Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2021

Censurados

A primeira vez que fui a Copenhaga, há muitíssimos anos, talvez uns vinte e dois ou vinte e três, apanhei um ferry para ir a Malmö, na Suécia. A travessia era rápida, a visita a Malmö não demorava muito tempo e, duas horas volvidas, estávamos de regresso e podíamos dizer, todos contentes, que já tínhamos posto o pé na Suécia (país que visitei depois no tempo dos dias enormes e achei bem bonito). Mas hoje Malmö valeria certamente uma visita mais demorada porque tem uma biblioteca bastante original que não havia na altura. Chama-se Dawit Isaak, que é o nome de um escritor preso há mais de vinte anos na Eritreia por se opor ao regime, e só lá há livros censurados. Desde aqueles que a Inquisição mandou queimar aos Versículos Satânicos, de Salman Rushdie, passando por obras aparentemente tão inocentes como Harry Potter, ali estão mais de mil e seiscentos livros que em algum momento e em algum lugar foram proibidos pelas autoridades. Se um dia as viagens voltarem a ser completamente livres e despreocupadas e for a Copenhaga, atravesse até Malmö e vá lá coscuvilhar. Deve por lá haver alguns portugueses...

Correntes d'Escritas

Pois bem, amanhã começam as Correntes d'Escritas, que vão já na sua 22ª edição. Desta vez, claro, vão chegar até nós digitalmente, embora preferíssemos de longe lá estar para cumprimentar a Manuela Ribeiro e toda a equipa que as organiza brilhantemente há tantos anos e encontrar autores e amigos de várias partes do mundo. Ainda assim, posso dizer que as Correntes não baixaram os braços e vão estar dois dias online com muitas actividades e convidados. Haverá uma exposição de fotografias de Daniel Mordzinsky, que tem acompanhado o encontro desde os primeiros anos; e, além dos prémios e das mesas de escritores, haverá algumas surpresas, memórias, depoimentos... A revista este ano é dedicada ao escritor chileno Luís Sepúlveda que, infelizmente, veio a Portugal pela derradeira vez para a 21ª edição das Correntes no ano passado e perdeu a vida uns meses depois, vítima do estupor do vírus. Fiquem atentos, liguem-se e assistam. É o que vou fazer. Programa no link abaixo.


https://www.cm-pvarzim.pt/noticias/correntes-descritas-2021-conheca-o-programa-completo/


 

Passe a mensagem

Portugal é um país muito pequeno e, dos jornais que havia na minha juventude (A Capital, o Diário Popular, o Diário de Lisboa, O Jornal, o Se7e...), muitos já desapareceram, incluindo todos os vespertinos, que depois de haver Internet deixaram de se imprimir. E a seguir, porque as pessoas não compravam as edições em papel, muitos jornais tornaram-se apenas digitais (o Diário de Notícias esteve um longo período sem edição impressa, por exemplo, excepto ao fim-de-semana). Hoje a imprensa é escassa, mas graças a Deus, para os lisboetas e os olisipógrafos (mas não só), apareceu agora uma preciosidade: Mensagem. (O título homenageia de certa forma Fernando Pessoa e a sede desta publicação digital é no café Brasileira, ao Chiado.) Tem na sua equipa alguns ex-DN (Catarina Carvalho e Ferreira Fernandes, por exemplo) e conta com o artista Nuno Saraiva nas ilustrações. Não é um desses jornais do dia que facilmente se tornam obsoletos, tendo muito que ler sobre a nossa capital e contando com vários cronistas, entre eles o escritor Afonso Reis Cabral. Eu tenciono em breve colaborar com uma crónica quinzenal, sobre a qual avisarei oportunamente. Entretanto, aqui vai o link para espreitarem e depois, claro, espalharem a Mensagem.


