Mensagens

A mostrar mensagens de março, 2012

Outro olhar

Logo mais à tarde, pelas 18h30, estarei na Livraria Bertrand do Chiado para uma conversa com José Luís Peixoto, de quem fui orgulhosamente editora durante uns quantos anos e uns quantos livros (e cuja produção literária continuo, evidentemente, a acompanhar). O convite partiu dele, mas, fosse como fosse, não podia recusar, uma vez que estaremos ambos ali para falar de Nenhum Olhar, o seu primeiro romance – vencedor do Prémio Literário José Saramago –, que agora terá a sua estreia em versão digital. Acredito que esta nova forma de olhar o texto gere também novos leitores, embora não me consiga separar do papel, pois foi em livros com capa e folhas reais que fiz toda a minha aprendizagem. Mas esse será apenas um dos tópicos da conversa, já que muito mais haverá a dizer sobre este livro que de certa forma mudou a minha vida enquanto editora. Se não tiver planos, apareça por lá.

Ler Eduardo

Hoje Eduardo Prado Coelho faria 68 anos. Infelizmente, por uma dessas partidas do destino, saiu cedo demais da sua vida e da nossa. Faz uma falta tremenda a quem o conheceu de perto e teve a sorte de privar com ele, pela sua inteligência, pelo seu sentido de humor e por uma vontade desinteresseira de partilhar os seus conhecimentos; e faz falta a muitos que não chegaram a conhecê-lo e que, se ele estivesse entre nós, teriam sido seguramente brindados com um texto seu, uma vez que era um espectador atento de tudo quanto que se fazia de bom e adorava dar a sua opinião fundamentada. Até à data, não temos um substituto à altura, ninguém que tenha a capacidade de acompanhar com o mesmo entusiasmo a literatura e a dança, a moda e a política, o cinema e a filosofia. A cultura portuguesa ficou, por isso, mais coxa sem este seu observador e divulgador. Neste dia 29 de Março, a Casa Fernando Pessoa organiza uma leitura de textos seus a partir das 14h30. Eu vou ler um fragmento sobre o prazer da leitura, mas haverá textos sobre as mais diversas temáticas desta figura culta e ecléctica. Basta passar por lá e ouvir.

Espectáculo, ou talvez não

Poucos leitores deste blogue saberão que, em tempos idos, nem interessa bem quando, escrevi duas colecções de livros juvenis para a então famosa Verbo, tendo ultrapassado os quarenta títulos publicados e vendido mais de um milhão de exemplares; nada de especial, se comparada com Enid Blyton, mas muito bom, se me lembrar de que foi assim que viajei durante muitos anos e pude meter o nariz nos cinco continentes (em alguns deles, foi mesmo só a pontinha do nariz). Depois dessa experiência (é talvez mais correcto dizer «durante»), escrevi também um romance e três livros de poesia e, embora a imprensa me tenha dado alguma atenção, nunca a televisão me convidou para falar deles (exagero: fui a um programa que Bárbara Guimarães manteve na SIC num período em que a Nação atravessava melhores dias e tive direito a uma edição inteirinha do Ler+, apresentado por Teresa Sampaio, no âmbito do Plano Nacional de Leitura). Nos últimos anos, chamaram-me umas quantas vezes para falar de edição e de livros que tinha publicado, mas, ainda assim, sempre em horários ditos pouco nobres e canais com menos audiências. Ora, desde que escrevo letras para fados, os convites para ir falar da canção portuguesa ou dos seus intérpretes, sobretudo depois da elevação do Fado a Património Imaterial da Humanidade, multiplicam-se; e, só numa semana, foram três os pedidos para participar em programas e documentários. Fiquei a pensar que é uma pena que a literatura não tenha esta dimensão de espectáculo para poder aproveitar este meio que é a televisão e chegar a mais gente. Não por mim, que já quase não dou à pluma fora deste blogue («pluma» é força de expressão), mas porque gostava que alguns autores tivessem mais leitores, todos os leitores que (os) merecem. O problema é que sempre que um escritor consegue um certo grau de mediatismo também há logo quem desconfie...

