Mensagens

A mostrar mensagens de janeiro, 2018

Empréstimos

As bibliotecas emprestam livros desde sempre a quem os queira levar para casa e devolver no fim da leitura (dantes, quem se atrasava pagava multa e quem não devolvia nunca mais podia pedir livros); mas é mais raro, digo eu, alguém emprestar livros seus a uma biblioteca, trazê-los de casa e deixá-los nas estantes para quem se interessar. É o que faz, porém, várias vezes o físico e grande divulgador de ciência Carlos Fiolhais em relação à Biblioteca Rómulo de Carvalho, na Universidade de Coimbra, uma biblioteca especializada em livros de ciência onde, segundo leio, não há espaço para manuais, mas obras que abordem a ciência de qualquer perspectiva, incluindo BD, ficção científica e, dado o patrono, até poesia! Carlos Fiolhais é um homem da Universidade, claro, mas é uma figura que ama os livros (pintava muito bem em jovem e, com o prémio de pintura que ganhou, comprou… livros!) e tem muitas histórias fascinantes para contar sobre essa sua paixão. Leia-se, pois, esta entrevista de Vera Novais que não se pode perder. Como quem deixa um livro novo na estante, aqui fica o link.


 


http://observador.pt/especiais/carlos-fiolhais-fiquei-preso-na-gruta-de-mira-de-aire-parece-que-estamos-sepultados-vivos/


 

Ainda as mulheres

Por causa de um trabalho que estou a fazer, tenho descoberto uma data de coisas sobre escritoras portuguesas que desconhecia, sobretudo aquelas que escreveram numa altura em que a maioria das mulheres era analfabeta, e cuja «obra» (quase sempre manuscrita, não publicada) ficou frequentemente no espólio da família ao longo de gerações e só acabou por «transbordar» para o público quando os estudos literários resolveram remexer em caves e arquivos e desencantar cartas, diários e outros documentos muito interessantes. Na sequência desta investigação, descobri igualmente um site muito interessante, da responsabilidade da Faculdade de Letras de Lisboa, dedicado às escritoras portuguesas anteriores a 1900, entendendo-se aqui «escritoras» e «portuguesas» no seu sentido mais amplo. Na pesquisa por nome, aparece a identificação da senhora em causa (naturalidade, filiação, datas de nascimento e morte), seguida da informação sobre o que escreveu e o que se escreveu sobre ela. Não raras vezes, a bibliografia própria é bem mais reduzida do que a passiva – veja-se o caso de Francisca Possolo da Costa (ou «Francília, Pastora do Tejo», seu pseudónimo), por exemplo, nascida no final do século XVIII. Para quem se interesse, aqui vai o link:


 


http://escritoras-em-portugues.eu/1446822572-HOMEPT


 

Mulheres em alta

As mulheres estão em alta. Há mais mulheres licenciadas todos os anos em Portugal e mais mulheres do que homens nas universidades portuguesas. Nos EUA, as mulheres resolveram queixar-se dos homens e tramaram muitos deles para o resto da vida. No Reino Unido, as mulheres escritoras dominam o Top de vendas. A principal responsável é a TV, por causa das séries baseadas nos livros de Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale e Alias Grace; mas, nos restantes oito lugares do Top 10, só existe um homem, Murakami. Fazem parte da lista A Serpente do Essex, de Sarah Perry, dois livros (um romance e uma colectânea de poemas) de Helen Dunmore (o facto de ter morrido recentemente não deve ser estranho ao aumento da procura, é um clássico); a eterna Elena Ferrante, Naomi Alderman (que ganhou o prémio de ficção escrita por mulheres com The Power) e ainda Ali Smith, Zadie Smith, Maggie O’Farrell e Arundhati Roy. Nem o Prémio Nobel entregue em Outubro a Kazuo Ishiguro ajudou o sexo masculino desta vez… Talvez tenha começado uma era das mulheres. Nunca se sabe.


