Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2019

Hay Festival? Hay!

Amanhã vou fazer uma longa viagem até Bogotá, na Colômbia, para, no dia seguinte, apanhar um avião até Cartagnena das Índias, onde todos os anos se realiza um encontro literário conhecido por «Hay Fest». Vai ser uma loucura, pois chegarei lá na quinta à tarde, «actuarei» na sexta e no sábado de manhã e iniciarei a viagem de regresso ainda nesse sábado, chegando a Lisboa no domingo, se tudo correr bem. Acho que nem vou ter tempo para jet lag... Mas, enfim, sempre quis ver Cartagena ao vivo, mesmo a correr, e além disso a Puro Pássaro, uma editora colombiana que faz livros lindos, quis publicar uma antologia da minha poesia, a que chamou Y Amores Imperfectos, e portanto aceitar o convite para o Hay Festival era uma obrigação. Participarei num debate sobre edição de novos autores (com um editor independente espanhol), numa Gala de Poesia, numa apresentação da antologia e ainda numa ida a uma escola de meninos pequenos, com quem falarei da importância da leirura. Verei também amigos (descobri os nomes de alguns no programa). Até à próxima segunda não estarei por aqui, mas prometo retomar a actividade e fornecer o link da crónica entretanto publicada logo que possível. Até já.

Sonho e caos

Imagem

Portugal, Verão Quente de 1975. A fervilhante Revolução dos Cravos deu subitamente lugar a um imenso caos social e político; o País, em plena convulsão, está à beira da guerra civil. O poder disputa-se nos quartéis, nas ruas, nos campos, nas fábricas… O velho império de Quinhentos agoniza, com a independência das colónias e o êxodo de centenas de milhares de pessoas que regressam à velha metrópole. Entre estas, vêm também africanos num exílio forçado, imposto pela guerra e pela instabilidade, sobretudo de Angola. Esta é a história de um punhado desses homens em busca da sua identidade e de um lugar, num Portugal fragmentado que desconhecem. Operários de estradas labutam de sol a sol; estão fora e dentro do mundo, vivendo sob o manto de uma poeira que os torna fantasmas e sombras num teatro de mudança, cujo palco é um país que também parece andar à procura de si próprio. Às vezes choram, acreditam, lutam, apaixonam-se, perguntam que será feito dos que ficaram. Discreta e irónica, a presente narrativa, Homens de Pó, interroga o leitor sobre os limites da utopia e da realidade, e a importância da palavra e do sonho na construção das nossas vidas. E tem muito que ver com o que se anda a passar. É o último romance de António Tavares.


 


Picture1.jpg


 


 

Crónica e enciclopédia

Imagem

Hoje é dia de partilhar a crónica de sábado passado:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/19-jan-2019/interior/adeus-futuro-o-outro-e-o-mesmo-10452812.html


 


Uma excelente notícia: foram precisos mais de seis anos para um trabalho de conservação e colaboração sem precedentes, mas a Encyclopédie (a que deu o nome às outras, a famosa e precursora enciclopédia publicada no século XVIII por Diderot, D’Alembert e Jaucourt, está finalmente disponível online no site da Academia das Ciências Francesas, enriquecida – ainda por cima – com um aparato crítico inédito. Para quem goste de meter o nariz nas chamadas obras de referência, é uma felicidade!


 


Encyclopedie_de_D'Alembert_et_Diderot_-_Premiere_P


 


