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A mostrar mensagens de novembro, 2023

Metais

Na mesma semana em que eu deitava uma última olhadela às provas de uma edição revista de Os Dias de Saturno, de Paulo Moreiras (a sair em princípios de 2024), estava a ler em casa um pequeno livro de poemas de José Carlos Barros (nascido em Boticas) intitulado Lítio e publicado numa colecção muito especial que se dedica aos elementos da Tabela Periódica, sob a batuta de João Pedro Azul, que deve ser assim uma espécie de químico-chefe. Foi curioso por variadíssimas razões, sendo a primeira o facto de o romance Os Dias de Saturno ter como tema central justamente a transmutação dos metais em ouro, a alquimia; mas também porque foram quase simultâneas essas duas leituras e as notícias, então vindas à baila, relacionadas com o lítio, sobre o que levou, no fundo, à queda do governo de maioria socialista. Foram metais a mais numa semana, mas, se no caso do romance de Paulo Moreiras esconderei para já o essencial, guardando-o para quando o livro estiver disponível, não resisto a partilhar um poema de Lítio que, sendo sobre lítio, é também sobre um outro metal, mais do nosso encanto. Leiam-no e desfrutem. Bom feriado.


 


De entre os metais


 


O ferro escolho de entre


os metais


em vez da prata,


do lítio, do


ouro,


em memória dos portões


dos pátios, do garfo


e da faca, das aivecas


do arado,


da grade


da varanda,


como exemplo do que está


ao serviço


das causas


e das pessoas


comuns.

Ainda Eduardo Lourenço

Num ano em que há tantos centenários de autores para comemorar (Eugénio de Andrade, Cesariny, Mário Henrique Leiria, Natália Correia... até o italiano Calvino), é fácil deixar alguém para trás. Graças a Deus, isso não aconteceu ao nosso querido Eduardo Lourenço, que merece ser lembrado por todas as razões e mais algumas, até porque era uma pessoa excepcional. Mas é pelo Pessoa (e não pela sua pessoa) que a Casa Fernando Pessoa (desculpem lá as repetições) promove no dia 7 de Dezembro, com a colaboração do investigador Pedro Sepúlveda,  um colóquio dedicado aos «tópicos pessoanos» do ensaísta e estudioso Eduardo Lourenço. A actividade decorre entre as 10h00 e as 18h00, é de entrada livre e conta com a participação de vários investigadores: Carlos Neto, Fernando Cabral Martins, Flávio Penteado, Joana Meirim, João Dionísio, Nuno Amado, Pedro Sepúlveda, Richard Zenith e Vicenzo Russo. As sessões consistem em debates com dois ou três intervenientes e um moderador, e o programa pode ser consultado na página da CFP.

As capas

Um dia destes, estava a lembrar-me junto de alguém do ofício como eram feitas as capas quando começámos a trabalhar neste mundo dos livros, e até parecia mentira que tivesse existido um tempo assim tão atrasado. Sem contar com as capas desenhadas por pintores consagrados (mesmo na velhinha colecção Vampiro), e pagas generosamente (segundo me contam), os artistas gráficos não tinham outro remédio senão fazer tudo à mão; e recordo uma colecção de obras de António José Saraiva que seguiam um modelo que tinha letras pretas e uma pequena ilustração sobre um fundo creme, fundo esse que (os leitores não o sabiam) tinha por base uma cartolina com areia da praia lá colada, que era usada em todos os livros da série e guardada num armário para que se não perdesse. Doutras vezes, recortavam-se imagens de revistas (os bancos de imagem, se já existiam, andavam com certeza distraidíssimos...) e colavam-se numa cartolina, com outras, de forma a criar uma composição alusiva à história que o livro contava, que depois se fotografava; mas, em muitos casos, a solução era ir pelo mais simples: escolhia-se uma única cor de fundo e outra para o lettering... e já estava! Hoje, com as exigências do marketing e para se sobressair entre os milhares de livros que se publicam todos os anos, as capas têm mesmo de ser chamativas e, para isso, vistas à lupa, pensadas por todos e discutidas às vezes por quem nem leu nada do livro, mas sabe que aquelas cores vão passar despercebidas numa mesa. E quantas vezes alguém nos pede para acrescentar uma frase bombástica que explique o livro a quem eventualmente precisa de um impulso para o comprar? Enfim, e agora também se tornou comum, tratando-se de autores estrangeiros, quererem aprovar a capa e às vezes exigirem duas ou três semanas para responder. Bem sei que o trabalho é hoje mais cuidado e profissional, mas, caramba, para quê tanta coisa à volta de uma simples capa?

