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A mostrar mensagens de julho, 2016

Férias à vista

Amanhã vou de férias e suponho que a maioria dos leitores deste blogue também. Apesar de muitas alegrias (Portugal campeão da Europa de futebol e muitas medalhas no atletismo e no hóquei), o ano tem sido de muito trabalho, e não só estou a precisar de descansar fisicamente como a precisar de tempo para me concentrar num livro que espero começar em breve (depois conto). Não vou, por isso, regressar aqui a esta nossa casa comum antes de Setembro – e perdoem-me os Extraordinários a ausência, mas prometo trazer boas novas por essa altura (livros novos e outras leituras). E, porque vou para perto do mar, lembrei-me de me despedir hoje com o livro de John Banville, O Mar, que ganhou há uns anos o Booker Prize e conta a história de um homem que, depois de perder a mulher de uma vida inteira, decide regressar às memórias da infância (quase todos os velhos a buscam no fim da vida) e revisitar uma estância balnear onde passou férias em criança e teve a sua primeira paixão  (por uma mulher que devia ter a idade da sua mãe, mas na verdade não se parecia nada com ela, e uns dias depois pela filha dela). Quem não for para o mar, pode levar por isso O Mar no bolso e, se não vier bronzeado, virá, pelo menos, mais lido e mais rico. Boas férias a quem vai de férias! Bom trabalho a quem fica! O mais importante de tudo: leiam sempre!


 

Boas ideias

Todos os que escrevem – julgo eu – gostam que os seus textos dêem origem a críticas, comentários e ideias interessantes. Não sou excepção. Há muitos anos, quando publiquei o meu primeiro livro de poemas, A Casa e o Cheiro dos Livros, contaram-me que um padre da igreja do Lumiar leu na missa de Quinta-Feira Santa um poema meu chamado «A Última Ceia» e fiquei admirada e contente; mais tarde, uma estudante de joalharia inspirou-se num texto meu para fazer um alfinete de prata que acabei por ver numa exposição colectiva (e que não resisti a comprar); e, entre muitas outras coisas que dão ânimo e alegria, fui há pouco informada de que uma mestranda de Arquitectura da Universidade do Minho chamada Carla Gonçalves Ferreira realizou uma tese intitulada «Casa Sentida: Proposta de um Exercício de Projecto a partir de Uma Antologia de Poemas» que reflecte o projecto de uma casa para um «cliente fictício». A originalidade está em que esse cliente é um leitor de poesia que fornece à arquitecta (para a inspirar?) uma antologia de poemas de vários autores portugueses nos quais é sempre abordado o tema da casa, directa ou indirectamente. Dois desses poemas eram meus, de dois livros diferentes (e, sim, a casa é talvez um dos temas que mais vezes trato) – e agora a Universidade (que, suponho, gostou muito da ideia) decidiu editar a antologia poética para oferecer a alunos e professores. Não são estas coisas que fazem andar a vida? Eu gostei – e agora quero ler a tese e descobrir a antologia de ponta a ponta.


 


P.S. Hoje, na FNAC de Santa Catarina, no Porto, plas 18h30, fazemos o lançamento do romance As Histórias Que não Se Contam, de Susana Piedade, finalista do Prémio LeYa em 2015. Apareçam!


 

Escrever em Berlim

Na sequência da visita de editores alemães e ingleses a Portugal durante a última Feira do Livro de Lisboa, de que já aqui vos falei, a nossa diplomacia na Alemanha dá-nos mais uma boa notícia: a da criação de uma residência literária em Berlim, durante um ou dois meses, para um escritor português, com o apoio de uma associação local. Não só é sempre bom sair da rotina e das preocupações diárias e ser catapultado para um lugar onde a única obrigação é escrever, como estas residências têm habitualmente efeitos colaterais benéficos, pois permitem ao escritor-residente o contacto com confrades, agentes e editores do país onde está e ainda a hipótese de realizar leituras e encontros com o seu público potencial que, uma vez por outra, acabam por facilitar a tradução e a publicação da sua obra. Se escreve, tem obra publicada e gostaria de passar uma temporada em Berlim a começar ou terminar um livro, consulte o site da Embaixada de Portugal em Berlim para perceber se pode candidatar-se. Ou este link que, no fundo, dá toda a informação necessária sobre o assunto. E boa sorte!