 


P.S. Porque já tinha avisado, os comentários que considerei ofensivos e disparatados foram eliminados. Perdoem-me os que comentaram esses comentários e que também desapareceram, mas não fazia sentido deixá-los.

Premiado

Às  vezes nem sabemos bem dizer porque simpatizamos com determinado jornalista – e não só pelo que escreve, mas pela pessoa de carne e osso. Conheço mal Nuno Pacheco – e creio ter-me cruzado com ele ao vivo pela primeira vez nas exéquias de Eduardo Prado Coelho; depois disso, sobretudo em concertos de fado – e poucos. Mas leio sempre o que escreve – e não só normalmente concordo com as suas escolhas, como gosto de o ver aguerridamente ocupar o vazio deixado por Vasco Graça Moura na polémica sobre o Acordo Ortográfico. Ora, diz-me a Sociedade Portuguesa de Autores na sua newsletter que decidiu atribuir o seu Prémio de Jornalismo Cultural este ano a Nuno Pacheco, jornalista do Público desde a fundação e que há anos escreve sobre música portuguesa e brasileira, acompanhando o nascimento de novos talentos e os talentos já instalados. Este prémio foi entregue pela primeira vez no ano passado ao director da Antena 2, João Almeida. Parabéns, Nuno Pacheco. Gosto de saber que foi premiado.

Ler Saramago no Chiado

Não sei se têm isto bem presente, mas este é o ano em que se comemora o vigésimo aniversário da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. A editora do mestre (com a colaboração da Fundação José Saramago, certamente) tem previstas várias celebrações e actividades ao longo de 2018, mas hoje à tarde o Ler no Chiado vai dedicar-se inteiramente ao nosso (único) escritor laureado. Na Bertrand do Chiado, como de costume às 18h30, Anabela Mota Ribeiro vai falar com Pilar del Río, a viúva, e José Carlos Vasconcelos, um jornalista que acompanhou o percurso do escritor do início ao fim, tomando como pretexto o livro lançado há uns meses na FLIP, no Brasil, e recentemente também em Portugal, sobre a grande amizade que uniu Saramago e Jorge Amado e que se traduz numa correspondência... «com o mar pelo meio». Se quer saber tudo sobre este par de escritores e não tem planos para esta tarde, não falte.

Os homens preferem as louras

Há uns tempos, Lobo Antunes acusou Pessoa de ter «fornicado» pouco... Na verdade, até há pouquíssimo tempo, a única mulher que se lhe conhecia era Ofélia Queiroz (da família do poeta Carlos Queiroz), que tinha 19 anos quando Fernando se apaixonou por ela, sendo ele bastante mais velho (32, parece-me). A paixão foi clara, basta ler as cartas que estão há muito publicadas, nas quais o grande poeta desce ao domínio dos mortais e se torna quase um adolescente embasbacado e «ridículo» (como as «cartas de amor» de Álvaro de Campos). Depois de cerca de oito meses de namoro, a relação terminou; e, nove anos mais tarde, houve ainda uns meses em que namoricaram. E foi tudo quanto a amores na vida do génio... Ou parecia. José Blanco e o poeta espanhol Ángel Crespo insistiram em que havia outra, por causa de uns poemas escritos mais para o final da vida do poeta que mencionam uma loura, mas nunca conseguiram chegar a um nome; e, por mero acaso, o historiador José Barreto (que se interessa mais pelo lado filosófico do autor) encontrou duas cartas e somou dois mais dois, revelando que afinal a loira era real. Trata-se de uma inglesa a quem Fernando chamava Madge (Margaret Anderson) e era irmã de uma sua cunhada (além de mais tarde se ter tornado uma decifradora de códigos secretos durante a Segunda Guerra Mundial). Um artigo de Rita Cipriano recentemente publicado no Observador conta tudo, mas o melhor mesmo é ir à revista Pessoa Plural, em que Barreto explica como chegou lá.

