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A mostrar mensagens de dezembro, 2010

Feliz Ano Novo

2011 está quase a chegar e, como sabemos, será um ano difícil para todos e dificílimo para alguns. Logo à noite vai haver festa e champanhe, como sempre, e pediremos doze desejos comendo já as passas do Algarve. (Por tradição, também eu o farei, embora deva confessar que no dia 1 já não me costumo lembrar de nada do que desejei.) É, contudo, importante que não deixemos de ler no ano que aí vem. Pondo de parte uma certa ganância inerente à natureza humana (que alguns exacerbam e outros dominam), estou convencida de que, se todos fôssemos pessoas esclarecidas, o mais provável era não termos chegado tão longe. Além disso, mesmo que os livros sejam caros para muitos, a verdade é que os concertos estão sempre lotados e só dão umas horitas de prazer, enquanto um livro pode ser lido, relido, emprestado, consultado e, regra geral, oferece mais qualquer coisa que fica cá dentro, mesmo que não nos apercebamos disso imediatamente. Eu conto manter-me por aqui a falar de livros e espero que no ano que vem se mantenham também os que me lêem. Um feliz Ano Novo e obrigada pela vossa companhia.

O génio simples

Nesta época em que vivemos, parece que já está tudo inventado – e, em matéria de literatura, é de facto muito difícil fazer bom e diferente. O segredo está muitas vezes em «baralhar e dar de novo», uma vez que se trabalha com um material abstracto chamado linguagem que, graças a Deus, não é estanque e aceita constantes combinações. Mas, se muitos críticos dão primazia à linguagem em detrimento da história para definir o génio literário, a verdade é que houve muitos génios da literatura que vingaram com um pelo menos aparente despojamento linguístico. Os escritores norte-americanos, por exemplo, não são lá muito dados a rendas e franzidos, optando, frequentemente, por uma simplicidade quase comovente na escolha das palavras e na composição das frases e apostando quase tudo na estrutura e na temática. É, pois, a todos os títulos, admirável essa novela que todos os jovens deviam ler – e muitos lêem – chamada O Velho e o Mar, que vive com apenas duas personagens (e uma delas não fala) no mesmo cenário, do princípio ao fim da narrativa. Se, por mero acaso, nunca leu a pequena obra-prima do génio Ernest Hemingway, guarde umas duas ou três horas da sua vida para depois nunca mais se esquecer dela.

Três livros grandes

Os livros hoje têm uma vida curta e, como se publica excessivamente, ficam pouco tempo nas livrarias, o que condena muitos deles a uma morte prematura. Os que têm a sorte de sobreviver são poucos e arriscam-se a tornar-se uma espécie de clássicos, embora muitos dos verdadeiros clássicos morram em vez deles e tenham cada vez menos leitores. Quando gostamos muito de um livro, ficamos desesperados ao ver que, nas gerações que se seguem à nossa, já ninguém lhe pega; e, porque creio que seria realmente grave que alguns títulos fossem esquecidos e riscados das leituras actuais, hoje dedico o meu post a três grandes romances (dois deles até no tamanho são grandes) que estão, quanto a mim, entre os maiores da literatura portuguesa. O primeiro é Sinais de Fogo, o romance que Jorge de Sena deixou inacabado e teve já uma adaptação ao cinema; o segundo é Finisterra, uma peça literária única no género da autoria desse poeta maior (e a cair perigosamente no esquecimento) que foi Carlos de Oliveira. O terceiro é Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, que está desde há uns meses disponível em pequeno formato na BIS e tem, por isso, um preço simpático. Se os jovens portugueses só lessem estes três livros, pelo menos já teriam lido qualquer coisa de grande.

