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A mostrar mensagens de 2013

Férias de Natal

Hoje, dia 24 de Dezembro, publico aqui no blogue o último post de 2013. Vou tirar uns diazinhos de férias, como se ainda fosse estudante, para pôr a vida e a papelada em dia, e voltarei no primeiro dia útil de 2014. Quero desejar a todos os leitores destas Horas Extraordinárias o melhor Natal que lhes seja possível viver num período especialmente difícil para Portugal e os Portugueses (soou-me a discurso político, mas é sincero, juro). Não exagerem nos doces, que o dentista é caro, nem recebam demasiados presentes (dar é outra coisa), que os tempos não estão para exageros. Leiam, se puderem, que é o que também tentarei fazer. E, sobretudo, regressem no ano que vem, que esta sala comum não é nada sem os vossos acertados comentários. Eu deixo-vos com um presentinho, um anúncio curioso que um amigo me contou ter encontrado um dia num jornal francês: «Realizador de cinema procura anão para pequeno papel em curta-metragem.» Não é literatura, bem sei, mas já estou em mood de férias e temos de nos rir de qualquer coisa. Boas festas a todos. Vemo-nos por aqui no ano que vem.

A velha guarda

Quando Cavaco Silva ganhou as eleições e tomou posse como Presidente da República, logo se percebeu que a sua relação com a cultura era absolutamente nula (quer dizer, já se desconfiava, mas deu para confirmar). O professor de números é bastante parco em conhecimentos literários e artísticos; e, mesmo para os que nunca gostaram de Soares e Sampaio, é inegável o fosso que existe entre o que estes dois senhores sabiam de literatura, música e pintura e o que Cavaco Silva (não) domina. Não é, claro, o único político ignorante (antes fosse) – e a nova geração de políticos formatados nas juventudes partidárias é toda mais ou menos desinteressante e com pouco ou nenhum mundo (além de Cuba, Cancún e Punta Cana, suponho). No dia 2 deste mês, fui a uma sessão comemorativa dos 25 anos da publicação de Gente Feliz com Lágrimas, o multipremiado romance de João de Melo – que é, de resto, a sua obra mais emblemática e acaba de ter uma edição especial. Para falar dela, além do autor, estava o jornalista Fernando Alves (brilhante condutor da conversa) e Jaime Gama – sim, esse mesmo, que foi, além de deputado e ministro, presidente da Assembleia da República aqui há uns anos (e é açoriano como o autor). Devo dizer que fiquei absolutamente boquiaberta com a sua prestação. Já sabia que se tratava de alguém inteligente, o que não sabia era que tinha tanta bagagem cultural (perdemos o hábito de acreditar em políticos cultos, lá está) e, melhor ainda, que tivesse capacidade para fazer uma leitura crítica do romance digna de um professor universitário de literatura (relacionando o romance com obras de muitos outros autores ou situando-a num contexto de ruptura com movimentos e escolas anteriores) e, ao mesmo tempo, que expusesse o seu ponto de vista com clareza suficiente para que todos os presentes o acompanhassem sem quaisquer espinhos (não levava papel, note-se). Já no fim da sessão, percebi que todos estavam igualmente maravilhados com ele e que tudo o que se comentava a esse respeito era que a geração de Jaime Gama (não importa de que partido) era, de facto, de outra cepa e que, a partir dela, tem sido sempre a descer... Ora, se o exemplo vem de cima, como diz o povo, estamos mesmo com um irremediável azar.

O senhor Manguel

O senhor Manguel, de nome próprio Alberto, passou parte significativa da sua juventude a ler para Jorge Luis Borges e apaixonou-se, naturalmente, pela literatura (embora já tivesse um fraquinho por ela antes). É um literato muito respeitado em todo o mundo, tendo vivido, além de na Argentina, onde nasceu, em Israel, no Canadá e em França, onde está actualmente. Foi professor, tradutor, crítico (no New York Times e no Times Literary Supplement, por exemplo) e antologiador, além de romancista, mas é pelos seus estudos literários que é mais famoso e aplaudido. Entre outras obras, escreveu Uma História da Leitura e também o Dicionário de Lugares Imaginários, de que já falei neste blogue e foi recentemente publicado em português pela Tinta-da-China. Ora, por causa da saída desse livro em Portugal, o senhor Manguel foi recentemente entrevistado pela Lusa e deu, nessa entrevista, a sua opinião sobre a literatura portuguesa, afirmando que «tradicionalmente, Portugal tem autores que fazem parte da grande literatura universal, como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Lobo Antunes ou Gonçalo Tavares» (foi, de resto, por causa da menção a Tavares que chamei ao post «O senhor Manguel», quiçá exprimindo o desejo de que o jovem escritor dedique a Manguel um dos seus volumes do Bairro no futuro). Quando um estudioso desta craveira se refere elogiosamente a escritores da pátria, não podemos senão ficar satisfeitos. Digamos que foi um bonito presente de Natal.

Comprar livros

Ainda que os jornais anunciem que os Portugueses, com a crise, diminuíram o seu investimento em produtos culturais, e estudos europeus revelem que há muitos portugueses que nem um livro lêem num ano inteiro, as grandes cadeias de livrarias abrem novas lojas perto do Natal. No Centro Comercial das Amoreiras, onde já existia uma Bulhosa e uma Bertrand, há agora uma nova FNAC, de que foram recentemente padrinhos a fadista Ana Moura e o escritor Valter Hugo Mãe. Nos Restauradores, junto à estação central dos Correios (ai, meu Deus, que será dos Correios daqui por uns tempos?), a Book-it., do Continente, abriu igualmente uma loja e já começou a receber diariamente autores para sessões de autógrafos. E, no Shopping Cidade do Porto, a Bulhosa Books and Living, que era uma das mais interessantes livrarias da Invicta, deu lugar a uma Bertrand que ainda não conheço mas tenciono visitar em breve. Enfim, sendo boas notícias (na verdade, é bem simpático haver mais livrarias aonde ir ver e comprar), também tenho pena de que não seja nada de novo, uma vez que noutros países europeus o que ainda vai safando a literatura são os livreiros independentes, que se apaixonam por determinados livros e autores e fazem tudo por eles. Recentemente, por exemplo, a editora francesa de O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro, partilhou connosco uma carta escrita por um livreiro de Toulouse a propósito do romance que era a um tempo uma recensão como já não se faz e uma declaração de amor ao livro. Em Portugal, já quase não conheço ninguém que o pudesse fazer...

Não estamos sós

No início do próximo ano vou publicar excepcionalmente na Teorema dois livros traduzidos, entre os quais o de um autor da Coreia do Sul que dizem ser o melhor da sua geração (nasceu em 1968). Chama-se Kim Young-ha (os nomes dos coreanos escrevem-se com o apelido no princípio) e darei oportunamente conta da sua novela original e algo kafkiana chamada Tenho o Direito de Me Destruir. Mas foi por causa dela que li algumas coisas sobre o mercado coreano na Internet e me apercebi de que, enfim, não estamos sós nas nossas amarguras. A crise no meio editorial é tão grande por aqueles lados que 94% dos editores não lançaram um único livro em 2012. As pessoas, sem um tostão no bolso, deixaram de ler jornais, de ir ao cinema e de comprar livros (onde é que eu já vi isto?) – excepto quando o preço é suficientemente competitivo e, quanto a isto, parece que uma cadeia de livrarias em segunda mão, a Aladino (com dezasseis lojas, incluindo uma em Los Angeles e uma forte presença online) faz um inesperado sucesso em tempos difíceis e «rouba» todas as hipóteses de negócio às editoras, fazendo um desconto médio de 50% aos seus clientes. A Coreia do Sul não tem lei do preço fixo, pelo que é ainda mais difícil combater a política de preços da Aladino, que os editores coreanos consideram míope e precipitada e em nada contribuir para que os leitores do país contactem com novas obras e autores contemporâneos. Parece que, apesar de tudo o que tem acontecido em Portugal no mercado dos livros, ainda há quem esteja pior do que nós.

Hermanos

Já aqui falei de alguns livros de Adolfo García Ortega (autor de, entre outros, O Comprador de Aniversários, um pequeno grande romance sobre uma vida em Auschwitz), mas talvez nunca tenha dito que ele é igualmente um grande editor que trabalha na Planeta, em Espanha. Uma noite, há uma década, durante a Feira do Livro de Frankfurt, encontrámo-nos para jantar na mais bonita praça da cidade e, sabendo da incapacidade proverbial dos espanhóis para nos perceberem, toda a noite me dirigi a ele no meu fraco castelhano, o que foi apesar de tudo eficaz, não tendo havido qualquer obstáculo à comunicação. Eu não esperava era que, à despedida, ele me brindasse com a surpreendente tirada: «Sabes, estou mesmo contente... Não fazia ideia de que percebia tão bem português.» Piadas à parte, foi no blogue deste amigo, Otra Galaxia/Club Cultura, que encontrei a seguinte afirmação de Borges: «Os espanhóis bem se podem gabar de falar lindamente espanhol, o problema é que não são capazes de escrever um bom livro.» (E eu aqui acrescentaria «Nem de falar outra língua», mas não é o momento para vinganças.) O destinatário da frase era um outro Adolfo, Bioy Casares, mais um grande escritor argentino, e a conversa ocorreu nos idos de 1962. Talvez hoje nos seja difícil concordar com ela (há muitos escritores espanhóis de grande qualidade, como Marsé ou Marías, por exemplo), mas o autor do blogue acaba por dizer que, «salvo raras excepções, efectivamente a literatura espanhola enlanguesce como o país, que há duzentos anos está metido numa campânula que ainda cheira a padres e príncipes». Será? Bem, posso não ter percebido bem... O meu espanhol, já se sabe, é muito fraco.

Vértice

A revista Vértice, fundada em Coimbra no ano de 1942, tornou-se um instrumento de luta política e resistência à ditadura e, simultaneamente, uma espécie de porta-voz do movimento neo-realista. O seu papel como laboratório de ideias progressistas foi tão importante ao longo dos anos que mereceu um livro a propósito (A Revista Vértice e o Neo-Realismo Português, de Viviane Ramond, muito elogiado por Eduardo Lourenço). Mas tudo tem o seu tempo e a Vértice adormeceu há muito... Porém, excepcionalmente, voltou há uns dias com um número inteiramente dedicado ao Ciclo Nacional de Conferências «José Saramago: o escritor e o cidadão», com o apoio da Câmara Municipal da Moita e da Câmara Municipal do Barreiro. Este Ciclo de Conferências fez, de resto, parte de um projecto intitulado Oficina Saramago, que envolveu escolas, associações, colectividades e entidades privadas em várias acções que decorreram entre Novembro de 2011 e Novembro de 2012, e para o qual foram convidadas personalidades nacionais e estrangeiras conhecedoras da obra do nosso Nobel da Literatura. Uma boa razão para termos a Vértice de volta, mesmo que por pouco tempo.