O rapaz das contas gosta de letras

Um dia destes estive a falar com um rapaz de quem não sei a idade (chamo-lhe rapaz por causa disso, mas pode ter perto de trinta anos). Pelas poucas conversas que já trocámos, descobri que, embora seja um «escravo» das contas, gosta das letras de um modo muito sério e tem, além disso, bom gosto literário. Na verdade, talvez seja exactamente por trabalhar com números que a sua experiência de leitura é muito diferente da minha – começou pelos autores vivos e agora anda a degustar alguns mortos de respeito, Borges, por exemplo. Sugeri-lhe que lesse Pedro Páramo, de Juan Rulfo, pois pareceu-me que fazia o seu género, mas, como não nos conhecemos bem, espero não ter feito asneira. Sei, contudo, que o lerá mais cedo ou mais tarde, porque me confidenciou que descobriu uma imensidão de autores assim, através de um mero conselho. De qualquer modo, achei graça quando um leitor como ele me contou que começou a interessar-se por livros muito tarde, explicando que uma das suas professoras de Português chegou a expulsá-lo da sala de aula por falta de interesse e que a família não tinha hábitos de leitura, embora comprasse livros do Círculo de Leitores para decorar as estantes. E aqui acrescentou um detalhe fabuloso: que o pai uma vez lhe bateu por ele ter retirado o celofane que cobria um volume de uma dessas colecções (e, violência à parte, vejo nesse acto um respeito enorme pelo livro, que não se podia estragar de maneira nenhuma); ao ouvi-lo narrar esse episódio, consegui ver o rapaz em miúdo a fazer aquela «patifaria»; e depois fui para casa a perguntar-me se não terá sido nesse preciso instante que começou o seu fascínio pela leitura, um mistério que era preciso desvendar: que estaria ali dentro de tão intocável? Já no fim da conversa, ele disse-me uma coisa belíssima: que não entendia como é que algumas pessoas podiam recusar um acto tão generoso como o de um autor ao escrever um livro para tanta gente que não conhece. Ora, é dessa dádiva de tantos que tenho feito as minhas Horas Extraordinárias, mas nunca me tinha ocorrido esta formulação tão simples. Agradeço-a ao rapaz. Se o seu trabalho fossem as letras, em vez dos números, se calhar não teria sido tão claro.

Boas e más notícias

Li nos jornais uma notícia a que muitos vão decerto chamar demagógica (ou já chamaram), mas que me pareceu uma coisa positiva e, até certo ponto, indicadora da importância dada à formação cultural pelos nossos políticos (alguns, pelo menos). Dizia a dita que as pessoas desempregadas passarão a dispor e descontos ou borlas em museus e outros espaços culturais e que não há-de ser por não poderem comprar a entrada que se verão privadas de os visitar e desfrutar. Mas eis que, a seguir a esta decisão salutar, foi suspenso um festival de escritores agendado já para Abril e organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos (CMM), o LeV, Literatura em Viagem, ignorando eu no momento em que escrevo este post se haverá uma reconsideração, se, pelo contrário, o acontecimento anual se vai tornar bienal ou mesmo desaparecer enquanto a Troika quiser. Estão, porém, marcadas as viagens de alguns autores (e sabemos que, com os bilhetes emitidos, a CMM vai provavelmente ter de os pagar); e, sendo alguns deles nomes importantes (como Paul Theroux), desconvidá-los dará uma imagem de irresponsabilidade que dificilmente se conseguirá sanar. Percebo que as autarquias se têm esticado e que a sua despesa foi muito além do que deveria, mas não tenho a memória tão curta que não me recorde de que há pouco tempo saíram notícias atestando justamente que o Município de Matosinhos tinha as contas em dia. E fico sem perceber nada. Então a cultura interessa ou não interessa? É valorizada por uns e desvalorizada por outros dentro do mesmo governo? E esta opção de suspender o LeV será o exemplo que precisam para acabar com outras coisas do género e nos inibirem de assistir a encontros de gente inteligente? Alguém que me elucide, por favor.