Mensagem de Lisboa - O novo jornal digital da cidade (amensagem.pt)

Técnicas de venda

Toda a gente sabe que no século XXI o marketing atingiu as empresas como uma flecha e nunca mais nos livrámos dele. Tem coisas boas, claro, mas por vezes sobrepõe-se de uma forma estranha e opressiva aos outros departamentos e, na edição, isso foi muito visível quando se passou a tratar o livro como produto e o leitor como cliente e, consequentemente, o autor passou a ser apenas mais uma peça da engrenagem, e raramente a mais importante. De resto, as opções dos departamentos de marketing às vezes são um pouco absurdas, como contou recentemente Miguel Esteves Cardoso a propósito de um sabonete líquido que costuma comprar; quando esse sabonete chegou ao fim no primeiro confinamento, ele foi ao site da marca para o encomendar, mas encontrava-se esgotado. Havia uma opção para ser contactado assim que o sabonete estivesse de novo disponível, mas o jornalista não quis perder tempo nem dar o e-mail que provavelmente implicaria receber mensagens todos os dias sobre outros produtos que nada lhe interessavam. Agora,  no segundo confinamento, acontecendo-lhe o mesmo, encontrando-se de novo o sabonete «em ruptura de stock», resolveu ligar para o fabricante, temendo que o produto tivesse sido «descontinuado». E disseram-lhe que havia stock, mas faziam aquilo no site para que os clientes preenchessem a ficha e, desse modo, eles pudessem «seleccionar a clientela» (como se um sabonete líquido fosse um néctar dos deuses...). Está tudo maluco, enfim. Uma vez disseram-me que uma livraria portuguesa punha no Top da loja os livros que não se estavam a vender para ver se as pessoas assim lhes davam atenção e os levavam. É o marketing, senhores, ou seja, não nos podemos fiar nele...

Gosto / Não gosto

Há muitos anos, num suplemento do Diário de Notícias chamado DNA, que foi dirigido originalmente pelo saudoso jornalista Pedro Rolo Duarte, havia uma secção muito interessante, na qual era convidada uma personalidade pública a escrever em cerca de vinte ou trinta linhas aquilo de que gostava e não gostava. Vamos imaginar que eu tinha sido convidada (não fui ou, se fui, não me lembro) e escrevia: «Gosto do verão. Não gosto de canja.» E por aí afora. Pois recentemente, num blogue chamado Redondo Vocábulo, de Luiz Robalo, encontrei um texto que me recordou essa coluna do DNA, embora claro, com a diferença de que aqui só se fala do que se gosta e gostou e disso se fale em tom muito mais poético, recordando sobretudo os avós e a infância. Agradeço, pois, a autorização para aqui partilhar o link desse texto, dando assim mais uma indicação de um blogue que os Extraordinários podem ir consultando à falta de actividades culturais presenciais.


AI DO QUE GOSTEI E DO QUE GOSTO (luizrobalo.blogspot.com)

Excerto da Quinzena

[…] e estávamos os dois em silêncio quando ela me perguntou «que você tem?», mas eu, muito disperso, continuei distante e quieto, o pensamento solto na vermelhidão lá do poente, e foi só mesmo pela insistência da pergunta que respondi «você já jantou?» e como ela dissesse «mais tarde» eu então me levantei e fui sem pressa pra cozinha (ela veio atrás), tirei um tomate da geladeira, fui até a pia e passei uma água nele, depois fui pegar o saleiro do armário me sentando em seguida ali na mesa (ela do outro lado acompanhava cada movimento que eu fazia, embora eu displicente fingisse que não percebia), e foi sempre na mira dos olhos dela que comecei a comer o tomate, salgando pouco a pouco o que me ia restando na mão, fazendo um empenho simulado na mordida pra mostrar meus dentes fortes como os dentes de um cavalo, sabendo que seus olhos não desgrudavam da minha boca, e sabendo que por baixo do seu silêncio ela se contorcia de impaciência, e sabendo acima de tudo que mais eu lhe apetecia quanto mais indiferente lhe parecesse, eu só sei que quando eu acabei de comer o tomate eu a deixei ali na cozinha e fui pegar o rádio que estava na estante lá da sala, e sem voltar pra cozinha a gente se encontrou de novo no corredor, e sem dizer uma palavra entramos quase juntos na penumbra do quarto.