Biografias

Lembro-me de que, quando comecei a trabalhar em edição, os leitores de biografias eram essencialmente masculinos e quase todos os biografados personalidades políticas. A partir dos anos 1980, começaram a aparecer romances biográficos, como os que escreveu, por exemplo, Mário Cláudio sobre Amadeo, Rosa Ramalha e outras figuras, e também biografias, romanceadas ou não, mas sempre de leitura fluente como se de ficção se tratasse. Este género literário ganhou asas e público, e hoje, a par do romance histórico, é dos mais lidos em Portugal, sobretudo quando se dedica à nossa própria História, constituindo um meio lúdico de a conhecer sem o peso de sentirmos estar a regressar à escola. Mas as figuras literárias também não podem ser deixadas de fora e, recentemente, fizeram muito sucesso em Portugal as biografias de Pessoa, por Richard Zenith, a de Agustina (O Poço e a Estrada) pela pena de Isabel Rio Novo, a de José Cardoso Pires (Integrado Marginal), por Bruno Vieira Amaral, e a de Natália Correia (O Dever de Deslumbrar), já com três edições, da autoria de Filipa Martins, que não tem parado de percorrer o País para falar do seu exaustivo retrato de Natália. E houve também quem desse atenção à literatura de outros países, como Cristina Carvalho, que se dedicou a William Buttler Yeats, ou a professora Teresa Montero, que escreveu uma nova biografia de Clarice Lispector (já biografada por Benjamin Moser). Vamos lá ver o que nos reserva este final de ano. Ler e aprender.

Excerto da Quinzena

Escrever é o acto de pensamento mais justo. Obriga à escolha cuidadosa das palavras, a recuperar o pensamento que estava fixado e a fazê-lo voltar a mexer-se. Muitas vezes faz com que terminemos com o resultado contrário ao que tínhamos como certo antes de escrever a primeira palavra. Escrever crónicas obriga a um pensamento constante sobre o que nos rodeia, mas o que nos rodeia nem sempre é companhia aconselhável, e pensar sobre isso pode aumentar – para o bem e para o mal – o que antes não se via. Quando me convidaram para escrever crónicas semanais na revista Sábado (que sai à quinta, já agora), foi essa a minha dúvida: quais seriam as consequências de escolher mais uma maneira de ver de perto as coisas que me aleijam? Para me contrariar, aceitei. Enquanto escrevia dei por mim muitas vezes a pôr em causa o que pensava antes e a pensar sobre o que isso quereria dizer. Não cheguei a conclusão nenhuma, mas ao preparar este livro percebi que as coisas dentro da minha cabeça fazem muito barulho. Ordená-las e escrevê-las é ainda o último reduto de sanidade contra esse ruído. Este livro é uma compilação dessas crónicas que escrevi e que agora vieram para aqui viver todas juntas.


Bruno Nogueira, Aqui Dentro Faz Muito Barulho, com prefácio de Miguel Esteves Cardoso e ilustrações de Juan Cavia

