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A mostrar mensagens de maio, 2018

Obituários

Ontem referi ao de leve a morte de Philip Roth, autor sobre o qual escrevi aqui muitas vezes, até porque sempre adorei os seus livros. Mas não é exactamente dele que me interessa falar hoje, antes de uma circunstância curiosa para a qual Vítor Sousa, que conheci num Festival Literário da Madeira há vários anos, chamava a atenção num post do Facebook. Ao que parece, pouco tempo depois de anunciada publicamente a morte do escritor norte-americano, o diário britânico The Guardian publicava um longuíssimo obituário que não podia ter sido escrito ali em cima do joelho, e do pé para a mão, por um jornalista. Ou seja: provavelmente consciente da idade já avançada do escritor ou do seu estado de saúde, o jornal preparou tudo com antecedência para quando a bomba explodisse; e, no dia em que explodiu, já só foi preciso fazer uns retoques e corrigir as datas. Claro que é trabalho de profissionais a sério, como não podia deixar de ser no The Guardian. Mas que sentirão os jornalistas ao escreverem sobre a morte de um homem que ainda está vivo? Uma jornalista, comentando o post de Vítor Sousa, dizia que é terrível, sobretudo quando têm de fazer perguntas subtis a terceiros sobre a figura em causa e não podem deixá-los adivinhar que já são para o obituário. Será que, também nos nossos jornais, já há artigos escritos de fio a pavio sobre os nossos artistas mais velhos ou doentes? Alguém matará semanalmente por escrito um ou dois vivos dos nossos se estiverem doentes ou forem velhinhos? Lembro-me de que há uns anos alguém me telefonou a pedir um depoimento sobre Agustina que não sei se chegou a ser publicado. Seria para isso? (Se foi, enganaram-se bem…) Em todo o caso, estou com Vítor Sousa quando escreve: «Eu compreendo. São idosos, alguns muito doentes e cada vez mais próximos do inevitável, mas é violentíssimo imaginar a quantidade de textos aos quais só falta corrigir uma data.»

Morte e ressurreição

No dia em que acordei com a terrível notícia de que Philip Roth morrera e o dia ficou escuro para tanta gente que o lia e amava, o Público trazia a notícia da estreia de um filme assinado por Miguel Gonçalves Mendes (o realizador de Autografia, sobre Cesariny, e José e Pilar, sobre Saramago) intitulado O Labirinto da Saudade. Para quem não saiba, este é também o título do livro mais emblemático de Eduardo Lourenço sobre os traumas de Portugal (uma espécie de síntese das suas ideias sobre o País) e é, de resto, sobre este grande ensaísta e pensador que versa o filme. Quem não o viu no dia dos 95 anos de Eduardo Lourenço (quarta-feira passada) tem hoje a última oportunidade de o ver na televisão (naquele mecanismo de ir atrás), mas também tem a possibilidade de o ver no cinema, pois estreou na quinta-feira em algumas salas. Não esperem, porém, nada parecido com os filmes anteriores; embora se fale da vida e da obra do mestre e se possam encontrar amigos seus (Lídia Jorge, José Carlos Vasconcelos) e admiradores (Ricardo Araújo Pereira), este filme é uma espécie de sonho, um passeio pela cabeça de Lourenço, como dizia Luís Miguel Queirós no artigo do Público, e ao mesmo tempo um requiem (segundo as palavras do próprio Eduardo), já que termina com a subida de uma escadaria em direcção ao céu e uma despedida de quem ficou cá em baixo, como se a morte estivesse ali ao lado e fosse altura de o grande senhor ir ter com ela. Graças a Deus, ainda o tínhamos connosco no dia seguinte. Já bastava a morte do Roth.

