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A mostrar mensagens de outubro, 2020

Estrangeira

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Aqui há tempos, julgo que ainda antes do Verão, falei aqui do livro de uma autora italiana intitulado Sempre Estrangeira. É a história absolutamente fascinante de um casal de deficientes auditivos contada pela sua filha que, paradoxalmente (ou não), acabou por se interessar sobretudo pelas línguas e ser tradutora (e é também a história da própria narradora, sempre a fugir de um lado para o outro tal como na infância, do pai para a mãe e vice versa). Claudia Durastanti, a autora premiada do citado livro, estará em Portugal a convite do Instituto Italiano e das Publicações Dom Quixote para uma sessão com numerus clausus (por isso é bom reservar lugar) na próxima terça-feira, dia 3 de Novembro, às 19h00. Vai conversar com ela o tradutor de Sempre Estrangeira, Vasco Gato, ele próprio escritor e tradutor (inescapáveis as suas traduções de poesia coligidas em livro). Vamos ouvi-la? O convite aqui fica.


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A nossa Terra

Na primeira editora em que trabalhei, foram publicados muitos dos fantásticos livros de David Attenborough, e até conheci pessoalmente o seu editor na HarperCollins, um tipo magro e seco que vivia numa das Ilhas do Canal (Jersey ou Guernesey, já não me recordo) mas se reuniu comigo na sede da editora em Londres, aonde ia uma vez por semana. A Vida na Terra, O Primeiro Éden, A Vida Privada das Plantas, Os Desafios da Vida, O Planeta Vivo, são tudo belíssimos livros de Attenborough, geralmente publicados ao mesmo tempo que se transmitiam as suas séries televisivas homónimas (todas maravilhosas). Um dia destes, na Netflix, vi o fantástico documentário Uma Vida no Nosso Planeta, que é o testemunho deste cientista de 93 anos, que trabalhou sempre no terreno, para as gerações mais novas: um apelo urgente à reposição da biodiversidade perdida num momento em que os animais selvagens estão a ser gravemente substituídos em todo o mundo pelos animais domésticos e as savanas e prados por pastos e terrenos agrícolas (além dos problemas da seca e do aumento da temperatura que também terão de ser resolvidos, e podem sê-lo se o homem agir já). E eu apelo a que vejam esta peça notável e aprendam com ela. Também há o livro, claro, para quem não tenha a Netflix, mas as imagens dos animais em movimento são obviamente insubstituíveis, além de que a voz deste mestre que pensa no futuro da humanidade é indispensável para nos cativar. A natureza, como verão, arranja sempre maneira de se renovar. O homem é que não.

O guerreiro sincero

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Tiago Salazar, jornalista hoje arredado dos jornais, tem-se dedicado especialmente à literatura de viagens (foi também autor de um programa de TV nesta área) e aos livros de crónicas, mas já escreveu um romance sobre os Rotschild do Oriente (A Escada de Istambul) e acaba de reincidir na ficção com um pequeno volume maravilhoso do género histórico. Chama-se O Magriço e conta a história de D. Álvaro Gonçalves Coutinho, celebrizado numa passagem d’Os Lusíadas como um dos Doze de Inglaterra, cavaleiros portugueses que, no reinado de D. João I, participaram num combate que visava lavar a honra de doze damas e do qual saíram vencedores.Tratando-se de um cavaleiro de linhagem na Corte do Mestre de Avis, o Magriço não aceitou, porém, que o seu monarca lhe negasse casamento com a mulher que amava e partiu para a Borgonha, onde lutou por mais de uma década entre os pares de João Sem Medo, que o considerou um dos mais destemidos guerreiros que alguma vez o serviram. Tiago Salazar instala-se de armas e bagagens na Idade Média e, vestindo a pele desta personagem controversa, dá-nos um testemunho das suas andanças e tribulações num relato em forma de autobiografia romanceada, ao jeito dos melhores livros de cavalaria, a que nunca falta uma pitada de colorido e humor.


