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A mostrar mensagens de março, 2015

Invenções

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Há uns meses reeditei um antigo ensaio biográfico de Orlando Raimundo sobre Marcello Caetano e agora publico o seu livro mais recente: António Ferro: O Inventor do Salazarismo. Certamente todos conhecem o nome de Ferro, o homem da propaganda de Salazar que congregou à sua volta artistas e escritores (Almada Negreiros, por exemplo), lhes deu condições para servirem o regime com grande criatividade e entrevistou o homem de Santa Comba que admirava mais do que todos (e que acabou por lhe dar um pontapé no rabo depois dos serviços prestados). Pois bem: Ferro, para quem não saiba, é o homem que inventou o Galo de Barcelos (se julgavam que era uma antiquíssima tradição, desenganem-se), os cordões de ouro das noivas do Minho, a aldeia mais portuguesa de Portugal (que arranjou a seu gosto, modificando o mobiliário doméstico) e até as marchas populares. Com uma capacidade de manipulação e cosmética que poucos tiveram, era também dono de uma imaginação e de uma cultura raras entre os homens de Salazar e, embora pareça que se impôs desde o início com uma impostura (alegando ter sido o editor da revista Orfeu, quando apenas o foi na ficha técnica – e por ser menor na época e, portanto, não poder ser vítima de queixas e processos), a verdade é que muito do que foram as artes do seu tempo (pintura, cinema, dança) se devem a Ferro e às suas ideias engenhosas. No livro de Orlando Raimundo, podemos conhecê-lo do nascimento à morte, com o seu génio e as suas imposturas – mas será impossível doravante passar-lhe ao lado.


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Um susto

Contaram-me não há muito tempo uma história que assusta qualquer um. Numa escola de Música do Norte do País, de nível superior ainda por cima, o professor deu a ouvir aos alunos de determinado instrumento obras de compositores do século XVII, e uma rapariga alegou ser impossível que as peças escutadas fossem dessa época pois na altura não existiam meios para as gravar e fazer discos... Desconheço o que fazia ela numa escola superior de Música, mas este ano nas Correntes d’Escritas participou numa das mesas do encontro um dos membros do colectivo Vozes da Rádio que contou um episódio semelhante. Estando alguns estudantes de música a ensaiar num teatro uma peça de António Pinho Vargas, este resolveu aparecer para ouvir a sua prestação; e, quando entrou no palco e disse quem era, um dos alunos deu simplesmente um grito. Querendo saber porque provocara a sua presença tal reacção, Pinho Vargas certamente não contava com a resposta do rapaz: “Desculpe, mas é que os compositores costumam estar mortos.” Tem graça, mas se calhar é mais sério do que cómico.


 

Lisboa, 1921

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Publiquei recentemente um romance extenso no qual cabe um ano inteirinho: 1921 (o ano mais violento da história de Lisboa). Chama-se Veio depois a Noite Infame e assina-o Margarida Palma, que já antes compusera um romance sobre o Regicídio, intitulado A Morte do Rei. Esta obra mais recente conta-nos a história dos habitantes de uma praça lisboeta (a Praça Duque de Saldanha), especialmente a de uma família tradicional que reside numa vivenda que ainda ali sobra no meio dos edifícios horríveis que lá construíram depois, e também a dos moradores do prédio contíguo, entre os quais se contam um monárquico muito cómico, um casal de refugiados russos fugidos da revolução de 1917 e ainda uma actriz famosa, adorada e criticada em doses iguais, que recebe em casa numerosas visitas que vamos conhecendo ao longo do romance. Com um toque de Jane Austen (nas intrigas e nos mal-entendidos), muito informado sobre este ano específico que culminou com a Noite da Infâmia (em que uma carreta de milicianos foi buscar uma série de políticos ilustres às suas casas e os matou sem dó nem piedade), este é um livro que nos ensina muito sobre as convulsões da República, a devoção à Nossa Senhora de Fátima, os horrores da Primeira Guerra Mundial ou o fim da aristocracia russa. Mas é também uma história de vizinhos diferentes que nem sempre se relacionam com transparência, de vícios e virtudes, de oportunismos e males de amor. Com muito sentido de humor à mistura e um leque de personagens notáveis (a tia Fortunata sem papas na língua faria muita falta hoje na crítica aos políticos e às políticas), Veio depois a Noite Infame oferece-nos um enredo rico em episódios que nos deixam com água na boca até à última página. 


