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A mostrar mensagens de abril, 2023

Excerto da Quinzena

[...] Um clamor lamentoso, modulado em dissonâncias bárbaras, encheu-nos os ouvidos. O imprevisto absoluto do que estava a acontecer arrepiou-me os cabelos debaixo do boné. Não sei que sensação causou aos outros; a mim pareceu-me que a própria neblina tinha gritado, tão de súbito, e aparentemente vindo de todos os lados ao mesmo tempo o tumultuoso e desolado alarido se ergueu. Culminou com uma explosão apressada de quase insuportavelmente excessiva gritaria, que emudeceu de repente, deixando-nos imobilizados em diversas atitudes ridículas e obstinadamente atentos ao quase tão assustador e excessivo silêncio que se seguiu. "Santo Deus! O que significa...?", gaguejou, a meu lado, um dos peregrinos. [...] O resto do mundo desaparecera, a dar crédito aos nossos olhos e ouvidos. Desaparecera, pura e simplesmente. Sumira-se sem deixar um murmúrio ou uma sombra.


Joseph Conrad, O Coração das Trevas, tradução de Fernanda Pinto Rodrigues

Trabalho de campo

Em 2021, se não estou em erro, uma das chancelas da LeYa publicou um romance intitulado Casa do Prazer (no original, La Maison), da escritora francesa Emma Becker (o segundo nome, disse-o ela própria, é uma adaptação do apelido da avó alemã). O livro com o qual Emma se apresentou ao mundo, Mr. It, contava  a relação de uma estudante com um homem mais velho e casado, e a autora confessou que se baseara na sua própria experiência. Neste momento, que estreia em Portugal um filme baseado em A Casa do Prazer, a escritora contou aos media que faz sempre trabalho de campo e que, tratando-se de uma história passada num bordel sobre as mulheres que lá trabalham, foi ao longo de dois anos prostituta num estabelecimento em Berlim para saber como era a vida das prostitutas e poder escrever o livro com conhecimento de causa. Interpelada por um jornalista, que lhe perguntou se não teria sido também pelo dinheiro, respondeu que não, embora outras estudantes universitárias trabalhem em casas de alterne para terem uma vida mais desafogada. Presumo então que é mesmo aquela coisa do «lugar da fala». Queres escrever sobre prostitutas?, pois então prostitui-te... Espero que esta senhora não se lembre de escrever sobre automutilação, anorexia ou mesmo um asilos de loucos, porque, se é para partir sempre das próprias experiências, ainda se pode tramar.

A chama está a salvo

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Publiquei com felicidade o romance vencedor do Prémio LeYa em 2018: Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. Desde que o prémio foi anunciado, esse livro só me deu alegrias, pois não só já vendeu no Brasil cerca de meio milhão de exemplares, mas também está vendido em 24 países e terá (ou já teve) adaptações cinematográficas e teatrais. O autor, que antes tinha apenas um livro de contos, poderia ter ficado bloqueado com o sucesso, mas, além de ser uma pessoa extraordinária e não ter ganho qualquer arrogância com a proeza, escreveu a seguir um romance que publicamos esta semana, Salvar o Fogo, que é outra obra-prima e resumo assim: depois de ter ficado órfão de mãe, Moisés vive com o pai e a sua irmã Luzia num povoado cujo domínio das terras pertence à Igreja que ali detém um mosteiro desde o século XVII. Os irmãos partiram todos em busca de uma vida melhor, mas Luzia foi obrigada a ficar para cuidar do pai e do menino; estigmatizada pelos seus supostos poderes sobrenaturais (como acender o fogo), leva no entanto uma vida de profundo sentido religioso, trabalhando como lavadeira do mosteiro e educando Moisés rigidamente com o objetivo de o inscrever na escola dos padres e conseguir para ele a educação que nenhum deles pôde ter. Porém, a experiência dessa formação marcará o rapaz de tal modo que ele acabará por deixar intempestivamente a casa. Será só vários anos mais tarde, depois de um grave acontecimento que é o pretexto para a família toda se reunir, que Moisés reencontrará uma Luzia arrependida dos silêncios e magoada pelas mentiras, mas simultaneamente combativa, lutando como nunca pela posse da terra dos seus antepassados. Épico e lírico, Salvar o Fogo é um romance que mostra que muitas vezes os fantasmas de uma família não se distinguem dos fantasmas de um país. A ferida aberta por Itamar Vieira Junior só o leitor poderá fechar.


