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A mostrar mensagens de abril, 2015

Macondo

Queridos amigos, não sei se já sabiam por outras fontes, mas queria dizer-vos que, enquanto me estão a ler, se tudo correu como esperado, estarei em Bogotá, a participar na Feira do Livro daquela cidade, donde só regressarei no dia 30. Terão de passar o resto da semana sem o blogue, mas deixei este post preparado porque entretanto descobri uma coisa maravilhosa que quero partilhar convosco. É habitual as Feiras do Livro de vários países terem anualmente um país convidado e organizarem a programação à sua volta; é assim com a Feira do Livro de Frankfurt, por exemplo, ou o Salão do Livro de Paris, mas também com a Feira de Guadalajara, no México, ou a FILBo, em Bogotá, uma das maiores feiras da América Latina, que já contou recentemente com Portugal como país convidado, até porque a Colômbia tem um grande especialista na obra de Pessoa, chamado Jerónimo Pizarro, que tudo comissariou na altura. O que tem piada é que, estando este ano convidada e não sendo ano de Portugal, fui tentar saber qual era o país homenageado. E, enfim, a resposta mostra que há gente com imaginação e atrevimento suficiente para fazer uma coisa bem original: Macondo! Ora, como sabem, Macondo é um lugar criado por García Márquez nesse que foi o seu romance mais traduzido e lido de sempre: Cem Anos de Solidão. Bonita homenagem a Gabo, um ano depois da sua morte. Até dia 4, bom feriado no dia 1!

Perguntem-me

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E pronto, chegou a altura de se poder falar do romance escrito por João Pinto Coelho, o autor dos retratos de alguns dos Extraordinários que aqui postei como presente de Natal, romance disponível desde terça passada em várias livrarias e a partir de amanhã em todo o País. Chama-se Perguntem a Sarah Gross, foi finalista do Prémio LeYa no ano passado e é talvez o mais internacional romance português que publiquei até hoje (quando o lerem saberão porquê). E, se perguntarem, terei de vos dizer que é muito, mas muito bom, impossível de largar depois de se começar a ler. O enredo tem que se lhe diga - e tão depressa estamos nos anos 1960 num colégio elitista do Connecticut , dirigido pela carismática Sarah Gross, como nos vemos na Polónia desde o fim da Primeira Guerra Mundial até aos tempos duríssimos do Holocausto, em que os alemães deram a uma cidade que se chamava Oshpitzin, onde viviam muitos judeus, um estranho nome que, por péssimas razões, todo o mundo conhece hoje demasiado bem: Auschwitz. Entre a história de uma jovem professora que atravessa meio país a fugir a um segredo e a história de uma mulher que passou por um drama inesquecível e vive com um segredo ainda maior, esta ficção sobre a cidade que se tornou o mais conhecido campo de extermínio de sempre deixa-nos arrebatados pela sua estrutura, as suas personagens, os seus diálogos magistrais, a sua cinematografia (às vezes, parece mesmo que estamos a assistir a um filme). Perguntem-me, e dir-vos-ei que é imperioso que a leiam, até para poderem concluir que o talento do autor para desenhar não é, afinal, nem o seu único nem o seu maior talento. E ponho aqui também um link para uma pequena apresentação que vos vai certamente deixar com água na boca.


