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A mostrar mensagens de julho, 2011

Fechado para férias

Amanhã começo as férias de Verão, embora só parta no domingo. Entre outras coisas, como fazer as malas, depilar as pernas ou comprar bronzeador, tirarei este primeiro dia de lazer para escolher os livros que me acompanharão. Tenho imensas leituras em atraso, livros que tive de interromper, livros que comprei e nem sequer consegui abrir, clássicos que não quero morrer sem ter experimentado. No ano passado, o saldo foi muito positivo, recordo-me dos livros de Andrés Neumann e Herta Müller, entre outros, de que aqui tive oportunidade de falar mais detalhadamente. Este ano ainda estou bastante indecisa, pelo que prefiro só falar das leituras no regresso das Horas Extraordinárias. Sim, perceberam bem: férias são férias e o repouso implica também fugir à rotina deste blogue. De resto, a maioria dos meus leitores, julgo eu, estarão também longe no mês de Agosto, a descansar, a apanhar sol e a ler outras coisas. E fazem bem. Voltamos a encontrar-nos em Setembro, se Deus quiser.

A lotaria

Um homem mudou de religião várias vezes ao longo da vida, pois pedia incessantemente ao deus de cada uma delas que o fizesse ganhar a lotaria, mas, como isso não acontecia, transferia-se para um credo diferente com a esperança de que a respectiva divindade lhe desse ouvidos. E reza a anedota que Deus (que, pelos vistos, era sempre o mesmo), fartinho de o ouvir, mandou um anjo ir ter com ele e dizer-lhe: «Deus já percebeu exactamente o que desejas, mas confessa que não pode fazer nada se não comprares pelo menos uma cautela.» Pois é, eu não costumo comprar lotaria (nem pedir a Deus para a ganhar), mas faço parte desse imenso grupo de pessoas que joga semanalmente no Euromilhões com a secreta esperança de um dia ganhar um dinheirinho que lhe permita ser independente e decidir o que fazer da vida. O Manel também faz parte do grupo e sei que, se um dia fosse bafejado pela sorte grande, faria uma editora só dele, na qual só publicaria livros de que gostasse muito, mesmo que não se vendessem por aí além. Eu, quando levada pelo mesmo delírio, concebo erguer uma fundação para a literatura, que educasse as crianças para a leitura inteligente e apoiasse escritores em dificuldades por todo o mundo. Claro que pode ser mais nobre auxiliar a investigação científica, o tratamento de doenças, a erradicação da fome. Mas uma vida longa sem bons livros é demasiado assustadora para me tirar do meu caminho.

Tempos difíceis

O País vive tempos extremamente difíceis e vai de férias ainda relativamente anestesiado, pronto para queimar os últimos cartuchos antes do choque frontal que receberá no regresso e se fará sentir sobretudo no último trimestre do ano, com a «rapina» de parte do subsídio de Natal. Para os livros, a situação é má – já se diz que fecham livrarias icónicas, que as distribuidoras começam a não pagar às editoras e que as editoras mais pequenas não terão como subsistir (e isto sem falar no aumento do IVA no livro, do qual, se calhar, não nos livramos). Li algures que o segmento de mercado mais afectado será o dos leitores ocasionais, que vão ao hipermercado comprar bens de primeira necessidade e antes adquiriam um livro por impulso, mas, com a crise, já não o poderão fazer. E tinha, apesar de tudo, alguma fé nos que têm hábitos de leitura enraizados e que, quiçá fazendo parte da classe menos afectada, continuariam a frequentar livrarias e a não resistir a uma ou outra novidade. Parece, porém, que até esses estão a criar resistência aos gastos desnecessários, conscientes de que têm lá em casa imensos livros que ainda não leram e que lhes devem dar agora, com toda a justeza, uma oportunidade. Numa conjuntura como a que vivemos, também creio que qualquer leitor que só possa comprar um livro apostará mais depressa num autor consagrado – retorno garantido – do que num principiante. Ora, dedicando-me eu há doze anos a lançar novos escritores, nunca fui de férias tão preocupada. Com os meus autores, com o meu emprego, com o que o futuro me reserva.