Colóquio

Hoje pelas 18h30, na sala 2 Fundação Calouste Gulbenkian, será lançado mais um número da revista Colóquio/Letras. Esta revista, que existe desde 1971, é certamente uma das revistas literárias mais resistentes, já que, além de terem desaparecido outras revistas que a Fundação produzia (de artes, por exemplo), também desapareceram muitas revistas deste país que se dedicavam à crítica literária e à publicação de textos (a Ficções, por exemplo, que era tão boa). Mas esta Colóquio que é hoje lançada diz-me bastante por causa de um artigo da biógrafa de Alexandre O’Neill, Maria Antónia Oliveira, que estará, de resto, no lançamento na companhia de uma velha amiga minha, a Cristina Ovídio, ex-editora, hoje com o fantástico projecto da livraria Menina e Moça, e filha de um homem muito especial: António Manuel Baptista (AMB), físico e um grande comunicador. Pois bem, AMB e o meu pai eram grandes amigos – e amigos também de Alexandre O’Neill. E, quando AMB morreu, a filha encontrou uma série de cartas escritas em 1946 por esse rapaz que então  andava ainda a experimentar a poesia e também duas cartas do meu pai desse ano que falavam do que o amigo O’Neill andava a escrever. Essas cartas, entregues à Maria Antónia Oliveira, deram então origem a um artigo publicado agora na Colóquio que, com outros textos que mais logo descobrirei, dedica este número a Alexandre O’Neill. Falarão na sessão, além das referidas senhoras, Guilherme d’Oliveira Martins e Nuno Júdice, actual director da revista.

Lá vem ela

É hoje que a minha vida se vira do avesso – ou seja, que perco os fins-de-semana de lazer e aquela possibilidade tão catita que é juntar os feriados de Junho a fins-de-semana e fazer uns dias de praia e papo para o ar. Mas, pronto, não se pode querer tudo e muitos dos Extraordinários estarão certamente ansiosos por dar um saltinho à Feira do Livro de Lisboa. Sim, é hoje inaugurada a sua 88ª edição e, como todos os anos, o Parque Eduardo VII enche-se de jacarandás em flor e barraquinhas de livros apetitosos. O espectáculo é lindo para quem gosta de ler e esperemos que não chova, porque a chuva durante a feira não costuma falhar e há quem diga que já se tornou um clássico. Clássicos e modernos serão os livros que poderá comprar a toda a hora, sendo que este ano a feira fecha uma hora mais cedo aos dias de semana (às 22h00) e, por isso, a Hora H, em que os livros estão mais baratos, será  das 21h às 22h. Eu vou por lá andar bastante frequentemente e até participarei num debate no dia 5 de Junho sobre os desafios que hoje se põem a um escritor e que será moderado pelo jornalista Luís Ricardo Duarte. Por isso, apareçam para ir lá dar um olá – e comprar uns livrinhos, claro!

Obra de peso

No Dia do Autor falei-vos da entrega do Prémio José  Mariano Gago pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) a uma obra de divulgação científica. Tenho especial predilecção por esta área de edição talvez porque foi numa editora que se dedicava sobretudo a este género que comecei a minha carreira editorial e foi também por causa disso que conheci Mariano Gago. O júri do prémio era constituído este ano pelos professores Elvira Fortunato, Miguel Lopes  e Rui Vieira Nery, e a obra que quiseram distinguir é coisa de peso: trata-se de Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa e tem nada mais nada menos do que 30 volumes! Os seus coordenadores são Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco, duas sumidades do nosso país, e o projecto teve o apoio da Biblioteca Nacional e da Fundação Calouste Gulbenkian e foi publicado «sob a égide» (as palavras são da SPA) da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta. Os 30 volumes agora premiados incluem obras significativas de uma série de disciplinas, desde a medicina, a física ou a química ao direito, à arquitectura e até à música. Trabalho monumental que merece o nosso aplauso e, naturalmente, honrará a memória de Mariano Gago.