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25 de Abril

Sempre!

Um casamento

Nos últimos anos tenho descoberto alguns autores que aprecio muito. Entre eles, está sem dúvida a irlandesa Maggie O'Farrell, que comecei a ler por causa de Hamnet, um romance belíssimo sobre a família Shakespeare de que já aqui falei, e de quem li recentemente Retrato de Casamento (um nadinha menos bom, segundo a minha modesta opinião, mas em todo o caso muito interessante). Passa-se em Itália, que é logo um bom cenário, e trata da vida de uma das filhas de Cosimo d' Medici, Lucrezia, oferecida ao duque de Ferrara em casamento aos quinze anos por morte da sua irmã mais velha, Maria, que era na verdade a noiva, mas sucumbiu desgraçamente a umas febres. A vida de Lucrezia, uma menina extremamente talentosa no que ao desenho e à pintura diz respeito, mas que se tem em pouca conta no seio da família, é-nos contada praticamente desde o berço. Cuidada pela ama Sofia, que já fora ama de sua mãe, vivendo entre vários irmãos e irmãs, ela é um ser agitado e imaginativo, que gosta de animais (especialmente selvagens) e não aprecia as roupas incómodas nem o tempo imóvel em que posa para o seu retrato de casamento. Já na corte de Ferrara, e incapaz de engravidar (veremos mais tarde porquê) e de dar um herdeiro ao ducado (coisa mesmo premente), Lucrezia desiludir-se-á com os actos do marido pouco depois da união e, segundo os livros, morrerá um ano mais tarde de uma apoplexia, de forma algo suspeita. Mas Maggie O'Farrell acha que não foi bem assim, e por isso ainda vale mais a pena ler este romance.

Abril em Paredes de Coura

Há dias falei de Foz Côa, ontem de Óbidos e hoje falo de Paredes de Coura. Dizem as estatísticas que este blogue tem leitores em todo o País (e até fora dele) e, como tal, é bom publicitar o que se passa fora dos grandes centros. Ora, a autarquia de Paredes de Coura vai celebrar Abril em grande com um concerto amanhã, dia 22, às 21h30, que terá António Zambujo como estrela no Centro Cultural. Mas, apesar de adorar o António e até escrever letras para ele, o que quero mesmo é publicitar nesse mesmo dia, pelas 16h00, uma sessão organizada pelo Centro Mário Cláudio que tem tudo para ser interessante, emotiva e informativa. Integrada no Ciclo «A Guerra em África» (Mário Cláudio esteve na Guiné e já contou a sua experiência em Astronomia), e a par de uma exposição sobre a guerra colonial, na mesa vão estar presentes para falar do que foi este período negro da história portuguesa (e todos com conhecimento de causa) os escritores Lídia Jorge, Manuel Alegre, João de Melo, Carlos Vale Ferraz e o próprio Mário Cláudio. A conversa será moderada por José Alberto Pinheiro. Assim, se estiverdes por esse norte-norte, lá mesmo em cima, ainda podereis escutar Samuel Úria no dia 24 de Abril em Paredes de Coura e fechar a festa em beleza.

Latitudes

Passei há pouco tempo um fim-de-semana não muito longe de Óbidos, a vila literária por excelência em Portugal, onde cá para mim devia até haver um Hay Festival, como em tantas outras vilas com muitas livrarias pelo mundo fora (Hay foi a primeira, mas há mais). Claro que temos lá o FOLIO, um festival que decorre ao longo de três fins-de-semaba em Outubro para o qual são sempre convidados nomes de peso (alguns contemplados com o Nobel e tudo). Mas não é só: agora, em Abril, há o Latitudes. E é mesmo disso que venho falar, pois começa amanhã e vai até dia 23, proporcionando a quem visita a bela Óbidos mais um entretenimento. O Latitudes: Literatura e Viajantes é, como o nome indica, um festival que aproveita os livros com a tónica das viagens e serve de ponto de encontro a grandes nomes do género, sejam escritores, jornalistas ou ilustradores, estes com a cumplicidade dos Urban Sketchers Portugal e do Grupo de Risco. A gastronomia também não fica de fora, havendo sessões à volta da comida e apresentações de livros saborosas. E não podia também faltar programação para os mais pequenos, havendo passatempos e oficinas para eles!