Pescadinha de rabo na boca

Vem este post a propósito de um comentário muito acertado feito neste blogue na semana passada, no qual os editores eram responsabilizados pela fraca qualidade de alguns livros que andam por aí. Luís Filipe Cristóvão – escritor e livreiro (com uma livraria belíssima em Torres Vedras) – tem obviamente razão em apontar-nos o dedo, e nem todos os dislates em forma de livro que por aí circulam são apenas obra de revisores descuidados. Embora esse não fosse o principal objectivo do meu post (e, sim, o facto de se atribuírem prémios de monta a livros crivados de erros), a verdade é que os editores são provavelmente os grandes responsáveis pela quantidade de livros maus e medíocres que hoje estão à venda, muitos deles de gente celebrizada por qualquer outra actividade que não a escrita. Às vezes, pergunto-me como foi que isto começou, quando foi que se decidiu ignorar a qualidade do texto em detrimento dos resultados financeiros e, através da publicação de obras às vezes tão rasteiras, trazer para a leitura gente que nunca tinha lido um livro mas que, a partir destes péssimos exemplos, nunca conseguirá realizar uma experiência de leitura que seja, ao mesmo tempo, formadora, enriquecedora e agradável. Mas também penso que os editores nem sempre pactuaram simplesmente com um sistema em que a receita é mais importante do que os valores abstractos e que, por vezes, o que tentaram – quiçá até com boas intenções – foi disponibilizar leituras mais apropriadas a uma população leitora que apareceu com o aumento da escolaridade obrigatória, que tem tanto direito a ler como a classe intelectual e que, por mais que queiramos, nunca seria capaz de compreender e fruir os chamados autores literários. Pescadinha de rabo na boca, enfim.

Tintim sou eu

Ainda hoje me lembro de ter tido um pesadelo no dia em que comecei L’étoile mystèrieuse, um dos primeiros livros de Tintim que li na vida. A aranha que fizera a sua teia na ponta do telescópio e, gigantesca, parecia fazer parte do planeta observado, abraçando-o, assustou-me. Era miúda quando comecei a ler o Tintim e os livros eram em francês, de capa dura e do meu irmão mais velho (que ainda os tem). Na altura, não tinha idade para me aperceber da dimensão dessa fascinante personagem (um miúdo de calções seguido por uma cadelinha, mas afinal já repórter e a investigar matéria de peso, portanto não miúdo, mas afinal sem namorada ou mulher, o que era estranho, mas...) nem das implicações políticas das aventuras de que era protagonista. Muito mais tarde, depois de reler várias vezes os livros, encontrei um ensaio esclarecedor, ainda que às vezes demasiado imaginativo, sobre Tintim, escrito como tese de doutoramento em psicanálise por um francês chamado Serge Tisseron e intitulado muito justamente Tintim no Psicanalista. (A epígrafe desse livro é, de resto, o título deste post e foi, como todos sabem, dita por Hergé, o criador da personagem, numa entrevista.) Nesta tese, o nosso querido repórter do caracol afastado da testa é psicanalisado e, entre outras coisas, descobrimos que o Professor Tournesol desempenha o papel de sua mãe e o Capitão Haddock de seu pai e que, afinal, a infância de Hergé tem muito que ver com uma certa orfandade da sua personagem. Bastante original.