Crowdpublishing

Se eu não tenho dinheiro para publicar um livro de que preciso ou que desejo desesperadamente ler, mas sei que há muitas pessoas que também precisam ou gostariam de lê-lo, então talvez possa tentar chegar a essas pessoas através das redes sociais ou de sites de livros e pedir que, todas juntas, com a contribuição de cada uma, o publiquemos. Depois de o livro ficar disponível nas livrarias, muitas outras pessoas que se calhar nem sabiam que queriam aquele livro (podiam nem saber da sua existência), acabarão por comprá-lo também, enriquecendo os seus conhecimentos e, supostamente, o colectivo de leitores que entraram com o dinheiro para o imprimir. O crowdfunding está na moda em muitas áreas (cinema, por exemplo), mas na edição portuguesa é bastante recente e ainda raro. Vejo, porém, que se tornou corrente na Flop Livros de Rui Manuel Amaral, que está a publicar, entre outras coisas, clássicos da literatura (por exemplo, a poesia de Kaváfis) e na E-Primatur, gerida por editores que já trabalharam em grandes grupos como a Babel e a Almedina e hoje se dedicam a imprimir livros essenciais (a obra completa de Mário-Henrique Leiria, por exemplo), desafiando os leitores a construírem com eles o catálogo. Porque a ideia é boa, deixo aqui os endereços das respectivas páginas. Vale imenso a pena visitá-las e, claro, contribuir – até porque os livros ficam realmente muito mais baratos para quem avança com o dinheiro.


 


https://e-primatur.com/


https://www.facebook.com/eprimatur/


 


floplivros.wordpress.com


facebook.com/floplivros


 


P.S. Pelos vistos, o crowdfunding não é exactamente o que é praticado pela FLOP, mas para quem queira saber mais os comentários no blogue são esclarecedores.

Um dia para quem cria

Hoje, não sei se já sabiam, é Dia do Autor – e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) vai premiar, a partir das 18h, um monte de autores, começando por celebrar os 50 anos de carreira de Fernando Tordo. Como a SPA faz também hoje 93 aninhos, a festa é a sério e terá o Presidente da Assembleia da República a presidir à entrega do Prémio de Consagração a Pacheco Pereira (autor de livros, artigos e boas ideias). Lerá a mensagem do Dia do Autor o cineasta e autor de livros e resenhas António-Pedro Vasconcelos e será entregue o Prémio José Mariano Gago a um autor de livros científicos. Lançar-se-á uma antologia de poesia lusófona e ainda um CD de homenagem a Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, com dez canções originais. Como se não bastasse, também será conhecido o destinatário do Grande Prémio de Teatro Português e haverá condecorações para Fernando Rosas, Artur Anselmo, Maria Antónia Palla, Carlos Tê, Tino Costa, a Fundação Champalimaud, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o Museu do Aljube, a Associação dos Deficientes das Forças Armadas e a Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES). Os prémios Pró-Autor irão para o radialista António Miguel, Mário Assis Ferreira, a Feira do Livro de Lisboa e a Monstra. Por fim, o presidente do organismo, José Jorge Letria, falará da importância a nível nacional e internacional da SPA, agora que foi eleita para a vice-presidência do Grupo Europeu de Sociedades de Autores e Compositores, com sede em Bruxelas. Bom dia aos autores e a mim também!

