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A mostrar mensagens de março, 2026

Babell

Babell é um novo festival literário no Porto, dirigido por Rui Couceiro, ex-editor da Contraponto e escritor. Para quem se perguntar porque tem este «Babell» dois LL, ouvi recentemente a resposta da boca da escritora e biógrafa Patrícia Reis num programa de rádio: sendo a Lello uma das promotoras do evento (a outra é a Câmara Municipal do Porto), os dois LL de Lello (por acaso, são três) tinham de se estender ao nome deste evento. Podemos dizer que se passa no Porto (para os que dizem que tudo se passa na capital, agora não podem queixar-se) e vai trazer autores internacionais de peso, incluindo Prémios Nobel da Literatura, como, por exemplo, a polaca Olga Tokarczuk, e outros nomes imensamente conhecidos, como Salman Rushdie ou Margaret Atwood. Ao que parece, as sessões acontecerão em lugares icónicos da cidade e a entrada far-se-á mediante a prova de compra de um livro numa das livrarias da cidade. Os protagonistas e o programa serão divulgados hoje no Teatro Rivoli às 18h30 num evento com mais de 700 convidados, e vale a pena ficarmos atentos aos jornais de amanhã se não pudermos ir à apresentação, que é o meu caso.


 


 


 

Mealheiro

Tenho uma amiga francesa que foi professora no Liceu Francês de Lisboa durante anos e que me manda de vez em quando pelo Whatsapp artigos curiosos e divertidos. Um dia destes enviou-me um texto do jornal Ouest-France sobre a razão por que os mealheiros das crianças têm frequentemente o formato de porquinhos. Ora, fiquei surpreendida quando li que estes mealheiros remontam já ao século XVIII, altura em que não eram usados apenas por crianças, mas também por adultos. Na verdade, possuir um porco nessa altura era sinónimo de não correr risco de passar fome; quem tinha um porco tinha com que se sustentar e o porco era sinónimo de abundância para as pessoas do campo e uma reserva de alimento nos anos mais difíceis (um porco está cheio de partes comestíveis). De sinal de abundância a sinal de riqueza foi um passo: no século seguinte criar porcos tornou muitas pessoas ricas, uma vez que o porco cresce incrivelmente depressa e, numa economia rural, é um investimento seguro e eficaz (excepto se houver alguma praga que afecte os suínos). Conta-se ainda no texto que muitos camponeses ricos escondiam o ouro que possuíam dentro dos porcos, fazendo-os engolir moedas e outras peças, para não terem de pagar impostos sobre elas, mas isto já me parece um tanto improvável, pois imagino que o que entra sai e, francamente, não estou a ver os criadores de porcos a chafurdar no cocó das bestas diariamente à procura de cordões e luíses de ouro. De qualquer modo, ainda hoje o porco é um animal com forte dimensão simbólica em muitas culturas, entre as quais a chinesa, na qual incarna nada mais nada menos do que a fortuna. Um porquinho mealheiro é, por isso, um objecto simpático para as crianças... e os adultos... se habituarem a poupar, o que é  um bom costume em tempos de consumismo desenfreado.

Prémio de Poesia Nuno Júdice

Raramente aceito ser membro do júri de um prémio literário. O trabalho é homérico e, geralmente, é assustador ver entrar pela nossa casa uma data de caixotes com originais impressos e pensar que vamos ter de pôr os olhos naquilo tudo. Aconteceu-me uma vez e foi mesmo terrível. Hoje vem tudo por email e lê-se no ecrã para poupar papel, o que retira parte do susto. Mesmo assim, prometi a mim mesma que nunca mais; mas, tendo feito a excepção com meia dúzia de concursos escolares em que só tinha de ver os trabalhos finalistas, acabei por aceitar presidir ao Prémio de Poesia Nuno Júdice no ano passado. O Nuno era um amigo e digamos que senti quase como um gesto de amizade escolher, com o resto dos jurados, um vencedor que ficará para sempre associado ao seu nome. O prémio, que coube à arquitecta Carla Louro com o livro Entra-se na Casa pelo Pátio, vai ser entregue amanhã na cidade onde mora, Abrantes, onde, ao mesmo tempo, a Biblioteca estreia uma exposição dedicada a Nuno Júdice. Mas o importante é lerem o livro, mesmo muito bom, que arrecadou o galardão por unanimidade. Estavam no júri Cecília Andrade e Sandra Mendes, da Dom Quixote, e os poetas Filipa Leal e Ricardo Marques. Entrem por favor em casa pelo pátio e saiam muito satisfeitos.