Policiais

Quando eu era pequena, os romances policiais vendiam-se em edições de bolso muito baratas com mau papel e letra pequena, como se não merecessem melhor. Apesar disso, a par da literatura pura e dura, eram lidos por muita gente culta e interessante, e conheço grandes vultos da nossa praça (escritores e tudo) que paparam a colecção Vampiro ao ritmo de um título por dia; talvez essas leituras estivessem, porém, ligadas ao «mero» prazer dos tempos livres e as outras a um processo de formação e aprendizagem que obrigava às boas encadernações, aos formatos mais sólidos e a uma cómoda mise-en-page. Hoje, pelo contrário, principalmente depois do sucesso de Stieg Larsson, os policiais estão a ganhar um espaço determinante – e já não é assim tão raro os suplementos culturais de jornais e revistas de grande tiragem dedicarem várias páginas a obras do género, com entrevista aos autores, tantas vezes convidados pelas suas editoras a vir a Portugal por ocasião do lançamento. Confesso que não sou uma apreciadora, e muito menos uma especialista, em literatura policial, mas não seriam os autores publicados na velhinha Vampiro mais literariamente interessantes do que estes que hoje proliferam como cogumelos? Ou será exactamente por isso, por valorizarem a intriga em detrimento da escrita literária, que têm mais público, mais vendas e, logo, direito a uma edição melhor?

Encontro em Pousaflores

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Em Fevereiro publiquei um estupendo romance de estreia, Os Pretos de Pousaflores, assinado pela angolana Aida Gomes. Nele, relata-se o regresso, na sequência da guerra civil de Angola, de um português (com três filhos mulatos pela mão) à aldeia onde nasceu e que abandonou há quase quarenta anos. Aida Gomes escolheu o nome de Pousaflores sobretudo por lhe parecer bonito (e é), mas a vida tem destas coisas e existe mesmo uma aldeia chamada Pousaflores no concelho de Ansião que – nada é por acaso – ela descobriu ser também o concelho donde o próprio pai era natural. O Presidente da Câmara pôs os olhos no livro há uns meses e contactou-a; na altura, Aida Gomes estava na Guiné, pois é funcionária nas Nações Unidas, mas prometeu uma sessão assim que lhe fosse possível voltar a Portugal. Pois bem, vai ser hoje às 21h30, no Auditório Municipal de Ansião, com apresentação da jornalista Sara Figueiredo Costa. Teremos Pousaflores no horizonte. Se estiverem por perto, apareçam!


 


Soberania ou incompetência

Todas as línguas têm regras e estas fizeram-se para ser cumpridas. Mesmo assim, um certo incumprimento pode ser visto como marca estilística de determinado autor, como o comprovam a pontuação nos livros de Saramago ou a ausência de maiúsculas em valter hugo mãe. Acredito que ainda seja uma opção consciente de António Lobo Antunes a supressão do «de» antes do «que» em expressões que o exigiriam (como «ter medo», «aperceber-se» ou «estar à espera»), uma vez que as suas obras são todas fixadas por Maria Alzira Seixo e não a vejo a perdoar esta falta (chamemos-lhe assim) por sua alta recreação, estando, pois, convencida de que o autor simplesmente não aprecia o «de» e exerceu a sua soberania. De qualquer modo, já li livros muito literários – alguns inclusivamente galardoados com prémios importantes – que não entendo como foram publicados e distinguidos com erros tão graves como o desconhecimento do verbo «posar» (as personagens «pousavam» todas para as fotografias ao longo do romance), a ortografia errada nas palavras inglesas («Okey» por «Okay» repetia-se até à exaustão) ou a sistemática confusão entre os verbos «vir» e «ver», que, num caso, produzia uma frase bastante sugestiva que nunca esqueci: «[...] bares onde se vêm bailarinas grávidas com batons escuros.» Neste romance, penso que não se tratou de soberania: já é grave que um autor não saiba coisas tão elementares, mas a pessoa que assina a revisão bem podia devolver o dinheiro que recebeu pelo serviço…

