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A mostrar mensagens de outubro, 2013

A fome e a vontade de comer

Aprendi em variadíssimos livros que fui lendo ao longo da vida – entre outros, para não ser exaustiva, A Música da Fome, de Le Clézio, Tudo O Que Eu Tenho Trago Comigo, de Herta Müller, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, ou o que ando agora a ler e de que amanhã falarei – que situações de fome ou extrema carência tornam as pessoas agressivas, insensíveis, capazes de actos de maldade que não cometeriam se se encontrassem confortáveis e bem alimentadas. (No livro de Herta Müller que citei, a forma como os «normais» roubam descaradamente o pão de uma deficiente no campo de trabalho onde estão internados é um bom exemplo deste horror.) E falo do assunto porque tenho observado recentemente um crescendo de ódio, insultos, ataques e garras afiadas nos jornais e nas redes sociais, sendo normalmente as vítimas dessa agressividade os que têm conseguido sobressair da massa anónima e, em suma, obter algum sucesso. Já me disseram muitas vezes que a inveja é uma característica dos Portugueses, mas pergunto-me se não será também a extrema carência em que vivem hoje tantos nossos compatriotas, com trabalho precário ou sem ele, com uma ausência completa de estímulos e de dinheiro, que os leva a fazer publicamente afirmações tão incrivelmente despudoradas como uma que li no Facebook há tempos, em que um crítico que dizia bem de certo livro era acusado de estar a tentar ter sexo com o autor da obra. Um amigo com quem comentei a situação disse-me que há por aí muita gente que deixou de poder pagar as sessões de psicoterapia – e que a automedicação nunca dá grandes resultados. Gostaria de acreditar que, se quem manda neste país tratasse melhor as suas pessoas, não haveria tanta maldade disseminada por aí. Mas também já estive mais longe de perder a fé nas pessoas que juntam à fome a vontade de comer.

Palavras feias

Os espanhóis usam e abusam do calão no dia-a-dia e tornaram-se bastante desbocados. Também os norte-americanos largam um «fuck» a propósito de tudo e de nada sem que isso escandalize já ninguém. Os jovens portugueses tem constantemente um «Fogo!» a arder na boca – e sabemos que é um eufemismo, que o que têm na cabeça é a tradução do fuck que se diz do lado de lá do Atlântico. E, mesmo assim, um dia destes, um crítico literário mostrava-se chocado com o número de palavrões que encontrou num romance e já há uns anos me contaram que um dos jurados de um prémio literário não conseguiu avançar na leitura de uma das obras finalistas por causa do calão do primeiro capítulo; presumo que seria jornalista, crítico, académico ou escritor (quem mais é jurado de um prémio literário?) – e, nessa medida, atrevo-me a dizer que Philip Roth e as suas muitas – perdoem-me – «punhetas» não lhe agradariam (o que é grave, porque não se deixa de ler um livro só por causa das palavras feias). Na minha adolescência, a minha mãe estava sempre a dizer que as raparigas não deviam dizer «gajo», que era uma palavra considerada então exclusivamente para uso masculino. E, no entanto, a verdade é que, quando penso nesta maltosa que nos governa, «homens» ou «tipos» me parecem palavras demasiado brandas. «Gajos» fica-lhes decididamente melhor. Há palavras feias, na vida e nos livros, que têm de ser ditas.

Prémios para todos

Recentemente, li um muito bem pensado artigo de Hélder Macedo no Jornal de Letras a propósito de prémios literários. Dizia o romancista e professor no King’s College de Londres que se tornou banal a prática do «toma lá, dá cá» e que estatísticas com cerca de dois anos mostravam que certo autor integrara cerca de 80 júris e recebera uns vinte prémios, o que possivelmente queria dizer que nos anos em que não fora jurado fora premiado. Esta sede de ganhar, segundo o autor do artigo, prendia-se também com o facto de em Portugal o mercado ser pequeno e não se poder viver apenas da escrita, procurando-se uma fonte de receitas suplementar nestes concursos literários (o que também explica porque alguns poetas têm livros novos todos os anos – os direitos de autor das edições de poesia são manifestamente reduzidos, mas o valor de um prémio, e há muitos, pode compensar essa pequena quantia). No entanto, Hélder Macedo propõe que os prémios literários sirvam sobretudo de incentivo aos escritores mais jovens – e, a este respeito, refere que os finalistas do Booker Prize deste ano incluíam apenas um escritor conhecido entre seis. A prática não é realmente muito comum em Portugal, onde durante dezenas de anos ganharam quase sempre os mesmos escritores; mas, olhando para listas de finalistas de há um ano a esta parte, nas quais figuram nomes como os de Afonso Cruz ou Ana Cristina Silva, acredito que as coisas estejam a mudar. E não me parece que esses autores tenham feito, eles próprios, parte de nenhum «toma lá-dá cá».

