brandão. A belíssima cidade de Guimarães prepara para esse mês um festival literário em torno da figura e da obra do autor de Húmus, mas já começou, na verdade, a festejar o escritor em Abril deste ano com sessões várias na Biblioteca Municipal Raul Brandão, na qual confrades e estudiosos se debruçam sobre o mestre, que também foi jornalista e morreu em Lisboa em 1930. Depois de Pedro Vieira, Bruno Vieira Amaral, Afonso Cruz, João Tordo ou José Luís Peixoto, é hoje a vez do poeta e crítico Pedro Mexia participar da actividade «Escritor no Concelho», durante a qual terá oportunidade de falar da sua leitura de Raul Brandão, mas também de conversar sobre o seu próprio percurso literário. Eu gostaria de ir, mas estarei no Porto para o lançamento na Invicta de Uma Parte Errada de Mim, de Paulo M. Morais, que desta feita contará com a apresentação do escritor João de Melo na FNAC de Santa Catarina. Até amanhã!

Adorável

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Descrito pelo duque de Nottetempo, seu contemporâneo, como «um brigão, um arruaceiro», o pintor Caravaggio passou uma curta temporada na Sicília em 1609, aguardando o indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma. Nesse período, pintou uma tela que ficaria conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada em 1969, ano em que nasceria uma menina chamada Antonia Rei. É essa mesma Antonia que, em 1992, testemunha um homicídio perpetrado pela máfia numa praça da cidade, onde é interrogada pelo comissário Salvatore Amato, que acaba por contactar alguns dias mais tarde. Mas não é curiosamente sobre o assassínio que lhe quer falar, antes sobre o roubo do famoso quadro... Oscilando entre épocas afastadas no tempo, entre a história fascinante da pintura d’A Adoração e a da investigação de Salvatore Amato num dos mais violentos períodos da acção da máfia, este novo romance de Cristina Drios (finalista do Prémio LeYa com Os Olhos de Tirésias), intitulado Adoração, recorre aos jogos de espelhos que Caravaggio usava nas suas pinturas para atrair ao mesmo vórtice de luz e trevas as vidas de um leque de personagens cativantes, mortas ou vivas, mas todas misteriosamente condenadas ao desencontro. Adorável, em suma.


 


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Clássicos com novo look

Com tanto livro a ser publicado todos os dias, e os autores disponíveis para conversas, debates e autógrafos, não é lá muito fácil aos escritores mortos sobreviverem (perdoem o paradoxo). Há, porém, maneiras felizes de os trazer de volta à leitura – e leio no Guardian que as vendas de alguns clássicos (David Copperfield, de Charles Dickens, ou Guerra e Paz, de Tolstoi, por exemplo) subiram 10% no último ano pela simples razão de terem sido objecto de novas adaptações televisivas, convocando leitores e também muitos «releitores» para as obras. Mas há inúmeros livros que não tiveram a sorte de chegar ao grande ou ao pequeno ecrã, pelo que os editores britânicos tiveram de recorrer a outros expedientes e gastar tempo e dinheiro a adivinhar o que a nova geração – que pode ler no ecrã do telemóvel o e-book, e frequentemente de graça – procura realmente num clássico em papel. Prefácios e apresentações dos textos por gente com gabarito? Formatos agradáveis, fáceis de folhear e transportar? Bonitas ilustrações no interior e na capa? Colecções de sonho que toda a gente quer ter nas estantes? Livros subdivididos em vários livros menores? Um editor da Penguin Classics diz que a edição das poesias completas de Emily Brontë vendia algumas centenas de exemplares por ano, mas desde que publicaram uma selecção dos poemas com 80 páginas já venderam 30 000... Por outro lado, o director de arte da Penguin acha que algumas capas podem intimidar certos leitores e, embora as antigas continuem em circulação, «refrescou» o ar clássico, esperando atrair um novo público. Parece que agora a competição não pára e que os mortos estão a regressar às estantes a toque de caixa...

