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A mostrar mensagens de outubro, 2025

Excerto da quinzena

Quando a chuva desabou severa numa manhã de outubro, e precipitou a imagem dos arrastados e das perdas que continuava a reverberar feroz em sua vida, Rita Preta não sabia que estava a poucos dias de ser levada outra vez, por uma corrente violenta, à vida que as mulheres de sua comunidade temiam ter. Registrar as compras e ouvir o bipe da máquina escaneando o código de barras a trouxe para o presente. Então constata que anda exausta e enumera na mente as causas de seu cansaço: primeiro, a falta de paciência com Jorge. Ela é a amante — e essa palavra a deixa com um sentimento ambíguo difícil de definir, um estigma, sem dúvida, mas também lhe confere certa dose de excitação e liberdade. O que a abala são as promessas não cumpridas, os telefonemas não atendidos, as expectativas não correspondidas. Toda uma cadeia de pequenas frustrações. Além de passar muito tempo na estrada, viajando para transportar os grãos do oeste à baía, ele tem uma família que ocupa seu tempo: mulher, filhos, um neto. Prometera que sairiam para dançar em breve, mas havia meses os dois não iam à casa de seresta da Cidade Baixa. Além disso, a vida de encontros em hotéis baratos do centro da cidade sempre lhe soara humilhante e destituída de interesse.


Às vezes, Rita Preta tenta se conformar com seu destino, alegando que esta é sua sina. Confere um peso a essa história tendo como métrica seus relacionamentos anteriores. Ela tem muitos motivos para duvidar de seu atual romance. Foi assim com o pai de seu primeiro filho; com a transa breve que se seguiu e lhe deixou outro filho; com o delinquente, pai do terceiro, que a agredia e só deixou a casa quando ela trocou as fechaduras, e depois de lhe comprar uma passagem de ônibus de ida, sem volta, para o cafundó de onde ele tinha saído.


 


Itamar Vieira Junior, Coração sem Medo (no prelo)

Prémio Nuno Júdice

Ontem foi o anúncio da obra vencedora da primeira edição do Prémio Nuno Júdice, um prémio que foi criado para homenagear um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, que nos deixou há cerca de ano e meio. Concorreram 222 livros, tendo, numa primeira fase, sido seleccionados 39 semifinalistas e, numa segunda fase, 5 finalistas. Tive o gosto de presidir ao júri, até porque era amiga pessoal de Nuno Júdice, e de trabalhar na excelente companhia da minha colega Cecília Andrade (que publicará a obra galardoada na Dom Quixote em Março de 2026, no encerramento das comemorações do 60.º aniversário da editora), dos poetas Filipa Leal e Ricardo Marques e da editora Sandra Mendes. Está de parabéns a arquitecta Carla Louro, autora de Entra-se na Casa pelo Pátio, o único livro que estava no topo das preferências de todos os membros do júri e que, por isso, ganhou por unanimidade. É um livro de alguém que sabe o que é poesia, um livro feminino sobre a maternidade (lembrando às vezes a querida Ana Luísa Amaral), o doméstico, o luto, o fazer do poema (o que honra o patrono!) e a comparação entre os poemas e as casas, com analogias e metáforas muito boas. É também uma obra redonda, arrumada, coesa como poucas, que se diria de alguém muito lido e experimentado nas lides da poesia, mas que é (que coisa bonita!) uma obra de estreia. Parabéns, Carla Louro, por este livro claro, mas nunca simplista; emotivo, mas nunca sentimental.

Escrever à mão, parar entre palavras

Leio um artigo muito interessante que uma amiga me envia e está assinado por uma senhora de nome hispânico: María del Valle Varo García, docente universitária. Diz-nos que o cérebro tem regras próprias, e que as redes neuronais são mais ativas quando escrevemos à mão do que quando teclamos, como já sabíamos por experiência, mas não cientificamente; e acrescenta que, para que as palavras adquiram o seu pleno sentido e se tornem ideias ou conceitos duradouros, têm de passar primeiro pela memória de curto prazo; mas que, para a informação estabilizar, tem de passar por outro tipo de memória: semântica, afetiva, espacial ou temporal. Ou seja, a recordação de umas férias envolve uma memória episódica; por outro lado, saber que a capital da Itália é Roma remete para uma memória semântica, desprovida de contexto pessoal. Vale então a pena recordar que a escrita à mão activa uma rede mais ampla de regiões cerebrais (motoras, sensoriais, afetivas e cognitivas) do que a digitação. Esta última, mais eficiente em termos de velocidade, requer menos recursos neurais e promove uma participação passiva. O artigo ainda refere que nem todas as palavras levam o mesmo tempo a processar e que as pausas são muitíssimo importantes. Ora, estas muito mais frequentes na escrita à mão do que na digitação. «Devorar palavras não é o mesmo que absorver a sua essência», diz esta sábia senhora, e eu aplaudo. Agora, que já desistiram do telemóvel nas escolas, que tal reservar os computadores apenas para os alunos mais velhos?

