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A mostrar mensagens de abril, 2026

Laborinho Lúcio

No dia 25 de Abril, confesso, não desci a Avenida, como é costume. Mas tinha uma boa razão, e tive muitos cravos vermelhos à minha volta. Fui à Nazaré, cidade natal de Álvaro Laborinho Lúcio, prestar a minha humilde homenagem ao homem, ao político, ao magistrado, ao escritor, que nos deixou no ano passado, estava eu em Penafiel, na Escritaria. Se lerem o seu livro A Vida na Selva, uma espécie de colectânea de textos que é também uma forma de contar a sua vida e os seus vários «nascimentos», perceberão que o desejo de escrever histórias lhe chegou logo na infância (o título do livro é, de resto, o de uma redacção que redigiu em miúdo); e tinha de certeza muito jeito já então, pois a professora desconfiou de que tinha sido ajudado pelo pai... Esta professora afastou-o muitos anos da ficção, infelizmente, mas enquanto ele não regressou, tivemos a sua intervenção cívica, empática, intelectual e justa (porque a Justiça dele era a dos que precisavam, e não esta anedota a que hoje assistimos com o segredo de justiça a ser profanado a toda a hora). Tive muito orgulho em participar nesta homenagem com a sua editora, o seu conterrâneo Jaime Rocha, uma magistrada que foi sua aluna (do primeiro curso que as mulheres puderam frequentar no Centro de Estudos Judiciários) e a querida poeta e actriz Raquel Patricarca, que tive a sorte de ver contracenar com Laborinho Lúcio durante as Correntes d'Escritas. Lembrem Laborinho Lúcio e leiam-no. Eu aprendi muito com A Vida na Selva.

5L

De 5 a 10 de Maio vai acontecer em Lisboa mais uma edição do festival Literário 5L, desta vez com curadoria do escritor, crítico e comentador Pedro Mexia. As actividades decorrerão sobretudo na Biblioteca do Palácio Galveias, ao Campo Pequeno, e espera-se que o tempo ajude, pois o melhor de tudo é o grande relvado nas traseiras no qual costuma haver apresentações de livros. Além delas, estão previstas conversas, concertos, filmes e exposições, com programação também para as crianças, a família e as escolas, promovendo o encontro entre criadores e público de todas as idades. Virá o magnífico Geoff Dyer (já falei dos seus livros aqui no blogue) e será feita, muito justamente, uma homenagem ao português António Lobo Antunes, desaparecido recentemente, nas vozes de Maria Rueff e Rui Cardoso Martins. A programação vai no link abaixo. Apareçam.


Lisboa 5L – Agenda Digital 5L

Baloiçar no real e na ficção

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Hoje saio de Lisboa para me deslocar à Figueira da Foz, onde decorre ao fim da tarde o lançamento do novo romance de António Tavares, autor de seis livros, um dos quais ganhou o Prémio LeYa; esse decorria durante o Estado Novo numa aldeia com um grupo de personagens inesquecível. O novo chama-se A Arte Pendular do Baloiço e a história salta alguns anos e já se passa em plena democracia, na época em que uma avioneta levando o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro cai em Camarate, nunca se tirando a limpo se se tratou de acidente ou atentado. Mas, além da História com H, a história diz respeito a um rapaz que sabe que a namorada morreu na aldeia pouco depois do parto e desconfia de que a criança, que suspeita ser sua filha, foi parar ao colo do mecânico que fez a vistoria da tal avioneta que caiu. Dois enredos bem cruzados de que mais logo falará no Auditório da Biblioteca Municipal da Figueira da Foz a professora Graça Capinha. Vamos ouvi-la?


convite_a_arte_pendular_do_baloico2 corrigido.png

Livros e política

Conheci a editora francesa Grasset et Fasquelle ainda com Ariane Fasquelle ao leme, substituindo o pai, Jean-Claude Fasquelle, seu fundador. Após a morte de Ariane, ou ainda antes (já não me recordo), a editora foi comprada pelo grupo Hachette, um autêntico gigante editorial. O editor da Grasset Olivier Nora, respeitadíssimo no meio dos livros e amado pelos autores, continuou a sua linha editorial que, pelos vistos, o dono ou presidente da Hachette, que é de extrema-direita, achou demasiado esquerdista. Resultado: foi despedido ao fim de vinte e seis anos a fazer a editora ao lado dos Fasquelle e depois disso. A escandaleira rebentou em França, claro; e agora mais de uma centena de autores (a Grasset é uma grande editora) juntou-se para rescindir os contratos, pois não se identifica com a política da Hachette nem quer ser conotada com a Extrema-Direita. Pois é, a política está a chegar aos livros e parece que é justamente em França, um país que nos habituámos a ver como livre e aberto, que a censura está a aparecer paulatinamente. Um susto. Do grupo Hachette fazem parte muitas outras chancelas (Lattès, Fayard, Larousse...) nas quais é provável que aconteça o mesmo. Se os autores se conseguirem libertar do jugo da Hachette, esta vai perder mesmo muito dinheiro.

Livros e política

Conheci a editora francesa Grasset et Fasquelle ainda com Ariane Fasquelle ao leme, substituindo o pai, Jean-Claude Fasquelle, seu fundador. Após a morte de Ariane, ou ainda antes (já não me recordo), a editora foi comprada pelo grupo Hachette, um autêntico gigante editorial. O editor da Grasset Olivier Nora, respeitadíssimo no meio dos livros e amado pelos autores, continuou a sua linha editorial que, pelos vistos, o dono ou presidente da Hachette, que é de extrema-direita, achou demasiado esquerdista. Resultado: foi despedido ao fim de vinte e seis anos a fazer a editora ao lado dos Fasquelle e depois disso. A escandaleira rebentou em França, claro; e agora mais de uma centena de autores (a Grasset é uma grande editora) juntou-se para rescindir os contratos, pois não se identifica com a política da Hachette nem quer ser conotada com a Extrema-Direita. Pois é, a política está a chegar aos livros e parece que é justamente em França, um país que nos habituámos a ver como livre e aberto, que a censura está a aparecer paulatinamente. Um susto. Do grupo Hachette fazem parte muitas outras chancelas (Lattès, Fayard, Larousse...) nas quais é provável que aconteça o mesmo. Se os autores se conseguirem libertar do jugo da Hachette, esta vai perder mesmo muito dinheiro.

