Três livros grandes
Os livros hoje têm uma vida curta e, como se publica excessivamente, ficam pouco tempo nas livrarias, o que condena muitos deles a uma morte prematura. Os que têm a sorte de sobreviver são poucos e arriscam-se a tornar-se uma espécie de clássicos, embora muitos dos verdadeiros clássicos morram em vez deles e tenham cada vez menos leitores. Quando gostamos muito de um livro, ficamos desesperados ao ver que, nas gerações que se seguem à nossa, já ninguém lhe pega; e, porque creio que seria realmente grave que alguns títulos fossem esquecidos e riscados das leituras actuais, hoje dedico o meu post a três grandes romances (dois deles até no tamanho são grandes) que estão, quanto a mim, entre os maiores da literatura portuguesa. O primeiro é Sinais de Fogo, o romance que Jorge de Sena deixou inacabado e teve já uma adaptação ao cinema; o segundo é Finisterra, uma peça literária única no género da autoria desse poeta maior (e a cair perigosamente no esquecimento) que foi Carlos de Oliveira. O terceiro é Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, que está desde há uns meses disponível em pequeno formato na BIS e tem, por isso, um preço simpático. Se os jovens portugueses só lessem estes três livros, pelo menos já teriam lido qualquer coisa de grande.
O que mais me surpreende é um livro como Sinais de Fogo ter sido escrito por um português. Grande, grande!
ResponderEliminarFinisterra, grande livro e muito diferente dos outros romances do autor (Uma abelha na chuva, por exemplo) e muito melhor. Um espanto. Existe um colectânea com toda a poesia e todo dos romances de Carlos de Oliveira, já antiga, da Caminho. Não esquecer outros clássicos, nomeadamente de Cardoso Pires - não se se pode escrever sem ter lido A balada da praia dos cães ou o Delfim. Que também deram dois filmes bons, curiosamente.
ResponderEliminarOs livros têm uma vida curta.
ResponderEliminarNo filme Fome de Viver a magnífica Catherine Deneuve é uma vampira que vai acumulando ex-amantes, cujas vidas também sugou, num sótão onde pombas esvoaçam por entre finas cortinas de seda. A personagem continua a amar cada um dos que com ela partilharam bocados de vida, de vez em quando visita-os, o que nos é mostrado numa cena belíssima onde percebemos que estão todos vivos, cativos duma ligação que se mantém aos longos dos séculos de existência daquela mulher. Embora vivam em caixões, estão vivos, respiram sustidos por pouco mais que um esqueleto e embrulhados em pele enrugada, pergaminhos humanos.
Revejo-me neste filme na minha relação com os livros e destaco sempre o que estou a ler no momento - neste caso A Festa do Chibo, de Mario Vargas Llosa. Claro que há um ou outro que me aquecem a memória de forma especial, há personagens às quais não esquecemos os nomes, há outras que se transformam em amigos.
Os livros não têm uma vida curta, antes pelo contrário, apenas estão pouco tempo em exposição e, segundo as regras de hoje, é essa exposição que aparentemente lhes confere vida, mas só aparentemente. Os livros vivem sempre e Ruiz Zafón foi imaginativo em fazer-lhe uma homenagem no célebre cemitério que todos os vampiros de livros, como eu, gostaríamos que existisse e que um dia se proporcionasse visitar.
O meu mais sentido aplauso!
ResponderEliminarOs livros têm a vida curta...
ResponderEliminarCreio que sim, mas faria uma divisão:
1- Há livros, e leitores que os vêem como mero produto de consumo. E como há de facto muitos
livros e cada vez mais, a economia e portanto a rentabilização do espaço de venda obriga a que haja essa rotação. É uma questão de moda.
Os livros sob este prisma não terão espaço nem tempo para se tornar "clássicos", são meros objectos e uma oportunidade de venda.
Há livros MUITO bons que logo desaparecem e me permito apontar o caso do "O Rasto do Jaguar", depois aparecem pontualmente quando há "saldos" ou promoções... como até foi o caso de Saramago, cuja morte voltou a trazer aos escaparates... e só por isso...
- Depois há os leitores que amam deveras os livros e os vêm como objectos de culto e até de colecção... creio que serão poucos, mas são os que de facto fazem dos livros "clássicos" e intemporais portanto... são os que de tempos a tempos e pelas mais variadas razões vão reler passagens de António Gedeão, de "A cidade e as Serras", Júlio Verne...
Claro que para uns e outros, "clássico" depende muito dos gostos e interesses pessoais... e se é uma definição académica (?) creio que tem mais a ver com cada um. "Mau tempo no Canal" é um clássico? Será? (Eu gosto muito... e ainda por cima tive o privilégio de conhecer pessoalmente
o autor numas férias na Terceira)... mas quantas pessoas o leram e comungam dessa opinião?
Se o expuserem hoje, quem o compra? Quem o lê?
Mas... há quem considere "Sei lá!" um clássico... e dentro do género, se calhar até é!
O merchandising faz de cada um aquilo que se queira, mesmo o que ele não é! Repare-se em quantos livros se coloca a tal etiqueta 175 mil exemplares vendidos! O que quer isso dizer?
Que é bom? E nos perguntamos ao folheá-los na livraria: Tantos? Para quê? Porque o tamanho embora se adapte a forrar a gaiola do periquito fica muito caro... a Maria aberta ao meio faz o mesmo efeito e custa menos...
Afinal o que faz um clássico? É a nossa opinião pessoal? O sucesso de vendas? Ou de facto a sua
intemporalidade... ou, a moda? Ou a publicidade?