Se alguém se engana com seu ar sisudo

Por razões que não interessa aqui aprofundar – mas que se prendem com o negócio dos livros, e não, garanto, com qualquer assomo tardio de religiosidade –, o Manel andou vários dias a acompanhar um padre brasileiro católico, autor de um livro chamado Ágape que, no seu país natal, já vendeu mais de sete milhões de exemplares. Ora, num dos dias em que partilharam uma refeição, o padre contou-lhe uma boa piada sobre um bispo que se deslocou, um belo dia, à igreja matriz de determinada terra da sua diocese, encontrando o prior bastante consternado. Indagando a razão daquela tão sincera preocupação, disse-lhe o pároco que a igreja estava cheia de morcegos e que já tinha feito de tudo para se livrar deles, mas infelizmente nada resultara. Parece, então, que o bispo, mais experiente, lhe comunicou ter a solução para o problema: «Baptize-os e crisme-os», disse, «e vai ver como eles desamparam a loja num abrir e fechar de olhos». Não li o livro do padre Marcelo Rossi, mas, pelo menos, sentido de humor não lhe falta...

A Vida ao vivo

Imagem

Hoje à noite, pelas 21h00, faremos o lançamento do livro A Vida Passou por Aqui, de Luís Francisco, na Livraria Barata, em Lisboa. Trata-se do primeiro romance de um jornalista do Público, que conta uma história urbana cheia de nós, com vários narradores que nem sonham como estão ligados uns aos outros. Sem nunca perder o pé e com vozes absolutamente inconfundíveis, o autor mostra-nos através deste romance como gestos aparentemente só nossos podem, afinal, influenciar decisivamente a vida de terceiros. A apresentação estará a cargo do também jornalista e escritor (mas um pouco arredado dos livros há uns anos) Rodrigo Guedes de Carvalho. Apesar da Greve Geral, espero que consiga aparecer por lá.


 


Primeiros romances

É muito difícil a um autor afirmar-se através de um romance de estreia no seu país – às vezes são precisos dois ou três e um bom prémio para o público dar, efectivamente, por ele, às vezes vive toda a sua carreira numa espécie de estranho anonimato e, quase a largar a vida, um qualquer estudioso descobre-o e recupera-o. Publiquei em 2010 o primeiro romance do actor André Gago, Rio Homem, e este foi afortunadamente galardoado com o Prémio PEN para primeira obra, mas isso não significou uma aproximação imediata do público ao escritor; em 2011, publiquei a obra de estreia de Nuno Camarneiro na ficção, No Meu Peito não Cabem Pássaros, que, apesar de ter sido objecto de várias críticas, ainda está a fazer o seu lento caminho na conquista dos leitores portugueses. No entanto, lá fora já parecem ter dado por estes dois autores – e ambos acabam de ser convidados para dois festivais do Primeiro Romance. André Gago vai dentro de poucos dias a Budapeste e Nuno Camarneiro será o representante português no Festival de Chambéry, em França, no próximo mês de Maio, depois de ter sido escolhido por cerca de 3000 leitores não profissionais entre muitos nomes possíveis. Haja uma boa notícia de vez em quando.

Bons ventos do México

É bom quando nos passa pela mão o livro de um jovem – neste caso, uma jovem – especialmente dotado. O romance de estreia de Valeria Luiselli, mexicana a doutorar-se nos Estados Unidos, é um bom exemplo da obra de um escritor que já se vê que vai ser alguém no mundo das letras. Embora a sua intervenção nas Correntes d'Escritas não tenha sido extraordinariamente brilhante (foi, apesar de tudo, bastante aceitável), Rostos na Multidão é um livro de respeito, não só profundamente original na sua estrutura – que segue, a par e passo, narrativas distintas que se vão confundindo à medida que as páginas avançam – como profundamente informado sobre uma época (a que antecede imediatamente a Grande Depressão nos Estados Unidos) e alguns dos seus poetas: Ezra Pound, William Carlos Williams, o mexicano Gilberto Owen e o espanhol García Lorca, os dois últimos a residirem nesse tempo na Grande Maçã. Cruzando a história de uma rapariga mexicana que trabalha numa editora de Brooklyn e convence o chefe a publicar a obra de Gilberto Owen, cujo fantasma vê várias vezes no metro, a história do próprio Owen, que vê no metro uma rapariga que deve ser aquela no futuro, a história da mulher que escreve a história de Owen e pode ser a rapariga que trabalhou em jovem na editora de Brooklyn, enfim, este romance, muito elogiado por Vila-Matas, vai certamente dar que falar e agradará aos leitores que apreciam livros com alguma exigência e nos quais há qualquer coisa de duro e cruel sem que o tom e a linguagem percam beleza e contenção. Uma descoberta, em suma, muito feliz.