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O álcool e os escritores

Um dia destes, uma amiga francesa mandou-me um vídeo extraordinário: um francês daqueles muito boçais e com nariz vermelho dizia que tinha lido um livro que tratava dos efeitos terríveis do álcool na vida humana e, por isso, deixara de... ler, claro. Ri-me, mas a verdade é que o álcool foi tremendo não só para muitos leitores como para muitíssimos escritores. E  bastaria falar de Poe, Hemingway (Paris É Uma Festa mostra bem como qualquer centavo ganho ia para uma garrafa de vinho ordinário, mesmo quando já havia um bebé em casa), Fitzgerald, Bukowski, Steinbeck, Raymond Carver ou Faulkner (estes são «bêbados» conhecidos de todos, julgo eu), mas lembrei-me desta questão por ter lido recentemente Por cima do Vulcão, de Malcom Lowry (a transcrição da carta de 40 ou 50 páginas que o escritor enviou ao editor que recusou inicialmente a sua obra mais emblemática, Debaixo do Vulcão, e depois acabou por publicá-la), na qual um professor universitário traça, à laia de apresentação, um «retrato-montagem» de Lowry, que é o de um homem que estragou a vida à conta do álcool. Enfim, muitos autores escreveram as suas obras-primas com uma garrafa ao lado e acabaram com o fígado às postas mas muito aplaudidos. Porém, folgo em saber que outros, como Mark Twain, eram abstémios e tiveram o mesmo sucesso.

Os novos feminismos

Uma amiga chegada postou no Facebook a sua gloriosa indignação em relação à estupidez de certas pessoas, acrescentando que seria bom «eliminá-las» das nossas vidas. A sua irritação tinha, claro, razão de ser e prendia-se com um artigo publicado na revista The Economist sobre um livro que defende que as mulheres devem «eliminar» os homens não só das suas vidas, mas das suas mentes! Assina o livro Alice Coffin (um apelido bastante gráfico que evoca um caixão onde a senhora quer meter os homens todos do mundo), e o título em inglês é Lesbian Genius. Nele, a autora diz que já não vê filmes nem lê livros de homens e também não ouve música de homens – e está no seu direito, claro, mas apelar a que todas as mulheres façam o mesmo é paradoxalmente pô-las ainda mais ignorantes do que alguns homens querem que elas sejam… O/a articulista (nunca sabemos quem escreve o artigo nesta revista) antevê um mundo sem Voltaire, Mozart ou Truffaut e não gosta… (nem eu, e sou mulher). Alice Coffin foi despedida da Universidade Católica, onde ensinava, por ter comportamentos totalitários e obscurantistas em relação ao sexo oposto (e não sabemos se quem a despediu era homem); mas não é a única a instigar ao ódio aos representantes do sexo masculino. Moi, je deteste les hommes, um pequeno ensaio de uma escritora francesa (esta mais moderada, porque até é casada com um homem, ou seja, não está ainda pronta a «eliminar» os homens da vida e da mente), está também a fazer furor em França e creio que não faltará muito para que apareça por aí uma tradução. (Ainda bem que já cá não estás para assistir a estas coisas, Simone de Beauvoir. Porque eras capaz de te indispor… O teu feminismo não era nada disto.) Adeus, futuro.

Coragem

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Li um destes dias um texto em que uma personagem dizia ao interlocutor que, se fôssemos bem a ver, as coisas em certos aspectos não tinham mudado muito desde o feudalismo: havia uma dúzia de pessoas com mais dinheiro do que quase todas as outras juntas... Claro que é uma comparação exagerada (e já não é a posse de terras que faz a fortuna), mas não deixa de ser verdade que os homens mais ricos do mundo são uma espécie de senhores feudais cujos vassalos são frequentemente escravizados e ganham uma ninharia. Podemos pedir às pessoas que não comprem o que eles produzem? Podemos pedir às pessoas que não lhes dêem mais dinheiro a ganhar e comprem, em vez disso, aos que precisam, aos pequenos? Eu achava que não, mas um livreiro independente de Brooklyn, Nova Iorque, teve a coragem de o fazer. As suas montras são um apelo a que os leitores comprem livros em livrarias independentes e parem de contribuir para o enriquecimento dos que já são ricos. Muito ricos. Mas depois descobri que não é só longe que estas coisas acontecem. Ora vejam estas duas imagens e reflictam.


