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A mostrar mensagens de novembro, 2022

Escrever e pensar

Tenho a clara suspeita de que me transformarei um dia destes em Velha do Restelo, se já não o sou; olho para certas decisões modernas e cada vez gosto mais de modos de ver antigos, ainda que, para falar com toda a franqueza, entenda algumas vantagens em termos práticos que as minhas opções difcilmente trariam. Contudo, lembro-me de copiar à mão parágrafos inteiros e listas de nomes de reis e rios para os meter na cabeça, e resultava, bem como de estudar muitas disciplinas tomando notas (para isso, sobretudo, serviam os cadernos, e não para copiar o sumário do quadro). A minha letra, de tanto que escrevi, foi-se ela própria parecendo mais comigo. Quando anoto o original de um autor, a minha caligrafia reflecte a minha zanga ou a minha alegria com o que leio, às vezes tanto como as próprias anotações... Há estudos que mostram que o papel é um suporte melhor do que o monitor porque facilita a localização e a memorização. Mas, sei lá porquê, a moda agora é a «desmaterialização» e, por isso, os alunos que este ano fizerem provas de aferição (dos 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade) fá-las-ão exclusivamente no computador; os exames do secundário do próximo ano serão também feitos longe do querido papel. Percebo evidentemente o argumento ecológico (e o papel está caríssimo), o de quem corrige não ter de decifrar letras difíceis e o da correcção e atribuição de pontuação nas respostas ter muito provavelmente a ajuda preciosa da máquina, mas... Então a letra já não é importante? E escrever com a nossa mãozinha não ajuda a pensar? E o computador não se substituirá aos alunos na correcção de erros ortográficos e no completar de frases e palavras? Nem sei o que pensar.

Calendário do advento

Quando eu era criança, a minha avó dava-nos um calendário do advento. Era suposto fazermos boas acções e irmos abrindo as portinhas de cartão todos os dias até podermos respirar fundo por termos sido bonzinhos e sabermos que iríamos ter presentes no dia de Natal. Hoje, porém, falo-vos do Calendário do Advento da RTP3, um programa de entrevistas de cerca de meia hora conduzidas pela jornalista Anabela Mota Ribeiro a propósito da quadra natalícia. Os convidados são personalidades de todas as áreas do conhecimento, que, puxando das suas memórias, falarão do que foram os seus Natais e, se for caso disso, trarão para a cena objectos, presentes, fotografias, enfim, tudo aquilo que possa ilustrar como têm vivido a quadra natalícia desde que eram crianças, não se esquecendo por certo de referir como as coisas mudaram com as mortes dos que eram próximos ou com os nascimentos de filhos ou netos. Se havia tradições em relação ao enfeitar da casa, ao que se servia na Consoada e outras particularidades, iremos sabê-lo passo a passo, pois as figuras que dialogarão com Anabela Mota Ribeiro pertencem a geografias e gerações diferentes. A série de entrevistas já começou no dia 27 com a fadista Aldina Duarte e, como um verdadeiro calendário do advento, irá até mesmo à véspera de Natal. Vamos ficar atentos?







 


 




 





 




 

 

Excerto da Quinzena

De súbito, respirou fundo e disse:


– Isto faz-me lembrar...


[...] Que lhe fará isto recordar?, perguntei a mim mesmo. Será o pato na loja de ferragens? O cavalo do bar? O rapaz que chegava aos joelhos de um gafanhoto? Far-lhe-ia lembrar o ovo de dinossauro que encontrara certo dia e que a seguir perdera, ou o país que em tempos governara durante quase uma semana?


– Isto faz-me lembrar – repetiu ele – o tempo em que era rapaz.


Olhei para aquele velho, o meu velho, como os pés brancos e velhos metidos na água límpida do rio, nesses momentos que se contavam entre os últimos da sua vida, e de súbito pensei nele, simplesmente, como um rapazinho, uma criança, um jovem, com a vida inteira à sua frente, tal como a minha estava diante de mim. Até então nunca o vira daquele modo. E essas imagens – o hoje e o ontem do meu pai – convergiram e, nesse instante, ele tornou-se um ser misterioso, selvagem, simultaneamente velho e novo, moribundo e recém-nascido.


