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A mostrar mensagens de setembro, 2012

Reler

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Recentemente, a jornalista Teresa Sampaio do programa Ler+ convidou-me a falar sobre um dos meus livros preferidos. A lista é grande, como a de todos os leitores deste blogue, tenho a certeza; mas, certamente porque saberia das minhas hesitações, a jornalista sugeriu que eu falasse de um romance que fora objecto de um post bem elogioso aqui no blogue, provavelmente porque também ela o achava merecedor de divulgação e leitura. Falo de O Amante, de Marguerite Duras, vencedor do prémio Goncourt em 1984, sobre um episódio assumidamente biográfico, a relação que a escritora manteve, aos quinze anos e meio, com um chinês milionário de vinte e sete na exótica Indochina onde então vivia. Aceitei o desafio, mas, como já não lia o romance havia anos, disse cá para mim que o melhor era relê-lo, sentir-lhe de novo o cheiro e ter tudo mais fresco. Tratando-se, porém, de um desses romances que cremos terem mudado a nossa vida, estava aterrada com o que poderia vir a achar tantos anos depois. Já me acontecera regressar a um livro que tinha amado e não conseguir sequer perceber o que me atraíra nele da primeira vez e, quanto a este, não queria que se quebrasse o encanto. Porém, assim que abri a velhinha edição e li aquela frase «Muito cedo na minha vida foi tarde demais», percebi que o feitiço era para sempre e que não corria, afinal, qualquer risco. Reli-o num virote e fiquei outra vez com pena quando acabou. Tenho a certeza de que todos temos paixões assim.


 


 


Edição com editor

Há já por todo o mundo muitos autores que se autopublicam. Conhecendo as manhas, divulgam na Internet os seus textos e usam a Amazon ou outras livrarias virtuais para comercializarem as versões digitais dos seus livros. Li, porém, recentemente um interessante testemunho de um autor, Michael Marshall, que, um pouco triste por ter visto desaparecer dos escaparates as suas colectâneas de contos com alguns anos, resolveu organizar-se e vendê-las ele próprio pela Internet. Não foi completamente mal sucedido, mas encontrou alguns entraves nas áreas do marketing, do design, da promoção... E começou a reflectir sobre que outros problemas surgiriam se, na edição em papel, não tivesse contado com a ajuda de profissionais, que lhe deram preciosas segundas opiniões e o ajudaram a fazer melhor do que fazia sem eles. Confessa: «Uma das coisas mais irritantes sobre os conselhos é que muitas vezes… são completamente acertados.» Para ler no link abaixo. Haja quem defenda o editor numa época em que tanta gente acha que ele é descartável.


 


http://www.futurebook.net/content/why-writers-will-always-need-publishers

À espera de uma carta

O grande Juan Marsé sabe como ninguém compor personagens delirantes e cheias de humanidade (capazes também, portanto, de muitas maldades). E, em Caligrafia dos Sonhos, uma delas guarda um pouco do próprio autor que, segundo reza a biografia, foi abandonado à nascença e, como Ringo, o protagonista desta história, cresceu com uma família que não era a biológica. Centrado em Barcelona no período pós-Segunda Guerra Mundial, este romance fala de um rapaz pobre que queria ser pianista, mas a quem o destino prega uma valente partida – o que não chega, mesmo assim, para o domar na sua rebeldia nem na sua atitude para com a fabulosa senhora Mir (que espera uma carta demasiado importante e não pára de perguntar por ela) ou a filha Violeta (por quem está apaixonado, mas que trata como se ela lhe fosse indiferente). O contrabando, a actividade política clandestina, as conversas no bar Rosales, que é o lugar onde tudo se sabe, o comportamento dos adolescentes e a descrição das fricções e massagens da senhora Mir (uma espécie de curandeira sentimentalona e dada à chacota) são tudo matéria irresistível numa narrativa que não tem um verbo a mais e que acaba da forma mais surpreendente que é possível imaginar (com um fim depois de outro fim). Se a carta chega ou não à destinatária, é preciso ler para descobrir…

Estão todos convidados.