Gigantes em xeque

A Feira Internacional do Livro de Frankfurt é o mais importante certame do mundo em torno do livro e da edição (e um dos mais antigos também). Neste ano, o discurso inaugural do director da feira, Juergen Boos, e as declarações do presidente da Associação de Editores e Livreiros da Alemanha, Gottfried Honnefelde, revelaram grande preocupação com o que circula actualmente na rede, dizendo que os que a governam não se interessam minimamente pelo rigor e pela qualidade dos conteúdos; puseram o dedo na ferida da Apple, da Amazon e da Google, chamando-lhes «mágicos da logística», mas não editores, e considerando inclusivamente «reaccionário» que mostrem aos leitores aquilo de que eles gostam, recomendando-lhes livros a partir das pesquisas e das compras anteriores e retirando-lhes capacidade de escolha e reflexão individual. E alertaram para o facto de empresas como a Amazon e a Google quase terem acabado com a concorrência, sublinhando a importância de novas empresas que apresentam formas originais e dignas de atrair leitores – as start-ups – a que esta feira é especialmente dedicada. Claro que todos sabemos que a leitura está a mudar e que as novas tecnologias contribuem largamente para um novo paradigma que ainda não sabemos bem o que será. Mas nos últimos tempos descobrimos muitos dos livros que publicámos pirateados e à venda na Google Books em versão integral quando a edição em papel mal acabara de ser distribuída. O nosso advogado tratou do assunto, bem entendido, mas já aconteceu retirarem o livro da página e ele reaparecer mais tarde como se nada fosse. Enfim, pôr em xeque os gigantes no maior acontecimento anual à roda do livro pode ser que produza algum efeito nesta e noutras matérias.

A alegria de estudar

Muitas crianças adoram a escola, o primeiro lugar onde estão oficialmente para aprender e estudar, mas onde, evidentemente, também brincam e arranjam amigos. Entre os adolescentes, já há muitos que vêem a escola como uma verdadeira seca e uma obrigação a que gostariam de furtar-se. Podem agora estes últimos reflectir melhor no assunto e tomar como exemplo a pequena paquistanesa Malala Yousafzai, que levou não menos de dois tiros na cabeça dos talibãs por confessar sem medo, alto e bom som, que queria estudar num país onde não é suposto as raparigas irem à escola. Os dois tiros, porém, não chegaram para a matar e, tratada num hospital em Inglaterra, sobreviveu à calamidade e recuperou com vigor. A sua coragem valeu-lhe o Prémio Anna Politskovaya e o Prémio Sakharov do Parlamento Europeu – e houve muita gente que estava convencida de que o Nobel da Paz lhe seria igualmente entregue. Não foi, mas Malala recebeu o prémio que mais ambicionava: voltou à escola. Uma história terrível que acabou bem, quiçá para contar a meninos que fazem fitas para ir à escola.

Aprender a ser feliz

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Publiquei em finais de Agosto o terceiro romance de David Machado, com o sugestivo título Índice Médio de Felicidade. É um livro sobre um homem em crise, Daniel, que, de um momento para o outro, se vê desempregado e longe da família, impossibilitado de pagar a prestação da casa e de cumprir um plano que traçou desde sempre para a sua vida. Mas é também um romance sobre a crise que assola Portugal, a Europa e o mundo e que tem atirado tanta gente para situações insustentáveis. Daniel não quer, porém, acreditar que, mesmo diante de tantas contrariedades, a sua felicidade e a daqueles que ama não pode ser alcançada e luta desenfreadamente por ela, levando o leitor a reflectir melhor sobre os factores que realmente contribuem para a construção de uma vida feliz. Hoje, pelas 18h00, na FNAC do Chiado, quem quiser terá oportunidade de trocar impressões com o autor a propósito deste romance que tem sido aplaudido unanimemente pela crítica. E ter o seu autógrafo, claro. A jornalista Paula Moura Pinheiro junta-se a nós para dizer também de sua justiça. Estamos à sua espera para tornar mais viva a discussão.