 

Literatura e artes

Há muitos anos, mas já a trabalhar na edição, fiz na Universidade Nova um pequeno curso chamado Diálogo da Literatura com as Outras Artes, que era organizado por várias professoras do departamento chefiado por Teresa Rita Lopes. Foi bastante interessante, com convidados de cada uma das áreas, e soube que houve outros cursos do género mais tarde na mesma universidade, mas não consegui frequentar mais nenhum. Ora, o cantor lírico e mestre em Literatura Comparada Jorge Vaz de Carvalho, tradutor, entre outros, do Ulisses de Joyce (que coragem), vai dar um curso semelhante no Âmbito Cultural do El Corte Inglés a partir do dia 6 de Abril, em cinco sessões ao final da tarde. Elas tratarão da relação da literatura com a música, as artes visuais, o cinema, o teatro e a ópera e haverá ainda uma «aula final» que fará a síntese. Desta feita, o curso chama-se Literatura e Artes e falará das ligações históricas e estéticas, começando na poesia medieval e estendendo-se à literatura contemporânea. Aposto que vai ser interessante.

Formação

Gosto de ler romances de formação, aqueles em que acompanhamos o crescimento de um protagonista geralmente desde a infância ou da adolescência. Todos conhecemos livros assim (David Copperfield, Huckleberry Finn, O Apanhador no Campo de Centeio, O Meu Pé de Laranja Lima, Retrato do Artista Quando Jovem, A Montanha Mágica, A Amiga Genial...); mas há uns quantos não tão óbvios que também são romances de formação, como o excelente La Coca, de Rentes de Carvalho, que fez as minhas delícias num certo verão e me levou a outros romances do autor. Acabei há pouco mais um romance de formação, desta feita Setembro Negro, de Sandro Veronesi, um autor de que tinha lido já o magistral O Colibri, de que fizeram um filme não horrível, mas que fica muito aquém. Este Setembro Negro é a história de um Verão que torna um rapaz adulto, seja por questões de paixão (é a sua primeira experiência amorosa, aos 12 anos, e a menina é a vizinha de toldo na praia); seja por questões de maturidade (é preciso decidir entre a rapariga e os Jogos Olímpicos, o que é mesmo difícil); seja até pela descoberta de contratempos bastante inesperados no seio da família, mas também no seio do mundo, porque tudo se passa em 1972, nos Jogos de Munique, em que uma data de atletas foram sequestrados e mortos. O final é muito surpreendente, mas o que leva até ele é de longe mais interessante, e a cena de como dançar leva ao primeiro beijo a sério é inesquecível. E a capa do livro é linda, com o rosto do protagonista a ver-se à transparência na vela de um barco. Um autor a que ficar atento. 

Competência e criatividade

Em tempo de Óscares, os nossos meios de comunicação (rádio, televisão, jornais...) dedicaram bastante espaço à história da atribuição da estatueta dourada ao longo do tempo. Numa página aqui da Sapo, aprendi uma coisa que não sabia: que no primeiro ano em que foram entregues os Óscares havia duas categorias para aquilo que, em pouco tempo, se tornou uma só: a de Melhor Filme. Este prémio é entregue, na verdade, ao produtor (o realizador tem direito ao seu próprio galardão) e, em 1928, quando tudo começou, foi dado a duas produtoras distintas, uma que correspondia simplemente à «Melhor Produção», outra à «Produção de Maior Qualidade Artística». Ou seja, competência e arte. Neste último chapéu, o da arte, a estatueta foi para Aurora, de Murnau; Asas, de William A. Wellman, deu o Óscar à eficaz Paramount. Isto levou-me a pensar nos livros, em coisas que lemos extremamente bem feitas e em coisas que lemos altamente criativas. Já vi o melhor prémio de romance ser entregue aos dois tipos atrás referidos. De uma das vezes que foi atribuído ao romance A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, um importante prémio em Portugal, a elite intelectual indispôs-se bastante, achando que, por muito bem engendrada que fosse a narrativa, o livro era leve, não dizia nada de novo e, enfim, não merecia (em Espanha, de resto, aconteceu a mesmíssima coisa, e lá nem sequer tinha a aliciante de mostrar Barcelona aos leitores, pois muitos eram de lá). E, porém, há muitos livros que arrecadam os grandes prémios pela arte da escrita e são passíveis de agradar a muito menos gente (como a minha Marguerite Duras, por exemplo). Lembro-me de um grande leitor que conheço não ter percebido porque Jon Fosse ganhou o Nobel, achando que tudo o que o norueguês escreveu é insuportavelmente repetitivo e quase pueril. Enfim, tudo é subjectivo, mas talvez pudéssemos criar um prémio ao lado do de Melhor Romance para Romance extremamente Competente (mas não necessariamente de alta literatura).


