Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2024

Palavras racistas

Lisboa é negra há muito tempo, pelo menos desde o século XVI, mas o Norte de Portugal, em comparação, é branquinho como a neve. Não sei se há mais racistas na capital ou nas cidades a norte, mas a língua que falamos é a mesma em todo o País (embora, claro, uma meia dúzia de portugueses se expresse por teimosia em mirandês e haja muitos regionalismos, alguns com um sabor tão doce e vivo que deveriam ser adoptados em toda a parte). Reparou, porém, uma escritora nas Correntes d'Escritas que, de norte a sul, usamos palavras «racistas» há muito tempo; e, para exemplificar, falou de «esclarecer» e «denegrir», associando o que é positivo (tornar claro) aos brancos e o que é negativo (escamotear) aos negros, olhando com atenção para as raízes destas duas palavras (claro/negro). Não sei se a opinião não será um pouco forçada, e a criação dos vocábulos nada tenha que ver com gente, e sim com claridade e escuridão, mas que tem o seu mistério, lá isso tem... E dizer que alguém que fez uma coisa horrível devia «pintar a cara de preto», pensando bem, ainda é mais esquisito.

Política e literatura

É conhecida a relação dos intelectuais com a política. Nas Correntes d'Escritas, este ano os temas das mesas eram quase sempre versos de canções daquelas a que em tempos chamámos «de intervenção», embora Sérgio Godinho (autor de pelo menos uma das canções escolhidas pela organização) não goste do termo. Talvez por isso (e porque este ano se comemora o 50º aniversário do 25 de Abril, houve sempre alguém que fez uma comunicação política, ora lembrando o «antes» da Revolução dos Cravos, ora chamando a atenção para o que aí vem e para a desilusão de quem sonhou, viu acontecer e agora está a assistir a uma espécie de desmontagem do sonho. Gonçalo Tavares falou disto e de uma nova geração que é profundamente racista, evocando e discutindo o termo «democracia». Mas o que mais me afligiu foi uma conversa em privado com um amigo que, por razões de trabalho, circula pelo mundo. Agora a viver na Jordânia, onde trabalham muitíssimos palestinianos que não podem visitar as famílias, ficou horrorizado quando percebeu que, nas imobiliárias, já se estavam a vender lotes de terreno em Gaza, junto ao mar, para construção de condomínios de luxo, contando com o desaparecimento total de palestinianos muito em breve. O imbatível horror. (Dizem-me em Portugal que é fake news a venda de terrenos à beira-mar, e talvez tenham razão, mas os civis mortos em Gaza chegam quase aos 30. 000, pelo que qualquer dia bem pode ser uma notícia verdadeira).

Um romance multipremiado

Imagem

Espero que tenham passado bem esta semana. Hoje, às 18h30, realiza-se a última mesa das Correntes d'Escritas no Instituto Cervantes, em Lisboa. Entre os participantes, estará Pilar Adón, a escritora espanhola do multipremiado De Bestas e Aves, que conta a história de uma pintora que conduz em plena noite sem saber que está prestes a chegar a Betânia – uma espécie de território fora do mundo, habitado por cabras, cães e mulheres que, no entanto, parecem estar à sua espera Ela não contou a ninguém para onde ia, nem levou telemóvel porque não pensava demorar-se. Detém-se ali apenas porque se perdeu e precisa de gasolina para regressar a casa. Desconhece, porém, que, para lá do portão a que bate, as mulheres se vestem e comportam de forma bizarra, que há entre elas uma menina sem pais que não vai à escola, que um estranho aparece de vez em quando a reclamar a casa, que um lago delimita as fronteiras do terreno, sobrevoado por aves de rapina. Não quer estar ali, mas algo lhe diz que aquele pode ser o último lugar da sua vida. Num romance em que, de forma super-inventiva, nunca ninguém responde ao que é perguntado, mas dá uma resposta mesmo assim, o leitor é convidado a descobrir uma escrita «em estado puro», segundo o jornal ABC. O romance foi galardoado em Espanha com o Prémio Nacional de Ficção, o Prémio da Crítica, o Prémio Francisco Umbral/Melhor Livro do Ano e o Prémio Cálamo, na categoria «La outra mirada», tendo ainda sido finalista do Prémio Dulce Chacón de Romance e nomeado para o Prémio Bienal de Romance Mario Vargas Llosa.


