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A mostrar mensagens de abril, 2022

Ler com amor

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Amanhã, se tudo correr bem, parto para o Funchal, onde participarei de um encontro literário de leitura em voz alta organizado pela Contigo-Teatro (Cristina Batista, José Luís Gomes, Maria José Costa e São Gonçalves) sob o tema Ler com Amor. Partindo da pergunta «Leitura: Prazer ou Dever?», este certame conta com vários participantes de muitas áreas e acontece na Reitoria da Universidade da Madeira nos dias 29 e 30. Discutir-se-á, evidentemente, o grande problema da leitura num país onde, num ano inteiro, há 61% de pessoas que nem um livro lêem. Artur Anselmo fará a conferência inaugural e, nesse dia, estarei numa mesa a falar de como o livro foi atropelado pela Internet e de como a ignorância e a falta de leitura pode levar a tiranias impensáveis. No dia seguinte, poderemos ouvir João Tordo, Cláudia Fonseca ou Sofia Venâncio e teremos direito a uma performance pela também escritora Patrícia Portela. Fiquei contente por saber que a minha mesa vai ter como moderadora Maria Benvinda Ladeira Franco, que foi minha colega na Faculdade e reencontrei há poucos anos no Funchal. Agora, volto apenas ao blogue no dia 2, com sugestões de leitura, pois até lá estarei demasiado ocupada.


 


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Três

A maioria dos livros que publico actualmente sai com a chancela das Publicações Dom Quixote, uma editora que foi fundada por Snu Abecsassis ainda no tempo do Estado Novo e que sofreu bastantes golpes da censura porque a dinamarquesa arriscava bastante. Snu Abecassis é uma das Três Mulheres, uma série que se debruça também sobre a jornalista Vera Lagoa e a escritora Natália Correia, a cuja primeira temporada assisti com muito gosto no ano passado. Mas a série pelos vistos correu bem em termos de audiência, o que permite que agora possamos ver a segunda temporada, na qual estas três mulheres viverão já em democracia. Como sabemos, Vera Lagoa virará estrondosamente à direita; Snu apaixonar-se-á por Francisco Sá Carneiro e morrerá com ele na queda de uma avioneta que se supõe criminosa; e Natália será deputada do PSD, fazendo discursos memoráveis. A ver, claro, com vénia aos criadores.

Mestres e discípulos

Publiquei uma novela de Mário Cláudio, Retrato de Rapaz, que tratava da relação entre Leonardo Da Vinci e um seu discípulo e ganhou o Grande Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores (que Mário Cláudio já venceu por três vezes!). Há vários romances que tratam de relações entre mestres e alunos, e agora regressa às bancas a estreia de Frederico Lourenço na ficção, Pode Um Desejo Imenso (até agora o seu único romance, de resto), que também não foge a esta temática. Fala de um professor universitário, Nuno, que se ocupa desde há muito do estudo da obra e da persona de Camões, sobretudo do seu possível envolvimento com D. António Noronha, um jovem de quem era perceptor. No entanto, Nuno está ele próprio apaixonado por um estudante e, no fundo, projecta nessa sua paixão a história de Camões e do discípulo, enquanto,  noutra parte do livro, se recorda o tempo em que foi aluno e já então lia a lírica do poeta quinhentista e tinha um amor não correspondido. Este belíssimo romance sai agora numa nova edição, com uma capa linda, e merece leitura e releitura.

O meu corpo humano

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Não costumo falar muito do que escrevo neste blogue, que dedico sobretudo ao que leio. Mas hoje será, se tudo correr bem, um dia especial. Saiu há mais ou menos uma semana o meu novo livro de poesia, que tem por título o meu corpo humano (em minúsculas, porque eu só pequena) e contém cerca de sessenta poemas. Cada poema tem o nome de uma parte do corpo ou de um órgão (braço, cabeça, ouvidos, sangue, carne, rins...) ou várias (cabeça, tronco e membros, por exemplo, ou anca, coxa, perna e pé); e, porque o corpo é frágil e vulnerável, mas também humano no sentido da compaixão, os textos falam de sofrimento próprio e alheio, e do que o tempo faz a um corpo que tem tempo de ver-se ao espelho, e do que a guerra pode fazer ao corpo de uma criança e ao de um adulto. O lançamento, se tudo correr bem, é mais logo, como no convite que aqui vai, e fico muito feliz de ter comigo o poeta João Luís Barreto Guimarães, que também é médico e dissecará estas parte d' o meu corpo humano com o seu bisturi. Se vos apetecer, apareçam.