 


Abstenção

Rui Zink publicou recentemente um artigo de opinião no jornal Público sobre a falta de crença de muitos jovens na democracia, jovens que, por isso, não iam às urnas (e que ele, como bom democrata, aconselhava logicamente a mudar de atitude). Não creio, mesmo assim, que a falta de fé na democracia seja a única causa da abstenção entre os jovens. Um dia destes, na FNAC do Chiado, estávamos em vésperas de eleições autárquicas, o Manel ouviu uma conversa entre dois rapazes que reproduzo aqui:


– Ó pá, tu amanhã vais votar?


– Eu? Não, não tenho pachorra. E tu?


– Eu tenho de ir, a minha mãe obriga-me.


– Obriga-te como?


– Ela é funcionária pública e quer que eu vá votar num tipo qualquer que é bom para ela.


– Ah, mas então porque é que não votas por SMS?


– Acho que não se pode.


– Hum... Que seca, pá.


Não vejo bem, em primeiro lugar, como é que um voto nas autárquicas interfere com decisões sobre leis que possam beneficiar ou defender funcionários públicos, mas nem é isso que está em causa. O ir votar para estes jovens tem peso de coisa chata – e o pior é que estão num espaço cultural, pelo que era de esperar que tivessem um pouco mais de informação e, sobretudo, de sentido crítico e vontade de mudança. Enfim, quantos casos destes haverá que vão fazer crescer eternamente os números da abstenção?

História de uma traição

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Hoje ao fim da tarde realizar-se-á o lançamento público de A Segunda Morte de Anna Karénina, de Ana Cristina Silva, autora que foi recentemente brindada com o Prémio Urbano Tavares Rodrigues, para professores-escritores, pelo romance anterior, O Rei do Monte Brasil, publicado na mesma colecção. O novo livro reflecte sobre três questões interessantes – o preconceito em relação aos homossexuais na época da Primeira Guerra Mundial; a traição no casamento, que acaba por gerar uma vingança precipitada ao jeito do que acontece no último filme de Woody Allen (ou seja, com custos muito altos tanto para o traidor como para a traída); e, por fim, a impossibilidade de destrinçar a verdade nas palavras de um actor – pois este amor vivido até aos limites tem por protagonista um casal de actores de grande sucesso nos palcos dos teatros portugueses do princípio do século XX. É, aliás, por ter esta vertente que foi escolhida para apresentar o romance a actriz Maria João Luís – e vamos lá ver o que vai ela dizer a propósito de tudo isto. Se quiser, apareça para o saber em primeira mão.


 


Estranhezas

Um fim-de-semana destes, o caderno «Actual» do Expresso dedicava várias páginas aos escritores portugueses que, segundo determinados críticos e jornalistas que ali escrevem regularmente, estavam subvalorizados e sobrevalorizados. Não discuto a ideia, tão boa ou má como outra qualquer mas perfeitamente legítima num país livre, embora eu não creia que os leitores deixem de ler os apontados como sobrevalorizados se já gostarem deles nem comecem a ler os subvalorizados só por alguém dizer que lhes deviam prestar mais atenção (sobretudo se não encontrarem os seus livros à venda, o que tenho a certeza acontece no caso de Alexandre Andrade). O que é, de algum modo, um pouco estranho é que se considere sobrevalorizado e com «livros intragáveis» (assim mesmo) um autor a quem o próprio Expresso dedicou três páginas inteirinhas numa edição anterior (Valter Hugo Mãe); e que se considere sobrevalorizado Fernando Pessoa (pois foi), que é justamente o patrono do prémio que o jornal Expresso atribui todos os anos a alguém que considera excepcional numa qualquer área de conhecimento. E, quanto ao facto de um dos críticos dizer que a revista Ler faz lobby, não pude deixar de notar que nela escrevem dois dos outros críticos chamados a dar opinião umas linhas acima. Estranhezas à parte, não sei se devemos subvalorizar ou sobrevalorizar o dito artigo. Mas lá que deu polémica, deu.