Fábricas de livros

Normalmente, quando um autor encaminha o seu livro para uma editora, espera um sim, mas não estranha demasiado quando vem um não e até agradece, se for bem-educado, quando o editor lhe escreve a explicar porque sim e porque não. Às vezes, também recebe um talvez e, depois da conversa com o editor, tenta transformar esse talvez num sim que quer que chegue mais tarde. Há, porém, editoras que substituem a resposta (seja ela qual for) por uma mera tabela de preços. O pai de um amigo meu, a quem a reforma deu para escrever versos (não necessariamente bons), tendo inquirido numa livraria da vizinhança o que devia fazer para ver os seus escritos publicados, acabou a enviá-los para determinada editora que lhe aconselharam. E a resposta – que, quando é séria, frequentemente tarda bastante – não se fez esperar: x euros por cada caderno de 16 páginas e tem o seu livro publicado, além de que lhe fazemos um lançamento numa biblioteca da sua cidade! O senhor, orgulhoso da sua produção literária e ferido com o que considerou uma desfaçatez, não aceitou; mas acabo de conhecer uma rapariga que, noutra editora, concordou em pagar o que lhe pediam para ver o seu livro editado e nunca sequer se encontrou com uma pessoa de carne e osso: mandaram-lhe as provas do livro, puseram-lhe uma capa que ela nem viu e, em mês e meio, tinha o livro à venda... em quase nenhuma livraria, pois claro. Não sei se podemos chamar desonestas às pessoas que assim trabalham – não são, afinal, muito diferentes de uma simples gráfica e não diríamos essa palavra feia se fosse a gráfica a imprimir os versos do pai do meu amigo ou o romance da rapariga; e, porém, há qualquer coisa de feio neste negócio que, se fosse mais sério, teria um crivo e se recusaria a publicar o que não merece estar por aí nas estantes das livrarias (mesmo que sejam poucas). Bem sei que hoje até as editoras ditas sérias põem cá fora muitos livros que nunca deviam ver a luz, mas, pelo menos, arcam com os seus custos...

José e Pilar

Faço um intervalo nas sugestões de livros para falar do filme José e Pilar. Fico, em primeiro lugar, muito feliz por, finalmente, terem chegado os filmes portugueses em que não há desencontro entre o som e a imagem e em que se percebe tudo o que as pessoas/personagens dizem. (Foram tantos anos disso que quase me tiraram a vontade de voltar a ver cinema português.) Em segundo lugar, fico contente com este filme em especial, que é um filme sobre a vida de José Saramago e Pilar del Río num momento particularmente difícil da vida dos dois: o período em que, estando a escrever A Viagem do Elefante, o Nobel da Literatura adoeceu gravemente e teve de ser internado (vê-lo-emos também recuperar e assistir ao lançamento desse livro). Com algumas cenas pungentes (como aquela em que o escritor faz uma declaração em que ouvimos sobretudo a sua dificuldade em respirar), outras muito belas (como a porta do quarto de hospital enfeitada com luzinhas de Natal emoldurando uma Pilar triste e preocupada), outras divertidas (Saramago e García Márquez dormindo numa mesa de um encontro de escritores), esta longa-metragem fala de um amor feito de dedicação e cumplicidade, mas também do dia-a-dia perfeitamente inimaginável de um escritor célebre, que tem de escolher entre trezentos convites porque ninguém o deixa em paz. A ver, absolutamente.

Natal

Hoje, que anda tudo atarefado com as últimas compras de Natal e a preparar-se para uma ceia em família (tudo, não, claro – e o nosso coração tem de estar também com os mais sós e desprotegidos), a minha sugestão tinha mesmo de ser natalícia. Sugiro, assim, que leiam ou releiam a história de Ebenezer Scrooge, o avarento que Dickens imortalizou em Cântico de Natal e se transformou numa pessoa melhor graças às visões bastante aterradoras do próprio futuro. Num ano difícil como aquele que se aproxima – e que será, se não estou em erro, o ano do voluntariado – vamos lá aprender com a moral desta história de Dickens e dar uma ajudinha a quem estiver em piores lençóis.  Um feliz Natal para todos!

