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A mostrar mensagens de julho, 2015

O repouso da guerreira

Antes de partir para férias (o blogue ficará interrompido até Setembro, lamento, porque esta guerreira também precisa de repouso), sugiro que leiam bons livros durante o Verão e despeço-me com uma sugestão, pois também eu a recebi de uma leitora que prezo. Trata-se de Os Anjos Morrem das Nossas Feridas, de Yasmina Khadra (um argelino que escolheu um pseudónimo feminino e cuja obra, muito premiada, está traduzida em mais de 40 países), romance belíssimo que conta a história de um rapaz muçulmano muito pobre na Argélia dos anos 1920 e 1930 (antes da independência, portanto) e que se inicia, curiosamente, com a sua condenação à morte em 1937 para nos trazer, como esse filme acelerado do passado que se diz chegar a todos na hora de sucumbirem, o relato da sua vida desde pequeno: a miséria terrível nas ruas fétidas, as amizades nem sempre bem escolhidas, os trabalhos duros de sobrevivência, as paixões frustradas e a sua opção de um dia, por causa de um desgosto de amor, se tornar boxeur – e uma vida de socos dados e recebidos não pode, claro, acabar bem. Retrato de época notável, fundo político, escrita realmente apaixonante, enredo e personagens de grande densidade, este é um livro de um autor a reter e a repetir, neste ou noutro Verão qualquer. Boas férias a todos. Em Setembro, cá estarei para fazermos juntos o ponto da situação.

Autor?

De vez em quando, pergunto a algumas pessoas de fora deste meio, sobretudo se forem mais jovens, o que andam a ler. E, sim, respondem, mas resumindo o enredo e abordando os temas tratados, raramente indicando o título (que esquecem com uma facilidade surpreendente) e ainda mais raramente nomeando o autor (que nem chegaram a fixar). É para mim muito estranho, confesso, esta atitude «desprendida», porque, quando comecei realmente a entusiasmar-me com a leitura e descobria um autor ou uma autora que me caía no goto, queria ler absolutamente toda a sua obra e, a menos que me desiludisse pelo caminho, não descansava enquanto o não fizesse. Ainda hoje sou capaz de referir todos os títulos que li de determinados autores amados – e até os que não cheguei a ler e estão na minha cabeça como uma espécie de culpa que não se foi com o tempo. Os editores franceses são ainda dos poucos, no mundo inteiro, que respeitam a figura do autor; não raro, sobre as capas muito simples, claras e lisas, apenas com letras, colocam umas cintas largas com a fotografia (mesmo que se trate de alguém feio ou pouco atraente) e o nome do autor em maiúsculas, para que, entrando numa livraria, os leitores possam identificar sem trabalho que já saiu mais um livro do seu escritor favorito. Mas não conheço mais ninguém que o faça e talvez seja, afinal, pura perda de tempo e energia: muitas pessoas já não querem simplesmente saber quem escreve o que andam a ler.

Lá e cá

Chegámos àquela altura do ano muito tola em que os jornais e revistas se multiplicam em listas de livros para o Verão, para as férias, para a praia, etc., como se o bom tempo ou um areal sugerisse um certo tipo de livro, e não outro. Enfim, faz-se em todo o mundo e não há como evitá-lo, mas, na verdade, há quem torne o artigo mais interessante, como o Guardian (mas o Guardian é habitualmente um jornal interessante), que resolve a coisa perguntando a autores conhecidos, como Ian McEwan, William Boyd, Antonia Byatt ou Chimamanda Ngozi Adichie (no Reino Unido são mesmo muito conhecidos) os livros que vão levar para ler nas férias. Na verdade, eu gostaria muito de saber o que alguns dos nossos escritores mais destacados vão ler nas férias, até porque isso pode dar pistas sobre o que andam a escrever e fornecer ideias para mim própria; mas tenho a suspeita de que, ao contrário dos britânicos e anglófonos (Chimamanda é nigeriana), que lêem livros acabadinhos de sair e de escritores jovens e menos conhecidos, os portugueses se apressariam a citar clássicos intocáveis ou livros de confrades bem estabelecidos. Pelo menos, é o que acontece quando perguntam a um escritor português numa entrevista o que anda a ler – e raramente é uma coisa recente. Porque será tudo tão diferente cá e lá?

