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A mostrar mensagens de março, 2018

Leituras atrasadas

Compro todos os dias o jornal e passo os olhos pelas gordas quando chego à editora; mas só leio o que me interessa mais tarde – por vezes, muitíssimo mais tarde. O artigo que hoje trago para aqui, por exemplo, é de 5 de Março e foi escrito na edição do 28.º aniversário do Público por Isabel Lucas – mas, por “faltíssima” de tempo, só o li com a devida atenção na sexta-feira passada. Diz-nos como a literatura escreveu o presente nos últimos 28 anos – e a verdade é que, sempre que se tratou do trágico e do horrível, ela sentiu antes de tudo necessidade de calar – e só depois, feito o presente passado, começaram a sair os livros sobre as coisas tremendas, magoadas, inesquecíveis. Houve excepções, mas poucas, e houve também estranhas coincidências, como a de livros que pareciam prenunciar um mal que nem se sabia que aí vinha. O artigo refere, claro, o 11 de Setembro, o Katrina, a guerra do Iraque, o ataque com gás sarin no metro de Tóquio... Fala, por isso, de Don DeLillo, Jonathan Safran Foer, Laurent Gaudé, Murakami e muitos mais. Mas o melhor é lerem, pois vale mesmo a pena esta maneira de olhar para trás e ao mesmo tempo adivinhar o que por aí virá... em literatura. Obrigada, Isabel.

Não é só cá

Não, não é só cá... Aqui há tempos, li já não sei em que jornal que, pela primeira vez em décadas, o Reino Unido, que sempre tinha tido altos índices de leitura, perdera muitíssimos leitores de ficção literária – e perdera-os para os smartphones... Aqui a coisa não anda melhor, não só pelas rendas impossíveis de pagar pelos livreiros (o lado negro do turismo) que fazem fechar muitas livrarias, mesmo as históricas, mas também por um tempo veloz que afasta as pessoas de uma leitura mais lenta e as atira para os seus telefones, onde se sucedem mensagens curtinhas que não obrigam a grande discernimento. (Leio no Público de sexta-feira passada : "Só 0,8% não tem telemóvel; enviam, em média, 93 SMS e fazem 27 minutos de chamadas por dia. Estes são os números sobre a utilização do telemóvel reportados por jovens entre os 15 e os 22 anos, inquiridos no âmbito do projecto Faqtos. Já o acesso à Internet e às redes sociais no telemóvel quadruplicou em seis anos.") Será talvez pela diminuição do número de leitores de livros que no Reino Unido, segundo leio no The Guardian, o condado de Northampton quer fechar 21 das suas 36 bibliotecas? Chi, e ainda pretende reduzir o horário das que ficam abertas? O governo diz que vai provavelmente interferir (haja alguém), até porque a média europeia é de uma biblioteca para 16.000 leitores e em Northampton ficaria uma biblioteca para 60.000. Mas, com ajuda do Estado ou não, a médio prazo haverá mesmo leitores suficientes a frequentá-las?

No jardim de infância

Não vou dizer nada que não se saiba já, mas não custa insistir numa coisa com que todos os que lêem este blogue (bem, quase todos) se preocupam: o insucesso escolar relacionado com a falta de hábitos de leitura. O Instituto Politécnico do Porto desenvolve, desde 2015, um projeto com cerca de mil crianças de quatro agrupamentos escolares, tendo verificado que as atividades de leitura no jardim de infância diminuem em 50% o risco de dificuldades de aprendizagem no primeiro ano de escolaridade (a antiga primeira classe). O projecto foi criado para prevenir “percursos de insucesso precoce” e algumas das variantes avaliadas nas crianças, concluído o jardim de infância, são a linguagem e a consciência cronológica. As que são então sinalizadas como “em risco” podem beneficiar de uma intervenção ao longo de mais um ano com vista à diminuição das dificuldades na leitura e na escrita, que as penalizariam logo no início do seu percurso escolar. As que não apresentam riscos no final do Jardim de Infância são, habitualmente, as que têm competências a que o artigo chama “pré-leitoras adequadas a um percurso de sucesso escolar”, ou seja, as que leram livros ou ouviram histórias apropriadas e trabalharam a cronologia numa história. Razão de sobra para promover a leitura entre os mais pequeninos.