Parem os relógios

Imagem

Aos trinta e seis anos, a professora de literatura Helena Remington apaixona-se por um italiano de visita a Lisboa. O romance entre os dois é, porém, abruptamente interrompido por um acidente de automóvel na costa italiana, onde ambos passavam férias. Decorridos vinte anos sem notícias de Fabrizio, Helena recebe uma carta da filha dele com um pedido urgente. Para o satisfazer, terá de lançar-se na mais arriscada aventura da sua vida, envolvendo-se com gente perigosa numa autêntica corrida contra o tempo. Muitos anos mais tarde, Carlos – o sobrinho-neto preferido de Helena – conhece Francesca, uma rapariga italiana... Este é só o princípio de Parem Todos os Relógios, de Nuno Amado, um romance que foi finalista do Prémio LeYa e acaba de sair para os escaparates. Na quinta-feira estaremos a falar dele na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz às 21h30. No dia 31 acontecerá o lançamento em Lisboa, na Livraria Buchholz, às 18h30, com apresentação de Luísa Mellid-Franco. Esteja onde estiver, leia.


 


Parem Todos os Relógios.jpg


 


 


 

Nervosíssimos

No último dia 12, saiu uma nova revista chamada Nervo – Colectivo de poesia, que vai ser publicada três vezes por ano, em Janeiro, Maio e Setembro, para ficarmos nervosíssimos enquanto esperamos pelo próximo número. O seu objectivo é divulgar a poesia contemporânea, cruzando autores de várias gerações sem os hierarquizar e mostrando o que alguns andam a escrever, combinando estilos distintos e linguagens poéticas pessoais numa revista colectiva. (A Nervo projecta ainda a descoberta de novas vozes e recebe naturalmente textos para avaliação e eventual publicação.) Além dos poetas portugueses, haverá uma secção de poesia de autores estrangeiros (dos PALOP e de outros sítios), estando, neste primeiro número, representados os seguintes países: Brasil, Moçambique, Costa Rica, Índia e Eslováquia. Mais informações no link abaixo:


nervo.colectivodepoesia@gmail.com

Com ou sem história

Imagem

No ano passado, o programa da Câmara de Lisboa que classifica alguns estabelecimentos da capital como estabelecimentos com história (desde luvarias a lojas de velas e  ferragens) passou a incluir a Livraria Aillaud & Lellos, na movimentada Rua do Carmo, aberta ao público desde 1931 e com clientes certos há décadas – sobretudo desde que o comércio de livros se massificou e, com ele, se deteriorou o atendimento ao público. Mas, como já tinha infelizmente acontecido com a Livraria Portugal (e Pacheco Pereira escreveu na altura sobre o assunto um belo artigo), a Aillaud & Lellos fechou portas no dia 29 de Dezembro de 2017, mesmo sendo uma «loja com história», porque não era simplesmente possível suportar o aumento da renda… Pois bem, acabo de saber que fechou também a Livraria Bulhosa do Centro Comercial das Amoreiras e caíram-me os queixos, pois tinha ideia de que era um estabelecimento que vendia muitos livros e dava dinheiro aos proprietários (talvez a renda tenha também aumentado para lá do imaginável, já não digo nada). Com ou sem história, a verdade é que as livrarias estão todas a fechar. Dizem-me que as FNAC estão já a pensar vender electrodomésticos grandes, máquinas de lavar e frigoríficos... Para onde irão os livros quando isso acontecer?


 


IMG_9244-615x461.jpg


 


 


 

