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A mostrar mensagens de abril, 2017

Ferrante na TV

Não terminei  A Amiga Genial (refiro-me à tetralogia de Elena Ferrante que fez furor), deixando o último volume por ler há sensivelmente um ano e não tendo desde então pegado nele. Terei de o fazer um dia destes para saber o fim da história, até porque o primeiro volume abria com o desaparecimento de Lila e só no desfecho do último volume se saberá com certeza do seu paradeiro. Parece, porém, que a popularidade que os livros atingiram em todo o mundo contribuiu para que uma boa produtora de televisão, a HBO (séries como Sete Palmos de Terra, que adorei, são da sua responsabilidade), quisesse fazer uma série com o mesmo nome, associando-se à televisão italiana (RAI) e pedindo inclusivamente o envolvimento da autora na adaptação do guião, que será escrito por Francesco Piccolo, Laura Paolucci e Saverio Constanzo (como agora já se sabe quem é Ferrante, a colaboração poderá ser mais fácil). Começarão por A Amiga Genial (falo agora do primeiro volume) – e prevê-se que a primeira temporada, com oito episódios, comece a ser rodada já este Verão e seja transmitida em 2018. É mais do que previsível que a tetralogia ganhe ainda mais leitores depois disto.


 


P.S. Entre amanhã e o dia 2 de Maio estarei de férias e não haverá Horas Extraordinárias, só horas de descanso. Até breve e passem bem.

O fascínio dos nomes

Há uns anos, mandaram um fotógrafo do jornal Público para me fotografar (já nem me recordo bem a que propósito) e, quando lhe perguntei como se chamava, respondeu-me: Miguel Manso. Pensei logo que fosse o poeta Miguel Manso, mas ele explicou-me que os confundiam constantemente, mas que não eram sequer parentes. Um dia destes, no suplemento «Ípsilon», havia um grande artigo sobre o poeta e o seu último livro (Rosto, Clareira e Desmaio, publicado pela Douda Correria) e a fotografia que o acompanhava era do outro Miguel Manso; um Miguel Manso a fotografar um Miguel Manso tem a sua graça... Também já me aconteceu na Feira do Livro de Lisboa uma jovem chamada Rosário Pedreira vir pedir um autógrafo a esta Maria do Rosário Pedreira e eu pensar que era uma brincadeira… Há uma história deliciosa que Manuela Goucha Soares publicou recentemente no Expresso e se prende com o cantor Olavo Bilac, que tem este nome porque o herdou do seu pai, um senhor que viveu em Macau e foi depois bancário em Moçambique. Este segundo Olavo Bilac foi assim baptizado por causa do príncipe dos poetas brasileiros, o Olavo Bilac original, que terá passado por Cabo Verde em 1916, terra onde vivia Cristina Maria, avó do cantor. Não só, na altura, o poeta tinha uma grande popularidade em Portugal e era referido com parangonas por toda a imprensa, como se sabia que combatia o racismo, e talvez tenha sido essa a razão que fez com que Cristina Maria desse o seu nome ao filho que viria a ter. A única coisa estranha é que o cantor Olavo Bilac, apesar desta história, confessou ao jornal nunca ter lido o poeta que está na origem do seu nome. O fascinante artigo pode ser lido aqui:


 


http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-04-06-O-cantor-Olavo-Bilac-tem-49-anos.-Mas-Olavo-Bilac-foi-aplaudido-em-Lisboa-ha-101-anos.-Saiba-como


 

Lembrar

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O mundo rápido em que vivemos não favorece as memórias – e as mais das vezes, com grande injustiça, «quem não aparece esquece». De tal forma que noutro dia falei do grande músico brasileiro João Gilberto como se já estivesse morto e, claro, levei logo nas orelhas – com toda a razão. Por falar em em música, Rosa Lobato de Faria fez, como alguns se devem lembrar, dezenas de letras para canções e fados – e vai sendo recordada pelos que os cantam (e ouvem) desse modo. Mas também escreveu romances, livros infantis, crónicas e poemas e, para que não caiam no esquecimento, haverá hoje – o dia em que faria 85 anos – uma sessão para recordar a escritora, com a presença de familiares, amigos e pessoas que com ela trabalharam (e que darão testemunho de qual foi a sua Rosa), durante a qual o professor Eugénio Lisboa traçará uma panorâmica da sua obra. Vai ser na Livraria Buchholz, em Lisboa, às 21:00 – e a ocasião será assinalada com algumas novas edições de livros seus.