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Conhecer o Brasil através de livros

António Candido, que é considerado o mais importante crítico literário brasileiro vivo, escreveu um interessante ensaio sobre os livros que é preciso ler para conhecer o Brasil desde a sua fundação – não apenas romances, claro, mas obras que nos digam o que é fundamental saber sobre o país irmão. Começa, curiosamente, por um livro de 1995 que pensa sintetizar melhor do que qualquer outro a formação e o sentido do Brasil: O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, ao qual se segue Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (o pai de Chico), que é, segundo ele, uma análise inspirada da sociedade brasileira a partir da sua herança portuguesa. Em relação às populações autóctones, seleciona História dos Índios do Brasil (organização de Manuela Carneiro da Cunha) e indica, entre outros, O Abolicionismo, de Joaquim Nabuco, um livro do século XIX sobre o papel dos negros no Brasil que, quanto a ele, ainda não foi superado por nenhum outro. Passa depois para Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre (que considera um acontecimento na história da literatura brasileira, a par do ensaio Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Júnior) e segue para as obras que precedem e explicam a independência, das quais destaca D. João VI no Brasil, de Oliveira Lima, e História Geral da Civilização Brasileira (org. Sérgio Buarque de Hollanda), entre várias outras. Do período da República até aos nossos dias, temos, por exemplo, Coronelismo, Enxada e Voto, de Vítor Nunes Leal, A Revolução Burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes, alguns livros sobre a imigração alemã e italiana e Do Outro Lado do Atlântico, de Ângelo Trento. Dada a limitação imposta no número de títulos a indicar, penaliza-se por não referir ainda a obra de autores como Evaldo Cabral de Melo, Alcântara Machado e outros. Pois bem: com isto percebi que não sei nadinha do Brasil...

O papel soma e segue

Leio na revista Time que no Reino Unido houve um aumento significativo da venda de livros em papel e que as vendas de livros electrónicos estão a baixar todos os meses, pondo até algumas livrarias que já se encontraram perto da falência a ponderar abrir novas lojas. Num jornal português que cita o Huffington Post, encontro outro artigo sobre o facto de haver razões de sobra para os livros em papel não acabarem, a primeira das quais – muito curiosa – é a de os jovens leitores acreditarem que a informação útil e verdadeira se encontra sobretudo fora da Internet... Mas há mais: os estudantes norte-americanos, por exemplo, não se importam de estudar disciplinas científicas em manuais digitais, mas preferem estudar por manuais em papel as chamadas Humanidades e, o que é mais giro, dizem que para livros que não são de estudo o papel fica a milhas do e-book, pois é difícil estabelecer uma relação emocional com os textos lidos num ecrã (e alegam que a compreensão dos mesmos é muito superior numa página física). Ainda por cima, parece que em Harvard se levou a cabo um estudo que prova que o e-book interfere no sono dos que lêem na cama (parece que a luz emitida por alguns dispositivos não ajuda) e que as famílias com filhos pequenos também preferem ler livros em papel quando o fazem em conjunto. Por isso, talvez Umberto Eco tenha tido razão ao dizer que os e-books não iam durar sempre – afinal, até os mais novos começam a preferir o velhinho papel.