Trabalhos de férias

Supostamente, não deveríamos trabalhar durante as férias (eu quase nunca me escapo), mas é costume os professores marcarem os antipáticos «deveres» aos alunos, logo de pequeninos, no último dia de aulas, mesmo que no ano seguinte não estejam nessa escola para os corrigir e avaliar. Em todo o caso, leio por aí (já não me lembro aonde fui buscar isto, talvez ao Facebook) que um professor primário espanhol não fugiu à regra, distribuindo uma folhinha de tarefas a cada aluno, mas tornou-se a excepção justamente pelo que encomendou (e recomendou) às crianças, sem esquecer também umas achegas aos pais. Porque não vale a pena reproduzir ou parafrasear o dito professor, deixo-vos o link dos TPC em causa, comentando apenas – por razões que todos os Extraordinários certamente compreenderão – que o homem é cá dos nossos, já que a sua primeira recomendação é a leitura.


 


http://historiascomvalor.com/professor-surpreende-todos-os-pais-com-estes-trabalhos-de-casa-para-as-ferias-de-verao/


 


 

Glosar e copiar

Muitos autores de todo o mundo, especialmente poetas, gostam de glosar textos dos seus antecessores. Gastão Cruz, um poeta muitas vezes premiado em Portugal, tem alguns livros em que, por exemplo, dialoga com poetas clássicos, como Sá de Miranda, usando versos de outros em itálico nos seus textos. É mesmo assim – e não se trata de roubo, antes de uma homenagem. Ora, um escritor argentino de 38 anos, Pablo Katchadjian, resolveu criar um projecto em que partia de três obras literárias publicadas e, conservando-as como núcleo, trabalhava à volta delas, acrescentando-as. E, entre outras, pegou n’O Aleph, de Jorge Luis Borges, e toca de criar o seu «Aleph Engordado», acrescentando 5600 palavras de sua autoria ao conto de Borges, reproduzido de fio a pavio. Ora com quem te foste meter… María Kodama, a viúva do escritor, achou isto um completo abuso e acusou-o nada mais nada menos de plagiar a obra do grande Borges (que, de facto, estava no meio da sua, e intocada), entrando com um processo na justiça. E, surpresa, o Tribunal deu razão a María Kodama e condenou o pobre Pablito a pagar uma quantia exorbitante… Já não se pode glosar...

Turistas de livrarias

Há dois meses fui fazer o lançamento do romance No Dia em que o Sol se Apagou, de Nuno Gomes Garcia, à Livraria Lello, na cidade do Porto; e, se a sessão não se tivesse desenrolado no primeiro andar, teria sido simplesmente impossível ouvir as palavras do apresentador, tantos eram os turistas que entravam e saíam do lugar e as exclamações entusiastas que proferiam ao mirá-lo. A Lello vem referida em todos os guias da Invicta como uma das atracções da cidade – e vale muito a pena visitá-la, mesmo a 3 euros – mas há outras que também estão nos roteiros turísticos de Portugal por razões diferentes; uma delas, conhecida como a «Livraria do Simão», nas Escadinhas de S. Cristóvão, ali à Rua da Madalena, em Lisboa, é, tanto quanto li, descrita como «a mais pequena livraria do mundo» e isso parece atrair para lá os turistas, a quem alguém diz – verdade ou não – que até está no Guinness Book! E eis que, diante disso, todos sacam da máquina fotográfica e do telemóvel para fazerem umas chapas que estão, afinal, entre as mais disparadas de Lisboa. O livreiro (Simão, claro) diz que, sem saber, criou «um monstro maior do que ele» - e é curioso utilizar a palavra «monstro», tratando-se, afinal, de uma livraria minúscula, quase claustrofóbica, com livros do lado de fora, pois já não cabem mais lá dentro. No entanto, foi nestas Escadinhas de S. Cristóvão que Manoel de Oliveira rodou A Caixa, por isso o espaço é ainda mais especial. Turistas à parte, se conseguir romper por entre a multidão, é de lá dar um salto e uma espiadela!

