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A mostrar mensagens de janeiro, 2023

Viajar com Patti Smith

A cantora Patti Smith é, para quem não saiba, uma excelente escritora; o que eu não sabia é que tinha escrito também sobre viagens, e essa é uma excelente novidade. Daqui por uns dias, sai, de resto, para o mercado o seu livro M Train, na colecção de literatura de viagens «Terra Incognita», da editora Quetzal, que inclui já verdadeiros clássicos do género, entre os quais figuram, por exemplo, O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux. Mas, desta feita, o «comboio» são as Memórias de Patti Smith, e o livro fala-nos de muitos lugares, relacionando-os constantemente com a literatura (e, claro, o rock). Como escreve o editor: «Sentada no seu café nova-iorquino preferido, Patti Smith lembra as sucessivas viagens que alimentam as suas obsessões artísticas e literárias, bem como o seu desejo de uma beleza que transgrida a ordem do tempo.» E acrescenta (copio um pouco do texto de apresentação porque ainda não tenho o livrinho nas mãos, mas está quase) que iremos poder viajar com ela da Guiana ao México e da casa de Frida Kahlo até Berlim, e também visitar os túmulos de Jean Genet, Sylvia Plath, Rimbaud e Mishima, sentarmo-nos na cadeira de Bolaño ou homenagearmos Burroughs e Sebald. Já tenho água na boca, claro: está na lista de compras da próxima quinta.

Certas infâncias

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Neste mês de Janeiro publiquei o livro de uma jovem autora sevilhana, Elisa Victoria, que aqueles que frequentam habitualmente as Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, poderão conhecer ao vivo já no próximo mês de Fevereiro. O romance chama-se Vozdevelha (assim, tudo seguido), o nome por que é conhecida na escola a protagonista, em virtude de se sentir melhor ao lado de adultos do que de crianças e ter conversas que nem sempre são compreendidas pelas colegas. É verdade que Marina passa grande parte do seu tempo com a avó, apaixonada de Felipe González (a história passa-se no ano da EXPO de Sevilha, 1992), o que pode justificar os seus assuntos às vezes desajustados; mas a mãe está doente e é frequentemente internada para tratamentos, o que leva a que a criança de facto cresça antes do tempo, com os temores naturais de perder a progenitora e o comportamento desacabelado da avó. Mas é fascinante (e às vezes também chocante) esta voz de velha de Marina, menina dos subúrbios de uma cidade  do Sul da Europa no final do século XX que tem, afinal, tantas coisas em comum com os arredores de Lisboa. Terno e autêntico, Vozdevelha é um romance fulgurante sobre uma criança muito inteligente num mundo que às vezes é bastante estúpido e, se quisermos, também um retrato nada condescendente dos habitantes das periferias. Como diz a escritora Elvira Lindo: inesquecível.


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Um certo aluno

Por causa de uma excelente entrevista concedida pelo mais recente vencedor do Prémio LeYa, Celso Costa, ao jornal brasileiro Rascunho, deparei-me com uma história bem engraçada contada pelo entrevistador que hoje partilho aqui no blogue. Em 1913, entre os alunos de Bertrand Russell em Cambridge, havia um aluno um tanto estranho que, no fim do semestre, se aproximou do mestre para lhe fazer uma pergunta insólita. No fundo, queria saber se o professor lhe podia dizer se ele era ou não um completo idiota. Russell, surpreendido com aquela atitude, respondeu que não tinha como saber, mas pediu ao aluno que lhe dissesse qual era o motivo da pergunta. O estudante logo esclareceu: «Se eu for um completo idiota, vou dedicar-me à aeronáutica; senão, tornar-me-ei filósofo.» Russell propôs-lhe então que escrevesse um texto de cariz filosófico durante as férias e, quando o recebeu, bastou-lhe ler os primeiros parágrafos para concluir que o aluno que tinha à sua frente não era nenhum idiota chapado nem deveria inscrever-se em Aeronáutica. O nome dele era… Ludwig Wittgenstein.