Aprender línguas

Quando era professora de Português nos anos 80, zangava-me muito quando os alunos absorviam como esponjas e utilizavam até à náusea palavras e expressões brasileiras – em vez das equivalentes portuguesas – por passarem demasiadas horas a ver telenovelas. Claro que muitas destas expressões eram tão deliciosas e certeiras que era difícil recusá-las («mentira tem perna curta» é obviamente mais redondo e eficaz do que «mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo»); mas eu, que passara a infância a ler o Tio Patinhas em traduções feitas no Brasil, com balõezinhos cheios de «grama» (relva), «bala» (rebuçado), «Oba!» e «bacana», nem por isso passara a utilizá-las no meu discurso (suponho que era por não as ouvir, e que isso muda tudo). Preferia, por isso, que os alunos lessem quadradinhos a que vissem telenovelas, até porque a banda desenhada é um excelente veículo de aprendizagem do mundo, ao contrário do que muita gente pensa e diz. Uma vez, em conversa com o Fernando Pinto do Amaral, hoje a dirigir o Plano Nacional de Leitura, chegámos inclusivamente à conclusão de que muito do francês que sabíamos o aprendêramos nos livros maravilhosos do Tintin, do Astérix e de muitas outras BD que, ao tempo, não estavam traduzidas (ou talvez nós nos recusássemos a esperar pela tradução). É pena que hoje, apesar das reedições destes clássicos, muita gente não faça a mais pequena ideia da sua profundidade e ache que são apenas livros para meninos preguiçosos que não gostam de ler...

Distribuir jogo

Falaram-me há uns dias de um estudo que prova que a maioria das pessoas que compram e lêem livros não tem a mais pálida ideia da editora que os deu à estampa. Imagino que os leitores deste blogue sejam excepção, mas é bem possível que muitos dos meus amigos leitores – de outras profissões e, portanto, alheios às lides editoriais – não saibam efectivamente quem publica os livros que andam a ler (mesmo quando sou eu a editora). Poder-se-ia, pois, pensar que a chancela é coisa secundária e que tanto faz que um romance seja publicado aqui ou acolá. Mas não é bem assim. Estou na LeYa, como sabem, para publicar novos autores portugueses e, como já me disseram, «distribuir jogo», consoante os originais sejam mais populares, comerciais ou literários. E estou a aprender que para os autores, em primeiro lugar, a chancela não é mesmo nada indiferente e marca, por assim dizer, a dose de literatura de cada livro – e, queiramos ou não, a sua qualidade. Mas também já percebi que a crítica dedica uma atenção completamente diferente a um livro que traga determinado selo editorial e quase o ignora se o selo é da editora x ou y, que associa imediatamente a livros de não intelectuais. Por outro lado, uma equipa comercial formada para vender autores literários não vende necessariamente bem um thriller ou um romance mais leve, até porque está habituada a trabalhar pontos de venda distintos daquela que comercializa livros do género com uma perna às costas. Distribuir jogo implica, assim, muita ponderação e ginástica em busca do casamento perfeito entre livro e chancela. Mesmo que depois, como disse, a maioria dos leitores não ligue nenhuma a isso.

Premonições

Há uns tempos, escrevi um post sobre a falta que me iam fazer num futuro não muito longínquo as presenças activas dos editores com quem fui aprendendo ao longo dos anos; e, na semana seguinte, um deles teve de ir desentupir uma carótida de urgência e outro abandonou na LeYa a chancela que dirigia há mais de vinte anos. Alguém me disse que esse meu post tinha qualquer coisa de premonitório e, se eu acreditasse em premonições, passaria a ter mais cuidado com aquilo que escrevo. Mas não acredito – e encontrei durante a vida um livro excepcional de um cientista – Carl Sagan – que desmistificava, entre outras superstições e crenças, os sonhos premonitórios, dizendo que basta fazer uma estatística sobre a quantidade de vezes que sonhamos coisas que não acontecem para ficarmos convencidos de que, quando acontecem, não estamos senão perante uma coincidência. A obra, recentemente reeditada, intitula-se O Cérebro de Broca, vindo este Broca do nome do homem que terá identificado a área do cérebro que aloja a capacidade de articular o pensamento com o discurso (deve ser mais complicado do que isto, mas corrijam-me os especialistas nestas coisas) e explica de forma acessível (como era usual em Sagan) as muitas fraudes ou falsidades bem construídas que, ao longo do tempo, convenceram milhões de ingénuos em todo o mundo. Feito de pequenos capítulos, aquele que mais me deslumbrou foi o que se debruçava sobre as experiências próximas da morte e os relatos dos que passam por isso e contam que viram uma luz branca e a imagem de Deus – e que o cientista interpreta como uma memória do nascimento (a expulsão do bebé que vem do corpo escuro para a luz e as imagens difusas do médico ou da parteira que o esperam cá fora). Lê-se como um romance e é muito bom para afastar crendices e pôr as coisas no devido lugar.