Presentes

Como devem calcular (e eu já aqui disse), recebo centenas de livros todos os anos; a maioria são originais de ficção com vista a uma análise, mas também chegam livros em edição de autor; ou publicados por editoras pequenas, que não têm possibilidade de fazer promoção e marketing, pedindo um comentário; e até romances impressos por essas empresas que cobram aos autores ou os fazem comprar meia tiragem dos seus livros e depois quase não os distribuem. Há de tudo e, regra geral, as pessoas estão interessadas numa opinião, em publicidade, ou querem simplesmente republicar porque estão descontentes. Mais raramente, contudo, chegam livros publicados por editoras sérias, apenas como bons presentes. Quando são de poesia, é mais fácil agradecer a atenção ao autor com a minha leitura, porque para a prosa é mesmo muito difícil ter tempo. E um dia destes aconteceu-me receber um destes bons presentes (o título chamou logo por mim: a poesia vende pouco) de Luís Soares Barbosa (já com vários livros publicados); e, ao afastar a capa, logo na badana, o poema tocou-me de forma tão especial, senti com ele tanta afinidade e comoção, que não resisto a partilhá-lo aqui. Se gostam de poesia, este é um livro que não devem perder.


 


trago os meus mortos à flor da pele.


perigosamente inclinados


para dentro.


 


ocupam em mim todo o silêncio.


 


regra geral, não basta:


é preciso juntar os negativos,


certos quartos em pranto,


uma frase


suspensa.


 


os que me morreram aguardam pacientes.


 


comungamos trivialidades épicas,


suas mãos de outrora dissecam as noites,


cautelosas.

Com Calvino

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A Associazione Socio-Culturale Italiana del Portogallo Dante Alighieri (ASCIPDA), que tem por objectivo divulgar e promover a língua e a cultura italianas, convidou-me para participar de uma das sessões que pretendem celebrar o centenário do nascimento de um dos maiores escritores italianos do século XX, Italo Calvino, autor de livros inequivocamente marcantes como As Cidades Invisíveis ou Se numa Noite de Inverno Um Viajante (e a quem falhou inexplicavelmente o Nobel da Literatura, porque ele, sim, era um inventor de livros). A partir da sua obra póstuma, publicada em Portugal com o título Seis Lições para o Próximo Milénio  (Lições Americanas no original, pois eram textos de conferências que teriam lugar na Universidade de Harvard), a série de encontros Calvino: Caminhos Invisíveis toma como tema cada uma das palavras-chave destas lições (que são, simultaneamente, algumas das principais questões que deveriam mobilizar os escritores do século XXI). A minha palavra é «Visibilidade», mas não pensem que tem que ver com a visibilidade que hoje se exige aos autores, coitados, «obrigados» a mostrar-se em todo o lado para poderem vingar. Não, no contexto da lição de Calvino, a visibilidade é a forma de tornar algo visível dentro da cabeça, de imaginar, de conceber outros mundos que ainda não existem, uma capacidade imprescindível em quem quer ser um criador de literatura. Amanhã estarei no Porto a celebrar o escritor italiano e, numa conversa com o professor Paolo Andreoni, falarei de inspiração, imaginação, Rosa Montero, psicose, Patti Smith (calculem!) e, claro, Dante e Calvino e a criação de mundos. Se estiverem pelo Porto, apareçam por lá . Até porque serão lidos excertos belíssimos da lição de Calvino.


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À mesa

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Em muitas casas portuguesas, e não só, era costume pendurar na sala de jantar uma reprodução de A Última Ceia, de Da Vinci, ou outra obra de arte mais moderna que a evocasse. Em casa dos meus pais (que nem sequer eram casados pela Igreja) havia uma bonita gravura a preto e branco com uma moldura cor de prata trabalhada, mas em muitos outros lares de família que conheci enquanto fui crescendo, multiplicavam-se as versões desta ceia de Jesus com os seus discípulos. Mas alguém alguma vez se lembrou de perguntar o que teriam ceado nessa noite? Pois bem, existe agora um livro que talvez nos levante o véu sobre esta matéria. Chama-se A Mesa de Deus: os Alimentos da Bíblia, assina-o Maria Letícia Monteiro Cavalcanti, jornalista e crítica gastronómica, e nasceu de uma conversa entre a autora e o poeta e cardeal José Tolentino Mendonça, que assina o prefácio. A investigação levou dez anos a ser feita, mas agora podemos ficar a par das refeições e de todos os alimentos presentes no Antigo e no Novo Testamento e, como diz o texto da editora Quetzal, «entrar na Bíblia pela porta da cozinha». A mim está a crescer-me água na boca e nem sequer gosto de livros de receitas. E desse lado, há curiosidade? Não é todos os dias que nos sentamos à mesa com Deus.