Esperança na humanidade

Parece-me que o mundo se está a tornar um lugar onde não apetece lá muito viver e que a leitura se está a transformar numa actividade cada vez mais restrita quando, no fundo, deveria ser o contrário. E, no entanto, de vez em quando surge uma história milagrosa que me enche de esperança. Desta feita, foi a de uma menina de 11 anos num bairro pobre de São Paulo que descobriu muito cedo o gosto pela leitura e promoveu uma campanha para construir uma biblioteca no quintal da casa a fim de contagiar os vizinhos com a sua paixão. Publicou um vídeo na Internet, que foi visto por um grande empresário, através do qual recebeu uma doação de cerca de 5000 livros (dos quais – pasme-se – já leu mais de 500!). A sua casa está sempre cheia de crianças (que têm de passar pela cozinha para chegar à biblioteca), mas a família já se habituou ao rebuliço e sabe que é por uma boa causa, pelo que não refila. Kaciane – assim se chama a menina – diz que sempre gostou de brincar às escolas e que não vai ficar por aqui, planeando para breve uma biblioteca itinerante, que leve livros a outros bairros desfavorecidos, porque a leitura é fundamental e necessário que os livros cheguem a todos. Estamos precisando de mais Kacianes por esse mundo fora...

No Japão

Valter Hugo Mãe (Prémio Saramago com O Remorso de Baltazar Serapião) está de volta com um novo romance intitulado Homens Imprudentemente Poéticos. Passa-se num Japão com perfume antigo e conta a história de dois homens – o artesão Itaro, que faz leques maravilhosos, mas é um homem amargo que cuida de uma irmã cega que salvou da morte certa; e o oleiro Saburo, que está permanentemente apaixonado pela própria mulher e tem a felicidade das coisas pequenas, plantando fileiras de flores na orla da montanha e juntando cores vivas ao lamacento barro. A zanga entre ambos é, porém, muito grande – e a «poesia» de Saburo vista como uma imprudência pelo seu vizinho Itaro. O resto da história deixo para quem quiser ler para não me chamarem desmancha-prazeres, acrescentando apenas que José Tolentino Mendonça descreveu o livro como «uma luminosa parábola que fica a reverberar por muito tempo». Amanhã, o romance é lançado no Teatro S. Luiz, pelas 16h00, com a moderação da jornalista Teresa Sampaio, leituras por Pedro Lamares e a participação das cantoras Márcia e Ana Bacalhau. A entrada é livre, mas, porque existe um limite de lugares sentados, é preciso levantar bilhete antes da sessão. Seja, por isso, poético – se lhe apetecer – mas não imprudente.


 


P. S. Já depois de escrever este post, reparei que Mario Vargas Llosa vai estar, igualmente amanhã, às 18h00, no CCB, para apresentar o seu romance Cinco Esquinas. Isto é tramado...

Recessão literária

Depois de um presidente como Obama, que representou seguramente uma mudança de paradigma na presidência dos EUA, é difícil aceitar que um dos candidatos seja agora alguém muito próximo de uma caricatura ou de um personagem de BD. Mas a explicação para a ascensão de Donald Trump à posição de poder assumir os destinos da nação mais importante do mundo pode talvez explicar-se por um certo grau de ignorância arrogante de quem o apoia (Richard Zimler contou-me que «intelectual» na América é para muitos um insulto), ignorância que quiçá  se prende com uma queda vertiginosa dos índices de leitura dos americanos. Leio num pequeno artigo que existe uma «recessão literária» (gosto deste termo) nos Estados Unidos (eu diria que não é só lá) e que os números de leitores de literatura (mesmo que na categoria se incluam livros como As Cinquenta Sombras de Grey), que tinham aumentado entre 2002 e 2008, têm vindo a cair desde esse ano até níveis bastante inesperados... Só 36% dos homens lêem contos, romances, poemas ou teatro, enquanto 50% das mulheres os consomem; os que têm formação superior compram duas vezes mais livros do que os que apenas acabaram o Secundário. Não há uma diferença significativa entre leitores jovens ou mais velhos, lendo todos mais ou menos o mesmo número de títulos. A principal razão apontada pelos autores da investigação para este decréscimo é o tempo gasto com as apps do iPhone e as séries de TV... Uma época demasiado rápida, na qual é difícil conseguir tempo e concentração para ler literatura.

