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A mostrar mensagens de abril, 2019

As cidades e os livros

Quem gosta de livros e de ler (bibliófilos e leitores, duas espécies que têm cada vez menos adeptos, segundo os números de vendas de livros em todo o mundo) gosta também seguramente de visitar cidades onde haja bons alfarrabistas, bonitas livrarias e bibliotecas de sonho, e de espiolhar todos os cantinhos destes lugares sem se preocupar com as horas e as dores nas cruzes. Mas também pode preferir escolher como destino cidades onde se passa a acção de alguns dos seus romances preferidos, como, por exemplo, a Sampertersburgo das obras-primas de Dostoievski, a Oxford de Todas as Almas de Javier Marías, a Barcelona de A Sombra do Vento, a Tenerife da escpadinha de Terapia, de David Lodge, ou a Nápoles da tetralogia de Elena Ferrante. E, claro, pode ainda optar por cidades onde viveram os seus autores favoritos e vasculhar os sítios onde estes escreveram as suas obras mais emblemáticas: entrar nas suas casas ou gabinetes, ver como eram as suas secretárias e cadeiras, as suas máquinas de escrever ou, tratando-se de alguém mais antigo, as suas pranchas de escrita, os seus tinteiros, penas e mata-borrões. E até ir ao lugar onde estão enterrados, uma coisa algo mórbida que eu, por exemplo, já fiz com William Butler Yeats em Sligo, na Irlanda, e Joseph Brodsky no cemitério de San Michele, numa ilha de Veneza. Cada amante da leitura terá uma cidade que quer ir visitar por causa de um livro que leu ou do seu autor, mesmo que frequentemente, lá chegando, se desiluda com a cidade real.

Fora da Casa

Leio algures que as instalações da Casa Fernando Pessoa, na Rua Coelho da Rocha, em Lisboa, estão em obras de remodelação. Mas não é por haver trabalhos que param os trabalhos, porque todos os sítios são bons para celebrar a obra do multifacetado poeta, e no Dia do Livro, por exemplo, leram-se textos de Ricardo Reis no topo do edifício do Centro Comercial das Amoreiras, que é um belo miradouro. E amanhã haverá – ainda fora da casa, claro, mas noutro sítio bastante recomendável, as Galerias Municipais nos jardins do Museu de Lisboa – mais um acontecimento que promete ser bem interessante: um colóquio, com coordenação de Maria Andresen e Fernando Cabral Martins, dedicado à poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, de quem este ano se comemora o centenário do nascimento, e aos vestígios de Pessoa na respectiva obra. Dizem que todos os poetas portugueses pós-Pessoa têm algo de pessoano, mas será mesmo assim? Talvez os conferencistas nos dêem a resposta. Eles são Fernando J. B. Martinho, Gastão Cruz, Golgona Anghel, Joana Matos Frias, Margarida Braga Neves e Ricardo Marques. Haverá ainda leituras por Nuno Moura e Madalena Ávila.

Crónica (e ainda o 25 de Abril)

Hoje é dia de crónica e, portanto, aí vai o link:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/13-abr-2019/interior/nem-tanto-a-terra-10785058.html


 


Aproveito para dizer que as comemorações do 25 de Abril não se cingem obviamente a Lisboa, e que na Biblioteca Municipal de Setúbal a historiadora Irene Pimentel, vencedora do Prémio Pessoa, vai apresentar no dia 30, às 14h30, o seu livro Os Cinco Pilares da PIDE, que ensina o que a escola não ensina, para que não se repitam os males.

25 de Abril

Amanhã é 25 de Abril, uma das mais importantes e decisivas datas para Portugal, e também para mim, pois mudou a minha vida de muitíssimas maneiras (estou até convencida de que, sem a Revolução, provavelmente não teria chegado a ser editora, mas agora não vale a pena explicar porquê, pois demoraria muito tempo). As comemorações aqui em Lisboa são variadas, até porque 45 anos merecem festa sem fim, e vai haver actividades nos Paços de Concelho, no Jardim Mário Soares (ao Campo Grande), nas Biblliotecas Municipais (um ciclo de conversas sobre as questões LGBT), na Estação de Metro Baixa-Chiado (a exposição das fotografias do 25 de Abril de Alfredo Cunha), no Cinema S. Jorge e no Museu do Aljube. Música (Fausto canta já hoje à noite na Praça do Comércio), teatro, apresentações de livros, um festival de política, performances e debates, haverá de tudo por estes dias para celebrar esta maravilhosa data a que o escritor Miguel Real chamou «um rasgão no tempo». E foi. Não querendo pôr o pé fora da porta, pode sempre ler um livro livremente, sem censuras. Essa foi também uma benesse que a Revolução dos Cravos trouxe. Até sexta.