Ricos e pobres

Estamos sempre a ler que o fosso entre ricos e pobres está cada vez maior – e que oito ou nove pessoas no mundo têm o mesmo que todas as outras juntas. Uma situação terrível, claro, mas que tem bases muito antigas… Digo isto por causa de uma notícia deliciosa sobre a recente aquisição de uma lista de compras da rainha Carlota Joaquina, mulher de D. João VI, para o espólio do Palácio Nacional de Queluz. A lista de coisas a comprar em Paris para a família real (ao que parece orientada pela baronesa Ardisson, uma vez que os reis estão no Brasil por causa das Invasões Francesas) inclui roupa, calçado, jóias e acessórios de moda (meias, luvas, etc.) nos mais importantes retalhistas parisienses e tem… não se riam… 71 páginas! Só lenços de mão são para cima de 500, sem esquecer os milhentos leques em marfim, que no Brasil farão certamente falta à rainha para se abanar a toda a hora, dado o calor. Em 1816 – data da lista de compras – o fosso entre pobres e ricos, digo eu, também era grandinho… O rol manuscrito fazia parte de uma colecção privada inglesa e foi leiloado pela famosa Sotheby’s. Não faço ideia de quanto custou, mas talvez menos do que as compras de Carlota Joaquina…

Ler com companhia

Como alguns que vêm a este blogue deverão lembrar-se, porque o referi pouco depois da sua morte, David Bowie era um grande leitor e terá inclusivamente publicado a lista dos seus cem livros preferidos em 2013 e afirmando numa entrevista que, se não tivesse sido músico, provavelmente teria escrito romances. O seu filho, o cineasta Duncan Jones, sente-se agora quase no dever de cumprir a maratona de ler esses cem livros (ou os que conseguir, vá lá), mas não lhe apetece fazê-lo sozinho e, como tal, teve a ideia de fundar uma espécie de «clube de leitura de David Bowie» que, não se sabendo ainda exactamente como vai funcionar, terá de certezinha muitíssimos adeptos e quiçá levará muitos fracos leitores a interessarem-se por autores que não conhecem e livros que, de outro modo, provavelmente nunca leriam. É uma bela homenagem de um filho a um pai que, ainda por cima, pode ajudar pessoas em todo o mundo a encontrar o prazer de ler ou a descoberta de um escritor. Uma boa ideia.

Ambiente propício

As salas de aulas do 1º Ciclo do Ensino Básico passarão, no Município de Leiria, a ter espaços de leitura – se as escolas, claro, assim o entenderem e quiserem aderir ao projecto. E, se quiserem, a Câmara propõe oferecer-lhes uma estante, um tapete, 15 livros, um sofá, um conjunto de almofadas e sabe-se lá o que mais que possa tornar esse espaço convidativo para as crianças (por acaso, até se sabe, e é um tablet, rrrr). Segundo leio no Público, que divulga a notícia, a ideia é colocar a promoção da leitura no centro dos esforços da escola primária, criando para isso um ambiente favorável dentro do próprio lugar de aprendizagem. Supostamente, as escolas candidatar-se-ão a esta «renovação de mobiliário» (estou  brincar, mas nunca se sabe) e quinze serão contempladas. Esperemos que essas candidaturas venham de facto de professores motivados e amantes dos livros. Porque, por mais ambiente que exista, se os professores não interagirem com as crianças no momento da leitura nem criarem rotinas nas suas aulas, de nada servirá um tapete felpudo, um sofá confortável ou meia dúzia de coxins. O tablet, esse, será certamente muito utilizado… Em todo o caso, parabéns a Leiria.

Capas

Não há dúvida de que uma pessoa que se apresenta lavada e arranjadinha convoca mais facilmente a simpatia dos outros do que um balda sujinho e com a fralda de fora. Com os livros passa-se o mesmo – e a capa é uma peça importantíssima para captar a atenção do leitor. Mas o marketing ultrapassou há muito o poder da (mera) arte e, infelizmente, as capas foram-se tornando nesta última década perigosamente pobres e semelhantes entre si, já não sendo possível a partir delas compreender muitas vezes o teor do recheio. Mesmo assim, o director de arte do The New York Times selecciona anualmente as capas que acha as mais bonitas ou as melhores em termos gráficos – e são essas que hoje vos mostro no link abaixo. A capa da tradução de O Livro de Desassossego, do heterónimo pessoano, está entre elas. Vale a pena ver.