O meu pai transformou-se num mito.


 


Daniel Wallace, O Grande Peixe, tradução de Ana Falcão Bastos

Em Beja

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Eu bem sei que hoje era dia de partilhar um excerto de um livro, mas deixo isso para a próxima segunda-feira, pois estou sem tempo para subir ao escadote e tirar de lá um livro e, aliás, nunca é tarde de mais para uma citação. Na verdade, também aproveito nesta sexta-feira o espaço do blogue para publicitar uma actividade em que participarei mais logo, em Beja, na Biblioteca Municipal José Saramago, lugar onde conheci um grande bibliotecário, o saudoso Joaquim Mestre, há muitos anos, quando eu era ainda editora de José Luís Peixoto (e que graça era ver o Zé Luís falar com sotaque alentejano assim que começava a conversar com o Mestre). Mas, histórias à parte, a dinâmica Elsa Ligeiro, da Alma Azul, convidou-me para ir falar de poesia mais logo, às 19h00, a Beja; e, claro, vindo ela de longe só para isso, eu também não podia recusar. Assim, se estiver em Beja ou por perto, fica aqui feito este convite também a si, para aparecer se tiver vontade de ouvir, ou perguntar, sobre esta coisa maravilhosa que é a poesia. Até logo. O excerto virá na segunda.


Há Poesia no Jardim - Maria do Rosário Pedreira


 

As Pequenas Coisas

Fala-se muitas vezes de pequenas coisas sem importância, mas estas de que hoje falo foram, pelo menos para mim, bastante importantes, porque corresponderam a momentos de leitura extremamente bem passados e fascinantes. Refiro-me ao pequeno romance Pequenas Coisas como Estas, da escritora irlandesa Claire Keegan, que foi finalista do Man Booker Prize e se lê em duas tardes ou duas noites. É uma daquelas pérolas que poríamos com prazer no nosso colar de livros queridos. Quando o terminei, achei até que o Frank Capra, se fosse vivo, de certeza que quereria fazer um filme a partir desta história, de mais a mais, porque o seu protagonista, Bill Furlong, dono de um depósito de carvão numa época de muito frio, é uma dessas personagens intrinsecamente boas que já são muito difíceis de encontrar na literatura. Estamos perto do Natal, e este homem, que vive desde sempre com a mágoa de ser filho de mãe solteira, fornece carvão a toda a vila; entre outros locais, a um convento para onde as famílias atiram rapariguinhas grávidas que ali são escravizadas nas lavandarias e privadas dos seus bebés. A história de Keegan, como ela logo previne, é uma ficção, mas parte de factos reais acontecidos na Irlanda ao longo de décadas, que incluíram milhares de mortes, e é uma lição de compaixão e bondade que dá gosto. Uma autora a reter.

Rimas

Os autores que publico, se estiverem a ler este post, devem pensar que vou falar das minhas anotações nos seus originais, porque não raro faço círculos à volta de palavras próximas e escrevo à margem: «Evite esta rima.» As rimas em prosa nem sempre soam bem, mas na poesia e, sobretudo, nas letras de fados e canções ajudam à harmonia ou são mesmo necessárias. Há vários dicionários de rimas, bem como um número apreciável de sites na Internet que, quando estou a fazer uma letra para alguém, costumo consultar (um deles, curiosamente, chama-se Poeta Vadio). E, recentemente, recebi uma mensagem de uma pessoa que não conheço, mas sabe seguramente que sou uma utilizadora deste tipo de recursos, e que creio ter-me escrito do Brasil. Diz-me no e-mail enviado: «Eu criei essa ferramenta pensando em facilitar a vida de quem faz poesia (inclusive a minha), e seu funcionamento é muito simples: basicamente, você digita o início ou terminação desejada, clica em "procurar palavras", e então a ferramenta apresenta os resultados de um banco com mais de 1 milhão de palavras portuguesas que compilei de dicionários e similares.» Dá muito jeito, asseguro, e por isso deixo aqui o link para os eventuais interessados. Obrigada ao autor.


https://comofazerumpoema.com/dicionario-de-rimas/


 

