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A mostrar mensagens de junho, 2020

Redescobrir

Não sou muito de reler livros, sobretudo aqueles de que gostei muito, pois já apanhei uns baldes de água fria em releituras (num caso, a tradução era tão má que fiquei chocada por só o ter percebido tantos anos mais tarde). Por outro lado, tenho sempre tanta coisa para ler profissionalmente e tantos livros que vão saindo e me interessam que sobra pouco tempo para reler (mesmo que alguns clássicos lidos na adolescência ou nos primeiros anos de faculdade estejam sempre a chamar por mim das estantes). No entanto, para orientar as sessões do Próximo Capítulo, a comunidade de leitores da LeYa, reli O Nervo Óptico, de María Gainza, e descobri muitas pérolas que, das outras vezes, não tinha registado com a mesma atenção. Uma delas diz respeito a bibliotecas pessoais. Conta a história da visita da narradora a casa de uma amiga e a observação que faz das suas estantes «como um carteirista, lançando olhares furtivos». E continua: «sabia que o que estava a fazer era no fundo uma indiscrição, como remexer no armário dos remédios de uma casa de banho alheia. Não consigo evitá-lo, são ambos lugares que fornecem informação-chave sobre os seus donos.» Diz-me o que lês (e as drogas que consomes) e dir-te-ei quem és? Hum... Uma proposta muito interessante.


Como na semana passada se falou aqui de Stefan Zweig, hoje recomendo deste autor Novela de Xadrez, uma pequena pérola incrível.

Fazer-se difícil

Gosto muito da expressão «fazer-se difícil», e ela hoje vem muito a propósito, uma vez que condiz bem com a história que vou contar. Roubei-a no mural do meu querido autor Itamar Vieira Junior (o vencedor do Prémio LeYa com Torto Arado) e é notável, sobretudo vinda de quem vem: Faulkner, que (não por acaso) é um dos autores preferidos de Lobo Antunes e que, muito ao avesso dos seus confrades norte-americanos (habitualmente secos na prosa e mais dedicados ao enredo e à estrutura), tem uma escrita muito pouco linear, frequentemente visceral e algo exigente. Ora, parece que uma jornalista lho fez notar ao longo de uma entrevista, perguntando-lhe o que diria ele às pessoas que liam duas e três vezes passagens dos seus livros e, ainda assim, continuavam sem perceber nada. William Faulkner respondeu com graça, aconselhando-os a tentar lê-las uma quarta vez... Sobre autores difíceis (e não é que se façam de difíceis, é mesmo o seu natural), e para homenagear a pátria de Itamar Vieira Junior, recomendo Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Preparem-se: demora a entrar,  e é para lá ficar dentro bastante tempo.

Competências e capacidades

Há quem diga que, depois da pandemia, nada será igual; há quem, pelo contrário, declare que, passada a fase pior, tudo voltará a ser como antes (Houellebecq dizia-o num artigo recentemente publicado no Expresso). Acredito que haja mudanças... A quantidade de coisas que deixámos de comprar e que percebemos que realmente não nos fazem falta é uma delas (e o dinheiro vai ser menos para muita gente); mas mudará também a forma como os pais olham para os seus filhos pequenos, pois finalmente passaram com eles o tempo que só lhes dedicavam à hora do banho ou aos fins-de-semana. E talvez tenham descoberto que eles se entretêm maravilhosamente com um livro de histórias, uma corda de saltar, uns lápis de cera e meia dúzia de carrinhos com mais felicidade do que com o inglês, os cavalos, as aulas de piano, o atelier de cerâmica... Tomara. Como diz, numa entrevista que li há meia dúzia de dias (embora tenha mais de um ano), um homem muito sábio (refiro-me a Laborinho Lúcio), hoje «encharcamos de tal maneira as crianças com competências que nem chegamos a descobrir quais são as suas verdadeiras capacidades». Ter nascido e brincado antes do nascimento da Internet dá de facto esta lucidez impressionante. Espero que da pandemia possa nascer realmente algo de positivo quanto a este assunto.


