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A mostrar mensagens de janeiro, 2026

Excerto da Quinzena

De Vittoria, enfim, apesar da alegria, apesar da confiança que nos merecia, sabíamos apenas o que víamos. Era distante, mas curiosa, acolhedora, mas reservada, precisa, mas evasiva. Havia no seu modo de falar um certo fatalismo que nos deixava perplexos. Ou fascinados. Eu contava-me entre os fascinados. Chegou um dia, com a sua gargalhada que começava grave e terminava aguda, comprou uma casa onde todos podiam entrar e sair à vontade, nunca discutiu com ninguém, nunca mudou de corte de cabelo e morreu numa banheira que todos conhecíamos muito bem, embora nunca tivéssemos entrado nela, apenas porque ficava ao fim do corredor, exatamente do lado oposto à porta de entrada. Um acidente, senhora doutora, um terrível acidente. Um infortúnio.


 


Chiara Valerio, Quem Diz e Quem Cala, tradução de Nuno Camarneiro, no prelo.

Prémio Wook

Hoje tenho uma actividade a meio da tarde que diz respeito ao anúncio do vencedor do Prémio da Wook para autores de romances de estreia. Vou para o Teatro Thalia roer as unhas, porque tenho dois escritores na final: a Sara Duarte Brandão, autora de Quem Tem Medo dos Santos da Casa, que na verdade ganhou também, ainda inédito, o Prémio de Romance Cidade de Almada; e o Nuno Duarte, que escreveu Pés de Barro e, com ele, ganhou o Prémio LeYa. Entre os finalistas estão outros livros que li e de que aqui falei, um que não li mas de que ouvi falar e um de alguém que não me dizia nada quando os finalistas foram anunciados e que depois fui ver quem era. Pode ganhar qualquer dos concorrentes, claro, e não crio expectativas para não me desiludir e depois fazer cara de desapontada, como aquelas actrizes nos Óscares que aplaudem a vencedora mas não conseguem esconder o sorriso amarelo por não terem tido o prémio. Vou lá essencialmente para fazer companhia à Sara e ao Nuno, tudo boa gente, que já leram o livro um do outro, e isso é que é o grande prémio. Pronto, torçam por nós.

A autobiografia familiar de Eduardo Halfon

Aqui há cerca de um ano, um grupo de leitores da Cinemateca convidou-me para lá ir partilhar sugestões de livros. Lembro-me de pensar que talvez não fosse boa ideia falar dos que publico, porque, não podendo falar de todos, cometeria uma injustiça que, de certezinha, acabaria por chegar aos ouvidos de algum dos autores omitidos. Então, mais do que autores, sugeri projectos literários que me parecem muitíssimo interessantes, entre os quais o de Eduardo Halfon (o guatemalteco e judeu que residiu anos a fio nos Estados Unidos e só sabia inglês, pelo que, de volta à Guatemala, começou a escrever em espanhol para aprender a língua e nunca mais parou). Trata-se de uma obra coerente, toda ela centrada na sua família e em episódios decorridos em diferentes épocas e com diferentes membros, da qual tinham saído em Portugal Canção e Luto (este último é maravilhoso) e acaba de sair Tarântula. Vencedor do Prémio Médicis em França em 2024, este livro, que é mais um passo nessa espécie de autobiografia familiar, fala do regresso do ainda jovem Halfon à Guatemala numas férias para participar de um acampamento judeu, cujo conselheiro traz uma farda com uma tarântula bordada no braço. Mas, se a ideia era os meninos distraírem-se, tire daí a ideia: o campo tem tudo a ver com... um campo de concentração? Pois. Os franceses acharam este pequeno romance uma verdadeira jóia, apesar do horror das tarântulas. Não perca.

