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A mostrar mensagens de fevereiro, 2020

Crónica e Cervantes

Hoje é dia de crónica e ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/08-fev-2020/picasso-e-outros-prodigios-11798453.html


Como ainda estou com o trabalho muito atrasado devido à ausência nas Correntes d'Escritas, junto para se entreterem uma frase maravilhosa de Cervantes que, aliás, deixo em castelhano, pois creio que todos compreendem. Bom fim-de-semana.


 


«El poeta puede contar o cantar las cosas, no como fueron,


Sino como debían ser;


Y el historiador las ha de escribir no como debían ser,


Sino como fueron;


Sin añadir ni quitar a la verdad cosa alguna».

Coisas inesperadas

No regresso das Correntes d'Escritas esperava-me um montão de e-mails a que, de longe, não foi possível dar vazão. Respondi no telemóvel ao que sabia que era mais urgente, mas deixei os outros para ler com calma na segunda-feira. E, no meio desses, comunicavam-me uma coisa surpreendente: que a revista Lux nomeara como personagem masculina do ano na área da literatura Afonso Reis Cabral (além de António Lobo Antunes e José Tolentino Mendonça). Pois bem: eu desconhecia que tal revista falasse de outras pessoas que não actores de telenovela e músicos de sucesso, pelo que a notícia foi realmente inesperada. Mas, claro, fico grata, até porque se 1% das pessoas que lêem a revista ficarem curiosas com a obra do Afonso e lerem um dos seus livros já será bom. Não acredito que ele ganhe (apesar de ser giro e isso contar para a Lux), mas em qualquer caso se algum Extraordinário quiser votar no meu autor, aqui vai o link onde se explica tudo.


http://www.lux.iol.pt/personalidades/masculinas/2019

Sossego e gritaria

Ainda no rescaldo das Correntes, onde tanta coisa interessante se diz sempre, e com o trabalho muito atrasado pela ausência (levei o computador, mas nunca é a mesma coisa), dei com esta frase de um dos meus poetas espanhóis queridos, António Machado: «Se todos os espanhóis falassem apenas do que sabem, e de mais nada, haveria um grande silêncio que poderíamos aproveitar para o estudo.» Notável. É verdade que nuestros hermanos (sobretudo os de Madrid) falam imenso e em voz alta; e aonde quer que vamos nota-se logo onde há espanhóis, pela barulheira que fazem e porque falam espanhol com toda a gente, em Portugal ou em qualquer outro país estrangeiro. Mas, no fundo, a frase de Machado adapta-se a todos os povos do mundo e, em especial, àquelas pessoas que julgam perceber de tudo e têm sempre uma opinião a propósito de qualquer matéria. Eu cá também preciso de muito silêncio para ler e estudar e dispensava alguns conselhos e comentários que vou ouvindo por aí. Todos nós, imagino.

Saltar para a liberdade

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David Machado está de volta com  mais um romance depois do Prémio da União Europeia para a Literatura dado a Índice Médio de Felicidade (também adaptado ao cinema) e de Debaixo da Pele, um livro fundamental sobre a violência no namoro com uma estrutura altamente inventiva. A Educação dos Gafanhotos, assim se chama a novidade, é um road book e conta a viagem que David e Marco fazem pelos Estados Unidos quando acabam o curso. São dois jovens recém-licenciados em Economia, com esperança de ficar a trabalhar no país do Tio Sam, mas na verdade gostam é de escrever e, como tal, prometem a si mesmos que tudo o que contarem da sua vida a quem forem conhecendo nessa viagem será ficção pura e dura, tão depressa à Faulkner como à Hemingway, dois autores que adoram. Porém, este salto para a liberdade acaba por ser interompido por um acontecimento que os põe no lugar e os reduz à insignificância de gafanhotos... Bom, divertido, cinematográfico, um excelente retrato da juventude actual. A não perder.


 


capa_A EDUCAÇÃO DOS GAFANHOTOS David Machado (DQ


 

Crónica e bye-bye

Como todos os anos, lá vou eu mais logo para a Póvoa de Varzim, onde se realiza esse que é o melhor festival de escritores português, o Correntes d'Escritas, e estarei a acompanhar alguns autores que tenho por lá: a catalã Marta Orriols, por exemplo, mas também Isabel Rio Novo, David Machado, o também músico cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa ou mesmo a escritora de viagens Raquel Ochoa. E, como tal, agora só voltará a haver post na segunda-feira dia 24 (véspera de Carnaval), mas deixo-vos já a crónica que habitualmente só chega ao Horas Extraordinárias à sexta. Durante estes dias leiam e divirtam-se!