Hoje recomendo um livro que dá para grandes e pequenos e pode ser lido pelos pais aos filhos: Platero e Eu, de Juan Ramón Jiménez. O autor foi Prémio Nobel da Literatura em 1956, embora em Portugal seja um desconhecido.

Alusões e outras ligações

Como editora, prezo muito a inovação, uma vez que, à medida que o mundo avança, é cada vez mais difícil fazer-se ou encontrar-se o nunca visto. Mas, embora o material da escrita seja o mesmo que usamos para pedir uma bica em Lisboa ou dizer «continuação» no Porto com o sentido de que tudo fique bem, a verdade é que ainda há pessoas capazes de ter ideias diferentes. E, para variar, hoje nem falo nos artistas propriamente ditos, mas nos que «editam» e não são, por causa disso, menos originais. Refiro-me, por exemplo, à professora Rosa Maria Martelo, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que assina um livro intitulado Antologia Dialogante na Assírio e Alvim, do qual constam poemas de variadíssimos autores de épocas diferentes que, isso mesmo!, dialogam entre si. Imaginem quantos versos de Camões se escondem por aí em poemas alheios... Pois a professora caçou-os (a estes e a outros, citados, glosados, em alusões mais discretas ou mais óbvias) e constrói uma interessante colectânea poética, toda ela teia, que é também uma espécie de jogo de espelhos. E alguns dos poetas que «roubam» (e que bem o fazem) aos antecessores também acabarão roubados, o que tem certa graça. Enfim, para quem gosta de poesia e jogo limpo, uma obra inovadora.


E, como falei de Camões, é ele quem hoje vos recomendo (a lírica, mesmo que Os Lusíadas sejam a obra maior da nossa língua), até porque, no centenário de Amália Rodrigues, que se comemora desde segunda-feira passada, faz sentido reler um soneto do mestre que está na origem de uma das maiores inovações da diva: cantar os eruditos!

Humildade ou vaidade

No livro de João Tordo que referi recentemente neste blogue, Manual de Sobrevivência de Um Escritor, numa espécie de conselho àqueles que querem tornar-se escritores e submeter o seu primeiro manuscrito a um editor, o autor recomenda que sejam humildes e saibam ouvir. Mas também conheço muitos jovens escritores que entendem humildade como subserviência e preferem não publicar o seu livro a ouvir uma crítica ou ter de mexer uma linha no seu manuscrito. A humildade tem que se lhe diga... Li recentemente que os famosíssimos irmãos Goncourt (sim, aqueles que deram nome ao célebre prémio literário francês e são referidos sempre que alguém fala dos intelectuais da sua época), escritores e homens ricos e cultos que conheciam absolutamente todos os confrades e artistas seus coetâneos, têm na sua sepultura em Montmartre apenas os respectivos nomes e as datas de nascimento e morte, mais nada. Porém, se a maioria das pessoas sempre interpretou tal facto como prova da sua humildade, a verdade é que o comentário de Jules Renard no seu diário sobre esta situação faz cair na decisão uma nódoa de ambiguidade. Humildade?, duvida Renard. Qual quê! Pelo contrário, eles acharam que eram de tal forma conhecidos que bastavam os seus nomes para toda a gente saber quem ali repousava...


Nunca li nada de Renard (a não ser pequenas citações em livros de outros autores), mas ando mesmo com vontade de o fazer (até porque essas citações aparecem em obras de escritores muito distintos e de idades diferentes). Não posso, por isso, recomendá-lo para já, mas conto fazê-lo em breve. Li em jovem, para uma cadeira de Francês, parte de uma biografia de Maria Antonieta feita pelos irmãos Goncourt, mas não sei se está cá traduzida. Escolho então um romance que recebeu o Prémio Goncourt já neste milénio e que fala do mundo dos artistas e críticos com verrina que baste (como a de Jules Renard): O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq.