Botânica

Esta semana sucedem-se as reuniões de programação e apresentação e não consigo um minuto para um texto como deve ser aqui no blogue, e a tempo dos madrugadores. Vou atamancar, desculpem. Não sei se sabem, mas, além dos livros, adoro botânica; tenho muitos livros sobre árvores e uma aplicação no telemóvel para identificar as espécies que vejo por aí e desconheço. Adoro usar árvores nos poemas, porque há nomes maravilhosos como araucária ou liquidâmbar, por exemplo. E quem sabe mesmo a sério de árvores é António Bagão Félix (sim, o senhor que foi Ministro do Trabalho e das Finanças e também falava com Fernando Alves na TSF um dia por semana há uns anos). Ora, ele vai dar duas aulas (a 12 e 19 de Fevereiro às 18h30) no El Corte Inglés sobre o assunto; na primeira, falará de raízes, caules e ramos e na segunda, de folhas, flores e frutos. Vou tentar não perder, mas pelo menos posso dizer que tenho o livro dele sobre árvores lá em casa. Vamos ver se amanhã consigo voltar aqui.

Educação sexual

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Curiosamente, muitos foram os pais que no ano passado solicitaram às escolas que os seus filhos não frequentassem aulas de Educação Sexual. A Educação Física, de Rosário Villajos, romance vencedor do Prémio Biblioteca Breve, explica como muitas vezes a ignorância sobre sexo contribui para enormes equívocos e põe em risco a vida dos adolescentes. Catalina, com dezasseis anos acabados de fazer, foge de casa da sua melhor amiga, nos arredores da cidade onde vive, depois de ter passado por uma experiência traumática. Sem forma de voltar para casa e profundamente abalada, conclui que só lhe resta pedir boleia; ora, como todas as raparigas da sua idade, tem horror a entrar no carro de um desconhecido, mas não tanto como o que imagina que a espera se não cumprir o horário imposto pelos pais, que são incrivelmente autoritários. Enquanto aguarda na estrada, Catalina tenta compreender o que acabou de acontecer-lhe e, ao mesmo tempo, recorda uma vida marcada desde cedo por uma relação difícil com o próprio corpo, pela ignorância de tudo o que diga respeito a sexo e pela raiva em relação a um mundo que parece empenhado em culpá-la só por ser mulher. Vale mesmo a pena ler este livro e oferecê-lo aos pais de raparigas adolescentes (e às própria), especialmente se forem bota-de-elástico.


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Livros em adaptação cinematográfica

Bato com o nariz num artigo que guardei há tempos sobre algumas adaptações cinematográficas de livros conhecidos que vão acontecer em 2026, a primeira das quais surpreendente: A Odisseia (Matt Damon será Ulisses, calculem). Sem olhar para o nome do realizador cheirou-me logo a grande estopada, mas pode também ser uma grande produção, é esperar para ver. Já O Monte dos Vendavais pode dar um filme bonito, vi uma adaptação em tempos, que não sei se é a única, e que na altura achei muito empolada e com dramatismo exagerado por parte dos actores, acompanhando o drama do livro de Emily Brontë. Também O Deus das Moscas, do nobelizado William Golding, vai ter uma nova versão de Jack Thorne (vi uma de Peter Brook e terei dificuldade em separar-me dela). E o mesmo acontece com O Estrangeiro, de Albert Camus, agora com realização de François Ozon (mas com outras no passado, entre elas uma de Visconti no preto e branco mágico). Um Cântico de Natal, de Dickens, já deve ir na sua quadragésima adaptação e vai sair certamente em Dezembro para o Natal ser ainda melhor. E nesse mês poderemos também ver a parte III  de Duna, enquanto as crianças poderão encantar-se com O Sobrinho do Mágico, um dos volumes das «Crónicas de Narnia», que publiquei há anos sem fim, do inglês C. S. Lewis. Haverá, claro, filmes dos livros de Colleen Hoover e Nicholas Sparks, mas não tenciono ir ver.