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Mortes em vida

Ocupou-me na última semana o romance de estreia de uma jovem autora de Salamanca. O livro tinha-me sido oferecido a seguir ao Natal por uma professora portuguesa que mora e trabalha nessa cidade e tinha gostado muito da leitura; coincidência boa, um mês e meio depois o escritor João de Melo recomendou-me que o lesse: Rebeca Hernández, a autora, conhece bem a língua portuguessa e foi tradutora de alguns livros deste escritor português para o castelhano. É um romance que fala de rupturas numa família de pai, mãe e três filhas. Lázaro quis sempre ter um filho rapaz e, tendo-lhe saído apenas raparigas, nunca lhes prestou a atenção que exigiam. Uma a uma, todas se foram tornando mortas em vida para ele, mesmo a do meio, Marcela, que ficou a viver com os pais. Mas Adela, a mãe, segue surpreendentemente a posição do marido; e, entre as próprias filhas, há rivalidades, desavenças e abandono. Los Abandonos é também uma história contada por uma das filhas à sua neta, muito tempo depois, para explicar como tudo aconteceu naquela família de abandonados. Se gostam e sabem ler em castelhano, é uma boa sugestão.

Ronda poética

Eu bem sei que os Extraordinários, pelo menos os que aqui comentam, não são grandes leitores de poesia, mas esta semana vão ter de levar com ela, que só lhes faz bem. Para começar, porque na próxima sexta-feira começa o festival Ronda Poética em Leiria, com curadoria do poeta Luís Filipe Castro Mendes e a presença de nomes sonantes, como os de Manuel Alegre ou Nuno Júdice, que participarão em conversas e debates. Desta feita, até eu lá vou estar, na Livraria Arquivo, às 17h de sexta-feira 22, numa sessão em que «contraceno» com a fadista Aldina Duarte, que acaba de lançar um CD intitulado Tudo Recomeça e para quem tenho feito várias letras/poemas ao longo destes últimos quinze anos. Vai também haver teatro e música, porque as artes gostam de andar de mãos dadas, e destaco um concerto composto integralmente por canções de poetas no dia 23, cantadas por Vitorino Salomé. A ideia é também comemorar o 25 de Abril e levar a poesia aos alunos de todos os graus de ensino, pelo que as escolas serão envolvidas desde o primeiro momento. No site do festival, há ainda uma bela novidade chamada «Aqui ronda o teu poema», um espaço onde todos podem inscrever os seus poemas sem precisarem de ter já livros publicados. Não percam! A poesia, como diz o psicólogo e poeta Paulo José Costa, devia ser receitada por médicos!

Futebol, ou nem tanto

Alguma vez eu poderia acreditar que ficaria entretida uma grande parte de uma noite por causa do futebol? Não, não se assustem: ainda não cheguei ao ponto de trocar um livro por um jogo (embora conheça grandes leitores que o fariam num piscar de olhos), mas peguei num pequeno livro que se chama Campo dos Bargos: O Futebol ou a Recuperação Semanal da Infância, de Jorge Reis-Sá, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos recentemente deu à estampa, e li não sei quantos capítulos de enfiada. Este Campo dos Bargos é nada mais nada menos do que o campo vizinho à casa onde o autor viveu a sua infância em Famalicão e, claro, onde jogava a equipa do Vila Nova a que aderiu em criança. Mas, mesmo falando de futebol, é sobretudo um livro de memórias e o retrato de uma relação com o jogo que, não deixando de ser pessoal (nem todos os rapazes usaram um aparelho na perna por causa de uma injecção mal dada, impedindo-os de jogar), se torna universal pela quantidade de homens e miúdos que viveram e vivem a paixão pelo seu clube, por pequeno que seja, sofrendo e entusiasmando-se em cada partida e lembrando pormenores deliciosos envolvendo jogadores, familiares e até os herdeiros que, mesmo morando a milhas de distância, continuam a tradição de se «alistar» na equipa que foi sempre a da família. Acredito que muita gente se reveja neste pequeno texto muito afectuoso. Sobretudo quem gosta de futebol, mas não só.