 


 

Relativizar a morte

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Ao regressar a casa depois da escola, um menino de oito anos vê a sua primeira vítima assassinada pela Máfia, enquanto as bolas dos colegas batem nas persianas fechadas e os cromos de futebol passam de mão em mão. Esses «encontros» acabam por tornar-se quase banais – e é só como adolescente que descobre, em conversa com um colega que foi a Londres, que as mortes da Cosa Nostra são um exclusivo da cidade onde cresceu. Num passeio organizado pelo professor de Religião e Moral, decide então escrever as suas instruções para sobreviver a Palermo e entrega-as ao padre que, pouco depois, acabará morto com um tiro na nuca. No ano em que faz os exames de admissão à universidade, fica sozinho na cidade e a família, de férias nas Dolomitas, sabe do homicídio de um juiz cuja vivenda fica em frente da sua e apanha o maior susto da sua vida. Davide Enia conta-se a si próprio neste texto belíssimo, Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia, que já foi levado à cena no seu país e no qual ele empresta a voz a três investigadores policiais que, como uma obsessão, uma vocação, um dever, lutaram e derrotaram o braço armado da Máfia. As suas palavras correm por estas páginas como pelas ruas e vielas de uma cidade tão acostumada ao silêncio quanto ao rugido das bombas e onde o reflexo numa poça de sangue é o seu autorretrato. Notável livrinho traduzido por Ana Maria Pereirinha do autor do igualmente maravilhoso Notas para Um Naugfrágio, sobre os desembarques de migrantes em Lampedusa.


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Ausente

Hoje e amanhã estarei em Ponta Delgada, em três actividades distintas, pelo que não haverá blogue nestes dois dias. Obrigada pela paciência. Feliz dia aos pais.

O estilo

Muitas vezes recebo textos para apreciação que não têm voz, iguais a recados que colássemos na porta a pedir ao carteiro que deixasse a nossa correspondência com a porteira. O que um editor procura acima de tudo é uma voz, um estilo próprio, algo que identifique e distinga um autor dos outros e dos não-autores (pegando na etimologia, os que não acrescentam nada ao que já existe). Uma das formas de entender o que é esse estilo diferenciador é ler um notável livrinho de Raymond Queneau chamado Exercícios de Estilo que descobri, creio, ainda na faculdade e no qual a mesmíssima situação é abordada de uma profusão de pontos de vista: desde o texto publicitário ao tom de surpresa, da descrição antiquada à narração hesitante, numa abordagem botânica ou gastronómica, num texto telegráfico ou sob a forma de ode ou soneto, o homem que o narrador encontra no autocarro que tem pescoço comprido e chapéu na cabeça aparecerá 99 vezes e nunca será o mesmo por causa dos variadíssimos estilos. Um excelente exercício que ajuda a compreender que o «como» é o que interessa mais em literatura. Ou seja, uma história maravilhosa pode ser deitada a perder se não a soubermos contar. Uma história banal pode ser salva por um poderoso estilo.

