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A mostrar mensagens de maio, 2011

Diz-me onde compras

Portugal perdeu nos últimos dez anos muitas livrarias independentes; e grande parte das que não perdeu pesa cada vez menos no total das receitas nacionais de vendas de livros, ao contrário do que acontece em Espanha ou França, onde não são só (nem sobretudo) as grandes cadeias de lojas que contribuem para os bons resultados financeiros das editoras. Tenho pena, porque, assim, uma estreita relação cliente-livreiro é cada vez mais difícil de encontrar e estaremos condenados a breve prazo a dialogar apenas com rapazes e raparigas que ganham provavelmente o ordenado mínimo e só sabem dos livros o que o computador lhes diz. Ainda assim, entre os vários grupos livreiros – FNAC, Bertrand, Bulhosa, Almedina... – há diferenças gritantes quando observamos os Top de determinada semana: enquanto Nora Roberts e Luís Miguel Rocha ocupam os primeiros lugares na Bertrand, Liberdade, de Jonathan Franzen, e Ilha Teresa, de Richard Zimler, lideram a lista da ficção na Bulhosa e na Almedina. Não sei se poderemos tirar daqui conclusões, mas talvez os amantes da literatura ainda prefiram, apesar de tudo, lojas consideradas mais tradicionais...

O marketing e a literatura

Vivemos num tempo em que as técnicas para fazer vender seja o que for são essenciais ao sucesso de qualquer marca ou produto. E não minto se disser que às vezes me ponho a pensar que, com capacidade inventiva e dinheiro, podemos realmente vender tudo o que quisermos e a toda a gente. Em relação aos livros, há, de resto, o exemplo de uma campanha exemplar, que deu frutos claros e pôs o autor nos píncaros (ou, melhor, nos Top). Falo de Bolaño e do êxito de vendas dos seus romances em Portugal, mesmo tendo em conta que o facto de o escritor ter morrido prematuramente constituiu um escândalo a que o público um pouco mórbido não foi completamente imune. No entanto, quando li Os Detectives Selvagens, não podia adivinhar que a obra deste autor se tornaria uma autêntica marca de sucesso. Achei que se tratava de um livro para leitores já rodados, com uma cultura literária respeitável e experiência suficiente para acompanhar uma obra requintada mas densa, na qual até o humor é incomum e encontrei (perdoem-me a sinceridade) algumas páginas bem aborrecidas. E, pelos vistos, a campanha foi tão bem pensada e posta em prática à saída do monumental 2666 que atraiu um número de leitores impensável, leitores que fizeram de Bolaño um verdadeiro autor de culto também em Portugal. Às vezes, há que tirar o chapéu aos marketeers...

Maravilhosa tecnologia

O Manel nunca resiste a uma novidade tecnológica e, talvez porque isso se saiba por aí, foi convidado pelo jornalista José Mário Silva para comentar uma aplicação para o iPad da obra Our Choice, de Al Gore, para um artigo que saiu recentemente no semanário Expresso. Embora seja uma adoradora do livro em papel e não pense que ele venha a extinguir-se (Umberto Eco acredita que é mais fácil que se extinga o e-book), fiquei extasiada com a forma como um livro de ciência ganha realmente com esta versão: ilustrações tridimensionais, gráficos em construção, imagens em movimento, a voz do autor a explicar tudo. Pareceu-me, de facto, que esta pode ser a maneira ideal de explicar a um estudante como e porque entra em erupção um vulcão, o que é realmente um tsunami, um sismo, a chuva, a ruptura de um ligamento, o desenvolvimento de um tumor, etc., etc., etc. E, no entanto, passadas as páginas até ao final da obra (se é que podemos falar de páginas), a sensação que me ficou foi a de ter estado a assistir a um programa de televisão, e não a ler um livro. Acredito sinceramente que o mecanismo contribua para uma melhor aprendizagem de certos factos e matérias, mas ler – e, sobretudo, literatura – é outra coisa e requer uma concentração que não se compadece com estas maravilhas tecnológicas. Aliás, os números de consultas de e-books nas bibliotecas dos Estados Unidos apontam para uma percentagem de 76% dos chamados «professional books»: de medicina, direito, gestão, ciência. Parece que os leitores de romances ainda os preferem em papel. Como eu.

Rasca ou à rasca?