Excerto da Quinzena

Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.


Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.


 


A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares

Excerto da Quinzena

Numa tarde de Junho, sol aberto, o Armando recebeu um recado de um conhecido para se encontrar com dois indivíduos que queriam falar com ele. Sobre o assunto da conversa, o outro apenas dizia que era do interesse dele e que seria melhor comparecer. Era um sábado e ficou aborrecido por não poder passar a tarde com a filha. Dir-se-ia que o Armando estava na fase que, no baloiço, corresponde ao impulso.


Perguntava-se o que quereriam dele; provavelmente, falar do desastre. Deviam ser jornalistas ou engenheiros disto e daquilo que andavam a tentar descobrir agulha em palheiro para exolicar a queda do Cessna. O Armando suspeitava sempre destes tipos, prontos a sacrificar qualquer um, para ficarem bem vistos nos seus cargos. Uma espécie de abutres em voo, planando à espera de que a vítima sucumba para descerem à terra. Foi com este sentido que o Armando me perguntou se eu não queria estar nas imediações. Respondi que sim.


 


A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares

Dia do Livro

Hoje é Dia Mundial do Livro e há que celebrar... lendo, pois claro, e comprando livros. A data foi escolhida por ser simultaneamente o aniversário da morte de Shakespeare e Cervantes, dois dos maiores e mais inventivos escritores de todos os tempos. Em Espanha, especialmente em Barcelona, esta data, conhecida por Sant Jordi (dia de S. Jorge), é uma verdadeira loucura, com as livrarias cheias de gente, bancas de autógrafos por todo o lado, as Ramblas cheias de barraquinhas, flores oferecidas a quem comprar livros. É que, na Catalunha, 23 de Abril é também Dia dos Namorados, e faz parte da tradição oferecer-se um livro e uma rosa a quem se ama. Sei que muitos autores estrangeiros vão de propósito a Barcelona para sessões de autógrafos, pois costumam assinar muitos livros andando de banca em banca. Quem me dera que cá acontecesse o mesmo. Não é que não haja também bastantes actividades neste dia na nossa terrinha, mas não tem mesmo nada de comparável. Temos de fazer por isso, e sermos nós a festejar pessoalmente o Dia do Livro. Lendo um livro novinho em folha é uma boa maneira.


 

Dia do Livro

Hoje é Dia Mundial do Livro e há que celebrar... lendo, pois claro, e comprando livros. A data foi escolhida por ser simultaneamente o aniversário da morte de Shakespeare e Cervantes, dois dos maiores e mais inventivos escritores de todos os tempos. Em Espanha, especialmente em Barcelona, esta data, conhecida por Sant Jordi (dia de S. Jorge), é uma verdadeira loucura, com as livrarias cheias de gente, bancas de autógrafos por todo o lado, as Ramblas cheias de barraquinhas, flores oferecidas a quem comprar livros. É que, na Catalunha, 23 de Abril é também Dia dos Namorados, e faz parte da tradição oferecer-se um livro e uma rosa a quem se ama. Sei que muitos autores estrangeiros vão de propósito a Barcelona para sessões de autógrafos, pois costumam assinar muitos livros andando de banca em banca. Quem me dera que cá acontecesse o mesmo. Não é que não haja também bastantes actividades neste dia na nossa terrinha, mas não tem mesmo nada de comparável. Temos de fazer por isso, e sermos nós a festejar pessoalmente o Dia do Livro. Lendo um livro novinho em folha é uma boa maneira.


 

Palavrinhas

Uma das mais fantásticas recompensas da leitura é, além da beleza que nos pode ser mostrada numa simples passagem, o que pode ensinar-nos um livro. Um dia destes, estava a ler o original de uma autora minha cujo cenário é a bela Itália, quando descobri que o verbo «carregar» (que associo imediatamente a «carga») tem a mesma raiz etimológica de «caricatura», palavra muito mais próxima de «caricare», que é a tradução italiana de «carregar». O «carregador» é, em italiano «caricatore» e foi por aí que a minha autora descobriu a etimologia. Este verbo português «carregar» tem, de facto, um número incrível de sinónimos, como «transportar», «levar», «encher», «exagerar», «fazer pesar», «insistir», «pôr munições numa arma» ou até «sublinhar», que é o que hoje me interessa, porque na «caricatura» o que fazemos é realmente sublinhar os traços mais característicos de alguém, e é por isso que as duas palavras (carregar e caricatura) estão ligadas. É também do verbo «carregar» que vem o verbo «encarregar», e por isso uma pessoa é «encarregada» de fazer alguma coisa (por favor, não escrevam encarregue, que é um erro feio e não existe!) tal como alguém é «carregado» em ombros. Palavrinhas.

