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A mostrar mensagens de outubro, 2015

Vive la France!

Cai-me no colo um interessante artigo sobre algumas medidas praticadas na capital francesa para defender as livrarias tradicionais. Não é que não fechem também em Paris algumas lojas, sobretudo com a concorrência feroz da Amazon.fr (que tem «espaço» para todos os livros e faz os envios em vinte e quatro horas); mas a Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e, num país com grande tradição de leitura, está atenta aos livreiros que precisam de ajuda. Os que pagam em salários 12% ou mais da sua facturação têm, por exemplo, isenção de impostos e, além disso, direito a um subsídio para actividades de promoção de livros de fundo (sublinho de fundo) na loja. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio (650, dos quais 60 são livrarias) e aluga-os por rendas baixas, a cerca de metade do preço de mercado. Além disso, conscientes da importância das livrarias tradicionais num país onde a compra de e-books é ainda ínfima, os editores reuniram-se e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a actividade sem pagarem nada antes de dois anos decorridos... Por outro lado, as livrarias conseguiram também unir-se na realização de um site colectivo, no qual difundem uma agenda de actividades e – pasme-se! – o cliente pode procurar o livro que quer e saber logo quais são as livrarias que o têm à venda, indo à mais próxima (e assim evitando uma visitinha à Amazon). Boas ideias vindas de França.

Em terra de cegos

Quem tem olho é rei. Falo em sentido figurado, claro, porque Pablo Lecuona, argentino que cegou ainda na infância, tem dois olhos que de pouco lhe servem, mas criatividade e inteligência que ultrapassam a cegueira de muitos com dois olhos sãos. Acaba de ganhar um importante prémio para a sua biblioteca digital para cegos, com cerca de 50 000 livros, galardão que lhe foi atribuído pela Organização dos Estados Americanos entre mais de 600 projectos concorrentes. Lecuona nunca se deixou abater pela sua deficiência, desloca-se pela cidade de Buenos Aires sozinho, apesar de a cidade estar pouco preparada para os invisuais, viaja pelo mundo a partilhar a sua experiência e fundou em 1999 a TifloLibros (o nome tem por base a ilha de Tiflos, onde, segundo a mitologia, os cegos eram banidos), projecto que foi desenvolvendo ao longo dos anos com pouquíssimos recursos, mas que hoje tem já mais de 7500 inscritos e 300 instituições parceiras e ao qual vão dar seguramente muito jeito os 75 000 dólares do prémio. A Internet, as impressoras em braille, os computadores e telemóveis adaptados, abriram caminho a que pessoas cegas ou com visão reduzida tenham uma autonomia nunca antes imaginada e possam ler os livros de que gostam. Lecuona foi convidado para debater e incentivar um Tratado Internacional sobre direitos de autor no que respeita a edições em braille e o TifloLibros é dado internacionalmente como exemplo feliz de inclusão social e respeito pelos direitos dos deficientes. Lecuona não vê, mas tem visão que nunca mais acaba.

Os Peanuts na terceira-idade

No último dia 2, os Peanuts, criação do norte-americano Charles Schulz, nascido no Minnesota, fizeram 65 anos. Publicada pela primeira vez quando o seu autor tinha 27 anos, a tira que tem como personagens o tristonho Charlie Brown, o cão Snoopy e os amigos de ambos saiu em mais de 2000 jornais ao longo destes anos e sobreviveu ao próprio Schulz, que partiu deste mundo no virar do século. O jornal Daily News publicou no dia do aniversário algumas curiosidades em relação aos Peanuts, sendo a mais inesperada o facto de o seu autor não gostar nada do nome desta família alargada, que lhe terá sido imposto por terceiros. Aí se conta também que Schulz foi rejeitado por uma ruiva que pediu em casamento quando era ainda jovem e que é dessa história real que nasceu a ruivinha por quem Charlie Brown se apaixona, bem como todos os amores não correspondidos da série: Sally que ama Linus, Lucy que ama Schroeder (uma das minhas tiras preferidas é com os dois últimos; pergunta Lucy: «Achas-me uma rapariga bonita?» E Schroeder, sempre concentrado no seu piano, responde: «Sei lá, nunca vi nenhuma rapariga bonita.»). Ao que parece, Snoopy também era para se chamar Sniffy (mas já havia uma personagem de BD com este nome) e Charlie Brown acertou, afinal, uma vez com o bastão na bola de baseball numa tira de 1956; consta, aliás, que a falta de jeito para o desporto do autor dos Peanuts foi inspiradora e que o clube da sua terra chegou a perder 40-0. Enfim, novas destes Peanuts a ficarem velhotes.

