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A mostrar mensagens de maio, 2013

Viva, pim!

Quem teve a sorte de ver representar o actor Mário Viegas, de certezinha absoluta que não mais o esqueceu. A sua interpretação teatral ou cinematográfica era absolutamente genial – e bem assim a forma notável como dizia poesia. Havia um poema emblemático que, na sua boca, fazia parar tudo e deixar-nos pregados ao chão a ouvi-lo. Tratava-se d’O Manifesto Anti-Dantas, de Almada Negreiros («Morra o Dantas, morra. Pim!»), que, para quem não sabe, se atirava ao também poeta Júlio Dantas (que por acaso descobri recentemente ser o autor da letra de um fado de que até gosto bastante chamado Rua do Capelão). Ora, a Assírio & Alvim teve a bela ideia de reeditar o Manifesto num formato muito bonito e com um excelente «brinde»: um CD no qual o próprio Almada lê o seu texto! Suspeito que não consiga suplantar Mário Viegas… em todo o caso, ouvir um poema dito pelo próprio autor, mais ainda tratando-se de Almada, tem outro encanto.

Rei da poesia

 Tenho andado com tanto que fazer que até me esqueci de avisar que, pela segunda vez na história, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana foi atribuído a um português. A única portuguesa que antecedeu o premiado deste ano foi Sophia (que tinha nome de rainha, pelos vistos) e agora o galardão vai para Nuno Júdice, com mais de quarenta anos de livros publicados, entre poesia, ensaio e ficção (o mais recente romance do autor, Implosão, está, de resto, a dar que falar por pôr o dedo na ferida dos tempos que vivemos). Nuno Júdice, já se sabe, é um dos mais consagrados poetas nacionais, um dos mais traduzidos e já premiado internacionalmente várias vezes. Mas desta feita o júri tinha nada mais nada menos do que 18 membros (parece que Lobo Antunes estava entre eles) e elogiou a sua poesia depurada e «o modo como nela se compromete o classicismo, o imaginário e o real» (estou a citar de http://casaldasletras.com, onde poderão encontrar também uma longa entrevista com o poeta laureado). Parabéns, pois, Nuno Júdice, e continue a escrever!

Cônjuge literário

Ser o companheiro pessoal de um grande escritor não é tarefa fácil e, num artigo do Le Monde que me passou a minha colega Maria da Piedade Ferreira um dia destes, a autora, Raphaelle Rérolle, confessa que por vezes se cruza com um destes «cônjuges» nos festivais literários e que eles estão sempre dois passos atrás do escritor com quem vivem, como sombras, privados de identidade própria. No entanto, o seu papel na vida dos criadores pode ser fundamental, como sabemos por vários exemplos conhecidos – e aqui perto de nós, o de Pilar del Río, viúva de José Saramago –, embora, mesmo assim, na maioria do tempo tenham de concorrer com fantasmas e personagens de papel e lutar contra eles por atenção. Cada um destes homens e mulheres terá o seu segredo para sobreviver à fama e ao estrelato do cônjuge, e um deles é tornarem-se assistentes do escritor e gerirem as suas agendas, quando não ocuparem-se até das suas visitas, como se diz que fez toda a vida o marido de Agustina Bessa-Luís, que ia à estação buscar as pessoas que queriam ver e falar com a grande senhora do Porto; e há até quem leve a sua posição de dependência do escritor ao extremo de morrer com ele, como aconteceu à mulher de Stefan Zweig, que se suicidou com o marido em Fevereiro de 1942. Mas a maioria dos companheiros de escritores acabam por passar por cima de muita coisa por considerarem que é, acima de tudo, um privilégio partilharem a vida com um génio, como Maria José de Lancastre, a viúva de Tabucchi, que hoje ocupa os seus dias com o espólio do escritor italiano que, ao que parece, era  bastante desarrumado e nunca vinha para a mesa quando ela o chamava.