Consultas poéticas

Tenho reparado ao longo dos mais de quinze anos que tem de existência este blogue que os posts que se referem à poesia têm menos leitores e, sobretudo, muito menos entusiasmados comentadores. Mas não desisto de publicar matéria que se prende com este género literário porque acho mesmo que quem lê poesia pode chegar ao paraíso com uma mera imagem. E, bem, se não souberem por onde começar, há hoje consultas poéticas, tal qual as médicas, nas quais alguém recomenda um autor ou livro. É o caso do Teatro Municipal de São Luiz que hoje se estende para o efeito ao Mercado do Rato, no espaço Dona Ajuda, onde, num programa incluído na Noite da Solidariedade, os actores se tornam "médicos de serviço" e oferecem momentos de escuta de poesia a quem por ali passar; são eles Cátia Nunes, Diogo Fernandes, Isabél Zuaa, Tobias Monteiro e Zia Soares, mortinhos por dizer poemas, claro está, a ver se conseguem pescar ou fazer em cada vinte minutos mais um apreciador de poesia. Esta actividade acontece simultaneamente em vários teatros de várias cidades do mundo, em França, Itália, Roménia, Kosovo... Uma parceria bem interessante.

Clube de leitura

Em 2025 tivemos muitas alegrias na LeYa, entre as quais o facto de a escritora Lídia Jorge ter sido a personalidade escolhida pelo Presidente da República para discursar no Dia de Portugal e, mais tarde, ter sido contemplada com o Prémio Pessoa. E é justamente esta autora quem vai estar presente no dia 22, a próxima quinta-feira, às 19h00, na Livraria Buchholz, para participar no Clube de Leitura deste mês, como convidada especial. Na sessão, falar-se-á de livros como Misericórdia e O Vento Assobiando nas Gruas, mas a conversa com os presentes vai naturalmente alargar-se a outras obras de Lídia Jorge e até a obras de outros autores, como Lobos, de Tânia Ganho, e O Fim dos Estados Unidos da América, de Gonçalo Tavares. Lídia Jorge é uma das autoras de língua portuguesa com mais visibilidade internacional, tendo os seus livros o traduzidos em várias línguas e tendo sido galardoada com prémios como o Prémio ALBATROS da Fundação Günter Grass ou o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas de Guadalajara. A entrada do Clube do Livro é livre (depende apenas dos lugares disponíveis, e vai sempre imensa gente). Vai valer a pena, claro.


 


 

Sai hoje

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Na última sexta, deixei aqui um excerto de Coração sem Medo, o mais recente romance de Itamar Vieira Junior, livro que fecha a «Trilogia da Terra», iniciada com o premiadíssimo Torto Arado (o único título no Brasil nomeado para o Dublin Award e finalista do Booker Prize e traduzido em mais de trinta idiomas), e seguida com o lindíssimo Salvar o Fogo. Este último romance, que sai hoje, é um texto magistral sobre a injustiça e a desigualdade, mas também sobre a coragem inquebrantável de uma mãe em busca do seu filho. Rita Preta, caixa num supermercado, vê a sua vida virada do avesso quando Cid, o filho mais velho, desparece de casa depois de uma discussão acalorada e não volta a ser visto na comunidade. Inicialmente convencida de que se tratou apenas de um arrufo passageiro, Rita acabará por perceber que o que aconteceu a Cid foi muito mais grave e que terá de ser ela a agir para recuperar o primogénito, mesmo correndo o risco de perder o emprego, o namorado e até a vida, ameaçada por grupos violentos e pela própria Polícia. Mas Rita é forte e obstinada, não desistirá. E fará história, a história que um dia escreverá Cainho, o seu filho do meio, que é uma espécie de alter-ego de Itamar Vieira Junior, o escritor que descobriu nas histórias do seu povo a matéria-prima da criação literária. Não perca. O autor estará em Portugal no final de Fevereiro para participar em várias actividades.


