Classificações

Classificar uma obra literária nem sempre é fácil, menos ainda quando há que obedecer a uma nomenclatura. Quando era mais nova, na primeira editora onde trabalhei, tinha de preencher uma ficha bibliográfica por cada livro que era publicado e – o que era pior – de o classificar, cingindo-me a uma lista fornecida pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros que, por muito extensa que fosse, me parecia sempre lacunar. Embora alguma coisa tenha sido feita para diminuir a confusão, a verdade é que os problemas de classificação subsistem, e não só quando o livro que temos na mão é mesmo uma obra inclassificável. Quando publiquei Atlântico, Um Romance Fotográfico, de Pedro Rosa Mendes e João Francisco Vilhena – belíssimo livro –, reparei que as livrarias o arrumavam sistematicamente na secção dos álbuns ilustrados e livros de arte, roubando-lhe provavelmente os seus leitores preferenciais – que visitavam sobretudo a sala de literatura. Agora, que recentemente dei à estampa o último romance de Miguel Real, encontro-o frequentemente arrumado na secção de História, porque, como se chama As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia – e embora tenha a palavra ROMANCE na capa –, é interpretado pelos livreiros como uma obra não ficcional. Nos Estados Unidos, um livro como As Cinzas de Ângela, de que aqui já falei, aparecia sempre nas listas de Não Ficção (uma vez que era autobiográfico), enquanto em Portugal foi sempre considerado um romance. E, para dar apenas mais um exemplo da desarrumação em que andamos, na zona dos livros Gay & Lesbian, não raro encontro títulos que nada têm que ver com essa temática, mas lá estão apenas porque alguém na livraria sabe que, por acaso, os seus autores eram gay ou lesbian... Enfim, nem tudo é mau: pode ser que um leitor que procure apenas uma coisa alinhada acabe a ler Oscar Wilde e se apaixone...

Comentários

  1. Obrigado pelo que nos dá neste espaço.
    Aprecio tudo o que diga respeito a livros, edições, etc.
    Faço o que posso para divulgar bons livros e autores. Por isso me sinto em casa neste seu espaço.
    Sara´vah!

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  2. Sim, não deve ser tarefa fácil organizar “mapas e imagens” que geograficamente estão sempre em acção. :) Os que ainda não têm classificação deveriam ficar na secção das reticências.
    Se não houver o gosto pela descoberta dentro de cada um, podemos passar por “ela” uma vida sem lhe dar a devida importância. O professor António Damásio, na sua última obra O Livro da Consciência, fala-nos dos sonhadores treinados.

    Cito na pág. 224 “(…) Durante os sonhos temos uma espécie de consciência atípica em acção, sendo o termo paradoxal o mais adequado para essa situação. Considero, no entanto, que o processo imaginativo representado nos sonhos não é orientado por um eu regular a funcionar plenamente, um eu do mesmo tipo que empregamos ao reflectir e deliberar. (Exceptua-se a situação dos chamados «sonhos lúcidos», em que sonhadores treinados conseguem, até certo ponto, orientar o tema dos sonhos.) A nossa mente, consciente e não-consciente, recebe provavelmente o seu ritmo e pauta do mundo exterior, cuja informação apoia a organização dos seus conteúdos.”

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  3. Se me permite, acho que o título "As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia" não é muito feliz para um romance, já que a palavra "Memórias" remete para uma biografia, obra não ficcional. Infelizmente, por não viver em Portugal, não vejo os livros "ao vivo" (só se os comprar, claro), mas lembro-me que, ao ver a imagem dessa capa na internet, a indicação"romance" me confundiu um pouco.

    Claro que esta minha opinião não tem nada a ver com a atitude de livreiros, digamos, menos informados (como no caso dos autores homossexuais).

    De qualquer maneira, a escolha de um título invulgar, fora do comum, não deixa de ser uma faca de dois gumes...

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