Raduan Nassar, Um Copo de Cólera

Blimunda

Blimunda é, como saberão os leitores deste blogue, o nome da personagem feminina de Memorial do Convento, de José Saramago. E é também o nome da revista gratuita e digital que a Fundação José Saramago publica mensalmente desde 2012, dirigida por Sérgio Machado Letria e com redacção de Andreia Brites, Ricardo Viel e Sara Figueiredo Costa. Esta Blimunda chegou aos 100 números no final do ano passado. O marco serviu então para repensar a revista e introduzir nela mudanças de formato que ajudarão o leitor a orientar-se melhor na leitura das secções que mais lhe interessam e, por outro lado, um formato que se adapte melhor a telemóveis e outros dispositivos digitais nos quais hoje muita gente a lê. Será ainda possível consultar os números anteriores em PDF, mantendo-se também os objectivos com que a Blimunda foi criada: dialogar com os leitores, propor assuntos pertinentes e não deixar morrer a memória de quem faz da Cultura um lugar a visitar. Espreite-a aqui e subscreva-a.


Blimunda (josesaramago.org)

As casas

Octávio dos Santos, também leitor destas Horas Extraordinárias, partilhou comigo um projecto em que está envolvido e que, por me parecer meritório, divulgo aqui no blogue, mesmo que neste momento estejamos impedidos de pôr o pé na rua e a caminho de um desses sempre reveladores lugares. Trata-se, para ser mais clara, de Casas de Escritores, lares onde viveram alguns dos nossos mais célebres criadores literários e que foram, regra geral, posteriormente transformadas em casas-museus. Octávio dos Santos elaborou a lista das Casas de Escritores de língua portuguesa que existem actualmente e se mantêm abertas ao público e com actividade cultural. Pensei logo na casa de Camilo, em S. Miguel de Seide, que visitei há bastantes anos, ou em Tormes, onde Eça comeu um dia frango e arroz de favas (e eu também o fiz no restaurante que abriram lá quando fui de visita). Mas estas são só as mais óbvias, porque a recolha inclui casas em Angola, no Brasil e espalhadas por este nosso Portugal, pretendendo Octávio dos Santos criar uma Rede de Casas de Escritores de várias épocas e estilos que, quanto a mim,  irá constituir, além de tudo, um excelente itinerário para quem queira viajar pela literatura portuguesa. Deixo-vos o link para aprofundarem o assunto. Obrigada ao Octávio dos Santos por esta bela sugestão e pelo seu trabalho.


https://octanas.blogspot.com/2021/02/outras-casas-listadas-para-serem.html

Transparente ou opaca?

No jornal Público do passado domingo li um artigo bem interessante de Sílvia Lapa, terapeuta da fala e técnica especial de reabilitação e eduacção especial, sobre a maior ou menor ocorrência de erros de ortografia nos primeiros anos de aprendizagem da leitura e da escrita. A questão tem que ver com um conceito que não conhecia e que toma os vocábulos «transparente» e «opaco» para definir as línguas. Se um idioma tem uma escrita que pouco espelha a oralidade (o inglês, por exemplo, em que um i, um ch ou um gh podem ser lidos de várias maneiras), diz-se que é opaco, e é mais natural que as crianças dêem erros nessas línguas ou, pelo menos, demorem bastante mais tempo a apreender a grafia correcta das palavras. Se, por outro lado, a oralidade anda a par da escrita (como acontece com o finlandês, em que a grafia reflecte mais exactamente o fonema), então estamos diante de uma língua dita transparente. O português, ao que parece, é uma língua de opacidade média (i e p só têm um som, mas o x pode soar de imensas maneiras, como é visível em palavras como exigir (z), enxame (ch), fluxo (cs) ou máximo (ss), 4 sons distintos!). 85% das crianças espanholas (outra língua mais transparente) lêem com precisão no final do primeiro ano de escolaridade, enquanto só 50% das inglesas são capazes do mesmo. Numa língua cheia de excepções como a nossa, não faço ideia de quanto tempo levam as nossas crianças a ler com precisão. Mas lá que os adultos ainda dão erros, basta ver o Facebook...

Versos

Por razões que agora não importa aqui referir (fá-lo-ei oportunamente), estive a reler muitas das letras de fados e canções que a nossa grande Amália Rodrigues escreveu e foram publicadas pela Cotovia num volume muito cuidado e bonito intitulado Versos. Amália, que não teve possibilidade de estudar (entrou na escola tarde e saiu logo a seguir, pois eram muito pobres lá em casa e não havia remédio senão trabalhar), tornou-se uma grande leitora de poesia, o que se percebe, de resto, pelo bom gosto de grande parte do seu repertório. Mas, além de leitora, era igualmente uma excelente autora de letras, e são da sua pena, embora muita gente não saiba, as palavras de fados tão célebres como Estranha Forma de Vida, Lágrima, Amor de Mel Amor de Fel e até Ó Gente da Minha Terra, que Mariza tornou ainda mais célebre. Tal como o Giotto levava as ovelhinhas a pastar e pintava nas pedras o que depois se descobriu ser obra de génio, a nossa grande fadista também escreveu para o fado melhor do que muitos poetas. Leiam-na para se distraírem deste nosso fado.