P. S. Outra boa notícia: a minha querida fadista Aldina Duarte canta hoje à noite na Fundação Calouste Gulbenkian!

O sol nas prateleiras

Talvez já aqui tenha falado disto, não me recordo; mas, numa busca rápida, não encontrei nada relacionado com o BiblioSol e, como tal, corro o risco de ser repetitiva, mas paciência. Penso muitas vezes, sobretudo por não ter filhos, o que será da biblioteca que eu e o Manel fomos construindo ao longo do tempo e que se vai perigosamente ampliando todos os dias. Até porque, como muitas outras pessoas, sei de  gente que se pelaria por ler e consultar alguns dos livros que ali estão, sobretudo os que já são muito difíceis de encontrar em livrarias e até  em bibliotecas mais pequenas. Pois bem, Renato Soeiro e César Silva propuseram que as bibliotecas privadas passassem a ser «abertas» ao público (com o acordo dos proprietários, bem entendido), no sentido em que muitos estudantes têm se calhar de percorrer grandes distâncias para ir a uma biblioteca ler um determinado ensaio quando, provavelmente, um dos seus vizinhos o tem na estante de casa e não se importaria de lho emprestar. O BiblioSol (é este o nome do projecto) funcionaria então como uma rede de bibliotecas aberta à comunidade: cada dono de  biblioteca inscrever-se-ia num site, disponibilizando-se para ser abordado por leitores à procura de obras específicas. Os leitores fariam o mesmo. E o livro procurado apareceria, provavelmente, com umas trocas de mensagens por e-mail. O BiblioSol estava inscrito no Orçamento Participativo de 2018 e, francamente, não sei se vingou porque nunca mais ouvi falar do assunto (e esta notícia que encontrei lá em casa a arrumar a secretária é de Agosto, pelo que me cheira que não tenha passado nas votações). Mas lá que era bonito, era. Até porque nos permitia falar de vez em quando com gente interessante e interessada e até poder aconselhar outros livros e autores ou receber sugestões. Enquanto, porém, nada acontece, que bata o sol nas nossas prateleiras.

Outra noite diferente

Ontem falei aqui do que é dormir (ou passar a noite acordado a ler) num quarto de hotel parisiense que é ao mesmo tempo uma biblioteca. Seria uma noite diferente, claro, mas as noites podem ser diferentes por variadíssimas razões (e, juro, não estou sequer a falar de sexo). Tenho sentido, sobretudo na minha vida profissional, que hoje se vive muito para o imediato e que se despreza, mesmo que involuntariamente, o médio e longo prazo. À excepção das ciências, que trabalham a pensar no futuro, as outras áreas do conhecimento andam sem ideias – e foi com alegria que vi anunciada uma “noite das ideias” no dia 31 de Janeiro, das 19h00 às 24h00 (data única mundial para um evento que, julgo, partiu da França, no qual é suposto que as pessoas se possam reunir com a finalidade de interagir, aprender e conversar sobre as suas ideias e a forma de as pôr em prática). Cá em Lisboa, vai ser na Fundação Calouste Gulbenkian e serão, creio eu, bem-vindos os contributos de todos. Não vou estar cá nessa altura (convidaram-me para ir a Cartagena das Índias, na Colômbia, ao Hay Festival), por isso, falo disto com a antecedência necessária para que todos fiquem atentos e participem. Haja ideias.

Uma noite diferente

Imagem

Aqui há uns anos, a escritora Inês Pedrosa, então directora da Casa Fernando Pessoa, promoveu uma actividade original em que vários escritores passavam a noite no quarto onde outrora dormiu Fernando Pessoa, em Campo d'Ourique. Não creio que tenha sido fácil ficar sozinho naquela grande casa, mesmo que à porta houvesse um segurança – e para mim seria também tremendo não ter um duche pela manhã... Em todo o caso, sempre deu certamente a quem lá dormiu para coscuvilhar os livros da biblioteca do nosso poeta e ler algumas páginas para ocupar a insónia. Embora não seja saudável ter estantes de livros no quarto de cama por causa do pó, a verdade é que as estantes ficam bem em todo o lado lado – e há um pequeno hotel em Paris, La Librairie, que disponibiliza duas suites fantásticas de tal modo forradas a livros que até na casa de banho podem ser encontrados volumes para leitura. Passar a noite nesta espécie de livraria pode ser bom para quem fale francês, até porque, ao contrário do que acontece no The Literary Man Hotel de Óbidos, que tem um conceito parecido, no La Librairie os livros não foram comprados a peso e em saldo só para encher as estantes, nem há quarenta exemplares de cada título; ali, têm qualidade literária e a marca dos seus antigos proprietários – tratando-se realmente de uma biblioteca com valor que foi levada para ali. Não sabemos quanto custa a diária neste estabelecimento, mas deixo-vos umas fotografias para aguçar o apetite para o que seria, de facto, uma noite diferente.