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A fingir

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Está desde há dias no mercado o novo romance de um escritor que é, para os Extraordinários, muito especial, até porque no passado ofereceu o retrato a alguns dos membros deste «clube». Estou naturalmente a falar de João Pinto Coelho, o autor de Perguntem a Sarah Gross e Os Loucos da Rua Mazur, romances que foram, respectivamente, finalista e vencedor do Prémio LeYa. Desta feita, saímos da Polónia gelada para a muito mais temperada Toscana, onde conheceremos Annina Bemporad, uma judia linda e rebelde que acorda a meio da noite com o ruído de um tiro e descobre que se tornou adulta. Isso obrigá-la-á a trabalhar, tornar-se uma mulher responsável e buscar um futuro digno. Mas, por se recusar a entregar o seu amor ao sobrinho do fascista-mor da cidade – e, ainda por cima, o humilhar em público –, este vai garantir que ela não possa realizar os seus sonhos. A essa impossibilidade somar-se-á a ocupação da Itália pelos alemães, que, claro, perseguem os judeus. Hão-de valer a Annina a sua amiga Alessia, uma lésbica excêntrica, e Peppino, o homem que monta espectáculos com lixo e é amigo dos homens da Resistência. Profundamente imaginativo e rigorosamente documentado, Um Tempo a Fingir é um romance magistral, cujo enredo tem a rara qualidade de ser ao mesmo tempo absolutamente inesperado e completamente verosímil. Mais um grande livro de João Pinto Coelho.


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Já a ladrar

Há cerca de um ano comprei os direitos de um pequeno romance colombiano que achei admirável e muito contra-corrente. Duro, dramático, trágico e profudnamente humano. Chama-se A Cadela e a sua autora, Pilar Quintana, viveu anos na área onde se passa a história, uma zona paupérrima e húmida na costa do Pacífico (e estamos sempre a sentir a chuva no corpo enquanto lemos). O argumento prende-se com uma mulher que não consegue engravidar e, depois de muito sofrimento, resolve substituir o desejado bebé pela última cadelinha de uma ninhada. Não esperem, porém, nada de querido e amoroso a partir daqui, porque nem sempre os cães (ou os filhos) correspondem ao que idealizam as respectivas mães. Soube recentemente que A Cadela está já a ladrar fora de portas. Este livro incrível é finalista de um prémio de peso nos EUA: o National Award, na categoria (introduzida apenas em 2018) de livros traduzidos. E fico aqui em pulgas, a fazer figas e a rezar para que a talentosa Pilar Quintana vença e, claro, possa vir vistar-nos assim que o estupor do vírus permitir.

Poesia roubada

No momento em que leio com deleite um pequeno livro de poesia de um autor cujo romance publiquei (falarei dele num post independente), volto à carga com uma história de roubo (na semana passada falei de uma casa esvaziada onde só ficaram os livros), desta feita de um longo poema. (Roubo-a também eu, como agora se diz, ao mural do meu colega editor Vasco Silva.) Diz a notícia por ele lida que desapareceram de uma casa em Hong Kong várias peças valiosas, entre as quais um longo poema de Mao (sim, pelos vistos o ditador chinês também escrevia poemas), manuscrito pelo próprio num pergaminho e avaliado em 250 milhões de euros. Porém, a pessoa que o surripiou não devia acreditar muito no valor da poesia (ou dsconheceria quem era o autor) porque vendeu o dito poema apenas por 54 euros a um «especiallista» que, achando-o muito grande, o rasgou ao meio na esperança de facturar duas vezes... Não sei quanto ganhou com a ignorância, pois isso já não era dito; mas aquilo a que achei graça foi a frase de um sinólogo inglês, Arthur Waley, segundo o qual «os poemas de Mao não são tão maus como as pinturas de Hitler, mas não são tão bons como as paisagens de Churchill». Tenho de ver se leio este meu confrade.