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Uma jovem publicitária escreveu um romance leve e divertido – mas com muita coisa para levar a sério – e extremamente oportuno se tivermos em conta que, de há uns tempos para cá, a geração a que um dia chamaram «rasca» está agora «à rasca» e, por isso, na berlinda. Despretensioso e objectivo, Os 30 – Nada é como Sonhámos, de Filipa Fonseca Silva – uma estreante nestas coisas que pertence à dita geração –, constrói uma história a partir de três personagens com vidas e ambições distintas para falar de todo um grupo de desencantados, fazendo o seu retrato nem indulgente nem implacável. O lançamento é hoje, e quem apresenta o livro é Vasco Palmeirim, da Rádio Comercial.


Uma invenção dos anjos

Recentemente, fui à Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova, no Monte da Caparica, participar num debate sobre o suposto fim dos livros em papel e a emergência dos e-books. Antes do início, a gentilíssima bibliotecária fez-nos uma visita guiada pelo edifício, terminado há poucos anos e com condições extraordinárias para ler e trabalhar, quer individualmente, quer em grupo – uma vez que dispõe de vários gabinetes que podem ser reservados e ocupados por um máximo de seis alunos que preparem a mesma matéria para exames ou trabalhos colectivos. A forma como o arquitecto estudou a luz é também francamente inteligente, com janelas rasgadas e boas vistas que, em dias mais limpos, permitem um cheirinho de Lisboa. Mas o «supremo encanto da merenda», como diria Cesário, é uma invenção deliciosa, um lugar onde os estudantes podem sentar-se em sofás e ficar para ali a pensar, sem fazer mais nada. O nome do espaço? Adequadíssimo: Preguiçómetro. Era bom que todos tivéssemos uma coisa destas no local de trabalho para aliviar o stress de vez em quando...

A Manhã do Mundo

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Disfarçados de ricos

Com a situação actual, estão a surgir todos os dias novos pobres: além dos que de certa forma já o eram e sofrerão agora mais com os aumentos de tudo, os que perderam o emprego por falência ou estratégia das empresas onde trabalhavam e aqueles que se deixaram iludir pelos bancos e viviam claramente acima das suas possibilidades, não conseguindo agora manter o nível nem, muito provavelmente, pagar tudo aquilo que ainda devem. É sobre este último grupo que, a todos os títulos, vale a pena ler o romance As Viúvas das Quintas-Feiras, de Claudia Piñeiro, uma argentina que foi considerada uma das melhores escritoras da América Latina com menos de 40 anos. Num condomínio de luxo, paredes-meias com um bairro de lata, podemos assistir neste romance à derrocada de um grupo de pretensos ricos, que empenham literalmente a vida pelo sonho de parecer o que não são. Da mesma autora, li também uma novela intitulada Elena Sabe, que não sei se está traduzida em português, sobre a relação de uma mulher com a mãe que sofre da doença de Parkinson e que pode ser o seu melhor livro, mas é de tal forma um soco no estômago que nem me atrevo a aconselhá-lo nos tempos negros que vivemos.

A guerra dos sexos

Um dos recentes posts deste blogue, dedicado às mulheres escritoras, suscitou um número de comentários nunca antes aqui visto. É bom saber que as questões de género estão bastante vivas (em alguns casos, em carne viva) e que há muitos que sobre elas se querem pronunciar – e, felizmente, não só mulheres. Contudo, porque foi muitas vezes referido o «machismo» de quem faz crítica de livros, queria apenas relembrar que o principal crítico que tivemos nos nossos jornais nas últimas décadas – e que foi grandemente responsável pela divulgação e o ulterior sucesso de muitos autores portugueses – nunca deu mais espaço a um escritor do que a uma escritora (era mais fácil o contrário ser verdade) e se mostrou sempre invulgarmente atento a todos os que iam aparecendo, sem qualquer preconceito de idade e género: poetas, romancistas, e até contistas e cronistas que, já se sabe, representam uma minoria à qual às vezes é difícil prestar atenção. Porque me lembrei dele enquanto assimilava os mais de cinquenta comentários dos meus leitores – e tive saudades de o ler, ainda que nem sempre concordasse com as suas ideias –, pensei que podia dedicar-lhe hoje o meu post, chamando-lhe um macho man muito feminista. Precisávamos de outro Eduardo Prado Coelho nos nossos jornais…