De Bestas e Aves_props1-frente.jpg


 

Correntes

Hoje ao fim da tarde lá vou para a Póvoa de Varzim. Mais uma vez irei assistir, participar e apresentar livros como editora neste festival de línguas ibéricas que comemora em 2024 a sua 25ª edição e, ao mesmo tempo, celebra os 50 anos da elevação da Póvoa de Varzim a cidade e os 50 anos da Revolução de Abril. Tanta coisa num só ano é de loucos! A conferência de abertura (que já foi feita por figuras como Sobrinho Simões, Eduardo Lourenço, Marcelo Rebelo de Sousa ou Tolentino Mendonça, por exemplo) será de José Gil e versa sobre Literatura e Filosofia. As idas às escolas do concelho continuarão e haverá desta vez umas Correntes Itinerantes, em que os mais velhos vão explicar o 25 de Abril aos mais novos para eles saberem como era a vida antes de 1974. Nas mesas, estarão não apenas escritores, mas também gente de outros ramos, como é o caso de Pedro Abrunhosa ou Amélia Muge. Paralelamente, haverá exposições, formação para professores, teatro, concertos e muito mais. Contarei tudo no regresso, juro. Agora, só voltarei ao blogue na próxima segunda. O programa vai aqui:


https://www.cm-pvarzim.pt/territorio/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2024/programa/


 


 

Machado & Fazenda na Lello

Há não muitos dias falei-vos da excelência dos livros de David Machado para crianças e jovens (e adultos, porque há muitíssimas pessoas de todas as idades que adoram lê-los). Um desses livros, o genial Esta História (sobre o qual escrevi aqui pouco depois de sair), foi publicado em Novembro último e tem ilustrações do premiadíssimo João Fazenda, que é um dos enormes ilustradores com que Portugal pode contar. Estes dois autores vão estar este mês a falar do seu trabalho e dos livros que fizeram juntos e separados na Livraria Lello, no Porto. A sessão já tinha estado marcada em Dezembro, mas acabou por não se poder realizar por causa das gripes e do Natal, e por isso vai finalmente ocorrer no dia 24 de Fevereiro, pelas 21h00. Sei que ainda falta bastante tempo, mas, como a inscrição é obrigatória e a sala tem lugares contados, sugiro que marquem presença.

Excessos

Num fim-de-semana em que estava a escrever um texto para as Correntes d'Escritas e não tinha grande disponibilidade para livros extensos, comecei um livrinho de Stefan Zweig, Foi Ele?, com tradução e posfácio de Francisco de Nolasco Santos. Zweig é quase sempre uma garantia de tempo bem passado, e esta novela, que foi escrita ainda antes de o autor ter ido viver para o Brasil mas só foi publicada já ele lá estava (de resto, estreou-se com uma edição em português), é um livro algo atípico na obra do escritor. Partindo da relação entre dois casais, um mais velho e o outro mais jovem, vizinhos recentes numa propriedade junto de Bath, a mulher mais velha decide oferecer ao casal mais jovem um cachorro para que o excessivamente enérgico Limpley gaste energias e deixe mais sossegada a sua Betsy. A paixão-devoção do homem pelo cão é, porém, de tal forma que passa a ser o cão a mandar no homem e nunca mais se largam. Mas eis que Betsy de repente sabe que vai ser mãe e o cachorro passa para segundo plano com conseguências bastante sérias. Vale a pena ler, ainda que a tradução às vezes pareça esquisita em certas passagens, mas o posfácio é bastante interessante, sobretudo nas comparações que faz com a aceitação e o entusiasmo iniciais com o nacional-socialismo. 

Os Lusíadas

Tive duas edições escolares de Os Lusíadas: uma de capa encarnada, que usava no colégio e herdara dos meus irmãos (já muito coçada e com a lombada descolada) e outra de capa verde-clara que alguém me recomendou: anotada, explicando as influências, as referências, a mitologia, as alusões, etc. A primeiríssima edição de Os Lusíadas é valiosa, claro, e houve um exemplar dessa edição recentemente comprado pela Livraria Lello. Mas há outros exemplares da primeira edição, que estão em bibliotecas, diferentes desse, apesar de todos referirem a mesma data e  mesma casa impressora; mas, nuns exemplares, a gravura que ornamenta o frontispício tem um pelicano com a cabeça virada para a esquerda, e noutros exemplares virada para a direita, além de que, entre as diferenças, certas capitulares não são iguais e o papel é diferente em dois exemplares supostamente da mesma edição. Porém, como nunca podemos ver à lupa dois exemplares ao lado um do outro, a dúvida prolongou-se e só agora, com a ajuda da investigação realizada por Rita Marnoto e publicada na sua recente Edição Crítica, com mais de mil páginas, sabemos que houve contrafacção e os exemplares são efectivamente de duas edições impressas em datas distintas. E agora? Quem comprou a primeira edição comprou mesmo a primeira edição?