O senhor dos poetas

Apesar de o meu curso na universidade ter sido de Francês-Inglês, fiz quase todas as disciplinas que eram comuns às licenciaturas em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Literários, Linguística, Teoria da Literatura...) no departamento de Estudos Anglo-Americanos, porque era aí que ensinavam alguns dos melhores professores que tive até hoje. Foi um deles quem me deu a conhecer a maioria dos poetas de língua inglesa de quem me tornei leitora, primeiro, e fã, depois; e, entre esses, está sem dúvida o meu poeta favorito: o irlandês William Buttler Yeats, homem despenteado e com qualquer coisa de louco quando olhado nas fotografias, mas também um irmão próximo nas coisas do amor quando lido com deleite e atenção. É sobre esta figura ímpar e atraente que se debruça o mais recente romance biográfico de Cristina Carvalho, escritora que tem cultivado bastante este género, mas se tem dedicado sobretudo a personalidades da Europa do Norte, como o cineasta Ingmar Bergman ou a escritora Selma Lagerlöf. Agora sei que também ela não resistiu (desde os 14 anos, confessa!) aos poemas belíssimos do irlandês que ganhou o Nobel da Literatura em 1923. Tomando a história de vida do poeta, a autora deste W. B. Yeats: Onde Vão Morrer os Poetas fala ora pela sua voz, ora pela de Yeats (sim, na primeira pessoa), dando-nos uma perspectiva desafiante e, a espaços, até desconhecida do autor. O livro é apresentado hoje às 18h00 na Cinemateca por Frederico Pedreira (não é da minha família, para que fique claro que isto não é um jeito que faço a alguém conhecido) e haverá leituras de poemas pelo actor André Gago.

Falar do que dói

Lídia Jorge escolheu como tema do seu último romance, Misericórdia, a vida num lar de terceira-idade. É um assunto tremendo, mas que deve ser abordado de todas as formas e feitios, até porque o ser humano está a durar cada vez mais tempo e os lares são um dos mais previsíveis destinos para quem envelhece e se torna um fardo, ou simplesmente para quem não tem quem possa acompanhá-lo nos últimos anos de vida. Como dizia Steiner, os novos não têm de levar connosco, e dou-lhe razão, mas enquanto puder prefiro ter a minha mãe quase centenária na sua casa a interná-la numa instituição. Sei que em tempos falei aqui no blogue de um livro de banda desenhada de um autor espanhol, Paco Roca, que depois teve uma versão em filme de animação, chamado Rugas, sobre este tema difícil dos lares; era uma história que tomava como protagonista um homem com Alzheimer que o filho e a nora «despacham» (no livro é assim, apesar do que diz Steiner) para um lar e ali acaba por encontrar o mais inesperado cuidador. E agora encontrei um outro livro de BD cuja protagonista é uma senhora nos seus setentas que, depois de enviuvar, tem de sair da  sua casa na província por causa de uma expropriação e, como todos os filhos vivem em cidades distantes, dá entrada numa casa de repouso, mas repousa pouco, pensa muito, desvia os outros utentes para aventuras proibidas e até arranja um namorado – embora, claro, continue a odiar estar num sítio daqueles (a colcha, o papel de parede, os horários..., bah!). Chama-se Mergulho, assina-o Séverine Vidal e Vitor Pinel e vale bem a pena. Para, enfim, nos irmos habituando ao futuro.

Ler mais poesia

Já sei que a maioria dos leitores deste blogue vai já desligar e voltar ao que estava a fazer... Não são, segundo me têm confessado, grandes apreciadores do género. Mesmo assim, insisto, ou não fosse eu poetisa e leitora de poesia, além, bem entendido, de teimosa e com esperança de conseguir trazer para a poesia alguns dos que estão desse lado. A poesia não é toda igual, e o facto de não terem gostado de um poeta não faz com que (garanto) detestem todos os poetas. Uma proposta feliz para quem o quiser testar é a belíssima editora Húmus, de Rui Magalhães, cuja colecção 12catorze, dirigida por Francisco Guedes, tem publicado ultimamente uma série de autores que serve de montra ao que se está a escrever em Portugal. Já aqui falei de António Tavares em Dezembro, mas depois do seu livro admirável saíram vários outros que merecem a nossa atenção, como Arsenal de Vertigens, de Ronaldo Cagiano (um autor brasileiro residente em Portugal que também é ficcionista), Quarto de Século, de Assunção Varela, o que nunca foi sempre, de Rui Teixeira Motta, Fóssil, de Gaelle Instambul, e as mãos vazias, de Maurício Vieira, que acaba de chegar às minhas mãos. Provem e verão.