Pela nossa saúde

Recentemente, foi publicado um estudo (link abaixo), capitaneado por um professor da Universidade de Chicago, que revela o quanto a nossa saúde pode melhorar se vivermos numa zona onde existam árvores, muitas árvores. A amostra era muito mais do que uma simples amostra, incluía mais de meio milhão de árvores na cidade de Toronto e os registos de saúde de cerca de 30.000 habitantes, concluindo os estudiosos que este cenário natural contribui também para muitas vantagens cognitivas e psicológicas (o oxigénio tem destas coisas) e que um aumento de dez árvores por quarteirão, por exemplo, pode aumentar cerca de sete anos a nossa vida. Sempre achei que Lisboa era muito carente de parques e jardins, sobretudo em comparação com outras cidades europeias cheias de espaços verdes e de alamedas. E, ironicamente, vivo rodeada de árvores, se pensar que os não sei quantos mil livros que temos em casa são oriundos de muitas, muitas árvores. O problema é que esses, com o pó, nos deixam respirar cada vez pior…


 


http://www.nature.com/articles/srep11610

O eterno desacordo

Pois é, a discussão sobre o Novo Acordo Ortográfico (NAO) está para durar – e isto mesmo se infere da declaração do vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o juiz Sebastião Póvoas, sobre a matéria, ao dizer que a resolução do Conselho de Ministros que obrigou as escolas e todos os organismos do Estado, incluindo os Tribunais, a aplicarem o NAO é inconstitucional «a título orgânico», violou «os princípios da separação de poderes» e, entre outras coisas, não respeitou a «equiordenação entre os órgãos de soberania». Diz, aliás, que o NAO nem sequer se encontra verdadeiramente em vigor, porque não foi ratificado por todos os Estados que o subscreveram (Angola e Moçambique, por exemplo), não estando, por isso, em vigor «na ordem jurídica internacional». E acrescenta que (transcrevo do jornal Público) «coloca em causa princípios e direitos consagrados na Constituição da República, como o “princípio da identidade nacional e cultural”, o “direito à Língua Portuguesa” e o “princípio da independência nacional devido às remissões para usos e costumes de outros países”». E, se um juiz do Supremo o diz, quem sou eu para o contradizer?

Paris inesquecível

Há uma canção que, quando a ouço, esteja onde estiver, pára tudo – e podem chamar-me pirosa, romântica ou lamechas, que não me importo. Chama-se La Bohème, gosto dela pela voz de Aznavour, e conta a história de um grupo de jovens artistas em Paris, esfomeados mas cheios de ideias, de convencimento e de paixão. Vistas bem as coisas, trata-se de uma canção que podia ter sido escrita (se ele estivesse para isso) pelo mesmo Hemingway que escreveu Paris É Uma Festa, um maravilhoso livro de memórias sobre a Paris onde viveu nos anos 1920, a começar a sua carreira como escritor, depois de ter servido na Primeira Guerra Mundial como condutor de ambulâncias (o que é descrito em O Adeus às Armas, mas ainda aparecem muitos ex-combatentes nestas páginas). A obra só foi publicada nos anos 1950, mas as recordações de Ernest, recém-casado e apaixonado pela escrita (apesar da fome e da falta de recursos para viver dela), permaneceram como se tivesse regressado da Cidade-Luz na véspera de as passar ao papel. E é maravilhoso saber dos seus encontros com Ezra Pound (a quem ensinou um pouco de boxe), James Joyce, Gertrude Stein (que surpreendeu num momento delicado) ou mesmo Ford Maddox Ford (o inglês que achava os americanos bastante grosseiros). Nunca tinha lido este Hemingway cheio de álcool, cafés e bares e quase o apreciei mais do que os seus romances, talvez por me trazer tantos escritores que li e estudei como pessoas, esquivas ou gentis. Não percam Paris É Uma Festa por nada deste mundo – e, se gostarem, entenderão ainda melhor o romantismo de La Bohème.