As manias dos Nobel

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Para o Fólio deste ano, foram convidados três Prémios Nobel da Literatura! Não pude estar no primeiro fim-de-semana e perdi infelizmente, a bielorrusa Svetlana Alexievitch, mas assisti à leitura de um texto sobre genocídio por John Coetzee, o sul-africano que pôs a sala num silêncio absoluto e fez Alberto Manguel dizer-lhe que conduzir aquela sessão foi como arrancarem-lhe um dente. O terceiro Nobel convidado, o mais recente, o húngaro Laszlo Krasznahorkai, teve de regressar intempestivamente a casa assim que chegou, pois estava doente e com problemas respiratórios e, por isso, ninguém pôde ouvi-lo. Já a nobelizada do ano passado, Han Kang, recusa a maioria dos convites para festivais porque quer é escrever sossegada (e presumo que não goste muito de falar inglês, o que acontece com vários asiáticos que conheço). Mesmo nas entrevistas é muito parca; quando lançou o seu último romance, Despedidas Impossíveis, disse que só daria uma entrevista por país, e aqui em Portugal a benesse calhou à Visão. Mas nem por se esconder é menos lida, e nos 60 anos da Dom Quixote, um dos seis livros comemorativos é justamente A Vegetariana, um romance profundamente original que já teve muitas edições. Se ainda não o leu, tem agora esta versão especial.


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Dois em Um

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Pronto, lá se foi a Escritaria donde venho mais morta do que viva; mas, como prometi que hoje já havia blogue, venho aqui dizer-vos que este ano se comemora o 50.º aniversário de carreira literária do querido João de Melo (eu sei que, olhando para ele, não parece possível alguém tão novo escrever há tanto tempo) e que logo à tarde, na Livraria Buchholz, no âmbito das referidas comemorações, vão ser lançados dois livros do autor do premiadíssimo Gente Feliz com Lágrimas e de muitos outros livros de ficção (e um dia poesia que esperamos não seja filho único). Sim, eu disse dois. Um deles é uma colectânea de contos, intitulada A Nuvem no Olhar, que será apresentado pela também romancista Ana Margarida de Carvalho; o outro é um diário que tem por título Novas Fases da Lua, no qual o escritor açoreano tão depressa fala das suas leituras ou comenta a situação, como se refere à própria vida e à escrita; este último vai ser apresentado por Guilherme d'Oliveira Martins. João de Melo é um dos poucos autores consagrados que lê os novos e comenta com eles as suas obras, obras que às vezes ainda apresenta, cita e prefacia. Por tudo isso e por muito mais, merece obviamente ter sala cheia. Vamos?


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Escritaria

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Não ia realmente falar disso, mas, como já foi referido, adiante! Hoje à tarde rumarei a Penafiel, onde já decorre desde segunda-feira a 18.ª edição da Escritaria, um festival literário dedicado a uma personalidade ligada às letras que já homenageou escritores como Saramago, Lobo Antunes, Hélia Correia, Lídia Jorge, Mário Cláudio, Ana Luísa Amaral..., e que este ano resolveu atribuir-me esse papel, pelo que estou imensamente grata. Além de a cidade ficar com um busto e uma frase minha para todo o sempre, as actividades dedicadas ao que tenho feito ao longo dos últimos quarenta anos são muitas e desde já quero agradecer a todos os que aceitaram o convite da Escritaria para participar nos painéis dedicados às minhas várias facetas: a de poetisa, a de editora, a de autora de literatura infanto-juvenil, letras para fado e canções, crónicas, contos e também, claro, deste blogue, que alimento quase diariamente desde 2010 (é obra!). Na sexta, haverá um concerto com Aldina Duarte e Pedro Lamares (com a participação da harpista Ana Isabel Dias) e, no domingo, um concerto de Marta Y Micó (José-María Micó é um grande poeta e compositor do país vizinho que musicou e gravou umas letras minhas, que traduziu). Passarão pelas mesas pessoas que me são muito queridas ou que tiveram uma importância fundamental na minha vida nos livros (e não menciono os seus nomes, sob o risco de me esquecer de alguém, mas haverá críticos, editores, autores que publiquei, tradutores e gente da música e da família), mas o programa completo consta de várias notícias que têm saído nos últimos dias e pode ser consultado na página do município de Penafiel. Se estiverem a norte, apareçam! (E o blogue só regressa na segunda, mil desculpas!)