Cuidados intensivos

Esta profissão tem que se lhe diga e, como é natural, há dias em que perdemos completamente a cabeça e quase queríamos ter escolhido um ofício menos mental e mais manual (às vezes, penso que gostaria de experimentar a olaria, apesar da minha faltinha de jeito); mas, se eu acaso sofresse um certo desequilíbrio psíquico, a verdade é que teria quem me ajudasse a reposicionar-me e a recuperar os parafusos desatarraxados. É que, como recentemente uma escritora que publico me informou (eu nunca me tinha lembrado de tal coisa, mas gostei de saber), cinco dos meus autores são psicólogos… A informação foi dada por Ana Cristina Silva, uma dos tais cinco, que até é docente no ISPA e doutorada. Porém, além dela, publico as obras de Vasco Luís Curado (que é psicólogo clínico de formação – com livro novo lá para o Verão), Gabriela Ruivo Trindade (que ora não exerce, mas tem o mesmo curso), Norberto Morais (idem, idem, aspas, aspas) e ainda Nuno Amado, professor na Universidade de Évora, a propósito de cujo livro (Manual de Felicidade para Neuróticos) publiquei aqui recentemente um post (de todos, este último, pelo título do seu romance, parece o mais indicado para tratar as minhas neuroses passageiras). Estou, pois, debaixo de cuidados intensivos todo o ano sem me aperceber, com apoios à discrição para dias difíceis. Até me passam as neuras só de o saber.

Literatura francesa

Embora tenha sido a França a oferecer aos Estados Unidos a Estátua da Liberdade, os americanos não retribuem lendo a literatura francesa... Muitos autores franceses queixam-se de que estão traduzidos em várias línguas, mas que não são publicados nem no Reino Unido nem nos EUA, e até o Prémio Nobel Le-Clézio é praticamente um desconhecido nestes países (Modiano há-de ter destino semelhante, digo eu). Haverá algum problema específico com a literatura francesa que justifique tal ausência? Bem, leio num artigo da Internet assinado por Dennis Abrams que a produção literária anglo-saxónica é de tal forma volumosa que deixa pouco espaço às literaturas de outras línguas (em França, apesar de saírem centenas de livros franceses, 45 em cada 100 títulos publicados são estrangeiros); e que, além disso, no mercado norte-americano fica tão caro traduzir um livro literário que as pequenas editoras fogem de o fazer. Mas será só isso? Pois parece que não: os editores anglo-saxónicos consideram que os franceses até inventaram o interessante romance social no século XIX, mas depois da Segunda Guerra Mundial esqueceram-no completamente para se dedicarem à experimentação e ao nouveau roman, que consideram elitista, intelectual e, em suma, pouco legível... E acrescentam que, no campo da não-ficção, os livros franceses são demasiado académicos e não adequados aos leitores de biografias, divulgação científica e história popular que existem aos montes no mundo de língua inglesa. E o problema é que em todo o mundo se lêem cada vez menos livros franceses – em Portugal também – como se fossem papões que metem medo e dão pesadelos. Embora reconheça que a literatura francesa é às vezes bastante exigente, penso que ler de vez em quando um autor mais difícil só nos pode tornar melhores leitores.

Rota das Letras

Amanhã irei para Macau – é a minha primeira vez em território chinês – para participar num festival literário que dá pelo nome de Rota das Letras. Trata-se da sua 4.ª edição, que decorrerá de 19 a 29 de Março e terá como local o edifício do Antigo Tribunal. Fundado pelo jornal macaense Ponto Final em 2012, este festival é o primeiro grande encontro de literatos da China e dos Países de Expressão Portuguesa alguma vez organizado e trará à cidade mais de 30 convidados, entre escritores, editores, cineastas, artistas plásticos e músicos. Ali estarei com Ondjaki, por exemplo, com João Tordo, David Machado e Francisco José Viegas, mas também com o poeta e humorista brasileiro Gregório Duvivier, membro do colectivo Porta dos Fundos, cujo programa de TV creio estar neste momento a ser exibido no canal Fox, e ainda o cineasta João Botelho, cujo filme Os Maias será também exibido no festival. Vou como poeta, editora e escritora de livros infanto-juvenis (não pensem que estarei de férias) e, nesta última condição, irei fazer com o ilustrador João Fazenda uma sessão com crianças numa escola sobre o que é escrever e ilustrar um livro. A diferença horária é grande – e as viagens, como calculam, longuíssimas. Depois prometo contar tudo, mas, queridos Extraordinários, não vão poder contar com o blogue até segunda-feira que vem. O tempo não dá para tudo, perdoem. Espero que se divirtam por cá na minha ausência.