Palavrinhas

Uma das mais fantásticas recompensas da leitura é, além da beleza que nos pode ser mostrada numa simples passagem, o que pode ensinar-nos um livro. Um dia destes, estava a ler o original de uma autora minha cujo cenário é a bela Itália, quando descobri que o verbo «carregar» (que associo imediatamente a «carga») tem a mesma raiz etimológica de «caricatura», palavra muito mais próxima de «caricare», que é a tradução italiana de «carregar». O «carregador» é, em italiano «caricatore» e foi por aí que a minha autora descobriu a etimologia. Este verbo português «carregar» tem, de facto, um número incrível de sinónimos, como «transportar», «levar», «encher», «exagerar», «fazer pesar», «insistir», «pôr munições numa arma» ou até «sublinhar», que é o que hoje me interessa, porque na «caricatura» o que fazemos é realmente sublinhar os traços mais característicos de alguém, e é por isso que as duas palavras (carregar e caricatura) estão ligadas. É também do verbo «carregar» que vem o verbo «encarregar», e por isso uma pessoa é «encarregada» de fazer alguma coisa (por favor, não escrevam encarregue, que é um erro feio e não existe!) tal como alguém é «carregado» em ombros. Palavrinhas.

A culpa morre solteira

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No final de 1980, em vésperas de eleições presidenciais, uma avioneta cai em Camarate logo após levantar voo. Nela seguiam, entre outros, o chefe do governo de Portugal e o seu ministro da Defesa, que morrem carbonizados. Com dez comissões parlamentares de inquérito, ainda hoje, volvidas mais de quatro décadas, não se sabe se foi acidente ou atentado, e ninguém foi a julgamento. Na mesma altura, um grupo de revolucionários radicais cria uma organização terrorista conhecida por FP-25, cuja missão é matar os «inimigos do povo». Setenta e três réus são julgados, mas apenas uns trinta condenados e – entre amnistias e prescrições – poucos cumprem prisão efectiva. Entretanto, numa aldeia às portas de Lisboa onde não se deixa que nasça nem mais uma criança, uma rapariga morrerá misteriosamente pouco depois de dar à luz. A recém-nascida acabará ao colo do mecânico da avioneta acidentada; e o seu pai biológico – amigo do polícia que investiga os casos descritos – procurará durante muitos anos essa filha que passará boa parte da infância em cima de um baloiço. Estas são as pontas que nunca se atam verdadeiramente em A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares: um romance absolutamente fascinante, no qual se afirma, não sem alguma razão, que em Portugal nunca há culpados. Sai hoje.


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A culpa morre solteira

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No final de 1980, em vésperas de eleições presidenciais, uma avioneta cai em Camarate logo após levantar voo. Nela seguiam, entre outros, o chefe do governo de Portugal e o seu ministro da Defesa, que morrem carbonizados. Com dez comissões parlamentares de inquérito, ainda hoje, volvidas mais de quatro décadas, não se sabe se foi acidente ou atentado, e ninguém foi a julgamento. Na mesma altura, um grupo de revolucionários radicais cria uma organização terrorista conhecida por FP-25, cuja missão é matar os «inimigos do povo». Setenta e três réus são julgados, mas apenas uns trinta condenados e – entre amnistias e prescrições – poucos cumprem prisão efectiva. Entretanto, numa aldeia às portas de Lisboa onde não se deixa que nasça nem mais uma criança, uma rapariga morrerá misteriosamente pouco depois de dar à luz. A recém-nascida acabará ao colo do mecânico da avioneta acidentada; e o seu pai biológico – amigo do polícia que investiga os casos descritos – procurará durante muitos anos essa filha que passará boa parte da infância em cima de um baloiço. Estas são as pontas que nunca se atam verdadeiramente em A Arte Pendular do Baloiço, de António Tavares: um romance absolutamente fascinante, no qual se afirma, não sem alguma razão, que em Portugal nunca há culpados. Sai hoje.


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Para a infância

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Nasceu no inverno de 1970. Começou a sua carreira literária em 1993 com um livro de poesia e, no ano seguinte, publicou a sua primeira ficção. Após ter-se tornado mãe em agosto de 2000, num dia de chuva intensa, desenvolveu um profundo interesse por livros infantis, o que a motivou a escrever uma história infantil para as crianças que têm medo da trovoada e cuja capa aqui vos deixamos. Chama-se Han Kang, é autora de vários romances para adultos, dos quais estão publicados em Portugal A Vegetariana, Atos Humanos, O Livro Branco, Lições de Grego e Despedidas Impossíveis, estando previsto sair em breve Tinta e Sangue. Venceu os prémios literários Yi Sang, Manhae, Hwang Sun-won, International Booker, Médicis e, em 2024, tornou-se a primeira autora sul-coreana a receber o Prémio Nobel de Literatura. Boa semana.


 


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Para a infância

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Nasceu no inverno de 1970. Começou a sua carreira literária em 1993 com um livro de poesia e, no ano seguinte, publicou a sua primeira ficção. Após ter-se tornado mãe em agosto de 2000, num dia de chuva intensa, desenvolveu um profundo interesse por livros infantis, o que a motivou a escrever uma história infantil para as crianças que têm medo da trovoada e cuja capa aqui vos deixamos. Chama-se Han Kang, é autora de vários romances para adultos, dos quais estão publicados em Portugal A Vegetariana, Atos Humanos, O Livro Branco, Lições de Grego e Despedidas Impossíveis, estando previsto sair em breve Tinta e Sangue. Venceu os prémios literários Yi Sang, Manhae, Hwang Sun-won, International Booker, Médicis e, em 2024, tornou-se a primeira autora sul-coreana a receber o Prémio Nobel de Literatura. Boa semana.