 

Escritores na cadeia

Não, não vou falar de escritores que, em determinada altura das suas vidas, foram presos (o caso, por exemplo, de Oscar Wilde ou Jean Genet). Falo, sim, de reclusos que se tornam escritores atrás das grades, ocupando-se com uma tarefa que, segundo os especialistas, lhes retira agressividade e ódio e que, por vezes, até os faz ganhar prémios literários. Mas, como não há escrita de jeito sem leitura, é melhor começar por dizer que no Estabelecimento Prisional de Lisboa, cada ala (e são oito) tem a sua biblioteca, e quem as dirige é sempre um dos presos dessa ala. O artigo que fala disto é assinado pela jornalista Isabel Nery e saiu ontem no Público, contando os vários projectos ligados às artes que têm vindo a surgir nos estabeecimentos prisionais para pôr a comunidade que se encontra cativa em contacto com a cultura, sendo um deles o Concurso de Escrita Criativa Interprisões, que foi lançado com o apoio da Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas e para o qual existe uma média anual de 100 candidatos; são, geralmente, reclusos que gostam de fugir para dentro dos livros (um deles diz ler um livro por dia) e que depois se dedicam à escrita como actividade terapêutica, já que na escrita podem ser completamente livres, além de que o desenvolvimento das competências da leitura e da escrita os ajuda a reinserir-se na sociedade mais facilmente quando saírem da cadeia. Mas o artigo é grande e vale a pena percorrê-lo, pelo que tem de interessante e também comovente. Uma boa semana é o que vos desejo.

Excerto da quinzena

Foi Rita Preta, antes de jogar fora os cadernos, que despertou a consciência do filho para a falsa insignificância de sua vida de mulher, mãe de três filhos homens, se equilibrando em meio aos desafios de conduzir uma família na periferia de uma grande cidade. Sem fazê‑lo de forma deliberada, Rita deu seu testemunho: qualquer vida poderia ter um sentido notável, não apenas as privilegiadas por livros e enciclopédias, por escritores e historiadores. Quando disse que sua própria vida poderia ser convertida num romance como os que ela sabia existirem, ou numa personagem das novelas que assistia, Cainho riu, sufocando seu desdém. Filhos tendem a se sentir superiores aos pais, ainda mais se estudam e os ultrapassam em escolaridade – embora não fosse o caso. Cainho não tinha visto nenhuma dignidade nas histórias da vida deles. Qual interesse as pessoas teriam na vida de uma mulher solteira, funcionária de um supermercado, apreciadora de músicas românticas, que chegava às duas últimas semanas do mês sem dinheiro, que morava de aluguel num bairro sem saneamento, em meio a vizinhos que enfrentavam as mesmas dificuldades – além da rotatividade de namorados da mãe, considerada vergonhosa pelos filhos? Cainho desprezou as reflexões, mas ao mesmo tempo começou a tomar nota dos eventos cotidianos, combinando‑os com a própria imaginação. Percebendo seu interesse, Rita costumava contar os acontecimentos correntes, embora nem sempre se mostrasse disposta a saciar sua curiosidade. A partir daí, Cainho reelaborou suas notas dando um sentido de história, sempre tentando omitir o que o envergonhava.


Itamar Vieira Junior, Coração sem Medo

Sem tempo

Eu avisei que não voltaria com a mesma regularidade de antes, mas a verdade é que ainda não falhei um post. De qualquer modo, até ao final da semana estou mesmo cheia de trabalho e passei aqui apenas para dizer que recebo com alegria o magazine do El Corte Inglés, pois o tema deste trimestre é o Amor, coisa de que muita gente não fala por vergonha, mas que é o que nos mantém vivos neste mundo cheiinho de desamor. Consultem as várias sessões e actividades (há muitas coisas interessantes a que vou tentar ir), entre as quais, dia 23 de Janeiro, Da Ciência ao Amor: O que está para além do cérebro, por Luís Portela e Mário Augusto; mas sobretudo deliciem-se com as ilustrações de Pierre Pratt, um canadiano que veio morar para Portugal há muitos anos e que é óptimo a pintar abraços apaixonados. Até amanhã com outro meio post.