Ler sem obrigação

Chamaram-me recentemente aqui no blogue a atenção para um grupo que se chama Voluntários de Leitura – e fui ver o que era (já ouvira falar, mas ainda não tinha tido oportunidade de me debruçar mais detalhadamente sobre o assunto e acho que vale mesmo a pena). Criado em 2012 pela Universidade Nova de Lisboa, este grupo destina-se a potenciar uma rede de voluntários na promoção da leitura, uma vez que, por vezes sem orientação, os jovens se sentem incapazes de ultrapassar as suas dificuldades e facilmente desistem de ler. Sabendo-se que o desenvolvimento da competência da leitura melhora os níveis e os resultados da aprendizagem de qualquer matéria, estes voluntários servem de mediadores e trabalham com crianças e jovens em bibliotecas escolares, ajudando-as a corrigir as suas deficiências de leitura e a ler melhor em todos os sentidos. Têm de ser aceites pelo professor bibliotecário, que os formará e os preparará, apoiando-os depois de forma continuada ao longo do ano. O projecto conta ainda com a participação de outras entidades, como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Plano Nacional de Leitura e a Rede de Bibliotecas Públicas, entre outras. Se quiser tornar-se voluntário, contacte o professor-bibliotecário da escola da sua área de residência. Mais informações no link abaixo.


 


http://www.rbe.min-edu.pt/np4/750.html

A Colômbia gosta de ler

Há pouco tempo, realizou-se em Bogotá uma feira do livro que tinha Portugal como país convidado e por onde passaram quase meio milhão de pessoas (incluindo Cavaco Silva, que se esqueceu de mencionar Saramago no seu discurso, como se um Nobel – sobretudo quando não se tem senão um – fosse coisa de somenos). Os escritores e jornalistas portugueses convidados para o certame vinham, na sua maioria, muito agradavelmente surpreendidos com o interesse e a curiosidade dos colombianos pela literatura portuguesa, enchendo os auditórios, querendo ouvir falar a língua, comprando livros, encontrando-se pessoalmente com alguns autores. Lembro-me de que, nas Correntes d’Escritas, sempre que vinham autores colombianos, os seus discursos eram muito acima da média; e um deles contou-me que, na Colômbia, a retórica e a oratória fazem parte das disciplinas curriculares de muitos cursos, não podendo nunca um deputado ler um discurso no Parlamento. Mas o que eu não sabia é que este país considera os hábitos de leitura imprescindíveis e que o seu governo, quando entrega aos mais desfavorecidos habitações sociais, além do mobiliário indispensável oferece uma estante recheada de clássicos. Uma belíssima ideia, cá para mim.

Poeta da voz

Recentemente, comemorou-se o centenário do nascimento do actor João Villaret. Os extraordinários leitores deste blogue que são da minha geração ou mais velhos não deixarão de recordar o grande declamador de poesia que era – eu fiquei necessariamente marcada pela sua forma generosa de dizer os outros (e a minha recordação mais firme prende-se com José Régio, poeta de que nem gosto assim tanto, mas isso parecia nem importar, de tal forma aquela voz e forma de dizer eram cativantes). Passava-se tudo num pequeno ecrã de televisão a preto e branco: acompanhado pelo seu irmão Carlos ao piano, Villaret lia magistralmente textos de poetas portugueses – Botto, Sá-Carneiro, Pessoa, Camões, Guerra Junqueiro, entre muitos outros; essas leituras foram gravadas em vídeo com o título um pouco coxo de «Vídeos RTP» e vendidas em cassette. Sendo 2013 o centenário de Villaret, mereciam agora uma edição em DVD para os que apenas ouviram falar deste homem, mas não puderam vê-lo e ouvi-lo, poderem tomar contacto com a sua voz e representação. A jornalista Maria Augusta Silva recupera, no link abaixo, uma das «exibições» do grande diseur, que morreu com apenas 48 anos.


 