Males invisíveis

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Quando por vezes entrevistam os vizinhos de um homem que matou a mulher ou a namorada, esses dizem que não faziam ideia de que o assassino fosse uma pessoa violenta ou perturbada. Por outro lado, na sequência de um suicídio, amigos e famílias ficam frequentemente surpreendidos e à procura de razões. O desequilíbrio e a doença psíquica podem ser invisíveis e, mesmo quando o não são, representam um estigma que leva muita gente a não procurar uma saída enquanto é tempo. Uma Dor tão Desigual resultou de um desafio feito pela Ordem dos Psicólogos a oito autores para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores (Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M Tavares, Joel Neto, Maria Teresa Horta, Nuno Camarneiro, Patrícia Reis e Richard Zimler) brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. São histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. Pretende-se com este livro combater preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída. A capa é do magnífico André Letria.


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O que ando a ler

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Confesso: às vezes, sou uma maria-vai-com-as outras… Antes de ir para férias, a minha amiga Aldina Duarte, fadista, pediu aos seus amigos facebookianos que lhe aconselhassem livros. Na altura, o escritor Mário de Carvalho recomendou-lhe a leitura de O Homem Que Via Passar os Comboios, de Georges Simenon, e eu, que estava a acompanhar as sugestões, fiquei logo com a pulga atrás da orelha porque nunca tinha lido o romance, quiçá porque raramente me vire para autores de policiais. O livro, ao que parece, está esgotado, mas tive sorte: o Manel tinha a velhinha edição da Dom Quixote nas suas estantes (embora eu creia que o tenha na colecção MilFolhas, do Público, mas já não tenho a certeza nem sei onde está). E não é um policial, embora inclua mortes e perseguições; é um romance psicológico surpreendente publicado no final dos anos 1930 (com a guerra à porta) que acompanha Kees Popinga, o protagonista, num périplo curioso, de Groninga (onde era apenas um bem-comportado e um contido funcionário de uma empresa naval) até Paris (onde, depois de assassinar a amante do patrão, deambula por bares e cabarés, mata mulheres a sangue-frio e desafia permanentemente a polícia e os jornalistas, oferecendo-lhes pistas sobre o seu próprio paradeiro e comentando com ironia as notícias que vão saindo sobre os seus crimes). Inesperadamente, achei o estilo algo reminiscente de autores da Europa Central, como Walser ou Marai (Simenon é belga), o que muito me agradou, e apreciei muitíssimo esta metamorfose que mostra como os homens são cheios de mistérios e recalcamentos e, não raro, por detrás de um choninhas está um tipo agressivo e violento. Se o encontrarem por aí, não fiquem a ver passar os comboios.


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Passa-palavra

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No post de hoje não há quase nada que seja meu; tal como fazemos tantas vezes nas redes sociais, limito-me a partilhar uma jóia que encontrei, por sua vez, partilhada por Rui Vieira Nery na sua página do Facebook e trazida do mural da escritora Luísa Costa Gomes (é a ela que todos temos de agradecer, no fundo). Desconheço se LCG andará a investigar para um romance, se encontrou as frases por acaso, mas são tão cómicas e desconcertantes que não resisto a dividi-las com os Extraordinários, até porque os considero uma espécie de «paroquianos» deste blogue – e é de avisos aos paroquianos que se trata, verdadeiros e… escritos de forma precipitada, diria eu. Ora leiam lá e divirtam-se:


 



  1. Para todos os que têm filhos e não sabem, temos na paróquia uma área especial para crianças.

  2. O torneio de basquete das paróquias vai continuar com o jogo da próxima quarta-feira. Venham nos aplaudir, vamos tentar derrotar o Cristo Rei!

  3. Na sexta-feira às sete, os meninos do Oratório farão uma representação da obra Hamlet, de Shakespeare, no salão da igreja. Toda a comunidade está convidada para tomar parte nesta tragédia.

  4. Prezadas senhoras, não esqueçam a próxima venda para beneficência. É uma boa ocasião para se livrarem das coisas inúteis que há na sua casa. Tragam seus maridos!