Alunos de Ciências

De há uns anos para cá, tenho assistido a uma mudança muito curiosa em Portugal: os jovens mais cultos e interessantes com quem me tenho cruzado são, regra geral, alunos de Ciências, e não de Letras, como acontecia no meu tempo, em que a gente mais ilustrada e profunda vinha sobretudo das Literaturas e da Filosofia. Talvez as médias requeridas para licenciaturas em Medicina, Arquitectura, Economia e outros cursos ditos técnicos sejam bastante mais elevadas do que as exigidas para as Humanidades e isso leve a que esses estudantes leiam mais, estudem mais e desenvolvam um gosto diferente pelo saber. Em todo o caso, é muito gratificante falar hoje com um jovem físico, médico ou biólogo e ouvi-lo acerca de grandes romances, correntes de pensamento, poetas-mitos e escritores marginais com um à-vontade que falta aos que estudam justamente literatura. Aconteceu-me recentemente com um autor cujo romance publicarei no ano que vem (é cedo para falar disso, mas prometo fazê-lo oportunamente) e que, por detrás de uma carreira científica (creio que o conheci em Pisa a fazer um mestrado ou um doutoramento há dois anos), se vê que tem uma cultura literária e artística apreciável e a usa para dar largas ao seu génio e talento incontestáveis (mas estes nasceram de certeza com ele). Não é caso único, tenho recebido mais romances interessantes de gente de ciência, e a Madalena – que trabalha comigo e de quem falei há dias – também se iniciou nos estudos na área científica e só mais tarde emendou a mão. Será que todos aqueles para quem a Matemática é um papão têm, na verdade, medo apenas do que parece difícil?

Uma história irlandesa

Há uns anos, o escritor irlandês William Trevor teve um livro na shortlist do Booker Prize (que não ganhou) – romance belo e muito triste chamado, despretensiosamente, A História de Lucy Gault. Passava-se nos anos 1920, no seio de uma família que sofria constantes agressões pelo facto de o seu patriarca irlandês se ter casado com... uma inglesa. Na sequência de uma tentativa frustrada de lhe incendiarem a casa, decide, pois, o capitão Gault afastar-se com a mulher e a filha para um lugar onde possam, enfim, viver em paz e segurança. Desconhece, porém, que Lucy – a filha de nove anos apenas – não os acompanhará: a sua casa é o seu pequeno mundo e tomou a decisão de não a abandonar. Esta tomada de posição, que arrasta consigo um acontecimento inesperado (a sua suposta morte), mudará para sempre as vidas dela e dos pais, vidas que acompanharemos ao longo dos anos e das páginas e que, evidentemente, nunca mais serão as mesmas. Contada como só um irlandês sabe fazer, esta narrativa chega a ser pungente, mas é paradigmática na forma como nos quer dizer que um pequeno acaso pode mudar tudo.

Chefe, mas pouco

Quando estava na Temas e Debates, trabalhou connosco durante algum tempo uma rapariga muito inteligente chamada Maria Mendes, que me tratava carinhosamente por «patroinha». Hoje, na LeYa, conto com a ajuda imprescindível da Madalena que, quando vê a hora adiantar-se, me manda ternurentamente para casa (como se ela também não devesse já estar a caminho) com um: «Chefinha, olhe as horas.» Dei-me sempre bem com as pessoas a quem era suposto ensinar alguma coisa, e o certo é que, dessa boa relação, tirei a vantagem de ir eu aprendendo imenso – como me aconteceu na QuidNovi com a Sofia (a quem hoje ainda telefono com dúvidas de revisão) e actualmente com a Madalena (que, além de ter um humor corrosivo absolutamente desarmante, noutro dia me apanhou uma data de vírgulas em falta num texto que eu já tinha lido umas três vezes). Gosto de trabalhar com gente que pensa e que gosta de aprender, porque a maior tristeza da minha vida profissional foi, durante sete anos, ter um chefe com o qual não aprendi uma única coisa (e a quem, infelizmente, não consegui ensinar nada, porque não era dos que aceitam aprender com quem está «abaixo»). Quando olho para trás, acho, aliás, que devo muito mais às pessoas que tive de «chefiar» do que às que deviam orientar o meu trabalho. É para todas elas, desde que entrei na edição, o post que escrevo hoje.