Apresentações

Os autores quase nunca abdicam de um lançamento público com convidados, em que, por regra, alguém conhecido, ou reconhecido no meio das letras, apresenta o livro em traços gerais. É sempre uma incógnita, claro, porque assistir a estas apresentações pode tornar-se extremamente útil e interessante, mas também poderosamente chato e até uma completa frustração. Recentemente, estive numa apresentação ímpar, na qual o orador segurou com inteligência e humor uma sala cheia de gente e nunca disse de mais nem de menos sobre a obra, aguçando o apetite dos presentes para a sua leitura; mas logo uns dez dias depois houve outro lançamento que me deixou de cabelos em pé, já que o apresentador gastou o tempo todo a falar de si próprio e dos seus livros em lugar de falar da obra que estava a ser lançada e brindou o público com uma série de graçolas de gosto duvidoso que, por mim, bem podia ter evitado (malgré tout, o autor achou que correu normalmente, e é isso que importa). Mesmo assim, não posso deixar de recordar uma apresentação de há muitos anos, ainda no bar Botequim, de Natália Correia, em que o professor convidado a pronunciar-se sobre a obra de um autor espanhol com mau feitio leu uma peça de crítica universitária durante uns bons quarenta minutos sem fazer pausas; quando terminou, não só o público estava a morrer de sono (era à noite) como o autor do romance logo atirou: «Céus, não tinha ideia de que o meu livro fosse assim tão chato.»

Frontal e inconveniente

Sou da geração que viu aparecer e aplaudiu entusiasticamente Miguel Esteves Cardoso, que o leu nos jornais com um prazer imenso e reconheceu nele um estilo completamente novo de escrever e cronicar. E, embora ele ainda me delicie de vez em quando com a sua prosa (os textos que fez para o Público sobre a doença de Maria João, sua mulher, eram de uma beleza avassaladora), acho-o hoje bem mais acomodado, escrevendo sobretudo sobre o que come e bebe na zona de Colares sem que isso se torne especialmente interessante. Mas houve um tempo em que era de uma irreverência contagiante e lembro-me de uma história a este propósito elucidativa. Nesse ano – devíamos estar no final dos 80 – ganhou o prémio de romance da APE o livro Fora de Horas, de Paulo Castilho (que era também um texto bastante diferente do que se fazia então na literatura portuguesa). Ora, na altura, MEC dirigia a revista K, onde escrevia, entre outros assuntos, sobre livros; mas, ao contrário do júri desse prémio, não gostou do dito romance nem percebeu porque merecia tal distinção. Vai daí, resolveu escrever um artigo demolidor sobre o livro e não achou nada melhor do que intitulá-lo “Fora de Merdas”...

Autores para sempre

Nenhum editor pode esconder o prazer que sente quando um autor que lançou em primeira mão, muitas vezes ainda jovem, é reconhecido pelo público e pelos seus pares, recebe um prémio de vulto e evolui a cada livro que publica. Pela parte que me toca, assisto sempre com incontido orgulho às sessões em que participam esses escritores que ajudei a dar a conhecer e, quando eles se destacam com as suas intervenções ou a crítica abençoa os seus livros, não consigo ver apenas de fora, mesmo que eles já não sejam publicados por nenhuma das chancelas para as quais trabalho. Recentemente, valter hugo mãe esteve no Brasil na Festa Literária de Paraty – foi, na verdade, o único escritor português convidado este ano – e, segundo li no Jornal do Brasil e no Público Online, foi aplaudido de pé e deixou a audiência de lágrima ao canto do olho com um texto seu. Pois bem: ao ler a notícia, comovi-me eu também, cheia de pena de não ter estado lá para assistir à ovação que certamente mereceu. E, quiçá estupidamente, senti-me através dele realizada, com a sensação de que, quando publiquei o belíssimo o nosso reino, que é o seu primeiro romance – e que na altura em que saiu tão pouco eco teve –, fiz provavelmente uma das coisas mais importantes da minha vida profissional. Com o valter como com outros, autor uma vez, autor para sempre.