  5. Assunto da catequese de hoje: Jesus caminha sobre as águas. Assunto da catequese de amanhã: Em busca de Jesus.

  6. O coro dos maiores de sessenta anos vai ser suspenso durante o verão, com o agradecimento de toda a paróquia.

  7. O mês de novembro finalizará com uma missa cantada por todos os defuntos da paróquia.

  8. O preço do curso sobre Oração e Jejum não inclui as refeições.

  9. Por favor, coloquem suas esmolas no envelope, junto com os defuntos que desejem que sejam lembrados.


 


Delicioso, não? Quando começou a moda dos piercings, um amigo contou-me que leu o seguinte aviso numa farmácia: «Só se furam menores com o consentimento dos pais.» E esta, hein?


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Testemunhos

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Já aqui falei de Uma Parte Errada de Mim, um impressionante testemunho assinado por Paulo M. Morais, pensado e iniciado durante a quimioterapia que teve de fazer depois da descoberta de um linfoma, num ano em que já tinha havido demasiadas partes erradas. É uma leitura absolutamente electrizante, que não conseguimos largar; mas, ao contrário do que se possa pensar, não tem nada de negativo, nem sequer nas partes mais angustiantes, ajudando, aliás, a perceber o valor de sentimentos tão importantes como a amizade, a generosidade e a solidariedade (desculpem as rimas). Ao longo do tratamento do linfoma, a leitura foi de extrema importância para Paulo M. Morais, que recebeu vários livros de oferta, muitos de amigos que o liam no Facebook, alguns dos quais  escritores como ele. Um desses escritores foi o americano radicado há anos em Portugal Richard Zimler que, além desse gesto bonito, provou ser uma pessoa realmente especial ao aceitar apresentar hoje Uma Parte Errada de Mim, sabendo nós que para um estrangeiro, mesmo a viver em Portugal, o português é uma língua muito complicada. Tenho, porém, a certeza de que ele se sairá magnificamente e que ficaremos todos a ganhar. Se quiser fazer-nos companhia e ouvir mais este testemunho, está convidado. Senão, leia o livro.


 


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Logicamente

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Uma das coisas que mais aprecio nas crianças é a sua lógica – e colecciono histórias de meninos que surpreendem os adultos com as suas tiradas, como aquela de um rapazinho que viu um dia um enorme bloco de pedra no estúdio de Miguel Ângelo e que, uns tempos mais tarde, quando por lá passou, viu a parte de cima de um cavalo surgindo dela e perguntou ao mestre: «Mas como é que sabias que havia um cavalo dentro dessa pedra?» Desculpem se já vos tinha contado isto, mas de qualquer maneira não contei certamente outras duas histórias, igualmente deliciosas, que partilharam comigo recentemente. Uma professora da escola primária perguntou a um rapazinho de seis anos a idade do pai; e este respondeu que o pai tinha seis anos. Ora, a professora fez-lhe notar que só podia estar enganado, que isso seria completamente impossível, mas a criança não se deixou abater e explicou imediatamente o seu ponto de vista: antes de ele ter nascido, o pai ainda não era pai, portanto, se ele tinha seis anos… A mesma professora queixou-se de que dois alunos gémeos tinham copiado a redacção um pelo outro, pois eram iguaizinhas. O tema era «O Meu Cão»… E um dos gémeos esclareceu: «Pois se o cão é o mesmo…» Deve ter sido o que copiou, digo eu.


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Digitalizar livros

Há ainda muitos livros impressos nas nossas estantes que são de um tempo anterior aos computadores e à paginação electrónica. Foram publicados no tempo dos caracteres de chumbo ou dos fotolitos e, por isso, não há ficheiros digitais nos quais estejam guardados. De vez em quando, alguém se lembra de que seria bom pô-los outra vez a circular no mercado e, quando isso acontece, dá muito jeito que alguém que tenha o livro em casa o empreste para ser digitalizado. Para dizer a verdade, fujo de o fazer; porque normalmente é preciso desfazer o livro, separá-lo da capa e digitalizar uma página de cada vez. Quando mo devolvem, é raro estar nas melhores condições… Mas parece que esse problema vai ser em breve resolvido: uma equipa de investigadores do MIT está a desenvolver uma tecnologia avançada que permitirá digitalizar livros inteiros – pasme-se! – sem ter de os abrir. Esquisito, não? Também me pareceu, mas leio que é possível com o recurso a radiação tetrahertz, que é absorvida pelo papel e pela tinta de uma forma especial. Não pesco nada da matéria (por isso vos deixo um vídeo, em inglês, que podem ver e ouvir), mas, se isto for para a frente, tenho a certeza de que muitíssimas bibliotecas do mundo ficarão gratas a estes investigadores.