 

Mestiçagem

Acho que os portugueses sempre gostaram de misturas em termos musicais – existe, de resto, uma teoria, assente em argumentos de peso, de que o nosso fado vem de uma modinha brasileira tocada ao piano que a Corte (que partira com D. João VI) terá trazido com ela ao regressar ao Reino – e depois se transformou noutra coisa. Pois bem, seja ou não assim, a verdade é que se fazem muito boas músicas em Portugal cruzando fado e música brasileira (no caso, bossa nova); e, embora o tema do blogue não tenha a ver com música, a verdade é que fui convidada para fazer uma letra para o álbum Moça Morena, do colectivo RioLisboa (Bruno Fonseca é o compositor dessa música e o principal impulsionador do projecto), no qual participam vozes mais fadistais e mais brasileiras (todas de mulheres: Sandra Correia, Luanda Cozetti, Rute Soares, Teté Alhinho, Ana Margarida e Mili Vizcaíno). Na quarta-feira passada, havia um espectáculo de lançamento do álbum no B.Leza às 22h00 e eu estava mortinha por ir. Infelizmente, atacou-me a meio do dia um desses vírus que nos fazem perder uns quilos numa noite (uso este eufemismo para não ser muito gráfica) e restou-me ouvir o CD quando melhorei. Ainda o ouço. Ouçam também, que vale muito a pena. Obrigada, Bruno, pelo convite.

Outro sítio no mesmo sítio

Os Portugueses, ao que leio e ouço, gostam de entupir as urgências dos hospitais com casos que poderiam, na grande maioria das vezes, ser resolvidos por telefone (há um número para isso e, segundo sei, até é bastante eficaz) ou, quando muito, nos respectivos Centros de Saúde. Mas este não é assunto para um blogue de livros e apenas me lembrei dele a propósito de um e-mail que recebi recentemente da Casa Fernando Pessoa. Sim, recebo uma newsletter da casa do poeta regularmente, com a programação semanal ou mensal e as várias actividades, mas desta vez tratava-se tão-só de me avisarem que o site da Casa (ou sítio, se preferirem), apesar de continuar na morada de sempre, era já outro. Fui espiolhar e aconselho quem se interesse a fazer a mesmíssima coisa, mas não são as mudanças (algumas de pormenor) que aqui me trazem hoje. É que, nesse anúncio sobre o novo look, dizia-se ainda: «Visite-nos antes de nos visitar.» Será que, com esta onda de turismo lisboeta, aparecem chusmas de visitantes de todas as partes do mundo que é preciso travar, como acontece nas urgências dos hospitais?...

Eliot a preço módico

Ontem foi Dia da Poesia e eu continuo num estado de espírito poético. Até porque recebo uma newsletter da belíssima editora britânica Faber&Faber que fala do assunto e tem, aliás, como teaser «See Jeremy Irons read T. S. Eliot»… Oh, quem me dera viver em Londres ou estar lá no dia 9 de Abril, às 7,30 pm (9 de Abril é também o centenário da data da Batalha de La Lys, se não estou em erro, e isso serve-me de desculpa para ficar em Portugal). O preço da leitura é para membros da Faber (não sei se por receber a newsletter me posso considerar tal coisa), mas é curiosamente barato (9,60 libras) tendo em conta três coisas: a primeira é que qualquer espectáculo em Londres costuma ser uma fortuna – só para terem uma ideia, uma entrada para uma dessaas óperas pop (Miss Saigão, Os Miseráveis…) pode custar 65 libras ou mais; em segundo lugar, porque Irons é Irons e Eliot é Eliot! Em terceiro lugar, porque o Eliot que vai ser lido são os Quatro Quartetos, caramba! Mas isto, claro, só entende quem gosta de poesia, e de Eliot, e dos Quatro Quartetos. Porque de Iron quase de certeza que os Extraordinários todos gostam. Amanhã, prometo falar de outro assunto que não seja poesia, pronto.