 


https://www.nytimes.com/interactive/2017/books/review/best-covers.html?smid=fb-share

Ouvir os mestres

Anabela Mota Ribeiro anuncia-se de novo imparável; e promete para 2018 continuar a coordenar as sessões Ler no Chiado, uma nova leva de emissões do programa Curso de Cultura Geral na RTP 2 e ainda, um domingo por mês, no CCB, o ciclo (Quase) Toda Uma Vida, que nos traz os mais sábios de todos, os mais velhos. No domingo, estará, de resto, a conversar com o historiador António Borges Coelho, um homem nascido em Trás-os-Montes que admiro muito (esteve preso seis anos no Forte de Peniche no tempo do fascismo) e que, depois de uma longa carreira universitária (era professor na Faculdade de Letras de Lisboa quando eu lá andava e foi até professor de um dos meus irmãos), decidiu começar a escrever uma História de Portugal – e sozinho! – aos 80 anos, mais coisa menos coisa, que está a sair com a chancela da Caminho  e da qual já estão disponíveis seis volumes (caramba!). Portanto, se puder ir ouvir este grande senhor, a conversa promete e de certeza que aprende muita coisa.

Lugar para os novos

Fico muitas vezes com a sensação de que determinadas pessoas, chegadas a uma certa idade, perdem a coragem para experimentar autores novinhos em folha e guardam o resto da sua vida para os clássicos (que não comportam assim tantos riscos). Por um lado, percebo-as. Mas, por outro, também saúdo as escolas de Escrita Criativa que recorrem frequentemente a novos talentos e os convidam a partilhar o espaço de uma aula com potenciais futuros autores ou gente que, simplesmente, quer aprender umas dicas para escrever melhor. Neste mês de Janeiro, a EC.ON, de que aqui já falei de outras vezes, recebeu Afonso Cruz para falar da sua obra, em especial do livro Jalan Jalan – Uma Leitura do Mundo, no dia 6; e no próximo dia 20 será a vez de Ana Margarida de Carvalho ir trocar impressões com os «alunos» a respeito do seu livro de contos, Pequenos Delírios Domésticos, recentemente publicado, e dos seus dois romances premiados. Daqui a dois meses, no dia 10 de Março, também João Ricardo Pedro irá falar do seu romance Um Postal de Detroit, que se seguiu ao aplaudidíssimo Prémio LeYa. Haja lugar para os novos.


 


P.S. Mais uma vez, peço moderação nos vossos comentários. Ontem isto parecia, como dantes se dizia, uma «peixeirada». Pensem só duas vezes antes de escrever. De contrário, passarei a apagar os comentários que considerar ofensivos. Não sujem a sala de estar. Obrigada.

As palavras e os actos

A Sociedade Portuguesa de Autores vai organizar um ciclo de conferências neste primeiro semestre de 2018, «para reflectir sobre as palavras e os actos que moldam e impulsionam algumas das grandes questões que se colocam na actualidade». As figuras convidadas a dirigir ao público as suas ideias são todas pessoas conhecidas, seja na área política como na cultural ou académica. Ana Gomes, Manuel Maria Carrilho, Francisco Seixas da Costa, José Barata-Moura, Pacheco Pereira e Viriato Soromenho Marques são alguns dos conferencistas convidados para partilharem, um em cada mês, as suas reflexões sobre a cultura, a política, o desenvolvimento das tecnologias e o papel das palavras e dos actos na «comunicação», que é, digo eu, uma das palavras mais importantes deste século XXI. Oportunamente será tornado público o calendário das conferências. Fiquemos, pois, atentos.