O livro das rainhas

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Guida Cândido surpreendeu-nos há cerca de dois anos com uma tentadora proposta, a de reunir cinquenta receitas de cinco livros de cozinha de cinco séculos diferentes. O livro, se ainda se lembram, chama-se Cinco Séculos à Mesa, tem uma versão abreviada em inglês para os que visitam Portugal e gostam de experimentar os pratos do País (arroz-doce, por exemplo) e, além disso, ganhou o Prémio Portugal Cookbook Fair 2017 e recebeu ainda o Gourmand Award na categoria de Receitas Históricas. Mas esta especialista em História da Alimentação, que não pára e gosta imenso de cozinhar com estilo, atreveu-se a este maravilhoso segundo livro que hoje vos trago. Comer como Uma Rainha – um belo título, aliás, que aponta para opulência e sofisticação – apresenta-nos o receituário da realeza portuguesa do século XVI ao século XX, partindo das ementas, livros de despesas, documentos, etc., de cinco rainhas de Portugal: D. Catarina de Áustria, D. Maria Francisca de Sabóia, D. Maria Ana de Áustria, D. Maria I e, por fim, D. Maria Pia de Sabóia, a mãe do gordinho rei D. Carlos. As receitas mostram bem as influências que as refeições tomadas na Corte sofreram com as «importações» de certos hábitos alimentares, uma vez que quase todas as rainhas eram originárias de países estrangeiros. A belíssima capa com uma reprodução de um quadro flamengo de Clara Peeters e o grafismo de Maria Manuel Laceda fazem desta obra um livro bonito e apetecível. O seu lançamento é amanhã, na Figueira da Foz, e estão todos convidados.


 


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Nu contra a corrente

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Enquanto o puritanismo vigente em algumas partes do mundo (nos EUA, por exemplo) pede a retirada dos museus de certos quadros e esculturas considerados ofensivos (as telas mais espectaculares de Balthus, imagine-se, e muito mais), o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) inaugura amanhã uma exposição temporária de obras de arte do seu acervo com um denominador comum: a nudez.  Chama-se (mas que nome tão bem arranjado!) Explícita e terá 70 obras de nus masculinos e femininos e até de algumas cenas de sexo, evocando, como consta da nota de promoção, as antigas «Salas Reservadas» de alguns museus, nas quais paredes inteiramente forradas a telas «concupiscentes» (a palavra é do próprio museu) vibravam no seu conjunto de tal forma que se sobrepunham ao choque que cada uma, individualmente, pudesse causar ao mais conservador dos visitantes. É preciso lutar contra a estupidez e a beatice que às vezes escondem coisas muito mais terríveis e obscuras, e estou contente com a circunstância de o nosso MNAA criar uma exposição temporária para fomentar o debate sobre se a arte pode ser proibida e sobre se os museus não devem realmente combater este falso puritanismo usando as armas que têm: a arte e a beleza. Bravo!


 


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Acusações públicas

Há muitos anos, nas Correntes d’Escritas, houve uma memorável mesa-redonda numa noite de sexta-feira. Ninguém tinha combinado nada, mas os intervenientes resolveram todos fazer intervenções cheias de humor e, não bastando isso, uma autora espanhola que assistia na plateia resolveu interpelar um seu colega (que era  o único na mesa que não se ria por não perceber as piadas em português) e, fingindo-se sua mulher, fazer-lhe reprimendas e mandar-lhe recados em voz alta. Foi hilariante – até porque ele não se desmanchou –, mas todos sabiam que não passava de uma brincadeira de Angela Valvey com Ignacio Martínez de Pisón, ambos bastante jovens na altura e amigos um do outro. O mesmo, porém, não aconteceu ao premiado com o Pulitzer Junot Díaz, autor do admirável A Breve e Assombrosa Vida de Oscar Wao, de que falei aqui no blogue há uns anos. Estava num festival literário em Sydney, a falar de um artigo que escreveu recentemente na New Yorker sobre o facto de ter sido violado por uma pessoa que lhe era próxima aos oito anos quando uma senhora (Zinzi Clemmons) resolveu confrontá-lo ali mesmo com a sua má conduta com as mulheres e a tentativa de assédio sexual que lhe fizera uns anos antes, perguntando-lhe porque não aproveitara também o seu ensaio para pedir desculpa. Nem imagino como se pode sentir alguém numa situação destas (falo do escritor, embora certamente Zinzi também se deva ter sentido mal quando Junot Díaz a assediou). Dizem que o escritor deixou o festival e a Austrália depois de mais umas tantas raparigas se terem queixado do seu comportamento inadequado nas redes sociais e que depois fez uma declaração, pedindo desculpa, explicando que as sequelas do que sofreu na infância, tal como escrevera no artigo, incluem esta sua faceta, mas que está a corrigi-la e tem aprendido muito com o que se está a passar actualmente no mundo. O que não me parece é que Zinzi vá pedir desculpas pela acusação pública.