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Cinco velhos brasileiros

Aqui na terra muitas actrizes e apresentadoras se tornam autoras de romances – mas a verdade é que os seus livros são, ao que se diz, xaroposos e lamechas. Pois no Brasil parece que uma actriz, Fernanda Torres, surpreendeu tudo e todos com o seu primeiro romance aos cinquenta anos. Fim é o título da obra a várias vozes sobre cinco amigos já idosos à horinha da morte (não, não morrem todos ao mesmo tempo, mas o primeiro texto relativo a cada personagem é sempre um relato na primeira pessoa dos últimos momentos cá deste lado) e o que, na vida de cada um, teve, afinal, cruzamentos e implicações na vida dos outros. A crítica brasileira embandeirou em arco com a estreia de Fernanda Torres – e esses encómios reproduzidos na badana, bem como a editora que levou o livro à estampa, a famosa Companhia das Letras, que agora também já publica em Portugal, atraíram-me para a leitura. Não fiquei tão convencida como gostaria, mas, pronto, atribuo a minha renitência ao êxtase à dificuldade em perceber algum do léxico usado, o que impede a fruição imediata; achei, porém, bem interessante como esses textos de abertura que mencionam os nomes da personagem e as respectivas datas de nascimento e morte são, de certa forma, herdeiros do teatro, pois podiam ser divertidos (e às vezes trágicos) monólogos recitados em palco – ou não fosse Fernanda Torres, acima de tudo, uma actriz. Vale a pena, em todo o caso, assistir a uma estreia nada fútil, para variar, num romance que é sobre a vida a escapar-se, a vida a ser vivida até ao rebentar das costuras (droga, sexo, etc.) e também o valor da amizade, mesmo quando esta é traída porque não há duas pessoas iguais e algumas estão-se nas tintas para a lealdade. Experimentem – e depois digam-me o que acharam.

Cem anos

Este ano comemora-se o centenário da revista Orpheu – e é natural que publicações e instituições lhe dediquem páginas e atenção, o que já vem acontecendo há algum tempo, por exemplo, com a Casa Fernando Pessoa. Mas uma efeméride não deve deixar outras no esquecimento e, por isso, foi para mim tão importante ler no blogue do meu colega editor espanhol Adolfo García Ortega a referência de que em Novembro próximo faria também 100 anos Roland Barthes. Nos meus tempos de estudante, todos os alunos de Letras deitaram a mão aos seus livros brilhantes, desde Fragmentos de Um Discurso Amoroso a O Sistema da Moda, desde A Câmara Clara a O Prazer do Texto, livros de uma categoria difícil de definir, mas sempre apaixonantes, porque Barthes, além de ser uma espécie de cientista da língua e um homem elegante, era um grande escritor – e era isso que agarrava o leitor e o levava a ler toda a sua obra, independentemente do assunto específico que cada livro tratasse. Pois bem, Barthes morreu prematuramente há 35 anos, quando ainda nos podia dar tanto, por causa de um estúpido acidente. Um veículo de matrícula belga estaria estacionado em segunda fila perto de uma curva, tirando a visibilidade necessária a quem queria atravessar a rua; foi Barthes quem, infelizmente, levou com a carrinha de uma tinturaria em cima – e a sua morte não se deveu às escoriações, de que até estava a recuperar bem, mas a uma infecção pulmonar que desenvolveu depois no hospital. Conta o meu amigo Adolfo que nessa esquina, durante muito tempo, houve uma tabuleta que dizia: «Diminua a velocidade, poderia atropelar Roland Barthes.» A forma de não o atropelarmos, digo eu, é lê-lo e relê-lo, encantarmo-nos com as suas páginas cem anos depois do seu nascimento e trinta e cinco depois da sua morte. Mais do que com as muitas biografias suas que aí vêm para o centenário, é aos seus livros que não envelhecem que devemos prestar toda a atenção.

Cópia privada

Todos sabemos que por esse País fora ainda há muita gente que fotocopia livros e capítulos de livros de forma excessiva, privando os seus autores dos respectivos direitos. Se, na música, a gravação clandestina é verdadeiramente escandalosa (já há muito pouca gente a comprar discos, porque «saca» as músicas da Net sem pagar com a maior desfaçatez), para os filmes acontece o mesmo e também o livro está a ser há muito prejudicado com estas cópias privadas; daí que se tenha criado um diploma que visa a protecção do autor e foi, inclusivamente, aprovado pela maioria parlamentar na Assembleia da República em Fevereiro último (fazia, de resto, parte do Programa do Governo). Mas, como não podia deixar de ser, o Presidente da República resolveu vetá-lo, achando-o desequilibrado… Pois bem, os direitos a serem pagos aos criadores têm vindo a diminuir drasticamente ao longo dos anos, provando que as cópias ilegais se multiplicaram (mais ainda em momentos de crise, nos quais os alunos preferem pagar fotocópias de vinte páginas a comprar um livro do qual só têm de ler um mero capítulo); mas Cavaco Silva não quer certamente prejudicar as empresas de fotocopiadoras e computadores, os seus amigos empresários, não se importando, mesmo assim, que aos artistas lhes seja passada a perna todos os dias. A Sociedade Portuguesa de Autores pede que todos os criadores se mobilizem e unam na defesa dos seus direitos e, no fundo, é o que faço hoje, no meu humilde espacinho.