Ocupar os miúdos

Não gosto de trabalhar em casa: o trabalho rende-me menos, não sei se por ter de pensar e fazer almoços e arrumar a cozinha (costumo despachar-me em meia hora na cantina ou então comer uma sanduíche na rua), se simplesmente porque o espaço é diferente e não há sítio na mesa para pousar tudo como no meu gabinete lá na editora. Mas de certeza que padecem muito mais os que têm filhos e são forçados a dividir o trabalho com a atenção e o acompanhamento dados às crianças. A partir do dia 15, porém, existe uma boa novidade: a Rádio Miúdos (uma rádio feita para e por crianças) inaugura uma espécie de «sucursal» chamada Canal Miudinhos para crianças dos zero aos seis anos, com histórias, canções, passatempos e brincadeiras para os que estão mortos de chatice enfiados em casa e precisam de se animar e deixar os mais velhos sossegados. Pais e educadores também terão um esaço para si no site do Canal Miudinhos, que os vai ajudar nestes tempos difíceis. O canal funciona dia e noite, mas fica tudo gravado num podcast para quem queira procurar e voltar a ouvir alguma programação específica. Segundo leio na newsletter da Rádio Miúdos, «no primeiro dia oficial de emissão do canal vamos poder ouvir a opinião de diversas figuras públicas portuguesas e também de educadores e pais que deixaram uma gravação de voz sobre o que pensam do Canal Miudinhos e o que querem lá ouvir.» Links abaixo para todos os interessados:



Canal Miudinhos


www.radiomiudos.pt


 

Hungarices

Estava à procura de um livro de poesia de um autor brasileiro e encontrei por acaso um pequeno romance que não tinha chegado a ler até ao fim (tinha lá a marca no sítio onde fiquei e tudo). Depois lembrei-me que o levei há uns dez anos numa viagem de avião e que, ao regressar, tinha provavelmente livros urgentes para ler e o resto daquele ficou a aguardar melhores dias. Perdi-lhe o rasto (o Manel deve tê-lo arrumado entretanto na estante) e só agora voltámos a encontrar-nos. Tirei-o da prateleira e tive de o ler de fio a pavio. Chama-se Budapeste e escreveu-o Chico Buarque (sim, o grande Chico). É a história de José Costa, um ghost writer carioca (e eu, antes de recomeçar a leitura, achava que o protagonista era um tradutor...); por causa de um problema inesperado numa viagem aérea, José vai parar a Budapeste e acaba por lá ficar a aprender a língua esquisitíssima com uma mulher de pele incrivelmente branca com quem acaba por ter um relcionamento amoroso; José estava, porém, muitíssimo bem casado com Vanda, uma locutora de telejornal no Rio de Janeiro, de quem tinha um filho e para quem volta um dia, aborrecido com a professora húngara que o sufoca. O livro vai viajando entre Budapeste e o Rio, e o escritor-fantasma vai escrevendo livros para outras pessoas sem se importar com o anonimato até que, um dia, escreve um romance para um senhor alemão arrogante (um romance supostamente autobiográfico), e Vanda apaixona-se pelo livro (e quiçá pelo autor). Budapeste é cheio de voltas e reviravoltas e fala da identidade de um escritor e da relação entre anonimato e reconhecimento público. Não me lembrava nada do que tinha lido, caramba. Deve acontecer com muitos livros...