Personalidades duplas

O músico e intérprete Gilberto Gil foi, como todos sabem, ministro da Cultura do Brasil no primeiro governo de Lula da Silva. Mas, se a memória não me engana, numa entrevista que deu a uma televisão portuguesa disse que, embora tivesse tido de abrandar a actividade artística, nunca deixou de dar concertos dentro e fora do seu país. O «meu» autor Mário Lúcio Sousa, actual ministro da Cultura de Cabo Verde, é também músico, mas, assim que tomou posse, anunciou que, durante o tempo em que estivesse a exercer o cargo, a música ficaria, infelizmente, de lado; pensei que também a sua veia de escritor estivesse impedida de sangrar, mas, quanto a isso, não houve alterações – e sei-o porque recentemente me comunicou ter terminado mais um romance. Ora, numa edição do semanário Expresso, naquela secção em que as pessoas são reduzidas a setas para cima e para baixo, o nosso Secretário de Estado da Cultura levou uma flechada das más por ter aceitado um convite para participar enquanto escritor no Festival Literário da Madeira (aonde, aliás, não foi). Esta questão das personalidades com vidas duplas parece criar dificuldades aos próprios e aos alheios. Será, porém, lícito pedir a alguém que se esqueça de uma das suas facetas – quiçá a permanente – só porque aceitou um cargo político? Ou até pode continuar a escrever e a cantar, desde que não se mostre ao público?

A tempo

Vem o presente post a propósito de um interessante comentário de um leitor deste blogue, de 12 de Março, dia em que publiquei um texto intitulado Ser Escritor. Dizia João J. A. Madeira que lhe haviam recusado um livro para publicação alegando que fazia lembrar Tim Burton, de quem nunca tinha visto um filme (já agora, aproveito para dizer que Burton é também escritor); e que, ao contrário do que algumas pessoas atestavam (eu incluída), não era possível a partir de um texto de um escritor identificar as suas leituras. É verdade, em primeiro lugar, que às vezes determinados livros ecoam vozes de escritores que os autores não leram, mas, quando são recusados por essa razão, não o são por pensarmos que o autor copiou ou plagiou, mas porque o que escreveram já existe, já foi feito por alguém antes deles, e não faz qualquer sentido dar à estampa uma espécie de sucedâneo. Se alguém hoje escrevesse uns Lusíadas, celebrando a viagem do Gama em cantos e versos, será que alguém os publicaria, ainda que fossem bonitos e cumprissem com rigor as rimas e a métrica? Quanto a conseguirmos dizer o que um autor andou a ler por aquilo que escreve, também é evidente que nem sempre acontece. Mas quem tenha lido A Viagem à Índia, de Gonçalo Tavares, não tem qualquer dúvida de que ele leu o Ulisses, de Joyce, e de que leu também Os Lusíadas, de Camões (pode até dar-se ao luxo de pensar que o formato, e a capa dura e vermelha são uma espécie de réplica da edição velhinha da epopeia portuguesa pela qual o autor deve ter estudado; a minha era assim). No ano passado, publiquei um romance no qual uma das personagens, um rapaz argentino, desejava dar cabo de um colega que lhe batera na escola atirando-o pela escada abaixo, mas não foi suficientemente corajoso. Já adulto, sabe, porém, que o seu inimigo de infância está nada mais nada menos do que coxo. Toda a gente que leu Borges concluirá facilmente que este autor também o leu (estou a falar de Nuno Camarneiro e No Meu Peito não Cabem Pássaros). Por último, há uns dez anos recusei a publicação de um romance que tinha uma personagem chamada Humbert Humbert. Se o autor não conhecesse Lolita, de Nabokov, teria sido uma coincidência espantosa... Espero que os esclarecimentos cheguem a tempo.