Centenário de Natália

Há muitas escritoras portuguesas dignas de nota, claro, mas Natália, pela sua figura, a sua voz, a sua intervenção pública, é realmente inesquecível, mesmo para quem só a viu e nunca a leu. Incluí-a no meu livro juvenil Portuguesas Extraordinárias e incluí-a também na recente antologia de poemas para fado que assino com Aldina Duarte, Esse Fado Vaidoso, uma vez que muitos textos seus foram cantados por várias vozes do fado. Vai sair em breve sobre si uma biografia da escritora Filipa Martins, que já tinha sido autora do  guião de Três Mulheres (uma série sobre Natália, Snu Abecassis e Vera Lagoa), bem como participado com entrevistas importantes no documentário sobre Natália da autoria de Joaquim Vieira; e hoje mesmo, para celebrar o centenário da autora nascida em 1923, a Sociedade Portuguesa de Autores homenageia a escritora com um concerto na Reitoria da Universidade de Lisboa às 21h30 (a transmitir na RTP no ano que vem), no qual desfilarão apenas intérpretes mulheres, entre as quais Ana Bacalhau, Amélia Muge, Rita Redshoes, Mafalda Veiga e Kátia Guerreiro, que cantarão poemas da escritora açoreana musicados por Renato Júnior. Viva Natália!

Direitos das crianças

Em 1959, ano em que nasci, passaram-se coisas boas, entre as quais a adopção pela Sociedade das Nações da Declaração dos Direitos da Criança, o primeiro texto do mundo que foi adoptado por todos os países sem reservas. Este texto, que tivera uma versão inicial nos anos vinte, foi ampliado em 1959 e também quarenta anos depois, em 29 de Novembro do ano de 1989, passando então a chamar-se Convenção dos Direitos da Criança; ora, dada a proximidade da efeméride, a revista Visão Júnior, pela pena de Fernando Carvalho,  inclui um interessante artigo em que selecciona livros infantis que servem como ponto de partida para as crianças saberem e respeitarem estes direitos de que são as protagonistas. Tu e Eu e Todos, de Marco Farina, fala, por exemplo, do que torna uma criança única, abordando os temas da diferença e da igualdade. Já a Carta aos Líderes do Mundo, assinada conjuntamente por Maria Inês Almeida (portuguesa) e Flávia Lins da Silva (brasileira), é um apelo de uma menina de doze anos para que quem manda no mundo cuide do estado do Planeta para as gerações futuras. Assim como Tu, de Raquel Salgueiro e Jorge Margarido, está mais focado no problema da tolerância; mas há mais livros, claro, que ajudam a transmitir aos mais pequenos os direitos consagrados nos documentos que lhes são dedicados. De pequenino se torce o pepino.

Uma visita desassossegada

O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, um dos mais espantosos e originais livros da literatura portuguesa, celebra 40 anos de publicação (e depois da primeira edição muitas mais se seguiram, revistas e aumentadas). Estando, por isso, em destaque na Casa Fernando Pessoa, será esta a obra sobre a qual este sábado se debruça a rubrica Residências Pessoanas: Especialistas na Casa. Um dos maiores conhecedores desta e de outras obras do autor, o professor Fernando Cabral Martins, da Universidade Nova de Lisboa, será desta feita o guia que levará os interessados a uma visita à área museológica e à biblioteca da Casa, sempre com a tónica no Livro do Desassossego, partilhando conhecimentos e histórias singulares e respondendo a seguir às perguntas do público. A sessão acontece às 15h00 de sábado 19 e terá a duração de uma hora e meia, sendo necessária a compra de bilhete (online ou na bilheteira da Casa Fernando Pessoa) para poder participar. Vá lá, desassosseguem-se.