 


images.jpg


the-king-size-bed-in.jpg


index.jpg


 


 


 

Ecos de Eco

Tendo morrido há coisa de três anos, Umberto Eco continua, ainda assim, a fazer eco pelas nossas vidas, e não só pelos livros que deixou escritos. Recentemente, encontrei um velho artigo numa revista espanhola (um daqueles acasos em que estamos muito decepcionados com o presente e dá jeito encontrar algo que faça sentido) que, embora não especialmente laudatório para o escritor e pensador italiano, trazia muitas frases dele retiradas de entrevistas que, seguramente, ficarão para a história (e na nossa memória). A primeira – que é conhecida e talvez até já a tenha partilhado aqui a propósito do argumento ecológico contra o livro em papel – é que, se todos os chineses usassem papel higiénico, não haveria bosques (já vi que costumo citar mal; digo: «Se todas as pessoas do mundo […] não haveria planeta», mas não é grave). Quase como profecia (essa entrevista fora dada em 1997 e temia-se pelo futuro do livro por causa do advento do digital), está a afirmação de Eco de que a Xerox teria um projecto utópico sobre as bibliotecas que era pô-las em rede; as pessoas teriam então uma máquina em casa ou no trabalho para aceder aos livros e seria tudo muito simples (projecto que ao filósofo parecia muito melhor do que a pirataria das fotocópias e mais fácil de controlar os direitos de autor). E esta, hã? Não andou muito longe da verdade. Mas a minha tirada preferida é esta: «Nem racistas nem leis poderão evitar a grande mestiçagem cultural que se avizinha.» Que sonho fantástico, senhor Eco. Mas será mesmo assim, apesar do Erasmus e outros programas do género? Umberto Eco, que dizia que os escritores não deveriam fazer profecias nem futurologia, não chegou a saber de muitos muros foram construídos no mundo para evitar essa «mestiçagem»…

Crónica e editores de poesia

Hoje é dia de crónica e aí vai o link da de dia 12:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/12-jan-2019/interior/adeus-futuro-as-drogas-e-os-simples-10421268.html


 


Aproveito para vos informar que a Casa Fernando Pessoa estreia hoje às 18h30 um novo ciclo, Verso Livre – Carta branca às editoras de poesia, que inclui sessões de diálogo com editoras que se destacam pelo seu trabalho no campo da edição de livros de poesia em Portugal. Nestas sessões, como reza o título, os editores terão carta branca para dar a conhecer alguns dos seus autores e tradutores e contar o que os move num trabalho que se sabe difícil. A primeira editora convidada  é a não (edições), um projecto editorial  independente conduzido por João Rocha, que abarca várias colecções com identidades gráficas distintas e valoriza muito a estética e o lado visual dos livros (desenhos, colagens, etc.). A acompanhar o convidado desta primeira sessão, que terá lugar no auditório da Casa Fernando Pessoa, estarão dois dos autores que publica: Catarina Nunes de Almeida, poeta e investigadora, e Miguel Martins, poeta e tradutor. Estes últimos vão ler poemas seus e traduções de diversos autores publicados pela não (edições). Uma boa maneira de ficar a conhecer pequenos editores e o que os apaixona.

Manuel António Pina

Na sequência das comemorações dos dos 75 anos de Manuel António Pina (1943-2012), hoje começam em Lisboa as jornadas «Desimaginar o Mundo», dedicadas ao poeta, que se estendem até ao dia 9 de Fevereiro. O programa é promovido pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, a Faculdade de Belas-Artes e a Galeria Mira Forum e inclui, pelas 18h30, o lançamento de dois dois livros a que importa estar atento: Manuel António Pina: Desimaginar o Mundo: Descriá-lo e Manuel António Pina: Dos olhos e das Matérias. A apresentação contará com a intervenção do Professor José Carlos Pereira, que depois participará numa mesa-redonda com Ilídio Salteiro, João Paulo Queiroz, Rita Basílio e Sónia Rafael. Uma hora depois, abrirão duas exposições relativas ao poeta do Porto, uma de fotografia e outra de pintura. Na Invicta, a programação teve como convidados nomes ilustres da nossa Academia, desde logo Arnaldo Saraiva e Maria João Reynaud, mas também o amigo de muitos anos Álvaro Magalhães (poeta e autor de livros juvenis de grande êxito) e a poetisa Inês Fonseca Santos, entre outros. Houve ainda no final de 2018 uma extensão das jornadas a São Paulo para falar do outro lado do mar deste poeta magnífico que adorava gatos e tinha muitos (alguns, como dizia, em meia-pensão, outros em pensão completa). Lembremos, pois, o mestre e a pessoa fantástica que era com o seu poema intitulado Os Livros:


 


É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo "eu"entre nós e nós?