Desigualdades

O ISBN (International Standard Book Number) é o sistema que identifica os livros segundo o autor, título, editora e país de origem. Foi a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) que o introduziu em Portugal em 1988, seguindo a norma internacional, e até ao ano passado os seus custos eram repartidos entre a Secretaria de Estado da Cultura (SEC) e a APEL. Mas o subsídio da SEC acabou e a APEL elaborou, em conjunto com cerca de 200 associados, uma tabela em que, quanto mais títulos uma editora registe, mais barato lhe sai cada um; por exemplo, se uma editora regista 10 títulos por ano paga 100 euros (10 euros por título), mas se registar 1000 títulos por ano já só paga 3000 euros (ou seja, 3 euros por título). Ora, embora isto possa parecer justo, a verdade é que é um grande problema para as pequenas editoras, que publicam poucos livros por ano e têm menos dinheiro, e para quem o valor do ISBN vai pesar muito nos custos totais de livros geralmente de pequena tiragem. Podia pensar-se, de resto, que algumas abdicariam do ISBN, que não é obrigatório, mas a FNAC e a Bertrand, por exemplo, não aceitam vender livros sem ISBN e, como tal, torna-se de facto imperioso ter o número de registo internacional. Assim, 28 pequenos editores entregaram um protesto na Assembleia da República para que o ISBN volte a ser gratuito e controlado pela Biblioteca Nacional, e não pela APEL, até porque muitos destes pequenos editores não são membros daquela associação. Vamos ver o que acontece.

Dois em um

Escrevemos certamente por muitas razões e não as sabermos nomear é, segundo Duras, justamente uma delas, ou a mais forte. Mas há quem saiba muito bem porque escreve determinadas coisas. É o caso do ficcionista irlandês John Banville, um dos vencedores do Booker Prize com o romance O Mar aqui há uns anos, que, depois de começar a ler os policiais de Simenon em 2004, ficou de tal modo fascinado que criou um pseudónimo – Benjamin Black – só para poder escrever ele próprio policiais que gostaria que fossem tão bons como os do mestre. (Banville diz inclusivamente que Georges Simenon deveria ter ganho o Nobel da Literatura, mas Estocolmo raramente premiou um autor de policiais, se bem que os haja mesmo bons e prolixos, como Simenon e Agatha Christie, por exemplo). Ora, os herdeiros de Raymond Chandler contactaram o romancista irlandês, propondo-lhe que escrevesse uma nova aventura com o herói Philip Marlowe; e, como a mãe de Chandler era irlandesa, Banville (ou Benjamin Black, como queiram) viu aí uma possibilidade de espalhar referências ao seu país no livro, intitulado A Loura de Olhos Negros. Mas o autor literário diz que o autor de policiais é apenas honesto e despretensioso, um artesão, mas não um artista. Black escreve no computador, e Banville numa velha máquina de escrever. Qual vende mais livros? Pois, Banville aparentemente gosta de ganhar o dinheiro que Black lhe rende e divertiu-se tanto que tem vontade de escrever mais policiais.

A nossa língua

Hoje, enquanto me estiverem a ler, voo até Paris para participar, a convite da Fundação Gulbenkian, num colóquio dedicado às Artes da Língua Portuguesa comissariado pelo professor Paulo Filipe Monteiro. Vou, infelizmente, perder os intervenientes que falarão esta manhã, mas espero chegar a tempo da mesa da literatura, que me interessa muito, e de ouvir Dulce Maria Cardoso, Rui Zink e Ondjaki, entre outros, e bem assim, depois da sessão, a jovem cantora Luísa Sobral. Amanhã de manhã as artes são outras – cinema, teatro, dança – e à tarde, na companhia do director da Flip (a festa literária brasileira mais badalada) e de um editor francês que durante anos publicou literatura portuguesa, dedicar-me-ei ao tema das estratégias da difusão do português, nomeadamente através dos livros e da literatura. O colóquio promete ser interessante e, se há leitores deste blogue em Paris, pois que apareçam e desfrutem. Eu só regressarei à pátria na sexta-feira, pelo que o blogue só voltará a ter post na próxima segunda. Os interessados podem consultar o programa do colóquio.