A arte e a vida

A Fundação Calouste Gulbenkian tem um programa de Desenvolvimento Humano, no qual se insere o Partis – Práticas Artísticas para a Inclusão Social, que visa ocupar através da arte pessoas normalmente marginalizadas e integrá-las socialmente. Ao que diz a responsável pelo programa, está provado «que a arte tem mesmo um efeito de causalidade na alteração de comportamentos», e daí que um certo tipo de pessoas – desde crianças exageradamente irrequietas até jovens institucionalizados – beneficie claramente da integração em projectos de índole artística, sejam teatro, música, cinema, sejam fotografia, pintura e até o circo. Para isso, a Fundação aplica anualmente gordas verbas que entrega a entidades culturais ou instituições sociais que, assim, se tornam parceiras do projecto, exigindo -lhes que se ocupem não de simples actividades de tempos livres, mas de programas de excelência que sejam acompanhados ao longo do tempo e ajudem de facto a integrar os desintegrados. Uma bela ideia que se materializa anualmente em espectáculos, filmes e exposições nos palcos e galerias da Fundação, onde os improváveis artistas mostram, afinal, o que aprenderam e o bem que isso lhes fez. Este ano calhou a vez, entre outros, a crianças de bairros problemáticos de Loures e a jovens internados em centros do Ministério da Justiça. Pode ser que um dia também a literatura seja usada no Partis.

Países irmãos

Aqui há tempos, quando disse que o Brasil ainda não contava para a internacionalização dos autores portugueses, houve alguém que, num comentário, me pediu que explicasse melhor – e a única explicação que posso dar é a da minha experiência: quase ninguém lê no Brasil os autores portugueses contemporâneos, excepto se ganharem prémios importantes ou forem conhecidos por outras razões. E o contrário é também verdade – muitos dos autores brasileiros que escrevem hoje não são publicados em Portugal, e os que o são quase ninguém os conhece. A situação pode, mesmo assim, melhorar bastante com uma parceria anunciada recentemente pelo nosso Secretário de Estado da Cultura. Ao que parece, lá e cá, as bibliotecas públicas acordaram ter todas à disposição um conjunto de livros considerado uma biblioteca básica que dê um cheirinho sobre a literatura do outro país. O ministro brasileiro disse esperar que a parceria contribua «para desenvolver estratégias que nos aproximem, que fortaleçam a nossa língua e que criem a possibilidade de um intercâmbio e uma proximidade muito maior do que aquela que já temos». Veremos se muda alguma coisa. Eu gostaria de começar por saber de que se comporá essa biblioteca básica…

Mário Cláudio de parabéns

Ontem ao princípio da tarde, tive a bela notícia de que Mário Cláudio vencera o Grande Prémio de Romance e Novela da APE/DGLAB 2014 com a sua novela Retrato de Rapaz, que tive a felicidade de publicar. A felicidade foi maior ainda por dois outros motivos, além da qualidade do romance e de ter sido a sua editora: o facto de haver concorrentes muito fortes (Os Memoráveis, de Lídia Jorge, por exemplo) e também a circunstância de ser a segunda vez que Mário Cláudio arrecadou este galardão (há trinta anos, recebeu-o pelo romance Amadeo, a obra que o tornou um escritor conhecido), proeza que só Vergílio Ferreira, Lobo Antunes e Maria Gabriela Llansol tinham alcançado antes dele. Já aqui escrevi sobre esta belíssima novela na altura em que foi publicada, mas queria aproveitar para lembrar que se trata de um texto sobre o relacionamento do grande Leonardo da Vinci com um jovem discípulo que vai trabalhar para o seu estúdio, bem como sublinhar que a novela premiada é a segunda de um trio, de que fazem também parte Boa Noite, Senhor Soares e O Fotógrafo e a Rapariga. Todos muito bons! Parabéns, Mário Cláudio.

Mais sucesso

Ontem falei aqui de sucesso e hoje é também de algum modo esse tema inesgotável que volto a trazer. Desta vez, porém, tem que ver com alguém a quem o êxito trouxe um certo desconforto – porque, não nos iludamos, também há quem não goste de se tornar conhecido e ser abordado por causa disso. Falo de um homem que se tornou conhecido e que, enfim, quisesse ou não, devia ser abordado de vez em quando no seu país: o autor de Pela Estrada Fora, Jack Kerouac, que, segundo agora se conta, escreveu um dia ao seu editor uma carta onde fazia a seguinte confissão: «Começo agora a aperceber-me de que sucesso é quando já não conseguimos almoçar em paz.» Percebo o desabafo, evidentemente, deve ser mesmo chatinho ter sempre alguém à perna (cá os escritores estão dispensados desses «afectos» porque ninguém sabe quem são), mas a verdade é que isso tem também vantagens – e é por isso que esta carta de Kerouac que referi está a ser objecto de um leilão e vai certamente render muito dinheiro… Parece que lá se descreve o que o escritor ia fazer no seu livro Spotlight, que ficou inacabado, e há muitos maluquinhos malucos por saber…