 


https://www.berlim.embaixadaportugal.mne.pt/pt/a-embaixada/noticias/282-abertura-de-candidaturas-bolsa-de-residencia-literaria-em-berlim


 


P.S. Ontem, por causa do post sobre o desaparecimento das bibliotecas itinerantes, recebi o seguinte esclarecimento (importante) de José Manuel Cortês, da DGLAB: «Hoje estão em funcionamento mais de setenta bibliotecas itinerantes (agora chamam-se bibliomóveis) em todo o país que trabalham em articulação com as bibliotecas públicas municipais. Eu reconheço que são poucas para as necessidades. Mas também sei, segundo informações que tenho, que há tendência para aumentar. Estou à vontade para falar disto porque é uma inciativa fundamentalmente das Autarquias. Principalmente em áreas com povoamento muito disperso e com comunidades com dificuldades de deslocação.» São, portanto, boas notícias!

O que deixa saudades

O jornal digital Observador publicou recentemente um artigo sobre as velhinhas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, afirmando que nunca nada em Portugal conseguiu fazer tantos leitores como elas e perguntando-se simplesmente porque não voltam. Pois bem, a verdade é que conheci enquanto estudante e enquanto editora – portanto, em dois tempos muito distantes entre si – muita gente que começou a ler por causa destas carrinhas ambulantes cheias de livros que passavam nas terras mais insignificantes e punham a miudagem toda a ler. (Em 1959, já havia mais de 80 000 leitores espalhados pelo País à espera das bibliotecas em 118 concelhos! E, para quem não saiba, os poetas Alexandre O’Neill e Herberto Helder colaboraram com o projecto, orientando leitores e tirando-lhes dúvidas). O serviço foi, porém, extinto ao fim de 44 anos, em 2002, por falta de público, uma vez que o Estado criou uma rede de leitura pública e construiu bibliotecas fixas por todo o País que, tanto quanto sei, são bastante frequentadas por muita gente, dos miúdos aos mais velhos que ali vão ler muitas vezes os jornais. Mas não é a mesma coisa, claro: a carrinha dos livros tinha o mesmo apelo da carrinha dos gelados. Leio que a Fundação Calouste Gulbenkian não pondera o seu regresso, mesmo noutros moldes. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

O autor e o leitor

Hoje em dia os autores vão a todo o lado – escolas, bibliotecas, feiras, festivais – e não raro têm de estar na berlinda a falar com aqueles que lêem ou virão a ler os seus livros. De um modo geral, os escritores vão descontraidamente para esses lugares e respondem àquilo que lhes perguntam, mas há quem ache que esses momentos são determinantes para se conquistar o público e não devem ser desperdiçados. Num artigo de Jane Friedman, uma mulher com vinte anos de experiência editorial, ela aconselha aos novos autores cinco passos que os vão ajudar a ter êxito nestas actividades. Em primeiro lugar, pensar no que vão dizer e escrever tudo de fio a pavio (um texto para dez minutos de conversa e talvez outros dez de leituras, que podem ser intercaladas na conversa); se usar o humor, óptimo, mas só se for o tipo de pessoa que já recorre habitualmente a ele. Em segundo lugar, ler alto o texto até se sentir completamente confortável com ele (cortar tudo o que for complicado de dizer). Em terceiro lugar, transformar esse texto em notas, usando um tipo de letra maior e palavras-chave que recordem o texto completo: partir delas para a conversa. Em quarto lugar, Friedman aconselha que se varie o tom do que é dito e do que é lido e não se escolha nenhum excerto demasiado difícil – a linguagem escrita é uma coisa, a oralidade é outra. Por fim, o autor deve pensar em todas as perguntas mais plausíveis que lhe vão ser feitas e ensaiar as respostas. Assim, garantidamente, vai sair-se bem. Bons conselhos para quem começa.