Literatura russa

Esqueçamos por uns momentos que os russos invadiram a Ucrânia e não estão a fazer guerra limpa, atacando alvos civis e matando inocentes, entre os quais crianças. O assunto aqui é a literatura russa, e os escritores não têm culpa nenhuma dos desvarios do senhor Putin nem merecem que os deixemos de ler. Será provavelmente o caso de Ludmila Ulitskaya, já com dois títulos publicados entre nós pela Cavalo de Ferro, um dos quais creio ter tido em tempos uma edição na velhinha Campo das Letras. Mas, como ainda só li Sonetchka, falarei apenas deste para tirar, desde logo, uma conclusão: é que, apesar de Ludmila ter nascido nos anos 1940, ser uma escritora contemporânea, o seu romance tem o mesmo tom dos autores clássicos; ou seja: lêem-se duas páginas e vê-se logo que é um livro russo, ou não fossem as mulheres sempre designadas por diminutivos (Sonetchka é mais ou menos Soniazinha) e os homens com os seus apelidos (Robert Viktorovitch, o marido de Sonechka). É um livro sobre uma rapariga que gostava muito de ler, mas que deixa de ter tempo de o fazer quando se casa com um pintor mais velho (que passara um tempo num campo de trabalho depois da Segunda Guerra) e é mãe de Tania, acumulando dois empregos para garantir uma casa e alimento à família e permitir que o marido dê asas à sua veia artística. E que acha ter encontrado a felicidade até ao dia em que... Não, não posso contar, a única coisa que avançarei é que no dia mais triste da sua vida Sonetchka vai à estante ler Pushkin, palavras que amenizam o horror. Apesar de nem sempre ter gostado muito da tradução, depois de ler outras tantas coisas que me aguardam, tenho de procurar Medeia e os Seus Filhos, da mesma autora.

Excerto da Quinzena

A primeira visita de Angelica na situação de noiva à família Salina foi regulada por uma encenação impecável. O comportamento da rapariga fora tão perfeito que parecia sugerido gesto por gesto, palavra por palavra, por Tancredi; mas as lentas comunicações do tempo tornavam insustentável esta eventualidade, tendo de se recorrer a uma hipótese, a de sugestões anteriores ao noivado oficial; hipótese arriscada até para quem conhecesse melhor a previdência do Principezinho, mas não totalmente absurda. Angélica chegou às seis da tarde, vestida de branco e rosa; as sedosas tranças pretas cobertas por um grande chapéu de palha ainda estival onde cachos de uva artificial e espigas douradas evocavam discretamente as vinhas de Gibidolce e os celeiros de Settesoli. Na sala de entrada, largou o pai; fazendo esvoaçar a ampla saia, subiu ligeira os nada poucos degraus da escada interior e lançou-se nos braços de Dom Fabrizzio; deu-lhe, nas patilhas, dois belos beijos que foram retribuídos com sincero afecto; o Príncipe demorou talvez um instante mais que o necessário a aspirar o aroma de gardénia daquelas faces adolescentes. Depois, Angelica corou, retrocedeu meio passo: «Estou muito, muito feliz... [...]


 


Giuseppe Tomasi di Lampedusa, O Leopardo, tradução de José Colaço Barreiros

Encontros

Portugal tem cada vez mais festivais literários. Dos grandes como as Correntes d'Escritas (que estão vivos e de óptima saúde há mais de vinte anos!) aos pequenos e discretos em lugares mais distantes e escondidos, não faltam oportunidades de os leitores ouvirem em directo os seus autores preferidos. Mas, fora do âmbito dos festivais, não é comum pagarmos bilhete para ouvirmos um autor conversar, o que hoje acontecerá com Leïla Slimani, a escritora que, ao que parece, escolheu Lisboa como morada, e estará às 18h30 no Centro Cultural de Belém a falar dos seus livros com a jornalista e também escritora Helena Vasconcelos. Se tudo correr bem, lá estarei, com bilhete comprado há muito tempo, porque li quase tudo o que havia para ler de Slimani e prometo continuar a acompanhar a sua obra. Mais: gosto de a ouvir. É aberta, inteligente, moderna, comunicativa e, sobretudo, defende as suas ideias sem recorrer a feminismos de pacotilha e radicalismos desnecessários, antes partindo da sua própria história e da dos seus antepassados. Se não a puderem ir ouvir, pelo menos leiam-na. Quanto a mim, é dos nomes mais interessantes da literatura em língua francesa actual. 