A magia de aprender

Imagem

Descobrem-se coisas muito interessantes no Facebook (esta foi via Maria Sequeira Mendes, professora universitária e amiga que trabalhou comigo na Temas e Debates enquanto fazia o mestrado), entre elas que «aprender» está seguramente ligado, pelo menos em termos etimológicos, a uma certa ideia de magia ou encantamento. Senão, vejamos: a palavra portuguesa «grimório» (acredito que desconhecida de muitos) diz respeito a uma espécie de manual de magia, uma colectânea medieval de feitiços, amuletos, cartas astrológicas, mezinhas para lançar conjuros, listas de anjos e demónios e muito mais. Ora, «grimório» vem do francês antigo «gramarye», que significava «aprender» e que não só deu origem a palavras como «grammaire» (gramática), mas também a essa expressão actualmente usada e abusada que é «glamour» (e que, na base, quer dizer justamento feitiço ou encantamento). Por isso, não sei realmente porque tantos resistem à leitura e à aprendizagem: não só descobrir coisas novas é um coisa verdadeiramente mágica, mas também glamorosa. Abaixo, segue um link sobre os grimórios mais conhecidos, entre os quais se encontra o Livro de S. Cipriano.


 


https://www.theguardian.com/books/2009/apr/08/history


 


grimorio-dark-star-frete-gratis-livrodassombras.jp


 

Preocupações

Vem o post de hoje na senda do anterior (quem não leu está sempre a tempo de procurar) – porque a minha preocupação é muito grande em relação à leitura e porque penso que os aparelhos que põem nas mãos dos miúdos para eles ficarem caladinhos só os desajudam… Leio no jornal Público (é um artigo que guardei para quando tivesse mais tempo e de que só pude desfrutar nas férias) que uma avaliação internacional realizada de cinco em cinco anos mostra que os meninos portugueses do 4º ano de escolaridade lêem hoje pior do que liam em 2011. Nesse ano, que foi o primeiro do estudo, Portugal encontrava-se na 19ª posição e, em 2016, passou para a 30ª!, uma queda bastante acentuada (pior, ao que parece, só o Irão). E o mais assustador é que os alunos deste 4º ano são, aparentemente, os que dizem gostar mais de ler e os que mostram mais empenho nas aulas (nem quero pensar o que seriam então os resultados dos outros anos). Há suspeitas de que mudanças na forma de avaliar possam ser responsáveis pelo fraco desempenho dos alunos; mesmo assim, diz o artigo que, no âmbito deste exercício, “a noção de literacia em leitura assenta não só no saber ler, mas também na capacidade de reflectir sobre o que se lê e na sua utilização para alcançar objectivos individuais e para a vida em sociedade”. Mas como é que querem que um miúdo perceba e reflicta sobre o que lê se lhe dão para a mão tudo menos livros?

Livros?

Um dia destes, fiquei estarrecida com uma menina de uns três ou quatro anos que abancou na mesa de uma cafetaria com os pais e uma irmã mais velha, pôs num segundo uns auscultadores verdes fosforescentes, abriu um Mac portátil daqueles muito fininhos, ligou-o, pousou-o na mesa e desapareceu dali para parte incerta até chegar um prato de esparguete à bolonhesa uns vinte minutos mais tarde... Assustador, garanto, um alheamento inacreditável (e os pais nada ralados com isso, claro). Este tipo de comportamento explica, aliás, porque se fazem piadas como aquela em que dois miúdos andam à procura das pilhas num livro... Mas entre as coisas inventadas com humor e a realidade é, infelizmente, um passinho miúdo. A escritora Luísa Costa Gomes partilhou na sua página do Facebook um anúncio que estava na OLX no dia 22 de Dezembro último e que deve fazer-nos reflectir sobre os tempos que atravessamos. Começava assim: “Vendo livro novo para quem gosta de ler tipo romances.” (A redacção é, já de si, bastante má e oral...) E, depois da fotografia do dito romance (na verdade, imagens da capa e contracapa de uma obra intitulada Shangai Baby, de Wei Hui, em inglês), a conversa era esta (cito): “vendo um bom livro de romance supostamente está novo nunca foi lido. troco por tsirts tm de marca em bom estado.” Enfim, nem sei para que continuo eu a fazer livros…


 