Morte de uma escritora

Os que lêem o título deste post pensam provavelmente que me vou referir a alguém que não é de papel, mas de carne e osso; mas desta vez parece-me que podem sossegar o vosso desgosto. Trata-se de uma personagem, nomeadamente, de Cristina Pinho Ferraz, escritora «premiada e temida» que foi vista pela última vez num festival literário da Póvoa de Varzim, à porta do Teatro Garrett, após o que desapareceu durante mais de um ano sem que ninguém aparentemente perguntasse por ela. Então, foi encontrada partida em três bocados nos jardins onde, curiosamente, se costuma realizar a Feira do Livro do Porto. Casada com Samuel, um judeu de família rica que começou a escrever antes da mulher (mas precisou dela para escrever, não vos conto como), Cristina será oferecida a esse polícia genial que é Jaime Ramos em  vários retratos e relatos feitos por pessoas que lhe eram próximas (ou nem tanto) no romance maravilhoso que é Melancholia, o mais recente livro de Francisco José Viegas. E entretanto descobriremos coisas muito interessantes sobre livros que são e não são de Cristina Pinho Ferraz, sobre o passado da família do falecido, sobre as entrevistas que nunca chegaram a acontecer, embora prometidas, sobre vaidade e vingança... Além, claro, de também sermos servidos por uma melancolia que atravessa todo o livro e que afecta Olívia, a senhora que substitui agora o tristonho inspector Ramos à frente do departamento de homicídios. Melancólicos também nós, não deixaremos mesmo assim de seguir as páginas até ao que realmente aconteceu arrastados pela beleza de cada um dos seus parágrafos.

Um pequeno filme luminoso

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Há algum tempo recebi um telefonema de Teresa Júdice, que eu conhecera havia muito na produção de um programa de entrevistas realizadas por Carlos Vaz Marques, mas nunca mais tinha voltado a ver. Desta feita, a Teresa estava a fazer um trabalho académico e queria levar a cabo a produção de um pequeno filme documental sobre poetas (mais velhos e mais jovens) e sobre o motor da respectiva criação; e convidava-me a participar nele, tal como aconteceu com Nuno Júdice, André Tecedeiro e Ana Freitas Reis. Conversámos bastante e acabei por recebê-la em minha casa (o lugar da criação) para duas interessantes sessões de perguntas e filmagens que, afinal, custaram muito menos do que supunha. A realizadora, Rita Féria, recolheu imagens bonitas de objectos e outros pormenores que identificam os poetas e voltou para descobrir a luz certa para as palavras de cada um. Hoje vai ser transmitida ao público esta curta metragem documental nas instalações da Brotéria e aqui vos mando o convite para o caso de quererem aparecer. A seguir, haverá conversa sobre o assunto.


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Apoios

Num país como o nosso, em que o arco da governação oscila quase sempre entre dois partidos, o PSD e o PS, na Cultura ora temos secretário de Estado, ora ministro, conforme o governo é mais à direita ou mais à esquerda. O actual ministro conseguiu que o seu pecúlio crescesse em relação ao da sua antecessora; mas, sendo Portugal um país com pouca gente, e ainda com menos público para a Cultura (basta ver quem lê os clássicos), se não for o Estado a apoiar as letras, as artes e os espectáculos, seria completamente impossível levar a cabo algumas actividades (o cinema, certas produções teatrais, óperas internacionais ou mesmo exposições que implicam trazer peças de fora com seguros muito caros). Porém, «descentralizar» tem sido essencial e parece que o minstro em funções quer andar pelo País e não ficar apenas em Lisboa, onde se diz que se passa quase tudo. Talvez assim mudem algumas coisas, talvez não... Leio que, no Reino Unido, para corrigir as assimetrias do País, Londres vai levar uma talhada brutal no apoio às artes, quase 40 milhões de euros, que vão ser realocados em cidades e vilas que habitualmente são «subfinanciadas». Veremos o que acontece por cá. Em Londres já está tudo a piar...

Uma questão de gratidão

Lembro-me de que alguns jovens escritores que publiquei pela primeira vez no início deste século convidaram para o lançamento dos seus livros de estreia professores que, segundo eles, tinham sido essenciais na sua formação. Alguns destes professores haviam sido docentes do ensino primário, estavam já distantes no tempo, mas, pela sua dedicação, nunca tinham sido esquecidos pelos seus ex-alunos. Sinto que isso acontece cada vez menos, não sei se por falta de gratidão dos escritores, se de facto pela falta de qualidade de muitos professores, alguns dos quais, sei-o por experiência própria, nem sequer gostam de ler. Encontrei, porém, no mural do Facebook de um poeta-professor, António Carlos Cortez, uma carta belíssima de Albert Camus que, depois de ser galardoado com o Nobel da Literatura, não esqueceu o mestre que acolheu aquele menino pobre que ele era e constituiu para ele um exemplo de peso. Acho que vale muito a pena lê-la e, por isso, transcrevo-a aqui no blogue.