Um desabafo em perguntas

Estou aqui sem saber bem o que pensar – e desde já aviso que não vou responder a polémicas porque estou cheia de trabalho e as mãos, com o reumático, ainda me vão maçando.  Arte é arte e não deve ser amputada, certíssimo, disso ninguém duvida, pelo menos em tese. Esta é uma das poucas afirmações que farei hoje e, por isso, passo às perguntas. Será a arte para todas as idades – e daí tanta gente se ter indignado com o «reservado» para maiores de 18 anos na exposição de Robert Mapplethorpe, que eu até achei a parte mais fraca (mas também nunca apreciei muito o trabalho do fotógrafo, para que conste)? Cinema é também arte (a sétima) e tem uma classificação etária definida há anos sem que ninguém se insurja contra isso… Porque será que nas outras artes se refila tanto com balizas etárias, e no cinema não? Cortar três versos à Ode Triunfal de Álvaro de Campos num manual escolar (identificando por traços que houve corte e incentivando assim a busca dos versos em falta) é grave? (A mim cortaram-me muitos versos do Gil Vicente e não me lembro de isso dar notícia, e estávamos já em 1975-1976, ou seja, depois do 25 de Abril.) Um desses versos fala de «pândegos e putas», nada de mais, os alunos dizem palavrões a torto e a direito, não vejo razão para cortes; os outros dois falam de masturbação feita por «meninas de oito anos a senhores com ar decente em vãos de escada» (e o poeta diz que acha isso belo)… Os estudantes do Secundário já têm idade (17, 18 anos) para perceber (estão na idade da masturbação, segundo alguns comentadores), mas os autores do dito manual alegam que não quiseram promover um comportamento pedófilo (deixando ao critério do professor dizer aos alunos quais os versos em falta), e eu  acho que não deixam de ter razão porque, se estivessem lá os versos, alguns paizinhos iam cair-lhes em cima, está bom de ver, como sucedeu com o caso do livro de Valter Hugo Mãe aconselhado pelo PNL que falava de sexo anal. Já fui professora de Português e, uma vez, ao falar de adjectivos  a uma turma, disse simplesmente «A Ana é loira», e houve logo uma alminha que respondeu: «A Ana é loira só se for na… (pausa longa) debaixo dos braços», referindo-se a uma colega Ana, que por acaso era morena. Por isso, imagino que pode haver grande desestabilização numa sala de aula (mesmo aos 17, 18 anos) com os dois versos cortados à vista de todos: risinhos, chacota, convite à bandalhice, desvalorização do sentido do poema, enfim… É até provável que, em algumas turmas, nem se consiga dar a obra do engenheiro Campos como deve ser e tudo fique reduzido àqueles dois versos escaldantes na cabeça dos jovens («Álvaro de Campos? Ah, sim, aquele das meninas de oito anos a masturbarem senhores em vãos de escada?»), o que seria triste e injusto para o grande poeta da língua portuguesa (Campos é o meu preferido dos heterónimos). A senhora da Associação dos Professores de Português (salvo erro) diz que os professores repudiam o corte dos versos, mas falará por si ou por todos os professores? Porque está a notícia sobre este assunto na primeira página dos jornais em letras garrafais (outros assuntos quanto a mim mais importantes nunca vão para esse lugar)? Pergunto ainda se quem agora está chocadíssimo com o corte dos três versos da ode não é também quem ficou chocadíssimo por o PNL ter aconselhado o romance de Valter Hugo Mãe há tempos. (Encontrei pessoas no Facebook que por acaso se sentiram indignadas com as duas coisas; parece-me que há pessoas que simplesmente adoram indignar-se e não perdem uma oportunidade de o fazer, muitas vezes por razões contraditórias.) Também receio que muitos alunos de hoje não pesquem nada da Ode Triunfal (excepto talvez os versos cortados), de tal modo estão treinados a ler pela rama no raio dos seus telemóveis e a não pensar em nada senão no que vão fazer logo a seguir. E era isto. Hoje não respondo a comentários, isto foi mesmo só um desabafo.