Velhice e morte

Agora, que por causa da pandemia todos pensamos mais frequentemente na morte e, sobretudo, no medo de morrer, as cenas em que a morte está presente nos livros que lemos saltam mais à vista e tenho vindo a sublinhar algumas (eu, que nem sou de sublinhar livros). Mas, pior do que o medo de morrer, é certamente o medo de ficarmos diminuídos mentalmente com o tempo, ou mesmo de perdermos o tino, o que para um artista será, creio, ainda mais terrível. Stravinsky, quando já estava no fim da vida e a mulher lhe perguntava se precisava de alguma coisa, respondia brilhantemente que apenas precisava de ter a certeza da sua própria existência, o que é também uma forma de se assegurar da própria lucidez e saber-se vivo. Somerset Maugham não teve grande sorte quanto a isso, pois diz-se que, depois dos oitenta, baixava as calças em qualquer lado e fazia cocó atrás dos sofás, num caricato e triste regresso à primeira infância. Goethe, porém, manteve-se com a cabeça fresca até muito tarde (sobretudo se tivermos em conta que no seu tempo as pessoas morriam bastante mais novas do que hoje); passou os 80 anos com uma saúde de ferro e a mente a funcionar em beleza (Fausto é dessa altura) e só aos 83 acabou por sucumbir a uma trombose e perder a fala, mas diz-se que, mesmo assim, continuou a escrever letras na manta que lhe cobria as pernas, com pontuação e tudo!, como só pode acontecer a um verdadeiro génio. Sobre o livro em que tudo isto e muito mais nos é contado, falarei um dia destes, quando o terminar.


Hoje recomendo, por piedade deste fim de Maugham, que não merecia, O Fio da Navalha, o Véu Pintado ou A Servidão Humana, mas ele foi um autor prolixo, há muito por onde escolher.

Taprobana

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Todos os que leram e estudaram Os Lusíadas devem lembrar-se bem da palavra «Taprobana» logo na primeira estrofe. Porém, se lhes perguntarem onde fica, muitos provavelmente já não o saberão. Pois bem, Taprobana foi um dos nomes que o Sri-Lanka teve no passado, além, claro, de se ter chamado Ceilão (coisa de que não nos teremos esquecido tão facilmente). Vem isto a propósito de um thriller histórico de Eduardo Pires Coelho, cujo título é justamente Taprobana, que cruza a história da chegada dos Portugueses a essa ilha no século XVI (e as batalhas que ali travaram com os cingaleses) com a morte misteriosa de um cientista do Sri Lanka na Lisboa actual, morte essa que está relacionada com um mosteiro que já existia no tempo em que Portugal dominou o Ceilão. Com muito ritmo e suspense, cheio de informação histórica interessante (e desconhecida da maioria dos leitores, aposto), agradará a quem goste de uma boa história e também de História. Mas, se quiserem saber mais, esta semana vai haver um evento dedicado ao livro no Museu da Farmácia que será transmitido em directo online e ficará gravado, circulando nas redes sociais. Eu vou estar a ver.


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Sem desvendar porquê, mas relacionado com este livro, recomendo a consulta de um clássico português do século XVI: Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia..., de Garcia de Orta.


 

Escrever e aprender

Não sou, já aqui o disse, grande apologista de cursos de Escrita Criativa. Parece-me que o talento não se arranja neles e que muitos dos seus frequentadores sem talento atafulham depois a minha caixa de correio electrónico com propostas que mais valia terem ficado na gaveta (ou até por escrever). Mas também sei que muitos destes cursos podem ajudar os que já têm talento a organizar as ideias, a encontrar o tom, ou até a escrever melhor um texto que nada tenha que ver com ficção. E não duvido de que ouvir «lições» de quem é profissional da escrita é certamente uma benesse. Até por isso, interessei-me pelo livro Manual de Sobrevivência de Um Escritor, de João Tordo, que acrescenta ao livro um subtítulo que desarma: o pouco que sei sobre aquilo que faço. E nem é porque ele me recorde no seu caminho de escritor num ou noutro passo do livro (fui sua editora muitos anos) que o recomendo aqui, mas sobretudo porque, longe de funcionar como a maioria desses cursos, é um conjunto de experiências e conselhos para quem pensa tornar-se escritor que servirá, em muitos casos, para que alguns escolham mesmo outra vida... É que, como sabe quem escreve  (e João Tordo teve de lutar muito para poder sobreviver escrevendo a tempo inteiro), não é uma vida fácil... Vale muito a pena ler e levar a sério. Tiro o chapéu, aliás, a várias afirmações que muitos outros escritores que conheço nunca fariam. Leiam-no, pois.