Portugal nas palavras dos poetas

Se gosta de ouvir poesia por quem a sabe dizer – no caso, a grande actriz de voz doce Natália Luiza –, não deve de forma alguma perder o espectáculo Portugal dos Poetas no Teatro Meridional, em Lisboa. Não se trata apenas de um serão de poesia, mas de uma noite de cidadania, já que os poemas têm que ver com Portugal, no que tem de bom e de mau, anunciando-se como «palavras de escárnio e bem-dizer e de apreço e maldizer». Os nomes dos autores chamados ao espectáculo são muitos e de várias épocas – de O’Neill a Natália Correia, de Al Berto a Antero de Quental, de Ruy Belo aos mais jovens Vasco Gato e Filipa Leal, todos seleccionados pela própria Natália Luiza que, assim, nos promete «desencanto, ironia, cansaço, inquietação» e também – pois, claro – utopia, que dela andamos bem precisados. As sessões decorrem até dia 21, mas só de quinta a sábado e, portanto, apressem-se, pois já não têm muito tempo. Mais informações no link : http://teatromeridional.net/index.php/programacao/espectaculos

Tudo por causa de uma vírgula

A pontuação é tremendamente importante para quem escreve e para quem lê, e um texto mal pontuado pode efectivamente levar-nos a compreender algo muito diferente daquilo que o autor queria transmitir (até há anedotas e charadas a este respeito). É por isso que é tão importante para quem é do ofício (escritor, editor, leitor, tradutor...) dominar a colocação dos sinais de pontuação, mesmo que alguns autores mais originais gostem de os dispensar (lembro-me de que valter hugo mãe nunca punha pontos de interrogação, mas escrevia de uma forma tal que não nos custava entender quando se tratava de uma pergunta). Eu diria que, entre todos esses sinais, a vírgula é aquele que levanta mais problemas (há gente tão virgulativa que nos interrompe permanentemente o raciocínio, há gente tão parcimoniosa na sua aplicação que nos deixa sem ar ao fim de umas linhas); mas raramente as vírgulas são obrigatórias (mesmo que a colocação de uma obrigue à colocação de outra, se não pusermos nenhuma das duas ninguém nos pode acusar) e a verdade é que o que é facultativo na pontuação pode causar grandes problemas. Se sabe inglês, atente por favor ao vídeo abaixo, rapinado do blogue dos Blogtailors, um exemplo delicioso de como uma vírgula (que, por acaso, em português, quase nunca usamos) faz toda a diferença.


 



 


 