Fama e proveito

Li recentemente no Público uma reportagem sobre a participação da poetisa portuguesa Matilde Campilho na Festa Literária de Paraty, reportagem na qual, citando jornais brasileiros, se contava que «ela roubou a cena» e «foi a musa» da festa, contribuindo para filas intermináveis de leitores à espera do seu autógrafo. E logo me lembrei daquele ano em que Valter Hugo Mãe fez chorar a plateia (e chorou também ele), passando a seguir mais de quatro horas numa livraria a autografar romances para mulheres que queriam casar-se com ele. Com o sucesso – sobretudo o internacional – passou a ser odiado por um mar de gente que não perdoa aos escritores terem um êxito que facilmente aceitariam num actor de cinema. Não: escritor é para escrever e ficar sozinho no seu canto... Pensava eu nestas coisas com medo do que irá suceder à jovem e promissora Matilde Campilho (que ainda por cima é bonita e, por isso, tem mais uma razão para os feios implicarem com ela) quando, em pleno Facebook, na página de um escritor estrangeiro, leio qualquer coisa como (desculpem a tradução literal): «Fode à vontade, mas por favor guarda isso para ti.» Vinha a frase a propósito da relação de Mario Vargas Llosa com a socialite espanhola Isabel Preysler, que fez mais uma capa da revista Hola, na qual se anunciava a felicidade do casal numa viagem romântica a Portugal. Ou seja, tu, escritor, podes ter o proveito, mas não a fama... Pois não sei bem o que pensar disto: as revistas deste tipo nem sequer me irritam, são-me indiferentes; se as folheio no dentista ou no cabeleireiro, não apreendo quase nada, pois não sei de quem estão a falar porque, para isso, é preciso ver televisão (e não troco um livro por essa anestesia). Mas porque se enervam tanto as pessoas sérias quando um intelectual aparece ao lado de uma mulher bonita e mundana? O escritor do Facebook dizia que há coisas que, se não pudermos contar que fizemos, perdem a graça, mas que Vargas Llosa não se devia pôr a jeito. Eu não sei se é para dizer que anda com uma mulher gira e com tudo no sítio que ele se deixa fotografar. De qualquer modo, não preciso de defender um senhor que até já recebeu o Prémio Nobel da Literatura. Espero é que a jovem poetisa, de quem já falei elogiosamente aqui no blogue, não atraia muita gente maldisposta que se vire contra a sua poesia, como os que se viraram há uns anos contra o que Valter Hugo Mãe escreveu, só por causa do seu sucesso internacional.

O poder das histórias

Na última página do livro, o editor escreve com que tipo de letra foi composto e onde foi impresso o “romance” que acabámos de ler. Ora, embora se leia como um romance e fale sobretudo do “poder redentor das histórias”, Esta Distante Proximidade, de Rebecca Solnit –, uma das ensaístas mais aclamadas dos EUA na actualidade – não é um romance, e quase apostaria que no país de origem figura nas listas de livros de não-ficção. Na verdade, parte do livro é realidade, autobiografia, e a outra parte reflexão e sugestão de teoria. Mas tudo está ligado efectivamente pelas histórias – mitos, lendas, fábulas, contos de fadas, histórias da História e também coincidências e episódios da vida da autora. Tudo escrito como numa série de espelhos, nos quais vemos antes de tudo Rebecca Solnit, mas vemos também muitas outras pessoas e nos vemos até a nós de vez em quando. Estamos, no fundo, ligados pelas histórias, próximas e distantes – e estas que se nos apresentam aqui falam de Alzheimer e cancro, mas também da Islândia e dos ursos polares, de viagens contemporâneas e antigas, de obras de arte imorredoiras e instalações vanguardistas, de palavras e da sua etimologia; e de damascos – sim, de damascos –, pois é com pilhas deles que tudo começa e acaba nestas páginas profundas, bonitas, cheias de ideias muito atraentes e de parágrafos notáveis. (O meu preferido está na p. 127 e é sobre empatia.) Vale muito a pena ler, asseguro, mesmo para quem só costuma ler romances.