http://www.casaldasletras.com/maria_Arte_plural.html

É p’ró menino e p’rá menina

Hum... adoro feiras – mais ainda se forem do livro, que são praticamente os únicos lugares onde arranjamos livros que não se encontram em mais parte nenhuma e quantas vezes com descontos apreciáveis (o que se torna ainda mais importante na época de escassez financeira que estamos a atravessar). É já hoje que se inaugura a Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII, que voltou a realizar-se nas datas habituais (em Maio, e não em Abril, como nos últimos dois anos), permitindo a quem quer ver e comprar livros aliar esse seu interesse à possibilidade de uma passeata soalheira ao ar livre entre as árvores (imagino que estejam já floridos os jacarandás do parque). Para além dos pavilhões recheados de «iguarias», também lá estarão, como sempre, os grandes «cozinheiros», pondo a assinatura nas obras que o público lhes estende e dando dois dedos de conversa com os leitores se as filas não crescerem muito (o que, dada a situação de crise, não é muito natural que aconteça). Assim, já sabe: se quiser um autógrafo personalizado ou conhecer os rostos por detrás das capas, o fim-de-semana é o momento mais aconselhável. Se só quer mesmo ver e comprar, escolha um dia de semana e ficará mais bem servido. No próximo sábado, o último galardoado com o Prémio LeYa assinará também a programação da Praça LeYa, na qual haverá música e teatro da sua eleição. Se mora em Lisboa, não falte! Até porque, como em todas as feiras, há farturas.

O génio infantil

Na infância já é possível entrever quem, de entre os alunos de uma turma, se afigura mais criativo, seja pelos desenhos que se distinguem dos que são clássicos entre crianças, seja através de redacções imaginativas, tiradas intempestivas ou até perguntas formuladas do avesso. Uma amiga enviou-me há uns tempos por e-mail um conjunto de definições que um grupo de crianças avançou – e é, de facto, notável como já é possível, por ali, encontrar uma veia poética ou uma bela dose de criatividade. Para mim, a melhor era de longe a definição de «rede»: «Uma porção de buracos amarrados por um cordel.» Mas também me deliciei quando um rapazinho disse que um relâmpago era «um barulho rabiscando o céu» e outro classificou o calcanhar como «o queixo do pé». À pergunta «O que é um palhaço?», uma menina respondeu que era «um homem todo pintado de piadas». Outra definiu vento como «ar cheio de pressa». No campo dos animais, uma criança disse que cobra era «um bicho que só tinha rabo» e, com imensa propriedade, outra avançou que uma avestruz era «a girafa dos passarinhos». Enfim, vamos ver se, daqui por uns anitos, mantêm a inventividade ou se deixam estragar pelo caminho... Pode ser que algum deles se torne um original escritor.

Tanto mar

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Hoje será o lançamento de mais um dos romances finalistas do Prémio Leya, recentemente entregue a Nuno Camarneiro. Trata-se de Que Importa a Fúria do Mar, de Ana Margarida de Carvalho, uma excelente surpresa se pensarmos que é uma estreia na ficção (embora, de algum modo, não estivéssemos à espera de menos da grande jornalista que é a autora). Colocando duas gerações frente a frente – um homem que foi operário vidreiro no antigo regime e uma jornalista nascida provavelmente depois do 25 de Abril que tem de o entrevistar e cria, a partir daí, um estranho relacionamento com ele –, o romance combina afinidades com diferenças, infâncias terríveis com memórias peculiares do mar, decepções e alegrias com amores impossíveis. O escritor Afonso Cruz fará a apresentação na Livraria Buchholz, às 18h30, onde estará igualmente o actor e encenador Miguel Seabra para ler excertos e a cantora lírica Ana Maria Pinto para nos brindar com Maio, Maduro Maio, de Zeca Afonso, a canção donde foi retirado o título do livro. Apareçam.


 


Road novel mas não só

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Francisco Camacho estreou-se na ficção com um romance notável intitulado Niassa, que convocou o aplauso da crítica e arrecadou o Prémio do PEN para Primeira Obra no ano em que foi lançado. Fez uma pausa algo demorada, mas regressa agora com uma road novel singular e fascinante que suspeito venha a ter um destino semelhante à anterior. Chama-se A Última Canção da Noite e traz à cena duas personagens masculinas inesquecíveis: o guitarrista britânico Jack Novak, que era a alma de uma banda de sucesso e despareceu na Roménia durante uma tournée em condições misteriosas, dando origem a muita especulação; e o crítico de música português caído em desgraça David Almodôvar, que foi vítima de uma acusação de plágio (de que não se conseguiu defender decentemente), do desemprego que essa circunstância acabou por provocar (era a estrela de uma agência de publicidade) e de uma história de amor que se interrompeu quando o romance começa – com a existência de uma carta deixada pela mulher com quem vivia, Vera, que constitui mais um desafio do que uma declaração de abandono. Os dois homens acabarão por juntar-se e tornar-se cúmplices durante uma viagem a Marrocos, na qual os leitores serão ajudados a desvendar os mistérios criados pelo romancista, com a promessa de grandes surpresas que passam até por uma guerra que encheu as parangonas dos jornais não faz muito tempo. E eu também prometo umas horas muito bem passadas com A Última Canção da Noite, um romance com diálogos admiráveis, muito cinematográfico, de que se podia fazer por acaso um grande filme. A ler, absolutamente.