Pois queremos

Uma das vantagens de ter um blogue com os comentários abertos é conhecer, mesmo que não pessoalmente, alguns dos comentadores. Bem sei que também é uma desvantagem porque, quando os blogues dão licença para que os seus leitores abram a boca, às vezes acabam por ser assaltados por comentários terríveis. Porém, neste caso, não acontece; falo-vos de Luís Robalo, que lê o Horas Extraordinárias e só comenta quando tem alguma coisa de jeito para dizer, e que por acaso já conheço pessoalmente, de lançamentos, apresentações ou outras actividades. Mais importante do que isso, é um autor que aprecio no texto memorialista e relativamente curto (penso que é esse o registo que domina melhor) e agora teve uma ideia que me parece boa e portanto publicito: a de criar no Facebook (esse mundo de escritores «anónimos») uma página intitulada Queremos Ler, na qual, ao contrário do que se possa pensar, não se sugerem livros, antes se publicam textos que quem segue a página tem a ambição de partilhar publicamente. Citando o administrador: «Poesia, pequenos contos, crónicas, textos do quotidiano. Pedimos sensibilidade e bom senso. Pedimos interacção, criticas, opiniões, atitudes positivas. Encha de belas palavras esta página que lhe oferecemos em branco.» Como sei que por aqui circulam tantíssimos autores, já têm ali um espaço onde se mostrar e ler o que os outros mostram. Mas... aproveitem-no bem.

Imaginação e memória

Quando fui professora de Português nos longínquos anos oitenta, detectava facilmente os alunos imaginativos pelas suas intervenções e composições e aqueles cujo cérebro era quadrado e não voava; aos mais preguiçosos, para puxarem pela imaginação (sim, pode ser treinada), receitava exercícios quotidianos, como o de, por exemplo, se sentarem numa estação de metro a imaginar os motivos da viagem de todos os que saíam de determinada carruagem ou num cinema a atribuir profissões a todos os que estavam sentados na sua fila. Rosa Montero tem um livro delicioso sobre a imaginação (A Louca da Casa) e a imaginação é fundamental para quem escreve, tal como a memória, pois se conseguirmos reter tudo o que vemos e lemos teremos sempre mais material para usar na ficção. Eu não estava era à espera de que imaginação e memória fossem tão necessárias para, de três em três meses, compor a nova password para entrar no computador... Mas a verdade é que a sua construção tem cada vez mais exigências: não pode ter elementos do meu nome nem da minha data de nascimento ou telefone, não pode ter nenhum elemento das anteriores três palavras-passe que eu tenha escolhido, tem de ter obrigatoriamente maiúsculas e minúsculas, elementos numéricos e sinais de pontuação, e um número de caracteres não inferior a sei lá quantos... Enfim, garanto-vos que é mesmo precisa muita imaginação para a inventar, e  o pior, depois, é lembrar aquilo tudo todos os dias quando se chega. Diria que nem para um escritor, que está habituado a memorizar e ter ideias, é tarefa fácil...

Poesia e música

O mais provável é associar-se Foz Côa às gravuras rupestres, mas a verdade é que não é só disso que vivem as gentes dessa terra. Esta semana, no dia 21, começa o Festival de Poesia e Música de Foz Côa, que durará até ao dia 25 e cujo programador é Jorge Maximino. Com a colaboração do município e do agrupamento de escolas (e é bom que as escolas estejam incluídas quando se fala de livros e poesia, claro), o programa inclui uma feira do livro e encontros de vários escritores, entre os quais Nuno Camarneiro e Fernando Pinto do Amaral, com alunos e professores. Haverá também uma sessão de homenagem ao poeta Nuno Júdice, com a presença de Guilherme d'Oliveira Martins, que fará um testemunho, e a participação do já referido Fernando Pinto do Amaral, de María Angéles Pérez López e da poetisa Tatiana Faia, entre outros. Além de leituras a duas vozes e mesas-redondas, assistir-se-á a uma conversa-concerto com Luís Represas, uma oficina sobre escrita de canções, uma panorâmica da poesia portuguesa do século XX na voz do diseur Rui Spranger e muitas outras actividades interessantes para todos os tipos de público. Se nunca viu as famosas gravuras, dê um salto a Foz Côa e aproveite a música da poesia que por lá se ouvirá. Um 2 em 1 que promete.