 


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Poesia portuguesa no Luxemburgo

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Esta semana encho os Extraordinários de poesia para ver se se habituam. A Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português Camões no Luxemburgo participam, como sempre, na Primavera dos Poetas no Luxemburgo, que decorrerá entre hoje e domingo e desta vez tem o tema «A Liberdade. Força viva, desdobrada». Fui no ano passado e gostei muito, mas este ano estou muito feliz porque irá José Carlos Barros, de quem publiquei uma colectânea no ano passado intitulada Taludes Instáveis e vários romances (um dos quais ganhou o Prémio LeYa). Ele participará na Grande Noite de Poesia, no Cercle Cité, amanhã às 19h, e depois, no domingo às 11h00, na Manhã Poética, na Galeria Simoncini do hotel com o mesmo nome (os quartos são minúsculos mas o sítio é óptimo e muito confortável). Geralmente, fazem-se traduções para francês dos poemas lidos, para o público poder acompanhar melhor, mas as leituras são sempre feitas nas línguas dos poetas. Boa viagem, José Carlos!


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Poesia portuguesa no Luxemburgo

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Esta semana encho os Extraordinários de poesia para ver se se habituam. A Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português Camões no Luxemburgo participam, como sempre, na Primavera dos Poetas no Luxemburgo, que decorrerá entre hoje e domingo e desta vez tem o tema «A Liberdade. Força viva, desdobrada». Fui no ano passado e gostei muito, mas este ano estou muito feliz porque irá José Carlos Barros, de quem publiquei uma colectânea no ano passado intitulada Taludes Instáveis e vários romances (um dos quais ganhou o Prémio LeYa). Ele participará na Grande Noite de Poesia, no Cercle Cité, amanhã às 19h, e depois, no domingo às 11h00, na Manhã Poética, na Galeria Simoncini do hotel com o mesmo nome (os quartos são minúsculos mas o sítio é óptimo e muito confortável). Geralmente, fazem-se traduções para francês dos poemas lidos, para o público poder acompanhar melhor, mas as leituras são sempre feitas nas línguas dos poetas. Boa viagem, José Carlos!


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Sobre a mesa muito se diz

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Esta semana começou bem para Paulo Moreiras, autor de romances, e agora também de um belíssimo livro de curiosidades gastronómicas (e não só), intitulado Do Palito à Perdiz sobre a Mesa muito Se Diz. O enorme Fernando Alves, que em boa hora regressou à TSF, dedicou-lhe uma das suas maravilhosas crónicas, a de segunda-feira passada, que pode, de resto, escutar online na página da estação de rádio porque a prosa do Fernando vale mesmo a pena. Mas já a semana anterior tinha acabado bem para o Paulo Moreiras com um elogio a este seu livro naquele programa de que não se pode dizer o nome, desta feita pela boca do jornalista Carlos Vaz Marques, que lhe dedicou uns minutos entusiásticos. Paulo Moreiras, uma pessoa que gosta muito de ler, escrever, comer e beber, não raro junta tudo isto e faz admiráveis recolhas de costumes, aforismos, adivinhas, tradições, excertos coloridos de obras literárias, como foi o caso neste livro, do qual constam histórias divertidas sobre coisas tipicamente portuguesas, como o palito, a morcela, a ginjinha ou o tremoço. Um livro com design de Maria Manuel Lacerda que dá mesmo um belo presente. Obrigada por mais esta beldade literária, Paulo!


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Sobre a mesa muito se diz

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Esta semana começou bem para Paulo Moreiras, autor de romances, e agora também de um belíssimo livro de curiosidades gastronómicas (e não só), intitulado Do Palito à Perdiz sobre a Mesa muito Se Diz. O enorme Fernando Alves, que em boa hora regressou à TSF, dedicou-lhe uma das suas maravilhosas crónicas, a de segunda-feira passada, que pode, de resto, escutar online na página da estação de rádio porque a prosa do Fernando vale mesmo a pena. Mas já a semana anterior tinha acabado bem para o Paulo Moreiras com um elogio a este seu livro naquele programa de que não se pode dizer o nome, desta feita pela boca do jornalista Carlos Vaz Marques, que lhe dedicou uns minutos entusiásticos. Paulo Moreiras, uma pessoa que gosta muito de ler, escrever, comer e beber, não raro junta tudo isto e faz admiráveis recolhas de costumes, aforismos, adivinhas, tradições, excertos coloridos de obras literárias, como foi o caso neste livro, do qual constam histórias divertidas sobre coisas tipicamente portuguesas, como o palito, a morcela, a ginjinha ou o tremoço. Um livro com design de Maria Manuel Lacerda que dá mesmo um belo presente. Obrigada por mais esta beldade literária, Paulo!


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Antologia

Agora, que estão a terminar as celebrações dos 60 anos das Publicações Dom Quixote, sai uma antologia de poesia que inclui todos os poetas portugueses que foram editados por esta chancela desde o tempo de Snu Abecassis e dos fabulosos Cadernos de Poesia. Neles, saíram livros de autores emblemáticos, como Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Sophia ou o então novíssimo Nuno Júdice, que neles publicou o seu livro de estreia. Mas, mesmo depois de Snu ter morrido e a editora ter passado por várias outras mãos, muitos destes poetas permaneceram e outros juntaram-se-lhes, como foi o caso de Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral, Eduardo Pitta ou, mais recentemente, José Carlos de Vasconcelos. Todos eles têm na antogia Dom Quixote 60 Anos de Poesia, organizada por Manuel Alberto Valente (sim, o Manel), que trabalhou muitos anos na editora, um poema do primeiro livro que publicaram na casa. São poemas de tempos muito diferentes (de Bocage a Salvador Santos) que vale a pena acompanhar. Parabéns, Dom Quixote!