Um livro e uma cabana

A Madalena, que está sempre atenta a tudo e mais alguma coisa (e ainda bem que tenho uma pessoa assim a trabalhar comigo, que eu, com a idade, já só dou conta de metade), falou-me de um projecto bem interessante associado ao programa da Trienal de Arquitectura de Lisboa. Todos sabem que eu não sou uma fã incondicional de instalações, mas esta tem tudo a ver com este blogue, e já vão ver porquê. Um, dois e muitos, de Marta Wengorovius, é uma cabana de madeira muito bonita que está no Jardim Botânico (à Rua da Escola Politécnica), perfeitamente integrada na paisagem. E para que serve? Pois bem, para ler! A cabana tem apenas uma estante e lugar (bem amplo) para um leitor se sentar ou deitar – e pode ser reservada por algumas horas, ou até um dia inteiro, até ao dia 15 de Dezembro, por quem queira ir ler lá para dentro, olhando a magnífica paisagem do Jardim Botânico pela porta. Os interessados poderão, por exemplo, levar o livro que andam a ler ou escolher um dos da Biblioteca Um, dois e muitos – porque Marta Wengorovius pediu a 20 pessoas que seleccionassem títulos, reunindo um acervo de 60 volumes na estante da cabana. Esta é também uma biblioteca itinerante, porque a cabina (enfim, a instalação), cuja estrutura foi desenhada por Francisco Aires Mateus, já esteve noutros lados e pode andar por aí. Um lugar lindo para ler. Ora dêem uma espreitadela.


 


http://www.dezeen.com/2013/09/21/reading-cabin-by-marta-wengorovius/


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O perigo de ler

Há alguns anos ofereceram-me um belíssimo livro ilustrado que se chamava As Mulheres Que Lêem São Perigosas. Não era, embora possa parecer, um manifesto machista contra a leitura praticada por membros do sexo feminino, mas tão-só um excelente apanhado de pinturas representando mulheres a lerem nos mais variados contextos e épocas. Um dia destes, porém, mandaram-me uma notícia bem estranha (com vídeo incluído, embora de muito má qualidade porque gravado por um telemóvel) que me fez recordar o título deste livro; dizia que uma passageira de uma companhia aérea de baixo custo tinha sido expulsa de um avião por querer levar consigo um livro. Ora, nestas companhias, só se pode mesmo levar uma mala – e a rapariga, ao que parece, tinha um saco com um cartaz e um livro e não queria que aquelas duas coisas fossem para o porão: a primeira, imagino, porque se amachucaria, a segunda – o livro – porque pretendia ler durante o voo. Pois a verdade é que acedeu a pagar 50 Euros de excesso de bagagem (o livro devia ser mesmo bom), mas o cartão de crédito não funcionou e o pessoal de bordo recusou-se a tê-la na cabina com o saco. E, como ela se terá recusado a partir sem ele, foi simplesmente expulsa do avião… Talvez as mulheres que lêem sejam perigosas e tragam bombas dentro dos livros para accionar a bordo.


O link vai abaixo. Vale o que vale.


 


http://www.estandarte.com/noticias/varios/viajera-expulsada-de-un-avion-de-ryanair-por-llevar-libro-y-poster_2032.html