Estudar para viver mais

Dantes, dizia-se às crianças quando não queriam comer que o papão, o diabo ou os ciganos as viriam buscar. Ameaças parvas que, graças a Deus, passaram de moda (hoje é mais provável tirar-lhes a televisão, a PSP ou o computador). Mas, por causa de uma notícia que li recentemente, apercebi-me de que os pais de filhos que não querem estudar podem agora dizer-lhes uma coisa horrorosa: que, se não forem à escola e não aprenderem, viverão menos do que os marrões e os aplicados. É verdade: parece que um estudo publicado na revista científica Brain, Behavior and Immunity mostra que o envelhecimento das células é mais rápido nas pessoas sem qualificações académicas e que, quanto mais «educação formal», mais longa e saudável será a vida. Claro que a educação ajuda a tomar medidas e decisões mais inteligentes que se repercutem, inevitavelmente, na saúde (e no resto). Mas já há tanta gente a estudar até tão tarde que esta notícia, a ser verdadeira, pode criar uma geração que não vai querer trabalhar antes de chegar a velha – se lá chegar…

Criancices

Há um lado infantil em cada um de nós que permanece ao longo de toda a vida. Quando vejo o Manel a ver um desafio de futebol, dando às vezes pontapés no ar e dizendo coisas sobre os adversários que ainda parecem insultos do tempo da escola, descubro nele esse lado de criança. O meu está em coisas, se calhar, não tão bonitas – como, por exemplo, não resistir a pôr nas livrarias os livros que publiquei por cima de outros quando acho que estão escondidos ou mal expostos. E os que tapo com eles são quase sempre de autores de que não gosto ou acho que ninguém ganha em ler… Mea culpa. Mas não sou só eu que escondo livros. Há umas semanas, numa livraria do Algarve, andei a ver se os livros que publiquei este ano estavam à vista e, de um deles, não havia sinais. Fingi-me então uma cliente e perguntei se o tinham. O senhor lembrava-se perfeitamente do título e andou a vasculhar a loja, acabando por encontrar três exemplares… mas dentro de uma gaveta! É por essas e por outras que sinto que as minhas malandrices estão mais do que perdoadas.

A primeira vela

Hoje faz exactamente um ano que iniciei este blogue. Parece que ainda foi ontem que fiz uma espécie de declaração de intenções, mas, afinal, já lá vão doze meses de posts sobre livros, edição, autores, experiências de leitura, inquietações. Deu muito trabalho, pois só nas férias grandes e aos fins-de-semana não publiquei nenhum texto – e, com um trabalho a tempo inteiro e outras várias solicitações, por vezes saiu-me do corpo. Mas não me arrependo e estou contente por, apesar de alguns comentários indelicados, não ter desanimado. Gostei, acima de tudo, de vos ter aí desse lado a trocar impressões comigo, e agradeço a todos sem excepção. Mesmo aqueles que, escondendo-se no anonimato, afiaram as unhas e quiseram magoar, a verdade é que me leram e me deram atenção, o que já é muito. Os outros, ainda que discordando, foram-se tornando uma companhia imprescindível, que prezo muito e gostarei de ver por aqui no segundo ano deste blogue. Vamos lá ver se consigo ir de encontro às suas expectativas. Em suma, obrigada e até amanhã.

É hoje

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Logo mais à tarde, será o lançamento do novo romance de Paulo Nogueira, O Amor É Um Lugar Comum. Excelente título, quanto a mim. Excelente romance também – sobre a amizade de pessoas maduras, o amor e as agruras e encantos da vida. A lembrar o filme Quatro Casamentos e Um Funeral, garante muitos momentos de diversão, e outros tantos de reflexão séria. Se quiserem aparecer, teremos muito gosto.