Vale tudo

Andava eu num motor de busca por causa dos livros de determinado autor de que um amigo me falara quando fui dar a uma dessas livrarias que fazem também vendas online e cliquei ENTER à espera de ver o que procurava. Ui... Abre-se-me uma página com um livro preto com letras vermelhas e umas cuequinhas provocadoras com o título O Poder da Rata. Grande plano. Pensei que era um desses anúncios que saltam quando menos esperamos e de que só conseguimos livrar-nos uns bons segundos depois, mas... não: era mesmo um livro a ser promovido por essa livraria, uma tradução do original de Kara King (deve ser pseudónimo, porque tem mesmo ar de nome de actriz de filmes porno). Por baixo diz que a edição é «brochada» (até me deu vontade de rir, desculpem) e mais abaixo ainda que quem comprou este livro também comprou um data de outros que têm no título (perdoem) a palavra «foder», com as letras todas ou com um asterisco numa letra em falta. Ai, mãe. Ando eu há tantos anos a tentar que as pessoas leiam coisas com algum nível, livros que façam qualquer coisa por elas, e depois o que está na «Primeira Página» das livrarias é isto? Bem, o resumo é logo um brinquinho, diz que se trata de doze segredos que tornam qualquer mulher forte e atraente. Passo. Prefiro a minha massita cinzenta, deixem estar. Ao que chegámos. Vale tudo.

À mesa

Hoje em dia, quando recebo a lista de críticas e referências aos livros publicados nesta enorme casa onde trabalho, quase sempre as primeiras do elenco são a livros de cozinha. Não é, por isso, de estranhar que haja cada vez mais actividades à volta da gastronomia e da  culinária, até porque alguns chefs têm garantidamente mais público do que a maioria dos escritores e publicam livros que vendem como pãezinhos quentes. Nesse âmbito, hoje às 19h, no Chapitô, a entrada é livre para o Todos à Mesa, tertúlia que suponho ser bem engraçada, a anteceder o período da Páscoa, que também costuma ser de comezainas. O painel inclui Nuno Alves Caetano, co-autor recente do celebérrimo O Livro de Pantagruel, escrito, se não erro, pela sua avó; o professor Daniel Mineiro, que falará dos aspectos religiosos e profanos dos alimentos; e Maria Oliveira Dias, que está nos antípodas dos ágapes bem fornecidos, pois é uma especialista em comiga vegetariana. Pois quem gosta de boa conversa, gostará certamente de aprender sobre alimentos proibidos, escolha de temperos, segredos bem guardados e muitíssimo mais. O moderador é João Morales, que tem toda a pinta de gostar de comer bem.

Descentralizar

«As palavras que nos unem» é o mote de 10 encontros literários que em abril e outubro deste ano se farão nas bibliotecas municipais do Alto Minho, integrados no projeto «Inclusão ativa de grupos vulneráveis. Cultura para todos». Vão estar à conversa autores portugueses que, segundo a organização, contribuirão «para a reflexão sobre o poder das palavras enquanto instrumento privilegiado para combater desigualdades, alertar para a exclusão e motivar coletivamente para a coesão social». Durante este mês, haverá encontros em Valença (dia 21), Arcos de Valdevez (dia 22), Caminha (dia 23), Ponte de Lima (dia 29) e Vila Nova de Cerveira (dia 30) e, em outubro, terá lugar uma segunda etapa desta edição em Melgaço, Ponte da Barca, Viana do Castelo, Monção e Paredes de Coura. Na primeira fase, passarão pelas bibliotecas nomes como Isabel Rio Novo, Paulo Moura, Tiago Salazar, Rui Cardoso Martins, Sílvia Alves, Paulo Freixinho, Manuel Jorge Marmelo, Manuella Bezerra de Melo, Rui Zink, Renato Filipe Cardoso, Mário Augusto e Álvaro Laborinho Lúcio. A moderação dos encontros estará a cargo do jornalista João Morales. Descentralizar!

Abrilar

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A EGEAC, empresa municipal que gere os espaços culturais e as festas e eventos na cidade de Lisboa, teve a ideia de assinalar o início das comemorações dos 48 anos do 25 de Abril com o Projecto 48, pedindo a 48 mulheres (escritoras, cantoras, compositoras) de várias idades e com visões diferentes do que foi a Revolução dos Cravos que escrevessem versos, aforismos, pensamentos ou frases curtas sobre a liberdade que nos trouxe esse acontecimento a que Miguel Real chamou (e bem!) um "rasgão no tempo". Entre elas, encontram-se, por exemplo, veteranas como Maria Teresa Horta contracenando com poetas mais jovens como Marta Chaves, Filipa Leal ou Beatriz Hierro Lopes; uma fadista como Aldina Duarte, que já contou como era difícil a sua vida antes de 1974, a par de uma jovem cantora como Luísa Sobral, autora da única canção portuguesa vencedora do Festival da Eurovisão, nascida já depois do 25 de Abril; a romancista Lídia Jorge, uma voz que sempre se fez ouvir também nos meios de comunicação contra as injustiças sociais, ao lado de outras ficcionistas como Dulce Maria Cardoso ou a mais jovem Djaimilia Pereira de Almeida (nascidas ainda numa Angola portuguesa). Esses pequenos textos estão espalhados agora por muitas artérias da capital, desde o Rossio, a Rua do Carmo, o Mercado da Ribeira ou mesmo a Ribeira das Naus. Por isso, até que a chuva os apague, caminhe pela cidade de olhos no chão porque vale a pena andar por aí a abrilar. A minha frase aí vai, pois também fui chamada à pedra. Obrigada à EGEAC.