Excerto da Quinzena

[...] O inspector chegava pelas onze como uma tromba de ar: travava de repente com um estampido horrível, e fazendo perno na roda anterior fazia derrapar a posterior um quarto de círculo. Sem parar, apontava para a cozinha de cabeça baixa, como um touro a atacar; superava os dois degraus com medonhos estremeções; descrevia dois oitos apressados, com o escape todo aberto, em torno dos caldeirões; voava novamente os degraus até lá abaixo, fazia uma continência militar ao público acompanhada de um sorriso radioso, curvava-se sobre o guiador e desaparecia no meio de uma novem de fumo esverdeado.


A brincadeira correu-lhe bem por várias semanas; depois, um dia não se viu motocicleta nem capitão. Este encontrava-se no hospital, com uma perna partida [...]


 


Primo Levi, A Trégua, tradução de José Colaço Barreiros

A quem pertence Borges?

Não é novidade para os leitores de Jorge Luis Borges (o enorme escritor argentino a quem, segundo muitas vezes se diz, não deram o Nobel da Literatura apenas por razões políticas) que ele não teve filhos e se casou já no final da vida com Maria Kodama, a mulher que o acompanhava havia anos, fosse como leitora (assim começou, ao que parece, a sua relação, pois Borges cegara bastante cedo), fosse como uma espécie de secretária (era ela que organizava a sua agenda). Acho que Maria Kodama foi também uma intérprete do mundo para Borges, pois li uma vez que viajou com ele ao Japão e lhe ia relatando tudo o que via; depois disso, ele escreveu um maravilhoso texto sobre esse país, como se facto tivesse podido ver o que cheirara, ouvira e sentira. Mas hoje o que eu queria dizer é que Maria Kodama morreu no final de Março e que ninguém encontra o seu testamento. Deste testamento constariam certamente os nomes das pessoas para quem seriam transmitidos os seus bens, nomeadamente os direitos de autor das obras de Jorge Luis Borges. E, se o documento não for encontrado, a propriedade será transferida para o Estado argentino, o que não é obviamente uma boa notícia. Por isso, tomara que a viúva do escritor tenha realmente feito um testamento a favor de alguém que saiba cuidar deste património tão especial e que apenas esteja a demorar a ser encontrado.

Muito bom... ou talvez não

O jornal Expresso publicou a notícia de que as vendas de livros tinham aumentado significativamente em 2022 por causa dos jovens, sim, aqueles de quem habitualmente dizemos que não lêem. Pelos vistos, o fenómeno chamado BookTok, que é basicamente composto por uma espécie de comunidade de influencers que incitam os seus milhares de seguidores à leitura de livros numa plataforma chamada TikTok, frequentada maioritariamente por gente nova, fez aumentar as vendas e até obrigar à reedição e publicação de uns quantos títulos. Assim às primeiras, são, claro, boas notícias, se pensarmos que as redes sociais (mesmo as dos adultos) raramente têm servido de estímulo à cultura, sendo acima de tudo espaços onde as pessoas opinam sobre tudo, com ou sem conhecimentos, e até destratam, odeiam, criticam e magoam os outros. Porém, quando, todos contentes, vamos espiolhar os livros promovidos pelos tais «BookTokistas», enfim, a qualidade geral não abunda. E, embora uma professora de Português afirme que o importante é que os jovens leiam, não importa o quê, desde que se identifiquem, já eu torço o nariz, pois tenho demasiada experiência para saber que quem se vicia em maus livros quase nunca consegue mudar para os bons... Por isso, serão evidentemente boas notícias em termos de receita para as editoras, mas espero sinceramente que, com esse aumento inesperado dos lucros, possamos continuar a fazer os livros que não passam pelo TikTok mas são realmente os que interessam para mudar mentalidades e contribuir para uma boa formação em todos os sentidos.