Caro Monsieur Germain:


Deixei extinguir-se um pouco o ruído que me rodeou todos estes dias antes de vir falar-lhe com todo o coração. Acabam de me conceder uma honra excessiva, que não procurei nem solicitei. Mas quando me inteirei da notícia, o meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para o senhor. Sem si, sem a mão afectuosa que estendeu ao garoto pobre que eu era, sem os seus ensinamentos e exemplo, nada de tudo isto teria acontecido. Não imagino um mundo com essa espécie de honra. No entanto, constitui uma oportunidade para lhe dizer o que foi, e ainda é para mim, assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que sempre empregava ainda se encontram vivos num dos seus pequenos alunos que, apesar da idade, não deixou de ser o seu grato estudante. Abraço-o com todas as minhas forças.


Albert Camus


 

Excerto da Quinzena

– Deixo-vos isto aqui porque o tempo atraiçoa


e atraiçoa de facto, as nuvens sempre a mudarem, o catavento da igreja indeciso


– E agora?


a minha mãe sentada, a olhar para ontem no banco quase sem pintura a que faltava uma tábua, sempre na companhia de uma dúzia de pombos de mãos atrás das costas, com um rebuçado escondido lá dentro, às vezes, mesmo crescida, tinha a certeza de ir encontrar o meu pai na rua, igualzinho ao que me lembrava dele mas o aspecto de quem se aproximava alterava-se de súbito, pumba, e nunca era ele, outras feições, outros gestos, outra roupa, nenhum aceno claro, nenhuma careta cúmplice, nenhum sorriso sequer, mirava-me surpreendido


– Aconteceu-te alguma coisa garota?


de modo que eu a virar logo a cabeça, envergonhada


– Desculpe


isto aos doze, treze, quinze anos, na volta da escola, isto quando comecei a trabalhar


– Dizem que o teu pai é rico


uma fábrica, duas fábricas, laboratórios, camionetas, dúzias e dúzias de empregados, a Dona Virgínia


(- Sou a Dona Virgínia, sou a Dona Virgínia)


para a minha mãe


– E deixou-as assim?


e depois eu o emprego numa loja, e depois eu o emprego numa creche, e depois eu o emprego num escritório, e depois um colega bom rapaz, e depois outro colega bom rapaz, por sinal ruivo (há sempre um ruivo em cada escritório, como há sempre um gordo) e depois não era aquilo, não era aquilo, não era aquilo, e depois eles, sem entenderem, tentando agarrar-me o braço


– Deixarmos de nos


(como há sempre um de óculos)


– Deixarmos de nos ver porquê?


António Lobo Antunes, O Tamanho do Mundo

Viagens

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Na véspera de viajar fico sempre com um certo frio na barriga, sobretudo se a viagem mete aeroportos. Se os meus nervos se mostram bem nestas alturas, a Nervo, excepcional revista de poesia (coisa rara e em extinção), mostra-se também agora na sua primeira versão temática. É justamente sobre a viagem que escrevem mais de trinta autores, amparados por uma dezena de artistas plásticos (entre os quais Álvaro Siza e Sobral Centeno), neste número belíssimo e bastante alargado em relação ao habitual. Ao contrário do que acontecia inicialmente, em que os poetas eram geralmente menos conhecidos, agora os consagrados já reconhecem qualidade à Nervo para lá publicarem os seus textos; e por isso encontraremos poesia dos sonantes Nuno Júdice, Luís Quintais e Pedro Mexia ou dos «veteranos» Eduarda Chiote, Yvette K. Centeno ou A. M. Pires Cabral, mas também da geração talentosa que inclui Rita Taborda Duarte, Marta Chaves ou Rui Lage e das boas surpesas como João Paulo Esteves da Silva. Não esquecer que também há poemas de outros países de língua portuguesa (Brasil, Angola e Cabo Verde), representados por nomes como Alexei Bueno, Luís Maffei ou José Luiz Tavares. Ler, ver e viajar!