Leipzig cancelada

É provável que já aqui o tenha dito: em 1997 trabalhei para a empresa que organizou a presença de Portugal como país convidado da Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Foram dois anos loucos a preparar tudo, ao início com uma equipa operacional muito pequena, e só quem esteve nos bastidores sabe o que foi fazer pastas até às tantas da manhã, tirar milhares de folhas A4 com biografias de escritores de um camião TIR, ver desaparecer a decoração de uma parte do pavilhão da noite para o dia (não estava bem arrumada e os funcionários da limpeza deitaram-na no lixo) e ter de inventar outra coisa, arranjar champanhe e bolo de anos para a maravilhosa Agustina num hotel recém-estreado onde tudo corria mal e, por fim, ver um microfone dar uma de difícil na pior das alturas (sim, era a vez de o nosso ministro da Cultura falar na inauguração do Pavilhão de Portugal). Mas para quem estava de fora correu às mil maravilhas e, depois disso, a literatura portuguesa foi objecto de um Nobel, de muitos convites internacionais para Salões e Festivais e de imensas traduções. Este ano, estava previsto que a Feira de Lepzig (mais pequenina, mas importante) celebrasse a literatura portuguesa, mas, infelizmente, a COVID não deixou a nossa conselheira cultural, Patrícia Severino, realizar os seus muitos planos. Uma pena! Em todo o caso, vão publicar-se na Alemanha várias traduções de escritores portugueses, de Mário de Sá Carneiro, Hélia Correia, Cristina Carvalho e outros. Valha-nos isso. Melhores dias virão.

Clubes de leitura

Com a pandemia e a obrigação de recolhimento, multiplicam-se as actividades culturais por via digital. Não é a mesma coisa que ter o autor ao nosso lado (hoje desaconselhável, claro); mas, uma vez que a programação televisiva é frequentemente repetitiva e desinteressante (pelo menos, para quem não tem os canais de séries e filmes de qualidade, e nem sempre), estas sessões fazem-nos companhia ao serão e, além disso, ilustram-nos e dão-nos boas orientações. Já aqui falei da comunidade de leitores do Museu da Farmácia, por exemplo, a que assisto regularmente, mas também poderia falar das conversas que a Quetzal está a promover entre o editor Francisco José Viegas e os seus autores (assisti na semana passada ao diálogo, muito bom, com Bruno Vieira Amaral), ou até de um clube de leitura conduzido por Analita Santos no Facebook que tem por nome O Prazer da Escrita e acontece mensalmente, num sábado à noite, de acesso livre. De momento, debruça-se sobre autores de língua portuguesa (Camilo Castelo Branco, Machado de Assis e outros), recebendo Lídia Jorge ainda este mês; mas prevê até ao fim do ano um ciclo sobre romances históricos e outro sobre poesia, portanto haverá obras para todos os gostos. Deixo-vos o link abaixo. A maioria destes encontros de que vos falo exigem apenas um computador (ou outro dispositivo electrónico) com câmara e microfone e são gratuitos. Muitos podem até fazer-lhe companhia ao jantar, em vez daqueles telejornais que se prolongam por horas e se comprazem com o horror, como se também não houvesse boas notícias.


https://www.facebook.com/groups/EncontrosLiterariosOPrazerDaEscrita


 

Leiam!

«Leiam!» foi o apelo mais directo que Monsieur Le Maire, o ministro das Finanças, da Economia e da Recuperação de França, fez aos jovens de uma escola no passado dia 25 de Janeiro, chamando a atenção para a importância e o prazer de uma actividade que todos nós comungamos aqui no blogue: a leitura. Mas fê-lo com uma série de frases que eu, se tivesse paredes livres, colava com fita-cola por todo o lado para que todos lessem, de tal forma são claras, apropriadas e direitinhas ao osso. A que mais me tocou foi «Os ecrãs devoram, os livros alimentam», mas há outras igualmente boas, como a que compara a escravidão dos jovens em relação ao digital com a liberdade que proporciona um livro, ou a que vê o acto solitário da leitura como uma abertura ao mundo. Correndo o risco de ir bater com o nariz na porta (quantos que aqui passam saberão o francês suficiente para compreender?), vou divulgar o link deste magnífico vídeo, não só pelo que diz, pela forma como o diz, mas também pela função que ocupa a pessoa que diz: um ministro das Finanças e da Economia. Nem pedia tanto. Gostaria que cá em Portugal os responsáveis pela pasta da Cultura dissessem e sentissem um cagagésimo do que diz e sente Monsieur Le Maire. Já seria certamente bom.


https://www.facebook.com/blm27/videos/227839902155626


 

Excerto da Quinzena

Este saiu excepcionalmente longo (não vou repetir este tamanho) mas é só porque a história merece. Boa leitura.