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É já amanhã. Vamos fazer a festa!


 


Lutos em vida

Digamos que A Caixa Negra, de Amos Oz, não será exactamente o livro mais indicado para as férias – se nas férias devemos ler coisas diferentes das que lemos o resto do ano, claro, de preferência menos deprimentes (mas as deprimentes, bem sei, às vezes são as melhores); é, no entanto, um livro que, a partir de cartas e outros materiais escritos (notas para um ensaio, telegramas, etc.), faz uma radiografia à relação de um casal divorciado (Ilana e Alec) e, por extensão, também ao conflito israelo-palestiniano. Notável na forma como nos revela no decurso da história quem são, efectivamente, as personagens (por exemplo, o bonzinho actual marido de Ilana, que é, afinal, um bom ladrão e um bom fanático) e no modo como um advogado judeu alemão tão depressa nos parece apenas um oportunista como o melhor amigo do seu cliente, este romance epistolar é também uma lição sobre o poder da argumentação, o luto impossível de certos relacionamentos, o medo e a coragem para seguir em frente. Mas é um livro triste e escuro (o último terço é belíssimo), tal como a caixa negra de um avião, que nos mostra o que estava podre e conduziu ao desastre.

Livro como objecto de arte

Hoje, para variar, vou falar de uma exposição intitulada Tarefas Infinitas. Na verdade, porém, esta exposição entronca no tema central do blogue, uma vez que é uma exposição de livros. O seu subtema, por assim dizer, é «Quando a arte e o livro se ilimitam» e, tratando-se de uma mostra relativamente pequena, nem é preciso programar uma manhã ou tarde inteira para a ir ver. A fotografia que a anuncia nos jornais é uma estante muito curiosa de Fernanda Fragateiro, que acolhe um certo número de livros em cada prateleira. Nada de aparentemente muito original, pois todos nós, que gostamos de ler, temos estantes em casa e com muitos mais livros do que aquela. Mas, se visitar a exposição e puder ler de perto os títulos e autores nas lombadas que se alinham na estante, perceberá onde se aninha a arte naquela proposta (não vou contar para não perderem o prazer da descoberta). E, para além deste objecto artístico, haverá muitos outros para serem vistos, desde livros de iluminuras absolutamente magníficos até um livro de infinitos poemas da autoria de Raymond Queneau (de quem li o notável Exercícios de Estilo), que me lembrou um pouco aqueles livros infantis nos quais podemos juntar a cabeça de um elefante ao corpo de uma rã e às patas de uma girafa. Não espere nada de sobrenatural, mas vale a pena ir ver. Até 21 de Outubro no Museu Calouste Gulbenkian.

Brasil em Portugal

Acaba de começar o Ano do Brasil em Portugal (e o Ano de Portugal no Brasil), que incluirá um diálogo permanente entre os dois países em todas as áreas – e a literatura é uma delas. Além de se prever a edição no Brasil de vários livros de autores portugueses, alguns ainda jovens, que serão apresentados aos leitores do lado de lá do mar, estão previstas várias acções, entre as quais, já a partir de amanhã, uma feira do livro no Rossio, que estará aberta por três dias (trata-se de um evento promovido pela LeYa). Na praça lisboeta, além da venda de livros, decorrerão todos os dias mesas-redondas que reunirão escritores brasileiros e portugueses para debaterem temas como A Minha Pátria É a Língua Portuguesa, Os Desafios da Nova Literatura de Língua Portuguesa, História e Estórias de Portugal e Brasil (sobre o romance histórico) e ainda outros temas aliciantes. No domingo 23, pelas 18h30, estarei a moderar a mesa dos autores mais jovens (Amílcar Bettega, João Paulo Cuenca, Paulo Lins, João Ricardo Pedro e João Tordo). Espero por si!