O poder da invenção

Imagem

Os autores de livros infantis raramente resistem à tentação da pedagogia (incluo-me neste grupo, atenção) em detrimento de serem divertidos e conquistarem assim as crianças para a leitura. Graças a Deus, publico um autor (David Machado) que tem a perfeita noção de que o mais importante é ver crianças felizes com livros na mão, e por isso os seus enredos são sempre deliciosos e um pouco malucos, incluindo para nós, adultos, que adoramos lê-los. Neste A Noite dos Animais Inventados, para enfrentar o medo do escuro, Jonas decidiu inventar uma galinha. Por causa disso, os seus três irmãos acordaram e, entusiasmados, juntaram-se a ele inventando mais, maiores e melhores animais inventados, enchendo o quarto de animação e barafunda. Nem pode imaginar o jardim zoológico em que se transformou o quarto dos irmãos nessa noite. Mas... e os adultos, não ouviram nada? A Noite dos Animais Inventados foi, em 2006, distinguido com o Prémio Branquinho da Fonseca e adaptado ao teatro, faz parte do Plano Nacional de Leitura e está publicado em várias línguas. Ofereça-o às crianças, pois é um hino à invenção.


9789722132503_a_noite_dos_animais_inventados.jpg

Amor e comida

Imagem

É na Lisboa do século XVIII, desmedida e faustosa, a fervilhar de vida e infestada de ratoneiros, tabernas, comédias e casas de pasto, que perambulam as personagens Os Dias de Saturno, um romance cheio de reviravoltas: entre elas, o poeta satírico Tomás Pinto Brandão, «alfaiate dos costumes», ou o padre Rafael Bluteau, autor do Vocabulário Português e Latino; destacam-se, no entanto, o médico da corte João Curvo Semedo e o mestre cozinheiro Domingos Rodrigues, ambos secretos alquimistas e bons garfos. É certo que as suas experiências arriscadas nem sempre resultam como esperado; e agora, que o cozinheiro agoniza no leito, o seu filho adoptivo, portador de uma estranha marca de nascença, sai à procura de um velho médico e, de caminho, tropeça na rapariga dos seus sonhos... e em sarilhos. Reflexão sobre o que a vida nos reserva de inescapável, o romance Os Dias de Saturno, que Paulo Moreiras apresenta agora numa edição revista, trata a alquimia das emoções sem nunca esquecer os prazeres da mesa. Galardoado com o Prémio Gourmand na categoria Melhor Livro de História Culinária no ano da sua publicação original, oferece-nos uma leitura realmente deliciosa e intemporal. Não perca!


Capa.png

Excerto da Quinzena

Tudo isso iria mudar. Já estava a mudar. Afinal de contas, aquele poderia ser o seu lugar. Por vezes, lá acontece encontrarmos o nosso espaço próprio, o predestinado a cada pessoa. O cantinho de terra, barro e árvores onde nos podemos deixar estar. De uma janela a outra. Até a cozinha, as lareiras. Tomando notas a lápis. Saindo para o alpendre para então se fixar na extensão de terreno que a rodeava, o passar do tempo e as suas sombras. Repetindo para si mesma: Sou compassiva. Sou universal. Sou absoluta. Uma reiteração associada ao rito. A um cerimonial em que se repetia a mesma fórmula como se se tratasse de um hino ou de um poema. Sem parar para pensar no seu significado. Sem refletir sobre a relação que pudesse existir entre as palavras. Sem esforço de memória.


Assim se comportava uma das mulheres de Betânia. Aquela a quem chamavam Coro.


 


Pilar Adón, De Bestas e Aves, tradução de Rui Elias

Não ensinar

Li recentemente num jornal um interessante artigo sobre o facto de as teorias de Darwin andarem arredadas dos programas de ensino na disciplina de Biologia, não só cá em Portugal, mas em muitíssimos países do mundo. Isto é tão grave que, por exemplo, grande parte dos alunos pensa que a selecção natural e a adaptação às condições naturais é uma coisa que parou no tempo de Darwin, não entendendo que, por exemplo, isso tem que ver com a extinção de algumas espécies nos dias de hoje ou a adaptação de muitos vírus aos antibióticos (e daí ser tão difícil erradicar a malária), causando danos tremendos a muitos habitantes do planeta. Mas há mais: tal como quando eu era miúda não se falava do Big Bang porque os programas do Regime veiculavam a criação do mundo por Deus e era pecado dizer que o homem descendia do macaco (no meu catecismo de capa azul, Adão e Eva eram todos perfeitinhos e lindos de morrer), também hoje algumas teorias darwinísticas ofendem, pelos vistos, alunos que professam determinadas religiões ou têm crenças demasiado fechadas, pelo que, para não se ofender ninguém, o melhor parece ser escamotear a informação. Que é uma grande tristeza, é.