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À segunda

Imagino que seja uma grande alegria para qualquer escritor alcançar o aplauso da crítica, prémios e o reconhecimento do público com a sua obra de estreia. Porém, ao mesmo tempo, deve ser absolutamente aterrador para um autor que acabou de começar criar expectativas demasiado altas nos leitores em relação ao que virá a seguir. Conheço até alguns casos em que o livro de estreia acabou por ser filho único – ou passaram muitos anos até que esse escritor se atrevesse de novo a publicar. Hoje, as coisas são, ainda por cima, mais complicadas, porque, se um escritor tem muito sucesso e notoriedade com um primeiro romance, logo lhe exigem que publique outro a correr – o que nem sempre (ou quase nunca) dá bons resultados. Mas, segundo leio no The Guardian, a história da literatura está cheia de segundos romances excepcionais, muitos dos quais, no conjunto da obra, foram considerados os melhores ou mais populares daquele autor. Desde logo, Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, ou Ulisses, de Joyce; mas também Tristram Shandy, de Laurence Sterne, ou Cem Anos de Solidão, de García Márquez, que são de facto os mais emblemáticos nas obras dos respectivos escritores. Eu acrescentaria, por exemplo, A Piada Infinita, de David Foster Wallace, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, e Margarita e o Mestre, de Bulgakov. À segunda, é de vez.

Salazarismo

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Américo Thomaz, o último Presidente da República do Estado Novo, é frequentemente recordado como uma figura patética: o caricato «corta-fitas» do regime fundado por Salazar com o apoio dos militares que cometia gafes e falava com exasperante lentidão. Bastará, porém, acompanhar a biografia que lhe traça Orlando Raimundo em O Último Salazarista para perceber que essa é uma perspectiva manifestamente redutora e que o seu papel como facilitador das manobras da ditadura ao longo de quase quarenta anos de vida política teve consequências bastante mais nefastas do que as anedotas que sobre ele se contam fariam adivinhar. Entre muitos episódios em que participou e que condicionaram a história portuguesa do século xx, a sua intervenção foi determinante quando traiu o general Botelho Moniz, fazendo abortar o golpe que iria derrubar Salazar, e no momento em que obrigou Marcello Caetano a assumir o compromisso solene de não abrir mão das Colónias. Como nos diz o autor do presente volume, na procissão dos devotos do salazarismo, ele «esteve sempre na linha da frente, a segurar o andor». Deste modo, justifica-se amplamente dar a conhecer essa outra face de um presidente da República que – pasme-se – era adepto da monarquia. Até para evitar que a tragédia possa dar lugar à farsa.


 


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Humor e narcisismo

Apesar de andar nisto da edição há mais de trinta anos, verifico de repente que publiquei pouquíssimos livros com a tónica  do humor (nos últimos anos, apenas O Intrínseco de Manolo, de João Rebocho Pais, e uma reedição de A Demanda de D. Fuas Bragatela, de Paulo Moreiras, que é um romance pícaro). Em Portugal somos extremamente rápidos a inventar anedotas acerca de qualquer acontecimento, mas não somos especialmente vocacionados para literatura humorística – isto, claro, nos tempos mais recentes, pois já houve muitíssimos escritores de outros séculos de finíssimo humor. Vem isto a propósito do romance «policial» de um escritor francês chamado Laurent Binet e publicado pela Quetzal (agora ponho o nome da editora para ver se não me acusam outra vez de o omitir de propósito) – A Sétima Função da Linguagem, que parodia o meio literário e intelectual (no caso, o francês, mas há muitas coisas decerto universais quando se trata do ego dos escritores), usando o formato de uma investigação criminal. Ainda não li, mas tenho, obviamente, uma grande curiosidade, porque a revista L’Express designa o romance como «o mais insolente do ano» e o jornal Libération afirma que ele poderia ter sido escrito por um Houellebecq bem-disposto. Já li páginas muito boas sobre este mundo literário, por exemplo, em O Mundo, de Juan José Millás, e Dublinesca, de Vila-Matas. Mas, mesmo que a literatura francesa tenha vindo a decair com o tempo, a obra de Laurent Binet não me escapará.