 

Croquetes para um editor

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O meu primeiro editor (sem contar com uma ninharia que assinei com pseudónimo e que, na altura, me permitiu comprar um frigorífico novo) foi Fernando Guedes, o senhor que mandava na Verbo e que, infelizmente, morreu há menos de um mês. Era um homem sábio, culto e divertido que, não tendo nunca abdicado das suas posições, tinha uma inteligência e uma abertura admiradas até pelos seus adversários. Foi na Verbo que publiquei os meus livros juvenis, o primeiro dos quais, escrito a meias com Maria Teresa Maia Gonzalez, ganhou o Prémio Verbo/Semanário. Quando fomos assinar o contrato, eu achei as condições bastante mazinhas (tendo em conta que era um contrato para uma colecção e que o primeiro livro dessa colecção recebera um prémio) e disse, quiçá um pouco desabridamente, que, para receber aquilo, talvez fosse melhor vender croquetes…  Fernando Guedes – que, mesmo não me conhecendo bem, deve ter intuído logo ali a minha falta de jeito para a cozinha – perguntou imediatamente se eu por acaso sabia fazer croquetes… Na reunião seguinte, levámos-lhe então uma caixa de croquetes magníficos (feitos, claro, pela empregada da minha mãe) para ele provar. E ele provou mesmo, dizendo que a nossa atitude demonstrava que tínhamos sentido de humor e que isso só podia ser bom para a colecção que nos encomendava. Resultado, acabou por concordar com a nossa proposta de contrato. Esse foi só o primeiro contacto com um verdadeiro senhor, com quem iria publicar duas colecções de livros ao longo de muitos anos. Fernando Guedes foi poeta, ensaísta, editor e muito mais. Vai fazer falta, tenho a certeza, a quantos tiveram a sorte de o conhecer.


 


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Mil livros até ao Natal

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Uma aldeia portuguesa situada a mais de mil metros de altitude tem apenas cerca de 150 habitantes, dos quais 15 ou 20 são crianças e adolescentes. Mas não é por isso que não merece uma pequena biblioteca (foi, pelo menos, o que o dramaturgo Abel Neves, com casa no local, achou) e há quem esteja a lutar por ela com unhas e dentes. Em Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre, a Junta de Freguesia quer pôr a sua gente a ler e até já tem algumas prateleiras cheias de livros que vieram de muitos lados, Brasil incluído, provando que os leitores são sempre generosos. A iniciativa Um Livro para Pitões foi lançada por Rui Barbosa, um bracarense apaixonado pelo Parque Natural da Peneda-Gerês, e tem uma página no Facebook (ver no fim da mensagem) que apela à doação. O objectivo é que se consigam 1000 livros até ao Natal para formar uma biblioteca que faz falta num lugar que é um pólo cultural muito interessante, no qual se realizam já as Jornadas das Letras Galego-Portuguesas, o Fiadeiro dos Contos e ainda a celebração do Entrudo, que leva milhares de forasteiros a Pitões. Os livros podem ser enviados pelo correio ou entregues em mão (o pretexto é, de resto, óptimo para visitar esta terra linda). De que está à espera com tanto livro lá em casa em que já não voltará a pegar?