Hoje recomendo também um livro de um homem que não escreveu sobre a escrita, mas sobre a leitura: Dicionário dos Lugares Imaginários, de Alberto Manguel (que leu para Borges em jovem), mil e tal páginas maravilhosas sobre mundos que só existem nos livros, como Avalon, Xanadu, Macondo e muitos mais.

E por falar em racismo

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Soube recentemente uma história muito curiosa através de um post publicado no Facebook pela tradutora Maria do Carmo Figueira. Certamente se lembram dos Peanuts, um cartoon ultra-inteligente de Charles Schulz, protagonizado por Charlie Brown e os seus amiguinhos e colegas (além do Snoopy, claro). Na tira deste comic, altamente popular por ser publicada diariamente nos jornais, apareceu em 1968 uma nova personagem que pôs os Estados Unidos em polvorosa. Chamava-se Franklin Amstrong e era a primeira personagem negra dos Peanuts (e provavelmente da maioria dos cartoons norte-americanos). Mas de quem foi a ideia? Não de Schulz, mas de uma professora que lhe escreveu uma carta na sequência do assassinato de Martin Luther King. Consciente da influência dos Peanuts nos jovens norte-americanos e tendo trabalhado muito com crianças, dizia que raramente se encontravam BD, livros ilustrados e cartoons em que estivessem representadas juntas crianças negras e brancas numa sala de aula; e que, se Schulz estivesse aberto a introduzir uma criança negra nos seus Peanuts, ajudaria decerto a que os mais novos percebessem que os negros não eram os excluídos da sociedade e a que, assim, a situação se alterasse para evitar mortes como a de Luther King. Schulz confessou-lhe o receio de poder parecer apenas condescente, mas a professora e o cartoonista trocaram uma longa correspondência, até que finalmente apareceu na tira de um jornal Franklin Armstrong, um rapaz negro americano cujo pai estava... na guerra do Vietname a defender o seu país (esta foi um golpe de génio). Muitos negros, ao que se diz, choraram de comoção nesse dia 31 de Julho de 1968. E a professora, estou certa, terá chorado de alegria. Uma bela história que começou assim:


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Para hoje recomendo Os Pretos de Pousaflores, de Aida Gomes, um livro sobre os três filhos mulatos de um português «retornado» à aldeia pequena (e racista) em que nascera, em 1975. E, porque ontem me esqueci completamente de recomendar uma leitura (como a Bibi referiu), do que peço desculpa, proponho hoje que leiam álbuns da Mafalda, de Quino, ou de Calvin & Hobbes, de Bill Watterson.

Entrevistas

A Sociedade Portuguesa de Autores é das instituições que menos parou durante o confinamento imposto pela pandemia, apoiando os autores nestas horas difíceis em que não puderam tantas vezes trabalhar (e por «autores» quero dizer criadores em todas as áreas, da música à pintura, passando pela fotografia e, claro, pela literatura). Mas a SPA também aproveitou o tempo para criar projectos novos, um dos quais é a divulgação no seu site de entrevistas gravadas ao longo dos anos a grandes figuras da cultura portuguesa, algumas das quais, de resto, deram origem a livros. A divulgação destas entrevistas é uma forma de não só nos dar a conhecer os «autores», mas também de registar para o futuro perfis de personalidades como António Victorino d'Almeida, José de Guimarães, Graça Morais, António-Pedro Vasconcelos, António Torrado, Fernando Tordo, João Abel Manta, Mário de Carvalho, Eduardo Lourenço, Artur Cruzeiro Seixas, Mário Cláudio e outos. Novas entrevistas estão em curso. As datas de divulgação serão anunciadas oportunamente.