Fado para pequeninos

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No próximo fim-de-semana estará disponível nas livrarias um livro que escrevi para os leitores mais novos, ilustrado por esse superior artista que é João Fazenda. Chama-se A Minha Primeira Amália e foi a minha resposta a um convite para apresentar a nossa maior fadista de sempre a quem nasceu já depois da sua morte. Para dizer a verdade, eu – que ouço fado desde pequena e até me atrevo a escrever letras para alguns fadistas – também não conhecia suficientemente bem a vida desta grande senhora que levou o fado ao mundo, foi capaz de nele introduzir mudanças marcantes e contribuiu decisivamente para que, depois da sua passagem pela vida, ele fosse considerado Património Imaterial da Humanidade. Tive, por isso, de ler biografias e muitas outras coisas e, com cuidado, seleccionar os factos que se poderiam revelar atraentes e informativos para as crianças. Não sei se fiz um bom trabalho, embora tenha dado o meu melhor. João Fazenda foi, no entanto, o génio que gostaria de ter ao meu lado nesta aventura, ilustrando brilhantemente o texto. Se tem miúdos em casa, já lhes pode dizer quem foi Amália.


 


 



Dramalhão

Há de certeza boas razões para lermos alguns livros em determinada idade, e não noutra. E isto é válido para aqueles que só compreendemos inteiramente na maturidade, como o é para os que, depois de lida tanta coisa, acabam por nos parecer de alguma forma datados, pueris ou exacerbados demais para o nosso gosto adulto. Porém, não queria sair deste mundo sem ler O Monte dos Vendavais (sei lá eu bem agora porque não o li em adolescente), de Emily Brontë, e decidi fazê-lo nas últimas férias com a sensação de que os clássicos são leituras seguras e nunca nos desapontam. Mas, oh, o dramalhão de faca e alguidar que me esperava estava bastante longe dos meus planos estivais… Amores arrebatados e castigadores, vinganças que incluem violência verbal e física constante, humilhações de toda a espécie (sobretudo por parte de quem já foi humilhado), mortes camilianas ou semelhantes, enfim, quase conseguimos visualizar as cenas no palco de um teatro e ouvir os pontos de exclamação no fim das falas, de tal forma tudo está carregado de drama pungente. Confesso que, ao contrário do que Clara Ferreira Alves vaticinava um dia destes no Expresso, não me apaixonei por Heathcliff, o mau da fita, embora me tenha interessado esta abordagem da luta de classes, escrita no princípio do século XIX por uma mulher educada com mão de ferro e até por isso corajosíssima. Mas preferia tê-lo lido aos quinze anos, confesso, pois a verdade é que não me encheu as medidas…

Reunião

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Agora, já se pode dizer: a minha Poesia Reunida está pronta e à venda desde sexta-feira (o que permite, de resto, um post egocêntrico e algo preguiçoso). Agradeço-a antes de mais à editora Lúcia Pinho e Melo, da Quetzal, que acolheu o projecto com entusiasmo e profissionalismo, mas agradeço-a também a todos os que, nestes últimos anos, me têm escrito e abordado, perguntando onde podem encontrar os meus livros (se calhar, se não fossem estes últimos, não me tinha mexido). O livro está lindo (é, pelo menos, a minha opinião) e inclui um prefácio de Pedro Mexia, os três livros esgotados e um livro novo que dá pelo nome de «A Ideia do Fim». Aqui fica então dada a notícia a todos os interessados (que me desculpem os que não gostam de poesia). A sessão de lançamento, para a qual convidarei oportunamente os leitores deste blogue, será no dia 26, às 18h30, na Ler Devagar da LX Factory.