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O Brasil em Portugal

Na semana passada foi anunciado mais um vencedor do Prémio LeYa (que é para romances inéditos em língua portuguesa). Nesta edição, concorreram mais de 900 livros vindos de muitos países do mundo, incluindo os Emirados Árabes, denotando que aí vive algum escritor  ou escritora de língua portuguesa; só obras enviadas do Brasil foram mais de 500! E, pela terceira vez em quatro anos (durante o ano da pandemia não se atribuiu o prémio), a obra vencedora foi justamente de um autor brasileiro. Depois de Itamar Vieira Junior (que começou com o Prémio LeYa a sua jornada de sucesso, tendo vendido só no Brasil mais de 700 000 exemplares de Torto Arado, hoje vendido em mais de vinte países), Celso Costa venceu com um romance que evoca a importância da educação intitulado A Arte de Driblar Destinos e, há dias, foi Victor Vidal o autor de Não Há Pássaros Aqui (que terei o prazer de ler pela primeira vez não tarda). Curiosamente, a última edição do Prémio Literário José Saramago contemplou a obra de outro brasileiro, Rafael Gallo, Dor Fantasma; e até o recentíssimo Prémio Armando Baptista-Bastos, instituído pela Junta de Freguesia de Santa Maria Maior em Lisboa e cuja primeira edição aconteceu este ano, foi dado a um jornalista brasileiro residente em Portugal há vários anos, Álvaro Filho, com o livro Disfarça, Que Lá Vem Sartre. É o Brasil a fazer das suas em Portugal!

Pensar palavras

Às vezes dou comigo a pensar em palavras e ando com elas imenso tempo na cabeça. A minha avó nunca dizia «estore», usava a palavra «gelosia», e curiosamente «gelosia» é também o vocábulo italiano para «ciúme»: um ciumento é um «geloso», palavra que se aproxima do «celoso» espanhol, que tem o mesmo significado, por sua vez próxima do termo português «zeloso», que hoje tem pouco que ver com ciumeiras e com as gelosias através das quais podemos espreitar o que andam a fazer as pessoas que nos provocam ciúmes. Será que uma «gelosia» tem realmente que ver com a outra? Confesso que achei graça à imagem da espreitadela, mas não estou certa. Por outro lado, achei um dia destes que também poderiam ser aparentadas as palavras «asilo» e «exílio», uma vez que os exilados pedem muitas vezes asilo nos países para onde fogem ou são enviados, e ao ouvido o som nem é assim muito diferente; mas aqui a etimologia é claramente distinta: enquanto o asilo, na base, quer dizer refúgio, lugar protegido, o exílio está ligado a degredo e banimento e inclui a partícula «exil», que indica desde logo algo exterior, que fica fora. E, pronto, hoje era só isto.

Bolaño poeta

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Hoje sai para os escaparates a obra poética completa de Roberto Bolaño (o último «autor-mito», como diria Eduardo Lourenço, da nossa época, a par de David Foster Wallace, mas muito mais lido internacionalmente). Bolaño escreveu em vários registos, que não raro se misturavam, e os seus romances (Os Detectives Selvagens ou 2666, por exemplo) são a parte da sua obra mais referida e elogiada, o que é curioso, porque o escritor chileno achava que a poesia é que era uma forma de arte superior. Com tradução do jornalista e editor Carlos Vaz Marques (que é um apaixonado de Bolaño) e prefácio de Manuel Villas (autor que se tornou conhecido mundialmente com o romance Ordesa, por cá intitulado Em Tudo Havia Beleza, mas também poeta), a Poesia Completa de Roberto Bolaño é um cuidado volume de capa dura e sobrecapa que ultrapassa as 400 páginas e será um excelente presente de Natal para quem gosta de poesia e de Bolaño (pode ser que mo ofereçam antecipadamente, pois não vou esperar até lá). Segundo o texto da editora Quetzal, que o dá à estampa num acto de amor e coragem, muitos dos poemas de Bolaño «são profundamente autobiográficos e – como a generalidade da sua ficção – estão cheios de poetas e artistas famintos, errantes, em cenas de pugilato, loucos por sexo, magoados, egocêntricos, mergulhados na noite, à beira da penúria, literatos corruptos ou canções que nunca foram escritas. É um mundo interminável, belo e terrível». Como resistir?