Um senhor escritor

Já não fui a tempo de ler Tudo O Que Conta em vida do autor, James Salter. O livro saiu cá um mês e picos antes da sua morte, ocorrida no dia 20 de Junho, em que me cruzei na Gulbenkian com a jornalista Isabel Lucas, que o tinha entrevistado recentemente e estava inconsolável, pois ele era, além de um senhor escritor, um homem especial, que adorava comida e lhe tinha mostrado a sua cozinha na casa onde a recebera para a entrevista. Nunca tinha lido Salter – falha minha, claro, pois já me tinham falado muito bem de The Hunters –, mas em Portugal só foi publicado agora e confesso que não tenho lido muitos livros estrangeiros nas respectivas línguas ultimamente. Este Tudo O Que Conta (com tradução de Francisco Agarez, e boa) lembrou-me o romance Stoner, de John Williams, de que já aqui falei, talvez por ser também a história de um homem que gosta muito de livros; o protagonista chama-se Philip Bowman e, depois de combater na Segunda Guerra Mundial, abraça a edição (Stoner tinha sido professor). E é da vida de Bowman, entre mulheres e livros, que saberemos o que realmente contou, entre a experiência na Marinha contra os Japoneses nos anos da guerra, os almoços com a mãe e os tios, os encontros com editores e escritores, a comunhão funda, mas quase sempre passageira, com várias mulheres: Vivian, com quem se casa, Enid, uma inglesa casada com quem tem uma relação entrecortada, Christine, que o engana e rouba indecentemente, Anet, a filha desta (a vingança deve servir-se fria) e, já a caminhar para velho, uma mulher que trabalha também com livros e nunca teve um homem antes dele. Não é só isto, evidentemente, porque teremos, a par das histórias de Bowman, muitas outras sobre as pessoas que realmente contaram na sua vida e, além disso, uma prosa limpa e culta, cheia de referências literárias raras na literatura americana contemporânea. A ler, claro, mesmo que já não possamos dizer ao autor como gostámos deste seu romance.

Medidas de prevenção

Ir a uma livraria comprar um livro erótico ou a uma papelaria comprar uma revista de mulheres nuas deve equivaler ao que sentiam certos homens aqui há uns bons anos quando tinham de comprar preservativos na farmácia e os atendia uma senhora de certa idade. Por isso, este tipo de livros e revistas é ainda hoje comprado sobretudo em lojas online e frequentemente em edição digital. Leio, mesmo assim, que a Associação de Editores e Livreiros da Alemanha tomou a decisão de estabelecer um horário nocturno para a compra online de livros e revistas para adultos – precisamente entre as 22h00 e as 6h00. Talvez o objectivo seja o de evitar que crianças consumam produtos que não são para a sua idade. A Alemanha tem, de resto, uma lei desde 2002 que obriga editores a especificar que certos livros, revistas e outras publicações se destinam apenas e só a adultos, incorrendo em multa muito pesada se o não fizerem. E são essas publicações que não vão agora poder ser compradas durante o dia nas plataformas digitais, mesmo que sejam adultos a querer lê-las. A medida está a dar uma grande dor de cabeça, porque há certamente alguns menores que já terão capacidade de ler alguns títulos para adultos e porque requer uma nova catalogação que dá trabalho e custa dinheiro. Não sei se terá efeitos práticos, mas como prevenção até é louvável.

Falta de tempo?