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O futuro da edição

Embora trabalhe num grupo editorial de peso, não me são estranhas as preocupações das editoras independentes, não só em Portugal, onde a ausência de livrarias de nicho ou de fundo é marcante, mas também lá fora, em países onde as coisas vão de mal a pior. Num artigo da Bookseller, divulgado pelo consultor editorial Nuno Seabra Lopes, tomo conhecimento de que cerca de vinte editoras independentes do Reino Unido publicaram uma carta aberta explicando que se encontram numa «crise existencial», pedindo ajuda para poderem sobreviver. Elencam os problemas que as afectam, entre os quais o aumento dos custos de produção (papel, energia...); as dificuldades logísticas e comerciais (parcialmente devidas à saída da União Europeia e às decorrentes complicações alfandegárias); a dificuldade em penetrar no mercado livreiro ou nas redes de distribuição (como cá, em que só as grandes editoras conseguem chegar a todo o retalho); a falta de cobertura mediática e a diminuição do espaço para a promoção de livros na imprensa; e ainda o excesso de trabalho dos funcionários destas editoras e a sua insegurança quanto ao futuro, que gera muitas vezes problemas de depressão e/ou esgotamento. Houve várias chancelas que acabaram e editoras que tiveram de fechar portas, afectando claramente o mercado, pois de repente tudo corre o risco de se tornar industrial e apenas entertaining, o que é perigosíssimo para o desenvolvimento das mentalidades. Cá (excepto no caso da não pertença à União Europeia) passa-se exactamente o mesmo, e não me parece que tenhamos um executivo especialmente preocupado com os livros e a leitura. Deveríamos escrever-lhe uma carta aberta?

PEN de Narrativa

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Por ocasião do baptizado do filho varão, Felipe III de Espanha e II de Portugal promove festejos imperdíveis na cidade de Valladolid, sede da Corte e capital do império. E, se para aquele umbigo do mundo – onde desaguam todos os vícios, velhacarias e vilanias – concorrem nobres e ladrões, damas e rameiras, será mais do que certo que, depois de um périplo por Badajoz, Sevilha, Trujillo ou Toledo, siga também para lá Tanganho Perdigão Fogaça, conhecido por Dom Perdigote, a fim de cumprir o seu destino. Mas nem tudo se apresenta de feição a este espadachim nascido no ano em que morre Camões; claro que, entre as muitas peripécias vividas, encontra o amor da sua vida e conhece o pintor El Greco, o escritor Quevedo e até o autor do Quixote; porém, será envolvido na tentativa de assassinar um dramaturgo que integra a embaixada inglesa, enviada para ratificar a paz entre as duas nações. Quem o irá salvar? Na senda do seu romance de estreia – A Demanda de Dom Fuas Bragatela, aplaudido entusiasticamente pelo público e a crítica –, este romance pícaro irrepreensível chamado A Vida Airada de Dom Perdigote acaba de ganhar o Prémio PEN de Narrativa por unanimidade. Parabéns, Paulo Moreiras, já não era sem tempo.


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Excerto da Quinzena

Estávamos no verão de 2008 quando Francis Ford Coppola chegou à Argentina. Vinha fazer um filme; há muitos anos que não realizava nada. Meses antes, comprara uma casa em Buenos Aires para passar uma temporada e conhecer a cidade; como também tinha vinhedos em Mendoza, queria estar a um pulo de avião. Na equipa de filmagem que criou aqui, havia um assistente de arte que, assim que leu o guião, começou com uma grande gabarolice; dizia que o seu melhor amigo era a reencarnação de Tetro, o protagonista boémio e maldito do filme que iam rodar. O boato não tardou a chegar aos ouvidos de Coppola.


