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A mostrar mensagens de abril, 2016

Amadeo e não só

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Amadeo de Souza-Cardoso é seguramente um dos maiores pintores portugueses de todos os tempos; diz quem sabe que, se tivesse nascido noutro país, teria tido um reconhecimento inequivocamente maior do que o que lhe calhou na rifa por ser português. Talvez; mas agora o Grand Palais mostra-o aos franceses numa exposição retrospectiva da sua obra, patente até 11 de Julho, no âmbito das comemorações dos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) na Cidade das Luzes – o que faz, aliás, todo o sentido, uma vez que Amadeo viveu ali e que a capital francesa deu, segundo o director da delegação em Franca da FCG, João Caraça, «um contributo inestimável para a sua obra». Nós podemos, porém, conhecer esta figura de uma outra forma: falo do romance Amadeo, de Mário Cláudio, vencedor do prémio da Associação Portuguesa de Escritores no ano da sua publicação, e que agora se encontra disponível em várias edições (uma delas em bolso) e também num precioso 3 em 1 que é Trilogia da Mão, o volume que reúne, além desta obra majestosa, outras duas novelas biográficas, a saber Guilhermina (sobre a violoncelista Guilhermina Suggia) e Rosa (a escultora Rosa Ramalha, uma analfabeta que fazia alguns dos Cristos mais fascinantes que já vi). Aproveite.


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Viagem pela Europa

Há pouco mais de um ano, anunciei aqui que o romance de David Machado Índice Médio de Felicidade ganhara o Prémio da União Europeia para a Literatura. A Europa, apesar de parecer adormecida noutros aspectos, está desperta para reconhecer o talento dos nossos jovens autores. E, desta feita, o projecto Literary Europe Live seleccionou, com o apoio de um grupo de organizações e festivais literários, um outro escritor português para que a sua obra viaje e seja promovida em toda a Europa. Trata-se de Bruno Vieira Amaral, galardoado com o Prémio Literário José Saramago pelo romance As Primeiras Coisas, uma das dez novas vozes escolhidas entre poetas, romancistas, tradutores e ensaístas de vários países europeus, como a Escócia, a Turquia e a Macedónia. Ao longo do próximo ano, o trabalho destes dez escritores será promovido numa série de eventos por toda a União Europeia, estando também prevista a publicação de uma antologia que reúna textos de todos. Uma boa forma de internacionalizar a sua obra e fazê-los chegar a um número maior de leitores.

Amigas e concorrentes

Quando há epidemia, todos corremos o risco de ficar contagiados. Não sucumbi ainda completamente à febre de Elena Ferrante, mas, sim, estou no bom caminho para apanhar a doença. Li com prazer A Amiga Genial, o primeiro livro de uma tetralogia que conta a história de uma muito singular relação entre Lenuccia e Lila, duas amigas de um bairro pobre de Nápoles, nascidas nos anos 1950 marcados pela Segunda Guerra Mundial e o fascismo italiano, bem como pelo poder das máfias. Elena Greco (a Lenuccia, ou Lenù) é filha de um porteiro e de uma mãe estrábica e coxa que lhe faz a vida negra, apesar de acabar por condescender em que ela prossiga os estudos, depois do pedido de uma professora dedicada. Mas é Rafaella (ou Lina, ou Lila, como lhe chama a amiga), filha e irmã de sapateiros (e como os sapatos são importantes nesta história!), aquela que, pelo seu carácter determinado e a sua inteligência, teria à partida mais condições para singrar na vida (mas a família não pode pagar-lhe a escola – e o que ela aprontou com a professora primária contribuiu para que ninguém se interessasse muito pelo seu caso). Da infância e juventude das duas raparigas – com muitos altos e baixos numa relação que é sempre de dominadora e dominada, queira-se ou não – fala este livro fascinante que tem feito furor em todo o mundo e tornado internacionalmente conhecida uma autora que, como aqui já contei, insiste em permanecer anónima e não dar a cara junto dos leitores. Depois da descrição do casamento acidentado de Lila, vou ter mesmo de ler o segundo volume para saber o que lhe acontece na lua-de-mel.