Depois da conversa sobre os gira-discos e os seus diferentes méritos, o senhor Jo pediu a Suzanne que lhe abrisse a porta da casa de banho para poder vê-la toda nua, a troco do que lhe prometeu o último modelo de La Voix de Son Maître e discos ainda por cima, as últimas novidades de Paris. De facto, enquanto Suzanne tomava duche, bateu discretamente à porta da casa de banho.


– Abra – disse o senhor Jo muito baixinho. – Não lhe toco, não me mexerei, vou só olhar para si, abra.


Suzanne imobilizou-se e fitou a porta da casa de banho mergulhada na penumbra e por trás da qual estava o senhor Jo. Ainda nenhum homem a tinha visto completamente nua, salvo Joseph, que às vezes entrava para lavar os pés quando ela estava a tomar banho. Mas, como isso nunca deixara de acontecer desde crianças pequenas, não contava. […]


– É só o tempo de a ver – suspirou o senhor Jo. – Joseph e a sua mãe estão do outro lado. Suplico-lhe.


– Não quero – respondeu debilmente Suzanne.


[…] A recusa tinha-lhe saído maquinalmente. Tinha sido Não. Imediatamente, não imperiosamente. Mas o senhor Jo continuava a suplicar, enquanto esse não se invertia lentamente e Suzanne, inerte, emparedada, se deixava convencer. Ele ardia de desejo de a ver. […] E o que ali estava não fora feito para ser escondido mas, pelo contrário, para ser visto e fazer o seu caminho através do mundo, o mundo a que pertencia, apesar de tudo, aquele ali, aquele senhor Jo. Mas foi só quando estava quase a abrir a porta da sala escura para que o olhar do senhor Jo penetrasse e a luz enfim se fizesse sobre este mistério que ele falou do gira-discos.


– Amanhã terá o seu gira-discos – disse. – Amanhã mesmo. Um magnífico La Voix de Son Maître. Minha Suzanne querida, abra por um segundo e terá o seu gira-discos.


Foi assim que, no momento em que ia abrir e dar a ver-se ao mundo, o mundo a prostituiu. Já com a mão no fecho da porta, suspendeu o gesto.


Marguerite Duras, Uma Barragem contra o Pacífico, trad. Carlos Leite


 

Inivisibilidade

Perguntam-me frequentemente quando escrevo um livro sobre a minha experiência como editora e conto as pequenas histórias e os episódios menos felizes relacionados com autores que publiquei (e não publiquei). Digo sempre que essas coisas por que algumas pessoas salivam realmente devem permanecer no segredo dos deuses. João Tordo, no seu livro Manual de Sobrevivência de Um Escritor, quando fala de edição, conta, por exemplo, que foi o seu editor na altura quem insistiu em que mudasse o título do seu livro que venceu o Prémio José Saramago. Que ele o diga é bonito; já se fosse o editor a dizê-lo por ele seria, quanto a mim, bastante feio. Num grupo sobre edição criado no Facebook, Rui Beja, que foi presidente do Círculo de Leitores ao longo de muitos anos e se tem especializado em questões editoriais e escrito sobre elas, partilhou um artigo muito interessante de uma revista espanhola sobre como são (quando são) recordados os editores (no caso, por causa da morte prematura do grande editor López Lamadrid aos 59 anos). E foi nele que encontrei o melhor parágrafo sobre a minha espécie. Aqui vai ele (a tradução, livre, é minha):


«Os editores nunca foram personagens públicas; se por acaso se tornam conhecidos, é apenas dentro dos círculos literários, que são sempre pequenos e fechados. Mas a sua importância reside, em parte, justamente nessa invisibilidade. Porque teria alguém de conhecer a vida do tutor, do treinador, do professor ou do editor se pode ter acesso ao artista, ao atleta, ao pensador ou ao autor? A sua figura é naturalmente secundária. Não pode haver duas pessoas no mesmo lugar: o livro que chega ao público não pode estar assinado por mais de uma pessoa.»


Obrigada, Jacobo Zanella, por pensar e exprimir tão bem o que sinto.

