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A mostrar mensagens de junho, 2016

Bons prenúncios

Durante a mais recente edição da Feira do Livro de Lisboa, tivemos uma série de «convidados especiais». Numa iniciativa da diplomacia portuguesa com a colaboração da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, vieram visitar a feira e aproveitar para falar com vários editores portugueses uma dúzia de editores estrangeiros, entre alemães e ingleses, que publicam nos seus países obras traduzidas. A verdade é que a maior parte deles nunca publicou literatura portuguesa e conhecia muito pouco além de Saramago e Pessoa; outros, porém, como o editor da alemã Suhrkamp, já deu à estampa no seu país muitíssimos escritores lusos, entre os quais, para minha alegria, João Ricardo Pedro. O balanço foi muito positivo: enfrentando tardes de calor tórrido depois de deixarem o seu país com apenas 15 graus, alguns destes editores aguentaram uma tarde inteira de reuniões, nas quais lhes foi apresentada a literatura portuguesa contemporânea e propostos bastantes títulos que se pensa serem suficientemente universais para funcionarem nos mercados britânico ou germânico. Agora vão ter de analisar todas essas sugestões e ver se de facto decidem publicar uma ou outra nos seus catálogos. O interesse foi genuíno, resta-nos dar tempo ao tempo e, claro, ter esperança. Uma boa iniciativa que oxalá se repita para o ano com editores de outros países.

A dama e os vagabundos

O nome Rotschild diz-lhe alguma coisa? Claro que sim. Uma família de judeus milionários que andam na Europa há muito multiplicando o seu dinheiro, gastando em arte e, em alguns casos, ajudando quem precisa filantropicamente. O livro de que hoje falarei – A Baronesa – pode enganar-vos pela capa (parece muito mais cor-de-rosa do que é) e foi escrito por uma Rotschild, Hannah, a directora da National Gallery e também escritora. Conta a história de Nica, a baronesa do título, sua tia-avó, excêntrica e corajosa num tempo em que as mulheres – especialmente as Rotschild – estavam guardadas para se tornarem apenas esposas perfeitas. Nica, depois de um casamento com um austríaco nascido em França, depois de trabalhar durante a Segunda Guerra Mundial ao lado dos homens, pilotando, inclusivamente, aviões, depois de ter cinco filhos, ouviu uma música de Thelonious Monk e virou do avesso a sua vida. Largou tudo, rumou aos Estados Unidos, procurou o génio do jazz e tornou-se sua protectora, tendo de lidar com o preconceito (uma branca rica de peles e pérolas conduzindo um Bentley descapotável com negros lá dentro não era muito bem aceite na altura), com a ameaça de cadeia (para não prejudicar a carreira de Monk, confessou que a droga encontrada pela polícia no seu carro era dela), com a solidão em que a deixaram depois de ajudar toda a gente, com a separação de alguns membros da família. A sobrinha-neta resgata-a neste livro altamente recomendável, que nos ensina muito sobre a família Rotschild, sobre a vida na Europa e nos EUA entre os anos 30 e os anos 80, sobre o mundo do jazz e a toxicodependência, sobre a coragem de Nica, uma grande mulher. Vale muito a pena!

Cidade dos livros

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Cá em Portugal temos Óbidos e as suas ruas e igrejas cheias de livrarias, mas a ideia de transformar cidades em casas de livros não é só nossa. Folhear, cheirar e pôr os olhos numa biblioteca a céu aberto é, na verdade, o que acontece em Hay-on-Wye, uma pequena cidade no País de Gales perto da fronteira com a Inglaterra, nas margens do rio Wye, com 1200 habitantes apenas e ruínas de mansões maravilhosamente conservadas, como se o tempo não tivesse passado por ali. Em Hay-on-Wye, os livros não estão encerrados – são mesmo para tocar, espreitar e sentir (além de ler, claro). Tudo começou em 1976, quando um apaixonado pela leitura, Richard Booth, teve a ideia de encher a sua cidade de livros; e desde então nunca mais parou: existem mais de trinta livrarias, a grande maioria das quais vende livros antigos ou usados, mas cada uma tem a sua «especialidade» para não baralhar ninguém. E, além das lojas, o castelo, o cinema ou mesmo o quartel dos bombeiros também têm livros. Um paraíso! Deixo algumas imagens para os Extraordinários incluírem esta cidadezinha no itinerário da sua próxima viagem ao Reino Unido.


