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A mostrar mensagens de maio, 2015

Cidades mais literárias

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No tempo em que andei na faculdade, havia uma cadeira de opção que me atraía (mas, por acaso, não cheguei a fazê-la) chamada Literatura e Artes Plásticas. É dessa agradável combinação que hoje se reveste o assunto deste post. O Departamento de Património Cultural da Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a Leya, lançou há tempos o desafio de, através das artes plásticas, serem decorados os simpáticos vidrões da cidade com intervenções de inspiração literária, mas com toda a liberdade criativa. Podia ser simplesmente a partir de uma frase, mas também da história contada em determinado livro ou até da obra de um certo autor – o que importava era que a literatura de língua portuguesa fosse homenageada nos 100 vidrões que estão espalhados por Lisboa. E os artistas nem tinham de ter formação específica ou mais de dezoito anos, a ideia era mesmo permitir a qualquer amante da literatura fazer bonito com o seu autor preferido num vidrão e trabalhar em grupo ou sozinho. Pois estamos quase a poder ver o resultado – e cá para mim, que não cheguei a fazer aquela cadeira na faculdade, misturar literatura e artes plásticas só pode ser bom.


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Feira do Livro

Sim, é hoje que se inicia mais uma Feira do Livro de Lisboa. Foram já tantas, como leitora e como editora, e em mais do que um sítio, que lhes perdi a conta; seguramente, frequento-as – sem falhar uma que seja – desde os quinze ou dezasseis anos, idade em que passei a ir sozinha comprar livros (que antes era com dinheiro e opiniões da minha mãe). Estive dentro dos stands muitas vezes a vender, e é lá que se aprende mais sobre os leitores (e que encontramos alguns de uma exigência enorme com a ausência de vincos nas lombadas, o que sempre me confundiu, pois parece que não querem os livros para ler, mas para guardar), que se auscultam tendências e gostos, que se pasma com certas perguntas («Ó menina, tem algum livro que explique como se deitam os pardais?» – juro que já me puseram esta questão) e que se vibra quando um livro de que gostamos especialmente se vende bem. Mas agora regresso apenas como compradora (já tenho algumas coisas fisgadas) e como dama de companhia dos autores que vão lá autografar ao fim-de-semana e aos feriados. Por favor, aproveite estas três semanas de preços mais baixos e vá visitar-nos ao Parque Eduardo VII. Os livros esperam por si e eu também.

Sardinhas

Entre o fado, o futebol e Fátima – três coisas que ao longo de muito tempo foram tomadas como as mais ilustrativas de Portugal – não podemos ignorar as belas das sardinhas; e elas estão por todo o lado, metem-se até em negócios de livros, como se verá por esta história deliciosa que uma colega editora (por acaso, também Rosário, mas Araújo) me contou recentemente durante um almoço na cantina. Não sei se já ouviram falar de Adolfo Simões Muller, um homem que devotou grande parte da sua vida à divulgação da literatura juvenil e da banda desenhada e foi responsável por vários fanzines e revistas (O Papagaio ou o Cavaleiro Andante, por exemplo) onde publicava muitos autores estrangeiros. Pois foi também ele que começou a publicar as histórias do Tintim em Portugal há muitos anos. E, numa entrevista que deu ao Jornal de Letras pouco antes da sua morte, quando o jornalista lhe perguntou como pagava os direitos de autor ao grande Hergé, a resposta foi a mais inesperada possível: «Em sardinhas de conserva!» Estranho, não? Mas tem uma explicação interessante: tudo isto se passava no início dos anos 40, durante a Segunda Guerra Mundial; e, ao que parece, Hergé tinha um irmão que fora feito prisioneiro dos alemães e estava num campo. Então, a mulher de Simões Muller comprava as latas de sardinhas e mandava-as para o campo através da Cruz Vermelha... Mais tarde, Simões Muller conheceu Hergé e ficaram amigos. Quem diria que alguns autores preferiam receber em géneros, hã?