Infâncias sombrias

Conheço mal a literatura nórdica, até porque só de há uns anos para cá as editoras portuguesas começaram a apostar nela (havia, claro, alguns clássicos, mas creio que só depois do sucesso da série Millennium se decidiu olhar com mais atenção para os escritores suecos, por exemplo). Já aqui falei de um autor que apreciei bastante (Per Petterson) e agora acabo de ler outro livro duro e bonito que tem muitos pontos de contacto com a última obra de Valter Hugo Mãe, Desumanização. Trata-se de A Casa com Alpendre de Vidro Cego, da escritora norueguesa Herbjørg Wassamo, que fala da vida de Tora, uma criança, numa ilha onde se vive essencialmente da pesca (e mal). Tora carrega o estigma de ser filha de um soldado alemão que se apaixonou pela mãe, Ingrid, durante a ocupação (e foi morto, sabe-se lá por quem, antes de poder regressar à pátria); mas, como se isso não bastasse, a sua infância é sacudida permanentemente pela perseguição do padrasto alcoólico, uma vez que Ingrid trabalha no turno da noite da fábrica de conservas e não pode acompanhar a filha. E, contudo, esta menina encontra formas de resistir absolutamente notáveis, entre as quais está a leitura de livros e as «conversas» com um rapazinho surdo-mudo chamado Frits. Numa Noruega ferida pela guerra e muito pobre, sempre cheia de frio e vento, esta infância é uma lição de sobrevivência – e a escrita de Wassamo verdadeiramente bela e mágica. Diz-se na contracapa que este é apenas o primeiro livro de uma trilogia. Venham os outros dois, pois estão a fazer falta.

Mais vale tarde

Aqui há um ano escrevi um livro sobre Amália para os mais pequenos, os que nasceram depois da sua morte e não sabem nada da vida de uma das maiores artistas portuguesas, nem o que realmente fez para transformar o fado no que é hoje. Foi também no ano passado que reuni a minha poesia num só volume e prometi ir a Coimbra falar dela em vários sítios, mas não consegui cumprir por – como sempre – excesso de trabalho. Hoje, porém, tirei-me das minhas tamanquinhas e vou estar em Coimbra, que recentemente viu a sua universidade eleita Património Mundial pela UNESCO, para falar destes dois livros. Primeiro, com crianças, numa escola, ao princípio da tarde; e pelas 18.30h na Mercearia de Arte, com o Pedro Beja Alves, que ali faz um trabalho notável de promoção cultural e convida regularmente escritores e artistas para uma conversa informal à roda da respectiva obra. Se estiverem por lá, apareçam.

Escravos modernos

Não se fazem fortunas por acaso (nem por se ser sério e honesto, calculo), e é natural que as gigantescas empresas mais lucrativas do mundo escondam processos de enriquecimento menos bonitos do que gostaríamos. Um jornalista aceitou infiltrar-se num dos cinco armazéns da Amazon no País de Gales e tornou-se funcionário da companhia, montando uma câmara escondida da BBC que acompanhava o seu trabalho a par e passo. Ora, Adam Litter – assim é o nome do jornalista – era obrigado a trabalhar cerca de dez horas e meia e, pasme-se!, a andar cerca de dezassete quilómetros por dia, pois de 33 em 33 segundos deveria recolher um novo pedido e, quando o final do tempo se estava a aproximar, o scanner que trazia na mão começava a apitar tal qual as máquinas que medem a frequência cardíaca e anunciam a morte dos pacientes com um sinal agudo e permanente. Se não cumprisse a média, ficava sob observação e recebia uma advertência de que poderia perder o emprego e ser substituído. Os seus pés, como podem calcular, estavam num estado lastimoso e, quando a Amazon disse cumprir todas as regras laborais, foram suficientes para mostrar que não era bem assim... Enfim, já sabíamos que havia muita coisa a mudar para pior no mundo empresarial moderno, mas temos sempre a esperança de que as empresas que trabalham com produtos culturais se portem melhor do que as outras, não sei porquê.

Presentes (não) muito católicos

Quando chego todas as manhãs ao quiosque para comprar o jornal, além da bisbilhotice sobre os famosos que salta logo à vista em mil capas flamejantes, sobressai um sem-número de objectos que alegram os olhos: carteiras, copos, lenços, toalhas e até faqueiros distribuídos à peça, que quem quer vender revistas oferece como brindes em todas as estações do ano (no Verão, há até toalhas de praia e chapéus). Também alguns livros mais «senhoriqueiros» vêm agora celofanados com frascos de perfume e bolsinhas com estrelas brilhantes e natalícias numa espécie de dois-em-um que pretende convencer o cliente a levá-los e, assim, dar a alguém um presente mais valioso. Mas do que eu não estava mesmo à espera era de que um livro do Papa Francisco, Sobre o Céu e a Terra – no qual o simpático Jorge Bergoglio fala da família, da fé e do papel da Igreja –, aparecesse nos escaparates das livrarias como um produto de quiosque, trazendo colado à capa um saco com uma medalhinha e um santinho como oferta. Enfim, bem sei que os livros se vendem cada vez menos nesta época de crise, mas brindes neste caso não me parece lá muito católico...

O poeta e a rainha

No dia 1 deste mês, o poeta Nuno Júdice recebeu das mãos da monarca espanhola, em Madrid, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana. Este prémio, que visa galardoar uma obra de inegável interesse no contexto da Península Ibérica e é atribuído pelo Património Nacional de Espanha e pela Universidade de Salamanca, fora apenas entregue uma vez a um português – no caso, Sophia de Mello Breyner Andresen. O autor, que é também ficcionista, ensaísta e dramaturgo, viu já a sua obra merecer muitos outros prémios de relevo, por romances ou colectâneas de poemas, como os da APE e do PEN Clube e bem assim o Prémio D. Dinis ou o Fernando Namora. Mas um prémio desta craveira é excepcional, até porque permitirá certamente maior atenção à nossa poesia por parte dos nossos vizinhos. Nuno Júdice acaba de lançar um novo poemário, Navegação de Acaso, nas Publicações Dom Quixote. Espero que esta distinção, amplamente difundida nos meios de comunicação, leve alguns dos que não o conhecem a lê-lo e apreciá-lo.

Etc & tal

Quando era universitária e havia Feira do Livro, ia lá quase todos os dias cheirar os Livros do Dia e procurar pérolas esquecidas nos tabuleiros laterais dos pavilhões. Tinha tempo para procurar e comprei nessa altura muitos livros que hoje são raridades e, bem vistas as coisas, me custaram quase nada. Entre esses tesouros, muitos são de formato quadrado, com capa acastanhada, como a dos velhos cartuchos, e conteúdo exemplar. Foram publicados pela & etc, uma editora que celebra este ano o seu 40.o aniversário sob a direcção de Vitor Silva Tavares e se conseguiu manter independente neste novo paradigma que é o da edição industrial. A & etc lançou poetas e publicou textos fundamentais (lembro-me, por exemplo, de Fabulário, de Mário de Carvalho, e da estreia de Margarida Ferra com Curso Intensivo de Jardinagem, só para citar dois exemplos separados no tempo). As regras sempre foram particulares: os livros nunca são reeditados e os autores abdicam dos direitos, a tiragem é idêntica para qualquer título e não se oferecem exemplares à comunicação social. A qualidade impera. Para celebrar os 40 anos da & etc, uma outra editora, a Letra Livre, publica sob a coordenação de Paulo da Costa Domingos o livro & etc – uma editora no subterrâneo, especialmente importante para os que só conhecem a edição a partir do século XXI. Um hino à resistência.

Portugueses incultos

De tanto em tanto tempo, a União Europeia faz um inquérito sobre os hábitos culturais dos cidadãos europeus, e o mais recente Eurobarómetro conclui que os Portugueses estão, com os Romenos e os Búlgaros, entre os que têm menos práticas culturais. Não frequentam bibliotecas públicas, não vão ao teatro nem a museus e, mesmo que de vez em quando não resistam a um concerto da sua banda favorita, muitos nunca assistiram a um espectáculo de dança ou ópera na vida. O cinema, que ainda era a área em que os Portugueses escapavam nos inquéritos anteriores, deixou também de ser frequentado pela maioria dos cidadãos nacionais (em dez meses, houve menos 1,2 milhões de espectadores nas salas), que agora preferem ver filmes na televisão. A televisão, aliás, parece ser o que ocupa 70 e tal por cento da população, enquanto apenas 40 por cento confessam ter lido um livro no último ano. As conclusões do relatório apontam para o facto de a crise obrigar a um decréscimo do consumo de produtos culturais – e é óbvio que, entre alimentar os filhos e ir ao teatro ou ver uma exposição, o português (ou outro qualquer) opta pela subsistência da família; mesmo assim, sabe-se que a culpa está em grande parte numa educação muito deficitária em termos de formação artística e na subsequente apatia nacional pelos valores culturais. Claro que o inquérito não distingue cidade e campo, litoral e interior – e os resultados podiam ser bastante diferentes se o fizesse. É pelo menos uma boa notícia que sejam os mais velhos quem menos lê e mais TV consome, pois assim sempre podemos ter alguma esperança no amanhã. De todo o modo, quando olhamos para os números dos países nórdicos (na Suécia, 90 por cento das pessoas leram pelo menos um livro em 2012), ficamos tristes. Nunca conseguiremos lá chegar.

O escritor debaixo de olho

Com tudo o que se está a passar actualmente em Portugal – escutas telefónicas, apelo à queixinha, dispensa de jornalistas que falam do que as administrações não querem (normalmente por causa de assuntos que nada têm que ver com a qualidade da informação) – há já quem refira um regresso velado à censura e comece a ter cuidado com o que diz e a quem o diz. É também natural que alguns escritores, enquanto vão compondo a sua obra, sintam espreitar atrás deles o leitor, e isso influencie o que escrevem, embora outros garantam que não. Em todo o caso, esse leitor não é exactamente um espião e nada pode contra o texto. Há, porém, outro tipo de espionagem menos simpática – e um estudo realizado pelo PEN nos EUA revela que, por exemplo, cerca de 85 por cento dos escritores norte-americanos se sentem sob vigilância e acham que isso afecta a liberdade com que escrevem: evitam abordar determinados assuntos, fazer pesquisa na Net sobre outros e, pior do que isso, trocar ideias com colegas estrangeiros. Os que mais temem esta vigilância são os jornalistas e os autores de livros de não-ficção, que precisam de proteger as suas fontes, mas também já muitos romancistas se escusam a escrever sobre certos temas, como o terrorismo ou o fanatismo religioso, a criação do Estado palestino ou a bomba atómica e o Irão. O relatório apresenta números algo impressionantes, sobretudo que 28 por cento dos autores interrogados se recusam a participar em actividades mediáticas, 24 por cento não falam ao telefone sobre questões consideradas sensíveis e 16 por cento desistiram de escrever sobre um tópico específico. Bem, acho que aqui não chegámos a tanto, mas, como diz o povo, o futuro a Deus pertence.

Ler em Cracóvia

A Unesco nomeou a belíssima Cracóvia «Cidade Literária», depois de o ter feito com Norwich e Edimburgo; e, junto à imponente praça do Mercado, foram colocadas as letras da expressão Cracóvia, Cidade da Literatura (em polaco, claro) para que os passantes pudessem divertir-se a com elas construir muitas outras palavras (e parece que algumas foram imediatamente desfeitas por não serem propriamente bonitas). Embora não associemos logo Cracóvia aos livros, a verdade é que ali decorrem anualmente dois festivais literários internacionais (o Festival Milosz e o Festival Conrad), uma feira do livro de grande dimensão e mais uma série de acontecimentos envolvendo escritores de todo o mundo, como Orhan Pamuk, Zadie Smith ou o poeta sírio Adonis, que foram visitas recentes. É também nesta cidade, e não na capital, que fica o Instituto do Livro da Polónia e dezenas de outros locais – igrejas, sinagogas, teatros, museus e cafés – que, durante todo o ano, albergam tertúlias, encontros de poetas, leituras e performances relacionadas com a literatura. Viveram ali os dois prémios Nobel que a Polónia recebeu, Czeslaw Milosz e Wislawa Szymborska, tendo esta última residido na que é hoje a Casa do Escritor, que foi inicialmente um refúgio para autores desalojados na sequência da destruição de Varsóvia pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Se Cracóvia já devia ser visitada antes, agora ainda apetece mais lá ir. E quem sabe um dia a Unesco não se lembra também de premiar uma cidade portuguesa com esta distinção.