A nossa língua

Que temos de mais bonito senão a nossa língua, essa língua que correu mundo e se misturou com a dos povos de África, da América, da Ásia, e voltou outra, cheia de salpicos doces e palavras em bico, e é hoje uma criação colectiva de aquém e de além mar? Leio no jornal Globo do Brasil uma fantástica crónica de José Eduardo Agualusa sobre a matéria, em que ele cita uma das frases mais conhecidas a propósito, a muito difundida «Da minha língua vê-se o mar», de Vergílio Ferreira, que continua: «Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto.» Também Pessoa disse que a sua pátria era a língua portuguesa, outra grande frase; mas, ao ler o belo texto de Agualusa, caio de amores por uma frase dele, que é tão cheia de língua e de graça que não podia vir de um sisudo português. Ora tomem lá (a segunda parte é que conta): «A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, cabo-verdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil e generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.» Bela prosa esta do escritor angolano que, mais à frente, diz que os seus conterrâneos todos os dias trazem alguma coisa para o português, com quem «têm uma relação de esplêndida irreverência. Falam português sem culpa e sem gravata.» E, se ele o diz assim, eu acredito – e desejo que tragam estas proezas todas para a nossa língua quanto antes e que os nossos autores as usem logo, porque às vezes os papéis dos potenciais escritores em cima da minha mesa são muito pobrezinhos ao pé disto

Oficinas

Quando fui recentemente a Macau, pediram-me que montasse uma oficina de escrita de uma história para crianças para alunos do 4.º ano, portanto, de nove ou dez anos de idade. Nunca tal coisa fizera parte dos meus planos, mas meti as mãos na massa e acho que acabámos por escrever em conjunto uma pequena história bastante engraçada com feiticeiros, partidas, poções – e até intestinos de barata –, que mais tarde haveria de ser ilustrada pelos autores com a ajuda do ilustrador João Fazenda (numa segunda parte da oficina). Sei que não me saí muito mal, mas na verdade há quem faça este tipo de oficina bem melhor do que eu: falo, mais uma vez aqui no blogue, de Marina Palácio, que tem agora um ciclo de workshops agendado para várias bibliotecas de Lisboa, entre as quais a dos Olivais e a de Telheiras. O programa é variado, mas eu tenho especial curiosidade em relação a duas destas oficinas: a dos Alimentos Incríveis e a dos Alfabetos Sensoriais. Acho que a Marina tem mesmo de ter muita imaginação, saber e paciência para trabalhar estas matérias com miúdos ao longo de duas horas... De resto, deixo-vos aqui um link se acaso tiverem vontade de inscrever numa delas os vossos pequenos conhecidos. E boas obras!


 


http://blx.cm-lisboa.pt/noticias/detalhes.php?id=1014

Ofertas

Um dia, um autor meu ganhou um prémio literário e a entidade que o promovia pediu quatro dezenas de exemplares do livro galardoado para os patrocinadores; eram muitos, digo eu, e além disso foi logo sublinhando que esses livros não deveriam ir com carimbo de OFERTA. Pois bem, eram efectivamente oferecidos pela editora do livro premiado (e tenho ideia de que essa oferta nem era mencionada no regulamento do prémio), mas não podiam ser etiquetados como oferecidos? Bem sei que ninguém gosta de receber um livro carimbado… nem de dar, evidentemente, parece presente em segunda-mão. Mas esse carimbo incómodo tem uma razão de ser. Um dia não muito longínquo, vi à venda num quiosque exemplares de livros que publiquei há anos e se encontram fora de mercado (e, ao que sei, de que não resta stock na editora); também já vi alguns vendedores de rua comercializando títulos que eu publicara e ainda nem estavam disponíveis nas livrarias… Soube por portas travessas que havia gente que recebia os livros para recensão e outros fins (e gente que os surripiava nas gráficas também) e que ganhava dinheiro com os livros oferecidos que não lhe interessavam particularmente, passando-os a pessoas que aceitavam vendê-los em quiosques de jornais e tabaco. O carimbo foi apenas uma medida para evitar este tipo de especulação, e mais nada, mas nem toda a gente cabe no mesmo saco e eu percebo que algumas pessoas prefiram um frontispício limpinho, sem mácula. Eu prefiro, mas percebo.