O (des)acordo

Oiço habitualmente e há muitos anos a TSF no rádio do carro e, às vezes, quando não estou para aí virada, também a Antena 2 e a Smooth FM. Conheço um mar de gente que delira com o programa da manhã da Comercial, mas, sei lá porquê, nunca me habituei a ouvi-lo. E, todavia, leio por aí as letras que Vasco Palmeirim inventa a propósito de tudo e de nada (mas sempre a propósito), com sentido de humor, para que o dia de muitos comece com umas gargalhadas. A última que me passaram foi, pelos vistos, estreada no dia em que se tornou obrigatório o Acordo Ortográfico (ou seria melhor chamar-lhe Desacordo, para não lhe chamar Desortográfico?); e, mesmo que não seja das melhores, tem uma verdade intrínseca: com ou sem o AO, muita gente dá erros (eu decerto também). Pode ser que os Extraordinários se divirtam (com a música, garanto, tem mais graça), se bem que o caso é sério. Com sua licença, Vasco Palmeirim:


 


Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;


Às vezes leio português que não está bem;


Ninguém faz de propósito, eu sei,


Mas acontece tantas vezes - ai Jesus, minha mãe. (2X)


 


Sei que às vezes eu pareço zangado,


Mas isto faz-me ficar preocupado.


Não quero ver nossa língua neste estado,


O Português anda a ser tão maltratado


Quando há faltas para amarelo,


entradas de pé de riste,


gente que em vez de "estiveste"


Pergunta "onde é que tu estives-te?"


Às vezes é deixar o hífen bem sossegado


E não pôr uma vírgula entre sujeito e predicado.


Eu não sou perfeito, não sou uma Edite Estrela.


Mas sei que não se pede uma "sande de mortandela".


Passam horas, dias, choro: fico muito triste


Quando "houveram novidades", porque isso não existe;


São raros os casos de plural do verbo “haver”


E são muitos os que compram um automóvel num stander


E isto não são histórias tipo "era uma vez",


Isto é o que se passa com o nosso português.


 


Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;


Às vezes leio português que não está bem;


Ninguém faz de propósito, eu sei,


Mas acontece tantas vezes - ai jesus, minha mãe. (2X)


 


Se eu tivesse poderes, homens e mulheres


não diziam “quaisqueres” – eu sei


que é difícil distinguir o “à” do “há”


para onde é o acento? Qual deles leva o “h”? Ó mãe!


E acredita, rapaz, que toda a gente é capaz


De não escrever um “z” na palavra “ananás”


E era maravilha ver “você” sem cedilha


E que ninguém dissesse “há muitos anos atrás”.


Aquilo que eu quero, como tu muito bem vês,


Sendo bem sincero – eu quero bom português


E tenho a certeza de que toda a gente consegue


Se até JJ sabe dizer Lopetegui.


 


Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;


Às vezes leio português que não está bem;


Ninguém faz de propósito, eu sei,


Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe. (2X)


 


Ohhhh... ai Jesus, minha mãe!...


“Há-des” – isto assim não está bem.


“Salchicha” – dito assim não está bem.


“Devia de haver” – isto assim não está bem.


E dizer “tu fizestes” também não está beeeeeem!


 


Às vezes oiço cada coisa e não fico ok;


Às vezes leio português que não está bem;


Ninguém faz de propósito, eu sei


Mas acontece tantas vezes – ai Jesus, minha mãe.

O espião e o embalsamador

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Finalista do Prémio LeYa há uns meses, eis um livro que é um exercício de imaginação e que, assim mesmo, não desaproveita a matéria do real. O Dia em Que o Sol Se Apagou, de Nuno Gomes Garcia, recua ao reinado de João II e conta em simultâneo a história do seu espião – quase sempre disfarçado de mouro – Pêro da Covilhã (em demanda de segredos que permitam que os negócios do reino sejam o mais lucrativos possível para a coroa) e de um embalsamador albino, Salvador, que procura desesperadamente um par de olhos que devolvam a visão ao seu irmão morto (e embalsamado): Mil-Sóis, o menino de olhos de diamante que encandeava quem para ele se atrevia a olhar. Tanto Salvador como Pêro da Covilhã viajarão de Lisboa à Etiópia (não juntos), o segundo quase sempre enrolado com mulheres em bordéis, o primeiro mais discreto, mas com poderes para um dia apagar a luz de Portugal inteiro, fenómeno de que os Portugueses culparão, alternativamente, o inimigo espanhol e os judeus. Para a voltar a acender, talvez seja, porém, preciso que os olhos roubados de Mil-Sóis cheguem às terras do Preste João e sejam colocados na imagem de uma santa cega; ou que o menino embalsamado torne a ver com outros olhos, que até podem ser os da mulher de Pêro da Covilhã, paixão antiga do embalsamador. Muito rico em detalhes e absolutamente delirante, este romance inventa um improvável cataclismo para reescrever o período áureo da História de Portugal e responder a uma questão: É a Europa o lugar certo para que Portugal continue a existir?