 


 


 


 


 

O sexo e os escritores

Para quem gosta de poesia – e especialmente da de T. S. Eliot, modernista, prémio Nobel da Literatura em 1948 – há uma boa surpresa para breve: a editora Faber & Faber anuncia para o próximo mês de Novembro a saída de uma nova edição da obra do mestre com novidades picantes (sim, eu disse picantes) que podem de algum modo redefinir alguns aspectos da biografia do poeta, sobretudo a nível sexual. Eliot fez voto de castidade em 1928, depois da sua confirmação na igreja anglicana (convertera-se ao cristianismo), embora fosse um homem casado. Crê-se, porém, que não era feliz (em parte através dos poemas que retratavam a relação como disfuncional, em parte porque Vivienne sofria de distúrbios mentais) e correu até o boato de que ele seria impotente; mas Eliot voltou a casar-se uns anos mais tarde e, desta vez, a mulher, Valerie, era alta, gira e trinta anos mais nova do que ele (fora sua secretária); numa entrevista posterior à morte de Eliot, Valerie fez então questão de tornar público que a sua vida sexual fora normalíssima e que o marido, apesar da diferença de idades, se tinha portado sempre bem... Ainda que muitos tenham duvidado, agora, pelos vistos, uns quantos poemas eróticos encontrados em caderninhos vêm mostrar que, na verdade, o senhor Eliot gostava de ter a rapariga nua ao seu colo (estando ele igualmente nu) e de outras coisas que só não digo aqui porque, fora da poesia, soariam vulgares, sem a grandeza que Eliot merece. Foi, claro, preciso passarem uns anos da morte de Valerie (que lhe sobreviveu quase quarenta) para os organizadores desta nova edição poderem vasculhar na sua papelada e descobrir este dado novo; e, se bem que não passemos a gostar mais de Eliot por, afinal, ter líbido, pelo menos é bom saber que temos para ler poemas novos do grande poeta nascido nos EUA e naturalizado britânico, pois, além dos já mencionados de cariz erótico, haverá inéditos da sua juventude, versos que escreveu para crianças e ainda novas versões de outros já nossos conhecidos. Mas o sexo, estou convencida, é o grande chamariz desta nova edição.

Escritaria

Hoje estou aqui de rastos, depois de quatro dias de Escritaria, a caminhar pelas ruas cheias de arte urbana dedicada a Mário Cláudio, o homenageado deste ano, a visitar exposições sobre a sua vida e a sua obra, a ouvir conferências mais académicas e testemunhos mais pessoais sobre o escritor e o homem, o parente e o amigo. Estou que não posso e ainda é só segunda-feira, mas adorei a festa, o carinho de toda uma cidade motivada para gostar de literatura portuguesa ao longo de uns dias em que Mário Cláudio foi muito mimado por jovens actores, jovens músicos, pintores seniores e simples curiosos penafidelenses (penso que é assim que se diz). Claro que ele merece, mas a verdade é que há muito não o via tão bem-disposto, cheio de humor e histórias para contar, uma das quais aqui vos deixo. Tendo ele começado a escrever poesia bastante jovem, dava-se o caso de a família passar umas curtas férias no mesmo local em que Régio fazia uns dias de repouso. Ora, o promissor poeta armou-se de coragem e resolveu que haveria de conseguir a opinião do poeta estabelecido sobre os seus escritos. Arranjou quem lhe proporcionasse o encontro como se fosse por acaso e lá conseguiu estar frente a frente com José Régio. Disse-lhe então ao que vinha, pois claro: queria que ele lesse o que andava a escrever. “São versos?”, terá perguntado o mais velho. “É que de versos estou eu farto.” E, sem pensar, respondeu Mário Cláudio: “É natural, já escreveu tantos.”

Escrever ou não escrever?