Obrigatório ver

Já só faltam quatro dias, mas, se vive ou estuda na cidade de Coimbra – ou relativamente perto – tem ainda até final do mês para ver a exposição Obrigatório não Ver no Círculo de Artes Plásticas, que revela obras inéditas da poetisa e artista plástica Ana Hatherly, recentemente falecida. A mostra, que tem como tema central a revolução de 1974 e o período que se lhe seguiu, inclui mais de quarenta exemplares do trabalho poético e visual da autora, abarcando vários períodos da sua carreira, desde os anos 1960 até ao século XXI. Desenhos em grafitti inéditos e pinturas em cartão, objectos provenientes das colecções da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, um avental assinado que a artista usou nas pinturas em spray e a sua máquina de escrever, documentam, entre outros, a centralidade da escrita na obra de Hatherly, poetisa experimental da terceira vanguarda do século XX que trabalhou também em cinema e teve um programa de televisão chamado Obrigatório não Ver (daí o título da exposição). O curador é Jorge Pais de Sousa.

Matar saudades

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Quem tem a minha idade ou mais – mas também quem tenha pais que compravam livros e liam regularmente – lembra-se seguramente dos Livros RTP, uma colecção de obras portuguesas e estrangeiras que a Rádio Televisão Portuguesa criou com a Editorial Verbo quando eu era jovem e na qual li, por exemplo, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, ou Aparição, de Vergílio Ferreira. Estava a coisa mais ou menos esquecida quando a nova direcção da televisão pública decidiu reavivá-la e, por isso, desde ontem que temos de novo à disposição os Livros RTP, colecção hoje dirigida pelo meu querido colega Zeferino Coelho, da Editorial Caminho, na qual se publicará o essencial da ficção do século XX, metade em português, metade em tradução. Iniciada com dois títulos poderosos – Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago (que conta justamente com prefácio de Zeferino Coelho, o seu editor de uma vida), e A Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa, vencedor do Nobel da Literatura há poucos anos (este será prefaciado por António Mega Ferreira), a colecção promete alimentar-se todos os meses com mais livros, que estarão à venda em banca e nas livrarias por apenas 10 Euros. E nós desejosos de lhes deitarmos a mão e matarmos saudades, até porque as capas novas piscam curiosamente o olho às antigas.


 


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Eu e o outro

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Depois de agraciada com um dos mais importantes prémios nacionais de ficção – o Grande Prémio de Romance e Novela da APE-DGLAB – pelo seu romance de estreia (Que Importa a Fúria do Mar), Ana Margarida de Carvalho regressa aos escaparates com uma nova ficção suculenta intitulada Não Se Pode Morar nos Olhos de Um Gato, apropriando-se (e bem) de um verso de Alexandre O’Neill. Desta feita, a acção decorre em finais do século XIX, quando, apesar de abolida a escravatura, continua a haver navios negreiros e transporte clandestino de negros nos porões. Um grupo de passageiros brancos, entre os quais um padre e uma antiga traficante de escravos, e alguns tripulantes terão, de resto, de conviver de perto com alguns destes negros e ganhar-lhes a confiança na sequência de um acidente que o navio tem ao largo do Brasil. Encurralados numa praia, a relação de forças e poderes inverter-se-á? O que aconteceu a este grupo de pessoas será realmente o pior que lhes podia ter acontecido – ou, afinal, serão as memórias do passado de cada indivíduo ainda mais negras e soturnas do que esta espécie de prisão? Nada se pode revelar do espantoso romance que será apresentado mais logo por Francisco Louçã. O convite aí vai, apareçam!


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Fábrica de cérebros

Se toda uma família é inequivocamente bem-sucedida, é natural pensar que os pais têm alguma coisa que ver com isso. Os pais e… os livros. Leio no El País uma interessantíssima reportagem sobre os geniais Martinón Torres, sete irmãos espanhóis nascidos entre 1971 e 1982, filhos de um pediatra e de uma enfermeira, que são todos uns craques na actualidade e nasceram numa casa que tinha uma biblioteca de 20 000 volumes (o pai era bibliófilo) ocupando um andar inteiro. Nunca foram forçados a ler, a leitura pareceu-lhes uma consequência natural nessa casa onde passaram a infância e puderam viver aventuras épicas sem ter de ir muito longe. Entre um catedrático de Arqueologia na Universidade de Londres, uma paleoantropóloga de renome com trabalho assinalável por todo o mundo, dois pediatras, um dos quais uma referência em vacinação infantil, uma geriatra com uma tese de doutoramento sobre a velhice nos quadros de Velásquez, um gestor e um director de comunicação, há de tudo um pouco nesta família de cérebros – e todos leram muito desde pequenos, o que ajuda a compreender o nível a que chegaram nas respectivas profissões. Para quem se interesse, aqui vai o link para o artigo completo. Vale bem a pena.