 




Obra colectiva

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Aqui há uns meses, a LeYa Brasil, assinalando o Ano de Portugal no Brasil, decidiu publicar uma colecção de romances de novos autores portugueses, iniciando-a com cinco títulos muito diferentes, da autoria de Patrícia Reis, Patrícia Portela, Nuno Camarneiro, Sandro William Junqueira e João Ricardo Pedro (outros cinco virão à luz ainda este ano). Os autores da primeira leva encontraram-se então para uma acção de promoção dos seus romances no Rio de Janeiro e aconteceu uma coisa rara, sobretudo quando se trata de artistas da mesma geração: adoraram conhecer-se e ficaram todos amigos desde então. Quando Nuno Camarneiro soube, mais tarde, que ganhara o Prémio LeYa, resolveu então chamar estes quatro amigos (entre eles, o premiado da edição anterior) para apresentarem o seu romance Debaixo de Algum Céu quando chegasse a hora de fazer a respectiva apresentação pública. Por causa das datas, Patrícia Portela e Sandro William Junqueira, que moram longe, não puderam vir, mas, com dois apresentadores, o lançamento vai ser na mesma uma espécie de obra colectiva. É hoje, às 18h30, na Livraria Buchholz, ao Marquês de Pombal. Se quiser aparecer, está convidado.


 


Poemas portugueses para inglês ver

Ana Hudson (de solteira, Melo) vive em Londres e decidiu criar uma página dedicada à poesia portuguesa do presente século. Roubou (e bem) o nome a um livro de Elizabeth Barret Browning (Sonnets from the Portuguese), uma poetisa inglesa que se diz ter sido grande admiradora de Camões e a quem o marido (outro grande poeta britânico, Robert Browning) chamava «my little Portuguese». A página chama-se Poems from the Portuguese e apresenta uma lista muito vasta de autores portugueses de poesia (alguns que só começaram depois de 2001, mas muitos que, tendo-se estreado ainda no século passado, continuam hoje a escrever e a publicar), cujos nomes aparecem numa barra do lado esquerdo. De cada um, é oferecida uma pequena nota biográfica seguida de um texto breve sobre a sua obra (tudo em inglês – é bom de ver). E, mais importante, está disponível um número representativo de poemas traduzidos em inglês, que podem ser uma espécie de porta para leitores curiosos se atirarem à descoberta mais aprofundada de alguns poetas. Neste mundo em que é tão difícil arranjar, no espaço anglo-saxónico (e não só), quem traduza a belíssima poesia portuguesa, é uma felicidade e um privilégio contar com o trabalho de Ana Hudson. Obrigada. O link vai abaixo.


 


http://www.poemsfromtheportuguese.org/

Boas ideias

Bruno Vieira Amaral, que tem trabalhado como assessor de comunicação da editora Quetzal e também como crítico literário (nomeadamente, na revista Ler), publica agora um interessante trabalho que dá pano para mangas. Chama-se Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa e, inspirado numa obra de que aqui já tive o prazer de falar – o Dicionário dos Lugares Imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (que se debruça sobre lugares inventados como, por exemplo, a Macondo de Cem Anos de Solidão) –, resolveu pegar em cinquenta personagens da literatura portuguesa e dedicar a cada uma delas uma apresentação que não se pretende exaustiva e, acima de tudo, suscita a curiosidade de a descobrir. É certo que constam da sua lista os emblemáticos João da Ega de Os Maias ou mesmo a Joaninha dos olhos verdes de Viagens na Minha Terra, mas o conjunto está longe de ser óbvio ou esperável. Bruno Vieira Amaral oferece-nos boas surpresas como Mizé (do romance homónimo de Ricardo Adolfo) ou o mais recente Mário (de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso), preocupando-se mais com o facto de todos os seus «retratados» serem grandes personagens do que com a época, a reputação dos autores que as criaram e até os livros de que foram retiradas (às vezes, não tão grandes como elas). Uma obra muito curiosa que põe em curso uma bela ideia que, ainda por cima, pode ser multiplicada e continuada pela vida fora, enquanto houver livros e Bruno Amaral tiver tempo para ler.