 


 https://www.facebook.com/Um-Livro-Para-Pit%C3%B5es-171390756597979/?fref=ts


 


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Folio

Aqui há umas semanas, o director do Festival Literário de Ovar, Carlos Granja, dizia que os festivais deste tipo nunca eram demais; e, apesar de às vezes sentir que alguns autores não fazem senão andar de um lado para o outro a falar dos seus livros, em vez de escrever, a verdade é que todas as cidades merecem assistir a debates e conversas sobre literatura. Hoje é, de resto, a vez de começar o Folio – em Óbidos –, que tem neste ano a sua segunda edição com centenas de eventos em todas as áreas culturais e muitos convidados de peso. Falo, por exemplo de Salman Rushdie, o escritor perseguido e jurado de morte depois da publicação de Os Versículos Satânicos, ou de V.S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura. Mas haverá muito mais, claro, além destas vedetas: exposições (uma delas de Júlio Pomar); música (Camané vai cantar Tom Jobim, estou curiosa!); filmes (A Ópera do Malandro); conferências (Eduardo Lourenço vai falar sobre Vergílio Ferreira). É mesmo para todos os gostos, diria eu. E, para facilitar a vida a quem não tem carro e quer ficar em Óbidos até tarde, pois alguns dos eventos são à noite, o Folio fez um acordo com a CP e haverá um comboio de ida diário às 10h30, que parte da Estação do Rossio e regressa de Óbidos às 00h30. A viagem custa 10 euros, mas dá direito a leituras de poesia pelo caminho. O festival vai até dia 2 de Outubro e o programa completo pode ser consultado aqui:http://foliofestival.com/


 

Aconselhar

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Existe uma panóplia de autores consagrados (Hemingway é um dos exemplos mais gritantes) que generosamente partilharam os seus conselhos e experiências com os que então começavam ou queriam começar a escrever. Recentemente, apanhei já não sei bem onde – creio que no site de uma escola que ministra cursos de Escrita Criativa – uma série de conselhos bastante úteis do escritor mexicano Carlos Fuentes que, entre muitos outros galardões, recebeu o Prémio Cervantes e o Prémio Príncipe das Astúrias pela sua obra. Pois além de afirmar que é preciso ter lido, e lido muito, antes de qualquer um se abalançar a escrever o seu próprio livro, Fuentes refere coisas curiosas, como a de que «não há inovação que não se sustenha na tradição» e que só assim um autor de antanho se converte em autor actual e o autor actual em autor de amanhã; e diz ainda que ninguém se deve deixar seduzir pela ideia do êxito e da imortalidade, até porque a maioria dos best sellers morre em pouco tempo e os seus autores logo caem no esquecimento. Refere que há que prestar muita atenção à categoria do tempo, pois é ele que transforma a história em poesia ou ficção, e que um escritor nunca se deve limitar a reflectir a realidade objectiva, devendo acrescentar-lhe sempre algo de forma a enriquecê-la e transformá-la em realidade literária. Outra das suas máximas – mas essa sabe toda a gente que escreve – é que, uma vez publicado, o livro deixa de pertencer ao autor. Boas dicas para futuros e presentes escritores.


 


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Um colóquio para O'Neill

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Estamos há trinta anos e um mês sem Alexandre O’Neill, grande publicitário e poeta notável, além de autor de grandes fados (Gaivota é o mais conhecido). Mas ninguém o esquece – e o Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa vai dedicar-lhe um congresso inteirinho nos próximos dias 22 e 23 de Setembro na Sala de Exposições do Edifício da Biblioteca. Para falar do grande mestre da ironia estarão nestes dois dias muitos especialistas portugueses e estrangeiros, de Clara Rocha (sim, a filha de Torga) a Fernando J. B. Martinho, de Burghard Baltrusch a Fernando Cabral Martins (conhecido sobretudo pela sua obra sobre Pessoa), de Miguel Tamen a Pedro Mexia. Muitos serão os temas tratados – o medo, a sátira, a espiritualidade (que será tratada por José Tolentino de Mendonça, sacerdote e poeta) ou a Lisboa do escritor. A entrada é livre (grátis!), mas os interessados terão de se inscrever neste link:


https://docs.google.com/forms/d/1b5Se0-qpUtPnaK3uutZG1AiDfiSh_dZd6CBNPbx_ht8/viewform?edit_requested=true


Para mais informações, podem consultar o link abaixo. E bom Congresso!


https://ocoloquiodooneill.wordpress.com


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