Sexo, mas pouco

Nós, os Portugueses, somos um povo algo contido em matéria de sexo, talvez por força da repressão que a Igreja católica exerceu sobre nós ao longo de muitos anos; e, quando a revolução abriu as portas a uma certa libertação e tirou a prática sexual da lista dos pecados a merecerem castigo divino, o estado de graça não durou nem duas décadas, pois logo apareceu o vírus da SIDA, uma outra espécie de ameaça. Provavelmente por isso, na literatura portuguesa o sexo mostra-se pouco, mal ou muito discretamente; e, durante décadas, quem ousava dar-lhe corda raramente ultrapassava um efeito ridículo ou inverosímil. Lembro-me de um artigo publicado no Jornal de Letras há anos sem fim, em que Inês Pedrosa extraía dos romances nacionais cenas de sexo caricatas que, arrancadas ao contexto, podiam realmente fazer rir e chorar. Deve ter sido mais ou menos na mesma altura que li o belíssimo romance A Estação das Chuvas, de José Eduardo Agualusa, descobrindo um fôlego fantástico para as coisas do corpo e da sexualidade que nunca tinha encontrado num autor de língua portuguesa. É bem possível que a África, mais descontraída e quente, tenha a sua quota-parte de responsabilidade, mas lá que ali o sexo era bonito, ninguém pode negar.

Comentários

  1. Não sei se é uma coisa só portuguesa. As cenas de sexo nos romances britânicos contemporâneos costumam ser bem morninhas ou então pejadas de metáforas de violação do corpo humano (uma herança vitoriana, talvez).
    Martin Amis disse no Festival Literário de Chetelham, há algumas semanas, que é impossível escrever bem cenas de sexo (creio que o pai, Kingsley Amis, já havia dito algo semelhante). A sala encheu-se daquele risinho contido. Susanna Rustin escreveu recentemente no Guardian sobre isso e sobre a falta de sexo na literatura britânica: http://www.guardian.co.uk/books/2010/oct/16/sex-disappearing-from-novels

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  2. Melhor sexo em Português: Sinais de Fogo, Jorge de Sena. Divertido. Muito divertido.

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  3. Há, de facto, esse lugar comum, segundo o qual nós, portugueses, não sabemos escrever sobre o sexo. Parece-me preconceituoso, como costumam ser os lugares comuns: veja-se a Ilha dos Amores, de Camões, veja-se O Primo Basílio, até Os Maias, nomeadamente com a preceptora inglesa. Eu próprio sou, por vezes, acusado de escrever licenciosamente... Talvez parte da resposta esteja naquilo que é publicado.

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  4. O importante não é escrever sobre sexo e sim desfrutar dele nos momentos certos. E isso garanto que o povo português sabe fazer e muito bem! Ao menos acho-os muito sensuais. Sou brasileira, neta de avó portuguesa e me orgulho de ter tido uma avozinha muito sensual (meu avô não lhe dava sossego...rsrs)

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  5. Cenas de sexo são realmente difíceis de escrever. Se são explícitas, incorrem no risco de roçarem o vulgar, ou mesmo, o pornográfico; se são contidas, são "mornitas", não aquecem, nem arrefecem. E ainda há o risco de se tornarem ridículas, como refere.

    Eu, normalmente, gosto mais das cenas de sexo descritas por mulheres. As dos homens são muitas vezes inverosímeis, pois caiem naquela tentação de apresentar uma criatura cândida e inocente como uma "fera" na cama!!! Por acaso, tornei a embirrar com uma cena dessas no livro de Domingos Amaral, "Quando Lisboa Tremeu", que estou a ler. Até o acho interessante, mas não podia faltar a cena da moça que foi, com 16 anos, para um convento, por ficar órfã de pais. Nos dias malucos que se seguiram ao terramoto, o narrador apaixona-se por ela e, quando se deitam juntos, ela, apesar de ser virgem, dá-lhe uma noite de sonho, descontraída e segura de si, disposta a experimentar todas as posições e mais algumas...

    Peço desculpa ao autor, mas isso, na minha opinião, é perfeitamente inverosímil.

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    1. Para que as histórias sejam verosímeis, nada como ouvir a opinião de especialistas antes de as publicar.

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  6. E quem se lembra da cena da sopa de leite de José Rodrigues dos Santos?
    E não era leite de vaca...

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    1. E parece que o novo livro já começa com uma frase em grande. Bem em grande.

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    2. Lol! Bem lembrado!!!

      Aqui que ninguém nos ouve: que romance horrível!

      Temática interessante, não há dúvida. Mas como romance...

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    3. Ao Bordado Inglês recomendo uma olhada aqui:

      http://irmaolucia.blogs.sapo.pt/1984883.html

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    4. Pois, toda a gente se lembra disso. Essa horrorosa passagem do não menos horroroso dã bráune televisivo é suficientemente castradora para qualquer cena de sexo em português!

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