Em castelhano

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A nossa conselheira cultural em Madrid, Patrícia Severino, faz coisas (já se mexia em Berlim!); e, além de ter criado uma residência para escritores, enviou em 2022 a Lisboa uma série de editores espanhóis que se reuniram com confrades portugueses e receberam algumas propostas de publicação. Foi certamente de um desses encontros que nasceu a ideia de fazer um livro colectivo sobre a nossa capital, intitulado Leer y Ver Lisboa, traduzido por Javier Hernández e publicado por La Umbria y la Solana, editora que já publicou, de resto, vários autores portugueses, como Mário Cláudio. Trata-se de uma antologia que conta com uma incrível panóplia de autores e ilustradores, muitos dos quais brilham actualmente em Portugal: Luísa Costa Gomes, Gonçalo M. Tavares, Ana Margarida de Carvalho, Patrícia Reis, Afonso Cruz, Ricardo Adolfo, David Machado ou Patrícia Portela ombreiam com os artistas plásticos de craveira internacional João Fazenda, André Carrilho, Paulo Galindro, Gonçalo Viana e muitos outros. Rui Cardoso Martins e Patrícia Portela apresentarão amanhã na capital espanhola, em conversa com Alfonso Almada, editor, esta maravilha na Casa da Galiza. Estão previstas outras apresentações ainda durante o mês de Abril.


 


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As censuras

Quem viveu, leu e escreveu antes do 25 de Abril tem obviamente uma noção muito mais real do que foi a censura em tempos de ditadura e, até por isso, é mais reactivo às novas censuras que se têm recentemente estendido ao discurso e às práticas intelectuais sob a capa do politicamente correcto (mas indo muito além dele). Estamos, porém, a chegar a extremos insuportáveis, e é imperioso de uma vez por todas batermos o pé e dizermos que não se podem emendar, alterar, cortar ou apagar textos literários sem autorização dos seus autores ou herdeiros com a fraquíssima desculpa de que este ou aquele podem ofender com uma expressão mais dura ou uma palavra menos fofinha («gordo», por exemplo). Dois livros de um autor meu considerado «muito talentoso» foram recusados pela pessoa que assim o referiu por falarem «demasiado francamente» sobre certos assuntos (ai, a sensibilidade) e por ele não ser trans e ter escolhido incluir uma mulher trans na sua história (e, já agora, num livro galardoado com o Prémio Saramago). Mas já antes me acontecera uma tradutora norte-americana ficar altamente chocada por um texto que lhe dei para traduzir incluir uma passagem em que alguém entrava num pátio onde uma dúzia de miúdos «batiam na boca e gritavam como índios», porque falar assim dos índios era ofensivo para os leitores dos EU. Qualquer dia, as metáforas não se vão poder usar nem vamos poder ver os filmes de John Ford. Qualquer dia, não poderemos ler absolutamente nada e haverá mais gente a ler à procura de termos ofensivos do que a ler por prazer. Há que bater o pé e desfazer os equívocos. Há que olhar para o contexto e a época em que as coisas foram escritas. Um dia destes tiram-nos a Odisseia porque fala de mulheres que desviam homens casados ou têm pretendentes na ausência dos maridos... Ainda bem que aqui onde trabalho os livros dos Cinco e a Agatha Christie vão ficar como sempre foram. Ao menos isso.

Uma jóia rara

Não sei já em que ano, mas não há muito tempo, assisti no CCB a uma bela encenação de Miguel Loureiro do texto que Marguerite Duras escreveu a partir de A Fera na Selva, do romancista Henry James. Estudei Henry James na faculdade (The Turn of the Screw, que cá estava traduzido como Calafrio) e nessa altura, ou pouco depois, li Daisy Miller (e já tinha visto um filme baseado neste livro, com a Cybill Shepherd, mas já nada lembro dele). Não tenho ideia de ter voltado ao autor, e sei lá se voltaria, não fosse ter saído recentemente uma tradução de A Fera na Selva feita pela minha amiga Ana Maria Pereirinha, com quem trabalhei muitos anos em várias editoras. E, de facto, fiquei de alma cheia com a leitura, porque esta novela de Henry James (nascido americano e morto inglês, se não me engano) é uma prenda para qualquer pessoa que goste de um livro em que não exista um grama de gordura; é uma concentração de absoluto génio (em linguagem e assunto) que não é para qualquer escritor (nem qualquer tradutor, mas esta é das boas!); uma jóia que não se pode pode perder e é para ir degustando porque o seu grau de sofisticação e labor estético não se adapta às pressas destes nossos tempos, nos quais muitos não conseguem ler seguidas mais de cinco ou dez linhas sem suspirar de cansaço. Este é um livro para os amantes de um texto difícil, pensante, misterioso, excepcional. Em boa hora regressei ao senhor James. Boa Páscoa!