Dançar

Dizem que dançar é uma coisa maravilhosa que faz bem à saúde física e mental. Eu delicio-me a ver dançar quem sabe e já não dou uns passos de dança há mesmo muito tempo, mas, quando se usava dançar, também me fazia sentir bem. A dança liberta – e é sobre isso também que fala o livro que hoje vos trago, Dança, assinado por um dos maiores ilustradores portugueses – João Fazenda, com quem já tive a sorte de poder trabalhar na minha biografia de Amália para os mais novos. Mas desta feita João Fazenda trabalhou absolutamente sozinho e conseguiu contar uma história em imagens – a de um homem viciado em trabalho que não se consegue descontrair nem arranjar um momento de pausa para dar um passinho de dança com a mulher. Este livro cheio de cores mostra bem a tensão do homem e a descontracção da mulher e foi muito justamente distinguido recentemente com o Prémio Nacional de Ilustração 2015, promovido pela Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, naquela que é a sua vigésima edição. Receberam ainda menções especiais do júri Yara Kono e Bernardo Carvalho – e já se sabe que por aí se diz que são sempre os mesmos a cativar o júri, mas a verdade é que todos eles são muito bons! Dance-se um pouco com este livro!


 

Somar livros

Li um interessante artigo numa revista americana sobre o acumular incessante de livros por certas pessoas. Falava de alguém que entrava numa livraria sem intenção de comprar nada, mas saía sempre com três ou quatro livros novos – algumas vezes apenas novas e melhores edições de alguns títulos que já tinha em casa. Penso que todos os que visitam este blogue são um pouco assim, excepto os que têm o bom hábito de ir às bibliotecas (mas nem todos temos horários para isso), até porque há muitos livros que precisamos de consultar mas, na verdade, dispensaríamos ter. No entanto, já Walter Benjamin dizia que uma biblioteca com uma maioria de livros não lidos é muito mais inspiradora do que uma biblioteca de livros lidos. E, a este propósito, contava que, quando um homem rico e ignorante visitou um dia Anatole France, olhou para a sua biblioteca e perguntou se o escritor francês tinha lido todos aqueles livros; ao que ele respondeu que nem um décimo, mas que provavelmente o outro também não se servia da porcelana de Sèvres todos os dias...


 

À procura da luz

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Todas as pessoas têm problemas e contrariedades, embora nem todas os aceitem e resolvam da mesma forma e com igual resiliência. Há, mesmo assim, quem tenha visto a sua vida de tal maneira virada do avesso numa determinada circunstância que, forte ou fraco, precise mesmo de tempo para voltar a pôr-se de pé. É o caso das três protagonistas de As Histórias Que não Se Contam, de Susana Piedade, romance que foi finalista do Prémio LeYa no ano passado e sai este mês para os escaparates. Ana, Isabel e Marta sofreram (e sofrem) o indizível, tanto mais que não puderam sequer preparar-se para o que lhes aconteceu; e, assim, o seu desgosto, aliado à culpa de não terem conseguido evitá-lo, faz com que pensem que contar as suas histórias não vale de nada, pois ninguém que não tenha passado pelo mesmo poderá compreendê-las inteiramente. Mas, lá está, o acaso acaba por juntá-las, e da partilha das suas dores vai ser possível fazer nascer dias novos para cada uma delas e sobretudo impedir que algumas histórias realmente dramáticas se repitam. Muito actual nos temas e com um estilo poético e cuidado, este livro fala da importância de conversar sobre as coisas para que nos possamos libertar da escuridão e seguir em frente.


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Vamos ler um fadinho?

Aqui há uns dez anos, desafiaram-me para escrever as minhas primeiras letras de fado. A princípio, foi difícil: o espartilho da métrica e da rima era um mar menos livre do que aquele em que me acostumara a nadar, e as primeiras tentativas levaram dias e dias a ser concluídas. Mas, de repente, foi como um regresso à poesia que escrevia na adolescência e funcionou um pouco como o andar de bicicleta que, segundo dizem, nunca se desaprende. Nunca mais parei... Escrevo sempre para pessoas que me pedem e muito raramente para ninguém, ou seja, é raro fazer uma letra só porque sim. Mas admiro quem as escreva assim no abstracto, sem nem saber se virão a ser cantadas, e sei de um livrinho de letras de fado – Fado Maior, de Hélder Joaquim Gonçalves – que é justamente um conjunto de poemas para fados com melodias tradicionais ainda não cantados, mas, curiosamente, com a indicação da melodia que os poderia acompanhar. Uma vez que tantos fadistas cantam hoje cá dentro e lá fora, se alguns quiserem actualizar o seu reportório, têm neste livrinho muito com que se entreter...