Arquivo

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Já aqui elogiei – mas nunca será demais fazê-lo – a Livraria Arquivo, em Leiria, e o profissionalismo e simpatia dos que ali trabalham há muitos anos (mais do que todos, Paula Carvalho), tornando as nossas visitas leves (porque, quando é para lá, a viagem nem custa), divertidas (porque o público é muito bem-disposto e nos faz sentir em família) e produtivas (porque se fala sempre de questões interessantes e não há nada melhor do que trocar ideias). Pois hoje esfrego de novo as mãos, já que amanhã volto lá, agora com a companhia de três dos meus autores: Ana Margarida de Carvalho, que se estreou em 2013 com o romance Que Importa a Fúria do Mar; Francisco Camacho, que depois de Niassa (vencedor do PEN para Primeira Obra em 2008) nos trouxe em Maio A Última Canção da Noite; e, por fim, David Machado, que escreveu Índice Médio de Felicidade, publicado há cerca de um mês. Este último escritor é o único dos três que já foi à Arquivo por ocasião da publicação de Deixem Falar as Pedras, mas estou mais do que certa de que os outros dois adorarão a sessão e também vão querer ser repetentes. Eu cá estou mortinha por lá chegar e rever os amigos.


 




Inglesices

Aqui há tempos escrevi um post sobre a forma como o inglês se tem metido na nossa língua – e volto ao tema porque o inglês não tem saído das páginas dos jornais. Depois de se ter decidido há uns anos que as crianças deviam aprendê-lo na escola primária, porque era a língua do mundo e quanto mais cedo convivessem com ela melhor (dizem-me alguns pais que os filhos não foram muito além da aprendizagem das cores, dos números até dez e dos nomes de meia dúzia de animais – mas pode não ter sido assim em todas as escolas), de repente já não é preciso para nada e a escola que decida se quer ou não continuar a ensiná-lo aos alunos mais novos. Não me parece grave, devo dizer, que se espere pelos dez anos para começar a aprender outra língua, até porque nesses primeiros quatro anos é bastante mais importante que se aprenda a própria como deve ser e, se calhar, mantendo as duas, a materna ficará a perder. O que me custa entender é que, se o Inglês afinal não tem essa importância desmedida que lhe quiseram dar, seja subitamente objecto de exame obrigatório no nono ano, tal como a Matemática e o Português, duas disciplinas presentes desde a primeira hora da escolaridade. Em que ficamos? Só espero que não se lembrem de cobrar as aulas de Inglês aos alunos da primária como actividade extracurricular, pesando ainda mais no orçamento das famílias. Com o aviso de que o exame vai ser «abençoado» por Cambridge, alguns pais não vão querer correr o risco de não pagar…

História de uma paixão

Quase todos (se não todos) os escritores são leitores desde muito jovens – e é a leitura que acaba por levá-los provavelmente à escrita. Mas nem todos serão bibliófilos como o britânico Julian Barnes, de quem li recentemente um delicioso opúsculo que parte de um artigo publicado no jornal The Guardian no ano passado e chamado My Life as a Bibliophile. Nele, o autor conta que beneficiou claramente de não ter televisão em casa nos primeiros dez anos de vida e de ter sido criado por pais (e avós) professores que tinham bibliotecas respeitáveis, embora confesse que estas não o excitavam por aí além e que foi o despertar do sexo que o levou a investigar com mais atenção as prateleiras (assim lendo o Satyricon, de Petrónio, aos onze anos, que era o livro mais escaldante que havia nas estantes). A partir de então, tornou-se um leitor feroz, um coleccionador de primeiras edições e um consumista de obras literárias – um bibliómano, como nos diz –, frequentando pequenas livrarias de bairro e alfarrabistas e gastando mais de metade dos seus rendimentos mensais em livros e colecções. Hoje, tantos milhares de livros depois, não gosta muito de e-books, confessa – acha que cada livro em papel tem um toque e um cheiro específicos e que os livros electrónicos cheiram todos ao mesmo (a nada). Conclui que ler é uma capacidade que quase todos têm, mas uma arte para poucos: sempre houve não-leitores, leitores preguiçosos e maus leitores – e continuará a haver. Espero é que os bons leitores como Barnes também se mantenham por muito tempo.