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Colégios

A minha geração leu na juventude uma data de livros em que as meninas andavam em colégios internos e ali faziam partidas tremendas às professoras ou choravam que nem Madalenas com saudade dos pais. Era também uma situação comum em raparigas de carne e osso que haviam perdido as mães, cujos pais se tinham separado ou que eram completamente inaptos para as educar, e bem assim em rapazes que se portavam mal e iam de castigo para o colégio interno, geralmente de padres e na província. Num dos estabelecimentos de ensino que eu própria frequentei, com centenas de alunas (na altura, éramos só meninas ou só rapazes), embora quase todas as estudantes fossem externas, havia umas pobres miúdas que viviam no colégio. Vindas de longe, de alguma aldeia perdida no mapa, as freiras davam-lhes a escolaridade, cama e roupa lavada em troca de trabalhos de limpeza e, quem sabe, na esperança de reunirem ao seu rebanho mais umas ovelhas que quisessem um dia ser noviças. Mas há quem tenha frequentado colégios internos para ter uma educação de excelência, como Fleur Jaeggy, a escritora suíça que trabalhou na mítica editora Adelphi, de Roberto Calasso, e acabou sua mulher, além de escritora. O pequeno romance Felizes Anos de Castigo (que é uma obra de culto e acaba de sair em Portugal com tradução de Ana Cláudia Santos) parte provavelmente da sua experiência para nos contar a história de uma rapariga que vive em colégios internos desde os oito anos, colégios esses que recebem ordens da mãe dela, que vive no Brasil (talvez com um segundo marido), e aonde o pai a vai buscar uma ou duas vezes por ano para passarem férias juntos em hotéis, nunca existindo uma casa de família. A chegada de uma aluna nova, Frédérique, sofisticada e inteligente, será uma brecha na monotonia dos seus dias sempre iguais, excepto pelas mortes de progenitores que vão acontecendo e que criam separações e feridas que não saram em muitas colegas. Publicada pela primeira vez em Portugal, uma autora que importa acompanhar.

Pais, novelas e romance

Já há muitos anos que ouço dizer que, na América Latina, o escritor mais vezes indicado ao Nobel é o argentino César Aira. Roberto Bolaño, por exemplo, disse que, quando se começava a ler Aira, nunca mais se conseguia parar. Confesso que nunca tinha lido este autor; tenho a  certeza de que haverá livros dele lá por casa (na biblioteca conjugal), provavelmente na língua original, mas há sempre tantos livros que se nos impõem que um ou outro autor acaba ficando para trás. Felizmente, a Cavalo de Ferro publicou recentemente duas pequenas novelas de César Aira e, caso pudessem passar despercebidas, vestiu-as com uma capa amarela berrante, o que foi bom, pois serviu para me chamar a atenção. (E este é um dos livros que a leitora desta blogue que encontrei um dia à porta da FNAC também comprou.) Li a primeira, chamada A Tília (a seguinte é Aniversário), que é sobretudo uma memória de infância do autor com os pais num bairro pobre da província de Buenos Aires. Porém, apesar de bonita e fluida, como as referências ao peronismo são constantes e eu sempre tive imensa dificuldade em perceber o que era exactamente o peronismo (tão depressa de esquerda como de direita, tão depressa de preocupação social como de violência política), digamos que não foi a obra ideal para começar. Para uma história sobre um pai muito especial (como é o de César Aira nesta novela) prefiro de longe o romance de Hector Abad Faciolince, Somos o Esquecimento Que Seremos, editado inicialmente pela Quetzal e reeditado há pouco pela Alfaguara. Vou agora ler Aniversário para tirar teimas.