Dia do Livro

Hoje é Dia Mundial do Livro e não há melhor maneira de o comemorar do que lendo livros a sério. E aqui em Portugal, que nunca tivemos grandes hábitos de leitura, podemos aprender com um país que, igualmente pequeno, premeia quem lê. E como?, perguntarão os Extraordinários. Pois bem, conto-vos tudo. Durante o dia de hoje, em toda a Holanda, os transportes públicos são gratuitos para os passageiros que mostrarem um livrinho ou vierem a ler. Os caminhos-de-ferro holandeses fazem isto desde 1932, encorajando a leitura nos comboios e estendendo a gratuitidade do bilhete a um fim-de-semana inteirinho. Mais: o governo encomenda um livro a um autor holandês conhecido e oferece-o a todos os que, nesta data, vão às livrarias e compram livros; e depois, na bilheteira das estações de comboio, basta a um passageiro apresentar esse livro oferecido para ter um bilhete de borla. Em Espanha e Portugal as livrarias oferecem rosas no Dia Mundial do Livro, mas bem que podia haver ideias mais compensadoras; afinal, as rosas murcham rapidamente. Vivam os livros!


 

Arte extraordinária

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Hoje, que estamos todos a meio gás, vindos de um fim-de-semana de três dias e quiçá de comezainas em família e viagens longas, não estou com grande imaginação para posts; e, como sei que muitos dos leitores deste blogue nem sequer trabalham nesta segunda-feira (no Norte, pelo menos, é costume fazer-se gazeta na segunda de Páscoa), vou então tirar um coelho da cartola e mostrar-vos como alguns dos Extraordinários comentadores das Horas Extraordinárias são, de facto, criativos e generosos. É o caso de Fernando Costa, que já foi assíduo, deixou de o ser e voltou a sê-lo (o que muito me honra) e que há uns tempos me enviou o delicioso desenho que aí abaixo vêem (e um outro parecido). Baseando-se na minha fotografia que aparece junto das crónicas que escrevo para o Diário de Notícias, uma belíssima caricatura minha – que não só me faz mais nova e mais magra como também me põe com ar de estudante, com uma roupa muito semelhante a um traje académico. Obrigada, Fernando Costa. E volte sempre.


 


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Crónica e boa Páscoa!

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Como amanhã é feriado, aqui vai a crónica um dia antes:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/06-abr-2019/interior/chiu-10755817.html


No dia 23, é Dia Mundial do Livro e vai haver em Lisboa uma marcha pela leitura organizada pelo Plano Nacional de Leitura. Não faltem! Boa Páscoa a todos.


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Galveias

O romance Galveias, de José Luís Peixoto, de que já aqui falei quando saiu e de que gostei mesmo muito, venceu o maior prémio de tradução do Japão, depois de ter sido nomeado como um dos cinco finalistas, ao lado de obras de Wu Ming-yi, William Gaddis, Han Kang e Richard Flanagan. A tradutora, Maho Okazaki Kinoshita, que esteve em Galveias e foi fotografada com algumas das pessoas que lá moram (quiçá algumas delas personagens do livro que traduziu), está de parabéns – ela que, segundo li, nunca pensou ser alguma vez nomeada para um prémio desta importância e estava receosa de, na sua língua, não ter conseguido plasmar a diversidade e riqueza das figuras e do mundo criados por José Luís Peixoto. A cerimónia de entrega decorre a 27 deste mês em Tóquio. Galveias é o primeiro livro português a receber esta distinção e, desde que saiu em japonês, em Agosto de 2018, pela prestigiada editora Sinchosha, esteve no Top de vendas da mais prestigiada livraria japonesa entre muitas obras traduzidas. Parabéns também ao autor, que escreveu um romance profundamente original que conseguiu atravessar as fronteiras e transformar-se num texto igualmente belo nesta língua tão diferente da nossa.