Professor-escritor

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Os professores – já se sabe – têm uma vida difícil e raramente são premiados (excepto quando os alunos são dedicados e trabalhadores,  o que, digo eu, deve ser o melhor prémio de todos). Porém, há professores que acumulam o ensino com a escrita – e a FENPROF decidiu criar há meses o Prémio de Novela e Romance Urbano Tavares Rodrigues para distinguir obras literárias escritas por professores de todos os graus de ensino que estejam no activo, homenageando – e muito bem – a figura do escritor recentemente desaparecido que, além de professor e de ser um nome decisivo das nossas letras, era uma pessoa invulgarmente generosa e atenta a tudo o que se ia escrevendo no País. Pois amanhã este prémio irá para uma autora minha – e não podia deixar de partilhar a minha alegria convosco nestas Horas Extraordinárias. O livro chama-se O Rei do Monte Brasil, assina-o Ana Cristina Silva, professora no ISPA, e é um romance psicológico que põe em confronto duas figuras históricas: Gungunhana e Mouzinho de Albuquerque. Essa mesma obra é também finalista do Prémio Literário Fernando Namora, da Sociedade Estoril-Sol, cujo vencedor será conhecido amanhã. Parabéns, querida autora!


 


O livro da paisagem

Valter Hugo Mãe acaba de publicar um novo romance intitulado A Desumanização. Achei a capa muito feia e desajustada para um livro tão avassaladoramente poético (quiçá fosse mais apropriada uma capa deste tipo para O Filho de Mil Homens, o romance anterior), mas o autor costuma decidir esteticamente sobre a matéria e presumo que a ideia terá sido dele. Não sei se os fãs mais recentes de Valter Hugo Mãe, os que o começaram a ler com A Máquina de Fazer Espanhóis, vão engraçar com este livro, porque o humor que costuma temperar a tragédia está ausente desta vez e, sem ele, nem todos os estômagos vão aguentar a digestão. Mas é seguramente a obra do autor em que a linguagem se sobrepõe mais claramente à estrutura e ao enredo (e quantas frases seria possível copiarmos para um caderno como das mais belas de sempre?) e a paisagem – os fiordes islandeses – impera sobre as personagens. Livro de homenagem confessada à Islândia, preparem-se os que ainda não o leram para a tristeza de uma vida – uma adolescente que, além de perder a irmã gémea, convive com uma espécie de culpa pela sua morte, seja porque ela a afasta da mãe que não supera o desgosto e parece castigar por ele a filha que sobrevive, seja porque, sem o seu «espelho», a rapariga toma atitudes que sabe seriam censuradas pela irmã desparecida. Cruel e místico a um tempo, este é um livro para ver o abismo através das palavras e tem dentro quase todos os livros que Valter Hugo Mãe publicou até hoje, já que muitas figuras remetem, ainda que sem querer, para as de outros romances, sobretudo os dois primeiros, e para alguns poemas.

Paternalismo

Já não sei quem dizia que não existe maior despotismo do que o paternalismo excessivo. Não tenho a certeza, mas uma das críticas que mais teci ao sistema de ensino quando fui professora foi a incapacidade de autonomizar os alunos, tratando-os com exagerado paternalismo e proteccionismo, por vezes até como se não fossem capazes de pensar pelas próprias cabeças e os professores tivessem de lhes dar a papa toda feita. Na altura, lembro-me de que o programa de Português incluía umas quantas aulas sobre banda desenhada e que fazia parte da matéria explicar o que era um balão de fala e um balão de pensamento, como se os miúdos não estivessem fartinhos de o saber… Um dia destes, chegou-me a notícia de que saíra um livro sobre O Principezinho explicado às crianças (acho que de duas professoras) e, mesmo não conhecendo o seu conteúdo, fiquei um bocado indignada. O Principezinho, de Saint-Exupéry, não é propriamente linear, mas explicá-lo às crianças não será contraproducente? Eu li-o em miúda e não me incomodou a sua complexidade; o que não entendi na altura entendi mais tarde, porque a ele voltei muitas vezes com várias idades. Era mesmo preciso um guia do aluno para este livrinho com setenta anos como aqueles que eu comprava na universidade para perceber melhor a poesia de Dylan Thomas ou Gerard Manley Hopkins? Não creio. Deixar os miúdos raciocinar sobre o que lêem parece-me estar a passar de moda, e isso – sim – é grave.