O Estado e a arte

A história é conhecida, mas cito-a de cor por preguiça de ir à fonte: um general perguntou a Churchill porque gastava dinheiro com a cultura quando todo o dinheiro era necessário para o esforço de guerra; e ele respondeu-lhe que, se não fosse pela cultura, nem valeria a pena fazer a guerra. Lembrei-me desta frase a respeito de um interessante artigo do cineasta Luís Filipe Rocha no Público de 2 de Maio (leiam-no!) que falava da distância que houve sempre entre os artistas e o Estado em Portugal. Mas retive desse artigo uma história deliciosa que não conhecia sobre Beethoven e Goethe, que tinham uma grande admiração um pelo outro. Ao que parece, porém, só estiveram juntos e ao vivo durante meia dúzia de dias; e, ao passearem ambos de braço dado pelos jardins de Teplitz, cruzaram-se certa tarde com a imperatriz e vários outros membros da corte. Apesar de o compositor ter pedido ao escritor que se mantivessem de braço dado e seguissem caminho, pois os que aí vinham é que deviam desviar-se para os deixar passar, Goethe largou-lhe o braço e não resistiu a afastar-se para o lado, tirar o chapéu e fazer vénia. Beethoven, por seu turno, passou pelos príncipes sem lhes dar qualquer importância, tocando apenas no chapéu ao de leve, e esperou que o amigo terminasse os salamaleques para lhe dizer: “Esperei porque vos honro e prezo como mereceis: mas vós deste-lhes demasiadas honras.” Depois disso, Beethoven escreveu durante dezassete anos ao amigo, mas Goethe nunca lhe respondeu... A ligação entre artistas e governantes foi sempre complexa.

Nervos

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Lembram-se de vos ter aqui falado da revista de poesia Nervo? Pois bem, apesar de nunca se acreditar muito nestes projetos em Portugal, sobretudo por causa da característica falta de leitores para este género, a verdade é que a Nervo (com ou sem ataques de nervos, sei lá eu) parece ter ido avante, o que me traz muita alegria. Saiu, pois, o número 2 e – longe de conter apenas poetas desconhecidos, encontramos nas suas páginas nomes bem sonantes, como os de Nuno Júdice e A. M. Pires Cabral, André Domingues e até José Carlos Barros, um grande poeta de quem publiquei o romance Um Amigo para o Inverno, há uns anos finalista do Prémio LeYa (leiam, leiam). E escrevem nesta Nervo também autores de outras paragens: Ana Pérez Cañamares (Espanha), Debasish Lahiri (Índia), Júlia de Carvalho Hansen (Brasil) e Usha Akella (EUA). Desta vez, incluindo a capa (que vos deixo), o número é ilustrado por Américo Prata.


 


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Shoah

Para começar, se não viram o filme com o título do post, de Claude Lanzmann (tem dez horas e é para ir saboreando), vão já comprar o DVD para ficarem a saber o que foram os campos de concentração e extermínio nazis sem ter de ver imagens de nenhum deles (ou vendo-as na cabeça, a partir dos testemunhos dos entrevistados). Nem tudo está perdido, porém, se quiserem inscrever-se para, amanhã e depois, frequentarem as Jornadas sobre a Shoah e Outros Genocídios no Auditório 1 da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, organizadas pelo Instituto de História Contemporânea e o Mémorial de la Shoah, de Paris. A coordenação e moderação estarão a cargo de Irene Pimentel, Esther Mucznik e Bruno Boyer. Os intervenientes são investigadores e historiadores oriundos de França e Portugal e os temas abarcam a questão da memória e do esquecimento; os refugiados na Europa nos anos 30 e 40; os perpetradores nazis; a visão do mundo nacional-socialista e a ideologia salazarista; a atitude de Portugal face à Shoah; os crimes em massa, entre os quais os de Timor Leste, do Ruanda e da ex-Jugoslávia; a violência em massa do estalinismo e a violência colonial. A entrada é livre, mas é preciso fazer inscrição pelo link abaixo. Quem me dera ir!