Bichos e leitores

Quem me conhece sabe que eu não sou muito apegada a animais, mas, pronto, uma causa justa é uma causa justa. A Animais da Rua, uma associação que cuida de animais que andam por aí perdidos e abandonados nas nossas ruas, junta-se à literatura portuguesa e, por sugestão de Richard Zimler, organiza entre os dias 20 e 30 deste mês (celebrando o Dia Mundial do Livro), um leilão literário. Cerca de 70 autores (eu incluída) ofereceram aproximadamente cem livros autografados, destacando-se do conjunto uma preciosidade, Cristãos de Vanguarda, obra fora de mercado de valter hugo mãe e João Gesta, com duas ilustrações  do primeiro dos autores citados. Esta obra será objectivo de um leilão separado nos dias 21 e 22 e, a partir de dia 23, poderá então habilitar-se a obras de Alice Vieira, Afonso Cruz, Filipa Leal, Joel Neto, Rui Lage, João de Melo, Hugo Mezena, Joana Bértholo, e muitos, muitos outros. Todos os livros trazem marcador da ilustradora Inês Veloso, por sua vez oferecido por uma empresa chamada Carregal. Se está interessado em participar, consulte os procedimentos aqui:


https://www.facebook.com/animaisderua/


 

O regresso às raízes

Hoje venho falar-vos de um projecto que tem que ver com o ambiente e cuja divulgação me foi proposta por uma ONG dedicada à conservação da natureza. Aceitei sobretudo por ter uma ligação com a escrita. Pois bem, trata-se do #MedStoryPrize, o primeiro concurso internacional de contos dedicados à cultura do Mediterrâneo que apoia uma campanha que dá pelo nome de Rooted Everyday (ou, por cá, o Retorno às Raízes) para consciencializar o público da herança mediterrânica, pondo-a a salvo da ameaça de extinção de animais de plantas. As estórias devem ser sobre fauna, flora, temas e pessoas que valorizem a riqueza desta região. A participação é gratuita e destina-se a crianças a partir dos 7 anos (divididas em dois grupos: dos 7 aos 13 e dos 14 aos 18) e adultos naturais ou residentes em Portugal, Espanha, Marrocos, Grécia ou Líbano. Os vencedores e finalistas terão as suas estórias publicadas num e-book internacional. Para saber tudo sobre o concurso, visitem o site https://www.rootedeveryday.org/enter-pt/#s_2  ou enviem e-mail para rrodrigues@natureza-portugal.org. E pronto, lá fiz um post sem ter muito trabalho, mas com esperança de que dêem à pena e concorram. Para ajudar o nosso lindo Mediterrâneo, que infelizmente se está a tornar mais famoso pelas coisas tristes do que pelas imensas belezas naturais que possui.

Crónica e efemérides

Hoje é dia de crónica e tem que ver com a nossa amada língua. Aqui vai o link:


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/30-mar-2019/interior/lingua-madrasta-10734386.html


 


Este é um ano literariamente especial: não só é o centenário do nascimento de dois poetas portugueses espectaculares (Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, que de resto foram amigos e correspondentes), mas também o 50º aniversário de Mário Cláudio como escritor e o 40º aniversário da vida literária de Lobo Antunes (são de 1979 os romances Memória de Elefante e Os Cus de Judas), Alice Vieira e António Mota. E, internacionalmente, vamos ter uma raridade: dois Prémios Nobel da Literatura no mesmo ano! Não há ano como este.


 

Caçada

Hoje homenageio o nosso caçador de serviço, António Luiz Pacheco, com este post dedicado a um livro que, segundo leio no Público, e de acordo com as declarações do director-geral das Belas Artes espanholas, é uma obra fundamental para o estudo da arte de... caçar! Pois, intitula-se Livro da Montaria e foi redigido no século XV, em pleno reinado de D. João I de Portugal, estando há muitos anos guardado na Galiza, no Arquivo Provincial de Lugo. Acontece, porém, que um qualquer aficionado da caça (ou seria alguém apenas mal formado?) não resistiu e roubou (caçou) em 1995 uma folha deste volume emblemático da literatura medieval portuguesa, fragmento manuscrito que, ao desaparecer, deixou a obra incompleta. Mas a Polícia de Espanha conseguiu recuperar a dita folha no ano de 2014 (custou, mas foi), e o Ministério da Cultura do país vizinho responsabilizou-se pelo seu restauro e digitalização, tendo-a devolvido agora ao livro e à Galiza, onde pode ser de novo consultada, quiçá pelo nosso caçador Extraordinário. Tudo está bem quando acaba bem.