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Autor, autor

Hoje, a partir das 18h30, decorre na Galeria Carlos Paredes a sessão comemorativa dos noventa anos da Sociedade Portugues de Autores (SPA), fundada precisamente no dia 22 de maio de 1925, cerca de um mês antes de o regime republicano ter sido substituído por uma ditadura militar (foi por pouco). A SPA conta com cerca de 26 mil associados de todas as disciplinas criativas – de escritores a músicos, fotógrafos, artistas plásticos – e protege os Autores, cujo dia se celebra também hoje. Se eu não fosse sócia da SPA, não receberia provavelmente um cêntimo quando passam na rádio e na TV canções e fados para que escrevi as letras; não conseguiria saber quem anda a colocar poemas meus dentro de antologias sem me consultar, ganhando dinheiro à minha custa. E esta é apenas uma das grandes vantagens da SPA que, muito para lá destas rotinas, ajuda muitos artistas, especialmente na reforma. Hoje serão entregues medalhas a alguns criadores, como António Pinho Vargas, Carlos do Carmo, João Mota, José Luandino Vieira, Pacheco Pereira, e ainda os Prémios Pró-Autor, destinados a instituições que têm contribuído para preservar o nosso património cultural. Serão distinguidos a Biblioteca Nacional de Portugal, a Biblioteca da Universidade de Coimbra, o Cante Alentejano, a Casa da Música, a Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, o Lisbon & Estoril Film Festival, o Programa Literatura Agora da RTP2 e as Curtas de Vila do Conde. Parabéns à SPA e a todos os Autores!

Postais

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Se gosta de postais e nunca foi ao Rio de Janeiro ou quer conhecer melhor a cidade, nada como ler Postais dos Trópicos, de Hugo Gonçalves, que lançámos recentemente apenas em versão digital ao preço módico de 98 cêntimos! O autor, que viveu na Cidade Maravilhosa quase quatro anos e escreveu mais de uma centena de textos ao longo desse tempo, junta as suas melhores crónicas escritas e vividas a sul do Equador. O livro é, assim, um mosaico de experiências de um português à solta no Brasil, revelando a paixão que os trópicos podem suscitar nos estrangeiros, mas também aquilo que não se vê a olho nu num lugar que pode ser tão exuberante como cruel. Com a compra deste ebook vem, também, um bónus: um cheirinho do próximo romance do autor, o fascinante O Caçador do Verão, que sai para as livrarias em Junho – e em papel! Irresistível, por todas as razões.


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link para o ebook


 


 

Ouvir livros

No mesmo mês em que saiu para os escaparates um romance que escrevi para ser um CD (e são dois, por acaso – os Romance(s), de Aldina Duarte), leio num blogue que as vendas dos audiolivros subiram vertiginosamente em todo o mundo e duplicaram em cinco anos no Reino Unido. Segundo me contaram há muito tempo, as inglesas gostam de ouvir histórias contadas pelos seus actores de eleição enquanto cozinham e passam a ferro – e eu cá acho esta actividade bem mais interessante do que dar atenção a programas estupidificantes de rádio e televisão (credo, até podiam queimar o assado ou a camisa do marido em alguns casos). De qualquer modo, decerto não são estas as vendas que justificam a multiplicação (mesmo que haja mais desemprego em toda a Europa, as donas de casa do Reino Unido dificilmente duplicaram em cinco anos). Pergunto-me, pois, quem compra – além dos cegos, claro, para quem são essenciais – estes CD de literatura lida em voz alta (nem sempre literatura séria, bem sei); e de repente lembro-me de um amigo flamengo que tive há muitos anos, que ouvia livros e fazia cursos de línguas no carro (foi assim que aprendeu a falar espanhol) por ser obrigado a filas de horas no trânsito de todas as manhãs. É uma bela hipótese, enfim, para quem fica trancado entre automóveis sem conseguir avançar – e talvez seja o que acontece a muitos dos que trabalham em Londres, por exemplo, mas têm de viver bastante longe da capital, em locais onde têm vivendas ou ainda podem pagar a renda e a gasolina.