 


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Venham mais dez

Foi há dez anos que se criou o PNL – Plano Nacional de Leitura, com o objectivo de aumentar o nível de literacia dos Portugueses, começando especialmente pelas crianças e jovens em idade escolar. O programa proposto pelo Ministério da Educação em 2006 previa uma vigência de dez anos, mas agora, que já estão cumpridos, o seu comissário, Fernando Pinto do Amaral, assegura que o PNL é para manter e que, além de dar continuidade às actividades de promoção da leitura em ambiente escolar e retomar a realização de estudos sobre leitura e literacia, esta nova fase do PNL vai também contemplar mais de perto os adultos, reactivando a rubrica Adultos a LER+ (uma boa notícia, digo eu, já que as crianças imitam geralmente os comportamentos dos pais e, se estes lerem, já é um quarto de caminho andado para também elas se tornarem leitoras). Ao longo destes dez anos, o PNL envolveu professores, bibliotecários, educadores, pais e alunos (4000 escolas e cerca de 1,2 milhões de crianças e jovens), fazendo com que haja hoje, segundo o comissário, «uma consciência maior da importância da leitura dos pais em relação aos filhos». Venham, pois, mais dez anos.


 

Ler e beber

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O vinho parece estar na moda no mundo inteiro – cada vez nascem mais produtores e enólogos (mulheres também!), e as revistas dedicam-lhes páginas e mais páginas todas as semanas. Embora não beba vinho regularmente, confesso que um bom vinho durante uma refeição especial compõe muito, mas há pessoas que até gostam de um copo de vinho sem comida, degustado em pequenos goles diante de uma lareira de Inverno ou numa bonita esplanada de Verão. Os italianos, que têm bons vinhos como nós, tiveram a belíssima ideia de associar o néctar à literatura (percebo-os: uma vez sonhei com uma colecção de livros chamada «Escrevinhar» que incluísse livros de todos os géneros que falassem de vinho). Uma marca específica – Matteo Corregia, da região de Canale d'Alba – decidiu até criar uns rótulos de garrafas que são pequenos livros (o projecto chama-se justamente Librottiglia, de «libro» e «bottiglia», livro e garrafa). Cada rótulo tem três histórias diferentes que, segundo leio, se adequam ao tipo de vinho que está dentro da garrafa e ao seu nome; por exemplo, num vinho chamado L’Omicidio, haverá certamente histórias de crimes de sangue... A ideia é gira e as garrafas ficam assim mais bonitas, ora vejam. Tudo serve, enfim, para se fazer leitores.


 


P.S. Amanhã, irei de férias e este blogue regressa no dia 27. Que passem bem a próxima semana.


 


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Para que serve o inútil

À minha caixa de correio electrónico vêm parar milhentas mensagens todos os dias – mais ainda desde que alimento este blogue, já lá vão seis anos. Não tenho tempo para ler todas (embora as cheire sempre), mas nos últimos tempos recebi uma muito especial, vinda de um comerciante de livros antigos (Livraria Manuel Ferreira), de que gostei particularmente. Talvez este livreiro esteja cansado de pessoas que lhe perguntam porque se interessa tanta gente por livros antigos se pode ter exemplares novinhos em folha, ou porque muitos fazem questão de adquirir livros raros, fora de mercado, que custam provavelmente uma pipa de massa, só para os terem numa estante lá de casa, e talvez ele queira responder a todos de uma só vez para não ter realmente de explicar mais nenhuma vez a evidência. Mas a verdade é que a história que enviou por e-mail é deliciosa e esclarecedora. Reproduzo-a aqui, para que mais e mais gente a possa ler e partilhar:


 


«Para que servem livros antigos? Por que, para que colecionar livros raros? Essas perguntas lembram-me uma história que se conta.


Dizem que um poeta francês foi uma vez apresentado a um riquíssimo banqueiro. O apatacado personagem perguntou ao poeta: 


– Para que serve a poesia?


E o poeta respondeu-lhe:


– Para o senhor, não serve para nada.


Tinha razão o poeta. Para muita gente, tudo na vida deve ter uma utilidade. Para essa gente pretensiosa não adianta explicar certas coisas, elas não chegaram ainda a um desenvolvimento cultural suficiente para apreciar as coisas sem utilidade aparente.


Se nós examinarmos a evolução, o progresso do mundo, notaremos que só nos países mais adiantados se dá valor às coisas sem utilidade apreciável. É com o progresso material, com a riqueza, que surge a cultura, o amor e o respeito pelas coisas tidas como inúteis. É nos países adiantados que se encontram as mais belas bibliotecas, os museus, as coleções particulares de arte. Não quero dizer com isso que só nesses países há gente capaz de apreciar devidamente essas coisas, mas quero notar que esse fato é um índice de progresso. Não é somente a produção per capita que indica o adiantamento de uma região.