O doce fado

Quem gosta de bolos de pastelaria pergunta-se frequentemente se poderia fazê-los em casa. E, sim, pode. Há mais ou menos um ano que a fotógrafa Clara Azevedo e o designer Luís Chimeno reuniram num livro intitulado Doce Lisboa as receitas dos bolos das principais pastelarias da capital; e, por isso, se alguém se quiser atrever a confeccionar em casa jesuítas, bolos-de-arroz, palmiers, duchesses ou bons-bocados (entre muitos outros ícones da pastelaria portuguesa), tem à sua disposição uma verdadeira cartilha – com a vantagem de as receitas terem o aval das confeitarias que fazem as nossas delícias: da Benard à Mexicana, passando pela Suíça, a Confeitaria Nacional, a Versalhes ou a Rosa Doce. Mas o par de autores ganhou balanço e não sossegou enquanto não repetiu a façanha: um ano depois, resolveu oferecer-nos Tudo Isto É Fado, obra que reúne os petiscos que podem ser saboreados nas principais casas de fado de Lisboa. Para quem não gosta de doces, portanto, aqui estão os salgados mais fadistas da capital, numa apresentação gráfica cuidada que, a quem não cozinha (é o meu caso), dá vontade de visitar as tasquinhas e as catedrais e ouvir um ou mais fados enquanto se delicia com umas iguarias.

Passar a palavra

Quando era estudante na Faculdade de Letras, estava convencida de que os meus professores tinham lido tudo o que eu tinha lido e, obviamente, muito mais. O «muito mais» era, de resto, verdade, mas nem sempre as suas leituras e as minhas, afinal, coincidiam. Aquilo que se vive e publica em determinada época marca quase sempre as leituras de uma geração – e a verdade é que eu já não li muitos dos livros que leram os que têm mais quinze anos do que eu, mas também não lerei muitas das obras que fazem hoje as delícias dos meus jovens autores. E, porém, há que confessar que foi por publicar jovens autores que me encontrei com dois livros excepcionais que, por razões que agora não importa aprofundar, me tinham até então escapado. Um deles é o delicioso Bartleby, o Escrivão, de Herman Melville, de que João Tordo me falou sempre entusiasticamente e comprei na fantástica colecção reunida por Borges e agora publicada pela Presença. O outro (que, de tanto se falar nele, teria acabado por vir parar-me à mão) é As Velas Ardem até ao Fim, de Sandór Márai, uma pequena maravilha de que tomei conhecimento há uns anos, acompanhando o José Luís Peixoto a uma comunidade de leitores na Biblioteca de Almada, onde ele falaria sobre o seu Morreste-me; Maria João Seixas, que então animava essa comunidade, indicou no fim da sessão aos participantes que a próxima leitura seria a novela do escritor húngaro, e o José Mário Silva, que também estava presente, fez o favor de partilhar comigo as suas impressões muito positivas sobre a obra. Ambos são literatura a não perder e agradeço aos mais novos que mas tenham aconselhado tão vivamente. Agora, passo a palavra.