Calinadas imaginativas

Um dia destes, ao falar com uma médica, apercebi-me dos problemas que as pessoas analfabetas – ou quase analfabetas – têm para compreender ou reproduzir palavras ou expressões que se prendem com a saúde (e não só). Já sabia, por exemplo, que muita gente crê que deve medir a atenção com regularidade para prevenir enfartes e tromboses e que agora está na moda as parturientes pedirem uma pipidural, de forma a não gritarem de dores com a dilatação; mas ainda não tinha ouvido que há pessoas que sofrem de úrsulas no estômago, que morrem de homilias pulmonares e que as gravidezes utópicas quase sempre (pois claro) acabam mal. Contou-me ainda a médica que os filhos de uma sua paciente terminal, perante a morte iminente da progenitora, lhe revelaram que esta tinha manifestado o desejo de ser cromada; e que, por existirem alguns problemas de identidade com um homem que deu entrada no banco do hospital, este referiu que tudo se resolveria em breve, pois recentemente tinha passado a afectivo no emprego e já metera os papéis para ser neutralizado português...

Viagens impossíveis

Há centenas de lugares aonde nunca poderemos ir. Não por causa da distância, da falta de dinheiro, dos vistos não concedidos ou mesmo do medo de andar de avião, mas simplesmente porque, embora existindo, não existem. Parece estranho? Pois não é. Já se imaginou, por exemplo, em Camelot ou Avalon, na Ilha de Próspero, no País das Maravilhas, em Liliput, Macondo, no Parque Jurássico ou mesmo na Ilha do Dia Antes criada por Umberto Eco? A verdade é que a única forma de viajar até esses lugares é lendo as obras de quem os inventou, pois o único mapa que os inclui é, de facto, a nossa amada literatura. E, mesmo assim, o fantástico Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (um tradutor italiano de autores clássicos) reuniram-nos (e a muitos outros) num pesado volume intitulado Dicionário de Lugares Imaginários, que me ofereceram em inglês, mas existe em português numa edição brasileira da Companhia das Letras. E, por este guia para viajantes intrépidos, desfilam, por ordem alfabética, mais de mil e duzentos locais que nunca serão destinos vendidos pelas agências de viagens, mas aos quais muitos de nós não deixaremos de ir sem sairmos do sítio, mesmo fora do tempo de férias. Belíssimo e revelador.

Subjectividade

Dizem-me muitas vezes que o factor gosto influencia necessariamente os livros que selecciono para publicação. Acho que sei distinguir entre o que é publicável e o que não o é, independentemente do prazer que retiro da leitura, mas é verdade que só posso levar à estampa obras que consiga minimamente defender – e, se não gostar mesmo nada de um romance, será provavelmente difícil defendê-lo. Em todo o caso, talvez as pessoas tenham razão e exista sempre uma certa subjectividade quando damos o nosso parecer sobre um texto e, a este respeito, conheço uma história muito divertida. Numa sessão pública, para corroborar a sua opinião sobre um assunto polémico, um dos intervenientes trouxe à baila um livro pouco ou nada conhecido de um autor estrangeiro; ao seu lado na mesa, Frei Bento Domingues foi, porém, categórico, dizendo simplesmente que o livro em causa não prestava para nada. O companheiro de debate ficou zangado e, claro, atirou-lhe com esta: “Desculpe, mas isso não passa de um juízo de valor.” E, contra todas as expectativas dos presentes na sala, Frei Bento não se deixou abater e retorquiu apenas: “Engana-se, quanto a esse livro em particular, é mas é um juízo sem valor!”