Quando se estuda a história das grandes bibliotecas do mundo, das grandes bibliotecas nacionais que fazem o orgulho de muito povo, vê-se logo que elas se formaram, tendo como base uma coleção particular e foram se enriquecendo com a aquisição ou doação de outras coleções particulares. Foram os Mazarin, os Grenville, os Barbosa Machado que, legando ou vendendo seus livros à nação, enriqueceram o patrimônio nacional. 


Se não fossem os amadores americanos que reuniram coleções, alguns à custa de paciência, conhecimento e gosto, outros a poder de milhões, o que seria das famosas bibliotecas e museus dos Estados Unidos? Ninguém pode hoje estudar seriamente Shakespeare e seu tempo, sem frequentar a Folger Library, em Washington e não em Londres, na biblioteca formada por H. C. Folger, no prédio que ele mandou construir.


Seria um não acabar mais o querer mostrar que, graças a colecionadores particulares, muito tesouro é salvo. (...)


A bibliofilia não é somente um passatempo de homens cultos, um hobby inocente, um emprego de capital para alguns espertos, um negócio para milhares de pessoas no mundo. É uma obra de benemerência. 


Se depois de todos esses argumentos ainda houver quem lhe pergunte: "Para que serve colecionar livros raros?” – então voltaremos à velha história que acima contei. Para aqueles que lhe fizeram pergunta, responda: "Para você, não serve para nada".»



Eufemismos

Sempre detestei a palavra «falecer» e os seus derivados («desfalecer» ainda vá que não vá, mas é a única) e, nos livros que avalio regularmente, de potenciais autores, cada vez mais dou de caras com ela. Acho que muita gente tem medo da morte (ou da palavra «morte», ou de ambas), mas não entendo como pode alguém pensar que «falecer» é um verbo mais literário do que «morrer», ou que «falecimento» e «óbito», por exemplo, são mais bonitos do que «morte». Enfim, há palavras que metem medo, eu sei («cancro», por exemplo; os jornais usam geralmente «doença prolongada» – e às vezes, infelizmente, é uma doença fulminante); mas, de tanto as evitarem e substituírem por eufemismos, às vezes acabam por viciar-nos enquanto leitores. Há tempos, recebi uma newsletter de uma agência de autores em cujo cabeçalho se anunciava a «partida» de mais um escritor. Ora, como este ano já foram vários os que morreram (outros diriam «os que nos deixaram»), fiquei aflita e quis logo saber de quem se tratava. Apanhei um valentíssimo susto, porque não só se tratava de um velho amigo como, tendo-o visto na véspera e estando ele bem, deduzi que só podia ter acontecido algo inesperado e quiçá trágico. Li então com mais atenção as linhas seguintes e respirei fundo. Afinal, «partida» não era eufemismo, o escritor ia mesmo de viagem… O que a newsletter apregoava era o programa de uma agência de viagens que, pelos vistos, financia a vários autores uma ida a determinado país, da qual supostamente nascerá mais tarde um relato escrito. Ufa… Se chamassem sempre os bois pelos nomes, não era mau.

O que faço eu aqui

O título deste post é – alguns devem lembrar-se – também o título de um livro do grande escritor-viajante Bruce Chatwin, publicado, se não me engano, postumamente, uma vez que Chatwin morreu muito jovem, antes de completar 50 anos. Mas é igualmente a pergunta que me ponho muitas vezes quando, atrás da minha secretária, tento passar a palavras a actividade a que me dedico e sinto que o trabalho é tão complexo e variado que não se explica a ninguém em meia dúzia de linhas quão importante pode ser na cadeia do livro a nossa intervenção (tal como a de muitos outros, claro – tradutores, revisores, etc.) para o resultado final. No entanto, encontrei recentemente um pequeno vídeo, Inside the Edit, que, através de imagens e pouquíssimas palavras, dá uma boa ideia (uma boa imagem também) de quais são as funções principais de um editor (podem ler a palavra com pronúncia inglesa, por favor) a todos os que queiram perceber um pouco melhor o que cá andamos a fazer. Claro que puxa talvez ligeiramente pelos galões dos editores (não somos milagreiros, nem temos de repetir sempre os mesmos procedimentos, tudo é diferente de livro para livro), mas serve muito bem para os Extraordinários se inteirarem do que faço eu aqui! Ora vejam.