Classificações

Classificar uma obra literária nem sempre é fácil, menos ainda quando há que obedecer a uma nomenclatura. Quando era mais nova, na primeira editora onde trabalhei, tinha de preencher uma ficha bibliográfica por cada livro que era publicado e – o que era pior – de o classificar, cingindo-me a uma lista fornecida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros que, por muito extensa que fosse, me parecia sempre lacunar. Embora alguma coisa tenha sido feita para diminuir a confusão, a verdade é que os problemas de classificação subsistem, e não só quando o livro que temos na mão é mesmo uma obra inclassificável. Quando publiquei Atlântico, Um Romance Fotográfico, de Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena – belíssimo livro –, reparei que as livrarias o arrumavam sistematicamente na secção dos álbuns ilustrados e livros de arte, roubando-lhe provavelmente os seus leitores preferenciais – que visitavam sobretudo a sala de literatura. Agora, que recentemente dei à estampa o último romance de Miguel Real, encontro-o frequentemente arrumado na secção de História, porque, como se chama As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia – e embora tenha a palavra ROMANCE na capa –, é interpretado pelos livreiros como uma obra não ficcional. Nos Estados Unidos, um livro como As Cinzas de Ângela, de que aqui já falei, aparecia sempre nas listas de Não Ficção (uma vez que era autobiográfico), enquanto em Portugal foi sempre considerado um romance. E, para dar apenas mais um exemplo da desarrumação em que andamos, na zona dos livros Gay & Lesbian, não raro encontro títulos que nada têm que ver com essa temática, mas lá estão apenas porque alguém na livraria sabe que, por acaso, os seus autores eram gay ou lesbian... Enfim, nem tudo é mau: pode ser que um leitor que procure apenas uma coisa alinhada acabe a ler Oscar Wilde e se apaixone...

Marcas de sucesso

Num mundo cada vez mais concorrencial, as empresas esgadanham-se por achar um produto que se afirme no mercado e lhes dê lucro certo e sem espinhas. Quando falamos de livros, isso é tanto mais difícil quanto cada livro é um livro e nada garante que um autor ou género aparentemente bem-sucedido num determinado período consiga manter o êxito cinco anos depois. No tempo em que comecei na edição, quando um escritor era lançado e se vendia bem, quase sempre os leitores procuravam o seu livro seguinte; hoje, porém, as coisas já não são bem assim – até porque muita gente desconhece o autor do livro que anda a ler e, se este não se der ao trabalho de mostrar a sua carinha (que, sendo bonita, tem vantagem) pelos sete cantos do País, não poderá almejar a uma reputação que mereceria apenas pelo que escreveu. Mesmo assim, há temas que conseguem instituir-se como marcas de sucesso e raramente dão mau resultado. De há alguns anos a esta parte, os editores descobriram que Salazar é um deles – e, desde então, todos os livros que tragam no título o nome e na capa o retrato do homem que se manteve mais tempo à frente dos destinos da Nação são um negócio praticamente seguro. O problema é que, a par de uma fantástica biografia como a de Filipe Ribeiro de Menezes – que apresenta, efectivamente, muitos elementos novos para reflexão e conhecimento –, outras obras há que exploram o filão de modo mais à scandale, prontificando-se, por exemplo, a ilustrar-nos sobre a vida sexual e amorosa do nativo de Santa Comba Dão. Atentando no número de livros recentemente dados à estampa, parece que Sá Carneiro, trinta anos decorridos sobre a sua morte, corre o risco de se tornar outra marca de sucesso.

Hoje há conquilhas

Há uns dias, fui surpreendida com um comentário a um post que não era bem um comentário, mas uma comunicação, igual provavelmente à que outros bloguistas receberam – e digo isto porque me trataram apenas por «caro blogger», sem atenção a nome ou sexo (como notou, de resto, uma leitora), e a informação tinha mesmo ar de ser um copy/paste feito por alguém que teve de mandar a mesma mensagem a sei lá quantas pessoas. Diziam-me que o Horas Extraordinárias fora escolhido pelo programa da TVI 24 Combate de Blogs como candidato ao prémio de «Blog Revelação do Ano» e mandavam-me um link (http://combateblogs.blogspot.com) para ver com quem concorria, quais eram os outros prémios (blogue do ano, bloguista do ano) e quiçá até para poder votar em alguém ou em mim mesma. Fui lá espreitar e, embora o meu blogue seja muito pouco combativo para um combate de blogues, achei graça ver o Horas Extraordinárias, que fala essencialmente de livros, entre tantos que comentam diariamente a actualidade política (e, juro, não votei em mim porque nunca tive jeito para fazer batota). Devo certamente esta recomendação para prémio ao Tomás Vasques, participante no programa da TVI 24 e autor do blogue Hoje Há Conquilhas, Amanhã não Sabemos. Agradeço-lhe aqui publicamente e, como não faço tenções de ganhar, fico contente que a comunicação tenha servido para eu me lembrar de dizer aos meus leitores que leiam também o blogue dele (http://hojehaconquilhas.blogs.sapo.pt).