Viva a poesia!

Hoje é Dia Mundial da Poesia! E aconselho os Extraordinários, mesmo os mais renitentes, a começarem o dia com um belo poema, pois garanto-vos que faz bem à alma (e melhor aos ouvidos que certas musicatas). Lisboa e o resto do País estão hoje cheios de actividades em torno da poesia, e a Casa Fernando Pessoa organiza, como noutros anos, uma Feira do Livro da Poesia em Campo d’Ourique, no Jardim da Parada, onde, além da venda de livros, haverá concertos e leituras de poemas, algumas das quais feitas por alunos da Universidade Sénior do bairro. Na casa do poeta maior, à Rua Coelho da Rocha, inaugurar-se-á também uma exposição sobre o poeta Camilo Pessanha (leiam este autor!), com curadoria de Pedro Barreiros e a grande Maria do Céu Guerra a ler poemas. No mesmo local, às 21h00, num espectáculo que dá pelo nome de Tabacaria, António Fonseca e seus convidados farão leituras encenadas em português e em crioulo de Cabo Verde do poema do mestre (julgo eu pelo título da sessão). E nos dias que se seguem haverá muito mais. Eu, também por causa da poesia que fiz para uma música de Bruno Fonseca para o CD Moça Morena, do projecto Rio-Lisboa, vou estar neste dia no B.Leleza a ouvir cantar poemas com misto de fado e bossa nova por muitas e belas vozes lusófonas! Leiam poesia. Ou ouçam-na.

Cadáveres às costas

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Após a morte do pai, um jovem abandona o curso de Direito e aluga um pequeno apartamento no sótão de um palacete de Lisboa, com o fito de escrever um romance. Aí vive a família Peralta Perestrêllo, cuja matriarca centenária – D. Consolação, há muito acamada – é visitada no dia 13 de Maio de 2017 pela aparição da irmã Lúcia, após o que consegue erguer-se e dar uns passinhos. Filho, nora e netos ficam hesitantes quanto a acreditar no suposto milagre; mas cada um a seu modo (e também a Igreja, chamada imediatamente para avaliar a situação) descobre como retirar dividendos do episódio – o mesmo acontecendo, aliás, com o jovem escritor que, sem ideias para o seu romance de estreia, tem subitamente um filão ao dispor, para não falar do seu interesse pela neta mais nova da miraculada… Porém, entre as aparições, a depressão da mãe viúva, a história secular do palacete e o passado e presente dos membros da família Peralta, chegará a escrever uma página que seja? Cheio de humor (mas também de crítica e até de alguma verrina), Cadáveres às Costas é um romance admirável sobre Portugal (e a mentalidade portuguesa) que, apesar do século XXI, ainda não conseguiu curar-se de muitas das feridas do passado. À venda a partir de hoje.


 


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Anti-biblioteca

Pouco tempo depois da morte de Eduardo Prado Coelho, a Casa Fernando Pessoa organizou uma homenagem ao crítico e professor, em que amigos, conhecidos e admiradores liam excertos ou pequenos textos da sua autoria. Na ocasião, escolhi uma crónica que tinha que ver com o facto de uma biblioteca só ser realmente uma coisa interessante quando existem nela tantos livros não lidos como livros lidos. (Se pensarmos bem, os livros lidos que não sejam obras de consulta são, afinal, os mais inúteis que lá estão…) Foi também esta ideia que encontrei recentemente num artigo de Jessica Stillman sobre o facto de nunca nos devermos sentir culpados por nas nossas estantes haver tantos volumes não lidos. A autora do artigo cita, de resto,  o autor e estatístico Nassim Nicholas Taleb, que chama ao conjunto destes livros não lidos uma «anti-biblioteca» e diz que todos precisamos de uma para nos lembrar constantemente de tudo o que ainda não sabemos (Umberto Eco também dizia isto). A anti-biblioteca, ao que parece, vai crescendo com a idade do dono e, quanto mais conhecimentos este adquire, mais livros não lidos acumulará. Às tantas, esses livros não lidos (tantos, tantos) vão parecer até ameaçadores, mas o melhor é não nos sentirmos culpados, porque a nossa biblioteca, segundo o artigo, nunca deve ser um mostruário do que lemos que acene aos outros a nossa cultura, mas um repositório daquilo que em algum momento nos despertou curiosidade e interesse e quisemos – ou ainda queremos – saber. Gosto da ideia.