O que ando a ler

Infelizmente, este último mês foi de muito trabalho burocrático, de planos e orçamentos, e não li tanta coisa como planeava, especialmente fora da editora, que é quando ler não é obrigação. Mas quero chamar a atenção para um romance de um ainda jovem autor, Bruno Vieira Amaral, que estou a terminar por estes dias. Chama-se As Primeiras Coisas e tem a particularidade de construir um universo bastante original, o Bairro Amélia, conglomerado de habitações precárias na margem sul onde vivem (não tão harmoniosamente como seria desejável) ciganos, retornados, traficantes de droga, abortadeiras, aspirantes a grandes craques de futebol, assassinos, velhinhas, testemunhas de Jeová e muita outra gente. O narrador (cujo nome sabemos a páginas tantas, quando uma personagem o interpela, ser Bruno, como o autor) regressa ao Bairro Amélia ao fim de uns quantos anos de afastamento, por causa do divórcio e da perda do emprego, e instala-se em casa da mãe. E, embora não pareça reconhecer nesses primeiros dias muito do seu passado, arranjará maneira de, com a ajuda de um dos seus contemporâneos que nunca dali saiu, recuperar um catálogo de figuras mortas e vivas que fizeram a história do Bairro Amélia ao longo de anos. Mas, se ao princípio tememos ter apenas uma lista de personagens pela frente – descritas cada uma por sua vez em ficha individual –, a verdade é que o autor sabe cruzar as suas vidas como ninguém, e às vezes apenas através de pormenores aparentemente insignificantes, oferecendo-nos uma panóplia inteligente de vítimas e bandidos, todos sem excepção amaldiçoados pelo «enguiço» de lhes ter calhado morar no Bairro Amélia. O narrador e a sua família não são, de resto, excepção – e muito haveria a dizer sobre esta matéria, mas é preciso ler o livro. De salientar, é também a capacidade de Bruno Vieira Amaral para descrever ambientes e repescar marcas e objectos que, não sendo do seu tempo, integra com enorme sabedoria nos seus cenários.

Pensar antes de agir

Ao longo da minha vida profissional, pude acompanhar algumas polémicas entre intelectuais, fosse através de relatos em livros que li ou editei – de António José Saraiva, por exemplo, ou na reedição de Rumor Branco, de Almeida Faria –, fosse assistindo, mais ou menos em directo, à zanga entre figurões em cartas duras e azedas publicadas nos jornais. Algumas dessas polémicas eram, de resto, notáveis na sua qualidade literária e pensante e dignas de grandes cabeças, mesmo que nem sempre concordássemos com a matéria em discussão. Creio que um autor que é vítima de uma crítica desonesta ou falsa deve responder ao autor do texto. Uma vez, quando eu escrevia livros juvenis, saiu uma recensão a um livro meu na qual se dizia que as personagens eram demasiado bem-falantes para a idade em certas passagens, oferecendo um excerto como exemplo; só que, por acaso, nesse excerto as personagens estavam a ler, e não a falar… Escrevi uma carta ao jornal e a coisa esclareceu-se. Desde então nunca mais respondi a críticos, embora de vez em quando me apetecesse defender os meus autores de alguns textos não muito bem-intencionados sobre obras suas e, sobretudo, quando se percebe que o crítico não os leu, só folheou (como num caso em que o romance tinha três personagens e o recenseador mencionava apenas duas). Recentemente, pareceu-me, mesmo assim, um bocado insólito que um poeta se tenha insurgido contra um crítico que elogiava a sua obra num jornal. Estava furioso com o facto de metade do texto serem citações de poemas do livro e, em blogue pessoal, mandava o crítico meter as quatro estrelas que lhe atribuíra num certo sítio (acentuando, ainda por cima, o U). Com razão ou sem ela, os termos em que se queixou mancharam a excelência da sua poesia – e o crítico respondeu com luva branca e saiu a ganhar. Mais valia o poeta ter pensado antes de agir, digo eu. Nas velhas polémicas, mesmo com verrina e sangue, tenho ideia de que havia (mais) elegância.

Dia do livreiro

Importando a ideia do país vizinho, alguns livreiros independentes juntaram-se e decidiram ter, a partir do ano passado, um dia para festejar a sua profissão e o papel fundamental que desempenham na cadeia que liga um autor a um leitor. Tomando a data do aniversário da morte de José Saramago (que é também a da morte de Fernando Assis Pacheco), escolheram então o 30 de Novembro para Dia da Livraria e do Livreiro e amanhã preparam em todo o País um sem-número de actividades que partem de uma parceria entre o Encontro-Livreiro e a Fundação José Saramago. O cliente será o convidado de honra (mais ainda do que nos restantes dias do ano) – e é de esperar que, em algumas livrarias portuguesas, seja recebido de forma especial e brindado com tertúlias, mesas-redondas e conversas em torno do livro e da leitura. Na Livraria Culsete, em Setúbal – que perdeu recentemente um dos seus fundadores, Manuel Medeiros – a festa celebra-se a partir das quatro da tarde e ali será entregue um diploma a um livreiro de excepção escolhido por subscrição pública. Mas as celebrações ocorrerão um pouco por todo o lado e, portanto, para quem gosta de livros como os leitores deste blogue, o melhor é aproveitar a efeméride e o dia de amanhã, até porque é preciso homenagear aqueles que não se limitam a vender livros e os amam acima de tudo. Mais informações aqui:


http://diadalivrariaedolivreiro.wordpress.com/

Sex symbol infantil

Agora, que o Natal se está a aproximar, somos brindados a toda a hora com a publicidade do Continente, que escolheu como uma das suas bandeiras para atrair meninos aos brinquedos uma fêmea de hipopótamo rosada e gorducha que dá pelo nome de Popota. Não sei quem criou o boneco e o vestiu e despiu de mil maneiras diferentes desde que apareceu, nem quem inventa as coreografias dos complicados bailados em que ela sobressai à frente de um pelotão de dançarinos. Na verdade, não me interessei o suficiente para o descobrir e deixo isso para quem seja mais curioso do que eu. Interessava-me, mesmo assim, que me explicassem por que raio uma figura que se destina a convidar os mais pequeninos a escolherem os seus presentes naquela grande superfície, e não noutra, tem contornos de mulher fatal, lânguida e sexy, usando decotes generosos, rachas nos vestidos até à anca ou mini-saias do tamanho de cintos e toda uma parafernália de adereços que ficariam melhor numa personagem de BD para adultos. A concorrente mais directa da Popota, que também não é grande coisa como desenho e tem um nome que não lembra ao careca (Leopoldina), tem a vantagem de não ser obesa (o que, pedagogicamente, é mais interessante) e fala do «mundo encantado dos brinquedos». Com cara de pássaro, é possível que voe, o que é outra vantagem, e tem qualquer coisa de tia simpática, capaz de contar histórias ao deitar. Mas não sei se as crianças gostam mais dela, se da bucha que se bamboleia no palco e usa cai-cai. Com tanta roupa dourada e prateada à venda nas lojas de criança, talvez seja eu que estou a ficar bota-de-elástico.

Tiro no pé

Partilho as iniciais com Margarida Rebelo Pinto, mas penso que, fora isso, nada temos em comum, menos ainda a opinião sobre o estado geral do País e as medidas deste Governo. Li há muitos anos o seu primeiro livro (a que alguém que conheço chama, de forma divertida, «Não Faço a Mínima Ideia») e não gostei. Recordo uma cena em que roubavam a carteira a uma personagem e esta não lamentava a perda dos documentos nem do dinheiro, mas apenas os trinta contos em maquilhagem que lá trazia. Alguém que escreve isto num romance é, provavelmente, uma pessoa que pode gastar este dinheiro em maquilhagem e que, por isso, não devia ser chamada à televisão para comentar manifestações contra as medidas de austeridade e os cortes nos ordenados e pensões. Mas foi isso que aconteceu – e, como seria de esperar, MRP (não eu, a outra) fez uma triste figura, dizendo que repudiava esse tipo de manifestação, que toda a gente sofria cortes – ela também – e que devíamos deixar trabalhar à vontade quem nos governa. O vídeo da sua participação num telejornal correu, de resto, as redes sociais e tornou-se viral, até porque temos uma certa tendência para rir dos estúpidos. Porém, não foram as declarações da escritora de romances light que me escandalizaram, uma vez que me bastou ler aquele seu livro (Sei lá era o título correcto) para perceber como pensa a sua cabeça. O que me admirou mesmo foi que MRP não tivesse a mais pequena noção de que estava justamente a repudiar com as suas afirmações muitos dos que compram habitualmente os seus livros e lhe dão de comer. Presumo que alguns desses, depois de a terem ouvido, deixarão de o fazer – e então, sim, talvez ela sinta na própria pele os cortes a que não deu importância...

Coragem

Quando, ao editar o texto de um romance, sobretudo de um autor que ainda não conheço bem, sugiro alguns cortes, a resistência é normalmente muito grande. Entendo perfeitamente. O investimento em tempo, emoção e trabalho que às vezes se faz num mero parágrafo pode ser tão significativo que é perfeitamente natural que quem o escreveu não queira prescindir dele, mesmo que frequentemente reconheça que não atrasa nem adianta, nem para a economia da história nem em termos puramente estéticos. Conheço, porém, um caso notável de autocrítica e auto-editing (além, claro, de João Ricardo Pedro, o vencedor do Prémio LeYa em 2012, que aproveitou 200 páginas, se tanto, de 800). Um romancista que publico há muitos anos, Miguel Real, que é paralelamente autor de um razoável número de ensaios sobre cultura portuguesa, desempenha também as funções de crítico literário no Jornal de Letras há uma série de anos. Recentemente, foi-lhe entregue para recensear o último livro de Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação (ainda não li). E, após a leitura, confessou que deitara fora na manhã em que redigia a crítica meia centena de páginas que tinha escrito para um pequeno volume que planeava intitular Nova Teoria do Corpo por achar que eram completamente redundantes depois do que Tavares acabava de publicar. Um acto de respeito, mas sobretudo de grande coragem, diria eu. E uma lição, enfim, para quem se recusa até a deitar fora uma simples vírgula.

Individual e colectivo

A sociedade moderna, excessivamente tecnológica, torna-nos bichos solitários (no masculino, claro). No Facebook, apanhei há tempos uma fotografia divertida de um bar, na parede do qual o proprietário afixara um pedido para que os clientes largassem os telemóveis e falassem, por favor, uns com os outros. É verdade que muita gente vive completamente escrava destes e de outros aparelhos, talvez para não se sentir muito sozinha, mas ainda assim sozinha porque ignorando por causa disso os que ali estão e podiam fazer-lhe companhia melhor do que as SMS que chegam, irritantemente, a todo o momento e exigem resposta. Com muitos cafés transformados em agências bancárias, desapareceram também as conversas e tertúlias que, nos anos 1960 e 1970, segundo me conta o Manel, juntavam à roda de uma mesa (em Lisboa e no Porto, pelo menos) muita gente que queria falar e discutir assuntos, conhecer escritores e mostrar poemas, levantar a voz contra o poder instituído e planear acções culturais e políticas. Hoje, os cafés têm poucas mesas e, ao que parece, os jovens intelectuais perderam o gosto de se encontrar e trocar impressões, a menos que seja por e-mail. Talvez os blogues tenham substituído esses encontros ao vivo, mas, num período tão mau como o que vivemos, não era descabido que se realizassem de novo tertúlias, até porque delas poderiam sair ideias boas e criativas que nos alegrassem os dias.