Uma grande autora portuguesa

Dulce Maria Cardoso ganhou o Prémio da União Europeia para a Literatura em 2009, o que, infelizmente, não a tornou mais conhecida. E digo «infelizmente», porque se trata de uma grande escritora portuguesa que devia ser mais lida e criticada em Portugal (acho que teve mais críticas e recensões na imprensa holandesa do que aqui, o que é, no mínimo, estranho). O seu romance mais recentemente editado entre nós (penso que não tardará o próximo, mas só agora tive disponibilidade para ler este) chama-se O Chão dos Pardais e constitui um inteligente mosaico de personagens – Alice, Afonso, Sofia, Júlio, Elisaveta, Clara, Lily, Manuel, Gustavo – que se vão cruzando de maneira insuspeita e surpreendente numa história (em várias histórias, melhor dizendo) onde o amor e o ódio são muitas vezes a mesma coisa. Umas frases para aguçar a curiosidade: «O ódio precisa de ser alimentado e o silêncio é uma maneira bastante eficaz de o fazer. Caso enfraqueça, o ódio transforma-se numa mágoa que contrai um bocadinho o estômago ou amarga um bocadinho a boca. Ao contrário do ódio, a mágoa é muito desinteressante. Há tanto a dizer sobre as mágoas como há a dizer sobre os sapatos que apertam demasiado. Nem umas nem outros matam e nem umas nem outros dão vontade de matar.»

A manhã no Porto

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A Manhã do Mundo vai ter lançamento no Porto este domingo.


 


O livro ou o prémio

O senhor do quiosque onde há muitos anos compro diariamente o jornal e um maço de cigarros – e que, além destes dois mesmíssimos artigos, vende também ao Manel a Lire, a Ler, Os Meus Livros, o Magazine Littéraire, o JL, El País de sábado e tudo o que tenha que ver com livros – diz que já há algum tempo que não vende revistas. Não, não é por causa da crise. O que quer dizer é que já não são exactamente as revistas que as pessoas lhe compram, mas as malas, sandálias, lenços, faqueiros e outra tralha que as revistas oferecem ou comercializam a preço de saldo para conseguirem vender-se; e que as pessoas já não escolhem entre a Lux, a Caras e a VIP, mas entre, por exemplo, umas havaianas, uma bolsa de ráfia e um saco de praia. Recentemente, uma editora de livros, que por acaso até é do grupo para o qual trabalho, também pôs à venda cinco títulos diferentes acoplados a echarpes de cores distintas – e temo que as pessoas deixem de olhar para os autores desses livros e, afinal, escolham sobretudo pelo tom da echarpe que lhes dá mais jeito. Quando, numa sessão no Chapitô, se discutiam recentemente as vantagens e desvantagens do livro electrónico, o editor Carlos da Veiga Ferreira aproveitou logo essa campanha para dizer: «E nos e-books como é que incluem as echarpes?»


 

Reportagem literária

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Há muitos anos, li um livrinho publicado pela ASA na saudosa colecção Pequenos Prazeres intitulado Relato de Um Náufrago e assinado por Gabriel García Márquez. Era uma espécie de reportagem literária sobre um homem que andara sei lá quantos dias à deriva no mar em cima de umas tábuas de madeira, depois de a embarcação onde viajava ter naufragado, e o Nobel da Literatura publicara-a inicialmente em fragmentos num semanário. Embora não se trate de ficção propriamente dita, nem tenha a mesma genialidade de algumas das obras do mestre colombiano, lembro-me de que o texto me impressionou, me recordou por razões óbvias O Velho e o Mar, de Hemingway, e até escrevi qualquer coisa sobre ele numa revista que então editava a Livraria Barata. A Dom Quixote, que está a publicar a obra de García Márquez, reeditou agora o texto com nova capa e novo formato. Vale a pena.


 


Verdade ou consequência?

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Logo mais, às 18h30, faremos a apresentação de Tiago Veiga – Uma Biografia, a mais recente obra de Mário Cláudio, na Livraria Barata, em Lisboa (falará Manuel Villaverde Cabral). Em todas as críticas e entrevistas que apareceram até agora à volta deste livro, sempre se tem tentado apurar se o poeta Tiago Veiga realmente existiu – como o autor nos quer fazer crer através de provas várias, tais como fotografias (uma delas com o próprio biógrafo) ou livros publicados alguns anos antes de a biografia dada à estampa. Mário Cláudio remete os desconfiados para as conservatórias do registo civil dos lugares onde nasceu e morreu este bisneto de Camilo. É, porém, provável que se tenha dado ao trabalho de ver se existia algum Tiago Veiga nesses registos nascido, como o seu herói, em 1900. Enfim, jogo de génio ou não, este é um livro genial. Se quiserem, apareçam.