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/01-fev-2020/retrato-de-uma-epoca-11767675.html


 

Liberdade para os leitores

O nosso Extraordinário Fernando Costa, assíduo frequentador e comentador deste blogue, enviou-me por e-mail um link para um artigo da Sapo 24 que, quanto a ele, merecia ser partilhado aqui no «salão». E merece! Diz respeito a uma proposta feita ao Governo de Moçambique pela Associação dos Antigos Alunos da Escola Secundária Francisco Manyanga para reduzir algumas penas de prisão em, no máximo, 48 dias anuais, especialmente porque os estabelecimentos prisionais se encontram sobrelotados (o que é, como sabemos, um convite a mais violência) e, ao que parece, Moçambique ainda não tem a regra das pulseiras e dos detidos em prisão domiciliária E em que consiste a proposta? Pois bem, pura e simplesmente, em ler! Sim, ler livros. Cada recluso deve ler um livro e fazer por escrito o seu resumo; e, se este efectivamente corresponder à obra, terá menos quatro dias de pena a cumprir. Se ler um livrinho por mês, não só ganhará hábitos de leitura (com tudo o que isso implica para o seu futuro) como ficará menos mês e meio preso. Obrigada, Fernando, pela partilha desta notícia! Veremos o que decidem os governantes moçambicanos.

Crónica e Correntes

Hoje há crónica. Aqui vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/25-jan-2020/ligar-os-pontos-11743649.html


Na próxima semana, mais precisamente na quarta, começam as Correntes d'Escritas. O programa contém inúmeras actividades ligadas à literatura, desde mesas-redondas a conversas ou idas a escolas. Os nomes dos autores, de todos os cantos do mundo onde se falem línguas ibéricas (e desta vez os catalães vêm em força), ocupam quase uma página de alto a baixo e haverá repetentes, mas também muitos que chegam pela primeira vez. Se estiverem pelo Norte, tirem uns dias para isto; senão, arranjem umas férias. Este festival vale mesmo a pena.

O senhor Eco

Eco dizia coisas inesquecíveis, entre as quais recordo duas frases geniais. Uma delas dizia respeito ao facto de as redes sociais serem a invenção que  deu voz a todos os imbecis que antes estavam caladinhos e inibidos de abrir a boca; a outra que, se a China inteira usasse papel higiénico, já não tínhamos planeta. Mas, no que tem que ver com o que nos une aqui no blogue, li recentemente uma outra, que alguém partilhou no Facebook, que é mesmo interessante para complementar aquilo que há dias escrevi sobre o fio narrativo e a imagem do colar fornecida por Eugénio Lisboa. Ora leiam: «Eu penso que, para criar uma história, é necessário, antes de mais nada, construir um mundo, o mais «mobilado» possível, até aos mais pequenos pormenores. Se eu construir um rio com duas margens e se, na margem esquerda, puser um pescador, se atribuir a esse pescador um temperamento irascível e um cadastro não muito limpo, pronto, poderei começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer. Que faz um pescador? Pesca (e eis uma sequência completa de gestos mais ou menos inevitáveis). E depois que se passa? Ou o peixe morde, ou não morde. Se morde, o pescador agarra os peixes e volta para casa todo contente. Fim da história. Se não morde, e dado que se trata de alguém irascível, talvez se encolerize. Talvez parta a cana de pesca. Não é grande coisa, mas já é um começo. Ora, há um provérbio indiano que diz: "Senta-te na margem do rio e espera, o cadáver do teu inimigo não tardará a passar." E se, arrastado pela corrente, passasse um cadáver, já que esta possibilidade está contida na área intertextual do rio? Não esqueçamos que o meu pescador tem um cadastro carregado. Quererá correr o risco de se meter em maus lençóis? Que fará? Fugirá, fingirá não ver o cadáver? Sentirá pesar sobre si todas as suspeitas, pois que, seja como for, este é o cadáver do homem que ele odiava? Irascível como é, irritar-se-á por não ter sido ele a realizar a vingança ardentemente desejada? Como vêem, bastou «mobilar» o mundo com quase nada e logo nasceu o começo de uma história. E também o começo de um estilo, porque um pescador a pescar deveria impor um ritmo narrativo lento, fluvial, o da espera paciente, mas também o dos sobressaltos da sua impaciente irritabilidade. Basta construir um mundo, as palavras vêm a seguir, quase sozinhas: Rem tene, verba sequentur.» Quem sabe sabe.