As mãos

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Diz-se que os italianos não conseguem falar sem gesticular (por vezes até um pouco exageradamente) e que há pessoas que têm mãos que falam. É verdade, e tem graça olhar para elas, embora eu seja bastante contida nessas movimentações e isso nem esteja especialmente relacionado com contenção ou timidez, mais com tensão e stress. O que não sabia era que também há mãos que cantam, e isto pareceu-me mesmo bonito. Porque os deficientes auditivos comunicam através de Língua Gestual entre eles e com quem a domina, como os tradutores dos noticiários ou as pessoas que traduzem conferências, debates, palestras, congressos, etc., com as mãos; mas a verdade é que não havia tradutores de canções para quem as não pode ouvir, e acabo de ler que o projecto Mãos Que Cantam, em associação com o Museu do Fado, está a construir uma base de dados de fados em Língua Gestual Portuguesa. Ao que entendi, Ricardo Ribeiro e Aldina Duarte foram os primeiros artistas a cantar para estes tradutores, e na foto abaixo aparece a reprodução de uma destas traduções. Fiquei ainda mais impressionada com a maravilha quando descobri que o Papa, quando em Agosto esteve em Portugal, foi brindado por um coro de surdos, que cantam, claro, com as mãos.


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Excerto da Quinzena

– Então, senhora Kayleigh, afinal de contas, que tipo de coisas viu?


As pessoas fazem de conta que é uma pergunta perfeitamente normal, mas que normalidade pode haver numa pergunta para a qual se espera uma resposta horrível? Também não sinto que essas perguntas signifiquem que as pessoas se interessam por mim. Talvez isso não seja estranho, talvez as perguntas não tenham como objetivo o interesse pela outra pessoa, mas a curiosidade sobre as vidas que nós pudemos ter levado [...] mesmo assim, eu noto uma pontinha de fascínio mórbido, uma necessidade que leva a fazer perguntas, mas que nunca ficará totalmente satisfeita.


Vi uma rapariga enterrar em direto uma navalha demasiado romba no braço; foi preciso enterrá-la bem fundo para começar a sangrar. Vi um homem dar pontapés ao seu pastor-alemão com tanta força que o bicho chocou aos latidos contra o frigorífico. Vi miúdos a desafiarem-se mutuamente para ingerir uma dose irresponsável de canela. Li textos de pessoas elogiando as qualidades de Hitler aos vizinhos, colegas e vagos conhecidos, assim sem mais nem menos, à vista de todos, para potenciais companheiros ou patrões lerem. Li a frase «O Hitler devia ter acabado o que começou» escrita como comentário à fotografia de uns imigrantes num barco à deriva.


Tudo isto são exemplos desenxabidos [...] São tudo coisas que apareceram nos jornais, contadas por outros ex-moderadores de conteúdos, o que de resto não significa que eu não as tenha visto: as saudações nazis, os cães violentados…, a rapariga com a navalha é inclusivamente um clássico. Há milhares delas por aí, há uma em cada rua, imagino eu: naquela casa onde à noite a luz da casa de banho está acesa, ali está ela, sentada sozinha no chão duro e frio. Mas isto não é o que as pessoas querem ouvir. Querem que eu descreva algo novo, coisas que elas mesmas nunca teriam coragem de ver, coisas que ultrapassam em muito o seu poder de imaginação […]