Um pintor e uma Autora

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Um dos livros que ficou impedido de ver a luz em Março por causa da pandemia foi o novo título de Isabel Rio Novo, Rua de Paris em Dia de Chuva, «cruzado» de ficção e biografia de uma forma magistral. Na capital francesa, vivem-se tempos de profundas transformações, com a abertura das grandes avenidas e o despertar de uma nova corrente artística, o Impressionismo, que irá alterar o olhar dos indivíduos sobre a arte e o mundo. Mas que história de amor à distância poderão experimentar o protagonista deste romance – um diletante chamado Gustave Caillebotte, amigo e mecenas de pintores como Monet e Renoir e, afinal, ele próprio um artista de primeira linha – e a sua Autora, que há anos persegue a história deste milionário triste e decide agora escrever sobre ela? Combinando o impulso histórico com a tentação do fantástico, Isabel Rio Novo – duas vezes finalista do Prémio LeYa – oferece-nos uma peça literária fascinante acerca do poder da arte, que a confirma como uma das vozes mais relevantes da ficção portuguesa contemporânea. Esta é, obviamente, a minha recomendação para hoje.


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Uma nova Eneida

Tenho falado aqui várias vezes da Odisseia, da qual gosto particularmente, mas acho que nunca falei da Eneida, de Virgílio, um poeta que é mais ou menos o equivalente latino do grego Homero. E trago-a aqui hoje porque soube que foi feita recentemente uma nova tradução deste clássico, ainda por cima em verso, que é como convém, e parcimoniosa nas notas (que atrapalham sempre um pouco a leitura, embora façam falta). A epopeia de Virgílio, aonde Os Lusíadas, entre outras obras, foram beber, foi escrita no século I a. C. e tem como protagonista o chefe troiano Eneias (que também aparece na Ilíada), relatando a sua longa viagem por mar a seguir à guerra, em busca de uma nova pátria. A obra, pela sua enorme importância  na literatura ocidental, vem sendo traduzida para o português desde o século XVII, umas vezes em prosa, outras em verso; Agostinho da Silva, por exemplo, traduziu-a em verso nos anos 1990. E é também em verso que sai agora esta nova edição pela Cotovia, com tradução de Carlos Ascenso André, professor emérito da Universidade de Coimbra e um latinista que também já traduziu Ovídio. Para acompanhar a onda, hoje recomendo justamente Ovídio, Arte de Amar, que, lido fora do contexto, pode irritar bastante algumas feministas mais radicais.

Pelas próprias mãos

Por causa do homicídio de George Floyd, um negro americano que só tinha passado um cheque sem cobertura e foi morto por um polícia branco e sádico que o asfixiou diante de uma data de pessoas indignadas, muitas cidades norte-americanas estão agora a ferro e fogo, e os protestos estenderam-se à Europa, onde tem havido muitas e manifestações anti-racistas. O polícia em causa foi detido por ter decidido sozinho o destino de Floyd, sem respeito pela lei ou pela vida (esperemos que se faça justiça, claro). E, embora este assunto pareça intempestivo num blogue sobre livros, não o é, porque o que aqui me traz hoje, para matar saudades de um tempo em que me dedicava bastante a esmiuçar palavrinhas, é justamente uma palavra que tem que ver com a atitude desse polícia, «linchar». Se não sabiam, ficam a saber: no século XV, na cidade irlandesa de Galway, um senhor chamado James Lynch, que era uma espécie de presidente da Câmara, tornou-se conhecido por mandar para a forca o próprio filho depois de este ter matado um homem. Desde então, o verbo «to lynch» (em português «linchar») passou a significar fazer justiça pelas próprias mãos ou matar alguém (em grupo ou não) sem recurso a julgamento legal por uma ofensa cometida. Os linchamentos de negros repetem-se todos os anos nos EUA. Como diz uma amiga, neste momento não basta não ser racista, é mesmo preciso ser anti-racista.


Ligado ao racismo, recomendo um romance de James Baldwin que trata sublimemente deste assunto, Se Esta Rua Falasse. E um documentário notável, I'm not your negro, de Raoul Peck, sobre o genial Baldwin, que passou na RTP não há muito tempo. Gozem os feriados!


