Os picos do ouriço

Trabalhar num grande grupo editorial tem algumas vantagens (mesmo que muita gente não acredite, tem mesmo); uma delas é podermos aceder a certos livros antes de os terem as livrarias – e foi isso que me aconteceu recentemente com o novo Lobo Antunes, Sôbolos Rios Que Vão: alguém mo ofereceu sem eu sequer ter pedido. A verdade é que não o ia comprar – tenho demasiadas coisas que ler e sinto há muito que é preciso disposição e disponibilidade para um autor de peso como ele – coisas que habitualmente me faltam. Mas... sim, puseram-me o livro na mão e era um desses exemplares fininhos que, apesar do que exigem, se lêem em relativamente pouco tempo. Foi mais forte do que eu, como se aquela mão que o autor diz que escreve os livros por ele tivesse esticado um dedo acusador como a dizer-me que já não era sem tempo. O romance fala de um homem às voltas com um ouriço bicudo (também podia ser um caranguejo, uma vez que se trata de um cancro, mas o ouriço é bastante mais apropriado) e da sua suposta salvação pelo recurso a memórias de infância junto da nascente do Mondego num tempo em que as botas não lhe duravam mais de um Inverno, o pai abusava da empregada, o avô desdenhava os jornais na varanda, o tio supostamente impotente o ensinava a fazer oitos com a bicicleta, uma estrangeira aparecia nua no hotel dos ingleses, a mãe contava como conhecera o pai e o jovem Virgílio o acomodava numa carroça até à vila entre sacas de batatas que o incomodavam como... ouriços? Depois, havia a avó, pedindo-lhe que não espalhasse o peixe no prato e perguntando-lhe se não ouvia os gatos. A avó, o melhor de tudo. Que dizer? As memórias de infância são quase sempre o que nos salva. E aqui também.


 


Comentários

  1. Cara MRP,
    Por que razão usa Lobo Antunes um título de Camões para o seu livro? E pode fazê-lo assim, livremente?
    Obrigado

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    Respostas
    1. Sôbolos rios que vão
      por Babilónia, me achei,
      Onde sentado chorei
      as lembranças de Sião
      e quanto nela passei.
      Ali, o rio corrente
      de meus olhos foi manado,
      e, tudo bem comparado,
      Babilónia ao mal presente,
      Sião ao tempo passado.

      Parece-me uma citação/homenagem bem apropriada.

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  2. de qualquer forma Camões já morreu há muito, os direitos são de domínio público e Lobo Antunes nunca disse que a frase era dele, pelo contrário... concordo na ideia da homenagem...

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  3. Aqui está um autor que eu lia de um fôlego, no tempo de A Memória dos Elefantes, O Auto dos Danados, Os Cus de Judas...

    Hoje, continuo a comprar os livros dele, mas tenho dificuldade em ler os últimos, de há uns anos para cá.
    "Que cavalos são aqueles..." li(?) na diagonal, só para dizer a mim próprio que cheguei ao fim.

    "Não entres tão depressa nessa noite escura", já o comecei a ler 3 ou 4 vezes (é verdade, mesmo) e não consigo passar das primeiras 30 ou 40 páginas, umas quantas mais, talvez.

    Seguramente é falha minha, mas não deixa de me intrigar!

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