 


http://elpais.com/elpais/2016/04/01/ciencia/1459533142_811921.html?id_externo_rsoc=FB_CC

De Detroit, com amor

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Perder um filho é provavelmente a maior dor que se pode sentir. Mas a dúvida que recai sobre um casal que, desconhecendo o paradeiro da filha, nunca sabe realmente se a perdeu para a morte é o tema central de Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, romance que parte do desastre ferroviário de Alcafache, em 1985, no qual, a seguir ao choque frontal de dois comboios, as carruagens se incendiaram, tornando impossível identificar muitos dos corpos carbonizados. Marta iria num desses comboios? Numa das composições foi encontrada a sua mochila – e o cartão de estudante de Belas-Artes permitiu à GNR saber a quem pertencia e avisar os pais. Mas não estava lá a sua carteira, nem o passaporte, nem os outros documentos. Talvez Marta tivesse sobrevivido e seguido viagem – incerteza que atravessa todo este romance maior da língua portuguesa e afecta também o seu narrador, um rapaz que idolatra esta irmã especial que tinha, pelos vistos, uma vida algo misteriosa que ele gostaria de poder desvendar. O lançamento é mais logo, com apresentação do cineasta Luís Filipe Rocha. Não falte.


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Leitura terapêutica

Muito se falou já no poder empático da literatura, veículo criador de laços que permitem ao leitor experimentar emoções e sentimentos fictícios e senti-los na própria pele como se fossem reais. Esta capacidade transformadora dos livros levou recentemente a que se associassem médicos e bibliotecários ingleses para receitar livros de ficção, poesia e auto-ajuda a doentes com depressão e ansiedade, em vez de lhes ser administrada outra medicação que pode ter efeitos secundários bastante mais nocivos. Com o apoio do Estado e a colaboração de associações de bibliotecários em todo o país, os médicos preparam-se para enviar os seus doentes com uma receita de leitura à biblioteca mais próxima da sua residência, na qual terão acesso imediato à obra recomendada. A lista, elaborada pela Reading Agency, inclui títulos muito variados e tem uma secção especial de obras humorísticas para «animar» os mais deprimidos.

Boccanegra vai ao Porto

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Uma grande capa para um grande livro? Pois, nem sempre acontece, mas desta feita parece que tivemos mesmo sorte. Falo de Os Dez Livros de Santiago Boccanegra, de Pedro Marta Santos, jornalista, autor e guionista que esteve entre os autores finalistas do Prémio LeYa com este romance admirável e ainda pouco conhecido, mas que recomendo vivamente: imaginativo, informado, com diálogos inesquecíveis e personagens geniais (entre as quais Santiago Boccanegra, o protagonista), ninguém ficará indiferente a esta prosa cuidada e original e a uma história com recuos e avanços que nos levará a uma espécie de apocalipse cada vez mais plausível nos tempos que correm. Hoje vamos apresentá-lo ao fim da tarde aos leitores do Porto, que também merecem ouvir António-Pedro Vasconcelos pronunciar-se sobre esta obra que, tenho a certeza, há-de dar que falar. Se estiverem por perto, não faltem.