No comboio

O comboio faz parte de muitos livros de viagens, mas não só, pois existe em variadíssimos enredos literários. Assim sem pensar muito, lembro-me do êxito recente de A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins, mas também de Morte no Expresso do Oriente, de Agatha Christie, A Mais Preciosa Mercadoria, de Jean-Claude Grumberg (cuja trama se passa num comboio para Auschwitz), Comboios Rigorosamente Vigiados, de Bohumil Hrabal, ou O Desconhecido do Norte Expresso, de Patricia Highsmith, que deu um filme incrível de Hitchcock. A LeYa concebeu este ano um comboio literário, em que os leitores viajam ao lado de uma vintena de escritores a quem podem pedir autógrafos e opiniões. A viagem faz-se de Lisboa a Évora, inclui visita à Feira do Livro desta cidade, um pequeno concerto de Luísa Sobral (também escritora, não esqueçamos), uma ida a Vila Viçosa, jantar, dormida e regresso. Tudo em carruagens bonitas, com livraria e bar. Esgotou, assim que anunciada na última sexta, esta viagem no comboio literário que tem o Alentejo por destino, mas talvez vá até outros lados noutras datas. Se não conseguiu bilhete, não desanime. 

Poeta por fim

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José Carlos de Vasconcelos, opinador, jornalista, editor, advogado e POETA (entre outras coisas como apreciador de caldo-verde), dirigiu ao longo de anos e anos um jornal literário que se estreou andava eu na faculdade, sem nunca falhar um número. Chamou-se JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias. Com poucos recursos (qual é a publicação dedicada às letras em Portugal que tem dinheiro?), às vezes era o próprio José Carlos quem tirava as fotografias em festivais internacionais por não haver orçamento para o fotógrafo. Rodeado, porém, de grandes profissionais (Maria Leonor Nunes, João Ribeiro, Luís Ricardo Duarte, Manuel Halpern...), deu capas e muitas páginas a todos os que escreviam no País, esquecendo-se ao longo de décadas que também ele próprio era escritor e que, apesar de não ter tempo para publicar (chegou a deixar amarelecer em casa umas provas que nunca reviu nem devolveu ao editor),  sempre poetou e burilou continuamente poemas antigos. Ora, foi preciso que acontecesse a grande infelicidade de o JL ter chegado ao fim (e a falta que nos faz), e o José Carlos de Vasconcelos não poder mesmo mantê-lo de pé, para eu ter tido o privilégio de me sentar com ele e os seus poemas à roda da mesa e publicar agora o seu livro Os Sete Sentidos e Outros Lugares, que será hoje apresentado pelo professor Helder Macedo no El Corte Inglés, às 18h30. Vamos lá?


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Excerto da Quinzena

Vejo o primeiro cadáver de um assassinado aos oito anos, ao voltar para casa, vindo da escola pelo exato percurso que estava combinado com os meus pais: Rua Montuoro, Rua Scobar, Rua Leonardo da Vinci, Rua Galileu Galilei, Rua Mozart, Rua Liszt, três andares de escadas, casa.


Ao longo da Rua Montuoro vou pensando no que se passou na escola, finalmente estudámos um povo fantástico, os Fenícios, grandes navegadores. Sigo pela Rua Scobar e vejo três pessoas, imóveis como árvores, a olhar para o mesmo sítio. Há um corpo caído no chão, no passeio, mesmo debaixo da varanda da casa do meu colega Giuseppe Malato, que precisamente hoje faltou à escola. Uma poça de sangue nasce da cabeça do homem que está estendido.


E este é o primeiro assassinado que vejo, por isso encaminho-me na sua direção, mas apercebo-me de que o morto ainda deve estar fresco, na verdade a polícia ainda nem chegou, e, como se por telepatia, um pensamento idêntico brota em uníssono nas cabeças de todos os presentes, de repente todos nos afastamos dali, cada um retomando o seu próprio trajeto,  indo à sua vida, sem correr, nunca se deve sair a correr do lugar onde onde alguém foi morto, se a polícia nos parar vão perguntar-nos porque íamos a correr, para onde íamos, o que estávamos a fazer ali. É melhor nunca ter nada a ver com a polícia.