E a posição das editoras? Creio que têm hoje em dia o poder de influir nessa definição e nas escolhas do público, porque a grande maioria dele pertence à primeira categoria... são quem faz volume e segue a moda. Mas ao mesmo tempo que massifica a leitura de simples livros,
e trasmite valor à cadeia, à fileira económica, pode e deve ir conduzindo no sentido de levar o leitor primário a transformar-se no segundo, o
tal leitor que gosta de livros, o que leva muito tempo, pois tem de ir descobrindo aos poucos o que os livros dizem e contêem.
No fundo investe no consumidor final, o leitor, em benefício de toda a fileira que começa no escritor... será?
Recordo com saudade as "Selectas Literárias" que a apartir da 4ª classe acompanhavam as nossas leituras, ainda que de forma obrigatória, mas que no meu caso me ajudaram a descobrir géneros e autores e assuntos... até hoje!
Perdoem a extensão e a maçada deste comentário. Bom ano!
É só para lembrar que o livro "Sinais de Fogo" custa 30 (sim, trinta) euros.
ResponderEliminarhttp://www.guimaraeseditores.com/productdetails.aspx?id=721
E este livro foi publicado pela primeira vez em 1979, ou seja, há 31 anos!!
Fica esta informação. Se calhar não era mau de todo reflectir um pouco sobre isto.
E não será um dos papéis dos blogues, não deixar esquecer esses clássicos?
ResponderEliminarEu procuro, sempre que tenho oportunidade, referir clássicos que me marcaram, no entanto, para além de ver muito pouco essa preocupação nos restantes blogues, o que constato é que a literatura está dominada por modas em que o género fantasia reina. E, os leitores desse género, aborrecem-se com os clássicos.
Meu Caro Iceman...
ResponderEliminarNão concordo consigo! E explico:
Hoje domina o género fantasia? Hum... não creio e nem concordo... e nem me parece que se possa falra de um domínio, assim de um modo tão linear.
Há sim uma moda e por isso se expõem tantos livros sobre vampiros, lobisomens e mundos fantásticos...
E depois, por acaso Tolkien não é um clássico da fantasia - e soberbo - ou Stephen Lawhead? E Lloyd Alexander? e E. Allan Poe... e Mary Schelley ou Bram Stocker? Lewis Carroll, Jonathan Swift? Júlio Verne?
Tudo clássicos...
A questão está, digo uma vez mais, não nas modas mas nas escolhas... e na orientação das leituras... até na falta de curiosidade de quem lê.
Ainda passo uma boa tarde numa livraria, a percorrer o que há e a ir às prateleiras e aos assuntos, não me limito a dar a volta pelos topos e a ver as novidades. Vou mesmo à procura dos temas ou do que me despertou a curiosidade...
Assim descobri muita coisa... desde A Oeste do Éden (Harry Harrison) a Michel Crichton... e este
muito antes do Parque Jurássico, como a Tolkien antes da saga cinéfila (aliás excelente!).
E não considero que sejam géneros ou escritos menores, face a quem quer que seja... são bons no seu género e escrevem igualmente bem... pode é não se gostar do género
.
Há clássicos em todos os géneros... e é preciso perceber que do Western às viagens, passando pelo romance há sim TEMAS. E de facto pode haver temas mais ou menos na moda... agora no dia em que o clássico seja uma moda ou deixe de estar nela... é porque não é um clássico!
Mas isto é a minha opinião de rústico, claro, e
que pode nem ser correcta nem é a única.
Cumprimentos
É adorável vir aqui aceitar de bom grado as sugestões e nunca ficar desiludida!
ResponderEliminarMais três apontados!
Obrigada
A Maria do Rosário Pereira no seu blogue faz verdadeiro serviço público e todos aprendemos consigo. Obrigado.
ResponderEliminarSó me resta colocar os Sinais de Fogo no topo da já longa lista de livros a ler. Não sendo possível comprar todos os livros que nos vai recomendando, porque a lista é cada vez mais extensa, resta utilizar uma biblioteca pública, para ir lendo ao menos os clássicos. Nos últimos tempos constatei que pelo menos na biblioteca mais perto de mim, o Mário Vargas Llosa está bem representado.
Cara Rosário,
ResponderEliminarSe me permite, pronunciar-me-ei como jovem português (vinte e poucos anos) que já leu dois dos três livros em causa: Sinais de Fogo e Mau Tempo no Canal. Do primeiro, gostei imensamente. É, aliás, e até que outros consigam substituí-lo, um dos meus livros de eleição. Do segundo, já não gostei tanto, mas reconheço nele a qualidade dos grandes livros. Coisa que, francamente, não reconheço a nenhum dos autores actuais (talvez tenha lido os errados). Não admira, por isso, que os livros de hoje tenham hoje em dia uma vida prematura. Já os de antigamente, como Sinais de Fogo, sobreviverão. Certo, estiveram muito tempo sem edição, mas haverá sempre um dia em que alguém voltará a pegar neles. Nos que são escritos hoje em dia, já não tenho tanta certeza. As gerações seguintes não se limitam a ler menos e a ler pior. Também já não escrevem como se escrevia há uns tempos. Talvez não tenham tido tempo. Ou talvez, simplesmente, não tenham talento. Afinal, escrever como Jorge de Sena (e, admito, como Vitorino Nemésio) não será para quem quer, mas para quem pode.
Cumprimentos e votos de boas entradas,
Pois, como disse o grande (enorme) Borges, não se escreve o que se quer, escreve-se o que se pode !
Eliminar