Dona Flor e o censor

Imagem

Apanhei esta maravilha no Facebook, rede social donde por acaso ando afastadíssima há já uns tempos (quase só lá vou ver os aniversários e pôr o link deste blog e da crónica do Diário de Notícias, porque não me apetece estar sempre a assistir à agressividade alheia e ultimamente parece que as pessoas só querem insultar-se umas às outras). Portanto, foi mesmo uma sorte o achado, e parece que tinha sido partilhado por Francisco José Viegas (no Twitter ou no Instagram, já não me lembro) e alguém pegou nele e o ofereceu no seu mural. Trata-se do relatório de um censor, durante o Estado Novo, relativo ao livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Jorge Amado. E o que tem mais graça é que se consegue perceber perfeitamente que o senhor da PIDE gostou tanto do livro e da prosa do autor que faz tudo para «salvar» o romance de não ser vendido e distribuído em Portugal. Arrisco-me a dizer que também apreciou sobremaneira as cenas de sexo, certamente raras ou inexistentes na literatura portuguesa da época. Deixo-vos o documento para degustarem. E aproveito para dizer que saiu recentemente uma biografia de Jorge Amado assinada por Josélia Aguiar, que também já foi programadora da FLIP, o mais internacional festival literário do Brasil, que acontece anualmente em Paraty. A ler, claro.


49608088_10155671667816386_8431350603996725248_n.j


 

A importância do contexto

Tem-me irritado bastante um certo discurso politicamente correcto a propósito do passado histórico de Portugal e Espanha – conquistadores, escravocratas e colonizadores, ninguém nega –, fazendo tábua rasa do contexto em que tudo se passou e tornando uma empresa que foi realmente épica (sobretudo a nível do desenvolvimento da ciência e da navegação) num acto de violência puro e duro. Não é aqui o lugar para fazer tal discussão, mas serve esta introdução para dizer que até as frases, fora do contexto e da época em que foram escritas, se tornam difíceis de compreender. O exemplo é chamar «milionária» a uma cidade como Havana, calculem, que hoje é tudo menos isso – e até já foi mesmo uma cidade de profunda miséria, nos anos 1990, em que as pessoas pediam aos estrangeiros que andavam na rua coisas tão elementares como sabão, azeite, pensos higiénicos e roupa interior (estive lá nessa altura e assisti a muitas cenas dessas). Mas esqueçamos essa época triste de Havana e voltemos então à sua glória cem anos antes para ver o que Eça de Queirós, diplomata na cidade, dizia dela numa carta a Ramalho Ortigão (sim, fui à exposição sobre Eça num destes domingos de manhã e foi aí que li esta pérola): «Detesto-a a esta cidade esverdeada e milionária, sombria e ruidosa – este depósito de tabaco, este charco de suor, este estúpido paliteiro de palmeiras!» Embora não concorde (conheço outra Havana), vê-se logo o génio do autor.


 

Crónica e nervo

Hoje é dia de crónica (e aqui vai a de dia 29, a última de 2018, com tema a pedido do próprio jornal para aparecer ao lado de um artigo sobre o Nobel e também mais curtinha):


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/29-dez-2018/interior/quanto-vale-o-talento-10375864.html


(link corrigido)


 


Está já disponível o quarto número da revista Nervo (é bom sabermos que certos projectos bonitos sobrevivem), e desta feita tem poesia de, entre outros, Ana Marques Gastão, André Domingues, Manuel Halpern, Margarida Vale de Gato, Nuno Júdice, Rosa Oliveira, António Carlos Secchin. Vamos ler?

Uma mansarda

Um grupo de amigos de diversas áreas do conhecimento (Patrícia Vasconcelos, Rui Horta, Jorge Salavisa, Camané, Rui Cardoso Martins, Henrique Cayatte, José António Pinto Ribeiro, Anabela Mota Ribeiro, entre muitos outros) trabalha já há vários anos para a criação de uma residência para artistas, já que «os criadores e todos aqueles que diariamente dedicam a sua energia à arte e aos palcos estão, tantas vezes, entre os mais frágeis e desprotegidos da nossa sociedade». A associação, que é uma IPSS, chama a este bonito projecto Mansarda e está quase a começar a ver cumprido o seu sonho, pois o escritório, cedido pela Câmara Municipal de Lisboa (Rua Mário Cesariny, 6), vai ser inaugurado no próximo dia 17 de Janeiro, às 18h00, numa sessão em que os fundadores vão revelar o local onde será construída a residência. O objectivo é que esta possa ajudar os artistas nos momentos em que a vida lhes troca as voltas (conhecemos tantos casos de actores e escritores que perderam o emprego, viveram pelas ruas, acabaram na miséria...), que lhes dê casa mas também um ombro amigo («verdadeiro antídoto para a solidão») e favoreça uma interacção entre jovens e mais velhos, para que estes últimos, que já nos deram tanto, possam envelhecer activamente e com dignidade.