Poesia Reunida

Já não me recordo se cheguei a bater palmas aqui no blogue, mas, se não o fiz aqui, fi-lo em milhares de sítios, porque fiquei muito contente com a circunstância de o mais recente Prémio Pessoa ter sido atribuído a João Luís Barreto Guimarães. Em primeiro lugar, por ser escritor; em segundo, por ser poeta; em terceiro, por publicar na mesma editora que eu (sem contar com Vasco Graça Moura, acho que somos praticamente os únicos autores que caminhamos juntos desde a velhinha Quetzal na nova Quetzal); e, por último, por ser uma pessoa de quem gosto muito, está dito. Saiu entretanto um livrinho novo com uma capa espectacular (Vermeer é um dos meus favoritos!) deste novíssimo Prémio Pessoa, Aberto Todos os Dias, mas amanhã sairá também a sua Poesia Reunida, o que é uma excelente notícia. São 12 livros num, desde 1989 (tinha o poeta 22 anos) até hoje, de uma poesia que foi obviamente crescendo, mas nunca perdeu o apego delicioso ao quotidiano e até um certo humor muito subtil que é raro nos poetas portugueses que escrevem abaixo do Douro (sim, incluo-me nos deprimidos). Vão ser quase 400 páginas de ler e chorar por mais. E uma capa de sonho, claro. (Vermeer? Confirme!)

Englanados

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A pandemia baralhou-nos a vida, e várias vezes dou por mim a perguntar se uma coisa de que de repente me lembro foi antes ou depois dela; ou então que foi feito de um programa, uma loja, um bar, que antes da pandemia tinham público e de um momento para o outro foram esquecidos... Tenho ideia de que havia na televisão (na pública, parece-me) uma Gala anual dos Prémios da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) atribuídos a criadores de várias modalidades: cinema, televisão, música, teatro e por aí fora; mas um dia destes, espreitando o Facebook, dei-me conta de que um jornalista-editor se alegrava com o facto de um livro seu (A Biblioteca de Estaline) estar na primeira página de todos os suplementos culturais no mesmíssimo dia em que o respectivo tradutor (que também é escritor, Frederico Pedreira) tinha ganho o Prémio Autores (o da SPA) na Categoria de Poesia. Então e a gala na TV? Já não se faz? Fui ao site e descobri que nem se faz a festa de arromba, nem se avisam os editores e os premiados. É que David Machado e Ricardo Ladeira, os meus queridos autores, também tinham sido contemplados com o mesmo galardão na Categoria de Literatura Infanto-Juvenil com o belo, belíssimo, inteligente e de facto para todas as idades, O Meu Cavalo Indomável. Olha, festejámos nós! E não precisámos da gala nem da televisão para nada. Não perca o livro por nada deste mundo.


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O que ando a ler

Acabei ontem a leitura de uma obra bastante breve, com cerca de cem páginas, de um livro de uma autora que comecei a ler, percebo agora, tarde demais. Trata-se de Silvina Ocampo e do seu pequeno e único romance A Promessa (ela é sobretudo contista), que foi começado muitos anos antes da publicação e que foi sendo burilado aos longo dos anos e terminado pouco antes da morte da escritora. É um romance que Bruno Vieira Amaral apreciaria, julgo eu, por ter também uma lista de personagens que podem não se cruzar com mais nenhuma na narrativa, sem que isso afaste o leitor da compreensão do enredo, tal como acontece em As Primeiras Coisas. Mas a graça aqui está em que a evocação destas personagens pela narradora se faz como uma espécie de pedido de socorro, pois ela caiu de um navio acidentalmente e, enquanto nada ou boia no oceano, promete que escreverá sobre todas as pessoas que conheceu se um dia se safar daquela situação; e é assim que começa a rememorar, por exemplo, Irene, Gabriela (ou Gabriel, como lhe chama a mãe), o macho Leandro, por quem todas se apaixonam, as senhoras da sapataria, o Gusano e muitas outras figuras, com ou sem importância na vida da pobre náufraga. Vale muito a pena ler esta senhora, que esteve muitos anos na sombra do marido, Adolfo Bioy Casares, outro escritor argentino de mão cheia que, quando ia de férias, levava a vaca de cujo leite gostava...