 


De leitura obrigatória

Bem sei que tudo o que cheira a obrigação traz em si uma promessa de aborrecimento e quase juraria que a maioria dos livros que tivemos de ler na escola não fizeram muitos leitores futuros dos seus autores. E o pior é pensar que isso aconteceu porque, em muitos casos, não tínhamos maturidade suficiente para os compreendermos. Ocorre-me, por exemplo, que Gil Vicente nos divertia com os seus palavrões (no meu tempo frequentemente suprimidos), os parvos e as alcoviteiras, mas dificilmente abarcávamos as implicações teológicas e o anticlericalismo dos seus textos; e que Fernão Lopes foi sempre ganhando peso e maravilha à medida que eu crescia e o relia, transformando-se numa coisa completamente diferente no final. Outros, porém, ficaram mesmo por reler, como o Herculano que, na adolescência, me pareceu tão insuportável (“E a abóbada não caiu!”) que nunca mais me chamou para a releitura. Em todo o caso, fiquei, sei lá porquê, chocada ao saber que Camilo desapareceu do currículo escolar. Bem sei que o novo ministro pode reintegrá-lo, mas num tempo em que as pessoas parecem apreciar enredos trágicos e paixões funestas, não seria de aproveitar a onda e, de caminho, ensinar centenas de vocábulos portugueses a uma população que recorre a um léxico cada vez menor?

Mudança de perfil

Estou sempre a ser avisada no Facebook quando os meus amigos fazem alterações ao seu perfil. Regra geral, não vou investigar, até porque a muitos destes «amigos», é bom que se diga, não conheço pessoalmente e, portanto, nem sequer tenho uma ideia muito concreta sobre qual era o seu perfil quando os adicionei, embora nessa altura tenha ido lá espreitar para ver se o que publico poderia interessar-lhes minimamente. Todavia, não são só as pessoas que vão mudando de perfil e, um destes dias – novamente em arrumações de livros –, apercebi-me de como mudaram enormemente os perfis de duas editoras que conheci bem. A primeira é a Gradiva, na qual trabalhei nove anos, que passou de editora de divulgação científica (Carl Sagan, Hubert Reeves, Richard Feynmann, Stephen Jay Gould) para editora que, além do fenómeno de vendas que é José Rodrigues dos Santos, publica sobretudo literatura estrangeira (McEwan, Ishiguro, agora Eco…) e ensaio de autores portugueses (quase sempre polémicos, como Nuno Crato). A segunda é a Presença, que nos meus tempos de estudante era, entre outras coisas, uma referência para universitários e hoje se tornou uma das mais cotadas chancelas de ficção comercial, tendo Nicholas Sparks como seu expoente máximo. O mercado desenha novos rostos e não há perfis que não estejam sujeitos à mudança.

Uma excepção

Nunca usei este blogue como montra do que escrevo, o objectivo é falar de leituras, e não de escritas; mas uma das leitoras que o segue disse-me há pouco tempo que os meus livros de poemas já não se encontram à venda (a editora que os publicava entrou em insolvência) e pediu-me que, mesmo excepcionalmente, partilhasse qualquer coisa neste espaço. Então, excepcionalmente, para a Irene Pereira e para todos os que gostam ou não gostam da minha poesia, desenterro, no ano do décimo aniversário da morte de Manuel Hermínio Monteiro, editor da Assírio e Alvim, um pequeno poema que escrevi para ele na altura. Saudades, sempre.


 


Deixei de ouvir-te. E sei que sou


mais triste com o teu silêncio.


 


Preferia pensar que só adormeceste; mas,


se encostar ao teu pulso o meu ouvido,


não escutarei senão a minha dor.


 


Deus precisou de ti, bem sei. E


eu não vejo como censurá-lo


 


ou perdoar-lhe.