Pau de dois bicos

Estive recentemente no Luxemburgo para participar numa espécie de entrevista ao vivo no Salão do Livro (o jornalista era José Luís Correia, que fez belas perguntas) e ir a uma escola falar com crianças portuguesas. Já tinha lá estado uma vez, há uma dezena de anos, e chegara à mesma conclusão: os meninos e meninas nascidos já no Luxemburgo falam um português excelente, o que não acontece, por exemplo, com os filhos de imigrantes portugueses em França ou na Alemanha, que comunicam na língua do país de adopção e cujo português (talvez seja o que ouvem aos pais) está já francamente aculturado. Noutra entrevista que me fizeram para a rádio, mencionei esta ligação das crianças às suas raízes e à língua materna num tom francamente elogioso. Porém, num encontro com um deputado eleito pelos portugueses residentes na Europa, a quem disse exactamente o mesmo, ele tirou-me a venda dos olhos: disse-me que, em muitos casos, o facto de  falarem o português sem interferências (do luxemburguês, do alemão, do francês) significava, infelizmente, que a integração não se tinha feito... Um pau de dois bicos, portanto.


 


 

Comentar

As livrarias independentes vão à falência porque a maioria dos leitores, não nos iludamos, prefere comprar online ou nas grandes cadeias. Mas são frequentemente esses leitores que lá não vão que choram publicamente o fecho das lojas (com os cinemas de bairro aconteceu o mesmo). Vem isto, embora não pareça, a propósito de um artigo assinado por Felisbela Lopes, professora universitária e comentadora, no Jornal de Notícias sobre a impossibilidade de encontrar à venda um bom livro para crianças (ou mais). Ora, se existe área ou faixa etária em que o desenvolvimento editorial é notório nos últimos anos é justamente a literatura infanto-juvenil, com títulos e editoras premiados internacionalmente em festivais e uma produção com uma qualidade incrível, seja em termos de texto, seja em termos de ilustração, em que muitos nomes se destacam (Catarina Sobral, Madalena Matoso, Paulo Galindro, André Letria, o meu querido João Fazenda, tantos, mas tantos). A especialista Ana Margarida Ramos, da Universidade de Aveiro, já disse com todas as letras que os portugueses são todos treinadores de bancada e agora também especialistas em literatura infantil e que, quando os comentadores falam do que não sabem, as mais das vezes só revelam a própria ignorância. É isso aí, mas apetece-me acrescentar que, em vez de hipermercados, talvez as pessoas que procuram bons livros infantis devessem frequentar livrarias a sério em vez de fazer comentários parvos.

Método de escrita

Os que escrevem livros e participam em encontros com leitores nunca se escapam de responder a meia dúzia de perguntas recorrentes. Se se trata de um autor de literatura infanto-juvenil, eu avançaria, por experiência própria, que as questões mais frequentes dos miúdos se prendem com a chatíssima... «inspiração». «Donde retira a inspiração para os seus livros?», «Donde lhe vêm as ideias?», «Onde se baseia para escrever as suas histórias?» e outras perguntas do género estão invariavelmente presentes nas sessões que se realizam nas escolas (e, para que fiquem a par os Extraordinários, já nenhum miúdo sabe o que é a «massa cinzenta» quando é essa a resposta; agora é preciso dizer que tiramos os argumentos da nossa própria cabeça). Mas, se o escritor se dedica ao romance literário para gente crescida, também há sempre alguém no público que, na hora de interpelar o convidado, o interroga sobre o seu «método» quando, na maioria das vezes, a literatura obedece a tudo menos regras. Pois bem, nas últimas Correntes d’Escritas, contou-se numa das mesas que Antonio Skarmeta, o chileno que escreveu O Carteiro de Pablo Neruda, estava num festival literário e, na assistência, alguém quis saber qual era o seu método de escrita. Depois de pensar um nadinha, Skarmeta respondeu: «Amigo, eu não sou ornitólogo, eu sou pássaro. Não analiso, voo.» Uma resposta que só podia vir de um escritor.