O mal banal

Assisti há duas semanas a um daqueles filmes que não se esquecem. Por mais que o cinema americano tenha monopolizado os espectadores do mundo inteiro, a verdade é que o cinema europeu ainda dá cartas – e muitos trunfos. Falo dessa maravilha de argumento, realização e interpretação que é Hannah Arendt e que não só me encheu as medidas como me ensinou muita coisa que – ainda bem – desconhecia (sobretudo que Heidegger tinha falta de jeito para as coisas mais pragmáticas da vida). Este filme, que é também sobre o julgamento de Eichmann que Arendt cobriu para a revista New Yorker quando o nazi foi raptado e levado para Israel, e a terá levado a escrever (e com que consequências) sobre a «banalidade do mal», recordou-me certas partes de Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares, e de A Caixa Negra, de Amos Oz, romances escritos muitos anos mais tarde e em contextos distintos, mas nos quais existe também uma maldade que é fruto, no limite, da estupidez de certos pobres de espírito que, quase sem disso se aperceberem, têm o poder de mudar a vida de milhões (para mal). Aconselho, por isso, a leitura destes dois livros admiráveis e, claro, se ainda o conseguirem ver, o filme de Margarethe von Trotta.

Figuras públicas

Uma vez, estava eu em Serralves a visitar uma exposição de Julião Sarmento, veio ter comigo uma senhora com uma filha ainda pequena e perguntou-me, enfim, se eu era eu. Respondi-lhe que sim – e então, coisa mesmo inesperada, ela falou-me em voz muito baixa (estávamos num museu) da minha poesia e de como ela a teria ajudado a ultrapassar um terrível período da sua vida, confessando-me que, depois disso, era finalmente capaz de a ler sem chorar. Fiquei surpreendida: os escritores raramente são figuras públicas; e, apesar de eu ter ido a um programa de TV pouco antes daquele encontro, achei realmente estranho que alguém me reconhecesse e abordasse, sobretudo num local fora do meu contexto, um lugar que nada tinha que ver com livros. Na verdade, se virmos bem as coisas, um actor ou um cantor (mesmo que não tenha um sucesso por aí além) está mais do que habituado a sorrisos na rua e pedidos de autógrafos e certamente não se espanta de ser assim interpelado. Mas o escritor – excepto para um reduzido número de pessoas – é um nome na capa dos livros e pouco mais, e muita gente acha até que é assim que faz sentido, como se fosse crime sair da torre de marfim e aparecer às massas (mas, de facto, os raros que se tornam populares são logo criticados). Curiosa sobre aquela invulgar abordagem, não tardei, porém, a descobrir que não tinham sido os media a fazer nada pela minha fama: afinal, a senhora tinha feito parte de uma comunidade de leitores da Livraria Almedina, em Gaia, onde eu estivera para trocar impressões sobre os meus poemas…

Saramago africano

O Prémio Literário José Saramago foi instituído pela Fundação Círculo de Leitores no ano em que o escritor venceu o Nobel da Literatura. Não sei se sabem, mas foi o Círculo de Leitores que, quando Saramago ainda dava os primeiros passos na escrita, lhe proporcionou as condições necessárias à execução de um projecto moroso e exigente que deu origem ao livro Viagem a Portugal (além de publicar em versão Clube do Livro todas ou quase todas as suas obras). Este prémio, que visa galardoar romances publicados em língua portuguesa de autores com idade não superior a 35 anos, já tinha contemplado portugueses (Paulo José Miranda, Gonçalo M. Tavares, José Luís Peixoto, valter hugo mãe, João Tordo) e duas brasileiras (Adriana Lisboa e Andrea del Fuego), mas este ano foi muito justamente atribuído a Ondjaki, o primeiro africano da lista, com o romance Os Transparentes. Apesar de ter dois autores a concurso, fiquei muito contente com a decisão. Conheço Ondjaki há muitos anos e, além de admirar o seu talento, considero-o uma pessoa às direitas: bem formado, generoso, extremamente afável e, além disso, muito bem-disposto. Só tive pena de que, num jornal, alguém tivesse tido a ideia triste de o comparar a Cavaco Silva só porque, no seu discurso de recepção do prémio, não se referiu a Saramago, preferindo falar da sua Angola, a quem dedicou o galardão. Uma rasteira que, se o conhecessem melhor, não lhe pregariam.

Vaca turista

Quando eu era pequena, as férias grandes eram muito compridas. Embora o meu pai ficasse em Lisboa a trabalhar e só fosse ter connosco aos fins-de-semana, Agosto inclusive, a família ia em peso para uma casa que se alugava à época (era assim que se dizia) no Estoril (e como parecia longe nesse tempo) onde permanecia entre meados de Junho e meados de Setembro, quando chegavam as marés-vivas e deixava de se ir à praia. Levava-se tudo atrás: as roupas de cama, as toalhas de mesa e banho, as loiças e os talheres, os utensílios de cozinha, os remédios, as mercearias, as roupas, enfim, tudo metido numa camioneta de caixa aberta como se estivéssemos mesmo a mudar de casa e não fôssemos regressar nunca mais à capital. Falo deste assunto, que aparentemente pouco tem que ver com livros, porque me contaram na Argentina uma deliciosa história de que me lembrei recentemente e quero partilhar com os extraordinários leitores deste blogue. Quando Borges e Bioy-Casares, que eram amigos, iam de férias, ao que parece também transportavam positivamente tudo o que se possa imaginar. Mas, sendo o segundo muitíssimo rico, cometia o exagero típico dos aristocratas de não prescindir de absolutamente nenhum luxo. E, por isso, fazia transportar para a casa de Verão determinada vaca, cujo leite era fundamental à mesa do pequeno-almoço…

A fama e o proveito

Hugo Gonçalves, de quem publiquei há uns meses o romance Enquanto Lisboa Arde, o Rio de Janeiro Pega Fogo, vive há dois anos no Brasil, onde é editor, e escreve regularmente para diversas publicações portuguesas desse ponto de vista privilegiado sobre as relações entre portugueses e brasileiros. Recentemente, o Diário de Notícias publicou um excelente artigo da sua autoria sobre a diferença entre o prestígio que tem no Brasil alguma literatura portuguesa e os efeitos práticos pouco significativos desse prestígio, ou seja, o relativo desconhecimento por parte da maioria da população (só uma elite conhece e lê autores portugueses) e as vendas francamente insignificantes. Diz Hugo Gonçalves que «a ideia de lusofonia inspira uma ilusão de proximidade entre países que nem sempre estão tão próximos quanto supomos. A ideia de um mercado lusófono de 250 milhões de pessoas, em quatro continentes, pode estimular a ambição expansionista de bancos, petrolíferas ou hipermercados, mas não inspira delírios de riqueza entre os portugueses cujo ofício é a língua». Uma autora como Dulce Maria Cardoso, por exemplo, que em Portugal vendeu cerca de 18 000 exemplares do romance O Retorno, no Brasil vendeu apenas 2000 (e o país é bem maior)… E o mesmo acontece com muitos outros autores que, apesar de receberem prémios no país irmão e de serem muito queridos lá, não conseguem melhor. É o que se chama ter a fama e não ter o proveito… Para os interessados, junto o link.




http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Artigo/CIECO287356.html?page=0



A vida moderna

Não sei o que aconteceu ao mundo, nem quando foi exactamente que a mudança se operou, mas a verdade é que, sobretudo nas grandes urbes, as pessoas deixaram de ter tempo. Embora os ponteiros do relógio rodem ao mesmo ritmo em todo o lado e desde que há relógios, as pessoas queixam-se cada vez mais de que o tempo não lhes chega para tudo o que têm de fazer desde que acordam até que se metem na cama para dormir. E um estudo encomendado por um grupo editorial britânico – Egmont – referido num interessante artigo publicado no Guardian vem mostrar que esta vida moderna que vivemos a uma velocidade estonteante fez diminuir até níveis que me parecem drásticos o hábito de os pais lerem histórias aos filhos ao deitar (parece que só 2% das famílias resistem) e de os professores primários dedicarem tempo das suas aulas à leitura de livros com os alunos. A falta de bibliotecários nas escolas e a cada vez maior rigidez dos programas são duas das razões apontadas para este decréscimo, mas também o aparecimento dos touch screens de tablets e telemóveis, que as crianças usam de forma intuitiva sem qualquer ajuda e dificilmente trocam por um livro que não podem ainda ler sozinhas – a ponto de os especialistas acharem que dentro em breve as televisões vão ter de substituir os seus ecrãs estáticos por outros sensíveis ao toque. Os autores do estudo acham que os livros infantis digitais são uma boa oportunidade para as crianças, que assim poderão juntar o útil ao agradável, lendo histórias num tablet e podendo inclusivamente escolher entre várias (como fazem com os jogos). Mas não era suposto os pais pararem de se desculpar com a falta de tempo e lerem com elas um bocadinho todas as noites? A vida moderna trouxe-nos coisas óptimas, mas não há aparelho nenhum que substitua um momento de leitura em companhia de quem amamos.

Novas modas

Conheço um centro de exames clínicos no qual, enquanto esperamos, nos sentam em cadeiras mais ou menos confortáveis diante de um televisor pendurado na parede, sem som, que passa ininterruptamente imagens de modelos cruzando a passerelle (a Fashion TV, se não erro). No fim da apresentação das colecções, o estilista vem juntar-se às suas meninas para os aplausos e, regra geral, veste de preto da cabeça aos pés e o mais discretamente possível (Armani, por exemplo), parecendo que, afinal – e apesar do que acabámos de ver –, não liga à moda, nem sequer à que ele próprio concebe. Um dia destes, numa reunião, depois de o director comercial me ter dito que dois dos nossos vendedores tinham gostado muito de um livro que publiquei em Maio, tentei convencê-lo de que, se os outros o lessem, o mais certo era gostarem também e, assim entusiasmados, lutarem seguramente mais e melhor por esse livro junto dos clientes. Explicou-me que, fora aqueles dois, mais nenhum lhe tinha alguma vez falado de um livro... E, como eu me mostrasse um pouco surpreendida, confessou-me que não percebia o espanto, pois escândalo era haver editores que não liam. Bem, custou-me reconhecer, mas é verdade: não é preciso gostar de ler para publicar a história da universitária que se tornou garota de programa, da actriz que ia fazendo explodir o prédio por ter ligado os quatro bicos de gás do fogão sabe-se lá para quê (não li o livro), ou até da adolescente que traficou droga e perdeu a mãe enquanto estava na prisão. Como os estilistas todos vestidos de preto, haverá editores para quem as páginas serão sempre brancas. Uma nova moda, enfim.

