A arte de argumentar
Há muitos anos li um livro admirável que passou completamente despercebido, mas faria certamente as delícias de todos quantos amam a filosofia. Decorria a sua acção num país sem nome, que podia ser Espanha ou Portugal, no tempo da Santa Inquisição; e contava a história de um náufrago que dava à costa numa praia perto de um mosteiro, vindo de um lugar estranho onde ninguém ouvira nunca falar de Deus. Para salvar a pele da fogueira, tem este homem culto e atraente de explicar porque não pode acreditar no que não conhece a um inquisidor inteligente que tenta provar-lhe, com a ajuda de uma menina que foi encontrada entre os lobos, que a ideia de Deus é inerente à criatura humana e anterior a qualquer aprendizagem. Os diálogos entre os protagonistas são de uma riqueza extraordinária em termos de argumentação e desafiam permanentemente o leitor a pôr-se no lugar ora de um, ora de outro. Chama-se esse romance O Conhecimento dos Anjos e foi escrito por uma inglesa, Jill Paton-Walsh, que – tanto quanto sei – não voltou a ser traduzida em Portugal. Mas é uma pérola a procurar nos «baús» dos alfarrabistas.
Tem os ingredientes todos para ser um livro interessante... a polémica de ser o homem, por natureza, um animal religioso, é algo que já vem de longe, e de vez em quando lá se acende de novo a chama da inquietação. :)
ResponderEliminarEncontrei o livro, quando tinha 13 ou 14 anos, na estante de livros do meu pai. Li-o duas vezes de seguida. Marcou, se calhar tardiamente, o meu amadurecimento como leitor, o que quer que isso signifique. Ainda hoje sorrio quando ouço falar dele. Como sorri agora.
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