 


 

A (má) fama

Um semanário da nossa praça, num suplemento dedicado às 100 figuras mais influentes do País, incluiu-me na categoria de «visionários e empreendedores». A escolha foi certamente do editor de cultura José Mário Silva – e agradeço-lhe a generosidade e a simpatia; estas coisas dão umas boas escovadelas ao ego quando nos sentimos um pouco cansados ou desapontados, embora saibamos (eu e, muito provavelmente, o jornalista que me nomeou) que não se trata exactamente de influência, coisa que às vezes até me dava bastante jeito ter. No entanto, este tipo de (boas) notícias tem um efeito igualmente nocivo: na semana que se seguiu à publicação, já eu tinha mais uma dúzia de originais para ler, mais cem pessoas a quererem ser minhas amigas no Facebook (quase todas potenciais escritores, poderia jurar) e muitas mensagens – algumas longas e explicativas – para ler na caixa de entrada do meu Outlook. Às vezes (quase sempre) isto da fama não é nada bom…

Letras e ciências

Na geração do meu pai, as pessoas ainda faziam o liceu até ao fim com as disciplinas todas de letras e ciências, o que lhes permitia escolher qualquer curso que quisessem fazer, pois estavam habilitadas a quase todos; e foi talvez por isso que o meu pai foi para Engenharia, mas, percebendo que não tinha vocação nem jeito para desenhar, mudou no ano seguinte para Direito sem ter de fazer cadeiras suplementares. Do seu grupo de amigos dessa época, faziam parte, além do famoso poeta Alexandre O’Neill, o físico António Manuel Baptista que, apesar de ligado à ciência, também escrevia poemas e apreciava as letras. Foi, de resto, por causa deste homem de ciência que fui parar à edição, o que tem a sua graça. Ele era uma espécie de consultor da Gradiva, indicando livros de divulgação científica que achava deverem ser traduzidos em Portugal, e um dia o editor perguntou-lhe se não conhecia ninguém que pudesse ser assistente editorial. E ele recomendou o meu nome, mudando a minha vida. Tem graça que, mais tarde, também a filha mais nova, a Cristina Ovídio (hoje no Clube do Autor), seguiu a mesma área. Letras e ciências unidas.

Prémio Camões

Parabéns a Manuel António Pina, grande poeta. Justa e acertada escolha! Adorei.

Mudam-se os tempos

Fico sempre muito irritada quando ouço dizer que antes do 25 de Abril é que estávamos bem. Já para não falar no atraso e na miséria em que os Portugueses viviam, basta lembrar que metade da população era analfabeta. E, quanto a este último ponto, tudo mudou. Há algum tempo, o Manel e eu fomos convidados por uns amigos que têm uma quintinha no Minho, perto de Guimarães, para lá passar um fim-de-semana; como iam mais pessoas, os nossos amigos pediram a uma senhora da aldeia que fosse cozinhar para nós naqueles dias. Era uma mulher dos seus quarenta e cinco anos, robusta, de bata florida e com mãos de ter trabalhado a terra. O tempo não estava grande coisa e, numa manhã, quando o Manel se levantou e foi à cozinha tomar o pequeno-almoço, comentou a chuva com a dona Rosa. E não é que, para espanto dele, ela lhe respondeu que, realmente, era uma surpresa, porque na véspera tinha ido à Internet ver o tempo e anunciavam um dia bem melhor? Lá em minha casa, quem me ajuda na lida doméstica é outra dona Rosa, uma senhora de uns sessenta anos que trabalhou toda a vida numa fábrica. Ontem, tive de ir a casa a meio do dia e encontrei-a, surpreendentemente, a ler. O quê? O romance que eu própria escrevi nos anos 90 e do qual há uma prateleira cheia no meu escritório. E já ia a meio… Achei maravilhoso. E depois digam lá que as coisas antes eram melhores.

Mulheres escritoras

Por causa de um artigo publicado no suplemento literário do Público sobre jovens narradores, criou-se uma polémica no Facebook quando a jornalista Raquel Ribeiro perguntou porque eram estes quase todos do sexo masculino. Muitos dos intervenientes defenderam que, na verdade, não são, mas que a comunicação social é, de algum modo, machista e só dá destaque a escritores homens; houve um escritor homem que pediu então licença para intervir no meio de tantas mulheres e disse que os editores têm muita culpa – porque, como há muito mais mulheres do que homens a ler, promovem melhor os livros de autores masculinos a pensar nos «consumidores». Todos terão alguma razão, embora eu, como editora, não faça nada disso; e a verdade é que recebo dezenas de originais todos os meses para avaliar mas, lamentavelmente, só dez por cento são escritos por mulheres. Em tempos, disse à mesma jornalista Raquel Ribeiro que achava que isso podia acontecer porque as mulheres, lendo mais, são mais exigentes com o texto e não se aventuram a escrever qualquer coisa (como muitos dos aspirantes a escritores que me mandam livros para avaliação); mas uma das leitoras dessa entrevista afiançou num blogue que, apesar de os tempos estarem decididamente a mudar, as mulheres ainda têm uma vida muito ocupada com a criação dos filhos e a organização doméstica, pelo que não lhes sobra grande tempo para se dedicarem à escrita, inclusivamente quando, como era o caso, gostariam de o fazer. É provável que, mesmo existindo ainda preconceito de género, esta seja mesmo a principal razão.