 


 

Turismo nacional

Estamos a precisar de «facturar» para pôr de pé a nossa economia e, sempre que posso, compro produtos nacionais. Também penso fazer este verão férias exclusivamente em Portugal, o que já há muitos anos não acontecia (vivo com um iberista e damos sempre uma saltada ao país ao lado), evitando muito provavelmente o litoral e os ajuntamentos. Quem me pode dar ideias é, de certeza, Afonso Reis Cabral que, como sabem, atravessou o País de lés a lés, 739 km pela Estrada Nacional 2, do que resultou, aliás, um conjunto de textos magníficos que ia publicando diariamente no Facebook sobre a sua experiência e tiveram um acolhimento extraordinário do público. Amanhã às 22h00 passa na RTP2 o documentário produzido por Vasco Galhardo Simões e realizado por João Pedro Félix sobre esta viagem, que inclui filmagens da caminhada feitas com um drone e várias entrevistas ao autor e aos maravilhosos portugueses que se cruzaram no seu caminho, cuja generosidade proverbial levou a oferecer comida e dormida a um rapaz que não conheciam de lado nenhum. Vejam, que vale muito a pena.


Pelo post, já perceberam o que recomendo. O livro sobre esta viagem: Leva-me Contigo, de Afonso Reis Cabral. Até sexta e gozem bem os feriados.

Desinfectar livros

Desde o início da pandemia que nos chamam a atenção repetidamente para a importância de lavarmos muitas vezes as mãos e desinfectarmos tudo o que trazemos da rua, o que tento cumprir escrupulosamente, mesmo quando me parece levemente exagerado (por exemplo, a embalagem de um remédio que trago da farmácia ou algo que vá direitinho para o congelador, o que, creio, deve matar os vírus todos). Há, aliás, quem defenda que, desde que abriram as livrarias, as pessoas têm lá ido muito pouco porque se sentem desconfortáveis pensando em quem já mexeu ou folheou determinado livro (bem, amigos Extraordinários, podem sempre levar luvas e, com as capas plastificadas dos livros, passar desinfectante ou álcool antes de começar a ler). Eu cá acho que o problema é outro: temos menos voltade de comprar em geral (estou segura de que os outros negócios também andam às moscas) e temos menos dinheiro para gastar. Mesmo assim, é verdade que um médico me disse que a primeira coisa que tirou da sala de espera do seu consultório nos tempos da Gripe A foram as revistas, porque as pessoas têm o péssimo hábito de lamber o dedo para passar a página e esse é um meio de contágio  muito eficaz. A este respeito da desinfecção de livros, vale, porém, a pena ler um artigo sobre como desinfectar colecções em tempos de pandemia. Não sei se as nossas bibliotecas, que já abriram ao público, não deveriam lê-lo. Aqui vai:


https://universoabierto.org/2020/06/01/como-desinfectar-colecciones-en-una-pandemia-2/


Hoje recomendo um romance maravilhoso em que a biblioteca confere poder a quem toma conta dela. Talvez já tenha falado dele aqui por outras razões, mas há que insistir nos bons livros: Casa de Campo, de José Donoso, com tradução de Sofia Castro Rodrigues.

Próximo Capítulo

Hoje realiza-se a segunda sessão do Clube de Leitura Próximo Capítulo por mim orientada. A primeira foi no passado dia 22 para apresentar os 4 livros que iriam a votação dos membros do clube: dois de autores portugueses, dois de autores estrangeiros; dois de mulheres, dois de homens. (Não fiz de propósito, mas fui politicamente correcta.) Há dias, soube que a vitória calhou a O Nervo Ótico, de María Gainza, e fiquei admirada, pois tinha anunciado que os autores portugueses se tinham oferecido para falar com os leitores numa das sessões, mas o público não deu, pelos vistos, grande valor a esse dado. Enfim, às 18h30 de hoje iremos então trocar impressões sobre este livro de estreia híbrido e maravilhoso de uma argentina de boas famílias (embora arruinadas) que tem medo de andar de avião e propensão para pouco mais do que contemplar pintura e ler livros; boas ocupações, diria eu que, por causa dela, vou ter de relembrar qualquer coisa da minha experiência como professora (estão vinte e tal pessoas em casa a ouvir-me e a interpelar-me), o que já não acreditava que fosse acontecer-me enquanto editora. Bem sei que é sexta-feira e que apetece tudo menos encontros digitais, mas, se quiser aparecer pelo Próximo Capítulo, inscreva-se. Terei muito gosto em vê-lo por lá.