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Literatura em Chaves

A partir de amanhã e até dia 17, realiza-se em Chaves o Ponte Escrita – primeiro Encontro de Escritores Luso-Galaico, que resulta de um projecto apresentado por Altino Rio ao orçamento participativo de 2015 da Câmara Municipal daquela cidade. Amanhã, os escritores irão visitar as diversas escolas do concelho e à noite, pelas 20h00, realiza-se um jantar e serão cultural na Adega do Faustino, com a participação dos escritores e aberto ao público através de inscrição. No sábado, realiza-se uma visita guiada pela cidade de Chaves com o objectivo de os escritores conhecerem melhor a cidade e assim terem inspiração para depois desenvolverem um conto que será uma espécie de roteiro literário sobre a cidade. A colectânea será editada ainda este ano. O ilustrador Richard Câmara fará um diário gráfico de todo o encontro. Os escritores convidados são: Anton Cortizas Amado, Cristina Carvalho, Elena Gallego Abad, Francisco José Viegas, Herculano Pombo, Inma López, João Madureira, José Carlos Barros, Tiago Salazar, José Fanha, Manuel Araújo, Nuno Camarneiro, Olinda Beja, Paulo Moreiras, Rita Taborda Duarte, Richard Câmara e Rui Vieira. Se estiver por ali, não falte.


 


 

Em Abril livros mil

Não há meses melhores nem piores para quem gosta de ler e lê naturalmente todo o ano; mesmo assim, dou comigo a sonhar com os dias compridos do Verão para neles caberem ainda mais leituras – e sobretudo as que nada tenham que ver com a profissão, já que, no resto do ano, são centenas as páginas lidas por obrigação e relativamente poucas, em comparação, as profundamente desejadas. E, no entanto, decerto porque Portugal não lê o suficiente, duas entidades – a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros – lançam neste mês de Abril a campanha «Ler em todo o lado». Vai ser, pois, na capital, um período cheio de actividades para todas as faixas etárias, com vista a incentivar os hábitos de leitura dos Portugueses: exposições, leituras públicas, sessões de autógrafos, feiras de rua ou horas dedicadas ao conto, tudo isto e muito mais preencherá os dias que faltam para chegar Maio. Vale a pena estar atento a este programa de promoção da leitura.

Uma questão de idade

Nos últimos tempos, proliferaram na imprensa portuguesa entrevistas e artigos de opinião sobre como as gerações mais novas estão a ficar perigosamente infantilizadas e como os adultos, especialmente os pais e educadores, têm responsabilidade nesse facto. «Estamos a criar crianças totós, de uma imaturidade inacreditável» era o título de uma entrevista publicada no Observador, que aproveitava uma declaração do entrevistado, o professor Carlos Neto, especialista em motricidade humana. Carlos Neto trabalha com crianças há quase cinquenta anos e deixou de há uns anos para cá de ver joelhos esfolados – o que era muito saudável, sinónimo de que os miúdos brincavam –, passando, em vez disso, a encontrar meninos que cumprem agendas complicadíssimas (ele chama-lhes «superagendas») que não lhes permitem «estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevisível, com a aventura». Quase ao mesmo tempo, leio que a Sociedade Estoril-Sol, promotora do Prémio Literário Agustina Bessa-Luís, decidiu retirar do regulamento do concurso o limite de idade de 35 anos, considerando que condiciona o aparecimento de novos valores (o prémio é para obras inéditas em língua portuguesa, de autores que nunca tenham publicado ficção). Estarão porventura as duas coisas ligadas?

Escritores e dinheiro

Leio num artigo publicado no La Nación, jornal argentino de grande tiragem, que um estudo encomendado por várias associações de escritores na Europa confirmou que os escritores franceses nunca estiveram tão deprimidos como agora. O estado de coisas no nosso continente não é dos melhores, bem o sabemos, mas se pensavam que a razão para a neura era essa, desenganem-se, pois parece que o problema é, afinal, terem as contas bancárias completamente rapadas. Os escritores dizem que nunca ganharam tão pouco na sua vida, e metade deles declara inclusivamente que nem sequer consegue o equivalente a um salário mínimo com os seus livros (um salário mínimo em França deve ser, porém, três vezes o português). Assumindo-se claramente contra os apoios governamentais aos escritores, o articulista aconselha então os queixosos a trabalharem, segundo o exemplo de Rodolfo Fogwill, um autor argentino que ganhou vários prémios importantes e que não só nunca deixou a sua ocupação como consultor de marketing, como dizia que, se os escritores fossem subsidiados, então também o deveriam ser os canalizadores e as baby-sitters, uma vez que não via nada de excepcionalmente meritório em escrever livros. Citando Faulkner, o autor do artigo acrescenta que o escritor não precisa de liberdade económica, o que precisa é de lápis e papel; que nada de bom se escreve só por se ter recebido dinheiro para isso e que um bom escritor nunca recorre a fundações ou instituições para o apoiarem financeiramente pela simples razão de que estará a escrever, não tendo tempo para minudências. A época de Faulkner era diferente, bem entendido, e hoje está fora de questão um escritor viver como um indigente, como tantos artistas viveram no passado. Mas, na verdade, a conta bancária recheada não garante, só por si, a qualidade literária. Só que a pobreza também não. Além disso, na cadeia da edição, do paginador ao livreiro, passando pelo tipógrafo e o editor, todos são profissionais. Então, porque não é profissão escrever?