Admiração pelo inimigo

Há muitos anos, na Temas e Debates, publiquei um livro de entrevistas de Maria João Avillez a Álvaro Cunhal – e era notória a admiração da jornalista pelo entrevistado, embora pertencessem a quadrantes completamente distintos, sobretudo quando contava que levara a Cunhal todos os seus romances (os de Manuel Tiago, evidentemente) pedindo-lhe que lhos assinasse e que, de todas as vezes, regressara da entrevista sem o tão almejado autógrafo (senti que nem toda a gente teria coragem de se confessar tão absolutamente ignorado e desprezado sem um tom minimamente acusatório). Contaram-me também recentemente que Salazar era um grande leitor de Aquilino Ribeiro – e que o facto de o querer preso nada tinha que ver com a admiração que nutria pelo escritor (já pela pessoa, não se pode dizer o mesmo). Os intelectuais têm sido respeitados ao longo do tempo mesmo pelos seus maiores inimigos ou rivais, mas vivemos um tempo de viragem absurdo, em que, usando uma expressão de Ortega Y Gasset, os «ocupados» (os políticos) ignoram simplesmente os «preocupados» (os intelectuais) e não têm por eles o menor respeito, desprezando o que pensam ou dizem e não pedindo para nada o seu parecer. Ah, triste arrogância dos ignorantes que nos governam, que não só não devem ler uma linha (excepto num quadro em Excel, e mesmo aí...) como ainda por cima acham que quem lê, escreve, pinta, compõe – pensa e cria, em suma – não é gente a quem se deva dar atenção. Tristes os tempos que atravessamos, em que o Presidente da República omite deliberadamente o nome de Saramago numa Feira do Livro na Colômbia dedicada a Portugal só porque eram de quadrantes distintos...

Opostos ou nem tanto

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Estará a partir de hoje disponível no mercado um maravilhoso romance que foi finalista da última edição do Prémio LeYa. Escrito por Ana Margarida de Carvalho, jornalista da revista Visão que já recebeu variados prémios, entre eles o cobiçado Gazeta, Que Importa a Fúria do Mar traz-nos duas personagens, duas gerações, dois tempos, dois Portugais distintos. Temos Joaquim, um dos últimos sobreviventes da primeira leva de ocupantes do campo do Tarrafal e, do outro lado (ou talvez do mesmo), Eugénia, uma jornalista ainda jovem que é chamada a entrevistá-lo e se interessa pelas suas histórias (a política e a pessoal) muito para além da curiosidade profissional. Estas duas figuras aparentemente antagónicas partilharão, porém, muita coisa juntas – memórias de infância, histórias de amores impossíveis, a fúria do mar e até um gato que, às tantas, deixa de ser de um deles para ser do outro. Cruel e lírico a um tempo, Que Importa a Fúria do Mar é uma estreia belíssima e invulgar na ficção portuguesa que nos faz desejar que a sua autora não fique por aqui e continue a temperar o jornalismo com a escrita literária.


 


Auto-retrato

Conhecia o autor e até publiquei em Portugal As Partículas Elementares, que não é o seu primeiro romance, mas foi o primeiro a sair em tradução portuguesa. E, no entanto, O Mapa e o Território, de Michel Houellebecq, vencedor do Prémio Goncourt, é um livro inteiramente diferente e, em certa medida, nem sequer parece de um autor francês contemporâneo. Fala-nos de um artista, Jed Martin, que pede a Houellebecq (uma das principais personagens) que lhe escreva o texto de abertura do catálogo da sua primeira grande exposição (na anterior, colectiva, havia exposto uma fotografia de um mapa Michelin que o tornou um artista de sucesso) – e este acaba por concordar, criando-se entre os dois uma relação não exactamente amistosa ou íntima, mas em todo o caso empática e digna de nota. Jed decide então retratar o escritor e oferecer-lhe esse quadro – e o mais interessante é que a personagem do pintor serve ao próprio autor para se retratar na terceira pessoa sem cinismos desnecessários como o homem estranho e misantropo que todos sabem que é. Na sequência da viagem que Jed faz para entregar o quadro (finda a exposição), o livro muda completamente de rumo, e uma morte inesperada em condições horripilantes (cabeças degoladas e corpos desfeitos) levar-nos-á até ao culpado do crime pela mão de um comissário da Polícia (ou não exactamente). Cheio de movimento e animado aqui e ali com descrições pormenorizadas de questões laterais ao enredo, O Mapa e o Território é, entre outras coisas, um excelente romance sobre os artistas de várias naturezas e as suas vidas públicas e privadas. A tradução é de Pedro Tamen.