 


 


E vão três

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Pedro Garcia Rosado é dos poucos autores portugueses de thrillers e, além de alguns livros independentes, começou há três anos uma série intitulada «Não Matarás», de que acaba de sair o terceiro título: Triângulo. Retomando as investigações do inspector da Judiciária Joel Franco sobre uma misteriosa morte a que assistiu na infância e nunca foi resolvida, vai precisar de ir a três sítios e falar com três pessoas, até porque um triângulo é composto de três lados (embora nem sempre tão perigosos). As fotografias e os documentos levá-lo-ão por caminhos insondáveis, e desta feita a coisa vai ser violenta e mexer com a memória e o futuro do herói, embora os cães da Serra lhe vão dar uma boa ajuda. A procura da verdade e a missão de castigar os culpados hão-de trazer-lhe, porém, ossos bem duros de roer e mortes de que não será fácil recuperar. Um belo livro para amantes do género.


 


 


Mouzinho e Gungunhana

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Nos finais do século XIX, o oficial de cavalaria Joaquim Mouzinho de Albuquerque interna-se, ao serviço do rei D. Carlos, no coração de África com o objectivo de subjugar as tribos à administração colonial portuguesa; para isso, porém, queima aldeias inteiras, mata os insubmissos e, desobedecendo a ordens superiores, captura com espectacularidade o detentor de um império vastíssimo, Gungunhana, que traz para Portugal como troféu e acaba exilado nos Açores até ao fim dos seus dias, onde, recolhido na floresta do Monte Brasil, sabe do suicídio do militar (ao que parece, apaixonado loucamente pela rainha D. Amélia). Em O Rei de Monte Brasil, Ana Cristina Silva – autora de romance psicológico – alterna as vozes destes dois inimigos para nos apresentar versões distintas do mesmo conflito e fazer uma reflexão sobre a decadência e a glória perdida das grandes figuras. Uma boa forma de conhecer a nossa História.


 


 


Nobel em Lisboa

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Não é todos os dias que um Prémio Nobel da Literatura nos visita e, como tal, é missão de quem gosta de livros publicitar a iniciativa. Tanto mais se, como é o meu caso, sou admiradora da autora nobelizada e gostaria que ela tivesse mais leitores em Portugal. Estou a falar de Herta Müller, de quem li os primeiro dois livros que foram traduzidos no nosso país – Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo (o meu preferido dos dois) e Hoje Preferia não Me Ter Encontrado – e que vem ao Goethe Institut de Lisboa amanhã às 18h30 falar do recém-lançado em Portugal Já então a Raposa Era o Caçador, que conto ler em breve, prometendo desde já um post a propósito. Se já é um admirador da obra, ou simplesmente quer conhecer a autora, não perca a apresentação. Eu tive a felicidade de a ouvir no ano passado na Feira de Guadalajara, no México, na mesma mesa de Mário Vargas Llosa, e achei que ela fez melhor figura do que ele. É nestas alturas, aliás, que tenho pena de ter esquecido o alemão que aprendi. A tradução simultânea, de qualquer modo, está prometida.


 


Em tempo: Fui informada agora mesmo por um leitor atento que o primeiro livro de Herta Müller publicado em Portugal foi A Terra das Ameixas Verdes, pela Difel. Obrigada ao Bruno Amaral. Peço desculpa pelo lapso.


 


Em tempo de novo: o escritor Sandro William Junqueira, apreciador da autora, diz-me via Facebook que crê que o primeiro livro de Müller publicado em Portugal é O Homem É Um Grande Faisão sobre a Terra, da Cotovia (1993). Agradeço de novo e de novo peço desculpa.


 


 




 

As três Índias

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Na sexta-feira falei aqui de um belo livro de viagens sobre a Índia – mas também há ficção passada neste país misterioso. O mais recente romance de Miguel Real, lançado há poucos dias no mercado, chama-se justamente O Feitiço da Índia e conta a história de três homens que se deixaram encantar não só por esse país, mas pelas suas mulheres irresistíveis. Um deles foi com o Gama e as primeiras naus e por lá ficou. O segundo deixou a família em Lisboa, partiu para Goa para fazer dinheiro e apaixonou-se pela filha de um brâmane. E o terceiro é o seu filho, que parte à procura do progenitor desaparecido e acaba enredado na mesma teia. Retrato fascinante de Goa e da Costa do Malabar em três épocas marcantes, esta é uma obra bela e cruel, ousada e sensual.