Hanna Bervoets, Tivemos de Remover Este Post, tradução de Maria Leonor Raven

Cesariny

No feriado de dia 1 não falhei à tradição e fui ver um morto, mas um morto que, graças  a Deus, ainda continua vivo e de quem se comemora este ano o centenário do nascimento: Mário Cesariny de Vasconcelos. Numa das galerias do Maat (um museu à beira-rio em cuja esplanada um simples café & pastel de nata custa 4,5 euros, mesmo para uma pobre não-turista como eu), depois de atravessarmos os excessos de Joana Vasconcelos com o seu Polvo-Valquíria (que, por acaso, eu tinha visto em Macau em 2015, quando fui à Rota das Letras), está patente até Fevereiro uma exposição dedicada ao poeta surrealista que vale muito a pena ver. Se formos à espera da biografia do escritor, bem podemos apanhar uma desilusão pouco depois de entrarmos, porque pouco se diz sobre isso em matéria de informação escrita. A exposição não é sobre o lado da poesia e da vida, embora, claro, as criações plásticas (pinturas, colagens, etc.) de Cesariny e de alguns dos seus contemporâneos sejam, de facto, às vezes, mais eloquentes do que uma frase sobre a época em que viveu, sobre os seus mestres inspiradores, os colegas de loucura, os vícios e até os epígonos (muitos trabalhos de gente mais nova aparecem como alusão ou homenagem e alguns são mesmo muito bons). A compor tudo, há ainda fotografias de Cesariny em várias épocas e, logo a abrir, a porta verdadeira do seu atelier (incrível!). Apesar do preço do café na esplanada, a vista é maravilhosa, o que é um bónus. Aproveitem um dia bom e vão também.

A arte de (não) amar

Frederico Lourenço traduziu recentemente a poesia de Horácio para a Quetzal e temos a certeza de que não vai ficar por aqui em matéria de tradução e apresentação de clássicos. Já Carlos Ascenso André se ocupou de A Arte de Amar, de Ovídio, que li, salvo erro, na edição da Cotovia há muito tempo, observando já (e não eram ainda os tempos do Me Too, nem pensar) como algumas das afirmações do mestre sobre as mulheres poderiam irritar e até ofender as feministas mais radicais e as leitoras que não conseguem situar certas obras na época e no contexto em que foram escritas. Disto mesmo falava Mário Cláudio um dia destes no Facebook (citando um excerto de A Arte de Amar especialmente «colorido»), e a filha de um amigo nosso que dá aulas de literatura clássica em Inglaterra contou-nos que, nas primeiras aulas do semestre, é obrigada a descrever exaustivamente aos seus alunos de que tratam certas obras e autores (Ovídio e A Arte de Amar, por exemplo) para que estejam avisados do que aí vem; mas (pior!) esses alunos podem recusar-se, só pela temática anunciada, a estudar certos livros por motivos ideológicos, concluindo o curso universitário sem chegar a ter posto os olhos em autores essenciais. E Ovídio, diz ela, é geralmente o mais banido... É a arte de não amar a literatura...

Amigos dos livros

Só uma pessoa que ama verdadeiramente os livros tem certos gestos de respeito e consideração para com os seus donos. Não estou a falar de não virar os cantos, dobrar a lombada ou até sublinhar um livro emprestado. Falo, sim, de uma história bonita que uma velha amiga, jornalista do Expresso, contou um dia destes no Facebook.  Dizia ela que na véspera lhe haviam entregado um livro que fora da sua mãe antes de ela ter nascido e que a mãe teria emprestado esse livro a uma amiga pouco depois de o ter comprado e lido; ora, a amiga nunca chegou a devolver-lho, certamente por distracção, como tantas vezes acontece, e a coisa ficou esquecida. Mas eis que, tantos anos passados (tanto eu como essa jornalista temos mais de sessenta, por isso façam as contas), vem agora o livro parar às mãos desta minha amiga e do irmão, que são os seus legítimos herdeiros. Não se sabe se o gentleman que teve esse gesto bonito é filho ou sobrinho da pessoa que ficou indevidamente com o livro, porque a mãe da jornalista podia tê-lo emprestado a qualquer uma das irmãs; mas o senhor achou-o no meio de outras coisas enquanto estava a recuperar a casa dos avós e, ao abri-lo, reparou que estava assinado, pelo que resolveu contactar os actuais donos e devolvê-lo. Temos a noção de que, se não gostasse de livros, provavemente não teria valorizado a propriedade daquela brochura envelhecida, deitando-a fora ou não se dando ao trabalho. Porém, alguém que gosta mesmo de livros tem normalmente estas atenções. 