 


jornadasshoah@fcsh.unl.pt

A favorita

Antes de irem para fim-de-semana, deixo-vos – como faço de há uns anos a esta parte – um desafio: votarem na vossa livraria preferida, desde que fique em Portugal. O concurso é lançado anualmente pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e o prazo para votar acaba já no dia 25 deste mês, que é também a data da abertura da 88ª edição da Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII (e lá vou eu). Para escolher a sua livraria favorita, deverá votar online (deixo o link abaixo), e dar a resposta a duas ou três perguntas que se prendem com a cidade onde se situa e aquilo que mais gosta na livraria do seu coração. No ano passado, venceu a Livraria Buchholz em Lisboa e a vencedora deste ano será revelada durante a feira, que estará aberta até ao dia de Santo António, 13 de Junho. A escolha é sua.


 


https://nit.pt/coolt/livros/qual-e-a-melhor-livraria-de-portugal-a-escolha-e-sua


 

Bons encontros

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Há encontros felizes e este foi um deles. Estava eu nas Correntes d’Escritas a apresentar o fresquissimamente publicado A Febre das Almas Sensíveis (esta febre é a tuberculose e algumas das almas sensíveis escritores de língua portuguesa que a contraíram), de Isabel Rio Novo, quando, na altura dos autógrafos, uma senhora veio ter comigo. Era a Dra. Leonor Furtado, Inspectora-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) e ali mesmo se disponibilizava para acolher uma sessão em torno romance em Lisboa; não só por a IGAS ser uma entidade ligada à saúde, o que já seria uma razão compreensível, mas sobretudo porque as suas instalações foram em tempos justamente o hospital dos tuberculosos, junto ao Cais do Sodré, e, como tal, vinha o mais possível a propósito falar lá, onde tudo aconteceu, deste magnífico romance que foi finalista do Prémio LeYa em 2017. Depois de alguns contactos e muita simpatia, essa apresentação, num formato diferente do habitual, decorrerá hoje a partir das 17h00 na biblioteca do IGAS e contará, além da da referida  inspectora-geral e da jornalista Isabel Nery (que é quem modera a conversa), com a presença da Dra. Graça Freitas, Directora-Geral da Saúde, que também falará desta doença que foi um flagelo e que, se não tivermos cuidado, poderá voltar a sê-lo. Espero que possam vir e aí segue o convite para que nos acompanhem.


 


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O emoji de assustada

Não aprecio especialmente os Emojis (e ainda lhes chamo Smiles, mas percebo que os que estão tristes, assustados ou zangados não podem ter nome de sorriso); uso-os muito raramente no Facebook e vou, a partir de agora, desusá-los completamente, e tudo por causa de uma história terrível que me contaram há uns dias. Um colega editor e jornalista, que trabalha actualmente num projecto para crianças e adolescentes, tem uma amiga e colaboradora que é psicóloga clínica e tem estado a estudar muito a sério a dependência dos ecrãs (em particular) e dos aparelhos tecnológicos (em geral) por parte dos mais novos. Contou-lhe ela que, nestes tempos smartfónicos que atravessamos, alguns miúdos já não têm contacto visual entre eles, vivem de cabeça mergulhada nos monitores de telefones, iPads e computadores, e que já atendeu no seu consultório crianças a quem fez um teste: mostrava-lhes fotografias de pessoas aborrecidas, enojadas, tristes, irritadas, felizes, sorridentes – enfim, um sem-número de estados – e era suposto que as crianças em causa identificassem essas emoções-sensações. O problema é que muitas já não são capazes de reconhecer num rosto humano o que a pessoa está a sentir… E, porém, debitam na ponta da língua todos os Emojis possíveis e imaginários que lhes mostram… No futuro, teremos todos um círculo amarelo em lugar de cara? Fiquei muito assustada.