Língua materna madrasta

Agora, quem quer candidatar-se ao ensino (a dar aulas) e tem menos de cinco anos de serviço, é obrigado a fazer uma prova de avaliação de conhecimentos e capacidades (mais conhecida por PAAC). Muitos acham um ultraje e uma humilhação terem de submeter-se a tal coisa, até porque uma instituição universitária lhes deu um diploma e isso prova que podem ensinar; mas não é essa a questão que venho hoje aqui discutir. O que me interessa é a notícia de que, dos 106 professores que fizeram (contrariados ou não) a prova de Português em Março último, mais de 60% tiveram nota negativa e a média no total dos candidatos foi de 46,2%. Li que na disciplina de Físico-Química aconteceu ainda pior, e não muito diferente na de Biologia e Geologia do Secundário, mas, como nunca fui boa a matérias científicas, aceito talvez melhor estas falhas. No entanto, que pode ser tão complicado na prova de Português que faça chumbar tanta gente? A interpretação? A ortografia? As regras gramaticais? A capacidade de escrever um texto coerente? Sinceramente, não faço a mais pequena ideia, mas a verdade é que encontro cada vez mais gente incapaz de escrever algo que faça sentido e com um mínimo de correcção. Até nos jornais tenho frequentemente de ler duas vezes o título da notícia para perceber de que estão a falar... Que se terá passado com o ensino da língua materna na escolas, incluindo a universidade? Há uns anos, uma professora universitária da área científica escreveu um texto, para publicação num catálogo que eu iria rever, que começava assim: «A ancestralidade das baleias dista de há muito tempo.» (No comments.) Não sei como esta senhora chegou a professora universitária, mas, se tivesse passado por uma PAAC, não teria chegado... Ninguém devia estar na Academia, muito menos a ensinar outros, sem conhecer bem a língua materna. Ninguém deve ensinar outros em qualquer grau de ensino sem saber a sua língua.

Memórias de um hotel

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Uma vez, encontrando-me num quarto de hotel em frente de um espelho, perguntei-me quantos rostos se teriam visto nele ao longo dos anos. Muitos, certamente... Os hotéis terão memória de quem passou a noite nos seus quartos? Se pudessem falar, sem ser através dos seus funcionários (que terão igualmente recordações sobre muitos hóspedes), quanto na verdade poderiam dizer e revelar? Este é o ponto de partida do novo livro de Nuno Camarneiro – Se Eu Fosse Chão –, uma colecção de textos que formam um todo e correspondem à experiência dos hóspedes que passaram, em três épocas distintas (1928, 1956 e 2015), por um Plaza Hotel em Portugal (quase me apetece adivinhar onde). Diplomatas, viúvos, actores, veraneantes, recém-casados, putas, refugiados, clandestinos, homicidas e até alguns fantasmas vão, assim, contar-nos a sua noite passada num hotel em que as paredes têm ouvidos, mas não bocas para reproduzir o que por lá se disse e viveu. Num quarto de hotel, pode começar uma história de amor ou acabar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou sentir-se a dor de uma perna amputada, perdida na guerra, pode cometer-se um crime de sangue ou investigar-se um caso de adultério. Neste livro, como na vida, tudo pode suceder.


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Ensaio geral

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Não, não se trata do ensaio para nenhum espectáculo de fados, mas de um programa da Rádio Renascença, conduzido por Maria João Costa desde há vários anos, com o nome de  Ensaio Geral. Para resumir, é uma entrevista a duas pessoas de profissões diferentes, uma delas, normalmente, ligada às letras. E essa entrevista, que é feita na bonita Livraria Férin, ali ao Chiado, é gravada ao vivo, diante do público que queira acorrer e escutar ao vivo os intervenientes (jornalista e convidados). Porém, numa segunda parte, já fechados os gravadores, os microfones permanecem ligados para que o público, em querendo, faça perguntas aos convidados ou os interpele. Pois bem, hoje à tarde, pelas 18h30, mais coisa menos coisa, estarei com a Aldina Duarte à conversa com a Maria João Costa sobre o último CD da artista (como já expliquei aqui, as palavras são da minha autoria) - e assim acabo mais uma semana de trabalho. Se quiserem, apareçam. (O programa Ensaio Geral é uma iniciativa conjunta da Livraria Férin, da Rádio Renascença e dos Booktailors.)