Antologia

Agora, que estão a terminar as celebrações dos 60 anos das Publicações Dom Quixote, sai uma antologia de poesia que inclui todos os poetas portugueses que foram editados por esta chancela desde o tempo de Snu Abecassis e dos fabulosos Cadernos de Poesia. Neles, saíram livros de autores emblemáticos, como Maria Teresa Horta, Herberto Helder, Gastão Cruz, António Ramos Rosa, Sophia ou o então novíssimo Nuno Júdice, que neles publicou o seu livro de estreia. Mas, mesmo depois de Snu ter morrido e a editora ter passado por várias outras mãos, muitos destes poetas permaneceram e outros juntaram-se-lhes, como foi o caso de Manuel Alegre, Fernando Pinto do Amaral, Eduardo Pitta ou, mais recentemente, José Carlos de Vasconcelos. Todos eles têm na antogia Dom Quixote 60 Anos de Poesia, organizada por Manuel Alberto Valente (sim, o Manel), que trabalhou muitos anos na editora, um poema do primeiro livro que publicaram na casa. São poemas de tempos muito diferentes (de Bocage a Salvador Santos) que vale a pena acompanhar. Parabéns, Dom Quixote!

Mistérios

Há muitos anos, presumo que no início deste século, quando publicava os livros de José Luís Peixoto (o que, grosso modo, só durou até 2004 ou 2005), recebi de presente deste autor um romance de Margaret Atwood (ainda um dia destes encontrei o respectivo marcador, que era bem original e devo ter guardado longe do livro por causa disso). Chamava-se O Assassino Cego e ganhou o Booker Prize. Na altura achei o livro interessante, era uma história entre duas irmãs que metia um caderno no qual uma delas, antes de se suicidar, contava um relacionamento amoroso com alguém que a irmã mais velha suspeita ter sido uma das suas paixões de adolescência. Era mais do que isto, evidentemente, mas já não me lembro muito bem do resto. Do que me lembro, e bem, é curiosamente de um outro livro da autora de que não gostei nada: aquele História de Uma Serva que fez furor, foi adaptado à televisão, vendeu milhões de exemplares e trouxe a escritora canadiana para o estrelato, tornando-a uma das mais solicitadas em festivais literários de todo o mundo (a propósito, Atwood estará cá em Junho, no Porto, para o Babell). Será que o que nos marca negativamente permanece mais tempo do que tudo o que nos deixa uma leve boa impressão? Mistérios.

Mistérios

Há muitos anos, presumo que no início deste século, quando publicava os livros de José Luís Peixoto (o que, grosso modo, só durou até 2004 ou 2005), recebi de presente deste autor um romance de Margaret Atwood (ainda um dia destes encontrei o respectivo marcador, que era bem original e devo ter guardado longe do livro por causa disso). Chamava-se O Assassino Cego e ganhou o Booker Prize. Na altura achei o livro interessante, era uma história entre duas irmãs que metia um caderno no qual uma delas, antes de se suicidar, contava um relacionamento amoroso com alguém que a irmã mais velha suspeita ter sido uma das suas paixões de adolescência. Era mais do que isto, evidentemente, mas já não me lembro muito bem do resto. Do que me lembro, e bem, é curiosamente de um outro livro da autora de que não gostei nada: aquele História de Uma Serva que fez furor, foi adaptado à televisão, vendeu milhões de exemplares e trouxe a escritora canadiana para o estrelato, tornando-a uma das mais solicitadas em festivais literários de todo o mundo (a propósito, Atwood estará cá em Junho, no Porto, para o Babell). Será que o que nos marca negativamente permanece mais tempo do que tudo o que nos deixa uma leve boa impressão? Mistérios.

Uma autobiografia química

Talvez por o ter traduzido há muitíssimos anos (e revisto há uns dez), mandaram-me do Brasil um exemplar de A Tabela Periódica, de Primo Levi, que acaba por ser uma espécie de autobiografia em vinte e tal capítulos, cada qual relacionado com um elemento químico. Carbono, zinco, ferro, níquel, hélio e muitos outros servem de ponto de partida para Levi, químico e escritor judeu italiano que esteve num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, falar da trajectória da sua vida, desde os anos de formação no Piemonte, passando pela descoberta da vocação e pela experiência profissional, chegando ao testemunho do horror nazi e ao regresso a uma Itália completamente devastada no fim da guerra. Brilhante como outros livros do autor (Se Isto É Um Homem, A Trégua, Se não agora quando?...), este livro foi traduzido em muitas línguas e, no Reino Unido, foi também considerado o melhor livro de ciência já escrito, embora não seja um livro científico, mas uma reflexão sobre como a condição humana resiste a limites impensáveis (os relatos que têm que ver com o campo são terríveis mas magníficos. Saul Bellow referiu que A Tabela Periódica não tem nada de supérfluo e que o impressionou muito. Gostei de o ler e de o traduzir. Oxalá os Extraordinários o leiam. Para nunca esquecer, sobretudo num tempo que há loucos ao leme neste mundo.

Uma autobiografia química

Talvez por o ter traduzido há muitíssimos anos (e revisto há uns dez), mandaram-me do Brasil um exemplar de A Tabela Periódica, de Primo Levi, que acaba por ser uma espécie de autobiografia em vinte e tal capítulos, cada qual relacionado com um elemento químico. Carbono, zinco, ferro, níquel, hélio e muitos outros servem de ponto de partida para Levi, químico e escritor judeu italiano que esteve num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, falar da trajectória da sua vida, desde os anos de formação no Piemonte, passando pela descoberta da vocação e pela experiência profissional, chegando ao testemunho do horror nazi e ao regresso a uma Itália completamente devastada no fim da guerra. Brilhante como outros livros do autor (Se Isto É Um Homem, A Trégua, Se não agora quando?...), este livro foi traduzido em muitas línguas e, no Reino Unido, foi também considerado o melhor livro de ciência já escrito, embora não seja um livro científico, mas uma reflexão sobre como a condição humana resiste a limites impensáveis (os relatos que têm que ver com o campo são terríveis mas magníficos. Saul Bellow referiu que A Tabela Periódica não tem nada de supérfluo e que o impressionou muito. Gostei de o ler e de o traduzir. Oxalá os Extraordinários o leiam. Para nunca esquecer, sobretudo num tempo que há loucos ao leme neste mundo.