Autografar

Contaram-me há muitos anos (o pior é que já não me lembro quem) que Miguel Torga não fazia dedicatórias nem autografava livros para ninguém e que um dia abriu uma excepção para Mário Soares, mas depois de não conseguir fugir de o fazer...Também me contaram (e desta vez sei quem foi mas não posso dizer) que Saramago, que recebia dezenas de ofertas de livros em todo o lado aonde ia, incluindo festivais no estrangeiro, deixava muitos deles no quarto de hotel quando se vinha embora, tendo, porém, o cuidado de arrancar a página em que o autor tinha escrito a sua dedicatória ao nosso Nobel. Gente sábia... É que, segundo sei, autografar pode ser um perigo: às vezes, encontram-se livros autografados inesperadamente nos sítios menos próprios, e conheço três histórias sobre esta realidade. A primeira é a de uma autora que, convidada a representar Portugal numa feira internacional, verificou que alguns dos seus livros expostos no pavilhão oficial estavam autografados para jornalistas e outras pessoas, chegando à conclusão de que a editora não os chegara a enviar e usara esses exemplares para oferecer à Direcção-Geral do Livro, que era quem tinha o expositor na feira. Por outro lado, sei de um autor que, à procura de um livro seu esgotado há muito, correu os alfarrabistas todos e encontrou um exemplar autografado e dedicado a um amigo muito próximo (que o vendera juntamente com outros livros numa altura de grande necessidade), o que valeu uma zanga entre ambos para a vida. E, por último, Nelson Ferreira Silva, que é sempre uma fonte de boas histórias, comprou recentemente num alfarrabista um exemplar da Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, cujo frontispício dizia que fora oferecido por Paulo Moura e pertencia a Pedro Abrunhosa. Parece que se tratava mesmo do jornalista e do músico. E esta?

Teatro

Geralmente, dedico as Horas Extraordinárias aos livros, mas, porque ainda podem ir a tempo de assistir, vou hoje falar-vos de teatro, género, aliás, que também pode ser lido com muitíssimo agrado, sobretudo por quem, como eu, adora ler as didascálias. Deliciei-me em jovem com Ionesco e, uns anos mais tarde, com peças de Eugene O'Neill, Tchekhov, Beckett e muitos outros. Tive a sorte de o meu pai gostar de teatro e nos levar a algumas peças inequecíveis quando vivia no estrangeiro e o íamos visitar, e foi desde muito nova que me habituei a ver teatro. Mas adiante: está em cena um texto muito interessante de Samuel Adamson, baseado no filme Tudo sobre a Minha Mãe, de Pedro Almodóvar. Trata-se de um espetáculo que tem lugar no teatro S. Luiz até ao próximo dia 22, encenado por Daniel Gorjão, que não conhecia, mas vou passar a acompanhar. E tem excelentes actores, entre os quais, como quase sempre acontece, brilha Maria João Luís (uma notável actriz no próprio enredo, que faz a espantosa Blanche do Eléctrico...). Vale muito a pena, pela história, a cenografia, os recursos, a representação. Se ainda arranjarem bilhetes, não percam. (Abaixo, mais detalhes.) Amanhã voltamos aos livros.


https://issuu.com/teatro_sao_luiz/docs/fs_tudo_issuu


 

Jornalistas e escritores

Durante o FOLIO, em Outubro passado, a escritora colombiana Pilar Quintana, autora de A Cadela e Os Abismos, confessou que foi parar ao jornalismo porque o que queria fazer na vida era escrever e foi essa a profissão que lho permitiu fazer a tempo inteiro. Mas será que às vezes não acontece o contrário e é o grande jornalista que acidentalmente se torna escritor, como aconteceu a Truman Capote? O espanhol Arturo Pérez-Reverte disse em entrevista que só se tornou escritor por ter sido antes de tudo um repórter de guerra. Garcia Márquez dizia que nunca deixou de ser jornalista, e Alice Vieira comentava que, entre os autores portugueses de literatura juvenil, há os que vêm do ensino e os que vêm... pois, dos jornais. Susana Neves escreve na revista Jornalismo & Jornalistas um interessante artigo sobre este assunto que recomendo, mas é curioso vermos quantos jornalistas portugueses foram ou são também escritores. Stau Monteiro, José Cardoso Pires, Saramago, Mário Zambujal, Fernando Dacosta, Assis Pacheco, Francisco José Viegas (que até dirigiu jornais, entre eles um desportivo); e na geração que começou a publicar já neste século Filipa Melo, Bruno Vieira Amaral ou Ana Margarida de Carvalho, por exemplo. Será que se sempre se tocaram as duas actividades ou é uma que leva à outra?