Na Madeira

Hoje começa o Festival Literário da Madeira – e tomara que o tempo ajude, pois no ano passado a pobre Svetlana que ganhou o Nobel da Literatura não conseguiu chegar ao destino, mesmo tendo tentado aterrar no arquipélago três vezes… O tema desta vez é «Jornalismo e Literatura – Palavra que prende, palavra que liberta» e, de hoje até dia 17, o Teatro Municipal Baltazar Dias vai receber o público interessado para conversas variadas com convidados de luxo: Daniel Alarcón, Ricardo Araújo Pereira, Benjamin Moser (biógrafo de Lispector), José Luís Peixoto, Frei Bento Domingues, Clara Ferreira Alves, Javier Cercas, Esther Mucznick e muitos outros, portugueses e estrangeiros. Discutir-se-ão temas sempre actuais que têm por mote frases de grandes escritores (a de Philip Roth é «Compreender as pessoas não tem nada a ver com a vida. O não as compreender é que é a vida») e haverá apresentações de livros. No dia 16, pelas 21h30, a fadista Aldina Duarte apresentará o seu mais recente álbum Quando Se Ama Loucamente, inspirado na obra da escritora Maria Gabriela Llansol. Eu até lá dava um saltinho… mas infelizmente não posso.

Inventar de novo (ou de velho?)

Às vezes, leio originais que me enviam e que não são bons nem maus – que não acrescentam nada mas não são igualmente cópias de coisa nenhuma. Digo que são textos que não chegam a ter um estilo, mas se calhar não é bem isso. Recentemente, um concorrente ao Festival da Canção foi acusado de plagiar uma canção da IURD (vi fotos do rapaz e achei que dificilmente ele escutaria um hino religioso) e, realmente, quem ouviu as duas músicas achou-as iguaizinhas. O concorrente negou o plágio, mas achou melhor retirar-se da prova. No meio da celeuma, li um trecho do cantor e compositor (e pastor) Samuel Úria em defesa do cantor desistente, que me pareceu muito interessante e apropriado; dizia assim: «Fazer uma canção, e querê-la acessível a públicos abrangentes, é um exercício de inventarmos aquilo que já nos parece existente (...) O objectivo é criar uma coisa nova que soa a familiar e de sempre. Por isso mesmo, resvala-se com relativa facilidade; qualquer escritor de canções já “inventou” melodias que mais tarde veio a descobrir, ou a lembrar-se, que existiam previamente.» Depois de ter lido isto, pensei que de facto acontece o mesmo com esses livros de que falei no início – os seus autores, sem saberem, inventam o que já estava inventado.

Pérolas

Cada vez vou menos ao Facebook. Não tenho muito tempo, é verdade, até porque agora aproveito todos os bocadinhos para ler livros que tenho em atraso e escrever; mas não nego também que ao princípio lhe achava mais graça e ficava quantas vezes a noite inteira a ver o que escreviam os supostos amigos. Tal como me cansei do Sudoku e do Solitaire (às tantas, percebi que não iria muito mais longe e perdi o interesse), agora também o Facebook me dá menos do que gostaria e passo lá pouco tempo. Ainda assim, no meio da porcaria, ainda se descobrem lá algumas pérolas. Deixo-vos com esta, que é de Jô Soares e muito certeira: “Gente falsa não fala, insinua. Não conversa, gera intriga. Não elogia, adula. Não deseja, cobiça. Não colabora, interfere. Não participa, se infiltra. Não sorri, mostra os dentes. Não caminha, rasteja pela vida sabotando a felicidade alheia e sobrevivendo de seus restos.” Bom fim-de-semana.