Davide Enia, Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia,


tradução de Ana Maria Pereirinha

Amigos para sempre

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Na Roménia comunista com o seu legado multiétnico, cuja diversidade é uma riqueza silenciada, o destino aproxima Lev – um rapaz acamado – de Kato, uma rapariga que gosta de desenhar e veste demasiado cedo o casaco da solidão. Kato vai ajudar Lev com a matéria das aulas, mas o que começa como um gesto imposto pela escola torna‑se, para ambos, uma amizade inesperada que devolve a Lev a saúde e oferece a Kato um lugar onde finalmente pode repousar. Anos depois, já adultos, os caminhos de sempre continuam a chamar por Lev, como um pássaro que não tem coragem de sair da gaiola, enquanto Kato voou e partiu para o Ocidente, à procura de um horizonte mais vasto. O que os une agora são apenas os postais que ela lhe envia – pequenas janelas para vidas que poderiam ter sido partilhadas. Até ao dia em que chega um postal de Zurique, com uma pergunta simples e desarmante: «Quando vens?» E então reabre-se a porta para o passado, vivo, íntimo, incontornável. Clareiras, de Iris Wolff, é um romance luminoso sobre a forma como duas vidas podem tocar‑se e transformar‑se para sempre. Romance Finalista do Prémio do Livro Alemão 2025, é a história de uma amizade extraordinária, uma viagem ao passado para melhor compreender o presente da Europa. A tradução é de Paulo Rêgo.


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Saúde mental num livro tão bonito

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Aclamado como o romance mais comovente de Anne Serre até ao momento e uma «obra-prima de simplicidade, emoção e elegância», Um Chapéu de Leopardo é a história de uma intensa amizade entre o Narrador e Fanny, sua amiga de infância, que sofre de doença psíquica. Vivendo sempre entre a esperança e o desespero, Fanny deixa transparecer, de forma intermitente, várias facetas da sua personalidade, como a Fanny divertida que um dia roubou um chapéu de leopardo. Porém, essa faceta permanece quase sempre oculta, revelando sobretudo uma Fanny que carrega o peso insuportável da tristeza. É uma pessoa diferente – e essa diferença é aquilo que o Narrador questiona incansavelmente, tal como a autora questiona de forma lúdica a própria forma do romance, levando-nos frequentemente a pensar que o Narrador é, no fundo, o seu alter-ego. Escrito após o suicídio da irmã mais nova de Anne Serre, que tinha uma doença mental, Um Chapéu de Leopardo pode ser lido como a celebração de uma vida tragicamente interrompida ou como uma despedida incrivelmente bela e sensível. Ganhou o Prémio da Fundação Cino del Duca e foi finalista do Man Booker Prize Internacional. A autora já tinha ganho o Prémio Goncourt com o livro anterior, de contos. A tradução é de Rui Elias e a capa de Rui Garrido.


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Decepções criativas

Este é o ano das adaptações cinematográficas de muitos romances clássicos e contemporâneos (já falei disso aqui), mas ontem um dos meus autores contou-me que, mesmo quando um filme tem um tremendo sucesso, nem sempre o escritor gosta do que foi feito com o seu livro. O magnífico O Amante (que ganhou o Prémio Goncourt) de Marguerite Duras tornou-se um filme do realizador Jean-Jacques Annaud nos anos 1990. Eu vi esse filme e gostei (claro que o livro é outra coisa), mas a escritora, pelos vistos, detestou-o. Achou que ele traía o romance e que a adaptação era «obscena» em relação à verdade do livro. Conta-se que ela não gostou de ver a sua história (sua mesmo, biográfica) escapar-lhe do controle e que só não fez ela própria um filme do livro logo a seguir porque adoeceu naquela altura. Mas teve discordâncias profundas com o realizador, pois achou que a sua abordagem fora demasiado comercial e que simplificara a complexidade do romance, transformando-o num «melodrama exótico». Porém, longe de ficar parada, tomou a caneta e reescreveu o enredo num livro-guião chamado O Amante da China do Norte. Usou a decepção para criar. Magnífica terapia.