Os livros dos outros

Todos os autores, ou quase todos, gostam de celebrar a publicação dos seus livros num lançamento público, geralmente numa livraria, com a presença de alguém conhecido que fala da obra. Mas nestas coisas não há modelos e nunca se sabe o que pode sair da cartola dos oradores convidados. Já vi de tudo – e o pior foi quando a pessoa que apresentava o livro disse mal dele com o autor ali mesmo ao lado: honesto, talvez, mas não era precisa tanta sinceridade. Também já assisti a lançamentos em que o orador era um escritor muito conhecido e só falou da própria obra – um pouco egocêntrico, diria eu, sobretudo porque parecia mesmo que não tinha lido o romance que vinha apresentar. Quando o apresentador é pessoa famosa, muita gente não vai ao lançamento senão por causa disso, mas, em alguns casos, o escritor sozinho faria melhor. Uma vez, por exemplo, convidei um publicitário muito badalado para apresentar o romance de um autor escocês cuja acção decorria no mundo da publicidade e deve ter sido a apresentação mais rápida da história: o publicitário limitou-se a dizer qualquer coisa como: «Então aqui está x, que escreveu o romance y, a quem vou já passar a palavra.» Pensou que «apresentar» era «fazer as apresentações»… Até tive de ler um excerto para ocupar o tempo. E, por falar em ler excertos, agora já se vai substituindo a apresentação clássica por uma leitura, às vezes feita por um actor, parecendo que assim o livro se apresenta melhor a si próprio. É de certeza mais interessante do que contar a história toda e estragar o prazer aos leitores que assistem à sessão (também já me aconteceu). Enfim, tenho um autor que odeia lançamentos porque diz que não gosta que falem dele. Está, pelo menos, mais protegido destes amargos de boca.

O escritor dormiu aqui

Parece que, apesar da crise, os hotéis de Paris não se queixam muito. Mas, como 2013 está a ser um ano não tão bom como os anteriores, houve quem se lembrasse de explorar a ideia dos hotéis literários para atrair novos hóspedes. Assim, o hotel Le Marcel (assim chamado por causa de Proust) anuncia que o espírito do escritor está por todo o lado nas cores e no mobiliário e tem quartos com nomes de algumas personagens da Recherche, entre as quais Swann, Guermantes, Saint-Loup (e, claro, a Madeleine que, molhada no chá, desencadeia as recordações). Nas redondezas, também o hotel Les Plumes presta tributo à literatura com citações de vários autores gravadas no vidro das cabinas do duche; e, no mesmo bairro, outro hotel convida hóspedes para um determinado quarto, afirmando que foi nele que Oscar Wilde passou a última noite. O conceito parece resultar, porque a procura aumentou e já há quem queira dormir especificamente no quarto Kafka ou Shakespeare do Pavillon des Lettres, o primeiro dos estabelecimentos hoteleiros parisienses a apresentar-se como literário. Mesmo assim, a maior parte dos turistas está mais interessada numa boa relação qualidade-preço e muitos dos mais jovens nem sequer ouviram falar de Proust quando escolhem o Le Marcel. De qualquer maneira, ficam a saber.

Apanhados

Uma das coisas que aprendi pouco depois de ter chegado ao mundo da edição é que muita gente ligada aos livros tem vergonha de dizer que não leu determinadas obras, como se fosse um crime indesculpável, preferindo mentir a assumir a «ignorância». Contaram-me um dia destes uma história deliciosa a respeito destes bluffs, que é mesmo digna de um programa de «Apanhados». Augusto Monterroso, o renomado escritor guatemalteco que ganhou, entre outros, o Prémio Príncipe das Astúrias e o Prémio Juan Rulfo, escreveu aquele que se diz ser o mais curto conto da história da literatura, «El dinosaurio», composto apenas de uma frase: «Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí.» O conto foi muito falado e estudado em universidades por todo o mundo, e importa dizê-lo para explicar que Monterroso ficou também conhecido em certos círculos como o autor daquele conto mínimo. Ora, uma vez, tendo o escritor participado de um encontro literário, aproximou-se dele uma senhora dizendo que gostava muito do que ele escrevia. Ao perguntar-lhe o que lera ela da sua obra, estranhou Monterroso que a senhora lhe respondesse imediatamente, e sem hesitações, «El dinosaurio». O guatemalteco não se deixou, porém, abalar e resolveu insistir: «E o que achou?» Aí, ao que parece, a senhora terá respondido: «Sabe? Ainda vou a meio.» Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo…

Vender

Quando vamos a um restaurante e perguntamos a quem nos atende como é o Bife à Casa ou o Bacalhau à Moda do Chef que vêm na ementa, estamos sinceramente à espera de que nos saibam responder – e é normalmente o que acontece. As etiquetas da roupa também ajudam as vendedoras das boutiques a dizer-nos se podemos lavar na máquina determinado vestido se, pelo contrário, aquela fazenda exige uma limpeza a seco. Enfim, quem está a vender ou interessado em que o cliente consuma tem, habitualmente, conhecimento da mercadoria, seja ela qual for. Porém, como é possível a uma equipa comercial conhecer os se calhar mais de cinquenta livros que todos os meses tem de promover junto dos clientes? Mesmo que queira «cheirar» cada um deles, será que umas linhas são suficientes para falar com toda a propriedade daquele «produto»? E que dizer dos empregados de uma livraria que recebe todos os dias novidades (há uns anos eram mais de trinta por dia)? Terão alguma vez tempo para perceber as diferenças entre estilos e autores para adequarem a exposição de todos os livros que têm na loja ao seu público-alvo? Por outro lado, se fosse eu a vender os livros que publico, e que conheço melhor do que a maioria das pessoas, à excepção do autor, teria melhores resultados na venda e na colocação desses títulos, sem qualquer experiência de comercialização? Temos sempre a sensação de que não se faz tudo e que muitos livros bons morrem na praia e não encontram os seus leitores potenciais. Haverá, porém, uma receita para que assim não seja?

Xadrez

Não sou jogadora de xadrez – na verdade, não sou jogadora de nada e sempre irritei os meus adversários por não prestar atenção suficiente às cartas nem ter como objectivo ganhar a todo o custo. Isso, porém, não me impede de ler e adorar um livrinho de Stefan Zweig, ao que parece o último que escreveu antes de se suicidar, que se chama justamente Novela de Xadrez – e, sim, tem que ver com o jogo de tabuleiro mais célebre do mundo mas não requer que conheçamos as regras em profundidade. Num navio de recreio com destino à Argentina, segue nada mais nada menos do que o campeão do mundo desta modalidade que, ao contrário do que seria de esperar, é uma criatura bruta, malcriada e até bastante bronca em tudo (excepto no xadrez). A sua presença arrogante a bordo acaba por levar a que um grupo de passageiros educados se defronte com ele (narrador incluído) numa partida de xadrez, mas apenas para experimentar uma rápida derrota; porém, num jogo de desforra, uma estranha figura aproxima-se e dá palpites certeiros que conduzem a um empate. Ora, quem é este homem que consegue empatar com o campeão do mundo e, segundo diz, já não via um tabuleiro de xadrez há vinte e cinco anos? A revelação que ouviremos da sua própria boca é, de facto, a melhor coisa desta novela – e prende-se com o nazismo e a tentativa de não enlouquecer. Mais não se pode contar.

Mudança de agulha

Este foi um ano diferente para a literatura. Quando o Man Booker International Prize, atribuído a escritores de língua inglesa de dois em dois anos, foi entregue à norte-americana Lydia Davis, isso foi o sinal de que alguma coisa tinha mudado. Lydia Davis, de quem ouvi falar pela primeira vez no fim do século passado pela boca de um jovem autor que então publicava e que fizera uma residência literária em Nova Iorque, na qual tomara contacto com a obra desta autora, escreve contos: contos que estão agora coligidos num grosso volume traduzido em português pela Relógio d’Água e que, frequentemente, não ultrapassam as duas páginas, podendo, aliás, ter apenas meia dúzia de linhas. Uma decisão assim corajosa abriu naturalmente caminho à suspeita de que o Nobel deste ano pudesse contemplar um ou uma contista; e, nas apostas feitas no Facebook em vários murais, o jornalista do Expresso José Mário Silva pôs todas as suas fichas no nome de Alice Munro e ganhou a jogada: a canadiana arrecadaria efectivamente, já depois dos 80 anos, o maior e mais prestigiado galardão literário de todos os tempos. Assim, com tão boas notícias para a história curta (estou, obviamente, a traduzir apressadamente short story), vamos lá ver se também aqui em Portugal começamos a abrir as portas aos livros de contos, que têm sido tratados ao longo do tempo, ou pelo menos desde Borges e Carver, como coisa de menor importância.

Poetas para todos

Para os extraordinários leitores deste blogue, que tantas vezes se queixam de que conhecem mal a poesia portuguesa, há agora uma forma de emendarem a mão. Na Faculdade de Letras de Lisboa, António Carlos Cortez, poeta e professor, vai dar um curso livre de poesia contemporânea – De Pessoa aos anos 60: Questões de Linguagem Poética – em horário pós-laboral (às terças, 18h30-20h00) entre 19 de Novembro e 6 de Maio. A entrada é livre e o preço bastante baixo, uma vez que, por estes seis meses de aprendizagem, os interessados pagam apenas 100 euros, o que equivale a 20 euros por mês, uma bagatela. Ao longo do curso serão lidos e estudados ritmos, construções, experiências vanguardistas e muito mais aspectos que «mapearam esses trinta anos de evolução poética em Portugal» (palavras do orientador). Entre os poetas, constam Pessoa (lá estão eles a sobrevalorizá-lo…), Jorge de Sena, Carlos de Oliveira, Nemésio, Eugénio de Andrade, Sophia, Ramos Rosa e muitos outros menos conhecidos do público em geral, como, por exemplo, Armando Silva Carvalho. O programa completo no link abaixo. Para mais informações contacte o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias pelo e-mail clepul@gmail.com ou pelo telefone 217920044.


 


https://www.wetransfer.com/downloads/46b262a2e7c35bff79607bc52135845320131031110207/33b26ddffd43e474a16433181d23434820131031110207/426360


 


 

Ora toma!

No ano de 1997, em que Portugal foi o país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt, trabalhei no escritório que organizou a programação do acontecimento. E lembro-me muito bem de que, ao elaborar a lista dos autores que se deslocariam àquele certame para leituras e mesas-redondas, a direcção e o comissário da literatura (havia outros comissários para as artes visuais e performativas, pois estavam previstos espectáculos e exposições por toda a cidade a par das sessões literárias) decidiram – e bem – incluir autores estrangeiros lusófilos (como o pessoano Antonio Tabucchi) e lusófonos, tendo a comitiva integrado Mia Couto, Germano Almeida e João Ubaldo Ribeiro, entre outros, representantes de pleno direito da literatura em língua portuguesa. Este ano, o Brasil foi, pela segunda vez, o convidado de honra da Feira de Frankfurt, e foram muitos os escritores brasileiros presentes na Alemanha. Portugueses na comitiva não havia. Nada contra. O discurso de abertura, na voz de um autor de peso – Luiz Ruffato, cuja vida lembra um pouco a de Lula da Silva, porquanto foi também um operário de origem extremamente humilde –, foi, de resto, bastante crítico do colonizador branco, que terá dizimado as tribos de índios e estuprado as escravas vindas de África, produzindo uma população mestiça que continua até hoje na base da pirâmide social. Razão para dizer: Ora toma, que já almoçaste... O discurso sobre a desigualdade naquela que é hoje a sétima economia mundial prossegue, apontando o dedo a muita gente – e vale a pena lê-lo, até pela peça literária que é. Deixo-vos, pois, o link.




http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,leia-a-integra-do-discurso-de-luiz-ruffato-na-abertura-da-feira-do-livro-de-frankfurt,1083463,0.htm



O que ando a ler

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Um autor russo é um autor russo é um autor russo. Abri o mais recente romance de Vassili Grossman publicado em Portugal – Tudo Passa – e, de repente, estava lá Tólstoi, Dostoiévski, Turgueniev e muitos outros, porque os russos têm uma espécie de denominador comum que os irmana literariamente, não importa quantos anos separem efectivamente as suas obras. Tudo Passa é um livro absolutamente terrível sobre um homem – Ivan Grigórievitch, muito provavelmente um alter-ego do autor – que passa trinta anos num Gulag da Sibéria, donde sai após a morte de Estaline para descobrir que, afinal, nada se alterou. Vemo-lo chegar de comboio do campo de trabalhos forçados, onde acreditou que a noiva teria morrido por ter subitamente deixado de lhe escrever, e apreender junto de um primo que, afinal, ela se casou com outro homem. Mas a esta revelação dura e inesperada vão somar-se dúzias de outras não menos chocantes, que se prendem sobretudo com a facilidade com que todos se tornaram informadores, denunciantes, egoístas, medrosos e escravos no período mais negro da história da União Soviética, prejudicando pais, filhos e cônjuges para salvarem a pele, numa cegueira absolutamente cruel. Afastando-se dos que pensava seus amigos, Ivan instalar-se-á na casa de uma mulher – Anna Sergueévna – e apaixonar-se-á estranhamente por essa ex-activista do terror durante a Grande Fome da Ucrânia, cujas memórias – a parte deste livro que mais me impressionou – são a confissão de um extermínio planeado pelo Estado Soviético que ceifou a vida a milhões de camponeses. Com muitos pontos de contacto com a obra de Herta Müller que referi ontem no meu post, este romance estava ainda a ser trabalhado por Grossman quando este morreu, em 1964, num hospital de Moscovo, convencido de que, pela crueza do que contava, nunca viria a ser publicado. Um grande livro para se valorizar a liberdade.