Em busca da felicidade

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Um psicólogo que ensina na Universidade de Évora, Nuno Amado, fez-se autor de ficção pela primeira vez há dois anos com um romance de que aqui falei – À espera de Moby Dick – e acaba de reincidir com um livro muito curioso chamado Manual de Felicidade para Neuróticos (mas é também ficção, embora o título possa levar ao engano). Nele, duas personagens masculinas muito bem desenhadas – um escritor e um psiquiatra, respectivamente Gaspar Stau e Amadeu Amaro – são convidados pela União Europeia para escrever um Manual de Felicidade para neuróticos (e não admira, porque nesta Europa estamos a ficar mesmo com os nervos em franja!). Resolvem, porém, fazê-lo de forma muito singular, inscrevendo episódios reais conhecidos por Amadeu e posteriormente redigidas por Gaspar; e, pelas conversas de ambos, perpassarão então as mais variadas pessoas e histórias – de um velhote pessimista que pondera o suicídio a um coxo que se arrepende de ser operado, passando por um grupo de psicoterapeutas que se faz passar por Fernando Pessoa & heterónimos – que inspiram ao estranho duo estratégias criativas de buscar a felicidade. Mas não poderá ela encontrar-se também em coisas mais comezinhas como um prato de carne de alguidar com migas de espargos ou uma carícia de alguém que amamos? Manual de Felicidade para Neuróticos é um romance que, em diferentes vozes e estilos, numa narrativa em que cabem Paris e Lisboa, prostitutas e filósofos, redenção e desespero, Oscar Wilde e cozido à portuguesa, procura o encanto, a melancolia e o humor que existem na busca da felicidade. O lançamento é hoje às 18h30 na Livraria Ler Devagar da LX Factory – e Rui Zink apresenta. Apareça.


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Apelidar

Usamos em Portugal a palavra apelido para sobrenome, termo este usado pelos nossos irmãos brasileiros, para os quais apelido é aquilo a que nós cá chamamos alcunha. E, por falar em alcunhas, são famosas as alentejanas, claro, mas descobri numa crónica escrita pelo escritor e jornalista Joel Neto que, nos Açores, também as há com graça e imaginação e que por lá se designam curiosamente apelidos. Diz ele que só na sua terra a variedade é grande, que há apelidos antropomórficos (como Barbado, Carrapicho, Fininho ou Rasteiro – e explica que chamar Rasteiro a alguém é muito diferente de chamar Anão) e zoológicos: Besouro, Formiga ou Porca Amarela são exemplos disso (e eu, não sendo açoriana, fui Formiga anos a fio na escola por ser pequena e não parar quieta, mas nunca me chamaram, graças a Deus, Rasteira); que podem vir de uma antiga profissão de família (Cabreiro, por exemplo, e até Bispo), de um lugar a que se pertence (Das Bicas, Da Serra) ou mesmo de uma dinastia (Das Bernardas); que reflectem singularidades individuais (Mudo, Ligeiro), estão cheios de ternura (Cachinha, Estacinho, Zanguinha), acusam o ponto fraco (Chorica, Cara Suja) ou, como ele diz, são para esquecer (Peidão e Cagão). Portanto, se pensavam que só as alcunhas do Alentejo (e os apelidos também, porque os alentejanos têm sobrenomes ultracoloridos) tinham graça, desenganem-se. Os Açores fazem boa concorrência.


 

Uma livraria que seja sua

Sim, pode parecer sexista ou feminista, como queiram, mas a ideia é criar uma livraria de mulheres na cidade do Porto no próximo mês de Abril. Ao que sei, existe apenas meia centena de livrarias deste tipo em todo o mundo, mas Aida Suarez, a mentora do projecto, não tem medo de arriscar. Espanhola, está habituada a viver seis meses em Portugal e outros seis em Espanha e leva sempre livros com ela para ler no comboio (imagino que muitos serão de escritoras). Inspirando-se numa livraria para mulheres que existe em Madrid (a Prolég, onde uma vez entrou), Aida resolveu criar um espaço de promoção da cultura feminina na Invicta e diz que os homens serão também muito bem-vindos, mas os livros serão todos de mulheres. (O mote é justamente de uma escritora que todos conhecemos, Virginia Woolf, e do seu livro Um Quarto Que Seja Seu.) Para realizar este sonho, Aida lançou na Internet uma plataforma em que apela ao contributo de todos – Confraria Vermelha (confraria por apelar à união, vermelha por ser a cor da capa de Capuchinho, a mais famosa personagem feminina de contos infantis). Porém, o projecto da livraria não se resumirá a um lugar para vender livros, incluindo telões para a emissão de filmes, um espaço para lançamentos e apresentações, cursos, conferências, tertúlias e debates. Nos escaparates, literatura de mulheres e para mulheres, livros práticos para mães e mulheres trabalhadoras, ensaios sobre a igualdade de género e muitas outras coisas. Vão ser precisos 12 000 euros para pôr tudo em marcha, mas haverá certamente muitas mulheres com vontade de contribuir.