Literatura infantil

No dia 2 de Abril, alguém me chamou a atenção para o facto de não ter referido aqui no blogue que se tratava do Dia Mundial do Livro Infantil… E tinha razão: temos de celebrar esse dia, até porque é de pequenino que se torce o pepino e, se queremos ter leitores no futuro, temos de apostar neste segumento. Ora, um pouco mais tarde do que seria desejável, venho então propor a consulta a todos os que se importam com o que dão a ler às crianças de um artigo publicado na Time Out sobre oito livros recentemente publicados que todas as crianças devem ter em casa (e, obviamente, ler) por conjugarem de forma muito apelativa texto e ilustração e, além disso, servirem aos leitores para crescerem e aprenderem. O link vai abaixo, mas queria, desde já, destacar Metade, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso, da Planeta Tangerina, por ser uma obra belíssima sobre como as caras-metades se encontram (e o amor é sempre um grande tema!) e, puxando a brasa à minha sardinha, Não te Afastes, de David Machado, que é um livro que também os adultos adoram ler sobre a perda, a culpa, o luto e uma amizade inesperada. Espero que gostem, do artigo e dos livros!


 


https://www.timeout.pt/lisboa/pt/miudos/livros-infantis-fresquinhos


 

Obrigado a ler

A cultura francesa sempre foi um exemplo para muitos países, e várias gerações de portugueses foram, durante a ditadura, formadas pelo ensaio e a ficção vindos de França, quer de autores francófonos, quer em tradução. Mas também por lá os índices de leitura têm vindo a baixar com o visionamento apelativo das séries em streaming e o recurso constante ao smartphone. Leio, porém, no L’Humanité uma notícia sobre uma medida tomada por uma escola de Paris, com o apoio da associação Silence, on lit!, que parece boa para combater o problema. Depois do toque do fim do recreio da hora de almoço, exactamente às 13h25, estejam em que lugar estiverem dentro da escola, todos têm de pegar num livro e ler durante um quarto de hora (e atenção: até podem já estar sentados na sala de aula!). E não são apenas os alunos que têm esta obrigação, mas todo o pessoal da escola, incluindo auxiliares e professores. A escolha do livro é à vontade do freguês: aconselha-se o aluno a continuar o livro que já começou, mas não há restrições a temas, géneros ou autores, e isso torna o momento especial, porque é leitura obrigatória sem livro obrigatório. Os miúdos contam que antes não liam muito mas que, depois de aquele momento se tornar um ritual, começaram a gostar, sobretudo porque os relaxava a seguir à refeição e criava motivos de conversa com os colegas e posteriores trocas de livros. Muitos deles passaram então a comprar mais livros e ir à biblioteca com mais regularidade. Não seria de aplicar isto por cá?

Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis é o romance de Saramago de que, regra geral, os intelectuais mais gostam e aquele que ombreia com Memorial do Convento nas escolhas dos alunos do Secundário. Passados que estão 35 anos da sua publicação, vai tornar-se filme pela mão de João Botelho, experiente nestas coisas de adaptar literatura portuguesa (já o fez com Os Maias, de Eça de Queirós, e Livro do Desassossego, de Bernardo Soares, heterónimo de Pessoa). A rodagem iniciou-se no mês passado e o elenco vai contar com o actor brasileiro Chico Díaz no papel de Ricardo Reis, e ainda com Luís Lima Barreto como Fernando Pessoa, Catarina Wallenstein como Lídia e Victoria Guerra como Marcenda, entre outros. Prevê-se que o filme fique pronto ainda este ano. Na revista Blimunda, da Fundação José Saramago, diz-se que nessa altura poderemos ver como Botelho leu este romance que «tem como personagens um ano, uma cidade, um poeta, um fantasma, uma criada de hotel, uma jovem com um braço morto, um marinheiro comunista…». Pois, não vai ser fácil, mas vamos esperar o melhor. Só espero que os meninos do Secundário não vão ver o filme a pensar em escapar ao romance…


 

Crónica antes da hora

À hora a que os Extraordinários lêem este meu post, estarei, se tudo correu bem, em Badajoz, lendo e conversando sobre poesia com alunos do Secundário e, mais tarde, numa sala maior, com o público em geral. A iniciativa já contemplou outros poetas portugueses (como Ana Luísa Amaral ou Nuno Júdice, mas também o escritor de canções Sérgio Godinho) e, claro, muitos poetas espanhóis. Chama-se «Aula de Poesia Díez Canedo» e celebra, evidentemente, Díez Canedo, poeta pós-modernista nascido em Badajoz, que viria a morrer na Cidade do México em 1944. Ora, deixo-vos então a crónica um dia mais cedo, porque amanhã não há post, agora só na segunda.