 


 


A fome e a vontade de comer

Aprendi em variadíssimos livros que fui lendo ao longo da vida – entre outros, para não ser exaustiva, A Música da Fome, de Le Clézio, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, ou o que ando agora a ler e de que amanhã falarei – que situações de fome ou extrema carência tornam as pessoas agressivas, insensíveis, capazes de actos de maldade que não cometeriam se se encontrassem confortáveis e bem alimentadas. (No livro de Herta Müller que citei, a forma como os «normais» roubam descaradamente o pão de uma deficiente no campo de trabalho onde estão internados é um bom exemplo deste horror.) E falo do assunto porque tenho observado recentemente um crescendo de ódio, insultos, ataques e garras afiadas nos jornais e nas redes sociais, sendo normalmente as vítimas dessa agressividade os que têm conseguido sobressair da massa anónima e, em suma, obter algum sucesso. Já me disseram muitas vezes que a inveja é uma característica dos Portugueses, mas pergunto-me se não será também a extrema carência em que vivem hoje tantos nossos compatriotas, com trabalho precário ou sem ele, com uma ausência completa de estímulos e de dinheiro, que os leva a fazer publicamente afirmações tão incrivelmente despudoradas como uma que li no Facebook há tempos, em que um crítico que dizia bem de certo livro era acusado de estar a tentar ter sexo com o autor da obra. Um amigo com quem comentei a situação disse-me que há por aí muita gente que deixou de poder pagar as sessões de psicoterapia – e que a automedicação nunca dá grandes resultados. Gostaria de acreditar que, se quem manda neste país tratasse melhor as suas pessoas, não haveria tanta maldade disseminada por aí. Mas também já estive mais longe de perder a fé nas pessoas que juntam à fome a vontade de comer.

Palavras feias

Os espanhóis usam e abusam do calão no dia-a-dia e tornaram-se bastante desbocados. Também os norte-americanos largam um «fuck» a propósito de tudo e de nada sem que isso escandalize já ninguém. Os jovens portugueses tem constantemente um «Fogo!» a arder na boca – e sabemos que é um eufemismo, que o que têm na cabeça é a tradução do fuck que se diz do lado de lá do Atlântico. E, mesmo assim, um dia destes, um crítico literário mostrava-se chocado com o número de palavrões que encontrou num romance e já há uns anos me contaram que um dos jurados de um prémio literário não conseguiu avançar na leitura de uma das obras finalistas por causa do calão do primeiro capítulo; presumo que seria jornalista, crítico, académico ou escritor (quem mais é jurado de um prémio literário?) – e, nessa medida, atrevo-me a dizer que Philip Roth e as suas muitas – perdoem-me – «punhetas» não lhe agradariam (o que é grave, porque não se deixa de ler um livro só por causa das palavras feias). Na minha adolescência, a minha mãe estava sempre a dizer que as raparigas não deviam dizer «gajo», que era uma palavra considerada então exclusivamente para uso masculino. E, no entanto, a verdade é que, quando penso nesta maltosa que nos governa, «homens» ou «tipos» me parecem palavras demasiado brandas. «Gajos» fica-lhes decididamente melhor. Há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.

Prémios para todos

Recentemente, li um muito bem pensado artigo de Hélder Macedo no Jornal de Letras a propósito de prémios literários. Dizia o romancista e professor no King’s College de Londres que se tornou banal a prática do «toma lá, dá cá» e que estatísticas com cerca de dois anos mostravam que certo autor integrara cerca de 80 júris e recebera uns vinte prémios, o que possivelmente queria dizer que nos anos em que não fora jurado fora premiado. Esta sede de ganhar, segundo o autor do artigo, prendia-se também com o facto de em Portugal o mercado ser pequeno e não se poder viver apenas da escrita, procurando-se uma fonte de receitas suplementar nestes concursos literários (o que também explica porque alguns poetas têm livros novos todos os anos – os direitos de autor das edições de poesia são manifestamente reduzidos, mas o valor de um prémio, e há muitos, pode compensar essa pequena quantia). No entanto, Hélder Macedo propõe que os prémios literários sirvam sobretudo de incentivo aos escritores mais jovens – e, a este respeito, refere que os finalistas do Booker Prize deste ano incluíam apenas um escritor conhecido entre seis. A prática não é realmente muito comum em Portugal, onde durante dezenas de anos ganharam quase sempre os mesmos escritores; mas, olhando para listas de finalistas de há um ano a esta parte, nas quais figuram nomes como os de Afonso Cruz ou Ana Cristina Silva, acredito que as coisas estejam a mudar. E não me parece que esses autores tenham feito, eles próprios, parte de nenhum «toma lá-dá cá».

Gigantes em xeque

A Feira Internacional do Livro de Frankfurt é o mais importante certame do mundo em torno do livro e da edição (e um dos mais antigos também). Neste ano, o discurso inaugural do director da feira, Juergen Boos, e as declarações do presidente da Associação de Editores e Livreiros da Alemanha, Gottfried Honnefelde, revelaram grande preocupação com o que circula actualmente na rede, dizendo que os que a governam não se interessam minimamente pelo rigor e pela qualidade dos conteúdos; puseram o dedo na ferida da Apple, da Amazon e da Google, chamando-lhes «mágicos da logística», mas não editores, e considerando inclusivamente «reaccionário» que mostrem aos leitores aquilo de que eles gostam, recomendando-lhes livros a partir das pesquisas e das compras anteriores e retirando-lhes capacidade de escolha e reflexão individual. E alertaram para o facto de empresas como a Amazon e a Google quase terem acabado com a concorrência, sublinhando a importância de novas empresas que apresentam formas originais e dignas de atrair leitores – as start-ups – a que esta feira é especialmente dedicada. Claro que todos sabemos que a leitura está a mudar e que as novas tecnologias contribuem largamente para um novo paradigma que ainda não sabemos bem o que será. Mas nos últimos tempos descobrimos muitos dos livros que publicámos pirateados e à venda na Google Books em versão integral quando a edição em papel mal acabara de ser distribuída. O nosso advogado tratou do assunto, bem entendido, mas já aconteceu retirarem o livro da página e ele reaparecer mais tarde como se nada fosse. Enfim, pôr em xeque os gigantes no maior acontecimento anual à roda do livro pode ser que produza algum efeito nesta e noutras matérias.

A alegria de estudar

Muitas crianças adoram a escola, o primeiro lugar onde estão oficialmente para aprender e estudar, mas onde, evidentemente, também brincam e arranjam amigos. Entre os adolescentes, já há muitos que vêem a escola como uma verdadeira seca e uma obrigação a que gostariam de furtar-se. Podem agora estes últimos reflectir melhor no assunto e tomar como exemplo a pequena paquistanesa Malala Yousafzai, que levou não menos de dois tiros na cabeça dos talibãs por confessar sem medo, alto e bom som, que queria estudar num país onde não é suposto as raparigas irem à escola. Os dois tiros, porém, não chegaram para a matar e, tratada num hospital em Inglaterra, sobreviveu à calamidade e recuperou com vigor. A sua coragem valeu-lhe o Prémio Anna Politskovaya e o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu – e houve muita gente que estava convencida de que o Nobel da Paz lhe seria igualmente entregue. Não foi, mas Malala recebeu o prémio que mais ambicionava: voltou à escola. Uma história terrível que acabou bem, quiçá para contar a meninos que fazem fitas para ir à escola.

Aprender a ser feliz

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Publiquei em finais de Agosto o terceiro romance de David Machado, com o sugestivo título Índice Médio de Felicidade. É um livro sobre um homem em crise, Daniel, que, de um momento para o outro, se vê desempregado e longe da família, impossibilitado de pagar a prestação da casa e de cumprir um plano que traçou desde sempre para a sua vida. Mas é também um romance sobre a crise que assola Portugal, a Europa e o mundo e que tem atirado tanta gente para situações insustentáveis. Daniel não quer, porém, acreditar que, mesmo diante de tantas contrariedades, a sua felicidade e a daqueles que ama não pode ser alcançada e luta desenfreadamente por ela, levando o leitor a reflectir melhor sobre os factores que realmente contribuem para a construção de uma vida feliz. Hoje, pelas 18h00, na FNAC do Chiado, quem quiser terá oportunidade de trocar impressões com o autor a propósito deste romance que tem sido aplaudido unanimemente pela crítica. E ter o seu autógrafo, claro. A jornalista Paula Moura Pinheiro junta-se a nós para dizer também de sua justiça. Estamos à sua espera para tornar mais viva a discussão.


 


Abstenção

Rui Zink publicou recentemente um artigo de opinião no jornal Público sobre a falta de crença de muitos jovens na democracia, jovens que, por isso, não iam às urnas (e que ele, como bom democrata, aconselhava logicamente a mudar de atitude). Não creio, mesmo assim, que a falta de fé na democracia seja a única causa da abstenção entre os jovens. Um dia destes, na FNAC do Chiado, estávamos em vésperas de eleições autárquicas, o Manel ouviu uma conversa entre dois rapazes que reproduzo aqui:


– Ó pá, tu amanhã vais votar?


– Eu? Não, não tenho pachorra. E tu?


– Eu tenho de ir, a minha mãe obriga-me.


– Obriga-te como?


– Ela é funcionária pública e quer que eu vá votar num tipo qualquer que é bom para ela.


– Ah, mas então porque é que não votas por SMS?


– Acho que não se pode.


– Hum... Que seca, pá.


Não vejo bem, em primeiro lugar, como é que um voto nas autárquicas interfere com decisões sobre leis que possam beneficiar ou defender funcionários públicos, mas nem é isso que está em causa. O ir votar para estes jovens tem peso de coisa chata – e o pior é que estão num espaço cultural, pelo que era de esperar que tivessem um pouco mais de informação e, sobretudo, de sentido crítico e vontade de mudança. Enfim, quantos casos destes haverá que vão fazer crescer eternamente os números da abstenção?