Estreantes

Este ano publiquei quatro romances de estreia, o que raramente acontece. Às vezes encontro um escritor de primeira viagem que quero mesmo publicar, mas este ano tive a sorte de publicar três (Luísa Sobral, Sara Duarte Brandão e Nuno Duarte) e ainda o primeiro romance de uma autora açoreana (Leonor Sampaio da Silva) que só tinha ainda livros de contos e estava publicada em editoras das ilhas, mas que chegou à final do Prémio LeYa com o excelente Passagem Noturna. Ora a Wook, a maior livraria virtual portuguesa, tem um prémio para primeiros romances, e descobri na semana passada que dois dos seis finalistas desse prémio são livros que publiquei: Pés de Barro, de Nuno Duarte (que ganhou o Prémio LeYa em 2024) e Quem Tem Medo dos Santos da Casa (que já me chegou com o Prémio Literário Cidade de Almada atribuído e vai ser publicado na Bulgária). Claro que a concorrência é forte (li Lavores de Ana, de Ana Claúdia Santos, e Sodade, da jornalista Ana da Cunha, só não conhecendo ainda O Processo, de Dulce de Souza Gonçalves, nem Elisa, de Josefa de Maltezinho), mas, ganhem ou não os meus autores, já sinto que fiz bem em publicá-los e fico contente pelo reconhecimento do júri. Tenho é de esperar até dia 29 pelo resultado. Até lá, se tiverem tempo, leiam estes livros, os autores merecem.

Uma despedida

As artes performativas são as que mais visibilidade dão aos seus autores: estar em cima de um palco a cantar, dançar ou representar trá-los necessariamente a um conhecimento físico do público que não acontece aos praticantes de artes visuais (como a fotografia, a arquitectura, a escultura e a pintura) ou literárias (um escritor nunca é tão famoso como um actor, até porque há menos gente a ler do que a ver filmes). Mas geralmente estes artistas populares têm de se retirar de cena quando envelhecem, tristemente substituídos por novas estrelas. Lembro-me de que, no fim da vida de Amália Rodrigues, já ninguém entendia o que ela cantava, a dicção nunca fora boa e piorou com a idade; e que Carlos do Carmo se despediu do público num concerto magistral no Coliseu aos oitenta anos. O que eu não esperava era que um escritor de ficção também quisesse dizer adeus aos seus leitores; mas foi o que aconteceu ao fantástico Julian Barnes: escreveu um livro chamado Partida (está a sair ao mesmo tempo em todo o mundo e o original é Departures) e será o último, diz ele. Para mim, será uma despedida muito difícil, mas terei sempre alguns títulos antigos para ler e reler.

Livro e filme

Quase nunca escrevo posts no Facebook; geralmente, partilho alguns, publico a ligação deste meu blogue e leio aquilo que vai aparecendo; mas ultimamente reparo que são sobretudo anúncios e vídeos parvos o que cai na minha timeline (penso que é assim que se diz) e que isso acontece provavelmente porque não ajudei o algoritmo quando ele me perguntava se queria ver mais posts assim ou assado. Mas desde que fiquei em casa de baixa, verifiquei que todos os dias havia posts relacionados com um filme baseado num livro de que gostei imenso: Hamnet, da irlandesa Maggie O'Farrell. Já li outros dois livros desta autora (e Retrato de Casamento também é excelente), mas o romance sobre a morte de um filho de Shakespeare com peste e a vida do casal é realmente um texto belíssimo que, claro, quase exigia que dele se fizesse um filme. Vejo que os actores e o realizador são permanentemente nomeados para prémios importantes (a actriz que faz de mulher de Shakespeare, Jessie Buckley, já foi, de resto, galardoada com o Critics Choice Award há pouco tempo e ontem o Golden Globe) e estou mortinha pela estreia em Portugal. No entanto, se não for tão bom como merece, não pensem que a história tem culpa: leiam o livro antes ou depois de ver a versão cinematográfica. Vale mesmo a pena.