Os concursos

Embora ainda sem computadores, e quase sempre com perguntas directas, e não com a hipótese de escolha múltipla, também havia concursos de cultura geral na televisão quando eu era nova. Só que, nessa altura, não me parece que o prémio fosse nada de especial e, como tal, eram apenas as pessoas que tinham cultura que concorriam, porque as outras preferiam não passar vergonhas, nem acertar ao calhas. Hoje, como se promete um prémio chorudo e as pessoas já não se importam da triste figura pública que fazem se levarem o dinheirinho para casa, toda a gente que sabe ou não sabe participa. E, como o Facebook não se cansa de mostrar, os dislates são realmente em grande número;  mas, como são dadas as hipóteses e uma delas é a resposta certa, também é possível alguém ter a sorte de ganhar sem saber absolutamente nada. Em todo o caso, isso não aconteceu a um concorrente espanhol a quem perguntaram qual era a escritora espanhola que tinha sido recentemente indicada ao Prémio Nobel da Literatura. O vídeo, como agora se diz, tornou-se viral nas redes sociais: depois de pensar muito e perante a insistência do apresentador para que respondesse depressa pois o tempo estava a acabar, o concorrente, muito nervoso, disse: «Sara Mago.» A viúva do nosso Nobel, que é espanhola, não deve ter gostado.

Casar de preto?

A pergunta do título faz sentido porque, na capa deste pequeno livro de ficção chamado O Vestido de Noiva, de Filipa Leal, na realidade o vestido é preto... Hum, que trama nos espera então nestas páginas? Pois bem, sem querer ser desmancha-prazeres, alguém leva intempestivamente um vestido de noiva a uma lavandaria ao fim de dez anos de casamento para pedir que o tinjam de preto. Imaginam porquê? Não? Pois eu não posso contar, evidentemente, sob o risco de vos poupar a leitura (e o importante é lerem!); mas o mais inesperado na circunstância nem é esse pedido, mas sim o facto de a mulher que traz o vestido vir completamente nua... Assim às primeiras, pode parecer nonsense, mas não é, e há que perceber que existem efectivamente razões para mudar a cor do vestido e uma razão para a nudez, melhor do que qualquer outra; para isso, porém, é preciso mergulhar o nariz nestas páginas (poucas, e por isso boas para uma viagem de comboio ou duas noites de uma semana aborrecida) e descobrir que, ao contrário do que muitos podiam esperar, esta ficção não é nada poética, embora a sua autora seja uma poetisa conhecida, tendo afinal o texto mais afinidades com o  seu trabalho de guionista  (algumas das páginas até contêm partes de parágrafos que podiam ser notas para a realização de um sketch). Com algumas frases atravessando todo o texto («se lá estivéssemos» ou «como lá não estávamos») em que o «nós» que conta a história parece saber tudo apesar de não ter assistido a nada (o que é bem curioso como técnica narrativa), esta é uma história com laivos de comédia, mas não só. A colecção, de contos longos num formato bem simpático, tem (pelo menos no caso dos autores portugueses) como organizadora a escritora Ana Margarida de Carvalho.

Clube juvenil

Imagem

Alguns dos leitores deste blogue lembram-se seguramente do Clube Juvenil da Verbo, ao qual estava associado o envio de uma revista trimestralmente e que tinha sessões em teatros por esse país fora (cheguei a participar numa delas em Setúbal, com a colaboração do casal Medeiros da Culsete). Mas a Verbo já desapareceu na voragem daquilo a que se chamou concentração editorial (foi comprada para, afinal, mudar de nome e falir pouco depois) e os jovens ficaram um pouco abandonados. Agora, porém, para adolescentes entre os 12 e os 14 anos, vai haver um clube de leitura presencial na renovada Livraria Buchholz, em Lisboa, chamado A Culpa é dos Livros e animado por Carolina Vaz Pinto, leitora voraz desde pequena e assistente editorial na Dom Quixote. Começa já dia 10 de Fevereiro, entre as 11h00 e as 12h30 e, se tem filhos ou sobrinhos destas idades, pode inscrevê-los no link que divulgo abaixo. Nestas sessões, vão ser dadas sugestões de leitura e os jovens escolherão o que querem ler; sim, nada será obrigatório para não associar a leitura às obras que a escola manda ler. Como diz a orientadora: "Neste clube, os jovens poderão partilhar histórias, ideias e emoções: ao mostrar que ler é divertido, que a conversa sobre os livros não se baseia na gramática e na parte literária apenas, mas também na parte humana e psicológica. Quero que seja um espaço seguro para a partilha." Se conhecem leitores jovens que possam interessar-se, por favor, partilhem.