Miúdos

Costuma dizer-se que «de pequenino se torce o pepino» – e quanto mais cedo as crianças começarem a ler livros fora da escola e a valorizar a cultura, melhor, até para evitar «acidentes» como a destruição de património por causa de uma estúpida selfie, o que aconteceu recentemente na Estação do Rossio, em Lisboa (e pouco tempo depois na sala de um museu). Uma boa notícia neste sentido é o programa de rádio que estreou no dia 3 de Abril na Rádio Miúdos sobre educação patrimonial em parceira com a Entre Memórias - Educação Patrimonial Itinerante. A Rádio Miúdos é a primeira rádio em português para crianças pais e professores feita por profissionais da comunicação e da educação, que conta com colaboradores de Literatura, Psicologia, Pediatria, Filosofia, Música, Ciência… e pode ser ouvida (online) em 150 países, chegando aos portugueses e luso-descendentes em praticamente todo o mundo. Entre os seus programas, o Só para Curiosos (às segundas, quintas e sábados) dá a conhecer aos mais novos o património que os rodeia e devem salvaguardar, fazendo-o através de histórias ligadas às tradições e recuperando lengalengas, canções e outras memórias. Vale a pena visitar os sites para ficar com uma ideia.


 


http://www.radiomiudos.pt/


https://www.entrememorias.com/

Amizade

O Facebook existe e vai lá muita gente (há mesmo quem passe lá o dia). Sei da sua importância nos dias que correm e, por isso, vou lá diariamente pôr o link deste blogue e, uma vez por outra, ler os comentários (em muito menos quantidade do que aqui). Mas raramente publico coisas no meu mural, embora receba imensas mensagens de pessoas que querem publicar os seus livros (talvez porque não tenham o meu endereço de e-mail profissional), o que também vai sendo cada vez mais frequente sempre que participo num encontro, num debate, numa leitura de poesia (os escritores proliferam como cogumelos, e não posso ir a lado nenhum que não apareça alguém com um maço de folhas num pacote para me sondar). Um dia destes, recebi do Facebook uma mensagem a avisar-me de que tinha quase 1000 pedidos de amizade que ignorei; e que devia aceitar os que me interessavam ou eliminar os que não me interessavam, pois de outro modo não poderia receber outros. Pasmei. Quase mil pessoas a quererem ser minhas amigas? E porquê? Podia ficar toda inchada, é certo, mas mais me parece que pelo menos metade serão escritores a precisar de quem os leia. Não, lamento, já tenho demasiados amigos no  Facebook que o não são realmente (não tenho é tempo para fazer uma limpeza). E a minha pilha de livros por ler já chega ao tecto.

Reagir

A minha avó costumava dizer que «quem cala consente» – e a verdade é que quem não reclama raramente consegue alguma coisa; além disso, ficar calado perante o desastre pode ter efeitos nefastos – e, parafraseando Dante, há muitos lugares no Inferno para os que escolhem a neutralidade em tempo de crise. Sou, se quiserem, adepta das pessoas que reagem (tudo menos ficar calado) e, um dia destes, pus-me a pensar porque teria então a palavra «reaccionário» (que vem de «reacção») uma conotação e uma carga tão negativas. Usamos algumas expressões de forma tão natural desde novos que por vezes acabamos por não as questionar, mas neste caso eu era mesmo uma profunda ignorante, pois era bastante óbvio donde vinham os reaccionários, aqueles que reagiam e, apesar disso, eram ao mesmo tempo uns botas-de-elástico. Da Revolução Francesa, evidentemente: contra os que queriam Liberdade, Igualdade e Fraternidade (mas que também fizeram rolar muitas cabeças), reagiam os que preferiam tudo como estava antes – os conservadores. Assim se inventaram os reaccionários. Duram até hoje.