Mini-bibliotecária

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Nestes tempos tão escuros para o mundo, em que todos os dias nos chegam notícias de atrocidades, violência, atentados, desrespeito e intolerância, sabe bem ler que ainda há quem nos faça ter esperança no futuro, sobretudo em locais onde o bem-estar não é, de modo nenhum, evidente. Muskaan Ahirwar, uma menina indiana de nove anos a frequentar a terceira classe, decidiu criar uma biblioteca à sua porta, num bairro pobre, para os meninos que não têm livros. Todos os dias, depois das aulas, chega a casa e monta a sua biblioteca, colocando os livros – que já são mais de cem – numa espécie de estendal. Empresta-os aos que vêm dos bairros de lata ainda mais degradados do que o seu e já sabem ler, mas também lê alto para os mais pequeninos, a quem, de resto, explica com paciência como ler faz com que se viaje sem sair do sítio. A operação tem sido de tal modo bem-sucedida que o Estado da Índia resolveu certificá-la como bibliotecária, concedendo-lhe um diploma atestando as suas capacidades para a função e declarando que a sua biblioteca tem o apoio do sector oficial da educação. Nesse documento, lê-se ainda que ser amigo dos livros é ser amigo do mundo e que ler é também conhecer outros mundos. Um exemplo bonito de que deixo aqui uma imagem inspiradora.


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Dueto

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Hoje à tarde há lançamento – e trata-se de um acontecimento muito especial para mim, pois é raro ter dois autores meus juntos à mesma mesa, e ainda mais raro duas autoras! O livro que as reúne – A Noite não É Eterna – foi escrito por uma delas, Ana Cristina Silva, que já publica há muitos anos (tem cerca de uma dezena de romances espalhados por diversas editoras) e, abreviando muito, gosta de associar a psicologia à história quando compõe as suas narrativas. Vai apresentá-lo a jornalista e escritora (talvez fosse escritora desde sempre dentro de si, e até por isso tenha escolhido o jornalismo como profissão) Ana Margarida de Carvalho, vencedora do Grande Prémio de Romance e Novela da APE com o seu romance de estreia – Que Importa a Fúria do Mar – e com novo livro a sair ainda este mês de Abril (oportunamente falaremos dele, claro). Se estiver em Lisboa, não falte!


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Chique e cool

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Em matéria de livrarias, o Porto sempre ganhou a Lisboa: tem a Lello, uma das mais belas do mundo, e portanto parece-me justo que continue em primeiro. Mas, alargando um pouco o âmbito a espaços cool e chiques ao mesmo tempo, a capital pode oferecer de há alguns anos para cá uma livraria que também se tornou atracção turística – durante os lançamentos, há sempre um rostinho de sardas ou uma cabeleira impossivelmente loura deambulando entre os convidados portugueses e espreitando as prateleiras que se estendem até ao tecto numa sala de pé-direito altíssimo onde voa uma bicicleta. O lugar foi em tempos a tipografia Mirandela, sabiam? Falo, claro está, da Ler Devagar, na Lx Factory; um espaço magnífico que o jornal The Guardian inclui no seu Top Ten de espaços industriais atraentes e belos em todo o mundo, entre outros que foram garagens, parques de estacionamento, piscinas e armazéns e que, do Japão à Sérvia, se transformaram criativamente em restaurantes, ateliers, livrarias, centros de artes, lojas, galerias – enfim, espaços abertos à comunidade. Se não conhece anda a Ler Devagar, visite-a, porque vale mesmo a pena.