Belos acasos

Estando à procura de uns papéis que não sabia bem onde tinha metido (a idade prega-nos cada vez mais partidas deste tipo), encontrei umas notas que tomei há tempos, enquanto lia, maravilhada, uma entrevista de George Steiner. E que belo acaso se tornou esse momento! Não é novidade para ninguém que Steiner é um dos mais interessantes pensadores da actualidade, mas ele diz coisas tão notáveis nessa entrevista que, preguiçosamente, me limitarei a reproduzi-las aqui (até porque o meu melhor comentário neste caso é mesmo o silêncio respeitoso e admirativo). Fruam, porque vale mesmo a pena (e eu volto à minha busca pelos tais papéis, se me dão licença):


 


“O maior dos críticos é sempre minúsculo ao pé de um criador. Os críticos são parasitas na melena do leão.”


 


“Um judeu é um homem que, quando lê um livro, o faz com um lápis na mão porque tem a certeza de que pode escrever outro melhor.”


 


“Nenhum lugar é aborrecido se me derem uma mesa, café e livros. Isso é uma pátria.”


 


“A poesia ajuda à concentração porque ajuda a aprender de cor. Sempre a reivindiquei no ensino, é bom levar dentro muita coisa, outras vidas. O poema que vive connosco muda connosco.”


 


“Os velhos deviam poder decidir quando morrer. Já não há recursos para manter viva tantas pessoas senis e dementes, vai contra a felicidade de muita gente (os jovens que têm de levar connosco) e não é justo.”


 


 

Natal de todos

Ainda estamos a ressacar do Natal, por isso o tema está dentro do prazo de validade. É certo que todos sabemos que a festa se paganizou, se tornou puro comércio e já pouco tem que ver com o nascimento de Jesus ou a religião (aliás, todos os portugueses não crentes festejam o Natal, alguns com pompa e circunstância); mas fiquei uma vez realmente impressionada quando, numa viagem a Tóquio em finais de Novembro, encontrei lojas de produtos exclusivamente natalícios e ruas enfeitadíssimas para o Natal (numa, havia duas enormes árvores embrulhadas em gaze vermelha, que fotografei justamente por serem tão bonitas); quando perguntei ao meu anfitrião o que tinha dado aos japoneses, ele explicou-me que lá o Natal era mais um pretexto para festejar e que o costume era engatar alguém com quem passar a noite de 24 de Dezembro, coisa que os católicos achariam, no mínimo, escandaloso. Ou talvez não: é que a palavra “católico” é, afinal, bastante permissiva. Ao contrário do que se possa pensar, não vem do latim, mas do grego, que é língua de democratas: kata (junto) e holos (todos) quer, no fundo, dizer que reúne todos, que é “universal”. Por isso, para quê espantarmo-nos?

O que ando a ler

Pois então, cá estamos neste 2018 novinho em folha. Eu tive um final de ano acidentado: o Manel fracturou uma vértebra, foi operado, e isso acarretou consequências para ambos, pois foi preciso dormir no hospital, mudar pensos em casa, cozinhar, multiplicar-me. Mas agora, que as coisas estão a melhorar, tiro um tempinho para escrever no blogue. E começo por um livro que ando a ler por razões que se prendem com um determinado trabalho que tenho em mãos, e não, como se possa pensar, por causa da vaga de mulheres que resolveram abrir a boca para denunciar as situações de assédio de que foram vítimas (o que também está na ordem do dia). Trata-se de 100 Mulheres Portuguesas com História, de Anabela Natário, e em poucas páginas para cada mulher conta-se em que se distinguiram as ditas no seu tempo, citando-se alguns autores que sobre elas escreveram em várias épocas. O índice é extenso e abarca mulheres do século X ao século XX; embora muitas das escolhas sejam inescapáveis (D. Teresa Henriques, a Padeira de Aljubarrota, a Marquesa de Alorna, Florbela Espanca ou Natália Correia), outras há que nos ilustram sobre mulheres de que não conhecíamos a existência, como Inês Negra ou Cesina Bermudes. Aprende-se sempre alguma coisa com este tipo de obra.