Um escritor do lado de fora

Habitualmente, quem ganha os principais prémios literários (nacionais ou internacionais, tanto faz) são os escritores conhecidos ou consagrados; mas já aconteceu por várias vezes um escritor arrebatar um galardão de respeito com a sua obra de estreia. Esse escritor será, no entanto, quase sempre alguém que já conhece o meio, que trabalha nele ou escreve em jornais, que segue o mercado de perto e sabe como as coisas funcionam. Mas, embora raramente, aparece às vezes uma pessoa que vem de fora do meio, desconhece quase tudo dele, viveu a vida sempre à margem da actividade literária e, de repente, chega e vence inesperadamente um dos mais cobiçados prémios da literatura. Foi este o caso de DBC Pierre, por exemplo, que confessou que a primeira vez que viu um escritor ao vivo foi no vestíbulo da sua editora britânica no dia em que foi assinar o contrato para o livro Vernon Little, O Bode Expiatório, que viria a ganhar o Booker Prize. Até esse momento, tinha sido de tudo um pouco, mas não escritor, e considera que foi a sua experiência de vida como actor, consumidor de drogas, cartoonista ou candidato a toureiro que o levou a escrever, e nada mais. Agora, aos aspirantes a escritores, diz: “Comecem a escrever e, ao primeiro sinal de algo inesperado, parem. Depois, comecem o livro nesse ponto.”


 

Lisboa ao virar da página

Lisboa está na moda – e os turistas enchem todos os dias as suas ruas, vindos dos quatro cantos do mundo. É, pois, necessário responder à sua presença com guias turísticos de qualidade e novas abordagens nas visitas à cidade, porque as pessoas não são todas iguais nem querem exactamente a mesma coisa de uma viagem. Recentemente, saiu um livrinho maravilhoso que devia ser rapidamente traduzido, Ler e Ver Lisboa, uma vez que oferece uma perspectiva da capital completamente inovadora, seja através das ficções de vinte autores sobre espaços lisboetas (das galerias romanas ao Padrão dos Descobrimentos, da Sé à Praça do Chile), seja pela paleta de outros tantos ilustradores muito talentosos. Como disse o crítico literário José Mário Silva, todos estes quarenta intervenientes estão “empenhados em sobrepor um mapa imaginário ao mapa real” e o resultado é simplesmente delicioso, literária e artisticamente falando. A variedade também ajuda muito: temos autores veteranos (Alice Vieira e Mário Zambujal) ao pé de escritores mais novos, como Joana Bertholo ou Valério Romão, e verdadeiros génios da ilustração, como João Fazenda, André Letria ou Alex Gozblau ao lado de outros menos conhecidos (pelo menos, para mim), como Gonçalo Viana ou Rui Sousa. Uma reinvenção da cidade para portugueses e não só, editada pela EGEAC e à venda nas lojas do Turismo de Lisboa.

Açores

Dizem que os Açores são um dos mais belos lugares do mundo – e eu desejo lá ir, claro, mas ainda não se me apresentou a oportunidade. Enquanto estou com água na boca, entretenho-me, pois, a ler os Açores pela mão de quem os conhece bem– e, recentemente, saíram quase ao mesmo tempo três livros (dois não são novos, mas têm a cara lavada) dedicados a estas ilhas de sonho: dois deles são de açorianos, o terceiro de um escritor italiano que se apaixonou pelo arquipélago. Mas nenhum deles é um guia turístico, pelo que podem esperar de todos essa maravilha que é a literatura. A Vida no Campo, de Joel Neto, reúne crónicas publicadas em vários jornais que se debruçam sobre zonas afastadas dos centros urbanos e reflectem memórias do autor que regressou à terra-natal, a par de curiosas observações; Açores – O Segredo das Ilhas, de João de Melo, é uma reedição de um texto inicialmente publicado em formato de álbum que resultou de duas viagens realizadas pelo escritor sem destino certo nem plano, nas quais ele foi ouvindo pessoas e histórias. Por último, A Mulher de Porto Pim, de Antonio Tabucchi, é um relato de uma viagem real e ficcionada aos Açores em busca de baleias e naufrágios. Todos estes três livros – como os Açores de que falam – são especialmente bonitos.