 


https://vimeo.com/91965285


 

Vampirizar

Há colecções que fazem história e a Vampiro, da editora Livros do Brasil, é seguramente uma delas. Quem tem leitores na família tem de certezinha absoluta exemplares da Vampiro em casa e lembra-se desses livros pequenos com um morcego por logótipo sobre uma frase que dizia qualquer coisa como «Mestres da Literatura Policial». Estavam lá todos os bons autores de policiais, todos os melhores detectives e, claro, também os melhores criminosos de sempre. Diz quem sabe que a Vampiro fez muitos leitores em Portugal, trouxe muita gente para a leitura; e, iniciada nos anos 1940, chegou aos 700 títulos! Pois bem, depois de um interregno, a Vampiro está de volta e com as mesmas características de sempre, incluindo o formato, a numeração e, o que é melhor, o preço baixo. Disponíveis estão já os dois primeiros volumes – Os Crimes do Bispo, de S. S. van Dine, e Vivenda Calamidade, de Ellery Queen. Vamos vampirizar?

Autógrafos

Agora, que a Feira do Livro de Lisboa está a terminar, os autores já podem descansar das longas estopadas à sombra dos jacarandás à espera de que alguém compre os seus livros e lhes venha pedir um autógrafo. Claro que os mais famosos têm filas de interessados – Lobo Antunes, Gonçalo Tavares, José Luís Peixoto ou Mia Couto, por exemplo, raramente ficam sem clientes; mas muitos outros escritores passam uma tarde inteira na feira e assinam um ou dois exemplares, o que é muito chato. Por vezes, passam leitores que gostam deles e fazem comentários muito positivos sobre a sua obra, mas esses normalmente já a leram e, por isso, não contribuem para o número dos que compram e querem dedicatória. O Observador trouxe recentemente um divertido artigo sobre «incidentes» durante as sessões de autógrafos na Feira do Livro de Lisboa, inquirindo alguns escritores que ali vão há muitos anos. Alice Vieira contou então que um dia lhe apareceu de repente uma mulher pedindo que lhe ficasse com a cesta de tremoços porque tinha mesmo de ir à casa de banho. A escritora não se fez rogada: não só tomou conta da cesta como vendeu três pacotes a quem quis e fez contas no regresso da vendedeira, que acabou por oferecer-lhe um pacote também a ela como paga. Histórias com graça para a história dos escritores.

Pai a tempo inteiro

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Mais dia menos dia, estará disponível no mercado um livro delicioso (não me fica bem dizê-lo, porque fui a editora, mas, pronto, não resisti): trata-se de Olhando por Mr. Bergman, de João Rebocho Pais, e não é, como os anteriores do autor, uma ficção, mas a mais poderosa e irresistível realidade. João Rebocho Pais teve, no ano passado, o seu terceiro filho rapaz, Filipe Bergman Pais, o Mr. Bergman de que este livro fala. E, como a mãe do bebé é investigadora e bolseira, não podia deixar o trabalho a meio no laboratório onde trabalha nem ficar em licença de maternidade tanto tempo como seria desejável. Vai daí, o pai, que trabalha há mais de trinta anos na TAP, pediu uma licença e tomou a decisão de a substituir, permanecendo a tempo inteiro em casa com o filho durante os primeiros seis meses. E são os relatos dessa vida a dois que aqui nos são oferecidos – incluindo as chuchas desaparecidas, os passeios, os espirros de papa, os sonos desencontrados, a terrível ida para a creche, os puns de pai e filho numa sinfonia que tem uma inegável cumplicidade e serve ao autor igualmente para rememorar os momentos semelhantes que viveu com os outros dois filhos. Divertidíssimo, cheio de ternura, Olhando por Mr. Bergman é uma homenagem à paternidade que mostra como, em matéria de família, os tempos estão mesmo a mudar. E para melhor, diria eu.


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A decadência do Brasil

Independentemente de se gostar ou não de Dilma Roussef, o que se passou recentemente no Brasil foi escandaloso e patético, até porque recai em quem agora a substitui a mesmíssima suspeita de corrupção que a afastou da presidência. Mas este senhor Temer – não sei se concordam comigo – é muito pior do que a sua antecessora e já mostrou as suas inclinações antidemocráticas não só através de algumas nomeações (bispos de seitas religiosas e afins), mas sobretudo através do retrocesso que significa a extinção de alguns ministérios (das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos e, claro, da Cultura – que só recuperou porque percebeu que até em Cannes essa sua decisão estava a dar que falar), no desprezo total de categorias como género e raça, tão importantes no Brasil. A poetisa Ana Luísa Amaral, a este propósito, relembrou o texto em que a escritora e activista norte-americana Adrienne Rich explicava porque não podia aceitar a National Medal for the Arts que lhe fora atribuída. Deixo-o eu aqui também para vossa reflexão: «A arte é o nosso direito de nascença, o nosso mais poderoso meio de aceder à vida imaginativa e à experiência de nós próprios e dos outros. Porque redescobre e recupera continuamente a humanidade dos seres humanos, a arte é crucial para a visão democrática. Um governo, à medida que se vai afastando da democracia, verá como cada vez menos útil o encorajamento dos artistas, verá a arte como uma obscenidade ou uma fraude.» Tirem as vossas próprias conclusões.