Hoje em dia muita gente quer escrever um livro – e eu acrescento: acha que pode. Não discutindo as competências de cada um, a verdade é que o facto de todo o bicho-careta, entre apresentadores de TV e actrizes de telenovela, publicar livros faz com que se pense que escrever não implica talento e o que é preciso é ter uma história para contar (quando o como se conta a história é que, normalmente, faz a diferença). Sei que já falei muitas vezes aqui do tema, mas descobri umas novas dicas importantes. William Boyd, escritor, formula algumas perguntas essenciais aos aspirantes a escritores, que servem, no fundo, para que concluam se, efectivamente, estão habilitados a escrever um livro. E a primeira é justamente «Sabem escrever?», ou seja, se dominam a gramática, não cometem erros, são capazes de se exprimir por escrito de forma a serem entendidos e, claro, conhecem mesmo bem a sua língua; sem isso, meu amigo, de maneira nenhuma se tornarão autores de jeito. «Sabem planificar?» é outra das perguntas, uma vez que a organização da intriga ao longo das páginas de um livro é absolutamente fundamental; não é preciso o plano integral antes de começarem a escrever, mas, à medida que escrevem, têm de saber onde entra o quê sem se espalharem ao comprido. «Têm imaginação?» Ah, pois, há quem julgue que não precisa disto, mas é impossível tornar um episódio credível se o seu autor não o conseguir imaginar, diz o conselheiro. «São suficientemente resistentes?» Sim, Boyd acha que não só escrever um romance implica perseverança, aceitar os momentos menos criativos sem desistir, se calhar cortar páginas e páginas que deram muito trabalho na altura de rever, esperar o tempo que for preciso até o livro estar pronto, mas também que é necessária resistência às críticas depois de o livro sair e ao longo da carreira, porque há na profissão de escritor muitos altos e baixos. Enfim, algumas questões que ajudarão os indecisos a tomar uma decisão em consciência.

Escritaria

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E eis que a Escritaria está de volta a Penafiel para, depois de Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina, Mia Couto, Lobo Antunes, Mário de Carvalho e Lídia Jorge (espero não me ter esquecido de ninguém) homenagear em 2015 a obra do escritor Mário Cláudio, autor de ficção, teatro, livros infantis, ensaios, em suma, um escritor multifacetado que já venceu prémios de monta (o Prémio Pessoa, por exemplo) e foi duas vezes galardoado com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, o mais prestigiante galardão literário nacional. Para a Escritaria, Mário Cláudio preparou Astronomia – o romance da vida de um escritor português, contado em três partes: Nebulosa (infância); Galáxia (maturidade); e Cosmos (o envelhecer). Mas muitas outras pessoas lhe prepararam surpresas para estes dias, desde conferências, entrevistas e testemunhos até à transmissão em antestreia de um documentário biográfico e também uma exposição antológica na biblioteca. Arte de rua, teatro, música, cinema, lançamentos de livros e uma hora do conto para as crianças vão, segundo a organização, «contaminar tudo e todos com a vida e a obra do romancista». Um ano excelente para Mário Cláudio que, além do Prémio da APE e da Escritaria, ainda terá um Congresso dedicado à sua obra em Novembro, na Universidade da Beira Interior.


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Surpresas

Todos sabemos que as redes sociais – sobretudo o Facebook, que é a mais frequentada (ou mal frequentada, sei lá; digo isto fazendo parte dela, evidentemente) – estão cheias de lixo que as pessoas partilham, crendo muitas vezes que estão a facultar aos «amigos» verdadeiras gemas ou pepitas. Porém, de vez em quando, também lá se encontram coisas mesmo boas, entre vídeos, fotografias e textos. Foi, de resto, do portal de um facebookiano amigo (já não me lembro qual, lamento) que rapinei uma carta que vos quero mostrar, um texto que, como agora se diz, se tornou viral e foi dos mais partilhados dos publicados no jornal El País do último mês. A carta foi escrita por um rapaz de dezassete anos que vai ter, pela primeira vez, a disciplina de Filosofia na escola e está obviamente entusiasmado com isso; mas, ao mesmo tempo, francamente desiludido com o facto de pertencer à última leva de estudantes que aprenderá filosofia no Secundário, pois parece que o Ministério da Educação em Espanha se encarregou de suprimir o estudo desta disciplina, reservando-o apenas a quem queira cursar Filosofia na universidade (os Governos autoritários não gostam que se ensine a pensar, já o sabemos). No entanto, em vez de me pôr aqui a descrever a carta, sugiro que consultem o link abaixo. Um rapaz de dezassete anos humanista já não é coisa que se encontre frequentemente e vale mesmo a pena ler o que escreve.