 

Limpar o coração

Javier Marías é considerado um dos grandes escritores actuais da vizinha Espanha. Não é um homem especialmente simpático – há muitos anos, em Lisboa, no Botequim de Natália Correia para o lançamento do seu livro Todas as Almas, disse ao público presente que o seu romance era certamente muito menos chato do que o apresentador (que falara mais de quarenta minutos) fizera crer... Mas um bom romancista não tem obrigatoriamente de ser uma pessoa agradável, claro. Marías tem, de resto, muitos bons livros – e um dos mais emblemáticos e premiados é Coração tão Branco, que tem um arranque notável com uma rapariga regressada da lua-de-mel a acabar com a vida na casa de banho da mesma casa onde decorre um almoço festivo. O narrador é justamente sobrinho dessa noiva infeliz, filho da sua irmã mais nova que, saberemos adiante, se casou com o jovem viúvo, seu cunhado. E é um narrador seguríssimo na sua actividade profissional (intérprete e tradutor que estica muitas vezes a corda em encontros de políticos), mas menos seguro relativamente ao próprio casamento, aos segredos que é preciso manter e partilhar e até ao seu pai, que nunca explicou muito bem porque, antes de se casar com a sua mãe, teve duas mulheres que morreram prematuramente e alguns negócios em torno da arte um tanto escusos. E, já se sabe, um coração que não está limpo pode ser um grande problema... Altamente recomendável.

Os novos plagiadores

Todos sabemos como é difícil a um escritor desconhecido arranjar quem lhe publique o primeiro livro – e é certamente por isso que já há muitas empresas a fazerem dinheiro à custa disso, algumas das quais publicam tudo o que vem à rede desde que o autor financie a edição, nem que seja mediante a compra de um certo número de exemplares que cubra o investimento necessário para fabricar o livro. Mas nem toda a gente tem dinheiro para isso ou vai na cantiga, pelo que muitos dos que escrevem um primeiro texto, não conseguindo interessar nenhuma editora mais convencional, preferem apesar de tudo recorrer à auto-edição e divulgar ou vender a obra na Internet. Acontece, porém, que – sem o crivo de um profissional – podemos encontrar textos lastimáveis à disposição do público, gratuitamente ou a preços módicos, seja em termos de redacção, estrutura ou mesmo ortografia… Mas agora descobriu-se, além disso, que estes escritores que se auto-editam muitas vezes também plagiam os consagrados ou minimamente conhecidos com grande à-vontade. Nos Estados Unidos, parece que os escritores estão a braços com dezenas de situações em que alguém «rouba» os seus romances, muda uma coisa aqui e outra ali, superficialmente, e os vende depois como seus, alterando-lhes o título e fazendo crer aos leitores que se trata de uma coisa nova. No mundo de hoje, em que é fácil a qualquer um pôr um livro à venda na Amazon, têm-se repetido histórias deste tipo e descoberto, inclusivamente, que os pretensos autores se dão ao trabalho de cortar cenas mais picantes ou eróticas, como se fosse disso que devessem ter vergonha… Uma questão que, suponho, ainda vai dar muito que falar.

Um estranho enigma

 


Nunca fui grande apologista de trabalhos de grupo e, embora tenha escrito mais de vinte livros a meias, penso sempre que o trabalho me rende mais se o fizer sozinha. E, no entanto, não pude resistir a um apelo que me fizeram recentemente do Centro Nacional de Cultura (Guilherme de Oliveira Martins nem precisou de ser demasiado insistente) para participar na escrita de um folhetim de Verão intitulado Um Estranho Enigma com mais nove escritores (e ilustrado pelo talentosíssimo Nuno Saraiva). Os autores são, além de mim, Afonso Cruz, Ana Margarida de Carvalho, António Carlos Cortez, Djaimilia Pereira de Almeida, José Jorge Letria, Luísa Costa Gomes, Manuel Alberto Valente, Nuno Júdice e Patrícia Portela – ou seja, uma paleta bastante variada de idades, estilos e universos. Um dos escritores começa (o público leitor não saberá até ao fim quem escreveu o quê) e, semanalmente, à sexta-feira, o texto é publicado no site do Centro Nacional de Cultura (e noutras páginas cujos links revelo no fim deste post). Este é um verdadeiro cadavre exquis, cuja publicação foi iniciada no primeiro dia deste mês, pelo que hoje, dia 11, já terá os dois primeiros capítulos para ler, se tiver vontade. Eu, que já lá fui espreitar, acho que vale mesmo a pena. O folhetim termina a 2 de Setembro, dia em que o enigma será, imagino eu, resolvido.