Na Fundação Nobel

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Prometi há dias, a propósito das recentes demissões no Comité Nobel e do anunciado atraso no anúncio do vencedor do Prémio Nobel da Literatura (que só será feito  no ano que vem) que falaria aqui de mais uns escândalos relacionados com a Fundação Nobel. O primeiro tem que ver, logo em 1901, com a celeuma que originou a atribuição do prémio da Literatura ao francês Sully Prudhomme, considerado um reaccionário por mais de meia centena de intelectuais suecos, quando deveria ter sido entregue a Tolstoi (realmente, quem saberá hoje quem foi o poeta gaulês?). Dez anos depois, Marie Curie, vencedora do Nobel da Química (galardoada pela segunda vez), é aconselhada pela Fundação a não se deslocar a Estocolmo para a cerimónia depois de uma revista ter revelado que mantinha um caso com um homem casado (mas ela esteve-se nas tintas e foi na mesma). Boris Pasternak, o autor do conhecido Doutor Jivago, considerado pelo regime soviético um pró-ocidentalista, vencedor do galardão em 1958, aceita o prémio, mas depois, prevendo as consequências que isso lhe trará, acaba por recusá-lo... A lobotomia praticada (e premiada!) pelo português Egas Moniz foi duramente criticada pelos cientistas mais avançados em todo o mundo, até porque as experiências foram feitas com internos em hospícios sem o consentimento de ninguém e colocaram graves problemas de ética. Jean-Paul Sartre recusou o Nobel da Literatura em 1964 em nome da liberdade e Soljenitsin, dissidente soviético, foi obrigado a recusá-lo para não ter de se exilar em 1970. E há mais, sobretudo no que toca ao Nobel da Paz, mas o meu preferido é o do decote da ministra da Cultura sueca, considerado completamente desadequado à cerimónia de entrega dos prémios no ano de 1992…Ora vejam:


 


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Literatura em Viagem

Lá vai viajar mais uma vez a literatura – e é já a partir de hoje, em Matosinhos, e até ao próximo dia 13, que o décimo segundo LeV (o festival Literatura em Viagem) decorre, tendo como base física a Biblioteca Municipal Florbela Espanca. Parte-se da cidade nortenha, mas viaja-se pelos vistos por Nova Iorque, Jerusalém, Paris e Rio de Janeiro, cidades que vão servir de tema das mesas-redondas e entrevistas e das quais falarão os vários convidados (ninguém vê da mesma maneira uma cidade). Escritores, mas não só. Portugueses, mas não só. Quem quiser encontrar Adriana Calcanhotto, Eduardo Souto Moura, David Munir ou Pedro Abrunhosa, aqui tem uma boa oportunidade; mas se prefere os «forasteiros» Jonathan Coe, Richard Zimler ou Enric González, esteja à vontade – isto se não for patriota o bastante para querer conhecer Alexandra Lucas Coelho, Isabel Lucas, Francisco José Viegas, Patrícia Muller, João Luís Barreto Guimarães, João Tordo e muitos outros. A jornalista e escritora Filipa Melo fará uma Oficina de Escrita na manhã de domingo (é preciso inscrever-se) e na galeria da Biblioteca poderão ser vistas as fotografias de Sandra Nobre na exposição «Acordo Fotográfico» de que já falei aqui no blogue. Façam boa viagem!