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O país mais fechado do mundo

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Tenho um amigo estrangeiro que desde jovem «coleccionava» países; ou, melhor, estava sempre a partir para lugares que não conhecia senão dos mapas, muitos deles com nomes e localizações estranhos. Foi nesse contexto que viajou para as ilhas Feroe ou Tonga, por exemplo, mas também para a Coreia do Norte, que é talvez o país mais fechado do mundo. Lá, contava ele, andava para todo o lado acompanhado por três homens: o seu intérprete (chinês-inglês); um tipo que percebia inglês e que estava ali para garantir que o intérprete não dizia mais do que devia; e um suposto guarda, que se assegurava de que os outros dois não perguntavam ao estrangeiro como poderiam ir-se embora dali... Mas, tanto quanto sei, este meu amigo nunca saiu da capital, onde viu todos os museus dedicados ao «Dear Leader» e ao «Big Chief», nos quais havia presentes oficiais de todas as latitudes, até, calculem, um galo de Barcelos. Há, porém, quem na Coreia do Norte tenha conseguido passar mais tempo e sobretudo em lugares aonde não ia um estrangeiro há sessenta anos... José Luís Peixoto escreveu sobre essa sua visita no livro Dentro do Segredo, que acaba de fazer dez anos de publicação. O aniversário é celebrado com nova edição, agora com capa dura e fotografias inéditas feitas pelo próprio autor.


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Retratar o País

Começou por ser um convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos ao fotógrafo Duarte Belo (que fotografa com a poesia do pai, Ruy, e a empatia da mãe, Teresa) para que, de certo modo, tirasse um retrato ao nosso Portugal. O livro teria um prefácio de Álvaro Domingues, geógrafo com reflexões importantes sobre as razões pelas quais o País é tão incrivelmente vetusto em tanta coisa, mas o prefaciador escreveu textos belíssimos sobre todas as fotografias que Duarte Belo lhe ia entregando e acabou por se tornar co-autor da obra que agora sai para os escaparates com o título Paisagem Portuguesa. O fotógrafo, segundo leio num artigo do jornal Público que deu origem a este post, dividiu o mapa de Portugal em rectângulos de 30 x 32 quilómetros e escolheu patra fotografar um lugar no interior de cada rectângulo que, no fundo, «caracterizasse o espaço natural que acolhe o povoamento». É por isso que Lisboa não está (é «o buraco negro» que absorve tudo à sua volta, segundo Álvaro Domingues) e que o território ora é representado pelo que dele já desapareceu (o pinhal de Leiria antes de arder, por exemplo), ora pela introdução de elementos modernizadores como os passadiços junto a rios e praias ou os parques eólicos. Vale de certeza a pena, vindo de quem vem, e será um belíssimo presente de Natal, até pelo preço módico que tem para uma edição desta natureza. Ver e ler.

Amantes de gatos (e não só)

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Já aqui disse mais de uma vez que eu sou mais cães, embora, quando o sabem, os leitores da minha poesia fiquem admirados, porque tenho imensos poemas em que entram gatos. Ao longe, gosto deles, é um facto: são elegantes, independentes e cheios de personalidade. Já ao perto... Mesmo assim, não pensava vir a publicar um livro sobre gatos e apaixonei-me por História de Um Gato, de Laura Agustí, autora e ilustradora de gabarito, pois a sua história não é exactamente a de um gato (Oye, o siamês que a acompanhou durante dezassete anos!), mas a história de um tempo em que as crianças, em vez de ficarem o dia todo sentadas em frente de um computador, brincavam ao ar livre e conviviam com galinhas e coelhos, colhiam fruta das árvores, faziam sopinhas e saladas com plantas verdadeiras e criavam bichos-da-seda, a quem davam a comer folha de amoreira. As ilustrações são muito bonitas, delicadas e ternurentas. Mas, além do que já referi, há uma parte extremamente informativa neste livro, sobre os gatos na arte e na literatura, por exemplo, e também sobre o papel dos felinos ao longo do tempo em certas religiões e culturas. Vale muito a pena, garanto, mesmo para quem não gosta especialmente de gatos.