 


http://www.cnc.pt/artigo/3615


http://www.e-cultura.sapo.pt/artigo/21101


https://facebook.com/centronacionaldecultura/posts/1115721728449058


https://www.facebook.com/cnc.ecultura/posts/1024852284278213

Colômbia premiada

Mais logo, pelas 17h30, nas novas (e creio de belas) instalações da Casa da América Latina em Lisboa, será entregue o Prémio de Literatura 2016 a Juan Gabriel Vásquez, pelo seu romance As Reputações. Não li ainda esta obra do escritor colombiano que, por acaso, conheci há muitos anos num festival no Norte de Espanha (nessa altura ele vivia em Barcelona) e reencontrei com grande alegria no ano passado, quando fui à Colômbia, num muito simpático jantar em casa de Pedro Rapoula, o actual director da Feira do Livro de Bogotá. Mas até aposto que o prémio é merecido, porque o seu primeiro romance que me chegou às mãos, Los Informantes, de 2004, era, apesar da sua estreia, um texto de grande maturidade literária, confirmada, aliás, por O Barulho das Coisas ao cair, com traduções em mais de dez línguas e o grande aplauso da crítica em todo o lado, incluindo em Inglaterra, aonde é difícil chegar. Por isso, se já conhece este escritor ou quer conhecê-lo pessoalmente, apareça logo mais na sessão da entrega deste prémio e, não podendo, faça o favor de ler um dos seus belos romances.

60 anos!

Não faltam muitos anos para me tornar sexagenária (que palavra terrível), mas a Fundação Calouste Gulbenkian – um verdadeiro marco nas actividades culturais dos lisboetas (e não só) desde que me lembro – está quase quase a cumprir 60 anos (no próximo dia 23, na verdade). Para os comemorar, de resto, apresenta uma programação especial e muito rica, apontando em várias direcções, entre as quais o cinema, a música, a pintura e a literatura. Os magníficos jardins serão «ocupados» de todas as maneiras e feitios, realizando-se concertos nos anfiteatros ao ar livre e noutros locais menos convencionais, leituras e até workshops, assim o tempo ajude. E lá dentro, claro, também não faltarão espectáculos e exposições, porque não é todos os anos que se chega aos 60 com tanto vigor e memórias tão boas. No conjunto de iniciativas, destaca-se, aliás, uma curiosidade: sendo o senhor Gulbenkian de nacionalidade arménia, o legado arménio por ele deixado será mostrado nestas comemorações através de objectos e também de actividades que darão a conhecer aos visitantes a história e a cultura da Arménia. O programa poderá ser consultado no site da Fundação. Parabéns a esta grande casa!

Viagem literária

Muita gente, inclusivamente no Porto, se queixa de que tudo o que se passa em redor da literatura se passa na capital. Pois de há uns tempos para cá existe um programa cultural que desmente esta afirmação e tem como objectivo justamente descentralizar os encontros entre os escritores e o público. Trata-se de Viagem Literária a Portugal, uma actividade mensal promovida pela Porto Editora e idealizada por Rui Couceiro, que mês a mês tem lugar num ponto diferente do País, de norte a sul, do litoral ao interior, e até nas ilhas, levando dois autores e um moderador (este sempre o mesmo: João Paulo Sacadura) a um teatro ou cineteatro de determinada cidade. Aí decorre quase sempre uma conversa agradável (já assisti à de Rosa Monteiro e José Eduardo Agualusa em Castelo Branco) a que qualquer pessoa pode assistir, bastando para isso levantar na bilheteira uma entrada (gratuita) na manhã do dia do espectáculo. Amanhã vou ser uma das autoras a viajar literariamente, acompanha-me o escritor do Porto Álvaro Magalhães (também poeta e autor de literatura infanto-juvenil) e estaremos a partir das 21h30 no Teatro Aveirense. Se estiver por lá, venha fazer-nos perguntas, que nós prometemos responder.