 


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Excerto da Quinzena

Um almoço de folhas de alface, ananás e queijo fresco. Sentado à mesa da cozinha com um guardanapo cor-de-rosa sobre os joelhos, comeu com a suspeita de que aquilo era uma piada, de que a viúva estava a mangar com ele. Mas ela comeu também, e com tanto apetite que se diria estar a apreciar a refeição. Se Maria alguma vez lhe pusesse à frente aquele tipo de comida, ele atiraria com o prato pela janela fora. A seguir, a viúva serviu-lhe um chá numa chávena de porcelana fina. No pires havia duas bolachinhas brancas, do tamanho de uma unha de polegar. Chá e bolachinhas. Diavolo! Para Bandini, beber chá era sinal de efeminação e fraqueza, e além disso não apreciava doces. Mas a viúva, trincando a bolacha que segurava com as pontas dos dedos, sorriu-lhe amavelmente, enquanto ele despachava as dele como quem engole comprimidos. [...] De vez em quando, ela sorria-lhe, uma das vezes por cima do bordo da chávena. Aquele silêncio embaraçava-o e entristecia-o: a vida dos ricos, concluiu, não era para ele. Se estivesse em casa, teria comido ovos estrelados e um naco de pão, regados com um copo de vinho.


 


John Fante, A Primavera Há-de Chegar, Bandini,


tradução de Rui Pires Cabral  

Madalena

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Arrependida ou não? Não, obviamente, até porque esta Madalena de que hoje falo é obra premiada de Isabel Rio Novo. Depois de três romances que foram finalistas de vários prémios, saiu há pouco mais de um mês Madalena, que ganhou o Prémio Literário João Gaspar Simões, e o patrono do prémio, exigente que era, decerto se orgulharia de tal facto. Ora, sendo o galardão instituído pela Câmara Municipal da Figueira da Foz, iremos já na próxima segunda-feira à noite, pelas 21h00, apresentá-lo nessa bela cidade junto ao mar, levados pela voz bonita de António Tavares, ele próprio escritor e conhecedor da obra de Isabel Rio Novo, que já apresentou, de resto, noutras ocasiões. Se quer saber de um livro que fala de coisas fascinantes como a descoberta de uma correspondência amorosa entre pessoas de outros tempos, amores desiguais, abandono, doença, medo da morte e, porque não?, raiva e alívio, leia este livro. Se estiver perto da Figueira, apareça, estaremos à sua espera!


 


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Regresso

É já amanhã que chegará às livrarias o novo livro de Irene Vallejo, a celebrada autora de O Infinito num Junco, publicado e aplaudido em todo o mundo e uma das obras recentes mais adoradas por todos aqueles que gostam de livros (os Extraordinários que ainda não o conhecem corram, por favor, a comprá-lo, pois não se arrependerão.) Irene Vallejo, uma estudiosa abnegada da Cultura Clássica, depois de nos contar as mais fascinates histórias de como a literatura apaixonou o mundo desde a Antiguidade no livro que a trouxe para a ribalta, regressa agora com O Silvo do Arqueiro que, segundo leio, é um misto de livro de aventuras e romance; mas não abandona nem por um momento os autores da épica grega e romana, começando, aliás, a sua nova aventura literária com uma frase de Eneias no momento em que, derrotado, foge de Tróia com o filho e ainda não naufragou em Cartago. Sendo um livro moderno sobre o antigo, diz o texto promocional da editora que a autora «revisita as obras clássicas num jogo único entre história e lenda e capta o reflexo dos conflitos contemporâneos e a semente de temas que nunca deixarão de fascinar: a sombra do poder sobre a liberdade individual; o dilema de um homem que, quando o vê o seu mundo desmoronar-se, fica dividido entre a reconstrução das ruínas ou o risco de criação de algo novo; as dificuldades de uma mulher poderosa num universo de homens; e o desejo de ser mãe antes de o seu tempo passar. Violência, misericórdia, destino ou sorte.» Hum, de que estamos à espera para ir já apanhar um exemplar, antes que esgote?