Excerto da Quinzena

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. [...]


 


Julian Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Excerto da Quinzena

O doce de ginja brilhava vermelhíssimo entre as vespas amarelas e pretas e o vento remexia os ramos dos carvalhos e as manchas do sol corriam sobre o musgo, sobre a erva suave e húmida e sobre a cara dos convidados e das Mulheres e dos Homens que estavam a fumar e a rir todos ao mesmo tempo. E brilhavam também os cálices azuis do Marie Brizard e os talheres de sobremesa. E os pontinhos de luz – os grandes perseguindo os pequenos – corriam sobre a toalha cheia de nódoas roxas de vinho e de migalhas. E à tarde havia tourada, e os homens tinham o rosto e as faces e o nariz brilhantes. E também brilhava o café, tão preto, com cinza de charuto à volta da chávena. E os homens riam-se meio de lado porque tinham um charuto na boca e falavam e riam-se como os velhos sem dentes, a deitar a ponta da língua de fora cheia de saliva, e tudo entre uma nuvem azulada de fumo. E era tão lindo ver como o fumo ia mudando de cor conforme lhe batia o sol. E, como era dia da Assunção de Nossa Senhora, nós, as crianças, tínhamos ido lançar pétalas de rosa à Virgem Maria e ouvir as gaitas, e os foguetes, e os violinos e a voz dos cantores já dentro da Igreja. E tudo cheirava a incenso, e a flores, e a roscas e a churros e à sidra que os homens estavam a servir no Campo da Igreja, e ao fato novo. [...]


 


Julian Ayesta, Helena ou o Mar do Verão

Os escritores são de confiança?

A pergunta do título tem que se lhe diga, bem sei. Há tanta gente que, quando conhece um escritor em carne e osso, fica a pensar se não teria sido melhor ficar-se por lê-lo... Mas hoje não estou a falar do homem ou da mulher por detrás da obra, e sim da imagem do escritor no público (leitor e não leitor). Chega-me a notícia de um senhor caiu numa burla dessas que todos os dias chegam ao telefone ou ao correio electrónico de alguém para ver se o apanham distraído. E porque é que o tal senhor caiu se estamos sempre a ser avisados? Bem, porque lhe propunham um investimento que parecia bom e ele foi lá pondo dinheiro, até parar na quantia apetitosa de 18.000 euros, calculem. Fiou-se em que o negócio era decente e legal apenas porque, entre outros investidores, aparecia quem? António Lobo Antunes! E, se o senhor escritor tinha investido, não havia razões para desconfiar. Oh, meu Deus, mas desde quando os escritores percebem mais de finanças do que outra pessoa qualquer? Logo os escritores, que geralmente precisam de alguém que lhes preencha o formulário do IRS e se esquecem de pagar o IMI, o IVA e coisas do género? Será que ainda se olha para o escritor como aquele membro da aristocracia intelectual que sabe muito bem o que faz e é mais inteligente do que a maioria? Desenganem-se. Não invistam em nada só por dizerem que um escritor (ainda por cima, morto) pôs lá o seu dinheiro. Em vez disso, leiam-no, isso, sim.

Os escritores são de confiança?

A pergunta do título tem que se lhe diga, bem sei. Há tanta gente que, quando conhece um escritor em carne e osso, fica a pensar se não teria sido melhor ficar-se por lê-lo... Mas hoje não estou a falar do homem ou da mulher por detrás da obra, e sim da imagem do escritor no público (leitor e não leitor). Chega-me a notícia de um senhor caiu numa burla dessas que todos os dias chegam ao telefone ou ao correio electrónico de alguém para ver se o apanham distraído. E porque é que o tal senhor caiu se estamos sempre a ser avisados? Bem, porque lhe propunham um investimento que parecia bom e ele foi lá pondo dinheiro, até parar na quantia apetitosa de 18.000 euros, calculem. Fiou-se em que o negócio era decente e legal apenas porque, entre outros investidores, aparecia quem? António Lobo Antunes! E, se o senhor escritor tinha investido, não havia razões para desconfiar. Oh, meu Deus, mas desde quando os escritores percebem mais de finanças do que outra pessoa qualquer? Logo os escritores, que geralmente precisam de alguém que lhes preencha o formulário do IRS e se esquecem de pagar o IMI, o IVA e coisas do género? Será que ainda se olha para o escritor como aquele membro da aristocracia intelectual que sabe muito bem o que faz e é mais inteligente do que a maioria? Desenganem-se. Não invistam em nada só por dizerem que um escritor (ainda por cima, morto) pôs lá o seu dinheiro. Em vez disso, leiam-no, isso, sim.

Na final

Há tempos escrevi aqui um post sobre ter vários autores meus entre os candidatos a um prémio da Livraria Bertrand e não poder votar senão num deles, preferindo então não votar em nenhum para não preterir ninguém. Mas agora saiu a lista de finalistas e, dos três, ficou apenas um candidato. Trata-se do romance de estreia de Luísa Sobral, também cantora e escritora de canções, chamado Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que já teve catorze edições desde que saiu, em Fevereiro de 2025, e nunca deixou realmente as montras e as prateleiras mais visíveis das livrarias nem os testemunhos de leitores felizes nas redes sociais. É um livro muito bonito e delicado sobre uma mãe e uma filha na Alemanha durante o período da Guerra Fria e das vidas sempre ameaçadas pelas ditaduras. Tem mais de um registo literário, o que só o enriquece, e goza ainda, em cada novo capítulo, de uma belíssimas ilustrações de espécimes vegetais, de Camila Beirão, até porque uma das protagonistas adora desenhar plantas. Se não o leram, vão muito a tempo, e se quiserem votar nele, melhor. Mas há mais livros bons na final, claro, e o mais importante é que os leiam e não os deixem perdidos e sozinhos nas prateleiras.