O novo e o velho

Um dia destes, li a notícia de que fechou a última empresa que ainda fabricava máquinas de escrever. Com computadores cada vez mais sofisticados e cada vez mais baratos, o fim da espécie estava anunciado há muito e acabou por verificar-se. Faz-me pena, porque fiz parte da minha vida profissional com máquinas de escrever (e foi nelas que escrevi os meus primeiros livros) e porque estas eram um objecto icónico dos romances, sobretudo policiais, que os computadores dificilmente substituirão por não terem o mesmo charme. Mas conheço uma história belíssima sobre computadores e máquinas de escrever. Estava um avô a «teclar» numa dessas velhinhas máquinas, mecânica ainda, quando um neto de oito anos se aproximou, visivelmente curioso. Ficou a ver o avô a dactilografar durante uns segundos, mal acreditando no que os seus olhos viam. Depois, boquiaberto e entusiasmado, exclamou: «Mas o avô tem um computador que escreve e imprime ao mesmo tempo!» Enfim…

Ler no comboio

Livros que voltam

Todos somos diferentes – e não é fácil encontrar um livro que agrade a toda a gente. Claro que há clássicos que são lidos por muitas gerações com o mesmo entusiasmo, mas em cada geração há livros que saem, fazem o seu caminho e depois se esquecem de repente. Durante anos, sempre que faziam inquéritos sobre as leituras preferidas de figuras públicas, havia um título que se repetia até à exaustão. Tratava-se de O Perfume, de Patrick Suskind, que teve um sucesso estrondoso quando foi lançado e fez as delícias de muitas pessoas à roda da minha idade. O autor, depois de vender quinze milhões de livros, foi acusado de plágio (pois tinha sido editor e alguém se queixou de Suskind lhe ter roubado a história de um original enviado para publicação), mas nem assim a coisa esmoreceu; os outros livros do autor, porém, não deixaram grande rasto em Portugal (excepto um divertimento chamado A História do Senhor Sommer, recentemente reeditado, mas próximo da ficção juvenil). Já há muitos anos que não ouvia falar do livro do homem que não tinha cheiro (mas tinha um olfacto apuradíssimo), e um dia destes, em conversa com a minha sobrinha de treze anos sobre o que andava a ler, a resposta dela foi inesperada: O Perfume. Talvez os pais a tenham influenciado, não sei. Mas foi engraçado ver como certos livros voltam quando os pensávamos esquecidos.

Um ar de feira

A Feira do Livro de Lisboa está de novo aí – e gosto muito daquele ar descomprometido que tem. Alguns editores que começaram como aprendizes há mais de vinte anos – a Cecília Andrade da Dom Quixote, o João Rodrigues da Sextante e eu própria, por exemplo – fizeram muitas feiras atrás do balcão, que era onde se podiam auscultar os desejos e as necessidades do público quando o gosto não seguia modas mais ou menos globalizadas e parecia importante estar atento aos mais ínfimos suspiros. Nesse tempo – lembremo-nos – ainda havia poucos leitores; muita gente não tinha sequer coragem de entrar numa livraria, que era um lugar bastante formal, e a feira era uma das poucas ocasiões em que todos podiam ir olhar e mexer nos livros, tal como mexiam nos cacos e nos panos noutras feiras. Lembro-me de uma vez, estava eu ainda na Gradiva, aparecer uma senhora do povo (como então se dizia) que veio direita a mim a perguntar: “Ó menina, tem aí algum livro que ensine como se deitam os canários?” Houve outras cenas do género, mas esta ficou-me. E não é que havia mesmo quem tivesse publicado um pequeno volume sobre a reprodução de aves domésticas?