Como qualquer artista necessitado de estímulos, o realizador quis conhecer de imediato o alter ego da sua personagem. Por acaso, esse amigo reencarnado era o meu marido e, numa noite quente de dezembro, fomos os três – ele, a minha filha de três meses e eu – conhecer o monstro sagrado. Eu não fora convidada pelos meus lindos olhos, mas porque falava inglês; quanto à minha filha, bom, não tínhamos com quem a deixar.


 


María Gainza, Um Punhado de Flechas, trad. Helena Pitta

Prémio Camões

Na semana passada, tivemos a excelente notícia da atribuição do Prémio Camões à poeta, ficcionista e historiadora angolana Ana Paula Tavares, cuja Poesia Reunida seguida de Água Selvagem foi dada à estampa pela editorial Caminho no ano passado. A Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas anunciou que o júri distinguiu a escritora pela sua “fecunda e coerente trajetória de criação estética e, em especial o seu resgate de dignidade da Poesia”, sublinhando ainda que, "com a dicção do seu lirismo sem concessões evasivas e com os livres compromissos da produção em crónica e em ficção narrativa, a obra de Ana Paula Tavares ganha também relevante dimensão antropológica em perspetiva histórica”. A contemplada, actualmente professora na Faculdade de Letras de Lisboa, cidade onde reside e onde se licenciou em História,  dedicou o prémio a todas as poetas e todas as mulheres, especialmente, claro, as de Angola. É a terceira premiada deste país, seguindo-se a Luandino Vieira e Pepetela, e a oitava mulher em 37 edições que o prémio já leva. Parabéns, Ana Paula Tavares!


 


P.S. Amanhã começam, na Casa Fernando Pessoa, os dias de poesia Lisbon Revisited, que se prolongam durante todo o fim-de-semana. Este ano, os convidados são Nuno Moura, Inês Lourenço, Filipa Leal e Bernardo Pinto de Almeida, bem como os estrangeiros Najwan Darwish (Palestina), Katerína Iliopoúlou (Grécia), Slobodan Ivanović (Montenegro) e Stella Nyanzi (Uganda). Se gosta de poesia, não falte.


 


 

Dançar Eça de Queiroz

Amanhã estreia um espectáculo de dança que exerceu sobre mim grande curiosidade. Trata-se de uma adaptação da obra Os Maias, de Eça de Queiroz, que apesar da sua popularidade e intemporalidade nunca tinha antes chegado aos palcos do bailado. A autoria cabe ao coreógrafo Fernando Duarte, que divide esta sua criação em três actos e, segundo a folha de sala da Companhia Nacional de Bailado, revitaliza assim "a narratividade da dança, uma dimensão amplamente apreciada e reconhecida pelos públicos", deste modo "evocando, reinterpretando e dando nova vida a personagens e questões" universais. Estou curiosa porque não será fácil passar da literatura para outra arte mantendo a verve e a ironia do nosso Eça, mas sinto-me tentada a ir ver, até porque acompanhará o espectáculo ao piano o talentoso António Rosado e teremos ainda solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa. Até dia 26, no Teatro Camões, em vários horários, consoante o dia.

Palavrinhas

Estava eu a escrever a palavra «velado» quando pensei logo que ela implica algo que está escondido, coberto por um véu (uma mulher velada, uma história abordada veladamente...). Porém, todos sabemos que o prefixo «re-» implica repetição (reler é ler mais de uma vez, por exemplo); e, assim, fez-me uma certa espécie que «revelar» não quisesse dizer que uma coisa está ainda mais velada e escondida do que é normal (que tem mais de um véu), mas justamente o contrário, ou seja, a mesmíssima coisa que «desvelar», que usa o elucidativo prefixo «des-» (que, como toda a gente sabe, é de negação, como em «desfazer» ou «desatar»). A nossa língua está cheia destas singularidades; e, consultando o querido Dicionário Houaiss, apareceu-me então «velar» com o sentido de «estar alerta», de «vigiar», atitude absolutamente necessária quando «velamos» um doente, por exemplo; e, efectivamente, precisamos muito de estar alerta para podermos «descobrir» alguma coisa (e «descobrir» é também tirar aquilo que cobre, tirar o véu), que é o que significa o verbo latino que está de facto na origem da palavra «revelar». Se pensarmos bem, a revelação da fotografia é, no fundo, o que se descobre no papel quando este é mergulhado no líquido, a imagem que estava velada e que de repente se deixa ver. Que giro.