Da vida das personagens

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Já sabemos que o 3 é um número caro a Mário Cláudio (a mim também) e multiplicam-se na sua obra provas deste seu fraquinho: Trilogia da Mão, por exemplo (Amadeo, Guilhermina, Rosa), ou os trios Ursamaior-Oríon-Gémeos e Boa Noite, senhor Soares-Retrato de Rapaz-O Fotógrafo e a Rapariga. Não é, assim, de estranhar que o seu novo trabalho ficcional, Memórias Secretas, não fuja à regra (mas não é uma regra de três simples, como verão) e se divida em três partes, cada uma dedicada à sua personagem. Que têm, porém, em comum Corto, Bianca e Valente? Para quem não tenha já adivinhado ou esteja minimamente familiarizado com o género, eu esclareço: são todos personagens de banda desenhada, embora de épocas e geografias muito diferentes. O que é inovador e fascinante no livro de Mário Cláudio é que, longe de lhes construir a biografia a partir do que escreveram os criadores de tais heróis, descobre-lhes as suas mais secretas memórias, aquelas de que nem os autores dos livros em que entram tinham conhecimento. Um festim, claro, para os fãs do maltês, da italiana e do britânico. E mais não conto, para não estragar o prazer da leitura.


 


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Boas conversas

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Logo mais à tarde, para fugir ao modelo habitual (que às vezes corre o risco de ser muito formal ou até levemente entediante), decidimos – a pretexto da recente publicação de O Fogo Será a Tua Casa, de Nuno Camarneiro – promover uma conversa à volta do romance que, já vo-lo terei dito há tempos, trata do dia-a-dia de meia dúzia de reféns de um grupo radical islâmico, dos quais faz parte um jornalista, um escritor (o próprio autor?), um francês maluco, um soldado americano e ainda uma freira ortodoxa. A conversa vai ser de certezinha de grande nível, até porque os interlocutores de Nuno Camarneiro são jornalistas muito sérios (não só sentido de não se rirem) e muito interessantes. Em primeiro lugar, o enorme Fernando Alves (ah, que voz, meu Deus!) com quem tenho o privilégio de «acordar» todas as manhãs por via da TSF; em segundo lugar, Ricardo Alexandre, o senhor do programa Visão Global semanal na Antena 1, um programa de actualidade ao qual não escapa o tema da crise na Síria e os problemas do Médio-Oriente. Assim, se quiser juntar-se a nós, não se irá arrepender. O convite com locais e horários aí vai.


 


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O que ando a ler

Ando a ler várias coisas ao mesmo tempo, por imperativos profissionais e gosto pessoal, mas hoje interessa-me falar de Varanda de Inverno, um belíssimo livro de poesia da autoria de Marta Chaves – um livro mesmo, feito todo com o mesmo tecido de palavras e coerente nos seus pressupostos e intenções. Já sei que não ligam muito à poesia aqui no blogue, mas atentem na história que a autora contou no lançamento: disse ter renascido aos 15 anos quando teve, na Escola Secundária, as primeiras aulas de Filosofia com uma determinada professora e que, muito provavelmente, essa professora (então bastante jovem) não tivera certamente a noção da sua influência e da sua importância no futuro desta aluna (que é hoje psicóloga, além de poeta). Passados tantos anos, Marta Chaves perdera o rasto da docente, como é natural; mas agora, que ia publicar esta sua «varanda para a vida» numa editora de peso (a Assírio & Alvim), achou que devia confidenciar à professora a sua quota de responsabilidade em todo o processo e andou doida à procura dela até que a localizou numa determinada escola, lhe ligou e a convidou para o lançamento. E a professora lá estava, a ouvir Marta Chaves com a graça muito particular que imprime ao seu discurso oral, dizer como tinha sido aquela paixão assolapada aos quinze anos e a agradecer o seu renascimento. Foi, sobretudo por isso, mas também pelos outros discursos, uma sessão muitíssimo interessante, mas irrepetível. O livro, porém, está aí para ser lido. Arrisco-me a dizer que vão gostar.