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Autores independentes

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Cada vez há mais gente a querer publicar o que escreve – nem há já editoras suficientes para tanto livro; e esta invenção da Internet ajudou muito à criação da autopublicação, que está a tornar-se em todo o mundo um autêntico fenómeno e gera livros atrás de livros. Paginar uma obra sem ilustrações não é difícil, arranjar um amigo com jeito para desenho que faça uma capa em condições é mais difícil, mas não impossível. O problema é depois encontrar onde vender o rebento, sobretudo se for um livro não digital, pois plataformas deste tipo há muitas, mais do que chapéus; mas as pessoas ainda vão gostando do papel e de tirar um volume da estante para mostrar aos outros do que foram capazes. Pois bem: leio que nos EUA já existem livrarias exclusivamente para estes autores independentes. Alugam-se prateleiras a 60 dólares o trimestre e recolhem-se os lucros, ao que parece, a 100%, sem dar qualquer percentagem ao livreiro. Claro que o autor tem de gerir as faltas, o stock, a reposição. Mas é melhor do que não ver à venda o seu mais-que-tudo, com que quer impressionar conhecidos e familiares. Aqui ainda não fomos tão longe, embora haja umas tantas editoras que vivem apenas de fazer livros de encomenda (mas ganham muito dinheiro com isso). Uma fotografia de uma dessas livrarias norte-americanas, a Gulf Coast Bookstore, só para dar um cheirinho do que aí vem.


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Autores brutinhos

Conta-se muita coisa acerca dos autores, sobretudo dos que já morreram e não podem contradizer as histórias e lendas à sua volta. Custa a crer que quem escreve certos livros tão bonitos possa, por exemplo, escarrar num lenço diante dos alunos numa sala de aula, mas isto mesmo me contou o meu irmão que fazia um grande escritor já falecido, seu professor de liceu nos anos da Revolução. (Se não adivinharam de quem falo, dispenso-me de vos desmanchar o boneco.) Também me disse um amigo do Manel, que conheceu pessoalmente Torga nos seus tempos de Coimbra, que não sabia como conseguira ele escrever bonito como escreveu e engatar uma francesa, tão avaro e brutinho era. Pois eu só conto o que me contam, mas sei de uma história muito gira que mete José Régio e Aquilino Ribeiro e na qual o primeiro, pouco depois de ter publicado o seu romance autobiográfico A Velha Casa (título que muitos acharam levemente pomposo), foi à Livraria Betrand do Chiado, à porta da qual estava plantado o segundo, que era, nesse tempo, uma autoridade nas letras deste país. Parece que, ao ver chegar o poeta, que até era baixote ao pé dele, Aquilino lhe terá dado uma boa palmada nas costas e perguntado, irónico: «Ó Régio, afinal, a velha casa ou não casa?» História engraçada esta, sem dúvida, tal como a do escritor, menos famoso do que os anteriores, Mário Braga que, partilhando com o muito franco (e algo bruto) Joaquim Namorado a narração demorada de um episódio a que assistira, concluiu dizendo que aquilo dava um romance. Ao que Namorado imediatamente retorquiu: «Ai dar, dava, mas por favor não o escreva.»

Dançando com a diferença

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Um colega editor da Nova Delphi, uma editora que opera no Funchal e se encarrega também de organizar anualmente o Festival Literário da Madeira, pediu-me há uns meses um poema inédito para uma antologia. Tratava-se, no fundo, de publicar uma colectânea de poesia cujas receitas revertessem para o grupo Dançando com a Diferença, um projecto de Henrique Amoedo, cujo elenco inclui, "sem balizas" pessoas com deficiência ("artistas que dançam com o corpo, sempre, e não apesar do corpo"). Pois bem, dei, evidentemente, o poema, e a antologia foi recentemente publicada com a colaboração de todos os que quiseram ajudar: Alex Gozblau fez a capa, Gonçalo M. Tavares escreveu o prefácio e cerca de 70 poetas ofereceram os seus textos por esta boa causa. Agora, o volume intitulado 70 Poemas para Adorno (Adorno é o filósofo alemão que se interrogou sobre a possibilidade de se escrever poesia depois de Auschwitz) está aí, depois do seu lançamento oficial no Festival Literário da Madeira em Março último, e precisa de que todos a comprem e leiam. Fazer o bem lendo é coisa séria e faz-nos sentir bem.