O fado do fado

Leio quase tudo o que encontro sobre fado. Não só é um assunto que me interessa desde há muito, mas também escrevo uma crónica mensal no premiado jornal digital A Mensagem de Lisboa sobre a matéria e, por isso, estou constantemente à procura de histórias e episódios engraçados para dividir com o público. É sobretudo por causa disso que me interessa divulgar um livro que acaba de sair (o lançamento será no dia 17, na Fundação José Saramago), da autoria de Sérgio Luís de Carvalho, intitulado Lisboa Fadista. Fala de tudo um pouco: das origens sempre polémicas e discutíveis da canção de Lisboa até ao seu estatuto de património imaterial pela UNESCO, sem dúvida merecido. Como passou o fado de uma arte fechada nas casas de fado para os grandes palcos? Como foi que, depois de adorado e trauteado por todos os Portugueses, levou uma tareia tal depois da Revolução que só era cantado lá fora e se tornou uma canção quase envergonhada, recuperando apenas a sua popularidade mais de vinte anos mais tarde?  Como se tornou o fado um símbolo do País e nos faz levar a mão ao peito e comover, sobretudo quando o ouvimos fora de Portugal e com saudades de casa? Tudo isto está, pelos vistos neste Lisboa Fadista. Se gosta de fado, não o pode perder.

Revisitar Portugal

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Há muitos anos, quando eu trabalhava na Temas e Debates, a editora do Círculo de Leitores Guilhermina Gomes publicou uma colecção que teve um tremendo sucesso chamada Crónica do Século XX em Imagens. Era dirigida pelo jornalista Joaquim Vieira e tinha dez volumes cartonados, um por década, sendo constituída sobretudo por fotografias e pequenas legendas que contavam a história do País. Creio que se venderam cerca de 200.000 colecções e ainda hoje os volumes aparecem muitas vezes nas listas dos alfarrabistas. Hoje, com a Internet, temos uma página digital que faz este mesmo trabalho, página essa da responsabilidade de Gonçalo Farlens, um estudante de História na Faculdade de Letras de Lisboa nascido em 2002, que se dedica a narrar episódios da história nacional através de fotografias de época. E agora, além dessa página, temos o livro homónimo Portugal Antigamente, assinado pelo mesmo Gonçalo Farlens, que segue exactamente o mesmo princípio, juntando num só volume não apenas as imagens dos mais emblemáticos factos ocorridos em Portugal desde a implantação da República até ao funeral de Amália, mas também representações de episódios de que não nos lembraríamos assim de repente e, afinal, ali estão para nos recordar do que na época sentimos (a erupção do vulcão dos Capelinhos, por exemplo, ou o mítico bar Frágil). Muito interessante esta viagem fotográfica!


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Uma nova revista

Quem leu a Odisseia, de Homero, sabe bem que Ulisses, quando regressava a casa finda a Guerra de Tróia, ficou prisioneiro dos encantos da bela Calipso durante anos numa ilha chamada Ogygia. Pois bem, é justamente o nome dessa ilha, Ogygia, que hoje dá nome a uma revista literária e artística açoreana que tem (como Calipso) artifícios bastantes para atrair e prender os leitores, sejam estes masculinos ou femininos. Editada nos Açores e dirigida por duas mulheres que são grandes leitoras, Avelina da Silveira e Paula de Sousa Lima (esta última finalista do Prémio LeYa com o romance Paraíso), trata-se de uma revista online cujas colaboradoras são exclusivamente mulheres. Neste número, podemos por exemplo encontrar a escritora Leonor Sampaio da Silva, de quem publiquei este ano o magnífico Passagem Noturna, as poetisas Dora Nunes Gago ou Ângela Almeida e a pintora convidada Nina Medeiros. Além dos textos literários, contos ou poemas (pronto, também escrevi um), a revista, cujo número inaugural é dedicado ao tema da ilha, contém ainda textos críticos e entrevistas. Vale muito a pena, claro, folhear esta novidade cujo link aqui vos deixo.