Vida colorida

Quando era miúda e ficava doente em casa, a minha mãe dava-me às vezes livros de pintar. Eu adorava, e os meus preferidos – não sei se ainda existem, apesar de tanta coisa sofisticada que para aí há – traziam um pincel que, mergulhado em água, fazia, em contacto com o papel, aparecer cores diferentes em cada página (parecia magia). Bem, os livros de colorir não são para os mais criativos (que gostam de fazer os próprios desenhos), mas a ideia que guardo deles é a de que entretinham muito. E leio agora num artigo que, pelos vistos, também os adultos gostam deles… Em Inglaterra, os médicos receitam-nos para diminuir a depressão e aliviar a tensão do dia-a-dia e, segundo os livreiros, só em 2014 o aumento de vendas foi de cerca de 300 %. A moda desta terapia começou em França quando se descobriu que as mulheres que trabalhavam muitas horas ao telefone, por exemplo, ficavam muito menos enervadas se pintassem ou desenhassem ao mesmo tempo. E a tendência (como tudo o que é francês) atravessou o canal, sendo agora a Inglaterra surpreendida por um aumento exponencial na venda de certos títulos de livros de pintar, sobretudo aqueles que têm páginas destacáveis que podem ser posteriormente emolduradas. Enfim, as crianças andam com brinquedos cada vez mais tecnológicos e os adultos parecem estar a regressar à infância.

Um par irresistível

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Já aqui falei deste mini-romance de Mário Cláudio, O Fotógrafo e a Rapariga, que é o último de uma trilogia dedicada à relação entre pessoas de idades muito diferentes. Depois de Bernardo Soares e um paquete de escritório em Boa Noite, Senhor Soares, e de Da Vinci e um seu discípulo em Retrato de Rapaz, temos agora a novidade de uma rapariga e de um professor de Matemática, fotógrafo amador, que se sente muito atraído por Lolitas e vê na menina Lidell alguém que fica muito bem na objectiva da sua câmara. Charles Dodgson (esse professor-fotógrafo) ficou conhecido por Lewis Carroll e é o autor desse livro imortal intitulado Alice no País das Maravilhas, que se diz ter sido inspirado justamente por Alice Lidell (que está na capa do livro de Mário Cláudio e tem ar de tudo menos de inocente). Depois de o termos feito nas Correntes d’Escritas, é agora a vez de lançarmos O Fotógrafo e a Rapariga no Porto (logo mais à tarde, pelas 18h30, na Sala Braga da Ordem dos Médicos, com apresentação do professor Martinho Soares) e em Lisboa (amanhã, na Livraria Buchholz, às 18h30, com apresentação de Daniel Sampaio). Apareça!


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Dois livros

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Dizem que os lançamentos dos livros são quase sempre uma fogueira de vaidades, uma festa para o ego do escritor ou apenas um pretexto para se rever amigos e família na companhia de um livro. Não sei ao certo e já vi de tudo. Pouco comum, no entanto, é que dois autores resolvam fazer uma apresentação simultânea e se ofereçam para falar do livro um do outro. Mas foi o que aconteceu recentemente a Miguel Real e Manuel Frias Martins (que foi meu professor de Literatura Inglesa na Faculdade, já lá vão anos) quando se encontraram por acaso na Fundação José Saramago e perceberam que tinham ambos livros novos a saírem no mesmo mês. O livro de Miguel Real é uma ficção (O Último Europeu) e o de Frias Martins um ensaio (A Espiritualidade Clandestina de José Saramago), mas nem essa diferença os impediu de porem a coisa de pé. A sessão decorrerá mais logo na Fundação José Saramago e abaixo segue um convite para o caso de quererem aparecer por lá.