 

O escritor-fazendeiro

Recentemente foi atribuído pela vigésima oitava vez o Prémio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa, e coube, pela décima segunda, a um escritor brasileiro. Chama-se Raduan Nassar e o júri sublinhou «a extraordinária qualidade da sua linguagem» e a «força poética da sua prosa» como argumentos para lhe conceder o galardão, comparando o seu génio literário a autores como Guimarães Rosa ou Clarice Lispector. Concordo com tudo isto, na medida em que li dois dos seus livros, Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, aconselhada curiosamente por uma leitora mais nova do que eu, que estava maravilhada com este escritor descendente de libaneses (o nome diz tudo) e mo aconselhou aqui há uns anos (em Portugal só foi publicado depois dos anos 1990). Poderão pensar que dois livros não são suficientes para poder entender a escolha do júri, mas a verdade é que Raduan Nassar escreveu apenas três livros (sim, três) em toda a sua vida, os dois que mencionei na década de 1970, novelas, e mais um livro de contos, Menina a Caminho, em 1994. Nos anos 1980 retirou-se para uma fazenda e decidiu ser agricultor, não voltando praticamente à cidade nem ligando muito à escrita, tanto quanto se sabe. Para com três livrinhos apenas ter arrecadado o Prémio Camões, enfim, já podem ver o talento do mestre…

Teoria e prática

Muito se tem falado nos últimos tempos de educação pública e privada, de crianças que andam em colégios particulares pagos pelo Estado quando existem escolas públicas na zona (algumas quase sem alunos), de quebras de contratos, promessas incumpridas, manifestações. etc., etc., etc. Não conheço a questão em pormenor – mas em teoria parece-me obviamente justo que o Estado invista sobretudo no ensino público e que quem quer os seus filhos em colégios privados pague para isso. Haverá nuances, bem sei, e portanto não vou além deste comentário mais teórico. Já quanto à oferta dos livros escolares pelo Estado aos alunos, se em teoria me parece igualmente certa, pois a verdade é que tenho uma amiga professora num país onde os manuais são entregues pelo Estado às escolas (e lá ficam até se estragarem) que me diz que os efeitos práticos às vezes acabam por marcar bastante mais as diferenças entre ricos e pobres: os pais com dinheiro querem que os seus filhos possam estudar em casa e acabam por comprar-lhes manuais novinhos em folha, só para eles, enquanto os alunos de meios mais desfavorecidos estudam apenas na escola e por livros usados. Esta política da oferta, que em teoria é claramente positiva para os pais e encarregados de educação, torna-se também na prática uma medida terrível para as pequenas livrarias portuguesas que têm na venda dos livros escolares a sua principal fonte de receita. Se muitas fecharem, desaparecerá em muitas zonas, aliás, o único ponto de contacto das populações com os livros, facilitando-se o aumento da iliteracia de forma indirecta quando, afinal, o objectivo era fazer com que mais estudassem sem terem de pagar. Estranho, não? Isto da teoria e da prática tem muito que se lhe diga…

O que ando a ler

Como leio sobretudo livros inéditos – muitas vezes sou, de resto, a primeira a lê-los antes de os publicar – gosto de regressar regularmente aos clássicos para não dizer que me fui desta vida sem ler os autores que, afinal, já provaram tudo, resistindo as suas obras ao fim de anos e anos de terem sido escritas. Voltei agora, por isso, a Knut Hamsun, o norueguês que nasceu em 1859, foi aprendiz de sapateiro e ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1920, tendo morrido já depois dos noventa anos. Em Fome, um dos seus mais conhecidos livros (a par de Pan), o autor descreve os delírios de um escritor vagabundo e faminto pelas ruas da cidade que hoje se chama Oslo, falando consigo mesmo e com Deus, passando frio, dormindo às vezes ao relento, desejando roubar para comer mas sendo generoso quando tem meia coroa, aspirando por elogios dos directores dos jornais aos seus artigos mas aceitando cabisbaixo as suas recusas, desejando acima de tudo comer, mas quantas vezes desprezando a comida e achando-a repugnante. O tom é menos nórdico do que noutros livros mais recentes de autores destas paragens e fez-me lembrar Robert Walser e outros autores da Europa Central. É um tour de force absolutamente magnífico, pois aguenta-se do princípio ao fim com muito poucos recursos, sem uma história, a prosa vagabundeando como o protagonista sem nunca cair no monólogo chato, antes num diálogo do eu com o eu que é verdadeiramente sublime e tocante. A edição da Cavalo de Ferro é a primeira traduzida directamente do norueguês e tem, além disso, um prefácio do norte-americano Paul Auster. Leiam, leiam.