Aprender

Li uma entrevista muito interessante no The Guardian a Isabella Rossellini sobre as maravilhas do envelhecimento («mais gordos  mas mais livres», diz ela), entre as quais a actriz destaca o tempo (que, quando trabalhava como modelo, não tinha) e o poder aprender e estudar assuntos que lhe interessam, como, por exemplo, tratar de animais (e não são cãezinhos, mas vacas, galinhas, porcos, pois gere uma quinta e põe a mão na massa). Embora se diga que burros velhos não aprendem línguas, eu gosto de contrapor o «aprender até morrer», sendo a aprendizagem das coisas mais compensadoras e lindas que alguma vez experimentei. E aprendi no mural de um amigo facebookiano a história da primeira poetisa afro-americana a publicar um livro nos EUA, que não conhecia: uma escrava senegalesa chamada Phillis Wheatley (Phillis era o nome do barco que a levou à América, Wheatley o do comerciante que a comprou). Phillis começou a escrever poemas aos treze anos naquela língua que não era a sua e, com vinte anos, como achavam que ela era uma impostora, levaram-na perante uma série de magistrados: mas, além de ter ficado provado que os seus poemas não eram plagiados, ela ainda recitou Virgílio, Milton e passagens da Bíblia, impressionando os dezoito homens de toga e cabeleira: era escrava, negra, mulher, mas... poetisa. Ter aprendido a ler salvou-a mais tarde da escravatura.

Um rio de letras

Recebo a notícia de que é já amanhã que, em Almada, se vai realizar um festival dedicado à narração oral, talvez a mais antiga forma de transmissão literária que se conhece. Eu adoro ler alto e penso que todas as crianças deveriam fazê-lo na escola e em casa, pois está provado que tem enormes vantagens para a fidelização à leitura; e gosto também de ouvir ler quando o narrador, dizedor, declamador (seja lá o que for), sabe convencer-nos e atrair-nos. Já ouvi uma actriz ler um conto infantil de David Machado maravilhosamente e escutei até ao fim, na verdade tão interessada como uma criança. Ora, entre as 11h e as 17h de amanhã, é uma boa altura para ouvirmos ler narradores profissionais e convidados neste Rio de Contos, que vai já na sua quarta edição: Ana Figueiras, Cláudia Pulquério, Paula Salema e Telma Marreiros, bem como Ana Sofia Paiva, Luís Carmelo, Paula Carballeda, Patrícia do Carmo, Ricardo Ávila, Thomas Bakk e Válter Peres. A narração será também traduzida para língua gestual portuguesa. Para quem não possa estar no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada, e queira assistir de longe pelo computador, então vai ser preciso fazer a inscrição aqui:


biblactividades@cma.m-almada.pt


 


 


 

Livros roubados

Uma vez ouvi contar a história de umas pessoas que, quando voltaram de férias, tinham a casa vazia. Uma camioneta de mudanças aparecera para empacotar o apartamento e, como era Agosto e estava toda a gente de férias, ninguém desconfiou de que não fossem profissionais (eram profissionais, mas do roubo). Curiosamente, deixaram apenas uma coisa: os livros… É triste, mas é cada vez mais verdade que as pessoas não estão interessadas em ler. E, porém, Amosse Mucavele, que foi curador da Feira do Livro de Maputo durante vários anos, contou no Facebook uma deliciosa história: trouxe de um alfarrabista uma série de livros emprestados e, de repente, descobriu que, entre eles, estavam livros que pertenciam a um seu amigo, tinham lá o nome dele e tudo, embora nunca o tivesse ouvido dizer que fora vítima de roubo ou que os emprestara a um… ladrão, mas também não o achava capaz de os ter vendido. Agora o dilema é se os devolve… e a quem. Depois disto, tornou-se mais atento e já encontrou muita coisa nos alfarrabistas que é, de facto, oriundo de bibliotecas de amigos e conhecidos. Nunca compra esses livros, por precaução… Mas, se foram roubados ou vendidos por algum amigo a quem foram emprestados, isso quer dizer que ainda há países onde os livros são, pelo menos, cobiçados por várias pessoas.