Na final

Há tempos escrevi aqui um post sobre ter vários autores meus entre os candidatos a um prémio da Livraria Bertrand e não poder votar senão num deles, preferindo então não votar em nenhum para não preterir ninguém. Mas agora saiu a lista de finalistas e, dos três, ficou apenas um candidato. Trata-se do romance de estreia de Luísa Sobral, também cantora e escritora de canções, chamado Nem Todas as Árvores Morrem de Pé, que já teve catorze edições desde que saiu, em Fevereiro de 2025, e nunca deixou realmente as montras e as prateleiras mais visíveis das livrarias nem os testemunhos de leitores felizes nas redes sociais. É um livro muito bonito e delicado sobre uma mãe e uma filha na Alemanha durante o período da Guerra Fria e das vidas sempre ameaçadas pelas ditaduras. Tem mais de um registo literário, o que só o enriquece, e goza ainda, em cada novo capítulo, de uma belíssimas ilustrações de espécimes vegetais, de Camila Beirão, até porque uma das protagonistas adora desenhar plantas. Se não o leram, vão muito a tempo, e se quiserem votar nele, melhor. Mas há mais livros bons na final, claro, e o mais importante é que os leiam e não os deixem perdidos e sozinhos nas prateleiras.

Celebrar Lobo Antunes

Perdemos António Lobo Antunes, o homem, mas não perdemos a sua obra, e dela fazem parte os magníficos livros de crónicas que foi escrevendo ao longo dos anos, sobretudo na revista Visão, muitas delas brilhantes e inesquecíveis. É sobretudo por elas que sabemos de muitos dados da sua vida pessoal, entre os quais que havia uma casa dos avós maternos em Nelas onde os irmãos passavam férias em pequenos. Pois bem, na sua décima edição, ELOS, o Festival de Nelas, organizado pela Câmara Municipal para as datas de 17 a 24 de Abril, vai celebrar o escritor através de um percurso literário com catorze pontos de paragem ao qual chamou «Pelas Memórias de Lobo Antunes», pontos esses constantes dos seus livros de crónicas, como, por exemplo, a loja do senhor Casimiro onde se compravam rebuçados. O percurso, aliás, existe desde 2023 mas a ideia é perpetuá-lo e dar-lhe uma vida permanente, para lembrar o escritor infelizmente desaparecido há cerca de um mês. A programação é diversificada e divide-se por actividades para adultos e outras dedicadas ao público escolar. O tema será «Escritores e Autores do Coração do Dão».

Celebrar Lobo Antunes

Perdemos António Lobo Antunes, o homem, mas não perdemos a sua obra, e dela fazem parte os magníficos livros de crónicas que foi escrevendo ao longo dos anos, sobretudo na revista Visão, muitas delas brilhantes e inesquecíveis. É sobretudo por elas que sabemos de muitos dados da sua vida pessoal, entre os quais que havia uma casa dos avós maternos em Nelas onde os irmãos passavam férias em pequenos. Pois bem, na sua décima edição, ELOS, o Festival de Nelas, organizado pela Câmara Municipal para as datas de 17 a 24 de Abril, vai celebrar o escritor através de um percurso literário com catorze pontos de paragem ao qual chamou «Pelas Memórias de Lobo Antunes», pontos esses constantes dos seus livros de crónicas, como, por exemplo, a loja do senhor Casimiro onde se compravam rebuçados. O percurso, aliás, existe desde 2023 mas a ideia é perpetuá-lo e dar-lhe uma vida permanente, para lembrar o escritor infelizmente desaparecido há cerca de um mês. A programação é diversificada e divide-se por actividades para adultos e outras dedicadas ao público escolar. O tema será «Escritores e Autores do Coração do Dão».

Bolsas de criação

A Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas concede anualmente bolsas de criação literária num concurso que se divide por diversas áreas: ficção, ensaio, poesia, por vezes literatura infanto-juvenil (mas esta categoria, ao que sei, passou a ser independente), por vezes teatro (dramaturgia) e banda desenhada... O valor este ano foi de cerca de 360 mil euros (nada mau) e contemplou 42 autores. Quando estas bolsas, que já tinham existido no início do século XX, foram retomadas há uns anos depois de um longo jejum, colaborei na elaboração do regulamento com Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, José Maria Vieira Mendes e algumas outras pessoas, parte delas da própria Direcção-Geral. Uma das coisas que não consegui mudar nessa altura foi a obrigatoriedade de os candidatos não terem um emprego; mas soube agora que este ano puderam concorrer pessoas empregadas e fiquei contente de essa situação, finalmente, ter sido ultrapassada, pois não estava a ver pessoas desempregarem-se só para terem acesso à bolsa, que dificilmente cobre um salário. Entre os contemplados deste ano, reconheço alguns nomes (os poetas Frederico Pedreira e Raquel Nobre Guerra, por exemplo, já com vasta obra publicada, e curiosamente a jornalista Inês Bernardo, de cujo romance de estreia falei aqui há dias); mas a lista está publicada e pode ser consultada na ligação abaixo (pena não sabermos com que projectos concorrem os candidatos):


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Bolsas-Anuais-de-Criacao-Literaria-2025_Divulgacao-dos-Resultados.aspx


 


  