Felicidade

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Apesar de o índice médio de felicidade dos portugueses ser relativamente baixo, sobretudo depois da crise que nos assolou a partir de 2009, a verdade é que eu não podia estar hoje mais feliz. É que o romance de David Machado que publiquei há um ano e tal, Índice Médio de Felicidade, foi ontem mesmo objecto de um importante prémio internacional, atribuído nada mais nada menos do que pela União Europeia! E o autor merece, oh, se merece, sendo a sua reflexão sobre os efeitos da crise e do desemprego, ponto de partida para a história de Daniel, dos seus amigos e da sua família no romance, um contributo importante para pensar a Europa contemporânea, as suas feridas abertas e o futuro que nos cabe ter e não ter. Parabéns, David, por esta excelente notícia e por não ter permitido a Daniel baixar os braços junto dos seus filhos, dos seus amigos e dos filhos destes. Esta não é uma história de resignação, mas de combate por um futuro melhor e mais feliz. E, nunca é demais dizê-lo, ficamos todos felizes por si: a Europa, eu e certamente também todos os leitores deste blogue e do seu livro.


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Havíamos de falar

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Não, não me refiro a Mário de Carvalho e ao seu Havíamos de Trocar Umas Ideias sobre o Assunto (estou a parafrasear), mas até podia ser, porque o post tem tudo que ver com o Belo. Falo, porém, de um Ciclo de Conferências que ocorrem mensalmente, de há cerca de um ano para cá, no Teatro Aveirense, ciclo esse organizado pelo Centro de Investigação em Materiais Cerâmicos e Compósitos e a Fábrica Centro Ciência Viva em Aveiro e com a mãozinha de Nuno Camarneiro, investigador na Universidade dessa cidade e também escritor. As conversas, que já se dedicaram a Deus, ao Tempo, ao Conhecimento ou à Solidão, entre muitas outras coisas sobre as quais havíamos de falar e às vezes não falamos, envolvem artistas, cientistas e pensadores que, diante de uma audiência ao que sei entusiástica, trocam ideias sobre esses assuntos e se deixam interpelar por Nuno Camarneiro. Hoje às 18h00 estarei por lá a falar do Belo, essa palavra muito grande onde podem caber poemas e Fellini, mulheres loiras e pintura renascentista. Terei como companheiro o coreógrafo Paulo Ribeiro e desta vez não vai haver desculpas, temos mesmo de falar disso que é a Beleza, sem a qual já não podemos viver.


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Debater a cultura

A Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas organiza, entre 15 e 22, no Centro Cultural de Belém, um interessante fórum que tem por nome O Lugar da Cultura: Modelos e Desafios e que pretende responder, entre muitas outras questões, às perguntas «Qual é o espaço que a cultura deve ocupar no século XXI?» e «Que modelo de desenvolvimento queremos?». Entre variadíssimos painéis de debate e colóquios com participantes nacionais e internacionais de nomeada, destaco – porque me parece extremamente importante para a difusão da língua portuguesa, que é talvez o nosso mais rico património – a sessão dedicada à internacionalização da literatura e da ilustração portuguesas no dia 17 às 10h00 da manhã, com a presença da escritora Dulce Maria Cardoso, de Harrie Lemmens (tradutor de português para neerlandês), de Federico Bertolazzi (tradutor de português para italiano e professor na Universidade de Roma), Isabel Minhós Martins (autora de livros infantis e editora da Planeta Tangerina), António Jorge Gonçalves (ilustrador), Fernando Pinto do Amaral (pelo Plano Nacional de Leitura) e José Manuel Cortês (director-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas). Um pouco mais tarde, às 11h30, serão entregues prémios de ilustração a João Fazenda (meu parceiro no livro A Minha Primeira Amália), António Jorge Gonçalves e Yara Kono. A partir do dia seguinte, as sessões serão abertas ao público, mediante a lotação da sala, mas as inscrições podem ser feitas através do link:


https://pt.surveymonkey.com/s/lvro


O programa completo pode ser consultado aqui:


http://olugardacultura.pt/


 


 

Escrever de graça

Quando eu comecei a trabalhar no ramo editorial, a maioria dos escritores com obra publicada tinha um emprego fixo e escrevia nas horas vagas (como não havia tantas solicitações como há hoje e a televisão só tinha dois canais, era mais fácil arranjar tempo). No entanto, hoje os escritores querem viver exclusivamente do que escrevem (que é, também, o seu trabalho) e, porque o País é pequeno, raramente o que tiram das vendas dos respectivos livros é suficiente para se sustentarem, tendo por isso de se lançar à escrita de guiões, artigos de jornal, recensões, peças de teatro, etc. Mas não é fácil, claro; primeiro, porque estas manobras os afastam muitas vezes das obras que estão a compor; depois, porque estão sempre a ser solicitados para escrever sobre tudo e mais alguma coisa, de borla! Pois, pois... Eu queria ver se alguém tinha lata de convidar um economista ou um médico para escrever ou falar sobre um assunto específico sem lhe pagar... A um escritor, porém, quase nunca se toca no assunto do dinheiro, como se ele vivesse do ar e fosse sua obrigação oferecer de mão beijada todos os seus textos. É, na verdade, escandaloso – e a verdade é que muitas vezes, ao convidarem escritores para discursarem neste ou naquele evento, ainda acham que lhes estão a fazer um favor e a dar uma oportunidade para promoverem os seus livros. Eu, por exemplo, estou a sempre a receber pedidos para fazer prefácios em livros de poetas estreantes, mas mais recentemente também me pediram artigos que me obrigariam a uma investigação séria sem mencionar o pagamento uma única vez. Fiquei até agradavelmente surpreendida quando há uns meses uma instituição me convidou para ler e falar de poesia e me disse logo que pagava. Mas foi uma excepção e não parece que ninguém lhe siga o exemplo. Escrever será pior do que fazer contas em quê?

Propaganda

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Logo mais à tarde, pelas 18h30, acontece na Livraria Buchholz o lançamento de um ensaio biográfico de Orlando Raimundo sobre o homem da propaganda de Salazar, intitulado António Ferro: O Inventor do Salazarismo. A apresentação estará a cargo de António Costa Pinto, que conhece bem a figura e o período em causa e, por acaso, há uns dez anos, apresentou igualmente outra obra do autor que reeditei recentemente, desta feita dedicada a Marcello Caetano (A Última Dama do Estado Novo e Outras Histórias do Marcelismo). António Ferro é uma personagem fascinante para quem se queira dar ao trabalho de esmiuçar as suas acções – e o seu quê de impostor (usou a circunstância de ter sido editor da revista Orpheu, o que aconteceu apenas no papel – e por ser menor de idade e inimputável – para se enaltecer e conseguir chegar a muitos lados) anda sempre a par do seu poder criativo e da sua genialidade. Rodeou-se dos melhores homens da cultura do seu tempo e soube trazê-los, diria eu, para o lado errado (sempre os artistas gostaram de um certo mecenato, enfim), mas a verdade é que muitos deles produziram nesse tempo coisas inesquecíveis (a título de exemplo, filmes como A Canção de Lisboa ou mostras como a Exposição do Mundo Português). Por isso, se tem curiosidade sobre este homem de muitas facetas, venha ouvir falar dele mais logo ou leia o livro, que vale muito a pena.