Animal de hábitos

Somos animais de hábitos e reagimos negativamente a grande parte das mudanças a que somos alheios. Compro o jornal Público desde o seu primeiro número e, quando li que iria haver alterações quer no corpo do jornal, quer nos suplementos, fiquei receosa. Na segunda-feira em que saiu o novo jornal, fiquei, de facto, desconcertada com muita coisa. Não gostei especialmente de um dos letterings nas notícias – que é mais magro e menos legível do que na versão anterior – e fiquei triste com outras alterações pontuais, sobretudo a passagem do Bartoon a uma tira de quatro vinhetas seguidas ao pé da página. Era, porém, preciso esperar pelo fim da semana para perceber o que acontecera ao Y, ao Fugas e à revista de domingo. Mas, logo na sexta, senti algum alívio – o Y não era muito diferente do suplemento que o antecedeu, o mesmo acontecendo com o Fugas; e a revista de domingo, agora com a forma de caderno, quanto a mim, ganhou imenso em profundidade e legibilidade. Suponho, pois, que umas coisas compensam outras e que logo me habituarei a estes novos look e paginação. Vamos ver.

«Papel pintado»

Num dos últimos fins-de-semana, José Pacheco Pereira escreveu no Público uma crónica muito interessante e lúcida que tinha como ponto de partida o fecho da Livraria Portugal na Baixa lisboeta. Embora frequente igualmente a FNAC, era um seu cliente regular e adquiria ali revistas especializadas e obras de temáticas várias – portuguesas e estrangeiras – que não irá encontrar em mais parte nenhuma (ou que, em suma, terá a partir de agora de comprar directamente a instituições, universidades e livrarias virtuais, mas sem poder, naturalmente, folheá-las primeiro). Já aqui escrevi sobre os problemas graves do encerramento de livrarias – e falei no caso da Portugal, que se liga às primeiras memórias que tenho da minha vida editorial –, mas o que aqui me traz hoje é uma expressão que Pacheco Pereira usou nessa sua crónica; referia-se ele aos livros-produtos que hoje inundam as nossas livrarias como «papel pintado». E, se virmos bem, está coberto de razão. Porque, num mundo em que os mercados passaram a dominar, a embalagem tornou-se determinante para a venda e, quando hoje entramos numa livraria, o texto parece o menos notório, destacando-se, em vez dele, o colorido exagerado das capas que, às tantas, até para um leitor experimentado se tornaram um empecilho que confunde o trigo com o joio. Papel pintado, em suma.

Livro e necessidade

Sou anualmente «convocada» para uma sessão de formação levada a cabo por investigadores sérios e competentes que estudam desde há muitos anos numa universidade os hábitos de consumo dos portugueses. Quando a crise se iniciou, era crença destes que os livros não iriam sofrer demasiado, porque as pessoas passavam agora mais tempo em casa, e o livro, além disso, era um bem transmissível e não especialmente caro (pesem, embora, outras opiniões sobre esta matéria). No ano passado tiveram, porém, de se render à evidência do equívoco, já que o mercado do livro foi claramente afectado pela crise, até porque, como já aqui escrevi, quem lê habitualmente tem muitos livros em casa que ainda não leu (e para quê comprar outros se aqueles estão ali à mão?) e quem é leitor ocasional cortou claramente na leitura porque vestir e dar de comer aos filhos é mais importante. A última sessão de formação – há apenas quinze dias – dizia respeito ao que falta ao livro para se afirmar num momento crítico como o que atravessamos, tendo sido dito que, ao contrário de outros, o produto livro diz pouco de si mesmo e, sobretudo, não diz aos consumidores a falta que lhes faz. Compreendo o ponto de vista, mas, sinceramente, não sei como poderia um livro, que já diz tanto, dizer também isso. Não me passaria pela cabeça que a capa de um livro incluísse uma menção do tipo «Se ler este livro, será menos ignorante e terá mais facilidade em arranjar emprego»; e, se bem que acredite que determinados livros são, efectivamente, produtos, não me parece que a literatura caiba nessa designação – e tenho a certeza de que, quanto mais literatura alguém ler, mais bem preparado estará para combater um mau momento como este. Presumo que só a escola – a básica, sobretudo – poderá incutir nas cabeças das crianças a necessidade da leitura para a superação do indivíduo. Mas isso levará, bem sei, um século.