Homero ilustrado

A Ilíada e A Odisseia, duas obras fascinantes atribuídas a Homero, são tidas como os livros fundadores da literatura ocidental. A tradução de Frederico Lourenço destas duas epopeias magistrais trouxe, tenho a certeza, muito mais leitores portugueses para perto delas do que antes. O tamanho não é simpático, bem sei, mas os livros estão bem encadernados e não me lembro de, mesmo deitada na cama, ter tido dificuldade em ler os grossos volumes na altura em que saíram, era ainda solteira. A leitura não é fácil (muito mais difícil do que A Sibila, diria eu), mas na semana que vem, talvez para aproximar os mais jovens da obra, a Bertrand publica uma versão d' A Odisseia em formato de romance gráfico, adaptada por Gareth Hinds, que dá uma nova vida ao épico que conta o regresso de Ulisses a casa no final da Guerra de Tróia, mas desta feita com ilustrações deslumbrantes e um texto simples mas com garantia de fidelidade ao enredo. Parece que muitos adultos que não gostam muito de poemas épicos também vão ler a obra nesta versão.

Mães e filhas

Há muitos livros que tratam das relações nem sempre fáceis entre mães e filhas; e quase de certeza que já falei deste tema aqui no blogue. O primeiro romance que me vem à cabeça é A Pianista, da vencedora do Nobel da Literatura Elfriede Jelinek, que deu origem a um filme homónimo com Isabelle Hupert no papel da filha; e, sem querer puxar muito pela cabeça, ocorre-me também um livro nos antípodas desse, o maravilhoso O Meu Nome É Lucy Barton, de Elizabeth Strout, em que uma filha internada num hospital se surpreende com a visita de uma mãe que não via há séculos, e as duas conversam sobre a separação e o passado. Não sei que tipo de relação tinha Mónica, a filha de Agustina Bessa-Luís, com a mãe, que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que era claramente uma figura forte, dominante, sarcástica, embora também supersticiosa (treze à mesa, nunca!); mas sinceramente entendo mal que, numa entrevista recente, tenha dito que A Sibila, romance creio que de leitura obrigatória no Secundário, é um livro muito difícil e não adequado a «crianças de dezasseis anos». Bem sei que os jovens de hoje são bastante infantilizados pelos pais, mas aos dezasseis anos já não se é criança, caramba; além disso, nós não líamos coisas difíceis (e maravilhosas) no nosso tempo? Acho que nos fez lindamente subir o nível, pois reduzir as leituras dos jovens às obras levezinhas é uma péssima ideia, havendo já demasiadas coisas fáceis nos seus horizontes. Não queremos que cresçam a saber que na vida nem tudo são rosas? Enfim, o que achei mesmo esquisito foi ser a própria filha da escritora a dissuadir a juventude de ler a obra mais emblemática da mãe. Pensem sobre isso o que vos apetecer, eu farei o mesmo.

Parabéns!

Pronto, a LeYa faz hoje dezoito anos, e o que posso dizer é que foi um fósforo! Bem sei que não trabalhei no grupo logo que ele foi criado, mas lembro-me bem dos primeiros passos: da compra da Texto e a seguir da Caminho, da Asa com a Lua de Papel, da Dom Quixote, e mais tarde do grupo que detinha a Casa das Letras, a Teorema, a Oficina do Livro e outras chancelas menos literárias. Acompanhei os comentários, as desconfianças, a má imprensa, as críticas, e mesmo assim em 2010 juntei-me à equipa por perceber que os autores queriam ser profissionais e viver do que escreviam, e infelizmente isso ser cada vez mais impossível numa pequena editora. Comecei a perder os escritores demasiado cedo e vim para um grande grupo onde pude dar a conhecer outros que hoje são de nomeada (alguns dos quais saíram, é verdade, mas muitos ficaram e agradeço-lhes muito) e tenciono publicar ainda mais, embora tenha consciência de que é hoje cada vez mais difícil encontrar um autor que nos encha as medidas. Não devo ir para outra editora depois disto: cheguei praticamente à idade da reforma e, quando me mandarem para casa, irei decerto ler e escrever mais, mas não publicar. Hoje estou bem aqui e agradeço às várias administrações não se terem visto livres de mim quando a coisa apertou com a Troika e quando todos os anos publico livros que vendem menos do que seria desejável, embora compensados por outros que vendem mais do que esperado. Obrigada também aos colegas e, claro, à Madalena Escourido, que continua ao meu lado. Festejemos, pois, a sua maioridade.