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Perder

Em pequenos, nunca tivemos lá em casa animais de estimação – excepto um gato encontrado doente durante um Verão que, quando voltámos para casa, no fim das férias, foi com alguém que se ofereceu para cuidar dele, mas pouco depois fugiu e nunca mais se soube o que lhe acontecera. Lembro-me vagamente de um periquito – cuja gaiola a minha avó limpava afanosamente –, mas então já eu era adolescente; e também de um aquário com três peixes, dois dos quais morreram quase imediatamente, sobrando apenas o mais feio – que viveu até aos meus quinze anos, uma raridade. Recordo-me, porém, de alguém ter dado a um dos meus irmãos um grilo numa gaiolinha na primeira casa onde vivi (antes, portanto, dos meus seis anos) e de, por causa do sabão que escorreu dos lençóis do andar de cima (nesse tempo ainda não havia máquinas de lavar roupa), o desgraçado ter sucumbido e causado muitas lágrimas, sobretudo a esse meu irmão. Nunca é fácil lidar com a perda de um animal querido – e agora há um belo livro sobre o assunto chamado Gato Procura-se, assinado por Ana Saldanha e com ilustrações de Yara Kono. É, para abreviar, a história de um gato que morre; o problema é que os pais do dono, um rapazinho, não conseguem dar-lhe a notícia e inventam que o felino anda pelos telhados e um dia ainda há-de voltar; os avós não prometem o regresso, mas também arranjam eufemismos, dizendo que o pobre gato foi para o céu, que agora é um anjo, que tem asas e outras coisas do tipo. Só a criança, afinal, parece ter realmente a certeza do que aconteceu e perceber que o gato não regressará. Uma história simples mas bonita sobre a perda que poderá ajudar muitos pais a lidarem com a questão da morte de um animal de estimação junto dos filhos. Leitura sensível.

O perigo de ler

Ontem referi aqui um artista argentino que andava a distribuir livros pelas ruas e classificava como perigosa a sua missão. E de repente leio um texto do meu amigo Adolfo García Ortega – escritor e editor espanhol – e percebo que, apesar de Lemesoff estar a ser irónico, na verdade os livros comportam mesmo uma dose de risco, o perigo de ficarmos a saber o que nem sempre convém a outros que saibamos (e é isso que assusta os que querem à força destruir livros ou constroem listas de títulos a abater). Mas, porque não vale a pena dizer pelas minhas palavras o que Adolfo García Ortega diz na perfeição, limito-me a traduzir um parágrafo eloquente do seu belo texto:


«Os grandes escritores sempre souberam que os livros alteram a mente, condicionam a vida, inundam a imaginação e fomentam desejos. Que geram Quixotes, Bovarys e Alices. Transformam o leitor, muito ou pouco, mas transformam. Porque, em última instância, os livros desviam: desviam da origem e do destino, propõem um caminho diferente para se chegar a um lugar inesperado. Como Lewis Carroll diz pela boca do Gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas: “Chegarás sempre a algum lado se caminhares o suficiente.” Acredito na perversão que causam os Carroll, os Joyce, os Flaubert, os Cervantes, os Shakespeare. Porque todos, como donos de grandes truques, enfeitiçam e manipulam a alma crédula dos leitores. Com os livros, o leitor bebe a sua dose de veneno da literatura. Torna-se transgressor e impostor. Sente que pode alterar o inalterável. Sabe que tomará, mais cedo ou mais tarde, o caminho errado. Aprenderá o que ninguém sabe. Aproximar-se-á do mistério e da revelação. Os livros fermentam dentro dos leitores e depois enlouquecem-nos em segredo. Por isso o melhor conselho que conheço, como escritor, é este: Crianças de todo o mundo, não leiam! E, apesar disso, eu li.»