Prémio LeYa

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O prazo para envio de candidaturas ao Prémio LeYa 2016 acabou há uns dias e, na verdade, ainda não sei quantas pessoas concorreram este ano. Desde as duas primeiras edições, a média de originais enviados tem subido muito – e no ano passado julgo que o número de romances de língua portuguesa oriundos de variados países (os emigrantes também concorrem) que se candidataram rondou os 350, mas há três anos tivemos uma verdadeira enchente: mais de 500... O Coro dos Defuntos, de António Tavares, uma obra aquiliniana, foi o vencedor do ano passado e, embora tenha sido publicado em Novembro, só domingo terá lugar na Feira do Livro, pelas 19h00, a sua entrega. Contamos, claro, com o presidente do júri, Manuel Alegre, entre outras individualidades, para fazer as honras da casa. A sessão é aberta ao público, pelo que, se quiser aparecer, considere-se desde já convidado. Até lá.


 


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Recompensas

Os editores ingleses, como já aqui referi, compram pouca literatura estrangeira – mas, quando a compram, gostam do exótico. Em muitas reuniões com editores britânicos que tive no passado, no que toca aos romances de língua portuguesa, sempre estiveram mais atentos aos africanos e brasileiros do que aos portugueses. Isso explica, aliás, que a última edição do Man Booker International Prize tenha tido entre os seus candidatos ou finalistas Agualusa, Clarice Lispector ou Raduan Nassar, mas nenhum português, até porque são muito poucos os que estão traduzidos. Mas a verdade é que quem acabou por ganhar foi A Vegetariana, da sul-coreana Han Kang, outro livro bastante exótico. Eu, que raramente publico traduções, comprei esta pérola muito antes de saber que estaria entre os nomeados para o prémio e, mais tarde, entre os finalistas; mas correu-me bem, porque assim tenho a certeza de que o livro partirá com vantagem e chegará a um número maior de leitores. Uma recompensa, portanto, pela minha curiosidade (não sendo eu vegetariana nem nada que se parecesse, cheirou-me a coisa interessante quando li a sinopse e mandei vir o livro, e não me enganei, porque afinal um júri conceituado concordou comigo em que este livro é mesmo muito bom). Alegrias no trabalho que eu gostaria muito de replicar daqui a um ano ou dois com algum romancista português, que também já merecia uma tradução em língua inglesa e, porque não?, um prémio internacional. A Vegetariana sairá na rentrée com o selo das Publicações Dom Quixote e tradução de Maria do Carmo Figueira.

O que ando a ler

Se estavam à espera de que vos impingisse hoje o quarto volume da tetralogia A Amiga Genial, de Elena Ferrante, desenganem-se: fiz um interregno para ler outras coisas, embora continue interessada nos destinos de Lenù e Lila, sobretudo porque o volume anterior acabou com um balão a estourar; mas há vida além da febre Ferrante e, já que estamos a falar de mulheres, virei-me para um livro sobre a sua condição – feminista, sim –, assinado por Rebecca Solnit, de quem já vos falei no Verão passado a propósito de um outro livro (Esta Distante Proximidade, mais suculento do que este que ando a ler). Chama-se As Coisas Que os Homens Me Explicam – e o título aponta para um certo paternalismo vagamente parvo com que o sexo masculino trata o feminino, especialmente quando dá explicações desnecessárias, como se a mulher fosse estúpida ou não fosse suposto saber determinadas coisas. Se a autora não falasse tanto de si própria e da sua obra, pondo-se não raro em bicos de pés, talvez eu apreciasse mais esta espécie de manifesto que nos assusta com as estatísticas (sabia, por exemplo, que a cada seis minutos uma mulher apresenta queixa por violação nos Estados Unidos?); mas espero mesmo assim reconciliar-me com a metade de livro que me falta ler, até porque, mesmo que não sejamos feministas militantes, há aqui muita informação indispensável para nos fazer pensar no real papel das mulheres neste tempo em que nos calhou viver.