Bolsas de criação

A Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas concede anualmente bolsas de criação literária num concurso que se divide por diversas áreas: ficção, ensaio, poesia, por vezes literatura infanto-juvenil (mas esta categoria, ao que sei, passou a ser independente), por vezes teatro (dramaturgia) e banda desenhada... O valor este ano foi de cerca de 360 mil euros (nada mau) e contemplou 42 autores. Quando estas bolsas, que já tinham existido no início do século XX, foram retomadas há uns anos depois de um longo jejum, colaborei na elaboração do regulamento com Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, José Maria Vieira Mendes e algumas outras pessoas, parte delas da própria Direcção-Geral. Uma das coisas que não consegui mudar nessa altura foi a obrigatoriedade de os candidatos não terem um emprego; mas soube agora que este ano puderam concorrer pessoas empregadas e fiquei contente de essa situação, finalmente, ter sido ultrapassada, pois não estava a ver pessoas desempregarem-se só para terem acesso à bolsa, que dificilmente cobre um salário. Entre os contemplados deste ano, reconheço alguns nomes (os poetas Frederico Pedreira e Raquel Nobre Guerra, por exemplo, já com vasta obra publicada, e curiosamente a jornalista Inês Bernardo, de cujo romance de estreia falei aqui há dias); mas a lista está publicada e pode ser consultada na ligação abaixo (pena não sabermos com que projectos concorrem os candidatos):


http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/Bolsas-Anuais-de-Criacao-Literaria-2025_Divulgacao-dos-Resultados.aspx


 


  

LYvros

A LeYa tinha uma livraria online bastante elementar e, numa altura em que cada vez mais compras se fazem pela Internet, era mesmo preciso vesti-la de lavado. Pois bem: a minha colega Diana Monsanto meteu mãos à obra, trabalhou com a equipa informática e agora existe uma nova plataforma chamada LYvros que pode ser acedida publicamente pelo endereço www.lyvros.com. Como consta do comunicado difundido, «este novo espaço representa um passo estrutural na afirmação da estratégia digital da empresa. Reúne milhares de títulos em múltiplos formatos (livro físico, eBook e audiolivro)  e materializa a ambição da LeYa de oferecer uma experiência integrada, contínua e centrada no leitor. Em paralelo, cria-se a nova aplicação LeYa LYvros, disponível para Android e iOS, que permite ler e ouvir conteúdos digitais com funcionalidades alinhadas com os mais elevados padrões internacionais. Mais do que um novo canal, esta plataforma  aproxima o grupo editorial dos leitores e abre novas possibilidades de crescimento, conhecimento de mercado e inovação editorial. Experimente-a, vai ver que agora encontrará mais coisas e mais facilmente. E boa Páscoa!

LYvros

A LeYa tinha uma livraria online bastante elementar e, numa altura em que cada vez mais compras se fazem pela Internet, era mesmo preciso vesti-la de lavado. Pois bem: a minha colega Diana Monsanto meteu mãos à obra, trabalhou com a equipa informática e agora existe uma nova plataforma chamada LYvros que pode ser acedida publicamente pelo endereço www.lyvros.com. Como consta do comunicado difundido, «este novo espaço representa um passo estrutural na afirmação da estratégia digital da empresa. Reúne milhares de títulos em múltiplos formatos (livro físico, eBook e audiolivro)  e materializa a ambição da LeYa de oferecer uma experiência integrada, contínua e centrada no leitor. Em paralelo, cria-se a nova aplicação LeYa LYvros, disponível para Android e iOS, que permite ler e ouvir conteúdos digitais com funcionalidades alinhadas com os mais elevados padrões internacionais. Mais do que um novo canal, esta plataforma  aproxima o grupo editorial dos leitores e abre novas possibilidades de crescimento, conhecimento de mercado e inovação editorial. Experimente-a, vai ver que agora encontrará mais coisas e mais facilmente. E boa Páscoa!

O que ando a ler

Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muito fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. Este primeiro romance, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de «amor» da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.

O que ando a ler

Como editora de jovens autores, ou de autores estreantes (o que não é exactamente a mesma coisa), interessa-me obviamente ler o que os meus confrades publicam nessa área; e, se ainda por cima conheço os autores, é natural que espreite com alguma urgência o que vai saindo. Nas Correntes d'Escritas, o Manuel comprou o romance de estreia de Inês Bernardo, jornalista que, durante vários anos, embora com interrupções, foi responsável, ao lado de José Mário Silva, pelo blogue Biblioteca de Bolso (no qual há muito fui entrevistada, por acaso, também nas Correntes) e que apoia outros blogues no jornal Público. Este primeiro romance, curtinho e com capítulos em geral de não mais de duas páginas, chama-se sugestivamente Agarrar a Faca pelo Gume e tem a qualidade de ser de facto agudo e penetrante. Os homens mal estão presentes, e a protagonista, que viveu até à idade adulta sem conhecer o pai, morou sempre com mulheres: a mãe, mas também as avós (a que chama com graça a Avó e a Outra Avó), sendo que as últimas pouco interferem numa educação de que, mesmo assim, são talvez as principais responsáveis. A vida destas três gerações faz-se a pulso e é sempre muito bruta, quase como se as personagens dissessem tudo umas às outras secamente e com maus-modos (ouço-as assim, pelo menos); mesmo quando se trata das cenas de «amor» da protagonista, o belo faz-se assustado, ignorante e um tanto feio (não na escrita, entenda-se, mas no que provoca em imagens na cabeça do leitor). Mas as coisas funcionam bem assim, porque agarrar a faca pelo gume comporta sempre o risco do sangue, e as relações de sangue nem sempre são as melhores, especialmente quando as mortes espreitam, iminentes. É uma boa estreia, fico à espera de mais.