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A expressão «arma de destruição maciça» aparece, de há uns anos para cá, frequentemente nos nossos jornais (por razões que sabemos e nem vale a pena estar a lembrar). Mas haverá uma outra menos comum que, evocando a sonoridade da anterior, é completamente outra coisa: “arma de instrução maciça.” Se não a conhecia, saiba que ela foi criada por um artista argentino ao que dizem um pouco excêntrico, de seu nome Raul Lemesoff, e que o seu objectivo é o de combater a ignorância e espalhar o conhecimento por todo o lado. Trata-se, afinal, de uma espécie de tanque de guerra cultural – concebido a partir de um velho Ford Falcon de 1979 – cheio de livros por dentro e por fora (cerca de 900, ao que parece), que percorre as ruas de Buenos Aires conduzido pelo seu criador, desejoso de oferecer livros a novos e velhos. Diz Lemesoff, a brincar, que a sua missão é muito perigosa e que ataca as pessoas de uma forma simpática e divertida. Venham mais artistas como ele criar bibliotecas artísticas e itinerantes e espalhar o “perigo” da sabedoria. Pode ser que assim haja menos guerras reais.


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Eruditos e analfabetos

Almeida Faria foi o autor homenageado este ano pela revista das Correntes d’Escritas, com vários artigos a ele dedicados por autores e estudiosos como Ana Luísa Amaral, Cristina Robalo Cordeiro, Hélia Correia, Isabel Pires de Lima ou Lídia Jorge. No seu discurso de agradecimento durante a sessão inaugural, o escritor contou uma história deliciosa. Quando se estreou na literatura aos 19 anos com Rumor Branco – uma obra considerada de grande modernidade e que gerou inclusivamente controvérsia entre os seus defensores e os seus detractores – vivia no Alentejo numa zona extremamente pobre e onde quase ninguém sabia ler. O romance – decerto muito pouco convencional para a época – não deve, pois, ter convocado a simpatia de muita gente por ali, talvez nem sequer a da mãe do escritor, que terá comentado a sua dificuldade com a criada analfabeta. Mas Almeida Faria passou, de qualquer modo, a ser considerado na sua terra uma pessoa importante e, tendo sido visto certo dia numa livraria, logo foi fotografado e objecto de uma notícia no jornal local, que referia detalhadamente as obras que tinha comprado. Ora, vendo a fotografia do rapaz no jornal aberto e inteirando-se do que ali se contava, parece que a criada analfabeta não esteve com meias medidas e lhe terá dito: “Pronto, agora, que o menino já tem esses livros todos, já pode copiar e fazer um livro como deve ser, com aventuras e tudo.”

O que ando a ler

Sempre curiosa a respeito de novos autores, leio uma estreia vigorosa e muito aclamada de uma mais ou menos jovem norte-americana (36 anos) que, ao que sei pela badana, foi para Brooklyn ser empregada doméstica para poder escrever um romance. Pois saiu-se bem: os principais jornais e revistas de confiança nestas coisas – o Guardian, a New Yorker, o Economist, entre dezasseis publicações – consideraram A Vida Amorosa de Nathaniel P. um dos livros do ano. O protagonista, Nate para os mais próximos, acaba de negociar a sua primeira incursão na escrita ficcional por uma bela maquia (tudo indica que vai ter sucesso), é inteligente, bonito e culto, mas soma culpas por todas as mulheres que tem vindo a abandonar ao longo da vida, porquanto não parece saber viver um relacionamento sério, mesmo quando isso o faz sentir surpreendentemente bem. Desta feita, é Hannah, também aspirante a escritora publicada, igualmente culta e sofisticada, quem sofre os reveses da sua relação com o belo e interessante Nate, que tão depressa quer como não quer a sua companhia, a sua conversa e o seu sexo. Uma surpresa mesmo boa é ver como a autora, Adelle Waldman, se mete na pele de um homem e pensa masculino o tempo todo, falando das obsessões e medos do macho intelectual americano, que não perdoa o menor deslize cultural às suas parceiras. As conversas do grupo de amigos são, de resto, de um elitismo bastante inesperado, mas, enfim, estamos em Brooklyn, o bairro dos meninos que estudaram em Harvard e na Brown, procuram empregos em boas editoras e leram Proust e Flaubert. Vou ainda a meio e posso dizer que gosto bastante desta Hannah, vamos lá ver se ela consegue dar a volta ao difícil Nathaniel P.