Namorado

Sim, sei que o título deste post empurra para assuntos do coração, mas não é nada disso. Falo, para que saibam, do poeta Joaquim Namorado porque acabo de ver que a sua obra poética reunida num volume intitulado Sob Uma Bandeira vai ser apresentada no próximo dia 17, no Museu do Neo-Realismo, pela não de Fernando Pinto do Amaral e com a presença de António Redol, filho do escritor Alves Redol. Joaquim Namorado dirigiu a revista Vértice em Coimbra, para onde o Manel escrevia quando ali estudava na Faculdade de Direito; quando, porém, decidiu vir para Lisboa acabar o curso, foi comunicar a sua mudança para a capital a Joaquim Namorado, querendo saber se continuava a colaborar com a revista e explicando-lhe que, enfim, era em Lisboa que viviam os escritores e que estava desejoso de os conhecer. Foi então que o matemático e poeta estalinista lhe deu uma forte cachaçada e o preveniu: «Os escritores são para ler, e não para se conhecer!» Quanta razão, mestre. Há mesmo alguns que nem deviam pôr os narizes fora das suas casas.

Fora de tempo

Nestes dias que correm, sinto-me cada vez mais ultrapassada e fora de cenário, em vésperas de arrumar as botas e, como Herculano, retirar-me para um ermo qualquer. Enquanto há cada vez menos gente a ler, as discussões nas redes sociais tornam-se de uma esterilidade confrangedora – e ainda por cima carregadas de ódio – quando os problemas realmente graves continuam todos por resolver (além da fome, da precariedade e do desemprego, por exemplo, os refugiados do campo de Moria que Portugal disse que receberia continuam lá, e a dormir no chão). Enfim, sinto que tudo está a ser dominado de forma completamente cretina pelo politicamente correcto; e, se é óbvio que as situações de injustiça e desigualdade devem ser combatidas, chegou-se agora a excessos difíceis de aceitar. Recebi esta semana, de uma agente literária, a proposta de um livro que está ainda a ser escrito, mas pelo qual uma editora de nomeada nos Estados Unidos já avançou uma enorme quantidade de dólares. A agente está super-entusiasmada com a originalidade e diz-se convencida de que vai ser um êxito em todo o mundo. Fiquei curiosa o bastante para passar à sinopse, mas fui ficando de cara à banda à medida que a lia. O tema? Pois bem, mais ou menos isto: a tinta branca é racista. Pintar as nossas casas de branco não é inocente nem está isolado da supremacia branca. (Não sei como os arquitectos vão lidar com isto, mas estão tramados.) Para dizer a verdade, ainda pensei que fosse um livro humorístico, mas, lendo o texto até ao fim, percebi que não é uma piada, que pretende mesmo ser sério. Devo ser então eu que estou já fora de tempo e de jogo e acho isto estúpido e perigoso, porque alimenta conflitos onde não os havia (e já chegam os reais, ou não?). E, como adoro luz e tenho, por acaso, a minha casa toda pintadinha de branco, o melhor é preparar-me para ser considerada uma racista insuportável. Não tarda muito ainda vão desaconselhar o leite, diz uma colega minha. Adeus, futuro.