 


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/23-mar-2019/interior/patria-a-mais-10707874.html

Renascimento

Reabriu recentemente uma biblioteca na Avenida Rio de Janeiro, em Alvalade: a Biblioteca Manoel Chaves Caminha, que esteve em obras desde o verão passado e renasce agora de carinha lavada e agenda cheia, incluindo uma comunidade de leitores orientada pelo escritor Gonçalo M. Tavares. Agora, além do posto de atendimento no rés-do-chão, o primeiro piso é composto por uma sala dedicada ao público infanto-juvenil, com livros, jogos e uma tenda de circo. No último piso, com luz natural, destaca-se o espólio deixado por Manoel Chaves Caminha. A biblioteca quer receber as famílias aos sábados de manhã e tem já agendadas sessões sobre as obras-primas de Homero como tema de conversa. Também estão planeadas sessões de encontros com escritores coordenadas pelo jornalista José Mário Silva, uma das quais acontece já no dia 13 de Abril com Maria Teresa Horta. Em Maio haverá “Alvalade Capital da Leitura”, um festival literário que decorrerá em vários locais da freguesia, entre os dias 16 e 25, e também na biblioteca. São boas notícias, claro.

Torga e Camões

Já lá vão trinta anos que o Prémio Camões – o mais importante galardão para a literatura de língua portuguesa – foi, pela primeira vez, atribuído. A quem? A Miguel Torga que, ao que li, disse ao recebê-lo: «Queria ser no mundo, como em letra redonda o declarei, um homem, um artista e um revolucionário.» Não poderia, pois, o Espaço Miguel Torga (complexo cultural belíssimo nascido do risco harmonioso de Eduardo Souto Moura, em São Martinho da Anta, terra onde podemos ver ainda a casa do escritor) deixar de comemorar o acontecimento; e é já hoje à noite que passa o espectáculo Palavras Talhadas em Rocha (lembrem-se de que o nome verdadeiro do escritor era Adolfo Coelho Rocha), composto por leituras de poesia, contos e passagens dos diários deste autor feitas pelo jornalista cultural João Morales, acompanhado pelo violino de Maria do Mar e pelo clarinete de Juan Cato Calvi. A entrada é livre. Uma bela maneira de recordar o grande escritor que, durante muitíssimos anos, foi o candidato português ao Nobel da Literatura.


 

O que ando a ler

Pronto, hoje é dia de dizer o que ando a ler. Para não fugir muito do habitual (e porque os Extraordinários não ligam grandemente à poesia), tenho em mãos um romance, uma tradução do francês feita por Artur Lopes Cardoso de um texto assinado por um escritor de quem gosto muito: Philippe Claudel, autor de um dos meus livros preferidos, o excelente Almas Cinzentas. O novo, acabadinho de sair, tem lugar num arquipélago imaginário de origem vulcânica (Arquipélago do Cão é, de resto, o título), um lugar sem grande valor para o país a que pertence, mas que está em vias de entrar no mercado do turismo por causa das suas excelentes águas termais, atraindo investidores e, com a hotelaria e a construção, conseguindo manter na ilha os habitantes que antes migravam para o continente assim que chegavam à idade adulta. Porém, dão à costa numa praia pedregosa da ilha três negros, por certo migrantes fugidos de África num desses botes de borracha que a toda a hora naufragam nas águas do Mediterrâneo. E a publicidade a tal caso pode inibir os projectos e os turistas, pelo que o melhor é encontrar uma cratera bem funda onde «despejá-los»... Mas os vulcões podem ser vingativos, e a terra treme várias vezes neste romance. Vou mais ou menos a meio e estou obviamente curiosa em relação ao final. O livro foi publicado pela Sextante e Claudel esteve recentemente em Portugal para o seu lançamento.