Fábula contemporânea

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Falo-vos hoje de um dos romances de estreia mais marcantes que li até hoje: As Minhas Estúpidas Intenções é a história fascinante de Archy, um macho de fuinha nascido na miséria, mutilado ainda jovem por um acidente e vendido como escravo pela mãe a um raposo usurário chamado Solomon, que resolve ensiná-lo a ler a Bíblia em segredo. Este conhecimento faz de Archy um milagre da zoologia, mas também um ser estranho que acaba por não encaixar em lugar nenhum. À medida que a vida de Archy é transformada pelos livros e pela ideia de Deus, ele começa paradoxalmente a ter saudades da sua velha existência guiada pelo instinto. Mas não pode desaprender o que aprendeu, nem conciliar as suas pulsões mais selvagens com dilemas éticos, ou o seu desejo de transcendência com as suas necessidades animais. Escrever sobre a sua vida e passar a outros o conhecimento é a tentativa de Archy de vingar o destino a que a mãe, afinal, o quis condenar. Vencedor de uma série de prémios no ano da sua publicação, incluindo o prestigiado Campiello, este é um romance excepcional de um autor ainda muito jovem que promete dar que falar.


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Afinidades

Acredito que muitos dos que aqui vêm regularmente tenham afinidades entre si. Ainda que muitas vezes os comentários originem desconfiança, discórdia ou até acesa discussão, é fácil perceber que, como diz o Carlos Tê, é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa. Vem isto a propósito de uma engraçada história real que se passou na semana em que fui operada. Conheci há uns anos num festival literário uma leitora deste blogue (que em tempos até comentava bastante, mas se deixou disso na sequência de um comentário indelicado de outra pessoa a um seu comentário) e, depois desse primeiro encontro, de vez em quando vemo-nos por acaso num lugar ou noutro. Da última vez, como não podia deixar de ser, foi à porta de uma FNAC que eu frequento bastante por ficar perto do meu local de trabalho, e ela, que vinha a sair, esteve então a mostrar-me os livros que não resistira a comprar. E não é que coincidiam quase exactamente com as minhas compras de uns dias antes nessa mesma livraria? É claro que podemos ter ido ambas atrás de capas bonitas e vistosas, de livros bem expostos, de referências lidas na imprensa, mas eu acredito mais na história das afinidades... Querem saber de que livros falo? Tenham paciência, pois em breve dedicarei a cada um deles um post.

O que ando a ler

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Depois do sublime À espera no Centeio, de Salinger, é preciso muita coragem para escrever um novo romance sobre um adolescente em apuros e com sucessivos problemas escolares. Mas, deste lado do oceano, há quem não se acanhe com o êxito do escritor americano, e Shy, de Max Porter, é a prova disso. Nunca tinha lido nada deste autor, já finalista do Booker Prize uma vez, que escreveu mais uns três livros antes deste; mas a crítica considera-o uma das mais promissoras vozes literárias em língua inglesa e eu posso dizer, por este livro apenas, que há no seu estilo qualquer coisa que vi em Lincoln no Bardo, de George Saunders, talvez na profusão de pessoas que falam à vez (e cada uma representada por um tipo de letra diferente), desde a psicóloga de Shy, que quer desesperadamente ajudá-lo mas não consegue, o narrador externo que acompanha os passos do adolescente na sua fuga de uma espécie de instituição para multi-expulsos chamada «Last Chance» (era mesmo a última oportunidade, depois disto já não haverá nada), a mãe (e é preciso dizer que o padrasto é parte do problema de comportamento de Shy), etc. Pesadelos terríveis, droga, violência, complexo de ejaculação precoce, automutilação, são tudo coisas de que ouviremos falar a propósito de Shy, que de noite caminha com uma mochila às costas cheia de pedras, quiçá evocando os bolsos de Virginia Woolf. Muito curto, muito duro, bastante original.


P. S. Para quem gosta de poesia, logo à tarde a minha multifacetada sobrinha, que também escreve poesia, Rita Pedreira, uma estudante muito diferente do Shy, convida a poetisa Rita Taborda Duarte para leitura de poemas, da qual podem participar todos os presentes com obra própria e alheia. Apareçam! A chuva vai parar.


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