Deuses e homens

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1953. Este é um ano rico em acontecimentos: Eisenhower é eleito Presidente dos EUA, Churchill ganha o Prémio Nobel da Literatura, os Rosenberg são acusados de espionagem e executados, Tito torna-se o timoneiro da Jugoslávia… E, porém, os factos que atraem o protagonista deste romance – um jovem jornalista sem dinheiro que deambula por uma Lisboa de cafés e águas-furtadas – são claramente delicados em tempo de censura, pois prendem-se com as múltiplas conspirações que rodeiam a morte e a sucessão de Estaline na União Soviética. Não só é preciso que escreva com pinças para fintar o regime, como a informação que lhe chega de fora é escassa e contraditória, obrigando-o a dar largas à sua imaginação… Este é o ponto de partida de Todos os Dias Morrem Deuses, o novo romance de António Tavares, vencedor do Prémio LeYa com O Coro dos Defuntos em 2015. Uma obra extremamente oportuna sobre o jornalismo e a verdade, mas também sobre uma certa Lisboa que já desapareceu e onde se namorava de uma forma muito diferente da de hoje. Disponível a partir de amanhã.


 


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Judaica

Existe um festival anual chamado Judaica – que, como o nome indica, serve para divulgar e debater as questões do judaísmo. Distribui-se por vários locais – Lisboa, Cascais e ainda Belmonte e Castelo de Vide, terras que tiveram (ou têm) comunidades de judeus – e inclui, entre outras coisas, uma interessante mostra de cinema. No âmbito deste festival cultural, acontecerá amanhã uma conversa moderada pela jornalista Filipa Melo com três escritores cujos livros mais recentes tocam o judaísmo: Cristina Norton, com O Rapaz e o Pombo (finalista do Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores); João Pinto Coelho com Perguntem a Sarah Gross, um romance que fala, entre outras coisas, do Holocausto e dos seus efeitos, e Tiago Salazar com A Escada de Istambul, uma narrativa sobre os Camondo, família de judeus que se instalou no século XVIII em Istambul e foi das mais prósperas do império otomano. O debate terá lugar em Cascais, no Cinema da Villa, às 18h00, e os autores vão, no fundo, explicar por que razão escolheram judeus reais e imaginários como personagens. Um bom programa para o fim da tarde, junto ao mar. Bom fim-de-semana.

Rotina e desencanto

Tenho ideia de que, quando o trabalho se repete demasiado dia após dia, mesmo que se goste do que se faz, isso acaba por levar a que se perca o encanto inicial e, em última análise, o prazer de trabalhar. Foi isso mesmo que entrevi nos relatos de dois jovens livreiros que, adorando ler, mas trabalhando num lugar com demasiadas regras e uma rotina imutável, começaram a desencantar-se com a profissão. Resolveram então, para o seu próprio bem, sair de cena e montar juntos um negócio parecido com aquilo com que sempre tinham sonhado; e, mesmo que ser proprietário lhes possa trazer outros problemas, a verdade é que parecem felizes na fotografia na qual o jornal i os mostrava um dia destes ao falar da sua livraria, chamada Flâneur, na cidade do Porto. Atrás deles, as prateleiras algo desarrumadas pareciam-se com as estantes lá de casa, mas a ideia, segundo percebi, é tornar o espaço o menos rígido possível, ter e aconselhar livros de que os donos gostem, cultivar uma certa intimidade com os leitores, desenhando aos poucos o perfil destes, procurando os livros que podem agradar-lhes e até – curioso! – levá-los, se preciso for, de bicicleta a sua casa. Às vezes, em nome da sanidade mental, é preciso dar um passo arriscado e virar a vida do avesso (conheço várias pessoas que o fizeram nos últimos tempos); e, ainda que o lucro em termos de dinheiro possa ser poucochinho numa livraria deste tipo, há de certeza absoluta um lucro para o prazer de viver e trabalhar que faz toda a diferença.