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Oh, a poesia!

Ao longo dos anos, tenho-me dado conta de que os extraordinários comentadores deste blogue não têm uma especial atracção pela poesia; não que não gostem de a ler de vez em quando, mas talvez sejam mais chegados a um bom romance e, sobretudo, parecem desconhecer muito do que se vai fazendo na área nos últimos tempos. Uma boa maneira de remediar a lacuna é frequentar um bom curso que ensine a ler e compreender poesia – através de textos poéticos e teóricos – mas que forneça de igual modo nomes e correntes mais contemporâneas. Pois bem: há agora um desses cursos à disposição e começa já amanhã. As sessões terão como orientadores Marta Navarro, João Silveira e Rosa Azevedo e decorrerão em horário pós-laboral, das 19h00 às 20h00, às quartas-feiras, até ao dia 29 de Abril (dois meses é tempo para aprender tudo), na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul, em Lisboa (Av. Dom Carlos I). Nas palavras dos organizadores, “A partir de algumas linhas de força (pensar a poesia, o poeta, a noção de escrita e de leitura) e da leitura de alguns poemas, este curso pretende criar leitores críticos, autónomos, livres de preconceitos e pré-leituras de cada texto. Não vamos ensinar a ler, não vamos ensinar a escrever; vamos, sim, abrir portas e caminhos múltiplos para que estes leitores criem com os livros um espaço de segredo, intimidade e absoluta autonomia.” Ora então, de que está à espera? O preço é de 45 euros mensais. O link para a inscrição aí vai: rosa.b.azev@gmail.com

O que ando a ler

Quando estava na Temas e Debates, nos primeiros anos deste século, publiquei um autor colombiano maravilhoso, de quem o grande García Márquez disse ser alguém a quem de bom grado passaria o testemunho. Os romances que dei à estampa foram Rosario Tesouras e Paraíso Travel e, já depois de eu ter deixado a editora, saiu ainda Melodrama, mas com a chancela da Quetzal. Tinha de algum modo perdido o rasto a Jorge Franco (que no meu tempo assinava Jorge Franco Ramos, mas deve ter-se fartado de ser referido como Ramos, o nome da mãe, no estrangeiro), mas ele agora ganhou um dos prémios de língua espanhola mais prestigiantes, o Prémio Alfaguara, e é precisamente o livro galardoado – O Mundo de Fora – que me encontro a ler neste momento. É bom matar saudades deste escritor que sabe contar uma história como ninguém e desenha personagens que ficam na nossa memória para sempre. Aqui, um ricaço – de castelo, limusina, criados para tudo e uma filha que é uma princesa de conto de fadas – é sequestrado por um gangue de rapazes aselhas que o fecham numa cabana, o remetem a um quartinho onde existe apenas um catre, e tentam pedir por ele um resgate. Mas nem Dom Diego colabora (não se deixa fotografar nem escreve um bilhete pelo seu punho para mostrar que está vivo), nem a sua família parece querer negociar com o chefe dos sequestradores – o absolutamente fantástico Mono, frustrado, mandão, cheio de devaneios sexuais mas com problemas de erecção com a namorada Twiggy (outra grande personagem), cansado da sua quadrilha de estúpidos e medricas e fascinado quer pela filha do sequestrado, quer por um rapaz que adora motos e relógios caros e o sabe levar como ninguém. Com saltos ao passado – para afinal descobrirmos porque Dom Diego tem a vida que tem e o seu castelo colombiano (um capricho seu, e não, como se possa pensar, um delírio de pato-bravo, porque o homem é um gentleman) – vamos acompanhando os dias e as conversas entre sequestrado e sequestrador, um mano-a-mano notável de que a esta hora ainda não sei quem sairá vencedor. Recomendo vivamente esta pérola.