Uma casa na Palestina

A criação de um Estado palestino merece toda a nossa atenção, sobretudo depois da criação do Estado de Israel. Mas exige também de nós um conhecimento que nem sempre temos quando nos erguemos para defender um lado ou outro. É por isso a todos os títulos recomendável a leitura do romance de Alon Hilu, A Casa Dajani, um livro belíssimo e esclarecedor sobre o velho conflito. A sua acção começa em 1895 com a viagem de um agrónomo judeu – Haim Kalvarisky – para Jafa, na companhia de Ester, a sua mulher linda e frígida. Espera Kalvarisky que o clima da terra dos antepassados devolva a Ester o desejo sexual e, ao mesmo tempo, lhe dê a ele terras férteis donde possa extrair riqueza. Mas nada será linear, e o seu encontro com um rapazinho árabe muito perturbado – Salah Dajani, que tem visões de uma tragédia que se abaterá sobre o seu povo – e a mãe deste – mulher de olhos verdes cujo marido está sempre fora – será decisivo na perseguição dos objectivos do homem loiro e carente. Polémico quanto baste, contado ora pelo judeu, ora pelo menino árabe (e nunca saberemos quem mente e quem diz a verdade), A Casa Dajani traz-nos a história fascinante dos primeiros sionistas e acompanha o destino trágico de Salah e Haim a partir do momento em que o agrónomo seduz a mãe da criança e o pai desta aparece morto misteriosamente. Um desafio permanente para o leitor, o romance recebeu grandes elogios de Shimon Peres e ganhou o mais importante prémio israelita – que logo lhe foi retirado por razões que todos perceberemos ao lê-lo. A capa, com um portão abrindo-se para um pomar de laranjeiras, convida-nos a entrar nele sem preconceitos.

Um pássaro na mão

Não se deixe enganar pelas flores cândidas da capa nem pelo título, que pode parecer o de um romance cor-de-rosa. O romance é leve, sim, mas apenas porque não tem razões para ser denso e pesado – e, além de muito divertido, é sério e há que prestar-lhe a devida atenção. Chama-se As Asas do Amor, porque fala de aves e de amor – um caso triangular que envolve uma viúva e dois pretendentes maduros, todos membros de um clube de ornitologia no Quénia. Ela é branca, mas já foi casada com um negro que terá sido assassinado por opositores políticos. Eles são indianos, descendentes das comunidades de formiguinhas trabalhadoras que ali foram construir os caminhos-de-ferro quando os brancos achavam os negros demasiado indolentes para deixarem tudo pronto a horas (é também dessas comunidades, li algures, que provém o grande número de indianos que vivem em Moçambique). Escreveu o livro Nicholas Drayson e, se estou bem lembrada, ele chegou a estar na longlist do Booker Prize no ano em que saiu. Pois bem: a história de amor entre estas três pessoas de idade respeitável é uma delícia, já que os dois pretendentes a levar a bela viúva ao baile anual são uns senhores e concordam em auto-excluir-se se não conseguirem, num determinado período, listar um número de aves vistas superior ao do rival. E nós, leitores, deixamo-nos arrastar nesta aventura ornitológica cheia de humor britânico, vendo talvez perder o candidato que merecia ganhar, mas inequivocamente simpatizando com o dandy bem vestido e engatatão que consegue maravilhas à conta de alguma batota. Tudo com a maravilhosa África como pano de fundo.