https://pub.marq.com/Ogygia1/

No Porto

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Afonso Reis Cabral viveu parte importante da sua vida no Porto, e é lá que vai acontecer logo à tarde a apresentação pública do seu mais recente romance, O Último Avô, que teve uma gestação demorada, mas valeu a pena, até porque já vai em segunda edição. Desta feita, será o escritor Mário Cláudio o orador da sessão e esperamos o melhor, já que nos deu a entender que, ao fechar o livro, o romance o atingira realmente como um clarão. Lembro que o livro conta a história de Augusto Campelo, um genial escritor que, pouco antes de morrer, queimou no jardim de casa um manuscrito a que dedicara muito tempo e que ninguém sabia de que tratava, embora os mais próximos acreditassem ser finalmente a obra sobre a sua experiência na Guerra Colonial, que descrevia frequentemente como traumática em entrevistas. Mas, na verdade, essa sua vivência é apenas um lado deste O Último Avô, pois não há como esquecer o lado do neto-narrador e a rememoração de episódios familiares, por vezes igualmente traumáticos, que incluem a fuga de casa da sua mãe, filha mais nova do escritor, no final da adolescência. Uma guerra de palavras também. Não percam. O convite fica abaixo.


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Gémeos separados

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Ela coleciona camisolas. Ele tem dois gatos. Ambos adoram Nova Iorque e, aconteça o que acontecer, hão de mudar-se para lá quando fizerem 28 anos. Porém, de repente, ele diz que quer passar algum tempo sozinho.


E se uma das metades de um par de gémeos não quiser continuar a viver? E se a outra não conseguir viver sem essa metade? É esta a questão central do presente romance, em que a narradora é a gémea de um rapaz que se suicidou e relembra muitas histórias de infância e também as suas vidas adultas com mágoa, saudade, raiva e insegurança em relação ao futuro. De uma maneira aparentemente desprendida mas muito perspicaz, Aquilo em Que Preferia não Pensar conta a história do que acontece quando a pessoa com quem construímos as bases de toda uma vida desaparece subitamente, e as memórias que restam são as de um pai que já era ausente antes de ter morrido e de uma mãe geóloga, fria como uma pedra. Finalista do Booker Prize Internacional, traduzido em mais de uma dezena de línguas, o romance de Jente Posthuma é uma exploração comovente do luto, contada através de episódios breves e cirúrgicos, impregnados de uma suave melancolia e, o que é surpreendente, de um humor inesperado e corrosivo. Um livro que se debruça também sobre o facto de a saúde mental depender tantas vezes da vida familiar. Quase a sair para as livrarias e muito, muito original.


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O regresso

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Depois de há três anos ter publicado o seu quarto romance com a Casa das Letras chamado Velhos Lobos, Carlos Campaniço regressa com uma história claramente alentejana. Pouco depois do 25 de Abril, os trabalhadores rurais do Sul ocupam a terra dos latifundiários para quem trabalharam como escravos ao longo de décadas. Em Aldeia Velha – o lugar onde decorre a acção deste romance – a sociedade depara-se de repente com as mudanças criadas pela Reforma Agrária, mas também com as consequências do fim da Guerra Colonial e as novas liberdades trazidas pela Revolução. Veremos, por isso, como reagem os que perderam as propriedades (e se insurgem ou resignam com a situação) e os que continuam a trabalhar de sol a sol, embora agora para seu próprio sustento. E também os que, depois de terem lutado anos pela democracia, são agora membros do Partido e ocupam funções de relevo, ou os que acreditaram no mundo perfeito e vêem os seus sonhos esfarelar-se todos os dias. Mas há também coisas que nunca mudam, por mais que os tempos tenham mudado: a bisbilhotice, a mentira, a má-língua, a maldade, o sofrimento. Num romance em que a verdadeira personagem é a própria aldeia, é curiosamente o carteiro o elo de ligação entre todos, trazendo-nos a forma como cada um assimila os novos tempos e perspectiva o futuro. Porém, o muito que este homem cala é talvez aquilo que mais importa. Carlos Campaniço, no seu estilo inconfundível e com uma linguagem que é um tremendo veículo sensorial, oferece-nos com A Cinco Palmos dos Olhos uma obra profundamente original sobre o período da Reforma Agrária.index.jpg