 

Saudade e Raiva

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Este foi um dos livros com os quais mais empatia senti nos últimos tempos e, ao lê-lo, percebi logo que faria tudo para o poder publicar. Trata-se de Aprender a Falar com as Plantas, da catalã Marta Orriols, o segundo livro catalão mais vendido em toda a Espanha no ano passado, e apresenta um enredo incrivelmente imaginativo. Paula é uma neonatologista apaixonada pelo que faz e com um relacionamento desgastado pela rotina quando aos 42 anos pensa, pela primeira vez, em ser mãe; mas, no dia em que contava informar disso o companheiro, este diz-lhe que tem outra pessoa e quer sair de casa. Não há tempo, porém, para Paula gerir a raiva que a revelação lhe provoca: duas horas depois ele morre num acidente. E então, juntamente com o choque de uma morte estúpida e prematura, Paula terá de enfrentar o desgosto de ter sido abandonada e de lidar não apenas com o luto, mas também com o ressentimento. A autora estará em Portugal para as Correntes d'Escritas e valerá certamente a pena ouvi-la. Lê-la eu sei que vale a pena.


 


capa_APRENDER A FALAR COM AS PLANTAS Marta Orriols


 

Pérolas

Quando era miúda tive uma professora de Matemática que um dia, ao descobrir que uma colega minha e eu estávamos a conversar e não tínhamos prestado atenção, disse que não gostava nada de «deitar pérolas a porcos». Enfim... Se fosse agora, talvez o Conselho Directivo ou a Associação de Pais a punisse ou chamasse à pedra pelo insulto, mas nesse tempo as coisas eram diferentes. De qualquer modo, as pérolas interessam-me hoje por outro motivo mais literário. Numa sessão de homenagem à escritora Rosa Lobato de Faria que ocorreu na quinta-feira passada, dez anos passados da sua morte, o ensaísta Eugénio Lisboa falou do preconceito que a Academia alimentou ao longo de muitos anos em relação aos livros que contavam bem uma história, crendo-os menores do que aqueles que privilegiavam o trabalho de linguagem. E usou uma imagem que é muito perceptível para a suma importância do fio narrativo que, segundo ele, é o que mantém de pé toda a construção literária. Disse que o que interessava na literatura eram as pérolas, sim, como a Academia defendia, mas que, se não houvesse fio, o colar estaria todo espalhado pelo chão. Achei bem interessante. No que me diz respeito, não foram pérolas deitadas a porcos.

Mulherzinhas

Está aí o filme Mulherzinhas e tenho a certeza de que vai ser pretexto para reeditar o romance de Louisa May Alcott, bem como para o reler e dar a ler. Lembro-me ainda muito bem das quatro mulherzinhas (Meg, Jo, Beth e Amy, sobretudo da Jo, claro), e lembro-me também da adaptação cinematográfica de George Cukor (penso que há outra ainda mais antiga mas acho que não vi), com um tipo de representação bastante teatral a acompanhar o dramatismo de certas cenas, em que brilhava uma ainda jovem Katherine Hepburn. Não sei se o novo filme será mais a pensar nos jovens ou pode ainda interessar a uma adulta como eu; mas quero ir vê-lo para descobrir as diferenças e, ao mesmo tempo, para me recordar do que senti quando conheci aquelas personagens; será, enfim, como revisitar o passado e ver até que ponto ainda lá estão as marcas que o livro sulcou. E um dos motivos que a isso me levam é também a história linda que li no blogue de uma poetisa valenciana, Lola Mascarell, que conheci num festival de poesia em Espanha e dá um testemunho maravilhoso da sua experiência. Deixo-vos o link, porque eu não diria melhor.


https://registrodeayeres.blogspot.com/2020/02/mujercitas.html?fbclid=IwAR16aRxp0hx92EXb0mFHnRVfiPgFmCTN6HMKDR9fk_epu2SRFfbO4Vxhb3Y


 

Crónica e desgosto

Hoje é dia de crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/18-jan-2020/-voce-nao-esta-aqui-11716995.html


 


Como sabem, morreu um dos maiores professores, leitores e críticos literários da actualidade: George Steiner. No momento em que soube a notícia, aconteceu-me uma coisa muito estranha: chorei como se o conhecesse, como se se tratasse de alguém querido, amigo, próximo. Suponho que Steiner provocava essa empatia, esse amor que sentimos por um pai ou um avô, também por ser um intelectual que é gente, por dizer coisas que todos entendemos e nos tocam. Ainda agora, a escrever estas linhas, tenho lágrimas nos olhos e pena de não poder, por exemplo, voltar a lê-lo ou ouvi-lo em entrevistas, pois dizia coisas sempre tão certas. E sinto que este desgosto é também porque sei que homens assim já não se fazem, que partiu um dos últimos exemplares, que já quase não resta ninguém.