Que mais irá acontecer?

Em mais ou menos dez anos, os Estados Unidos perderam quase metade dos seus pontos de venda de livros. Entre a crise financeira chegada em 2008 e o ano de 2017, despareceram também milhares de empregos em todos os ramos de negócio que talvez nunca venham a ser repostos; mas, se a indústria do tabaco acusou uma queda respeitável (sem dinheiro, as pessoas não podem ter vícios, donde passam a ser necessários menos funcionários nas tabaqueiras), esta foi bastante menos acentuada do que a verificada na indústria editorial e gráfica e também no retalho. Porém, todo o sector ligado às publicações entrou verdadeiramente em colapso com a chegada ao poder de Donald Trump (que prefere o Twitter, já sabemos, e cortou apoios sem fim à cultura), pelo que os estabelecimentos que vendem, além de livros, revistas e jornais perderam mais de 43% dos postos de trabalho que detinham em 2007, e todas as actividades ligadas aos livros – encadernadores, gravadores, etc. – mais de 44%. O pior é que os ordenados dos que ainda têm emprego não aumentaram (menos gente a fazer o trabalho de mais gente poderia implicar um salário melhor); e, com o desdém mostrado pelo Presidente relativamente à informação e à leitura, não sabemos o que o futuro reserva a todas estas pessoas e empresas. Suponho que más notícias, para variar.

Escolhas

Como sempre, os jornais de final de ano encheram as suas páginas de listas de livros, discos, peças de teatro, exposições, etc., classificando-os como os melhores de 2018. Fico sempre um pouco reticente com algumas das escolhas, sobretudo quando recaem sobre livros que já saíram há muito tempo e têm apenas uma nova edição (às vezes, com a tradução de sempre), ou pequenas obras de nicho (só para meia dúzia), ou até livros que não foram sequer traduzidos. Mas, pronto, que fazer? Eu própria não resisto a passá-las a pente fino, e a última que me veio parar à mão foi a do Centro Nacional de Cultura (CNC) que, na ficção, inclui vários livros e autores com os quais tenho bastantes afinidades e ligações: Memórias Secretas, de Mário Cláudio, por exemplo, que publiquei com muito gosto e constrói as memórias de heróis de BD; mas também os mais recentes romances de João Tordo e Djaimilia Pereira de Almeida (escritores de quem publiquei as obras de estreia); a obra completa de Maria Judite de Carvalho (uma grande senhora da nossa literatura que por acaso é também avó de uma querida amiga) e até o romancista principiante Rui Lage (com o livro O Invisível, que gira à roda do Pessoa e li numa versão anterior à que ganhou o Prémio Agustina Bessa-Luís). No ensaio, o primeiro lugar foi para um livro de Romero Magalhães sobre o Algarve no século XVI (o professor morreu há pouco mais de uma semana, nem sei se chegou a saber), seguindo-se-lhe o livro de Onésimo Teotónio de Almeida sobre a ciência na era dos Descobrimentos. Na poesia, deu-se primazia à obra completa de Ramos Rosa. O CNC fez uma lista de que gostei, para variar.

Afinidades

Não falei do que andava a ler no início do mês, mas falo agora: trata-se de um romance de capítulos bastante curtos escrito por uma catalã, Tina Vallès, e intitulado A Memória da Árvore (Dom Quixote). A capa e o título despertaram a minha atenção, mas foi sobretudo a sinopse da contracapa que me convocou, porque falava de um neto e de um avô, cuja relação é aprofundada (mas também alterada, e de que maneira) pelo facto de o último sofrer de Alzheimer e ter de deixar a própria casa para ir morar com a filha e o genro na cidade. Quando comecei a lê-lo, tocaram logo campainhas: em primeiro lugar, A Despedida de José Alemparte, de Paulo Bandeira Faria (autor que infelizmente morreu cedo e não pôde brindar-nos com outras maravilhas), que tocava o mesmo assunto (embora tivesse outra história importante de permeio), o de um avô com Alzheimer que quer fixar as coisas enquanto ainda é possível recordá-las, e de um neto cómico que lhe faz companhia e usa o seu computador. Mas também Rugas, um romance gráfico notável que conta a história de um homem a quem é diagnosticada a referida doença e é internado num lar onde a vida não é uma coisa bonita de se ver (este teve filme, que apanhei por acaso há uns anos num canal por cabo, e nem era mau). São três livros afins, apesar de o de Tina Vallès ser muito mais enternecedor e comovente do que os outros. Todos valem a pena.