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Pseudónimos e outras denominações

Quando comecei a publicar, houve um poeta consagrado que me disse que o meu nome não era grande coisa como nome literário; tinha razão, claro (Maria do Rosário?), e ainda equacionei a hipótese de usar outro com que, de resto, assinei uns poemas nos idos de oitenta de que já mal me lembro. Depois, porém, quando me tornei escritora juvenil (com prémio e tudo) num tempo em que era professora, a editorial Verbo pediu que mantivesse o meu nome verdadeiro para que os alunos o reconhecessem na capa dos livros. Achei então que dois nomes eram demais para alguém com metro e meio e resolvi usar o mesmo para tudo. Mas ainda tenho saudades daquele pseudónimo. Por vezes, porém, os pseudónimos causam algumas situações inesperadas e acho que já vos contei aquela vez, há muitos anos, em que Mia Couto foi convidado para um encontro sobre feminismo na África do Sul e todos estavavam à espera de uma mulher negra (Mia e moçambique...) quando lhes apareceu à frente aquele homem de olhos claros e pele branca. Mas também me lembro de um ano em que as duas autoras da colecção Uma Aventura não puderam receber logo o seu pocket money num festival em Genebra porque nenhuma delas tinha o apelido com que assinava os livros. Alçada e Magalhães eram, na verdade, os apelidos dos ex-maridos das escritoras, mas, como a colecção já ia de vento em popa, não fazia sentido alterá-los.

13 anos

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Há muita gente supersticiosa com o número 13 e creio que, por exemplo, a maioria dos hotéis não tem o quarto número 13 para evitar recusas ou miúfa dos clientes. Diz-se ser o 13 o número do azar, em especial se se tratar de um dia 13 que calhe a uma sexta-feira, data geralmente escolhida pelos hackers para fazerem das suas. Mas eu não tenho nada contra o 13 (até me baptizaram num 13 de Outubro, data da última aparição da Nossa Senhora em Fátima), e menos ainda contra o 13.º aniversário das 5.as de Leitura da Figueira da Foz, as quais frequento há muitos anos, sobretudo como editora, uma vez que muitos dos autores que publiquei ao longo dos anos já foram convidados a participar nelas. Desta feita, vou como escritora celebrar uma actividade que começou por ser conduzida por António Tavares (quem diria que eu haveria de publicar os seus livros quando o conheci como vereador da Cultura da Câmara da Figueira?) e que agora conta com a moderação irrepreensível de Teresa Carvalho. Por isso, mais logo, pelas 21h00, lá estarei a apagar as treze velas enquanto converso sobre os meus livros e a minha actividade editorial. Se estiver por lá ou por perto, apareça.


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O que ando a ler

Nos últimos anos, apesar de um grande desencanto com muito do que para aí se escreve, descobri alguns bons autores de quem procuro ler tudo. Uma escritora, por exemplo, de que não costumo falhar um livro é Leïla Slimani, vencedora do Goncourt com o impressionante Canção Doce e, pelo que sei, residente em Lisboa. À excepção daquele relato/encomenda que nasceu de um convite para ela passar a noite sozinha num museu, que é bastante atípico na sua obra, os romances são extremamente interessantes e reflectem geralmente factos da vida da família de Slimani, o que se passa, aliás, com o belíssimo O País dos Outros, que tem agora uma segunda etapa que ando a ler, Vejam como Dançamos, e segue a história de Mathilde (uma alsaciana que se casa com um marroquino e vai viver para o país do marido), mas com ênfase especial na geração dos filhos do casal: Aïcha, a menina que era uma aluna excelente e teve a sorte de poder ir para a Europa estudar Medicina; e o seu irmão Selim, um adolescente que não estuda, está perdido de tudo e de si mesmo, anda com hippies que procuram uma espécie de paraíso de drogas em Marrocos e faz, em suma, demasiadas asneiras que só pode pagar à frente, algumas com a conivência da sua estranha tia. Mas ainda só vou a meio desta história em que verei certamente Aïcha apaixonar-se por um rapaz que ontem, quando pousei o livro, estava a dançar sozinho numa boîte dos arredores de Rabat. Estou curiosa sobre o que hoje vai acontecer e, quando terminar, voltarei a falar deste livro aqui no blogue.