 


http://elpais.com/elpais/2015/09/17/opinion/1442504361_281943.html?id_externo_rsoc=TW_CM

Contar histórias

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Dizem os especialistas que uma boa maneira de motivar para a leitura é contar histórias às crianças desde muito pequenas; melhor ainda, contar as histórias com o livro na mão e mostrar-lhes as imagens à medida que, expressivamente, se lê o texto de cada página. Ler aos filhos pequenos um bocadinho todas as noites é meio caminho andado para os interessar pelos livros. Pois bem, a tarefa pode parecer fácil, mas, quando os filhos são muitos, a coisa, afinal, complica-se. Um professor de artesanato norte-americano, que costumava sentar um filho em cada joelho para ler a ambos a mesma história, viu a sua vida dificultada quando lhe nasceu um terceiro rebento, o que obrigava Rachel, a filha mais velha, a escutar o conto de pé. E o que fez então para não privilegiar ninguém? Como artesão experimentado, criou uma cadeira de balouço que dá para todos três ouvirem confortavelmente a mesma historinha contada pelo papá. Ao seu invento chamou StoryTime Rocking Chair – e a fotografia desta família para quem as histórias são importantes vai aí abaixo. Uma bela ideia!


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Zumbir

Esta é a história da Abelhinha, mas não se iludam, porque é tudo menos infantil. É um livro de que me falaram muito – e bem – há já uns anos e cuja leitura fui adiando porque aparecia sempre outra coisa mais urgente, mas agora consegui degustá-lo de uma assentada. Passa-se entre Londres e a Nigéria, e faz-me alguma espécie não ter sido mencionado nos recentes artigos sobre africanos que vêm escondidos nos porões dos cargueiros em busca de estabilidade na Europa, porque é disso mesmo que se trata e não pode estar mais na ordem do dia. Chama-se A Pequena Abelha e escreveu-o Chris Cleave, autor que nasceu nos Camarões. Está traduzido em tudo o que é sítio e fez parte das listas dos livros mais vendidos em países como o Reino Unido e os Estados Unidos no ano da sua publicação, recebendo elogios dos mais prestigiados jornais e revistas (incluindo o Guardian e o New York Times). E fala da história verdadeiramente trágica da Abelhinha, nome escolhido por uma rapariga nigeriana de catorze anos que foi testemunha da destruição da sua aldeia por causa do malfadado petróleo e, conseguindo embarcar clandestinamente rumo a Inglaterra, é internada num centro de detenção para refugiados e libertada dois anos depois em Londres – mas seria talvez mais correcto dizer «despejada por engano» numa das maiores cidades do mundo. Na contracapa do livro pedem aos leitores que não contem a história a ninguém, por isso não vou ser desmancha-prazeres. Direi apenas que tem momentos terríveis, dolorosos, bonitos, duros, também algo lamechas, e – além da Abelhinha – tem mais duas outras personagens de peso: uma jovem viúva inglesa e o seu filho de quatro anos, o fã número um do Batman, que protagonizam cenas impressionantes. E pronto: se estão interessados no assunto dos novos migrantes, aqui têm uma obra para perceberem melhor certas coisas. Além do que já sabem, bem entendido.

Futilidade

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Depois de ter publicado um livro chamado Esse Cabelo de que convém afastar toda e qualquer suspeita de futilidade (é, na verdade, o contrário disso), deixem-me aproveitar um dia sem ideias e assumir um post inteiramente fútil. Acho que todos nós (mulheres e homens, não importa) gostamos de nos apresentar bem ao lado de pessoas de quem gostamos, ou que respeitamos, ou até que não conhecemos, mas a quem queremos causar boa impressão por isto ou por aquilo. Sempre que fui à TV participar em algum programa e aquelas magníficas maquilhadoras profissionais se ocuparam de me pôr mais bonita, a verdade é que toda a gente me dizia depois como ficara tão bem. Ora, apesar de não ter nascido sem dotes para os trabalhos manuais (sei coser e tricotar), acontece que, se me pinto sozinha, na maior parte das vezes fico pior do que com a cara lavada. Percebi recentemente que também para isso é preciso ciência. E como? Pois bem, como haveria de ser? Num livro, que também os há sobre estas coisas comezinhas. Chama-se Maquilhagem Real para Mulheres Reais, escreveu-o a Inês Mocho e quem me falou dele foi a editora, que é minha colega e mo ofereceu quando lhe expliquei como era, de facto, bastante naba em questões de maquilhagem (que não de borrar a pintura). Assim, lá experimentei seguir os conselhos da autora no dia de um casamento para que fui convidada há pouco tempo e não é que os resultados foram compensadores? Tive de comprar alguns produtos novos, mas, enfim, acho que valeu a pena. Desculpem-me a futilidade, mas quem sabe não ajudo algumas leitoras de caminho?