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BN

Falo muitas vezes neste blogue da minha «pequena» biblioteca, mas tenho-me esquecido de prestar a devida homenagem à grande biblioteca que tantos anos frequentei, sobretudo quando era estudante universitária. Sim, falo da Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, que este ano faz 220 anos! São só setenta e cinco quilómetros de prateleiras e quase cinco milhões de documentos em cerca de 66 000 metros quadrados. Tem salas em que as portas corta-fogo pesam três toneladas e que estão protegidas com sistemas anti-sismo e anti-incêndio; guardam os espólios valiosíssimos de escritores como Eça de Queirós ou Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner ou Almeida Garrett e, ao que leio, nem os funcionários da BN as podem visitar sozinhos. O livro mais antigo que ali está remonta ao século XII; mas é lá também que estão guardados a primeira edição d’Os Lusíadas e um dos 50 exemplares existentes no mundo da Bíblia de Gutenberg, entre outras preciosidades, como a carta em que Fernando Pessoa explica a origem dos seus heterónimos. Foi na sala de leitura da BN que passei muitas horas da minha vida e foi lá que comecei a ler Proust numas férias de Páscoa e me apaixonei por dicionários (uma coisa não tem nada a ver com a outra). Por isso, hoje felicito a BN pelos seus 220 anos!

Leiteira e leitora

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Todos os leitores deste blogue se lembram certamente do nome de Gabriela Ruivo Trindade, que venceu o Prémio LeYa em 2013 com um romance polifónico intitulado Uma Outra Voz. Pois ela regressa agora aos escaparates e, ainda por cima, não vem sozinha: acompanha-a brilhantemente Rute Reimão, uma ilustradora meticulosa e imaginativa que não faz nada ao acaso e gosta de trabalhar com tecidos, papéis antigos e colagens. A feliz dupla é, assim, responsável por um dos mais bonitos e interessantes livros infantis que publiquei. Chama-se A Vaca Leitora e, resumindo muito, conta a história de Felisberta, uma vaca com manias de gourmande que está fartinha do pasto que todos os dias lhe dão a comer e sonha com caviar, salmão fumado e outras iguarias. Nada feito… Porém, um belo dia, Felisberta encontra nas folhas de um jornal esquecido pelo dono requintes gastronómicos. Pois sim, mastiga-o: e uma vaca culta, leitora, é também seguramente uma vaca leiteira de maior gabarito. Este é um livro para crianças a partir dos 5 anos que mostra como a leitura é sempre vantajosa e, por isso mesmo, deve ser lido aos mais pequenos e oferecido aos que já dominam a faculdade de ler. Publicidade à parte, vale mesmo a pena.


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O que ando a ler

Num bocadinho que tinha – só um dia, na verdade – fui a correr a uma estante e trouxe de lá um livro curto, que desse para começar e acabar num virote. O autor, Per Petterson, já o conhecia de Maldito Seja o Rio do Tempo (de que aqui falei); mas não chegara ainda a pôr o dente nestes Cavalos Roubados – um romance com uma relação próxima com a natureza, como, aliás, muita literatura nórdica (no caso, trata-se de um texto norueguês). Além dos cavalos roubados por dois adolescentes para uma passeata que não corre como esperado, temos nesta obra um rapaz de quinze anos que também é de certa forma roubado, pois, no fim de umas férias especiais com o progenitor, no ano de 1948, acaba por voltar a Oslo, onde estão a mãe e a irmã, e perder o contacto com esse homem tão importante na sua vida, que lutara contra o nazismo uns anos antes. Vemos agora o rapaz bastante mais velho, já viúvo, a isolar-se deliberadamente numa cabana no meio do nada, depois de isolado sem querer pela morte da mulher, e encontrando nesse nada um outro velho que conheceu em menino, justamente nesse verão antigo em que trabalhou, passeou, pensou, apaixonou-se, chorou e foi a cavalo com o pai até à Suécia numa viagem de grande cumplicidade. Com muito sol no passado e neve no presente (juventude e velhice), Cavalos Roubados é um romance a que o Daily Telegraph chamou com razão «profundamente atmosférico», uma obra de arte delicada sobre a nostalgia de uma vida mais pura e simples.