Meios de comunicação

Os jornais enfrentam uma crise terrível, em parte – julgo eu – porque as redes sociais ocuparam o seu espaço e passaram a servir de meio informativo para quase toda a gente. Quantas vezes sabemos de um atentado, uma morte, um prémio, pelo Facebook antes de ele ter chegado ao telejornal? Por outro lado, as pessoas vão aos sites dos jornais (muitos deles gratuitos) ler o que lhes interessa e desabituaram-se de comprar o jornal em papel, até porque as redacções passaram a ter mais ou menos o horário de uma empresa normal e, de manhã, as notícias estão muitas vezes desactualizadas. Porém, desde que se pode publicar livremente na Internet, também nunca sabemos se o que lemos é verdade ou mentira, até porque há sites especialmente criados para dar falsas notícias e denegrir a imagem de determinadas pessoas ou empresas ou partidos. E o pior é que a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social), segundo li num jornal, registou como «informativo» um site de propaganda e desinformação. Mas… e se a notícia que eu li é ela própria falsa?

Pessoa em visita

Pessoa é tão absolutamente inesgotável que continua a merecer congressos e colóquios e há sempre coisas novas para dizer sobre a sua vida e obra. Pessoa vai ser uma vez mais revisitado mas, ao mesmo tempo, vai visitar o Museu Vieira da Silva-Arpad Szenes no dia 13 de Fevereiro porque a sua casa em Campo de Ourique ainda está em obras. A ideia é fazer o ponto de situação do Congresso Internacional sobre Novos Estudos Pessoanos realizado em 2017 na Fundação Calouste Gulbenkian. Estarão presentes muitos investigadores, mas a actividade é aberta a todos os interessados, cuja entrada estará, no entanto, sujeita à lotação da sala. Serão debatidas as novas publicações e leituras de Pessoa por muitos estudiosos  portugueses e estrangeiros como Rui Sousa, Luís Andrade, Andrea Sanchéz, Pedro Sepúlveda, Luiz Fagundes Duarte, Nuno Amado, Diego Giménez, Ana Marques, Karen Pellegrini, Teresa Monteiro e António Feijó. E de certeza que ainda se vão descobrir muitas coisas novas.


 


 

Ler e pensar

A mulher de um amigo é professora numa universidade em Pequim e estava de férias em Portugal, julgo que em final de semestre, quando rebentou a epidemia do Coronavírus na China. Quando a situação se tornou muito grave, o vírus atravessou fronteiras e os casos se multiplicaram em muitas cidades, aumentando igualmente as mortes, a professora recebeu um e-mail da universidade, que era simultaneamente para professores e alunos, dizendo que  não fossem à universidade até aviso em contrário (sendo a universidade um sítio onde se concentra imensa gente, pode ser também um dos grandes pólos de contágio). Mas a mensagem ia um pouco mais além, o que é especialmente relevante num momento em que a atenção à doença bem podia fazer esquecer tudo o resto. Dizia que, neste período em que vão ficar em casa, os alunos deveriam aproveitar para ler e pensar mais. E depois explicava que as várias faculdades iriam fornecer uma selecção de leituras muito em breve. Brilhante, não? Temos, de facto, muito a aprender com este exemplo.

O que ando a ler

Hoje é dia de partilharmos as nossas leituras aqui no blogue e, neste momento, estou a terminar o novo romance de Chico Buarque, Essa Gente, que difere bastante dos outros que li do autor (Budapeste, Leite Derramado, O Irmão Alemão; falta-me Estorvo) na forma, pois está longe de constituir uma narrativa linear, compondo-se antes de um conjunto de entradas datadas (nem sempre por ordem cronológica) que tão depressa parecem pertencer ao diário do narrador, contando episódios da sua vida quotidiana, como são cartas que esse mesmo narrador (um escritor de meia-idade em crise criativa, financeira e familiar) escreve ou recebe. A contracapa anuncia que é também uma crítica aos tempos tremendos que o Brasil vive hoje em termos culturais (e o título Essa Gente remete de certa forma para isso), mas é uma crítica muito leve e subtil e, posso estar enganada, mas não central no romance. O senhor Prémio Camões desta vez entusiasma-me menos, sei lá porquê, quiçá porque o seu enredo inclua editores e escritores e eu já tenha disso na vida real. Mas leiam, pode ser só o meu mau feitio.