Contos a oeste

O festival literário Livros a Oeste, que a Câmara Municipal da Lourinhã realiza anualmente com a curadoria de João Morales, integra um concurso literário dedicado aos que vivem na chamada Região do Oeste; ou, para ser mais precisa, nos concelhos da Comunidade Intermunicipal do Oeste, que são: Alcobaça, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Bombarral, Cadaval, Caldas da Rainha, Lourinhã, Nazaré, Óbidos, Peniche, Sobral de Monte Agraço e Torres Vedras. O concurso visa a escrita de um conto que este ano tem por tema «Cada Pessoa Muda o Mundo» e destina-se a três categorias: estudantes do 3º Ciclo do Básico, estudantes do Ensino Secundário e público em geral, sem limite de idade. As obras devem ser enviadas em envelope fechado, assinadas com pseudónimo, em quatro exemplares, até 24 de Março e o vencedor será anunciado aquando da realização do festival, mas o regulamento deve ser consultado com cuidado porque as normas são para seguir. O prémio será entre 100 e 300 euros. Se reside no Oeste, tem aqui uma oportunidade de se pôr à prova.

A professora

Estreei-me recentemente na obra de uma autora alemã já firmada, Judith Schalansky, com o extraordinário O Pescoço da Girafa (traduzido por Isabel Castro Silva, agraciada com o prémio de Tradução). E digo «extraordinário» porque é mesmo um romance fora do normal. Acho que o único outro livro que ressoou em mim a partir deste foi A Solidão dos Números Primos, de Paolo Giordano, pela introdução da perspectiva de física e da matemática nas relações entre as personagens. Desta feita é a Biologia que tudo rege (basta ler as cabeças das páginas ímpares, todas elas revelando um conceito científico relacionado com a  evolução das espécies). A protagonista (de resto, bem vistas as coisas, ela é quase a única personagem no livro digna desse nome) é professora de Biologia num liceu da Alemanha de Leste pouco tempo depois da queda do Muro de Berlim; e vive de tal forma obcecada em transmitir os seus conhecimentos que, chegados ao fim do livro, veremos como a profissão sempre contou para ela mais do que tudo, incluindo o casamento e a maternidade (a filha, Claudia, vive nos Estados Unidos). Mas é também um livro sobre a iminência do fim de um tempo, a consciência do erro, a implacabilidade do carácter, os vícios das ditaduras e a inadaptação ao novo, além da descoberta de uma certa pulsão desconhecida. Muitíssimo original e tremendamente informado (esta senhora sabe mesmo de ciência!), deixou-me agora curiosa para ler um outro romance da autora que saiu em Portugal antes deste e foi incrivelmente elogiado (Inventário de Algumas Perdas). Se gostam de coisas fora da caixa, este romance é mesmo a escolha certa.

Corte & Cultura

De há uns tempos para cá, tornaram-se moda os podcasts e há-os para todos os gostos. Já me aconselharam uma data deles, sobretudo acerca de literatura, mas o meu tempo livre é tão pouco que, confesso, costumo ocupá-lo com a leitura de poesia e romances. Mesmo assim, tenciono passar a ouvir alguns no carro ao fim do dia, porque já não aguento mais futebolices e notícias sempre iguais e, se a viagem for mais longa, infelizmente repetidas até à exaustão; e um desses podcasts que tenciono experimentar ouvir é Corte & Cultura (grande título!), que é, descobri agora, do Âmbito Cultural do El Corte Inglés e pelo qual já passaram entrevistados como Miguel Real, um autor e uma pessoa de quem muito gosto, ou o maestro Martim Sousa Tavares, que tem também um programa de televisão sobre música e está, parece-me, em alta. O Corte & Cultura pode ser ouvido através das plataformas Spotify e Google Podcasts e é conduzido, bem-dispostamente, tenho a certeza, por Fernando Alvim. É também este senhor risonho que apresenta há muito um programa na Antena 3, a que irei mais logo, na companhia da fadista Aldina Duarte, para falarmos do nosso Esse Fado Vaidoso, uma antologia de poemas cantados em fado que publicámos recentemente. Se quiser ouvir-nos, sintonize-se!