Outra Amália

Mais logo, no Museu do Fado, será lançado o novo livro de Fernando Dacosta, jornalista que, inicialmente premiado por trabalhos de investigação (um dos quais sobre os retornados) e peças de teatro, acabou por se tornar ficcionista e usar grandes personalidades nas suas obras (entre elas, o doutor Salazar, sobre quem escreveu um romance e de quem organizou a fotobiografia). As mulheres estão também presentes nos seus livros – e um dos mais recentes, O Botequim da Liberdade, centra-se na figura de Natália Correia, tomando o título de um bar que a poetisa tinha no bairro da Graça. Fico agora muito curiosa com este Amália – Uma Ressurreição que vai ser apresentado hoje às 19h00 numa espécie tertúlia; e fico curiosa porque, tendo lido muito sobre a fadista, até por razões profissionais (escrevi há uns anos a sua biografia para crianças), nunca pus os olhos em nenhum trabalho de ficção digno a seu respeito (não digo que não haja, mas que me passou despercebido); além disso, sei que este romance não será propriamente um espectáculo de La Féria posto por escrito, mas algo certamente mais profundo, ou polémico, até por causa desse «Uma Ressurreição» que acompanha o nome de Amália no título e que preciso de perceber o que quer dizer. Se descobrirem antes de mim, avisem-me.

De peso

Num jantar que se realizou recentemente – e no qual houve, no final, um sorteio de livros – confesso que fui um bocadinho batoteira e fiz o que pude para que me calhasse uma autêntica maravilha, coisa de peso, a Obra Essencial de Mário de Sá Carneiro preparada por Fernando Pessoa para a revista Presença em 1928, que não chegou a sair na altura mas foi agora tratada – e muito bem! – por Vasco Silva, ex-editor da Ática (a editora original das obras de Pessoa). Tomando o plano do grande amigo de Sá Carneiro como ponto de partida, bem como as cartas trocadas entre os dois poetas e outros documentos, Vasco Silva compôs agora este volume que todos vão querer ter e ler (e pelo qual fiz batota). Mas, como num só mês podem caber dois livros de peso (o que acabo de referir tem quase 600 páginas), eis outra obra-prima que me veio parar às mãos sem batota mas quase por milagre: as Memórias de Raul Brandão, reunidas pela primeira vez num volume único (anteriormente, eram três), uma excelente forma de ajudar a celebrar os 150 anos do nascimento do escritor. Trata-se de uma obra notável, que inclui não só memórias mais pessoais do autor de Húmus, mas o relato dos momentos históricos tão particulares a que assistiu (o regicídio, a queda da monarquia, a implantação da República), formando um raro testamento literário, político e biográfico. Coisas de peso que não se devem perder.


 

O que ando a ler

Embora seja atípico, o que ando a ler neste momento não é um livro, mas muitos ao mesmo tempo; isto porque ando de volta de poemas que originaram fados e, como tal, não cesso de abrir poemários de tudo quanto é gente, desde cancioneiros a obras de autores muito recentes, como, por exemplo, Fernando Pinto do Amaral, que escreveu uns belíssimos fados. Mas, porque devo seleccionar alguma coisa para vos aconselhar, parece-me oportuno falar-vos de Carlos de Oliveira – um poeta que merece ser lido por todas as razões (e, se alguém não for leitor de poesia aqui no blogue, tem excelentes livros em prosa do autor a que deitar a mão, nomeadamente Finisterra, que é um dos meus preferidos). Carlos de Oliveira retirou da sua obra um lindíssimo poema dedicado à mulher e intitulado «Carta a Ângela» (que ideia estapafúrdia «apagar» um poema tão maravilhoso), que foi cantado em versão de fado por Carlos do Carmo. E esse poema vem bastante a propósito porque neste momento está patente no Museu do Neo-Realismo uma exposição dedicada justamente a Carlos de Oliveira, «Carlos de Oliveira: A Parte Submersa do Iceberg», com curadoria do professor de literatura da Universidade de Coimbra Osvaldo Silvestre, que ficará aberta até 29 de Outubro para quem a queira visitar e que tem uma choruda programação complementar a consultar no link abaixo. No âmbito dessa programação foi lançado há uns dias um livro chamado justamente Carta a Ângela, que vou seguramente espiolhar. Leiam Carlos de Oliveira – poesia ou romance – e não se arrependerão.


 


http://www.cm-vfxira.pt/frontoffice/pages/50?news_id=3254