Atlântico

Estamos condenados a ficar trancados em casa por mais um tempo, e o que nos vale é que, apesar dos livros confinados (só num país que quer prolongar o analfabetismo funcional é que se podem vender revistas do coração em todo o lado, mas não livros...), existem cursos, podcasts, workshops e sei lá que mais para nos porem em dia com livros, prosas e escritores, para que não morramos ignorantes. Começa, por exemplo, este mês na EC.ON um ciclo que parece bem interessante chamado Atlântico, que se desenrolará até ao mês de Maio e contará com a participação de muitos autores de língua portuguesa, pondo à conversa escritores oriundos de Moçambique, Angola e Brasil, como José Eduardo Agualusa, Ondjaki, o premiadíssimo Itamar Vieira Junior, Andréa del Fuego, Claudia Lage, Reginaldo Pujol Filho e Luiz Antonio de Assis Brasil (ah, adoro este senhor, que conheci nas Correntes d'Escritas há muitos anos), bem como a portuguesa Matilde Campilho, que é uma espécie de brasileira de adopção. Os leitores de cá vão poder conversar com todos eles por videoconferência sobre livros e literatura e fazer perguntas sobre o ofício e a obra, mas cuidado, que o número de vagas é limitado! Se estiver interessado, deixo-lhe o link abaixo:


http://escritacriativaonline.net/cursos/icone/i18/


 

Histórias com pêlo

Os canis estão, como sabemos, cheios de animais para adopção (embora se diga que agora, como passear o cão é uma das poucas razões para se poder ir à rua, aumentaram as adopções oportunistas, mas espero que seja boato porque isso pode significar um abandono posterior). Dantes, receber um rafeirinho encontrado na rua ou comprar um cão de raça a um criador eram as opções ao dispor, mas hoje existem muitos animais abandonados que precisam de dono e farão as delícias de adultos e crianças que possam e queiram cuidar deles. Para tornar mais fácil fazer chegar ao público esta possibilidade (e urgência), os voluntários das Histórias com Pêlo teve uma ideia muito feliz: pedir a escritores e personalidades públicas que baptizem e escrevam sobre um destes «órfãos» a partir de uma fotografia e de alguns (poucos) elementos do seu carácter e assim chamem a atenção do público para a necessidade de dar amor e uma casa a tantos animais que entristecem todos os dias na Casa dos Animais de Lisboa. Eu já estou na calha para me associar a um destes cães, esperando que o meu texto o ajude a chegar a um bom destino. Vale a pena ver o vídeo que vos deixo abaixo, em que várias pessoas que conhecem apoiam a iniciativa e se ouvem excertos de alguns dos respectivos textos. Ajudemos os animais com literatura, grande ideia! 


https://www.facebook.com/camaradelisboa/posts/3970397489646838


 

O que ando a ler

Ando (estranhamente, porque não é meu hábito) a ler mais de um livro ao mesmo tempo. Sim, é natural ler durante as horas de trabalho manuscritos ou livros estrangeiros e, à noite, qualquer outra coisa por prazer. Mas não é disso que falo, é mesmo de ler por prazer mais de um livro. Comecei Aquiles, o pequeno romance póstumo de Carlos Fuentes; mas depois pus-me à procura na estante de um livro da velha colecção Dois Mundos, da Livros do Brasil, e não resisti a pegar em Ratos e Homens, de John Steinbeck (que, na minha cabeça se confundia com Luz de Agosto, de Faulkner) e lê-lo (quiçá em homenagem ao ASeve, que adora o autor). São dois livros muito diferente. O do latino-americano, traduzido por Helena Pitta, conta a história de um colombiano que é morto num avião à frente do narrador, que lhe desenha então uma história de vida desde criança. O de Steinbeck é (resumindo muito) a história de dois homens, George e Lennie, este último uma autêntica criança grande, numa  herdade da Califórnia durante a Grande Depressão; é história de gente pobre que sonha conseguir um dia um quadrado de terra e viver pacatamente do que produz, mas que assiste permanentemente ao fosso entre pobres e ricos e ao fosso ainda maior entre brancos e negros. Ambos valem a pena: Fuentes merece o nosso reconhecimento pelas fantásticas imagens e por ser um escritor que soube desviar-se do realismo mágico e mostrar-se muito diferente dos seus contemporâneos;  o clássico norte-americano já leva o selo de um Prémio Nobel como garante de qualidade. Leiam-nos. Os autores, mesmo mortos, agradecem.