 


 


Entrevistas

No fim-de-semana tive de ir e vir ao Porto, o que faz perder, como calculam, bastante tempo. Tinham-me convidado para estar sábado logo de manhã no programa Bom Dia, Portugal, da RTP 1, que é gravado nos estúdios do Monte da Virgem e, por isso, tive de ir na véspera, até porque, para além de uma entrevista sobre a minha carreira e os meus livros, eu teria de comentar a actualidade nacional e internacional e só teria acesso aos temas da revista de imprensa quando chegasse ao hotel (convinha preparar-me, evidentemente). Como fiquei com muito menos tempo para o blogue, deixo-vos aqui o resultado da entrevista, na qual falei de livros e edição, disse o que pensava das medidas de Passos Coelho e de outras matérias e ainda consegui, de caminho, «mandar Relvas estudar». Amanhã, juro, haverá um post como deve ser.


 


 


A Índia revisitada

O Centro Nacional de Cultura organiza uma viagem anual a um país ou região por onde os Portugueses andaram, deixando a sua marca. Visita-se o património com guias que o conhecem bem e ainda se tem a sorte de ter como companhia um escritor e um artista plástico que, posteriormente, produzem um texto e imagem para um livro. Publiquei há uns anos o que resultou de uma «expedição» ao que ficou das Missões na América Latina, cujo autor foi Miguel Real, e acabo de ler O Murmúrio do Mundo, de Almeida Faria, com desenhos de Bárbara Assis Pacheco, que configura uma viagem à Índia, mormente a Goa e a outras paragens dos nossos antepassados. É, de resto, do cruzamento do texto do autor e dos de muitos outros autores (Camões incluído) que se faz a beleza e a intensidade deste livro. Ele não só relata os aspectos mais assinaláveis de uma visita (ou revisita) pessoal, mas olha-os com o desencanto de uma inescapável comparação com a Índia da época dos Gamas e dos Cabrais, dos Albuquerques e dos Franciscos Xavier. E não lhe escapa um toque de ficção, um fantasma que interpela o narrador e partilha com ele relatos e vivências, lembrando-nos, aliás, o grande ficcionista que é Almeida Faria. Os desenhos são também belíssimos.

Desemprego literário

Às vezes, pode parecer que não ouço (leio) o que dizem os leitores destas Horas Extraordinárias, mas a verdade é que foi por causa de um deles que levei para férias um livro cuja leitura se encontrava havia muito em stand-by Matteo Perdeu o Emprego, de Gonçalo M. Tavares. Trata-se, antes de mais, de um objecto artístico singular, muito cuidado, no qual não importa apenas o texto, mas também o conjunto de fotografias de manequins que representam os protagonistas das curtas ficções (com nomes de A a M – Matteo é o último), quase todos do sexo masculino, e bem assim uma tabela periódica de cidades, e não de elementos, embora a de Mendeleev também apareça no livro, na forma de uma tatuagem em Braille nas costas de um prostituto que é amante de um cego. Mas este não é um livro de contos no sentido tradicional, uma vez que, a seguir à história de Matteo (que é, de certa forma, a mais desenvolvida), temos um curiosíssimo posfácio que é a exegese do que acabámos de ler, feita pelo autor como se por alguém que não ele. E a verdade é que esse «ensaio» nos leva de novo às narrativas, num movimento mais ou menos circular – como é o dos textos, pois cada um deles liga ao seguinte através de um nome novo (o do protagonista da história que se segue) e, curiosamente, o último nome que aparece (e cuja história nunca saberemos) é o de alguém que assistiu à morte do protagonista da primeira história. Livro sobre a ordem e o caos, sobre o indivíduo e o colectivo, sobre o império da racionalidade sobre a emoção (tudo aqui é bastante frio), Matteo Perdeu o Emprego é uma obra que nos deixa permanentemente a pensar.