 

Húmus II

Hoje começa em Guimarães mais uma edição, a segunda, do Festival Húmus (que se iniciou no ano passado), que decorrerá até ao dia 12. Desta feita – seguindo, de resto, o ar do tempo (involuntariamente ou não) – o programa é dedicado às mulheres, «mulheres reais, que ajudaram a mudar a história do País, como Mumadona Dias, D. Maria II ou Sophia de Mello Breyner Andresen, desde os alvores da nacionalidade à queda da ditadura, mas também às mulheres da ficção, personagens que moldam o nosso património literário e cuja intensidade de carácter as fez sair das páginas dos livros para o imaginário nacional. Blimunda, Quina ou a Condessa de Gouvarinho [...]». O festival nasceu no âmbito da celebração dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão (para quem não saiba, Húmus é a sua obra-prima) e vai destacar, também por isso, Maria Angelina, companheira do escritor. Entre outros, participarão Maria Antónia Palla, Miguel Real, Isabel Pires de Lima, Dulce Maria Cardoso, Isabel Rio Novo, Carla Maia de Ameida, Filipa Melo e Cristina Branco. Não falte.

Livraria Solidária

Na sexta-feira dia 23 de Fevereiro inaugurou-se em Carnide a Livraria Solidária num espaço arrendado à Santa Casa da Misericórdia por uma associação sem fins lucrativos chamada Boutique Cultura. Trata-se de uma vivenda na qual, além da dita livraria, há espaço para outros projectos culturais e de promoção da leitura que poderão beneficiar do dinheiro da venda dos livros (que foram doados não percebi bem por quem, mas no futuro até podemos ser nós, os Extraordinários, que temos de certeza livros a mais que já não cabem lá em casa, a doá-los). Os livros custam entre 1 e 5 euros e, portanto, vale bem a pena ir lá dar uma espreitadela. Outra actividade associada que a Boutique pretende desenvolver é a leitura ao domicílio, não apenas a idosos com a vista muito cansada, mas a pessoas da freguesia que tenham alguma incapacidade temporária ou crianças que não vivam com pessoas alfabetizadas. Está também projectada uma sessão de leitura de contos em lugares insuspeitos (talhos, bancos, etc.) uma noite por mês. Existem já 25 voluntários a receberem formação para várias funções, incluindo a reciclagem de papel, pois pretende-se que os livros mais estragados possam ser transformados em alguma coisa que se possa vender. Os parceiros da Boutique são outras duas associações de Carnide, a Crescer a Cores e a Azimute Radical, e em alguns dos projectos a Santa Casa, a Junta de Freguesia de Carnide, a PSP e a Gebalis.

Deixar de

Um dia destes ouvi uma pessoa que eu adorava ouvir cantar (falo de alguém profissional, claro) e, de repente, tive um baque: é que já não cantava mesmo nada e era completamente penoso de ouvir... Não sei se é mais terrível para o artista perceber que já não é capaz de chegar aos tons a que chegava antes, se para quem o ouve e fica a pensar por que raio não se retirou antes de um declínio tão evidente. Claro que muitos artistas precisam de ganhar dinheiro e, portanto, vão aceitando fazer espectáculos, mesmo que a voz esteja muito cansada. Mas também presumo que outros, ainda que não precisem de dinheiro, não consigam ser felizes sem o palco, os concertos, os álbuns, o público. E para um escritor, como será deixar de escrever na idade madura? Menos penoso do que para alguém que canta? Admito que, a partir dos 80, a cabeça já não deva conseguir organizar-se e recordar-se de tudo e que seja muito complicado escrever um bom livro (embora as pessoas não sejam obviamente todas iguais). Philip Roth, por exemplo, anunciou que ia parar de escrever e parou, dedicando-se agora a ler – e a ler também o que ele próprio escreveu. Mas outros escritores anunciaram (ameaçaram?) a paragem e acabaram por voltar. Para a escrita, porém, não há bichinho de palco nem público ao vivo. Porque será mesmo assim tão difícil deixar de...?