Ser escritor

Quem esteve nas Correntes d’Escritas no dia da abertura – eu, infelizmente, só pude ir na sexta de manhã, perdendo toda a programação de quinta-feira – diz que a intervenção inaugural de D. Manuel Clemente foi notável; e que a ela se seguiu a sessão de homenagem ao escritor brasileiro galardoado com o Prémio Camões, Rubem Fonseca, que pelos vistos não lhe ficou atrás. Este último, que, como já aqui referi, não vai já a lado nenhum e não dá entrevistas (mas as Correntes, enfim, são uma excepção compreensível), é uma pessoa deliciosa ao lado de quem tive a sorte de almoçar num dos dias do encontro e que me disse para eu tomar conta do Manel, porque ele estava sempre a fumar. No dia da homenagem, segundo me contaram, subiu ao palco e fez sucesso com os cinco requisitos que, segundo ele, um verdadeiro escritor tem de ter. Para quem lá não estava, reproduzo aqui: 1) Ser louco; 2) Ser letrado (mas não demasiado); 3) Estar motivado; 4) Ser imaginativo; 5) Ser paciente. Acredito que, sem isto, não haja, de facto, escritor, mas chegará?

Memória e ficção

Esteve de novo recentemente em Portugal a romancista espanhola Rosa Montero, autora dessa obra genial e diferente de tudo o que li até hoje intitulada A Louca da Casa, cuja personagem principal é, no fundo, a imaginação. Levada desta feita a reflectir sobre o peso da memória na ficção, na sua e na dos outros, contou uma história surpreendente que, até certo ponto, complementa o referido livro. Rosa tem um irmão com o qual cresceu e não existe entre ambos grande diferença de idade. Separaram-se naturalmente quando saíram de casa e, porque o irmão veio entretanto viver para Portugal, vêem-se agora muito menos. Quando se encontram, por isso, não resistem a recordar os tempos em que eram pequenos e brincavam juntos na mesma casa. Ouvindo o irmão falar sobre a infância e a vida em família, Rosa Montero ficou, no entanto, completamente perplexa e confessou: «Não é possível que tivéssemos os mesmos pais. Os meus não tinham nada que ver com o que ele recordava.» E, para concluir, avançou com uma proposta bem interessante: «A memória é uma história que contamos a nós mesmos.»

Inspiração e trabalho

O conceito de inspiração na criação artística em geral, e literária em particular, esteve em voga até aos anos sessenta do século XX. Dizia-se, por exemplo, que quando um escritor tinha um bloqueio diante da página branca estava sem inspiração. E a expressão ainda é de usada vulgarmente quando a obra de determinado artista deixa muito a desejar e alguém comenta que ele estava decerto pouco inspirado quando a realizou. Mas à questão da «inspiração» vieram vários artistas responder com a da «transpiração», querendo com isso dizer que as obras de arte não caem do céu e sem trabalho e persistência nada se consegue. Parece, aliás, que o celebérrimo Picasso terá respondido a um jornalista que lhe perguntou donde lhe vinha a inspiração para os seus quadros: «Inspiração? Não sei quem é. Quando aparece encontra-me sempre a trabalhar.»

Autógrafos com pernas

Há muita gente que gosta de ter a assinatura do autor no seu exemplar do livro e espera, se for preciso, tempos infindos numa fila para o conseguir. Basta ir à Feira do Livro de Lisboa e observar a multidão que se reúne para um autógrafo do consagrado António Lobo Antunes ou do mais jovem José Luís Peixoto, que consegue a proeza de assinar por vezes duzentos livros numa tarde. Houve, porém, um autor que era avesso a tal prática. Chamava-se Miguel Torga e simplesmente recusava escrever dedicatórias nos seus livros. Contaram-me durante as últimas Correntes d’Escritas que, um dia, Mário Soares lhe levou um livro para autografar e Torga lhe terá dito que não assinava livros para ninguém, pelo que não abriria a excepção. Anos mais tarde, contudo, o mesmo Mário Soares terá encontrado por acaso num alfarrabista uma primeira edição de uma das obras do escritor-médico autografada para a jornalista e escritora Maria Archer. Comprou-a e, assim que pôde, confrontou Torga com aquela realidade. Ao que este lhe terá dito que as pernas de Maria Archer não se podiam comparar com as suas...

Livro do Dia

Num momento em que as vendas dos livros estão cada vez mais baixas (não estarão as de tudo?) e nos queixamos muito de que o espaço para falar de livros nos meios de comunicação social é manifestamente insuficiente (mas havemos sempre de nos queixar disto, porque para nós os livros merecem sempre mais), é de saudar um novo apontamento diário na TSF dedicado à leitura. Chama-se Livro do Dia e é assinado por esse grande jornalista que é Carlos Vaz Marques, excelente entrevistador e homem culto, mas de discurso acessível e empático. Três vezes ao dia (de manhã, à hora do almoço e ao fim da tarde) seremos, pois, brindados com uma sugestão de leitura. Começou ontem e, se Deus quiser – e a TSF também – há-de prolongar-se por muito tempo. Obrigada a Carlos Vaz Marques por esta ajuda.