História de uma traição

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Hoje ao fim da tarde realizar-se-á o lançamento público de A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, autora que foi recentemente brindada com o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, para professores-escritores, pelo romance anterior, O Rei do Monte Brasil, publicado na mesma colecção. O novo livro reflecte sobre três questões interessantes – o preconceito em relação aos homossexuais na época da Primeira Guerra Mundial; a traição no casamento, que acaba por gerar uma vingança precipitada ao jeito do que acontece no último filme de Woody Allen (ou seja, com custos muito altos tanto para o traidor como para a traída); e, por fim, a impossibilidade de destrinçar a verdade nas palavras de um actor – pois este amor vivido até aos limites tem por protagonista um casal de actores de grande sucesso nos palcos dos teatros portugueses do princípio do século XX. É, aliás, por ter esta vertente que foi escolhida para apresentar o romance a actriz Maria João Luís – e vamos lá ver o que vai ela dizer a propósito de tudo isto. Se quiser, apareça para o saber em primeira mão.


 


Estranhezas

Um fim-de-semana destes, o caderno «Actual» do Expresso dedicava várias páginas aos escritores portugueses que, segundo determinados críticos e jornalistas que ali escrevem regularmente, estavam subvalorizados e sobrevalorizados. Não discuto a ideia, tão boa ou má como outra qualquer mas perfeitamente legítima num país livre, embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (sobretudo se não encontrarem os seus livros à venda, o que tenho a certeza acontece no caso de Alexandre Andrade). O que é, de algum modo, um pouco estranho é que se considere sobrevalorizado e com «livros intragáveis» (assim mesmo) um autor a quem o próprio Expresso dedicou três páginas inteirinhas numa edição anterior (Valter Hugo Mãe); e que se considere sobrevalorizado Fernando Pessoa (pois foi), que é justamente o patrono do prémio que o jornal Expresso atribui todos os anos a alguém que considera excepcional numa qualquer área de conhecimento. E, quanto ao facto de um dos críticos dizer que a revista Ler faz lobby, não pude deixar de notar que nela escrevem dois dos outros críticos chamados a dar opinião umas linhas acima. Estranhezas à parte, não sei se devemos subvalorizar ou sobrevalorizar o dito artigo. Mas lá que deu polémica, deu.

Um livro e uma cabana

A Madalena, que está sempre atenta a tudo e mais alguma coisa (e ainda bem que tenho uma pessoa assim a trabalhar comigo, que eu, com a idade, já só dou conta de metade), falou-me de um projecto bem interessante associado ao programa da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Todos sabem que eu não sou uma fã incondicional de instalações, mas esta tem tudo a ver com este blogue, e já vão ver porquê. Um, dois e muitos, de Marta Wengorovius, é uma cabana de madeira muito bonita que está no Jardim Botânico (à Rua da Escola Politécnica), perfeitamente integrada na paisagem. E para que serve? Pois bem, para ler! A cabana tem apenas uma estante e lugar (bem amplo) para um leitor se sentar ou deitar – e pode ser reservada por algumas horas, ou até um dia inteiro, até ao dia 15 de Dezembro, por quem queira ir ler lá para dentro, olhando a magnífica paisagem do Jardim Botânico pela porta. Os interessados poderão, por exemplo, levar o livro que andam a ler ou escolher um dos da Biblioteca Um, dois e muitos – porque Marta Wengorovius pediu a 20 pessoas que seleccionassem títulos, reunindo um acervo de 60 volumes na estante da cabana. Esta é também uma biblioteca itinerante, porque a cabina (enfim, a instalação), cuja estrutura foi desenhada por Francisco Aires Mateus, já esteve noutros lados e pode andar por aí. Um lugar lindo para ler. Ora dêem uma espreitadela.


 


http://www.dezeen.com/2013/09/21/reading-cabin-by-marta-wengorovius/


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O perigo de ler

Há alguns anos ofereceram-me um belíssimo livro ilustrado que se chamava As Mulheres Que Lêem São Perigosas. Não era, embora possa parecer, um manifesto machista contra a leitura praticada por membros do sexo feminino, mas tão-só um excelente apanhado de pinturas representando mulheres a lerem nos mais variados contextos e épocas. Um dia destes, porém, mandaram-me uma notícia bem estranha (com vídeo incluído, embora de muito má qualidade porque gravado por um telemóvel) que me fez recordar o título deste livro; dizia que uma passageira de uma companhia aérea de baixo custo tinha sido expulsa de um avião por querer levar consigo um livro. Ora, nestas companhias, só se pode mesmo levar uma mala – e a rapariga, ao que parece, tinha um saco com um cartaz e um livro e não queria que aquelas duas coisas fossem para o porão: a primeira, imagino, porque se amachucaria, a segunda – o livro – porque pretendia ler durante o voo. Pois a verdade é que acedeu a pagar 50 Euros de excesso de bagagem (o livro devia ser mesmo bom), mas o cartão de crédito não funcionou e o pessoal de bordo recusou-se a tê-la na cabina com o saco. E, como ela se terá recusado a partir sem ele, foi simplesmente expulsa do avião… Talvez as mulheres que lêem sejam perigosas e tragam bombas dentro dos livros para accionar a bordo.


O link vai abaixo. Vale o que vale.


 


http://www.estandarte.com/noticias/varios/viajera-expulsada-de-un-avion-de-ryanair-por-llevar-libro-y-poster_2032.html

Arquivo

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Já aqui elogiei – mas nunca será demais fazê-lo – a Livraria Arquivo, em Leiria, e o profissionalismo e simpatia dos que ali trabalham há muitos anos (mais do que todos, Paula Carvalho), tornando as nossas visitas leves (porque, quando é para lá, a viagem nem custa), divertidas (porque o público é muito bem-disposto e nos faz sentir em família) e produtivas (porque se fala sempre de questões interessantes e não há nada melhor do que trocar ideias). Pois hoje esfrego de novo as mãos, já que amanhã volto lá, agora com a companhia de três dos meus autores: Ana Margarida de Carvalho, que se estreou em 2013 com o romance Que Importa a Fúria do Mar; Francisco Camacho, que depois de Niassa (vencedor do PEN para Primeira Obra em 2008) nos trouxe em Maio A Última Canção da Noite; e, por fim, David Machado, que escreveu Índice Médio de Felicidade, publicado há cerca de um mês. Este último escritor é o único dos três que já foi à Arquivo por ocasião da publicação de Deixem Falar as Pedras, mas estou mais do que certa de que os outros dois adorarão a sessão e também vão querer ser repetentes. Eu cá estou mortinha por lá chegar e rever os amigos.


 




Inglesices

Aqui há tempos escrevi um post sobre a forma como o inglês se tem metido na nossa língua – e volto ao tema porque o inglês não tem saído das páginas dos jornais. Depois de se ter decidido há uns anos que as crianças deviam aprendê-lo na escola primária, porque era a língua do mundo e quanto mais cedo convivessem com ela melhor (dizem-me alguns pais que os filhos não foram muito além da aprendizagem das cores, dos números até dez e dos nomes de meia dúzia de animais – mas pode não ter sido assim em todas as escolas), de repente já não é preciso para nada e a escola que decida se quer ou não continuar a ensiná-lo aos alunos mais novos. Não me parece grave, devo dizer, que se espere pelos dez anos para começar a aprender outra língua, até porque nesses primeiros quatro anos é bastante mais importante que se aprenda a própria como deve ser e, se calhar, mantendo as duas, a materna ficará a perder. O que me custa entender é que, se o Inglês afinal não tem essa importância desmedida que lhe quiseram dar, seja subitamente objecto de exame obrigatório no nono ano, tal como a Matemática e o Português, duas disciplinas presentes desde a primeira hora da escolaridade. Em que ficamos? Só espero que não se lembrem de cobrar as aulas de Inglês aos alunos da primária como actividade extracurricular, pesando ainda mais no orçamento das famílias. Com o aviso de que o exame vai ser «abençoado» por Cambridge, alguns pais não vão querer correr o risco de não pagar…

História de uma paixão

Quase todos (se não todos) os escritores são leitores desde muito jovens – e é a leitura que acaba por levá-los provavelmente à escrita. Mas nem todos serão bibliófilos como o britânico Julian Barnes, de quem li recentemente um delicioso opúsculo que parte de um artigo publicado no jornal The Guardian no ano passado e chamado My Life as a Bibliophile. Nele, o autor conta que beneficiou claramente de não ter televisão em casa nos primeiros dez anos de vida e de ter sido criado por pais (e avós) professores que tinham bibliotecas respeitáveis, embora confesse que estas não o excitavam por aí além e que foi o despertar do sexo que o levou a investigar com mais atenção as prateleiras (assim lendo o Satyricon, de Petrónio, aos onze anos, que era o livro mais escaldante que havia nas estantes). A partir de então, tornou-se um leitor feroz, um coleccionador de primeiras edições e um consumista de obras literárias – um bibliómano, como nos diz –, frequentando pequenas livrarias de bairro e alfarrabistas e gastando mais de metade dos seus rendimentos mensais em livros e colecções. Hoje, tantos milhares de livros depois, não gosta muito de e-books, confessa – acha que cada livro em papel tem um toque e um cheiro específicos e que os livros electrónicos cheiram todos ao mesmo (a nada). Conclui que ler é uma capacidade que quase todos têm, mas uma arte para poucos: sempre houve não-leitores, leitores preguiçosos e maus leitores – e continuará a haver. Espero é que os bons leitores como Barnes também se mantenham por muito tempo.

Professor-escritor

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Os professores – já se sabe – têm uma vida difícil e raramente são premiados (excepto quando os alunos são dedicados e trabalhadores,  o que, digo eu, deve ser o melhor prémio de todos). Porém, há professores que acumulam o ensino com a escrita – e a FENPROF decidiu criar há meses o Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues para distinguir obras literárias escritas por professores de todos os graus de ensino que estejam no activo, homenageando – e muito bem – a figura do escritor recentemente desaparecido que, além de professor e de ser um nome decisivo das nossas letras, era uma pessoa invulgarmente generosa e atenta a tudo o que se ia escrevendo no País. Pois amanhã este prémio irá para uma autora minha – e não podia deixar de partilhar a minha alegria convosco nestas Horas Extraordinárias. O livro chama-se O Rei do Monte Brasil, assina-o Ana Cristina Silva, professora no ISPA, e é um romance psicológico que põe em confronto duas figuras históricas: Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque. Essa mesma obra é também finalista do Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril-Sol, cujo vencedor será conhecido amanhã. Parabéns, querida autora!


 


O livro da paisagem

Valter Hugo Mãe acaba de publicar um novo romance intitulado A Desumanização. Achei a capa muito feia e desajustada para um livro tão avassaladoramente poético (quiçá fosse mais apropriada uma capa deste tipo para O Filho de Mil Homens, o romance anterior), mas o autor costuma decidir esteticamente sobre a matéria e presumo que a ideia terá sido dele. Não sei se os fãs mais recentes de Valter Hugo Mãe, os que o começaram a ler com A Máquina de Fazer Espanhóis, vão engraçar com este livro, porque o humor que costuma temperar a tragédia está ausente desta vez e, sem ele, nem todos os estômagos vão aguentar a digestão. Mas é seguramente a obra do autor em que a linguagem se sobrepõe mais claramente à estrutura e ao enredo (e quantas frases seria possível copiarmos para um caderno como das mais belas de sempre?) e a paisagem – os fiordes islandeses – impera sobre as personagens. Livro de homenagem confessada à Islândia, preparem-se os que ainda não o leram para a tristeza de uma vida – uma adolescente que, além de perder a irmã gémea, convive com uma espécie de culpa pela sua morte, seja porque ela a afasta da mãe que não supera o desgosto e parece castigar por ele a filha que sobrevive, seja porque, sem o seu «espelho», a rapariga toma atitudes que sabe seriam censuradas pela irmã desparecida. Cruel e místico a um tempo, este é um livro para ver o abismo através das palavras e tem dentro quase todos os livros que Valter Hugo Mãe publicou até hoje, já que muitas figuras remetem, ainda que sem querer, para as de outros romances, sobretudo os dois primeiros, e para alguns poemas.