100 Lições

Hoje vou dar a minha lição (uma em cem) no Centenário da Universidade de Lisboa, às 18 horas, na Sala de Conferências da Reitoria. Embora tenha percebido que alguns estavam à espera de que eu falasse da minha poesia, achei que, em quarenta minutos, tinha mais coisas para dizer sobre edição e dei ao título da minha «palestra» Ler. Saber. Dizer não – Publicar literatura em Portugal. Farei a ponte entre os meus anos de estudante e a minha vida profissional e falarei das transformações que a edição sofreu nos últimos vinte anos. Se quiserem, apareçam. Estão todos convidados.

Capas enganadoras

Há uns anos, quando estava a trabalhar numa editora que precisava mesmo de somar vendas para subsistir, pusemos num livro de literatura (mas que podia ser lido por toda a gente) uma dessas capas cheias de flores, que geralmente apelam a um público mais dado à ficção romântica e comercial. A coisa resultou, porque os clientes (livreiros) dão demasiada importância às capas e, na altura, os hipermercados apostaram em grande. Não sei, porém, se o livro chegou ao seu público-alvo, que se calhar aquela capa florida afastou… Passa-se agora a mesma coisa com um livro intitulado Villa Amalia, que comprei recentemente, do francês Pascal Quignard; sendo francamente literário, tem a capa típica daqueles livros americanos muito leves passados com ricaças com casas na Provença ou em Itália. Confesso que fiquei um bocado arrepiada quando vi aquilo, mas, como estou no ramo, comprei-o na mesma e estou a lê-lo. Quignard vale sempre a pena, mesmo florido.

Desconcerto

Acabo de ler um romance que me deixou bastante desconcertada. Foi escrito por João Paulo Cuenca, brasileiro, considerado um dos 39 melhores escritores da América Latina com menos de 39 anos, a par de outros que conhecia melhor, como Andrés Neuman, Santiago Roncagliolo, Junot Díaz ou Adriana Lisboa. O livro em questão, O Único Final Feliz para Uma História de Amor É Um Acidente, partiu, julgo eu, de um convite de uma cadeia de livrarias brasileira, que enviou autores a várias cidades do mundo para as usarem como pano de fundo e redigirem uma história de amor, num projecto conhecido como «Amores Expressos». Cuenca esteve bastante tempo em Tóquio e é na capital japonesa que decorre a acção deste romance completamente desconcertante, onde o Sr. Atsuo «Lagosta» Okuda, poeta retirado e poderoso, vive com uma boneca insuflável altamente sofisticada (um dos narradores) e, ao mesmo tempo, vigia obsessivamente os amores do filho com uma imigrante de Leste que serve bebidas num bar e está apaixonada, por sua vez, por uma dançarina que trabalha no mesmo local. Muito interessante no diálogo que estabelece entre Oriente e Ocidente, muito crítico em relação a algumas especificidades da cultura nipónica (percebe-se que o autor ficou mesmo desconcertado com algumas manias), com uma ironia fina e com muitas surpresas ao virar da página, é um livro que não poderia em caso algum ser português, mostrando que a língua não chega para se poder falar de afinidades. Vale a pena o desconcerto, enfim.

Actualizações

Contaram-me há uns tempos que alguns autores de literatura infanto-juvenil, depois de terem visto as suas séries de livros adaptadas à televisão, tomaram a decisão de as reescrever. Quando elas tinham sido dadas originalmente à estampa, não havia telemóveis nem Internet e, para manter o interesse dos leitores, sentiram a necessidade de uma actualização. Nada contra. E, mesmo assim, quando passo os olhos pelas listas dos títulos mais vendidos, não deixa de ter alguma graça que a extensíssima obra de Enid Blyton continue a figurar entre tanto livro mais moderno ou modernizado. Talvez o segredo do seu sucesso se prenda com a paixão sentida pelos pais dos pequenos leitores de hoje – que são, em princípio, quem compra os livros aos filhos e os pode influenciar. Ou simplesmente o êxito resida na fórmula encontrada – uma aventura cheia de peripécias fascinantes, com as quais as personagens crescem e aprendem, entre outras coisas, a ser melhores pessoas. Como tenho sete sobrinhos, entre os dois meses e os vinte e sete anos, já por várias vezes vi os livros de Enid Blyton nas mãos de um deles. E acho que ainda vou ver muitas mais.