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Pobres escritores

Tenho aqui referido várias vezes que Portugal, pela exiguidade do seu mercado, é um país onde é terrivelmente difícil viver da escrita (a menos, claro, que se seja uma estrela de TV transformada em escritor, mas os casos contam-se pelos dedos de uma mão). Porém, ao que parece, também nos países onde o mercado é substancialmente maior as coisas não andam de feição para quem escreve. Leio no Guardian um artigo que me informa de que, nos EUA, os rendimentos dos escritores desceram 30% em cinco anos (entre 2009 e 2014) e que muitos dos chamados «autores em full time» estão a receber mensalmente um valor que raia o limiar da pobreza. No entanto, não se vendem menos livros do que antes, a razão é diferente. Não só o aparecimento do digital favoreceu a pirataria (circulam pela net milhares de livros pelos quais os autores não recebem quaisquer direitos, tal como acontece, de resto, com filmes), mas também empresas dominantes como a Amazon levaram ao fecho de muitíssimas livrarias tradicionais, incapazes de concorrer com esses gigantes que, usando o seu poder, obrigaram os editores a aceitar condições que nunca aceitariam se não soubessem que, actualmente, sem a Amazon, iriam à falência. E essas condições leoninas passaram também do editor para o autor, que passou a receber menos direitos, sobretudo em edições que praticamente não têm custos, como os e-books, o que a Authors Guild considera profundamente injusto. Em Portugal, as vendas de e-books ainda não ameaçam o livro em papel, mas já existe bastante pirataria e é preciso estar muito atento ao que o futuro trará.

Luta de titãs

Há uns vinte anos, fiz uma viagem ao Japão para visitar um amigo de infância que, na altura, trabalhava em Tóquio. Na casa dele, já então havia moderníssimos aparelhos de todos os tipos (plasmas, estereofonias, etc.) com ar de terem sido demasiado caros; mas não o eram, porque, segundo explicou o meu amigo, os Japoneses são doidos por tecnologia e estão sempre a vender o que têm em casa para comprar o último modelo (todas as coisas que ele possuía tinham sido compradas em segunda mão, baratas, e eram, portanto, modelos considerados obsoletos em Tóquio, embora por cá fossem o último grito). Isto explica porque no Japão as vendas de livros online superam largamente as vendas de livros feitas pelas livrarias tradicionais que, com o tempo, têm vindo a perder clientes e muito dinheiro, sobretudo para a gigante Amazon.jp. De resto, para disso se defender, uma cadeia de livrarias chamada Kinokuniya (só uma das lojas tem a maluqueira de 66 andares, portanto deve ser outro gigante) resolveu adquirir 90% da tiragem do próximo livro de Murakami (um livro de ensaios) só para não permitir que o mercado digital se ocupe de mais de 10%, propondo-se vender exemplares com desconto a distribuidoras e retalhistas que estejam interessadas em revender. Tudo para que as livrarias tradicionais não morram e também elas possam ter maiores margens de lucro. Enfim, uma luta de Titãs…

Roth no seu melhor

A Cecília Andrade, editora da Dom Quixote, tem vindo a publicar a obra de Philip Roth, alternando títulos mais recentes com títulos mais antigos. Aconselho quem goste deste autor a não falhar nenhum e, podendo, começar pelo princípio e ir desbastando a lista. Mas, como não tive essa sorte, falo-vos agora de um romance dos anos 1980, A Lição de Anatomia (com excelente tradução de Francisco Agarez), que saiu recentemente e é para mim um dos melhores e mais divertidos. Inclui – como outros – o alter-ego de Roth como protagonista, o escritor judeu Nathan Zuckerman que, no início do livro, está morto com dores no pescoço e nos ombros há ano e meio, passou por médicos e tratamentos sem fim mas não sente melhoras, tem quatro mulheres a tratarem dele (em todos os sentidos, sobretudo naquele em que não estavam a pensar, tendo em conta que é um doente) e está viciado em analgésicos, vodka e marijuana, a única forma de conseguir alhear-se da dor. Mas, como perceberemos ao longo de muitas peripécias, Nathan tem outros problemas que se prendem com a morte dos pais (que nunca lhe perdoaram certas coisas que escreveu), a página em branco, os críticos literários pouco simpáticos e a saudade de ter amigos e uma ideia de futuro, pelo que decide, aos 40 anos, deixar de escrever e ir tirar medicina para a Universidade de Chicago, onde em jovem estudou literatura… Vale a pena ler o que acontece, claro, mas prepare-se para muito desaforo, muito sexo (dito e feito) e muito descalabro até ao final, sobretudo quando Nathan encontra uma personagem digna da melhor ficção e lhe veste a pele. Um livro que é mesmo à Roth.