Paternalismo

Já não sei quem dizia que não existe maior despotismo do que o paternalismo excessivo. Não tenho a certeza, mas uma das críticas que mais teci ao sistema de ensino quando fui professora foi a incapacidade de autonomizar os alunos, tratando-os com exagerado paternalismo e proteccionismo, por vezes até como se não fossem capazes de pensar pelas próprias cabeças e os professores tivessem de lhes dar a papa toda feita. Na altura, lembro-me de que o programa de Português incluía umas quantas aulas sobre banda desenhada e que fazia parte da matéria explicar o que era um balão de fala e um balão de pensamento, como se os miúdos não estivessem fartinhos de o saber… Um dia destes, chegou-me a notícia de que saíra um livro sobre O Principezinho explicado às crianças (acho que de duas professoras) e, mesmo não conhecendo o seu conteúdo, fiquei um bocado indignada. O Principezinho, de Saint-Exupéry, não é propriamente linear, mas explicá-lo às crianças não será contraproducente? Eu li-o em miúda e não me incomodou a sua complexidade; o que não entendi na altura entendi mais tarde, porque a ele voltei muitas vezes com várias idades. Era mesmo preciso um guia do aluno para este livrinho com setenta anos como aqueles que eu comprava na universidade para perceber melhor a poesia de Dylan Thomas ou Gerard Manley Hopkins? Não creio. Deixar os miúdos raciocinar sobre o que lêem parece-me estar a passar de moda, e isso – sim – é grave.

Mandamentos

Ao fim de muitos anos a trabalhar num gabinete independente – os primeiros dez –, puseram-me numa sala com a minha equipa; foi muito difícil adaptar-me, confesso, sobretudo por causa dos telefonemas, pois não consigo concentrar-me na leitura quando as pessoas conversam ao meu lado. De há três anos para cá, recuperei felizmente a minha privacidade e, embora quase nunca feche a porta, sinto-me melhor assim. A mesma sorte não tem, porém, a minha querida assistente (que uma vez ou outra tem de ir ler para uma sala de reuniões por causa do barulho) nem as assistentes dos outros editores, que trabalham todas juntas em open space; e, talvez para mitigarem as suas dificuldades, resolveram escrever alguns mandamentos do assistente editorial que espalharam alegremente pelas paredes e colunas que as rodeiam. Entre essas folhas de papel, encontrei, contudo, um dia destes uma misteriosa frase que dizia: «O mal aglutina, o bem hifeniza.» Tardei a compreender que aquilo não passava de um lembrete de uma regra gramatical para alturas em que se dedicassem à revisão. Deve escrever-se «bem-disposto», com hífen, mas «maldisposto», tudo num só vocábulo. Mas, até chegar a essa conclusão, ocorreu-me que, efectivamente, quando há maledicência todos se juntam para atear a fogueira (o Facebook é um bom exemplo disso) , enquanto para elogiar nem sempre. Não era um mandamento nem uma constatação, mas parecia.

As cidades escritas

Já aqui falei ao de leve neste livro quando ele saiu, mas só nas férias pude lê-lo de fio a pavio e observar, com a devida atenção, as fotografias e ilustrações que o compõem. Chama-se Contos Capitais e, como o título indica, inclui contos que tomam como ponto de partida cidades capitais de todo o mundo. Mas, se nuns casos, poucos, a capital serve apenas de cenário a uma história que podia quiçá passar-se noutro lado, a verdade é que noutros a cidade é quase a protagonista da história (como, por exemplo, Sarajevo, de Valério Romão, ou Roma, do nosso querido Urbano Tavares Rodrigues, que nos traz um caso de amor em que a mulher só podia ser italiana). Interessante também é que a própria colectânea sirva de tema ao autor do conto sobre Buenos Aires, Miguel Real, que começa justamente a sua narrativa pelo convite do editor para que escrevesse sobre uma capital. O leque de estilos e abordagens, de gente com idades e olhares muito diferentes, torna este volume muito atraente e equilibrado. Para quem gosta de contos, esta é uma obra a não perder.

O editor em extinção

Durante muitos anos, os países – sobretudo os que tinham vivido ditaduras e uma situação de analfabetismo prolongada – queixavam-se de que as pessoas liam pouco (ou, pelo menos, que poucas pessoas liam). Agora, é mais comum ouvir-se dizer que há muito mais gente a ler, mas que a maioria lê «mal», não necessariamente por não dominar a capacidade de leitura, mas por escolher maus livros, que em nada contribuem para o crescimento intelectual e a formação do indivíduo. Faço aqui um mea culpa em nome da classe e digo que os editores (sobretudo aqueles que não cumpriam ordens e podiam fazer de outro modo) tiveram aqui uma grande responsabilidade, pois, em lugar de publicarem obras que pudessem fazer dos leitores gente mais informada e culta, deram-lhes papa de entretenimento feita com ingredientes de segunda e assinada por gente analfabeta com carinhas larocas e conhecidas, aspirando, mais do que tudo, às receitas e ao lucro. Sinto que cada vez mais é assim – que isto se tornou um vício – e que todos os anos a literatura perde vendas para as chachadas ditas comerciais. O mesmo em todo o mundo, sublinhe-se, tendo eu sabido recentemente que o grande editor alemão Michael Krüger, no activo desde 1968, decidiu retirar-se e ir para casa, alegando que já não faz falta, pois as pessoas gostam sobretudo de livros maus. O editor é uma espécie ameaçada.

Longe de casa

Toda a vida ouvi dizer que uma boa instrução primária era meio caminho andado para o sucesso escolar nos níveis seguintes. Nos poucos anos em que fui professora, tive uma turma excelente que tinha vindo toda junta da então quarta classe e lamento agora não me lembrar do nome da professora que acompanhara esses alunos, pois ela merecia que a felicitasse aqui publicamente. Há umas duas semanas vi, num Telejornal, uma reportagem sobre quatro professoras do ensino básico que, por fecho de escolas e aumento do número de alunos por turma na sua área de residência – julgo que em Montalegre, Trás-os-Montes –, perderam o lugar que tinham e fazem agora 570 quilómetros todos os dias até à nova escola, revezando-se a conduzir o automóvel e dividindo os gastos com a gasolina. Acordam certamente às quatro da manhã, pois as aulas começam às nove, e têm filhos pequenos que não podem acordar nem levar ao infantário. Quando regressam, só podem dar-lhes o jantar e metê-los na cama, antes de caírem também elas no sono, obviamente exaustas e sem força para mais nada. Se fossem solteiras, talvez considerassem a mudança de casa para o local de trabalho, mas, com as vidas arranjadas há muito, não vêem outra hipótese senão a longa viagem multiplicada por duas (ida e volta). Pergunto-me se estas senhoras conseguirão, nas circunstâncias descritas, ser boas professoras e ter paciência para um ror de crianças barulhentas. Uma delas disse até que estava até a pensar deixar o ensino e fazer outra coisa – e interrogo-me também se não é isto mesmo que querem que faça, com tanto professor à espera de colocação… Os miúdos ainda hão-de pagar a factura destas deslocações. Com IVA, claro.

Ler em grupo

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Dizem que a psicoterapia de grupo funciona muito bem porque os pacientes ficam aliviados ao perceberem que não são os únicos que enfrentam certo tipo de frustrações e problemas e isso acaba por levá-los a relativizá-los. Acredito, por isso, que as comunidades de leitores possam ter igual sucesso pela partilha e pelas afinidades entre leitores, além de que um orientador ajuda muito a esclarecer algumas questões que, por vezes, se nos colocam durante a leitura de um livro. Se lhe apetece «ler em grupo», estão abertas as inscrições para uma nova comunidade de leitores dinamizada por Luís Ricardo Duarte, um jovem jornalista do Jornal de Letras que acho muito sóbrio, culto e inteligente (e, ainda por cima, com um sorriso bem simpático). As sessões realizar-se-ão em duas livrarias – a Buchholz e a Barata – entre os dias 2 de Outubro e 18 de Dezembro, às 18h30, e incluirão livros que procurarão acompanhar a actualidade literária nacional. O preço de 30 Euros para seis sessões pode parecer muito dinheiro, mas a verdade é que os inscritos receberão um vale de 15 Euros para gastar em livros e, desse modo, serão compensados em 50% do investimento (se gostarem do livro que adquirirem, digo eu). Mais informações no link abaixo.


 


http://leyaemgrupo.blogspot.pt/


 


O que ando a ler

Reparo que o irlandês Colm Tóibin está de novo entre os finalistas do Booker Prize em 2013 (a anunciar no dia 15) com um livro já publicado em Portugal (O Testamento de Maria, que ainda não li). Gosto, em geral, do que vem da Irlanda, sobretudo livros e filmes, e deste autor leio agora um outro romance que também chegou à final do Booker há vários anos chamado O Navio-Farol de Blackwater. Nele encontramos belas personagens – desde logo, Helen, a protagonista, que se tornou adulta precocemente com tudo o que envolveu a morte do pai, sobretudo o silêncio da mãe (outra personagem de respeito), até porque sentiu que deveria proteger o irmão mais novo que, quando a narrativa se inicia, muitos anos mais tarde, está internado com SIDA num hospital e lhe pede que informe a família. Muito interessante este regresso ao passado, às memórias na casa da avó nesses meses em que o pai agonizava longe deles e a mãe parecia ignorar que tinha dois filhos pequenos a necessitarem da sua presença. Muito interessante também o que se prolonga desse desconforto no presente, quando mãe e filha, que aparentemente se detestam, têm de conviver e conversar sobre a homossexualidade e a doença de Declan, o rapazinho mimado que quer agora acabar os dias na casa do farol, mesmo que a avó não pareça pelos ajustes. Com uma prosa limpa e descrições muito competentes de lugares e estados de alma, O Navio-Farol de Blackwater é um romance sobre as complexas relações familiares e os lutos que todos temos de fazer frequentemente em vida.

Ó tempo, volta para trás

Clara Ferreira Alves (CFA) não é, seguramente, uma personalidade consensual. O seu tom assertivo, ao que sei, irrita muita gente – e vê-la no Eixo do Mal contribui decerto para que algumas pessoas não a estimem muito Não estou lá muito convencida de apreciar a sua presença na televisão, mas leio sempre os seus textos com muito interesse na Revista do Expresso aos sábados e, mesmo que não concorde em permanência com as suas ideias, acho-a uma mulher inequivocamente culta e inteligente que, ainda por cima, escreve francamente bem (o que já é raro nos jornalistas). Recentemente, CFA dedicou uma crónica à morte da cultura literária (no dia 7 de Setembro, para quem não leu) e, dessa feita, bem queria ter discordado dela – mas poucas vezes na vida li coisa tão certa, tão clara e que me alarmasse tanto. A sua afirmação de que a revolução tecnológica destruiu o mundo como o conhecíamos pode parecer exagerada, mas o artigo é límpido como água, e a primeira consequência deste progresso tecnológico é o fim da consagração da literatura e do pensamento como arte, como criação. Agora, troca-se a biblioteca pelo shopping, e os media, a televisão mais do que todos, festejam todos os dias a ignorância e ainda batem palminhas. O tempo não volta para trás, isso é uma certeza inabalável. Mas então que faço eu agora, não me dizem, à procura do talento literário que cada vez menos gente deseja ou compreende? Por favor, leiam o artigo e digam-me se não tenho razão para ter medo do que aí vem.