Músico das letras

Muitos dos extraordinários leitores deste blogue já ouviram certamente falar de Alain Oulman, um judeu de origem francesa nascido em Portugal que virou do avesso a vida artística de Amália Rodrigues, compondo para ela fados completamente distintos dos que cantava até então e ajudando-a a encontrar poetas, como David Mourão-Ferreira, que lhe fariam letras inesquecíveis, contribuindo para que o fado passasse de uma canção popularucha para um nível muitíssimo mais sofisticado. O que talvez não saibam é que Alain Oulman, depois de ter sido preso pela PIDE, ficou muito zangado com Portugal e foi para França trabalhar com um tio, que tinha uma conceituada editora, tornando-se um editor de excepção. Num documentário exibido há algumas semanas na RTP2 e realizado por um dos seus filhos, conhecemos melhor esta faceta de Oulman através de editores que trabalharam ao seu lado e bem assim autores de renome, como Amos Oz, cujo testemunho da sensibilidade de Oulman para a música do texto era um verdadeiro enaltecimento da figura. Para que conste, esse homem que fez músicas belíssimas para a nossa fadista, tinha o cuidado de ler ao telefone as traduções francesas de certas passagens a alguns dos seus autores (e de lhes pedir que as dissessem na sua própria língua) para ter a certeza de que a música era a mesma no resultado final. Se conseguirem ver este documentário – uma peça interessantíssima sobre um homem ainda mais interessante – não percam.

O céu é o limite

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Hoje realizar-se-á a entrega do Prémio LeYa a Nuno Camarneiro pelo seu romance Debaixo de Algum Céu, publicado em início de Abril. Estas coisas levam o seu tempo, pois requerem a presença de entidades oficiais e as agendas destes senhores são sempre complicadas. Chegou, porém, a hora de o autor receber o galardão e de nos presentear publicamente com algumas palavras ditas (as escritas estão no livro, disponíveis para todos os que o queiram ler). Manuel Alegre, como presidente do júri, falará do romance e certamente das razões que levaram os jurados a escolher este entre sete. Tenho a certeza de que, ao concorrerem, todos os autores que enviam os livros têm a convicção de que podem ganhar (senão, para que o fariam?) e que o céu é o limite. No entanto, Nuno Camarneiro contou em entrevistas que, quando ouviu a voz de Manuel Alegre ao telefone, grave como sempre, foi como se ouvisse Deus. Estava, enfim, debaixo de um bom céu... Parabéns ao premiado e também aos restantes finalistas. Aquilo de que precisamos é que haja sempre bons livros.


 


Ler a norte

No Dia Mundial do Livro houve um sem-número de actividades levadas a cabo por várias entidades ligadas à cultura. Fez-se muito, mas a verdade é que os comentários muitas vezes referiam que não se saiu de Lisboa e que o resto do País também merecia. Com toda a razão. Mais ainda quando se sabe que este ano não haverá Feira do Livro na cidade do Porto, quebrando-se uma tradição de anos e anos, como se a norte as pessoas não gostassem de ler... É verdade que os custos eram altíssimos para quem participava e que, entre inscrições, transporte dos pavilhões e da mercadoria e pagamento ao pessoal, quando não se ficava em casa, acabava por se perder dinheiro. Era para isso que se contava com o apoio da Câmara Municipal da Invicta, que oferecia o espaço e ajudava com uma verba o certame. Sabemos, porém, que os municípios estão de tanga e – pior – que, mesmo de tanga, preferem apoiar os aviõezinhos com fumos às cores a fazerem acrobacias sobre as pontes e outros eventos que enchem o olho mas em nada contribuem para os portuenses ficarem mais cultos. Porque será? Eu cá diria que a quem está no poder dá sempre jeito ter uma carneirada que não pensa. Muito mais, evidentemente, do que uma população que ponha as suas decisões em causa e se revolte. É o que temos...