Mandamentos

Ao fim de muitos anos a trabalhar num gabinete independente – os primeiros dez –, puseram-me numa sala com a minha equipa; foi muito difícil adaptar-me, confesso, sobretudo por causa dos telefonemas, pois não consigo concentrar-me na leitura quando as pessoas conversam ao meu lado. De há três anos para cá, recuperei felizmente a minha privacidade e, embora quase nunca feche a porta, sinto-me melhor assim. A mesma sorte não tem, porém, a minha querida assistente (que uma vez ou outra tem de ir ler para uma sala de reuniões por causa do barulho) nem as assistentes dos outros editores, que trabalham todas juntas em open space; e, talvez para mitigarem as suas dificuldades, resolveram escrever alguns mandamentos do assistente editorial que espalharam alegremente pelas paredes e colunas que as rodeiam. Entre essas folhas de papel, encontrei, contudo, um dia destes uma misteriosa frase que dizia: «O mal aglutina, o bem hifeniza.» Tardei a compreender que aquilo não passava de um lembrete de uma regra gramatical para alturas em que se dedicassem à revisão. Deve escrever-se «bem-disposto», com hífen, mas «maldisposto», tudo num só vocábulo. Mas, até chegar a essa conclusão, ocorreu-me que, efectivamente, quando há maledicência todos se juntam para atear a fogueira (o Facebook é um bom exemplo disso) , enquanto para elogiar nem sempre. Não era um mandamento nem uma constatação, mas parecia.

As cidades escritas

Já aqui falei ao de leve neste livro quando ele saiu, mas só nas férias pude lê-lo de fio a pavio e observar, com a devida atenção, as fotografias e ilustrações que o compõem. Chama-se Contos Capitais e, como o título indica, inclui contos que tomam como ponto de partida cidades capitais de todo o mundo. Mas, se nuns casos, poucos, a capital serve apenas de cenário a uma história que podia quiçá passar-se noutro lado, a verdade é que noutros a cidade é quase a protagonista da história (como, por exemplo, Sarajevo, de Valério Romão, ou Roma, do nosso querido Urbano Tavares Rodrigues, que nos traz um caso de amor em que a mulher só podia ser italiana). Interessante também é que a própria colectânea sirva de tema ao autor do conto sobre Buenos Aires, Miguel Real, que começa justamente a sua narrativa pelo convite do editor para que escrevesse sobre uma capital. O leque de estilos e abordagens, de gente com idades e olhares muito diferentes, torna este volume muito atraente e equilibrado. Para quem gosta de contos, esta é uma obra a não perder.

O editor em extinção

Durante muitos anos, os países – sobretudo os que tinham vivido ditaduras e uma situação de analfabetismo prolongada – queixavam-se de que as pessoas liam pouco (ou, pelo menos, que poucas pessoas liam). Agora, é mais comum ouvir-se dizer que há muito mais gente a ler, mas que a maioria lê «mal», não necessariamente por não dominar a capacidade de leitura, mas por escolher maus livros, que em nada contribuem para o crescimento intelectual e a formação do indivíduo. Faço aqui um mea culpa em nome da classe e digo que os editores (sobretudo aqueles que não cumpriam ordens e podiam fazer de outro modo) tiveram aqui uma grande responsabilidade, pois, em lugar de publicarem obras que pudessem fazer dos leitores gente mais informada e culta, deram-lhes papa de entretenimento feita com ingredientes de segunda e assinada por gente analfabeta com carinhas larocas e conhecidas, aspirando, mais do que tudo, às receitas e ao lucro. Sinto que cada vez mais é assim – que isto se tornou um vício – e que todos os anos a literatura perde vendas para as chachadas ditas comerciais. O mesmo em todo o mundo, sublinhe-se, tendo eu sabido recentemente que o grande editor alemão Michael Krüger, no activo desde 1968, decidiu retirar-se e ir para casa, alegando que já não faz falta, pois as pessoas gostam sobretudo de livros maus. O editor é uma espécie ameaçada.