Fome e fartura

Costuma dizer-se que não há fome que não dê em fartura... e é o caso. Depois de meses de publicação de livros que não puderam ser lançados ao vivo por razões óbvias (e antes que a situação piore e nos voltem a confinar), as editoras Abysmo e Nova Mymosa fizeram, na segunda-feira dia 5, dia de comemorar a República, no espaço lisboeta do Espelho d'Água, uma maratona de doze lançamentos conjuntos, com apresentações e leituras ao longo de quatro horas e transmissão online para quem, apesar de tudo, continua com medo de sair. Os livros são pequenos, evidentemente, alguns de pouco mais de vinte páginas, e alternam entre poesia e prosa. Entre eles, contam-se os de autores como Márcia Balsas, Mónica Camacho, Andreia Azevedo Moreira, Pedro Loureiro, Isabel Olivença, Luís Carmelo, José Mário Silva, João Paulo Cotrim, Vasco Gato e Paulo José Miranda, este último o primeiríssimo vencedor do Prémio Literário José Saramago com a novela Natureza Morta. Muito que ler!


 

O Diabo regressa

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No final do ano passado, quando o escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, ex-ministro da Cultura do seu país, esteve em Portugal para lançar o seu mais recente romance O Diabo Foi Meu Padeiro, sobre o campo de concentração do Tarrafal e as suas vítimas ao longo do tempo, infelizmente não teve agenda para fazer uma apresentação no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, em Lisboa, como tínhamos planeado e fazia, aliás, todo o sentido, dado o tema. Porém, como o autor é também músico e tinha concertos agendados em Portugal esta semana, lá conseguimos um buraquinho para organizar esta tarde a sessão, na forma de uma conversa, seguida de um momento musical. Estão todos convidados, claro. (Mas para verem em streaming, porque com a pandemia os lugares já foram todos preenchidos.)


 


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Gramática

Quem gosta da língua portuguesa, raramente resiste a comprar tudo o que tem que ver com ela. E foi, aliás, por isso que corri pelo meu exemplar de Pontuação em Português: Guia Prático para Escrever Melhor, de Marco Neves, professor universitário e grande divulgador, com várias obras publicadas e um blogue muito curioso e pedagógico chamado Certas Palavras. Não que eu não saiba pontuar (alguma coisa aprendi nestes trinta anos de leituras e edição); mas este instrumento simples e claro ajuda a explicar a potenciais autores aquilo que estão a fazer mal em termos de pontuação, embora fique com pena de que o autor não tenha guardado umas páginas para explicar como se usa a pontuação dentro e fora de aspas, pois esta é talvez a coisa em que os  autores, mesmo experimentados, mais dificuldades têm. Ainda assim, o guia é muito útil para quem tem dúvidas se deve ou não pôr vírgula em determinado lugar da frase, bem como uma boa lição para as raparigas que enchem os seus textos de reticências e pontos de exclamação desnecessariamente. E, ainda por cima, é baratíssimo!

Os novos autores

Há mais de vinte anos que me preocupo em encontrar novos escritores de qualidade na massa tremenda de originais que vem parar-me às mãos. Mas em todas as áreas deve ter havido nestes mesmos vinte anos quem o mesmo fizesse (escarafunchar); e agora há um livro intitulado Lugar dos Novos que fala disso mesmo, dos novos autores (alguns já nem são assim tão novos), apoiado pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) e publicado pela Guerra e Paz. Da música à escrita, da televisão ao teatro e ao cinema, os autores falam dos seus percursos artísticos e pessoais em entrevistas dadas à jornalista Ana Aranha para a rubrica «Lugar dos Novos», que é transmitida no programa televisivo Autores. «Lê-lo é saber o que pensam os mais novos membros da comunidade autoral portuguesa», diz o comunicado da SPA; e, entre eles, estão as escritoras de livros infanto-juvenis Maria Inês Almeida e Isabel Zambujal, o músico e cantor João Pedro Portugal ou o pianista Ruben Alves, só para dar alguns exemplos. Segundo a SPA, o livro é também «um retrato humano, ágil e diversificado desta realidade, que nos dá uma garantia importante para o futuro: a de que de irão nascer muitas outras obras nas próximas décadas». Oxalá!