Por falar em pintura, hoje recomendo um romance que publiquei há uns anos, de Cristina Drios, sobre a pintura de uma tela de Caravaggio e o seu roubo nos anos 1960 na Sicília. Chama-se Adoração. Não o percam.

100 anos de Ruben A.

Este ano comemora-se o centenário de um escritor de quem, infelizmente, já quase não se ouvia falar: Ruben A. (este A. é de Andresen, pois era primo de Sophia, embora também pudesse ser de Alfredo, o seu segundo nome próprio). Embora nascido em Lisboa, passou uma parte significativa da juventude no Porto e diz quem sabe que é um dos «Meninos de Ouro» do romance homónimo de Agustina. Muitos anos depois de ter tirado o curso de Histórico-Filosóficas em Coimbra e de ter já obra publicada, nomeadamente os diários, foi leitor no King's College de Londres, donde Salazar o tentou tirar, alegando que uma pessoa com as suas ideias e que escrevia como escrevia (moderno, pois claro) não podia estar a ensinar português. Voltou a Portugal e também passou pela edição, tendo ocupado um cargo na administração da Imprensa Nacional, e morreu cedo, com 55 anos. Ruben A. tem uma obra extensa, variada e  pouco conhecida, toda ela, creio, publicada pela editora Assírio e Alvim, que vai lançar na rentrée e num só volume a sua autobiografia, O Mundo à minha procura. Para quem queira tomar o pulso a este escritor, recomendo a edição na colecção Miniatura da Livros do Brasil do seu A Torre de Barbela, que foi talvez o livro que o celebrizou.


 


P. S. Peço a quem anda zangado com a língua portuguesa e com mais alguém que aqui vem ler os meus posts que não se sirva deste blog para isso. Compreendemos que nesta fase todos andem um pouco alterados, mas este não é o lugar mais apropriado para ajustar contas. Tenho apagado os comentários quando os vejo, porque avisei que o faria, mas dá trabalho e não é justo quando o problema não foi criado por mim. Espero não ter de pedir à SAPO o bloqueio do Anónimo em causa e que ele (ela) venha ler-me mas não agredir ninguém. Obrigada.

Se não viu, que visse

Não sei se sabem, mas foi sobretudo desde que apareceu na saga de Harry Potter  uma bela escadaria vermelha que a Livraria Lello se tornou internacionalmente famosa. A autora, J. K. Rowling, tinha-se casado com um português e vivido alguns anos no Porto, pelo que todos pensaram que conhecia bem a livraria em causa e a tinha usado nas suas histórias. Fosse assim ou não, o que é certo é que, com o sucesso da série, a Lello passou a ser visitada por turistas de todo o mundo que queriam ver de perto a escadaria vermelha que o jovem feiticeiro subira nas suas aventuras. E ainda bem, porque assim, de caminho, viram uma das mais belas livrarias do mundo, se não a mais bela, e compraram livros (o que é sempre bom). No entanto,  numa entrevista recente, a senhora Rowling disse que não conhecia a Livraria Lello: nunca lá tinha entrado nem sabia da sua existência quando vivia na Invicta, ou seja, não tinha sido a livraria a inspirar as suas aventuras. Um bocado feio, diria eu, e triste (porque se viveu no Porto e nunca deu pelo edifício devia ser cegueta ou muito desinteressada). Mais valia ter ficado calada, porque a livraria respondeu-lhe com estalada de luva branca na sua página de Facebook, reproduzida, de resto, como anúncio em muitos jornais do último fim-de-semana. Veja aqui, porque merece atenção. Não sei quem foi que a escreveu, mas vê-se que é de alguém culto e com espírito.


https://www.facebook.com/LivrariaLello/posts/1658565817640084?__tn__=K-R


Não recomendo Harry Potter, mas apenas porque nunca li (espero que mo perdoem), mas, para crescidos, se gostam de séries, têm O Quarteto de Alexandria, de Lawrence Durrell, uma teatralogia que foi reunida pela Dom Quixote num único volume (a minha edição era da Ulisseia).