Muita gente que não tem hábitos de leitura alega falta de tempo para não ler. Pois bem: há muitas desculpas mais válidas, entre elas ser preguiçoso ou simplesmente não querer dar-se ao trabalho de exercitar o cérebro. Não é, porém, por falta de tempo que não se lê. Desencanto num outro blogue uma lista de quase meia centena de títulos de qualidade reconhecida – e para gostos muito distintos – que podem ler-se integralmente num fim-de-semana por terem todos menos de 200 páginas; e alguns são, de resto, considerados obras-primas da literatura universal. Desde logo, o celebérrimo Animal Farm (traduzido entre nós como O Triunfo dos Porcos), que é de leitura aconselhada até para adolescentes; mas, se o acharem pouco suculento (é tudo menos isso), têm à disposição coisas mesmo para adultos, como O Amante, de Marguerite Duras, Um Quarto Que Seja Seu, de Virginia Woolf, O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald, ou mesmo Breakfast at Tiffany's (que deu um belíssimo filme com Audrey Hepburn), de Truman Capote. E, se os livros lhe metem medo, experimente um livro no qual os livros estão em extinção, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, por exemplo. De autores mais recentes, ainda vivos, a lista inclui Amsterdão, de Ian McEwan – que recebeu o Booker Prize – e O Sentido do Fim, de Julian Barnes, de que já aqui falei há mais de um ano. E também pode fazer uma viagem com O Velho e o Mar, de Hemingway (curta, mas intensa), ou com O Americano Tranquilo, de Graham Greene, antes que o autor passe de moda. Há muito por onde escolher – e a falta de tempo não serve de desculpa para não se atrever ao prazer e ao conhecimento.

Estranho estrangeiro

No ano em que Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura, faria cento e dois anos, falo aqui daquele que é o seu primeiro romance, O Estrangeiro, de que Lucchino Visconti fez um filme que vi há muitos anos e do qual, infelizmente, me lembro muito pouco. Nascido na Argélia, Camus faz acontecer aí a acção deste livro, que se inicia precisamente com a morte da mãe do narrador, um homem que aparenta uma estranhíssima insensibilidade quanto a tudo (mesmo a morte da mãe), ainda que a certa altura se diga que são justamente os seus sentimentos que impedem muitas vezes que sejam diferentes as suas reacções. A morte da mãe não é, pois, um verdadeiro desgosto, mas mais um aborrecimento que o obriga a tomar o autocarro até ao asilo, a assistir a um velório no qual adormece, a acompanhar um enterro sob o sacrifício de um sol ardente. E desse incidente passaremos para um quotidiano no qual o protagonista se envolve com uma antiga colega (mas nem parece gostar muito dela) e com um vizinho pouco recomendável que quer dar uma lição a uma mulher árabe com quem andava e que o enganou. É por causa dele, de resto, que o narrador matará um homem e se verá a braços com a justiça. E é no período em que se encontra preso que mais estrangeiro o sentiremos, incapaz de colaborar com o advogado para salvar a própria pele, ilustrando a tese existencialista de que cada homem constrói o seu próprio destino. Segundo se diz, O Estrangeiro recebeu influências da literatura norte-americana (especialmente de Hemingway) – e é de facto algo seco, directo, essencial; mas traz um desconcerto muito peculiar que é altamente apelativo, mesmo que não consigamos criar muita empatia com o seu estrangeiro. Ou sobretudo por isso. A ler, evidentemente. A tradução é de António Quadros.

Uma pérola

Pronto, cá estou de volta para falar de coisas de que todos gostamos: livros, claro. Tirando partido das novas edições da editora Livros do Brasil e da querida Colecção Dois Mundos que consumi muito enquanto jovem, leio e releio títulos vários de grandes autores, ente os quais A Pérola, de Steinbeck, uma novela que me dizem estar integrada no Plano Nacional de Leitura – e não admira, pois veicula valores importantes e uma certa moral contra a ganância e o desejo de riqueza tão patentes nas sociedades modernas. A história é, de resto, muito simples: um pescador índio chamado Kino encontra uma grande pérola nunca vista, talvez a maior pérola do mundo; e se, ao início, o seu desejo é que, com a venda dessa pérola, o filho bebé possa ser um dia um homem letrado e mais abastado do que ele próprio, pois a verdade é que a pérola acaba por só trazer problemas à família: a inveja alheia, antes de tudo, mas também a atracção desmedida por aquilo que ela poderá proporcionar. A vida do índio muda então drasticamente da noite para o dia: enganam-no, incendeiam-lhe a casa, atacam-no, levam-no inclusivamente a fugir e a matar. E o seu filho não terá nada do que o pai desejou para ele no dia em que encontrou a pérola, nada de nada, porque também ele será vítima do mal trazido por ela. Sucinto, sem gorduras, belo na descrição das paisagens, A Pérola é uma pérola muito simples que todos os jovens deviam ler – e os mais velhos também – neste tempo escuro em que parece muito mais importante ter do que ser.