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Sinceridade

Recentemente, perdemos dois grandes vultos nacionais: Herberto Helder e Manoel de Oliveira. Os jornais deram-lhes naturalmente o merecido destaque, páginas e páginas de artigos sobre a sua vida e obra, com a recolha de testemunhos de figuras de proa, velhos amigos e confrades. Mas, como quase sempre nestas coisas, ao elogio unânime reagiram de imediato algumas vozes escandalizadas, alegando que os encómios eram, na maioria, todos iguais, o que de alguma maneira indiciava que muitos dos seus autores não conheciam assim tão bem nem o poeta nem o cineasta e alguns nem sequer gostavam realmente dos filmes do último. A este propósito, contaram-me recentemente uma história bem curiosa. Há uns bons anos, num evento cultural em França, participavam num debate António Lobo Antunes e Manuel da Fonseca; depois de terem dado o seu contributo, parece que o moderador lhes perguntou o que achavam da obra de Manoel de Oliveira, que em França tinha um enorme sucesso e era objecto de muitos prémios. Manuel da Fonseca resolveu ser sincero e disse que a achava uma grande chatice. Os ouvintes franceses ficaram então completamente chocados e ouviu-se um enorme burburinho na sala, impedindo sequer o moderador de intervir. Foi quando Lobo Antunes levantou a mão, pedindo silêncio à plateia (como sabem, é também um autor muito apreciado em França), que a sala se acalmou para o ouvir dizer: «O Manuel da Fonseca tem toda a razão.» Muitos outros não têm, claro, a coragem de ser assim sinceros.

Crónica Feminina

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Quem é do meio dos livros (e sobretudo vivendo na zona centro) quase já de certeza ouviu falar de uma personalidade muito respeitada em Coimbra (e fora de Coimbra também), o alfarrabista Miguel de Carvalho. Porém, além de vender livros antigos na Baixa histórica da cidade, ele é também – ou acima de tudo – um grande animador e divulgador cultural, e é, de resto, nessa qualidade que o trago hoje a este blogue. Neste mês de Maio, Miguel de Carvalho organiza um encontro de poesia aos fins-de-semana numa bela iniciativa que se intitula Fractura Exposta e desta feita escolheu apenas poesia de mulheres e daí o subtítulo de Crónica Feminina. Entre outras, estará presente Ana Luísa Amaral, uma grande poetisa com uma grande voz para dizer poesia. Eu estarei no dia 23 à conversa com António Tavares. O programa pode ser consultado no cartaz abaixo. Apareçam.


 


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Romance(s)

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Já aqui vos falei várias vezes da minha amiga Aldina Duarte, uma grande fadista com quem tenho o orgulho de conviver com frequência e de trabalhar. Pois não resisto a falar-vos hoje de um trabalho dela que acaba de sair e no qual tive a alegria de participar. Julgo ter-vos dito que a Aldina é uma mulher de muitos livros e leituras; o seu último disco antes deste chamou-se, aliás, Contos de Fados, porque cada uma das letras remetia para um conto, uma história (lenda, mito, romance, o que fosse). Desta vez, para a homenagem à literatura ser ainda maior, tive o prazer de escrever para a Aldina todo um romance, ou seja, uma história com princípio, meio e fim em catorze fados. É uma história de amor e envolve um triângulo - duas mulheres apaixonadas pelo mesmo homem -, porque se fosse fácil não teria graça. Contam-se os momentos da sedução e do namoro, mas também as primeiras desavenças, a traição, a separação e o luto (não conto o fim, senão não teria graça); e tudo isto usando uma panóplia de formas à disposição, das simples quadras às quintilhas, sextilhas, alexandrinos e fados com refrão. No início, era para ser um único CD, mas eis que Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, chamado a dirigir musicalmente o projecto, teve uma ideia fantástica: a de, exactamente com as mesmas letras, mas afastando-se das melodias do fado tradicional, fazer um segundo CD completamente diferente do primeiro e muito mais arrojado, no qual participam também Camané, Ana Moura e Filipa Cardoso. E por isso aqui temos Romance(s), disponível desde dia 27 para quem o(s) quiser ouvir, sendo certo que, ao ouvir, me lerá também. Espero que gostem, eu adorei esta experiência e a Aldina canta sublimemente neste trabalho.