Regressa / Não regressa

No que respeita ao confinamento imposto em Março por causa da Covid, tivemos, segundo penso (e muitos jornais estrangeiros também sublinharam), um comportamento exemplar. Talvez mais por medo do que por obediência (mas isso agora pouco importa), fechámo-nos em casa e evitámos a catástrofe que podia ter-se abatido sobre os nossos hospitais num momento em que a doença, noutros países, atingia números de mortos e infectados assustadores. Mas agora, que o desconfinamento está em marcha, parece que os ex-enjaulados se puseram todos ao fresco de um momento para o outro e estão a facilitar. Nem falo dos inevitáveis contágios em estruturas industriais, ou bairros onde não é possível, pelas fracas condições de habitabilidade, manter as distâncias, lavar as mãos a toda a hora, pagar máscaras, higienizar espaços, evitar a propagação; falo de uma juventude inconsciente que se abraça pelas ruas e esplanadas e não põe máscara porque tem sempre um copo de cervejinha na mão, achando que nada lhe toca (e se calhar não), mas podendo levar a doença para casa sem saber e prejudicar pais, avós e irmãos. A Feira do Livro de Lisboa regressa a 27 de Agosto, e a notícia, para quem gosta de livros e, sobretudo, trabalha neles, foi um bálsamo num ano em que as vendas caíram a pique e levarão muitos anos a voltar aos números anteriores à Covid. Mas, como o Primeiro-Ministro avisou, pode haver recuo se as pessoas não cumprirem à risca as regras e os casos não pararem de aumentar. Estou aqui a pensar que, se as coisas continuam como nos últimos dias, ainda é possível um cancelamento da feira. Temos de portar-nos bem se a queremos de volta.


 


Tinha-me esquecido da sugestão, desculpem: pois vou recomendar um livro que publiquei há muitos anos: Está Tudo Iluminado, de Jonathan Safran Foer. Um jovem americano muito esquisito com as comidas (é o próprio autor, de resto) procura na Ucrânia a mulher que terá ajudado o seu avô judeu a escapar aos nazis. Um choque de culturas e um regresso à história da família com personagens realmente especiais. (Obrigada, Bibi, por me lembrar de que faltava a recomendação.)

O que ando a ler

E pronto, passou mais um mês e chegou aquele dia em que todos dizemos o que andamos a ler. Para vossa surpresa, leio neste momento um policial, algo que não é nem meu hábito, nem coisa da minha predilecção. Mas estava sem cabeça para o livro que tinha à cabeceira (sim, a minha concentração está bastante afectada pelo confinamento e gasto-a todinha no trabalho), pelo que me recomendaram este À beira do Abismo, de Raymond Chandler, a primeira aventura do detective Philip Marlowe, de 1939, considerada pelo The Guardian e pela revista Time um dos cem melhores romances de sempre. Não iria tão longe, mas, sim, a personagem de Marlowe é bem esgalhada e a trama das filhas malcomportadas do velho milionário, num escândalo que mete fotografias porno, uma bela intriga que distrai do vírus antes de se apagar a luz e adormecer.


Para hoje, já que falei de policiais, recomendo Um Céu demasiado Azul, de Francisco José Viegas, ou quaquer outro romance do mesmo autor com o inspector Jaime Ramos.


P. S. Tenho respeito por quem me lê, mas gostaria também de ter o seu respeito. Se escrevo sobre um assunto, comente sobre esse assunto. Se há alguém indisposto com o País, o vírus, o confinamento, o seu salário ou a sua vida, por favor não use este blog para reclamar disso. Peço ainda aos comentadores que se respeitem mutuamente, mesmo que estejam em desacordo, e que não se escondam no anonimato para se insultar.