Atrevimento

Houve quem achasse um autêntico atrevimento um escritor negro resolver escrever nos anos 1950 uma história escaldante sobre a relação entre dois homens brancos homossexuais. Houve até quem achasse que o livro não seria publicado nos Estados Unidos, terra natal do autor. Mas O Quarto de Giovanni quebrou fronteiras e barreiras e espantou meio mundo, confirmando James Baldwin, auto-exilado em Paris, como um dos mais arrojados escritores norte-americanos de sempre. Este é um livro sobre a descoberta da homossexualidade de um jovem norte-americano em viagem pela Europa quando se separa por uns dias da namorada e conhece Giovanni, o imigrante italiano que é barman num clube nocturno, e se apaixona por ele, embora sinta sempre que a relação é a prazo, uma vez que tem na mira casar-se em breve e o pai não vai continuar a mandar-lhe dinheiro dos Estados Unidos enquanto não regressar para lhe apresentar a noiva. As descrições deste idílio/inferno no quarto de Giovanni (quarto sujo, desarrumado, pobre) são extremamente avançadas para a época em que o livro foi escrito e sentimos a todo o momento que este triângulo amoroso está sempre à beira do rasgão, mesmo não conseguindo antever qual será o final. A tradução é do escritor Valério Romão. Sobre James Baldwin, não convém perder também o documentário I’m not your negro, absolutamente brilhante, e Se Esta Rua Falasse, sobre o qual já aqui escrevi.

Pobres autores

Estou cada vez mais convencida de que o consumidor final é a única coisa em que hoje se pensa quando se produz um artigo; e, se até há alguns anos a cultura era excepção, pois tudo mudou. Muita gente já não sabe quem escreveu o livro que anda a ler, o que é verdadeiramente triste (embora fosse pior se o livro não chegasse a ser lido), e os autores (seja em que área for) estão relegados claramente para segundo plano. Num anúncio de página inteira do Público do dia 29 de Setembro último, publicitava-se um filme em DVD que vai ser vendido com o jornal a partir do próximo dia 9. Encabeçava a página a frase melosa «A mais bela história de amor...» (com reticências e tudo); e, sobre a fotografia de duas lindíssimas jovens de olhos fechados no momento pré-beijo ardente (as actrizes, bem entendido: uma loura, a outra morena), um texto em duas colunas resumia o enredo desta «história de amor avassaladora» (o adjectivo é sempre o mesmo) e, ao lado, elencava os prémios que o filme ganhou ou para os quais foi nomeado (e são uns quantos). Na base da página, o título Retrato da Rapariga em Chamas, a data a que o DVD estará à venda e o preço (9,99 € com o jornal). Mas... De quem é o filme, alguém me diz? Não. Numa foto minúscula da capa do DVD a um cantinho, o realizador não é sequer legível. Se os autores, que são os responsáveis pela criação artística, já não têm uma linha para eles num anúncio de pagina inteira... Adeus, futuro

O que ando a ler

Muito contra o que é costume, porque não é das áreas que eu mais explore (mesmo que devesse), ando a ler um romance gráfico. Dá-se o caso de este me ter sido aconselhado por um autor que o aplaudiu sem reservas, de eu ter lido uma excelente crítica sobre ele num jornal e de, por acaso, até conhecer ao de leve o autor do argumento, Filipe Melo, embora de outras andanças (a música, já que ele é um fantástico músico, pianista e director musical do último projecto de um amigo, António Zambujo). Chama-se esta obra maravilhosa Balada para Sophie, conta com o artista Juan Cavia na parte do desenho (uma boa escolha porque também ele é extremamente dotado) e narra a história de uma estagiária do Le Monde que vai entrevistar um velho músico retirado que trocou uma carreira na música erudita pelo sucesso fácil da canção popular. A conversa entre ex-vedeta e «jornalista», que abarcará toda a vida do artista desde a infância à velhice, tem o seu ponto alto no período da Segunda Guerra Mundial e da Paris ocupada e brinda-nos no final com uma composição musical de Filipe Melo que é justamente a balada que dá nome ao título. É tudo imperdível. Publica a Tinta-da-China.