Um soninho descansado

Uma investigação recente trouxe ao de cima alguns dados terríveis: nos EUA, ao que parece, o tempo médio de leitura de um artigo na Internet é de 15 segundos (ou seja, não é lido, é apenas espreitado) e, em 2014, um quarto dos cidadãos americanos adultos não tinha lido um livro sequer (e são muitos estes cidadãos, como sabemos). O estudo, do Pew Research Center, refere que todos os que têm hábitos de leitura mostram ter mais memória e mais capacidades mentais em todas as fases da vida do que aqueles que vivem com o nariz colado ao écran do computador, sempre a saltar de imagem para imagem, para além de serem melhores oradores (têm muito mais vocabulário) e, o que não é de somenos, até melhores pessoas em geral. E acrescenta agora uma vantagem que será seguramente uma benesse para quem sofre de insónias: quem lê na cama, mesmo que apenas uns minutinhos, dorme garantidamente melhor! Eu sou mais de ler sentada e é já quando tenho sono que me vou deitar…

Castigo ou talvez não

Leio no site da TSF uma curiosíssima notícia a respeito da originalidade da pena que certo magistrado no Irão vem aplicando aos adolescentes que se estreiam no pequeno furto ou crime do mesmo tipo. Tomando consciência de que, para gente nova e sem cadastro, a permanência numa prisão ou num reformatório deixa marcas físicas e psicológicas irreversíveis que tantas vezes só podem agravar o comportamento que leva ao delito, o juiz resolveu então aplicar uma receita verdadeiramente interessante: uma lista de livros que é preciso comprar e ler. Estes livros têm temas variados e graus distintos de complexidade; mas, de todos eles, é suposto o réu fazer um resumo que tem de entregar depois ao juiz como prova de ter cumprido o castigo (espero que não roube a sinopse da Internet). Os livros lidos por estes pequenos criminosos serão depois distribuídos por estabelecimentos prisionais, até porque este magistrado acredita que a leitura tem um efeito apaziguador, contribuindo para uma diminuição da violência entre os reclusos. E esta, hein?

O que ando a ler

Há muitos anos, mesmo muitos (contá-los far-me-ia sentir velha e escuso-me a esse embaraço), li Os Passos Perdidos, de Alejo Carpentier, que ainda consigo recordar em que lugar da estante se encontrava na casa dos meus pais. Mas, estupidamente, tinha-me esquecido de como este cubano escreve primorosamente, de como cada frase sua, cada parágrafo – às vezes longo, saboroso – é um presente para qualquer leitor digno desse nome. E digo isto porque, à procura de um outro livro, os meus olhos pousaram por acaso em Concerto Barroco, de Carpentier; e, dispondo de um meio dia para leituras não profissionais, logo me apropriei da novela que, por razões que nem eu própria compreendo, nunca me tinha passado pelos olhos (na verdade, nem a tinha, ganhei-a com o casamento – e o dote que o Manel trouxe tem muitas prendas destas). Pois, se a encontrarem à venda (eu sei que não é fácil), não a percam: é daqueles pequenos livros enormes! E tem como protagonista um mexicano (o «índio») que, em viagem à Europa, mais concretamente a Veneza durante o Carnaval, se mascara de Montezuma, o derrotado imperador dos Aztecas, e passa uma noite inesquecível com Vivaldi, Scarlatti e Haendel, além de com o seu criado negro que é uma espécie de improvisador de jazz avant la lettre. Anacronismos à parte – ou não, porque eles são parte integrante do enredo –, esta é uma história de como o Novo Mundo nunca foi bem compreendido pelo Velho Continente e de como as revoluções – como a cubana – são fundamentais para que certas coisas possam mudar. Procurem este Concerto Barroco e deixem-se, por favor, desconcertar.