Ler com os dedos

No passado dia 4, o poeta Manuel Alegre lançou em Coimbra a sua Obra Poética completa em braille, assinalando, de resto, o Dia Mundial do Braille e, ao mesmo tempo, festejando o Centenário da Biblioteca Municipal, cujo programa comemorativo levará até à cidade dos estudantes muitos outros escritores nos próximos meses (José Luís Peixoto, Valter Hugo Mãe, José Fanha e Richard Zimler, entre outros). Até aí, tudo bem. O que me pareceu contudo surpreendente foi, no mesmo dia, a notícia dada pelo presidente da Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO) de que vai ser possível ler em braille nos telemóveis e de que, numa escala de 1 a 5, os desenvolvimentos actuais permitem dizer que já nos encontramos no ponto 3! Parece que a escrita está mais adiantada, sendo possível usar os ecrãs dos telemóveis para escrever todas as representações dos pontos Braille, como se se tratasse de uma máquina, mas a leitura, mais atrasada, há-de compor-se, esperando-se que num futuro não muito longínquo se inventem telemóveis em cujos ecrãs se sinta o relevo dos pontos com os dedos. A má notícia destas jornadas realizadas pelo Instituto Nacional de Reabilitação é que ainda só 0,1% dos livros publicados mundialmente existe em braille.


 

Adeus, cultura?

Sempre que se avizinham tempos de crise, a cultura leva a primeira talhada. As famílias com filhos vêem chegar a inflação e não podem, claro está, poupar na roupa e na alimentação da prole, esforçam-se também por garantir o pagamento da renda ou da prestação da casa ao banco, não vá o diabo tecê-las e ficarem no olho da rua; mas livros, filmes, espectáculos de dança ou teatro, mesmo concertos, têm de ficar adiados para o fim da crise e do consequente aumento disparatado dos preços (que em certos casos é só um aproveitamento escandaloso da situação). Nos tempos difíceis, a cultura é sempre a mais afectada, e portanto devia ser obrigação do Estado tornar a televisão e a rádio públicas mais culturais, com programas que estimulassem a curiosidade, a leitura e a audição de artistas de qualidade. Mas nem sempre é assim e as audiências são normalmente o que impera... Este ano, e ainda estamos no início, a Antena 1 já cancelou o programa Biblioteca Pública, conduzido pela jornalista Fernanda Almeida (com Dulce Maria Cardoso, Richard Zimler e Afonso Reis Cabral) e a Sociedade Portuguesa de Autores acabou com Original é a Cultura, no qual Cristina Ovídio conversava com Dulce Maria Cardoso, Rui Vieira Nery e Carlos Fiolhais (e que já só transmitiam às duas da manhã, desgraçadamente, mas poderia ser visto no dia seguinte). Será um prenúncio do que aí vem?

Excerto da quinzena

Quando acabou a escola, Rahel foi admitida numa medíocre Faculdade de Arquitectura em Deli [...] Os examinadores ficaram impressionados com o tamanho (enorme), e não com a mestria, dos seus esboços de naturezas-mortas feitos a carvão. As linhas descuidadas e estouvadas foram confundidas com arrojo artístico, apesar de a sua criadora não ser artista.


Passou oito anos na faculdade sem terminar o curso de cinco anos e obter a respectiva licenciatura. As propinas eram baixas e não era difícil governar-se, alojando-se num albergue, comendo em cantinas subsidiadas, raramente indo às aulas e, em vez disso, trabalhando como desenhadora em obscuras firmas de arquitectura que exploravam mão-de-obra barata de estudantes a quem cabia fazer os desenhos de apresentação dos projectos e arcar com as culpas quando as coisas corriam mal. Os outros estudantes, especialmente os rapazes, sentiam-se intimidados pela indocilidade de Rahel e pela sua quase feroz falta de ambição. Deixavam-na entregue a si mesma. Nunca a convidavam para as suas casas simpáticas ou festas barulhentas. Até os professores a olhavam com ar desconfiado -- os projectos dela, bizarros e impraticáveis, apresentados em papel castanho barato, a indiferença dela às suas críticas apaixonadas.


Foi quando andava na Faculdade de Arquitectura que Rahel conheceu Larry McCaslin [...]