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Falar

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Não sei se se aprende alguma coisa com um autor ouvindo-o falar das suas estratégias (se é que serão estratégias) de criação. Mais se aprende quase de certeza lendo o que escreve e vendo à transparência (ou opacidade) os seus textos. E, porém, achou alguém que eu – escritora mais bissexta do que os anos – devia partilhar com os interessados pelas coisas da escrita (de poemas, antes de tudo, mas também de blogues como este) a minha oficina, o como-faço depois de a ideia – essa estrangeira – me visitar. Pois nem eu sei bem explicar, parece-me, pelo menos enquanto não começar a falar, coisa em que nunca estou completamente à vontade, sobretudo quando encaro rostos assim curiosos. Ainda por cima, pedem-me que fale no feminino, sexo que alguns dizem fraco, ou mais fraco, só porque os pulsos das mulheres são, vá lá, mais delgados, e os seus punhos fechados como flores em botão. Faço flores, bem sei, para não ir directa ao assunto; mas sem saber exactamente porquê (só descobrirei in loco, presumo), disse sim ao convite e vou estar por quatro horas a debitar, mal ou bem, sobre criatividade – a minha, mas também a dos autores que me impressionaram e, quanto a isso, será seguramente difícil eleger só uma parcelinha, mas fácil elogiar. O caso é que, se vos apetecer, apareçam, inscrevam-se. A sessão é no próximo sábado às 14h30, na Rua do Possolo, 16, à Estrela, e faz parte dos Cursos Ícone da Ec.on. Mais informações no link abaixo. Veremos.


 


http://escritacriativaonline.net/autores/maria-do-rosario-pedreira/


 


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Tarde infame

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Já aqui vos falei de um romance de fundo histórico que publiquei recentemente. Chama-se Veio Depois a Noite Infame e assina-o Margarida Palma, uma autora apaixonada pela História, que já ensinou, e pelo período da I República. Com personagens deliciosas e muitos mal-entendidos que lembram alguns livros de Jane Austen, a obra fala de um ano especial, 1921, na cidade de Lisboa, em particular dos habitantes de uma praça bem conhecida e hoje pejada de centros comerciais e um hotel bastante feio. Pois é tempo de apresentar publicamente o romance e logo à tarde, pelas 18h30, teremos na Livraria Buchholz, ali ao Marquês de Pombal, a professora Maria Fernanda Rollo para o fazer. Venham, venham, e não serão demais.


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O que ando a ler

O primeiro livro de ficção que acompanhei nos meus dias inaugurais de actividade editorial, ainda como assistente e em part-time, foi O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, que era também o primeiro romance do autor; e, sei lá se por isso, li toda a sua obra ficcional publicada, tirando um libreto. Ocupo-me agora de A Balada de Adam Henry, um relato surpreendente sobre a vida de uma juíza de 59 anos, Fiona, a atravessar uma crise conjugal e a sentenciar todos os dias sobre casos de famílias desavindas, nos quais as crianças (que não teve) são quase sempre as principais vítimas. O marido adora-a – ama-a, na verdade –, mas de repente falta-lhe o sexo, não quer sentir-se velho nem morto e julga poder, fora de casa, ter uma parceira com a autorização de Fiona, o que origina uma ruptura no casal. Ao mesmo tempo, num hospital, um jovem prestes a atingir a maioridade recusa uma transfusão de sangue por pertencer às Testemunhas de Jeová e os seus médicos apelam ao Tribunal para que se evite a sua morte dolorosa. Nem sabe Fiona como este episódio judicial e o seu encontro com o jovem Adam irá ajudá-la a resolver os problemas que tem dentro de casa. Ian MacEwan é um veterano, mas dá gosto ver como investiga a Lei e o Direito e não se encosta apenas ao seu poder criativo, trazendo-nos histórias incríveis que cruzam provavelmente os tribunais do mundo inteiro. E, tal como em outros romances que li dele (já aqui falei de alguns, mas destaco A Criança no Tempo, um dos meus favoritos), mostra conhecer o lado feminino com grande profundidade e saber o que pensam e sentem as mulheres em várias situações. Estou perto do desfecho, mas sinto que vêm notícias más a caminho para a juíza Fiona e para Adam... De todo o modo, são boas notícias para os leitores: este A Balada de Adam Henry é um grande romance. A tradução, muito boa, é de Ana Falcão Bastos.