 


 

António Lobo Antunes

Indignaram-se alguns leitores deste blogue por eu não ter vindo a correr participar e lamentar a morte do escritor António Lobo Antunes na quinta-feira passada. Chegaram mesmo a acusar-me de «ostracismo» em relação a Lobo Antunes, como se me conhecessem. Caramba... Como dizia a minha avó, «um julgador por si se julga». Pois hoje queria, em primeiro lugar, dizer que um blogue não é um jornal diário e por isso não tem de dar notícias em cima da hora. Depois, eu não me encontro sempre diante do computador, e por acaso até estive bastante ocupada de manhã à noite nessa quinta-feira, fui ao hospital ver a minha mãe (que teve alta na sexta), fui a Setúbal a uma sessão com Itamar Vieira Junior na Livraria Culsete (e apanhámos imenso frio), jantámos tarde e cheguei a casa quase à meia-noite. E, além disso, não escrevo por escrever, e não diria decerto da obra de Lobo Antunes nada que não se saiba já ou que outros não digam bem melhor do que eu. Também não sou do género de vir aqui mostrar o livro autografado pelo génio, até porque raramente peço autógrafos. Mas, pronto, para contar se calhar uma história pouco conhecida sobre o eterno candidato português ao Nobel, esclareço que os seus dois primeiros livros (Memória de Elefante e Os Cus de Judas) saíram quando eu andava no segundo ano da faculdade e foram realmente uma bomba, nunca se tinha lido nada assim. Só que uma obra que, com o tempo, se tornou incontornável foi vista nessa altura por alguns professores de Letras como algo pretensamente moderninho e sem grandes qualidades, e lembro-me especialmente de um professor nos dizer «Credo, não leiam  isso»... Para mim, era estranho, claro, porque eu estava a adorar (ainda me lembro de, no primeiro livro, o escritor classificar as mulheres de acordo com a marca de cigarros que fumavam e de eu achar isso muito giro, se bem que as feministas radicais de hoje devam detestar), e valeu-nos a respeitadíssima professora Maria Alzira Seixo caminhar no sentido contrário aos seus colegas para nos tirar de cima o peso de acharmos que em termos literários éramos uns nabos e gostávamos do que não prestava. Depois desses dois livros que mencionei houve mais uns trinta, ficam cá para serem lidos, claro. E isso é que importa. Ostracismo? Se querem um blogue de notícias frescas ou selfies com os mortos, vão a outro lado.

Inquietações

Está aí mais uma edição dos Prémios "Livro do Ano" da Bertrand Livreiros. Ficção portuguesa, ficção estrangeira, não-ficção, etc., muitos candidatos para o público eleger o do seu coração. Descubro que é preciso votar porque encontro apelos para isso de uma das minhas autoras (Luísa Sobral) que se diz entre os finalistas do romance nacional com o livro Nem Todas as Árvores Morrem de Pé. Mas, no mesmo dia, constato que outro dos meus autores, vencedor do Prémio LeYa com o romance Pés de Barro (Nuno Duarte), está exactamente na mesma situação. E, como a sabedoria popular ensina que não há duas sem três, deparo-me ainda com O Último Avô, de Afonso Reis Cabral, no rol de finalistas de ficção em língua portuguesa. São três romances que publiquei no ano passado e, claro, fico muito contente com a distinção destas três obras. Mas o problema é que só se pode votar uma vez. E eu não vou escolher, não posso. Gosto muito dos três livros e não faria a má acção de eleger só um. Claro que se perde um voto, mas às vezes mais vale isso do que ficar de consciência pesada ou ter posteriores arrependimentos. Enfim, vou gastar o meu voto nos livros traduzidos: é que também tenho na final Despedidas Impossíveis, o mais recente romance de Han Kang; que bom não ter mais concorrentes publicados por mim nesta categoria.