Sandokan & Bakunine

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Amanhã faremos o lançamento público de um livro no qual faço muita fé e que espero agrade aos que gostam de boa literatura. É a história de um escritor a quem roubaram um computador portátil e cujo romance incompleto aparece na Internet, mas é também a história contada nesse romance: a das férias de Artur – um adolescente asmático e apaixonado –, marcadas pelo desaparecimento misterioso de uma rapariga. E é enfim a história do explorador irlandês B. A. Barrow, mordido por uma mariposa-vampiro na Papua-Nova Guiné, a partir dos seus próprios diários. (Mas é muito mais, que não posso contar aqui.) Com uma estrutura intricada a lembrar filmes como Magnólia ou Mulholland Drive, Sandokan & Bakunine pode ser lido e relido sem se esgotar, oferecendo sempre novas e surpreendentes perspectivas. O autor, que vive em Itália, estará connosco amanhã. Apareça.


 


Jesus no Alentejo

Comecei as minhas férias com dias ventosos e cinzentos em Viana do Castelo – valeram-me as paisagens e, como sempre, a leitura. Mergulhei, pois, na cerveja, perdão, em Jesus Cristo Bebia Cerveja, o último romance de Afonso Cruz, cujo cenário é o Alentejo das raparigas pobres, dos pastores e dos velhos sozinhos, mas também uma região imaginária onde uma milionária inglesa compra uma aldeia inteira, que povoa depois com estranhas criaturas, entre as quais um professor-filósofo-cientista que mancha muros com versos arcaicos e se apaixona por Rosa, a menina protagonista que gosta de livros de cowboys e crescerá de forma bastante enviesada ao longo das páginas (e não acabará bem). Afonso Cruz é um escritor culto (dá gosto ver tudo o que sabe e o humor com que o revela) e por isso, embora possam parecer um pouco estranhos nas bocas de algumas personagens, os seus diálogos estão cheios de referências e ideias interessantes, como, aliás, a tese de que Jesus bebia cerveja, e não vinho (o da Última Ceia). A intriga que a contracapa anuncia (a recriação da Terra Santa em pleno Alentejo para satisfazer o último desejo da avó moribunda de Rosa) é que só começa já o livro vai a meio, tendo-me parecido o seu desfecho um pouco previsível quando nada mais o é no romance. Não nego que prefiro o Afonso Cruz da Enciclopédia da Estória Universal (que tem uma dose fascinante da herança de Borges), mas aconselho este delírio ficcional aos que gostam de personagens bem desenhadas, enredos inventivos, escritores com coluna vertebral e, porque não?, uma cervejinha gelada, mesmo em dias que parecem de Inverno.

Está aí alguém?

Depois de um mês inteiro de silêncio, é caso para perguntar se os leitores deste blogue não terão decidido mudar-se para outra casa… Por isso, hoje isto é uma espécie de chamada, embora sirva também para cumprir uma promessa feita há tempos de cada um (eu incluída) indicar no primeiro dia útil do mês o que anda a ler. Pois o livro que tenho agora em mãos é Adoecer, de Hélia Correia, mas já tive de o interromper duas vezes por causa do trabalho, razão pela qual só falarei mais detalhadamente sobre ele quando conseguir chegar ao fim. Hoje é só mesmo para levantar o dedo e dizer que as férias foram boas e vi, felizmente, muita gente a ler – mães e tudo, que são as que têm sempre os olhos nos miúdos e, por isso, quase nunca podem estender-se descansadas com o seu livrinho; claro que a maioria se ocupava com o best-seller pretensamente pornográfico As Cinquenta Sombras de Gray em várias línguas, mas também havia quem se dedicasse a biografias, ensaios e romances mais suculentos. Voltar ao trabalho e às leituras obrigatórias é que foi difícil, mas hei-de sobreviver. Se estiverem aí desse lado, vai ser, garanto, muito mais fácil. Obrigada por não se terem esquecido deste blogue.