Aniversário

Um dia destes as Horas Extraordinárias fizeram três anos. Três anos!? Como é possível já ter passado tanto tempo e quase não se dar por isso? Alguma vez eu pensava que seria capaz de alimentar diariamente (quer dizer, pelo menos, nos dias úteis) um blogue e – o que é ainda mais surpreendente – ter leitores e comentadores que já considero da casa? A verdade é que não. Embora tenha começado esta aventura com bastante ânimo, calculei que, ao fim de um tempo, os visitantes se passassem para outras paragens e se cansassem de um espaço igual a si próprio. Mas não. E um dia destes tive uma bela surpresa: coloquei um comentário em resposta a um outro da extraordinária Anabela F., informando os leitores que estaria a distribuir livros no Metro – e não é que o também extraordinário Rui Antunes, que nem sequer é dos que mais comenta, apareceu lá com um livro meu para que lhe desse um autógrafo? Pois é, se não fossem os que aí vêm todos os dias e participam, estão contra, dão as suas opiniões, acho que já teria desistido. Agradeço, pois, a todos: aos que habitualmente comentam (contra e a favor) e também àqueles que ficam em silêncio, mas estão lá, todos os dias, a ler-me. Muito obrigada. E voltem sempre.

A ciência do papel

Desde os anos 1980 que se publicam estudos sobre as diferenças produzidas no cérebro humano entre as leituras feitas em papel e num ecrã. Li há dias um artigo publicado na Scientific American que, reconhecendo a popularidade cada vez maior dos tablets e e-readers, aponta claras vantagens para a leitura em papel, nomeadamente de livros e textos mais longos. Depois de centenas de experiências «laboratoriais», conclui-se que as pessoas dão francamente mais atenção à tinta do que aos pixels e retêm melhor a informação no papel, tendo claras dificuldades em localizar passagens num dispositivo que só mostra uma página de cada vez. Parece que a relação com o todo é, afinal, da máxima importância e que não perder de vista a capa e a contracapa, saber o que já se leu e o que ainda falta, ter duas páginas permanentemente debaixo de olho e oito cantos à vista, poder folhear com facilidade para trás e para diante, contribuem para um mapeamento do texto muito mais rigoroso e uma aprendizagem mais eficaz. Também se conclui que o toque, o cheiro, o tamanho, a forma, o peso, tudo isso é valorizado pelo leitor que, no ecrã, tende a considerar a página digital intangível e efémera… Hum… Está visto que vamos ainda ter papel por muitos anos.

O que ando a ler

Já disse certamente neste blogue que a estreia na ficção que me encheu realmente as medidas foi o romance de Paolo Giordano intitulado A Solidão dos Números Primos, de que fizeram em Itália um filme – que vi por acaso numa noite de Verão – absurdamente mau, sobretudo tendo em conta a excelência da obra em que se baseava. Paolo Giordano é físico – e, talvez por isso, a matemática cruzava esse livro belíssimo a partir do olhar de um dos protagonistas. Agora é a vez das Ciências da Vida visitarem o seu segundo romance. Intitulado O Corpo Humano, parece pensado para dar origem a uma longa-metragem do tipo de Platoon ou A Linha Vermelha. Nas suas páginas caminham militares de várias patentes, de personalidades marcantes, em direcção ao inferno do Afeganistão, onde tudo poderá realmente acontecer nos próximos seis meses. Entre eles, há um tenente deprimido que é o médico de serviço, um cabo jovem que ainda é virgem e um sargento-chefe que se prostitui com mulheres mais velhas e é, provavelmente, católico. Visitando os dramas pessoais destas e doutras personagens antes, durante e depois da permanência na base militar italiana (onde tudo realmente acontece), e aquilo que mudará para sempre no corpo e na mente de cada uma delas, esta obra é um pontapé no estômago que (masoquismo à parte) vale mesmo a pena levar.