Saudades

Um dia destes estava a arrumar livros – tarefa inglória quando já não sabemos onde os pôr – e dei por mim a reler os poemas de José Agostinho Baptista em vários livrinhos pequenos que a Assírio & Alvim publicou há muito tempo (e que estão reunidos numa espécie de obra completa – 1976-2000 – a que ele inteligentemente chamou Biografia). Tive saudades da poesia do José Agostinho Baptista, que me fez um dia uma dedicatória original que começava com uma frase do tipo: «Para esta parva, que...» A razão para a desfaçatez – se chegava a tanto – prendia-se com a circunstância de eu lhe ter dito que gostara muito das suas traduções de William Carlos Williams, mas não tanto das de Yeats... E ele mostrou a sua não concordância nessa dedicatória que me fez. Ache-se ou não bem, isso agora é irrelevante, o que importa é que se trata de um grande poeta que, talvez pela sua natureza – disseram-me que é um misantropo –, tem passado a muitos despercebido (digo isto, porque o vejo muito pouco citado em blogues de poesia). O último livro que lhe conheço tem um dos títulos mais bonitos de sempre – O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos –, está escrito em prosa e já foi publicado há algum tempo. Espero que saia outro em verso para eu matar saudades.

Uma espécie em extinção

Comecei a trabalhar na edição em 1987, quando o mundo dos livros era muito mais intelectual do que hoje e a capacidade de fazer negócio vendendo livros parecia até coisa secundária. Embora tenha havido aspectos positivos na grande transformação sofrida – a edição é hoje uma indústria cultural de grande peso para o País –, a verdade é que sinto que as editoras ainda estão de certo modo a viver do génio e das ideias dos editores que fizeram as grandes chancelas e se afastaram, foram afastados ou passaram de proprietários a assalariados de grandes grupos nacionais ou multinacionais (excepcionalmente, tornaram-se editores por conta própria e fazem uma preciosidade de vez em quando, mas pouco mais). Foi certamente a observá-los que aprendi quase tudo o que sei. Eles não se limitaram a importar sucessos do estrangeiro ou a convidar as meninas bonitas da televisão a escrever romances xaroposos: construíram colecções e linhas editoriais que ainda permanecem, recuperaram clássicos esquecidos, formaram gerações inteiras com as obras que deram à estampa, encomendaram livros a personalidades de indiscutível renome em várias áreas do conhecimento e trouxeram-nos autores que estão hoje entre os maiores da literatura mundial. E, porém, mesmo que alguns deles ainda trabalhem – e bem –, fico um pouco assustada quando vejo o tempo a passar e me rendo à evidência de que, daqui a dez anos, se calhar já não verei por aí o Zeferino Coelho, o Carlos Veiga Ferreira, a Maria da Piedade Ferreira, o Carlos Araújo, o Nélson de Matos... mesmo o Guilherme Valente, com o seu estranho feitio. Fico contente por poder viver com o Manel (Alberto Valente) – que, tenho a certeza, me ensinará ainda muito se, por hipótese, deixar a edição antes de mim –, mas ficarei muito mais só no mundo dos livros, pois quase todos os que hoje desempenham funções como editores são bastante mais novos do que eu e já começaram num tempo em que a edição era mais comercial e menos intelectual.

Surpresas da China

Como trabalho há mais de vinte anos com livros, as pessoas retraem-se um pouco de mos oferecer. É sempre, por isso, uma grande alegria quando aterra um presente em forma de livro na minha secretária. Um dia destes, estava eu a trabalhar, vieram entregar-me um envelope que alguém que passara a correr – provavelmente sem lugar para estacionar – deixara para mim na recepção da LeYa. Descobri dentro dele um livro chamado A Grande Muralha e o Legado de Tiananmen, assinado por Raquel Vaz-Pinto e publicado pela Tinta-da-China. Fiquei contente que a autora – que conheço desde os meus tempos da Temas e Debates, ainda ela estava a terminar o mestrado (hoje é investigadora na Universidade Católica) – tenha sistematizado e sintetizado neste volume os seus vastos conhecimentos sobre a China, ela que é uma especialista em Direitos Humanos e fez uma tese sobre a pena de morte na China. Porque este gigante está já a assombrar a Europa e os Estados Unidos com o seu desenvolvimento acelerado, mas ainda se mantém «uma ditadura de pedra e cal», para citar Raquel Vaz-Pinto, este é um livro fundamental para percebermos melhor os caminhos que o país do tamanho de um continente ainda trilhará neste século XXI.