O papel do acaso

O acaso, escreve Antonio Muñoz Molina numa interessantíssima crónica do El Pais, é uma espécie de bibliotecário cego e altamente eficiente, que não pára de lhe oferecer novidades surpreendentes às quais nunca teria chegado através do algoritmo da Amazon que, sendo a sua curiosidade “variada e caprichosa”, fica tão confuso com as suas buscas que acaba por sugerir-lhe uma coisa qualquer sem critério e, normalmente, desinteressante. O acaso, por seu turno, nunca se engana – Muñoz Molina chama-lhe um bibliotecário anárquico que não vai na conversa da moda nem obedece a temas actuais e que tem como aliados os quiosques de rua que vendem livros e as livrarias de livros em segunda mão (refere-se a Manhattan, pois é lá que ensina – e conta que os alunos nunca dão por estas preciosidades que custam, no máximo, cinco dólares, pois vão sempre agarrados aos telemóveis). E a seguir diz que, numa feirinha que existe aos sábados na rua lateral à Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, encontrou uma antologia de textos de Michaux numa edição da Gallimard que decidiu comprar e que, embora antes não tivesse qualquer intenção de ler Michaux, o Michaux impôs-se-lhe e mudou o rumo das suas leituras. O mesmo aconteceu com outro livro comprado na rua a caminho da inauguração de uma exposição; chegou atrasadíssimo e viu-a em vinte minutos, a correr, e aborrecido de morte. Mas no regresso a casa, de autocarro, consolou-se com o livrinho que tinha comprado... num desses quiosques do acaso.

Escrever a vida

Costuma dizer-se que há certas vidas que davam livros (mas, no fundo, todas dão). Porém, não se pense que basta uma vida recheada de peripécias para que um livro biográfico seja bom, tal como nem sempre é o enredo, a história, o mais importante num romance. Maria Antónia Oliveira, biógrafa conceituada de Alexande O'Neill, propõe-se dar uma mãozinha a quem queira aprender a escrever uma biografia (sua ou alheia) num curso intitulado Como Se Escreve Uma Vida, que vai acontecer na Livraria Férin em Lisboa. Dividido em quatro sessões, nos dias 6, 7, 13 e 14 de Março, das 18h30 às 21h00, Maria Antónia Oliveira irá explorar «a noção de biografia a partir de uma perspectiva histórica focada no século XX, com algumas incursões à obra de biógrafos fundadores.» De Virginia Woolf a Julian Barnes, e sem esquecer casos portugueses (como o da própria orientadora do curso), a coisa promete. As inscrições terminam no dia 5 deste mês e podem ser feitas através dos endereços oliveiramariaantonia@gmail.com e agenda@ferin.pt. O preço do curso é de 50 euros. Por que espera?


 


 


 

O que ando a (re)ler

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Pois é: mentiria hoje se vos trouxesse leitura nunca vista, porque o que aconteceu explica-se facilmente. Fui ao gabinete da minha colega editora Cecília Andrade e vi em cima da sua mesa dois ou três exemplares de um livro acabadinho de chegar da gráfica, uma novíssima edição de Se numa Noite de Inverno Um Viajante, do grande Italo Calvino. E, vendo ela que eu me interessava, deu-me um deles para eu, no fundo, somar ao que já tinha na estante – mas este é muito mais legível e tem uma capa bastante mais atraente. Chegada a casa, tirei-o do saco e folheei-o; e, pronto, aconteceu o que sempre acontece com Calvino (o escritor italiano): agora já não vou conseguir largá-lo. É que este romance feito de princípios, que aproxima duas criaturas, homem e mulher, ambos curiosos sobre a sequência das histórias, é mesmo um vício; e, se já falei aqui dele (acho que, pelo menos, o terei de feito de raspão, já não me recordo), a verdade é que nunca é demais relembrar os Extraordinários que o texto desta noite de Inverno é mesmo ideal para ler no Inverno, e não só, tanto faz se em viagem ou não. Viciante.


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