 


Arundhati Roy, O Deus das Pequenas Coisas, tradução de Teresa Casal (Booker Prize, 1997)

Perdidos e não achados

Antes de férias, desejando a todos boas festas, contei que iria estar fora e que, entre outras coisas, contava ir visitar uma exposição. Apesar da chuva torrencial que correu lá para os lados onde estava, o Minho, cumpri a promessa que a mim mesma fiz e desloquei-me ao Porto para ver quadros da pintora portuense Aurélia de Sousa no Museu Soares dos Reis. Lera muitos encómios à mesma nos suplementos culturais portugueses e, não conhecendo a obra senão superficialmente, estava muito curiosa. E, sim, gostei; mas estava à espera de um número de quadros bem mais significativo e, sobretudo, não apreciei o desenho da exposição e ainda menos a opção de misturar quadros de outros pintores contemporâneos com os da artista, estando a informação da autoria apenas no folheto que nos entregavam, e não perto dos próprios quadros. Mas, sobre arte, fiquei ainda mais negativamente impressionada com a quantidade de obras pertencentes à colecção da Secretaria de Estado da Cultura de que há muito se ignora o paradeiro (são quase cem, meus amigos!) e cujo inquérito, solicitado, se não erro, pela ex-ministra Graça Fonseca em 2020, acaba de ser arquivado... Eu juro que não tenho nada em minha casa, mas quem se terá aboletado com o que não lhe pertencia?

Poeta Pessoa

Já sei que muitos, ao lerem o título deste post, vão obviamente pensar no nosso Fernando, o mais conhecido poeta português (internacionalmente e tudo) e também o mais versátil e, por isso, digno de uma biografia que foi finalista do Pulitzer Prize escrita pela pena do norte-americano Richard Zenith, um grande estudioso da sua obra. Mas, por acaso, o título foi só um trocadilho meu para, no fundo, saudar o facto de o júri do Prémio Pessoa ter brindado na sua mais recente edição justamente um poeta: João Luís Barreto Guimarães. Como é tão raro vermos um poeta contemplado com este prémio (lembro-me de ele ter sido dado aos escritores Mário Cláudio e Frederico Lourenço, mas este último recebeu-o seguramente também pelas importantes traduções que tem realizado das línguas clássicas), devo dizer que o anúncio foi para mim bastante inesperado; e deve tê-lo sido igualmente para imensos jornalistas que, nesse dia, noticiaram o facto, pois não foi um nem dois que lhe chamou «José» Luís, mostrando total desconhecimento do escritor portuense que também é cirurgião e dá aulas de poesia a estudantes de medicina. Mas o querido «João» Luís deve ter ficado suficientemente feliz para não levar a mal, e a sua já extensa obra vai ter em Janeiro mais um livro com o belo título Aberto Todos os Dias. Tem uma linda capa e publica-o a Quetzal. Fiquemos atentos. Não há desculpa para falharmos o Prémio Pessoa.

O que ando a ler

Espero que estejam retemperados das festas e desde já vos desejo um excelente 2023, cheio de boas leituras. Hoje falo-vos de Um Cão no meio do Caminho, que é o terceiro livro que leio da escritora e jornalista Isabela Figueiredo, autora dos já muito afamados Caderno de Memórias Coloniais e A Gorda, este último igualmente um romance e já traduzido em várias línguas. No livro que ando a ler, o narrador é um homem peculiar que vive de noite e gosta de cães; teve, de resto, um cão muito especial chamado Cristo, que o acompanhou no final da infância, infância essa que terminou abruptamente com o divórcio dos pais e o trauma que daí adviria e o levaria a viver em casa de uma avó. Esta e outras histórias deste homem que apanha coisas do lixo (trabalhar nunca foi para ele) são-nos contadas como se fôssemos a vizinha do lado, porque, na verdade, é a essa vizinha adoentada que José Viriato narra uma certa parte da sua vida para justificar porque é hoje a pessoa que é (ela também retribui com alguns episódios da sua existência, um deles a abrir o romance) e, claro, porque continua a amar os cães mais do que as pessoas, e a solidão mais do que a companhia. Isabela Figueiredo disse numa entrevista que foi com este livro que finalmente acreditou em si como ficcionista. Eu já tinha acreditado nisso com A Gorda, mas não custa nada insistir.