Excerto da Quinzena

«[…] Mas é em relação a uma mancha antiquíssima que sobretudo pretendo precaver os passos do menino, mancha de que umas vezes me envergonho, mas de que outras vezes, confesso sem rebuço, me comprazo numa espécie de infame altanaria. É necessário que compreenda que no íntimo da nossa cepa jazem águas negras e abissais, as quais águas, ainda quando não se agitam, não cessam de despedir pútridos vapores, soprados pelas mais diabólicas das entidades, habitantes dos círculos do Inferno. Nos nossos avós, e de uma maneira genérica em toda a nossa parentela, detecta-se uma como que chaga do espírito, sempre aberta, ardendo na impaciência de contaminar quem dela se acerque. Os nossos mais longínquos antepassados viveram numa inquietude que os empurrava de terra para terra, incapazes de assentar num sítio que lhes fosse favorável, encandeados por uma estrela que jamais lhes entremostrava o rumo, e que os trazia num sobressalto que lhes devorava as entranhas. Arrastados pelo fogo de uma paixão que tudo consumia, e que nada se mostrava susceptível de saciar, sacrificavam o próprio tempo que lhes calhava, e gostaria de assegurar ao menino, o que infelizmente não é viável, que jamais teriam imolado a dignidade. Na província de Trás-os-Montes, julgo eu, donde somos oriundos, acertaram em nos pôr a alcunha de “os Bro­cas”. Se consultar o menino um bom dicionário, encontrará como sinónimo deste vocábulo “verruma”, e “alavanca”, e “furador”, e “patranha”. Confiro à sua imaginação que desde já se me antolha riquíssima o encargo de decidir da justeza de tal antonomásia.»


Mário Cláudio, Camilo Broca, 5ª edição no ano do bicentenário de Camilo Castelo Branco

Mapas literários

Há uma editora chamada Bairro dos Livros que constrói uns livros-objectos fascinantes que são, na verdade, guias literários de várias cidades portuguesas acompanhados de mapas que nos permitem fazer uma visita exclusivamente literária a essas cidades. Com eles, descobrimos os escritores que ali nasceram e viveram, os que escolheram a cidade como pátria ou local de férias, os que por lá passaram e deixaram marca. Mas não só: vão à procura de referências ao local em romances e poemas de escritores nacionais, partilhando esses excertos ou episódios de forma a enriquecer a nossa cultura literária; e, por outro lado, descrevem-nos historicamente muitos dos locais a visitar que foram referidos na obra de escritores. São ilustrados e bilingues, para que os turistas também se possam entreter. Recentemente, foi publicado o guia dedicado à Sertã, cidade onde decorre inclusivamente uma maratona da leitura muito conhecida e sobre cuja Capela da Nossa Senhora dos Remédios escreveu o nosso Eça a seguinte quadra: «Fui à Senhora dos Remédios/Levei três vinténs de prata/Fui a pé, vim a cavalo/Não há coisa mais barata.» Já disponíveis estão os guias do Porto, de Baião, de Évora, de Matosinhos, da Póvoa de Varzim e de Penafiel. Valem mesmo a pena! Para mais informações, deixo-vos o link:


www.bairrodoslivros.com

O que ando a ler

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Antes que me esqueça, hoje às 18h30 faremos o lançamento em Lisboa de O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, na Casa do Jardim da Estrela. O convite, de resto, vai abaixo, e espero que apareçam por lá. Mas hoje é também dia de falarmos sobre o que andamos a ler e de um livro sobre o qual tinha bastantes expectativas, porque foi o escolhido pelos estudantes universitários portugueses como favorito entre os finalistas do Prémio Goncourt de 2024. Trata-se de Jacarandá, de Gaël Faye, e conta a experiência de um jovem, filho de pai francês e mãe ruandesa, ao longo da adolescência e dos primeiros anos da idade adulta. Ele, que nunca ouvira falar do genocídio do Ruanda, recebe na sua casa dos arredores de Paris um menino de 12 anos ruandês, que fica a saber ser seu tio e ter perdido toda a família nos massacres. Tornam-se quase irmãos, e visitá-lo-á com a mãe uns anos mais tarde para aprender, afinal, tudo o que não sabia sobre a família materna e sobre os horrores perpetrados no ano de 1994 durante cem dias em que a maioria hutu liquidou quase um milhão de tútsis, etnia a que pertencem os seus parentes. Livro interessante do ponto de vista histórico e muito elucidativo sobre este facto concreto, em termos literários não é especialmente rico e tem um estilo bastante seco. O jacarandá de que fala o título é a árvore sob a qual os quatro primos do narrador foram enterrados e à qual a irmã deles, Stella, nascida muitos anos mais tarde, gosta de subir em jeito de homenagem. Vale a pena sobretudo pela informação.


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