Querer escrever

Em quase todos os festivais literários, há uma mesa-redonda cujo tema se prende com o momento exacto em que um escritor percebeu que escrever era o que queria fazer da vida. Já vos contei que Vargas Llosa contou um dia no México que descobriu que não estava sozinho nos seus problemas e tristezas ao ler na adolescência livros que falavam de outros que também sofriam, e que esse foi o primeiro passo para desejar viver outras vidas e escrevê-las. Partilhei igualmente a história de como Eduardo Halfon começou a escrever para aprender a língua do seu país, pois crescera nos EUA, e de engenheiro se tornou escritor. Esta semana, ouvi o escritor espanhol Miqui Otero ler no Instituto Cervantes um texto belíssimo onde, entre outras coisas, falou do momento em que despertou o seu desejo de viver outras vidas. Estava em casa com os pais e ouviram uma terrível explosão. Pensaram tratar-se de uma bomba, pois eram ainda os tempos dos assassínios da ETA, mas afinal estavam enganados: tinha sido uma garrafa de gás que explodira na casa em frente, mas os danos foram tantos que o rebentamento arrancou praticamente toda a fachada da vivenda. Assim, quando Miqui olhou para a casa vizinha pela sua janela, o que viu foi uma espécie de casa de bonecas, o interior com os dois andares e as divisões completamente à mostra: os quadros nas paredes, os móveis, os candeeiros no tecto, os pratos nas prateleiras, as almofadas nas camas. E, ao ver tudo isso minuciosamente, entrou na verdade na casa do vizinho e percebeu que queria saber como viviam as outras pessoas, que queria estar nessas vidas. Escrevendo, claro.

Ler para ser livre

A semana passada e parte desta semana passei-as com Itamar Vieira Junior em muitas atividades bonitas e concorridas ligadas à leitura: no festival Correntes d'Escritas, em comunidades de leitores na Maia e em Perosinho, em Santarém numa escola profissional onde me admirei com (e admirei) o silêncio de 400 jovens enquanto ouviam o escritor brasileiro, e também em Cascais. Foi nesta última cidade que, numa sessão com cerca de cem pessoas, aprendi uma coisa maravilhosa relativa a um programa que envolve pessoas que estão presas no Brasil. Sabendo como a leitura é muitas vezes salvífica e cria empatia, no Sistema Prisional brasileiro existe um projecto que permite aos reclusos a diminuição da pena através da leitura. Chama-se, creio, Remissão em Rede e, além de formar leitores, faz com que todos os reclusos que completam um livro e sobre ele escrevem, digamos assim, uma recensão ou um resumo possam beneficiar de uma diminuição de x dias da pena a que foram sentenciados. O programa está há quatro anos a ser pensado para Portugal e em breve vos darei notícias sobre o assunto. Hoje é só para dizer que sempre acreditei que os livros nos tornam mais livres e que por isso gostei mesmo desta ideia. 

Hoje não há post

Desculpem, mas, além de estar a acompanhar autores que vieram para as Correntes e têm várias actividades esta semana, a minha mãe foi internada enquanto eu estava na Póvoa de Varzim com um princípio de pneumonia. Está estável (já refila com a comida), mas tem 101 anos e, portanto, é sempre uma situação delicada. Assim que possa, volto ao blogue, prometo.

O que ando a ler

Aqui há tempos pediram-me que prefaciasse as histórias infantis de Clarice Lispector, que vão sair na editora Fábula. São incríveis, claro, e sobretudo muito diferentes do que geralmente são os textos para crianças. Nestas histórias, quase todas com animais, a grande escritora brasileira interpela os seus leitores constantemente e até pede desculpa às crianças por ter deixado morrer os peixinhos de aquário do filho, por se ter esquecido de os alimentar. Clarice conta ter escrito literatura para a infância apenas porque o filho mais velho achou que, se ela escrevia para os outros, teria de escrever também para ele; e, de facto, se lermos Perto do Coração Selvagem ou A Paixão segundo G.H., não imaginamos Lispector a escrever para a pequenada. Mas claro que ela sabe o que faz. Foi talvez o tal prefácio a levar-me ao último romance da autora, A Hora da Estrela, que ainda não tinha lido e que foi escrito pouco antes da sua morte. A obra cruza duas personagens: um escritor chamado Rodrigo e Macabéa, uma dactilógrafa provinciana, feia e sem graça que vai para o Rio de Janeiro trabalhar, mas passa os dias sozinha porque nunca se adapta à vida na cidade. O mais engraçado é que quem conta a história de Macabéa é Rodrigo, o escritor que inveja até certo ponto a liberdade da sua personagem. A edição, muito bonita, é da Companhia das Letras, que publicou mais uns quantos romances desta autora.