Longe de casa

Toda a vida ouvi dizer que uma boa instrução primária era meio caminho andado para o sucesso escolar nos níveis seguintes. Nos poucos anos em que fui professora, tive uma turma excelente que tinha vindo toda junta da então quarta classe e lamento agora não me lembrar do nome da professora que acompanhara esses alunos, pois ela merecia que a felicitasse aqui publicamente. Há umas duas semanas vi, num Telejornal, uma reportagem sobre quatro professoras do ensino básico que, por fecho de escolas e aumento do número de alunos por turma na sua área de residência – julgo que em Montalegre, Trás-os-Montes –, perderam o lugar que tinham e fazem agora 570 quilómetros todos os dias até à nova escola, revezando-se a conduzir o automóvel e dividindo os gastos com a gasolina. Acordam certamente às quatro da manhã, pois as aulas começam às nove, e têm filhos pequenos que não podem acordar nem levar ao infantário. Quando regressam, só podem dar-lhes o jantar e metê-los na cama, antes de caírem também elas no sono, obviamente exaustas e sem força para mais nada. Se fossem solteiras, talvez considerassem a mudança de casa para o local de trabalho, mas, com as vidas arranjadas há muito, não vêem outra hipótese senão a longa viagem multiplicada por duas (ida e volta). Pergunto-me se estas senhoras conseguirão, nas circunstâncias descritas, ser boas professoras e ter paciência para um ror de crianças barulhentas. Uma delas disse até que estava até a pensar deixar o ensino e fazer outra coisa – e interrogo-me também se não é isto mesmo que querem que faça, com tanto professor à espera de colocação… Os miúdos ainda hão-de pagar a factura destas deslocações. Com IVA, claro.

Ler em grupo

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Dizem que a psicoterapia de grupo funciona muito bem porque os pacientes ficam aliviados ao perceberem que não são os únicos que enfrentam certo tipo de frustrações e problemas e isso acaba por levá-los a relativizá-los. Acredito, por isso, que as comunidades de leitores possam ter igual sucesso pela partilha e pelas afinidades entre leitores, além de que um orientador ajuda muito a esclarecer algumas questões que, por vezes, se nos colocam durante a leitura de um livro. Se lhe apetece «ler em grupo», estão abertas as inscrições para uma nova comunidade de leitores dinamizada por Luís Ricardo Duarte, um jovem jornalista do Jornal de Letras que acho muito sóbrio, culto e inteligente (e, ainda por cima, com um sorriso bem simpático). As sessões realizar-se-ão em duas livrarias – a Buchholz e a Barata – entre os dias 2 de Outubro e 18 de Dezembro, às 18h30, e incluirão livros que procurarão acompanhar a actualidade literária nacional. O preço de 30 Euros para seis sessões pode parecer muito dinheiro, mas a verdade é que os inscritos receberão um vale de 15 Euros para gastar em livros e, desse modo, serão compensados em 50% do investimento (se gostarem do livro que adquirirem, digo eu). Mais informações no link abaixo.


 


http://leyaemgrupo.blogspot.pt/


 


O que ando a ler

Reparo que o irlandês Colm Tóibin está de novo entre os finalistas do Booker Prize em 2013 (a anunciar no dia 15) com um livro já publicado em Portugal (O Testamento de Maria, que ainda não li). Gosto, em geral, do que vem da Irlanda, sobretudo livros e filmes, e deste autor leio agora um outro romance que também chegou à final do Booker há vários anos chamado O Navio-Farol de Blackwater. Nele encontramos belas personagens – desde logo, Helen, a protagonista, que se tornou adulta precocemente com tudo o que envolveu a morte do pai, sobretudo o silêncio da mãe (outra personagem de respeito), até porque sentiu que deveria proteger o irmão mais novo que, quando a narrativa se inicia, muitos anos mais tarde, está internado com SIDA num hospital e lhe pede que informe a família. Muito interessante este regresso ao passado, às memórias na casa da avó nesses meses em que o pai agonizava longe deles e a mãe parecia ignorar que tinha dois filhos pequenos a necessitarem da sua presença. Muito interessante também o que se prolonga desse desconforto no presente, quando mãe e filha, que aparentemente se detestam, têm de conviver e conversar sobre a homossexualidade e a doença de Declan, o rapazinho mimado que quer agora acabar os dias na casa do farol, mesmo que a avó não pareça pelos ajustes. Com uma prosa limpa e descrições muito competentes de lugares e estados de alma, O Navio-Farol de Blackwater é um romance sobre as complexas relações familiares e os lutos que todos temos de fazer frequentemente em vida.