Descobertas

Quando, aos domingos à tarde, vou fazer companhia à minha mãe quase centenária, costumo levar comigo o livro que ando a ler, achando possível que ela queira dormitar a seguir ao almoço. Mas, na verdade, ela aproveita sempre a minha presença para conversar e partilhar histórias fascinantes do seu passado; e, com isso, saímos ambas a ganhar e o livro a perder. Ora, como vou para casa dela a pé e há normalmente um pedido de bolos, envelopes ou qualquer outra coisa, na semana passada decidi que não iria carregada com o livro que há mais de dois meses transporto em vão (esse ou outro, enfim). Mas, ao contrário do que pensei, como mudara a hora no sábado, ela tinha perdido uma hora de sono e estava a recuperá-la quando lá cheguei... Enfim, fui à estante lá de casa desencantar alguma coisa curta e dei com um livro de que nunca ouvira falar: Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez, de Dinis Machado, com algumas ilustrações de Fátima Vaz, uma pequena delícia publicada originalmente em 1984. Mas que bela surpresa é este texto com o cais de Lisboa como pano de fundo e alguns homens do mar de faca na liga, os barcos ("brancos, azuis e furta-cores") como protagonistas e tudo aquilo que podia estar realmente num fado de Marceneiro, sem esquecer a Rua do Capelão... Se não conhece, procure e leia; é uma condensação de beleza e graça em vinte e tal páginas. Uma viagem de metro ou de autocarro e já está!

Próximo Capítulo

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Durante a pandemia, em que encontros presenciais estavam proibidos ou desaconselhados, a LeYa criou uma espécie de Clube de Leitores digital, chamado Próximo Capítulo, aberto a todos os interessados em debater literatura, em que os seus editores, à vez, propunham a leitura de um livro e depois o discutiam com todos os inscritos. Cheguei a ser a condutora de três sessões à roda de O Nervo Óptico, de María Gainza, e de mais duas sobre O Desassossego da Noite, de Marieke Lucas Reijneveld, e hei-de regressar qualquer dia. Mas, para os aficionados destas coisas não se aborrecerem muito sempre com as mesmas caras, este ano decidimos introduzir uma alteração e pô-los à conversa com autores. Amanhã, pelas 18h30, será por isso a vez de João Pinto Coelho falar sobre o seu primeiro romance, Perguntem a Sarah Gross, com meia dúzia de edições e um grande sucesso, seja em termos de vendas, seja sobretudo em termos de público, pois as suas sessões nas escolas têm tido um êxito verdadeiramente incrível, como poderão ver pela imagem abaixo. Se tem curiosidade, ainda está a tempo de se inscrever pelo endereço proximocapitulo@leya.com


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O que ando a ler

Se gosta de Salinger, este autor é para si: John Fante, um norte-americano que inspirou Bukowski, o autor responsável, aliás, pela sua redescoberta nos anos 1980 como um dos grandes vultos da literatura norte-americana. Fante é sobretudo um fantástico narrador da época da Depressão e, nascido em 1909, publicou vários romances até a diabetes o deixar cego (e, mesmo assim, ditou ainda um ou outro à mulher). O livro que agora tenho em mãos foi publicado em 1938, chama-se A Primavera Há-de Chegar, Bandini e é o primeiro romance de uma série de quatro dedicados a Arturo Bandini, um filho de imigrantes italianos pobres que, neste primeiro volume, tem apenas catorze anos e está dolorosamente apaixonado por Rosa, colega na escola católica que ambos frequentam. Arturo tem dois irmãos (August e Federico, de dez e oito anos, respectivamente), a quem faz tropelias sérias e criticáveis; além disso, detesta ser italiano e pobre, idolatra o pai que não vale nada (joga, bebe, engana a mãe) e é capaz de odiar a mãe, profundamente terna com os filhos e excessivamente católica (a sombra do pecado está sempre na cabeça dos miúdos quando fazem uma asneira, como roubar da travessa as duas pernas do frango quando há frango, o que é raro). Vamos ver se a Primavera chega a Bandini, pois até onde li a vida é extremamente difícil para esta família a um tempo marginalizada e digna de compaixão, e mais ainda para Aurturo, que atravessa a mais dura etapa da sua vida: a adolescência. Comparável a romances como Pela Estrada Fora ou À espera no Centeio, vale muito a pena.