https://bit.ly/aculpaedoslivros


imagens_buchholz.jpg


 

O senhor Luís Vaz de Camões

Este ano (além dos 50 anos do 25 de Abril!), comemoramos o quinto centenário do nascimento de Camões, que é o nosso poeta maior, o herói que salvou a obra-prima das águas, escreveu uma epopeia inesquecível sobre a viagem do Gama, mas foi também um mulherengo incorrigível e um homem que praticou alguns crimes por que esteve preso. Vasco Graça Moura, que nunca gostou muito de Pessoa e da importância que lhe era dada lá fora, sempre defendeu Luís de Camões com unhas e dentes como o poeta-mor da pátria. E, realmente, o seu génio na construção de uma obra como Os Lusíadas é absolutamente insuperável, a menos que tenhamos do outro lado um Dante ou um Shakespeare. A biografia do mestre, assinada por Isabel Rio Novo, está anunciada e sairá ainda neste ano do quinto centenário, prometendo novidades. Eu, que adoro a lírica camoniana, homenageei humildemente Camões com um fado que Carminho gravou há muitos anos (mas que quase nunca se ouve, nem no rádio nem ao vivo, para grande pena minha) que pretendia ser uma «alusão» a «Amor é fogo que arde sem se ver», mas, claro, sem a genialidade do senhor Luís Vaz. Espero, de qualquer maneira, que gostem.


 


Vem essa coisa qualquer


Como seta despedida


Direita ao meu coração.


E eu choro e rio sem querer,


Nunca de mim tão perdida,


Pobre de mim, tão sem chão.


 


Que luz é essa que cega,


Que desatina, atordoa,


Que vem de dentro e me invade?


Que me transtorna se chega,


Mas quando parte magoa


Num alívio que é saudade.


 


Vem essa coisa tão estranha


Dar-me um laço que desprende


Tanta doçura que amarga.


E eu pequenina e tamanha


Num corpo que não se rende


A uma estreiteza tão larga.


 


Que graça é essa tão séria,


Que corrói até ao osso


E me arde de tão fria?


Dá-me tudo, até miséria,


Vem, meu amor, que eu não posso


Viver assim mais um dia.


 

O que ando a ler

Há alguns dias em que o céu atinge uma tonalidade rósea, e é dessa cor a capa do novo romance de Valter Hugo Mãe, intitulado Deus na Escuridão, que é o livro que tenho em mãos no momento em que escrevo este post. Contaram-me que, na apresentação do livro no Porto, com a sala cheia, o professor Carlos Reis terá dito que o livro inaugurava uma nova fase na obra do autor; mas, longe de querer perceber mais da coisa do que um académico especializado em literatura portuguesa, e apesar de encontrar no novo romance uma língua diferente (que é um português com um sotaque brasileiro e frequentemente sem pronomes reflexivos nos verbos), a verdade é que encontro neste livro amplas semelhanças com o primeiro romance que Valter Hugo Mãe escreveu (O Nosso Reino), talvez na ligação do protagonista à santidade ou na sua devoção sem limites a um membro da família (aqui o irmão, supostamente «defeituoso»; mas estrago o prazer do leitor se disser porquê; no outro livro a mãe) e até numa certa bruteza do mundo à sua volta, neste caso o do meio muito pobre e atrasado de uma aldeia madeirense. Também o casarão da baronesa (a excepção naquele meio) me levou a pensar noutros livros do autor em que os opostos marcam a história (O Apocalipse dos Trabalhadores, por exemplo), mas aqui a saúde mental está sempre em causa, sejam as personagens privilegiadas ou não. É, como quase sempre, um livro duro (a escuridão do título anuncia-o), mas ao mesmo tempo comovente na solidão de quem ama incondicionalmente alguém. Vamos ver como acaba.