Crónica e domínio público

Hoje é dia de partilhar a crónica; e desta feita ponho aqui a do dia 23:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-dez-2018/interior/ementa-de-natal-10343409.html


 


Comunico ainda, segundo a «notícia» dada pela jornalista Isabel Lucas no Facebook, que este ano entram no domínio público, entre outras, as obras dos seguintes escritores: Marcel Proust, Edith Wharton, Joseph Conrad, Willa Cather, D. H. Lawrence, Agatha Christie, P. G. Wodehouse, Rudyard Kipling, Robert Frost, Katherine Mansfield, Wallace Stevens. Isso quer dizer que, não tendo de pagar direitos, muitas editoras por todo o mundo se afadigarão a publicá-los ou republicá-los. Uns terão novas traduções, estou certa, outros verão pela primeira vez a luz em certos países. Gostaria muito de ter tempo e unhas para traduzir Robert Frost, poeta norte-americano que adoro. Mas o que importa é ler estes senhores e senhoras que continuam a ser conhecidos e citados tantos anos depois de terem morrido. Isso é o que os torna clássicos.


 

Leituras

Ando com mil coisas para fazer, entre pessoais e profissionais; e, claro, o blog vai sofrer com isso nos próximos dias... É que comecei o ano com o que aparentemente é um surto reumático nas mãos (a idade a dar sinais?) e, além de escrever se tornar mais penoso, há que fazer análises e ir mostrar as manápulas ao médico, o que tira tempo e vontade. Por isso, hoje digo-vos apenas que me ofereceram quatro belos livros este Natal, esperando que desse lado, se quiserem, façam o mesmo. Foram: Uma História Antiga, romance de Jonathan Littell (que já antes escrevera o muito bem-sucedido As Benevolentes); Eliete, de Dulce Maria Cardoso (que é, segundo as críticas que li nos jornais, um primeiro volume de uma história maior); Berta Isla, de um dos maiores autores espanhóis vivos, Javier Marías; e Tantas Palavras, que inclui (maravilha abolsuta) todas as letras de Chico Buarque! Mas ainda não li nenhum dos quatro e, assim, não posso comentar. No entanto, estas foram prendas belíssimas e até raras, porque a mim as pessoas quase nunca oferecem livros, pensando se calhar que os arranjo mais baratos ou de graça, o que não é verdade.

Para todos os gostos

Hoje seria o dia de dizermos o que andamos a ler, mas deixei este post alinhavado antes de partir para férias, sabendo que não iria ter tempo de me dedicar ao blog antes do regresso. Amanhã ou depois falarei das minhas leituras e também porei os links das crónicas que entretanto foram publicadas no Diário de Notícias (dias 23 e 29, respectivamente). Hoje estou aqui praticamente para dizer olá e aconselhar alguns cursos e oficinas no El Corte Inglés (cujas inscrições terminam em breve e daí a urgência em mencioná-los já hoje). Se gosta de policiais, não perca O Adeus à Arma, curso que ministrará Francisco José Viegas, um grande conhecedor do género (e autor de livros com trama policial, embora inequivocamente literários), já a partir de dia 18, às 18h30 (serão nove sessões). Por outro lado, Miguel Real vai dar um curso intitulado O Pensamento Português do Século XX, com sete sessões bem recheadas, entre 21 de Fevereiro e 14 de Março. Tudo isto decorre em Lisboa, mas nas instalações de Gaia Mário Augusto vai dar A Volta ao Mundo em 80 Filmes já a partir de 15 de Janeiro e Joel Cleto oferecerá, mais ou menos nas mesmas datas, um curso sobre o Porto no espaço da Livraria. Há mais temas, claro, desde o Egipto dos faraós ao vinho, mas isto já chega para uma pessoa se entreter… Até amanhã.