Máscaras

Porque o contrato colectivo de trabalho que rege a minha actividade assim o estabelecia, pude fruir livremente a terça-feira de Carnaval e devo dizer que ela começou muito bem. Com o sol a morder as esquinas como em plena Primavera, fui com o Manel de manhã à Fundação Calouste Gulbenkian visitar a exposição sobre Fernando Pessoa, originária do Brasil, onde se inaugurou – creio – no Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo. Belíssima na sua concepção, com truques que fazem voar as sílabas dos versos e nos trazem sempre um novo texto, esta é uma mostra que exige tempo, porque Pessoa são muitas pessoas – o que, em tempo de máscaras, veio mesmo a calhar. Longe da curiosidade sobre os objectos pessoais que tantas vezes mina este tipo de exposição (e apesar da famosa arca), aqui as palavras tomam a dianteira e é nelas que os olhos devem pousar longamente, lendo, aprendendo, desfrutando, somando o novo a tudo aquilo que já sabíamos do grande poeta. Num dos painéis à meia-luz, fui assombrada por uma frase com grande actualidade, na qual o Pessoa ortónimo diz que, com tanta falta de literatura, como não haveria ele de, com o seu génio, inventar todos aqueles heterónimos? Noutro painel mais adiante, confessa-nos que não conseguiria ter um amigo íntimo, tímido como era. As suas máscaras foram, talvez, o que mais se aproximou disso. Em suma, não perca.

Rico século XXI

Por razões que aqui não importa referir, estive a fazer uma lista de autores portugueses de ficção que se estrearam já no século em que vivemos. Como uns são muito mais velhos do que outros, estava convencida de que certos romancistas (Dulce Maria Cardoso, por exemplo) tivessem começado a publicar na última década do século XX e que outros, que de facto publicaram ainda nessa década (Pedro Rosa Mendes, por exemplo, que começou em 1999), só se tivessem iniciado no terceiro milénio. Mas o que interessa é que o primeiro decénio do novo século pariu muitos nomes interessantes – e com estilos francamente distintos – que não se ficaram pelas obras de estreia e têm dado grandes alegrias à literatura: Frederico Lourenço ou Rui Cardoso Martins, Ricardo Adolfo ou valter hugo mãe, Patrícia Portela ou José Luís Peixoto, Afonso Cruz ou João Tordo; e, além disso, foi já no século XXI que saíram as obras mais relevantes de Gonçalo M. Tavares e Mafalda Ivo Cruz, só para referir dois autores galardoados com o Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores. Na década que atravessamos, outros seguramente se revelarão (até já li alguns, mas preciso de ver como se aguentam); em todo o caso, se não forem muitos, com o que temos já podemos considerar-nos satisfeitos.

A dama de ferro e a literatura

Goste-se ou não de Margaret Thatcher, há um filme sobre a dama de ferro que importa ir ver. Não porque nos dê uma imagem mais cândida da senhora que governou a pulso o Reino Unido (alguns dirão que existe esse perigo) ou porque nos mostre a mulher por detrás da figura política que alguns de nós conhecemos bastante bem. Tão-pouco – embora essa razão já fosse mais do que suficiente – para ver a performance de uma Meryl Streep que se ultrapassa a cada novo trabalho. Este é um blogue confesso sobre livros e, se sugiro que A Dama de Ferro deve ser visto, é também por causa da literatura. Ultimamente, reparo que alguns guiões devem bastante à «arte da escrita» e, no filme em causa, há um diálogo-monólogo da senhora Thatcher envelhecida com o médico que a observa que é pura literatura. Quem me dera que muitos dos livros que me passam pela mão tivessem passagens tão inteligentes e ao mesmo tempo tão esteticamente irrepreensíveis; mas, parafraseando o que também se diz a páginas tantas no dito filme (e, repare-se, a expressão «páginas tantas» saiu-me como se se tratasse de um livro), agora muitos autores já não querem «fazer» coisas, mas apenas «ser» alguém...