Correspondência de excepção

Ontem falei aqui de um livro escolhido como o melhor romance do ano, mas igualmente presente em todas as listas em lugar de destaque estava o notável As Cartas do Boom, publicado na Dom Quixote pela minha colega Cecília Andrade, que tem todas as razões para estar orgulhosa do seu feito. Trata-se da correspondência trocada por quatro génios literários no período do boom da literatura latino-americana (caracterizada também pelo realismo mágico, mas muito mais do que isso): Julio Cortázar, o grande contista e autor de Rayuela; os nobelizados García Márquez (autor da obra-prima Cem Anos de Solidão) e Mario Vargas Llosa (penso que um dos primeiros posts deste blogue foi sobre o seu A Tia Júlia e o Escrevedor); e o genial Carlos Fuentes, talvez menos conhecido do que os seus colegas entre nós, o que creio constituir uma grande injustiça, mas popularizado em Portugal pela sua autobiografia, Aquilo em Que Acredito, vencedora de vários prémios. A tradução desta correspondência de excepção é do editor João Rodrigues, que deve ter adorado o trabalho. E o que é notável nestas cartas trocadas ao longo de vários anos não é só a sua qualidade literária, mas o facto de os seus autores não se comportarem como concorrentes, agirem até, nas palavras do crítico Marco Alves, «como uma irmandade, sem rivalidades, sem azedumes». Penso que já ninguém escreve cartas e que os e-mails eventualmente trocados entre autores serão prosa despachada e utilitária ou pouco mais. Penso também que o individualismo hoje é maior e que os escritores não pertencem a escolas nem grupos e muitos preferem não conhecer sequer os seus confrades. Daí este ser provavelmente um dos grandes testemunhos de um tempo em que os escritores comunicavam entre si como uma verdadeira classe à parte. Não percam.

Envelhecer nas badanas dos livros

Um dos autores que imediatamente associo à minha carreira no mundo da edição é Ian McEwan, cujo mais recente romance foi escolhido como o melhor livro de 2025 por vários meios de comunicação. Quando comecei a trabalhar nos livros em Janeiro de 1987, o primeiro romance que veria publicado pela editora para onde fui trabalhar, a Gradiva, foi justamente O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, e lembro-me perfeitamente de que na badana se falava de um romancista altamente promissor, uma nova estrela, segundo a revista Granta, um jovem turco das letras britânicas (elogiados no mesmo número eram também Kazuo Ishiguro e Martin Amis). O livro era de facto diferente e muito bom e, naturalmente, fui acompanhando o autor não só durante os nove anos que trabalhei na Gradiva (penso que Amsterdão, que ganhou o Booker Prize, foi o primeiro livro dele publicado depois da minha saída; e se calhar é por isso que nem gosto muito dele), mas até hoje, tendo lido todos os seus livros traduzidos em Portugal, excepto Lições (que tenho, mas ainda não li porque tem umas 700 páginas) e o tal romance muito elogiado pela crítica, O Que Podemos Saber (que me ofereceram no Natal e até já espreitei). O friso McEwan na minha estante nota-se bem; e, ao retirar alguns dos títulos mais antigos (A Criança  no Tempo, O Inocente, Cães Pretos, O Sonhador...) e comparar a cara do escritor com a da foto que aparece na badana deste novo romance, vejo como aquele «jovem turco» envelheceu e sinto-me eu própria uma senhora de idade, embora grata por ter podido trabalhar, rever, ler antes dos outros, algumas das suas obras. Tomara que McEwan ainda escreva muitos livros.

O que ando a ler

Antes de mais, bom ano aos Extraordinários e obrigada aos que vierem aqui hoje. Não prometo recomeçar com o antigo ritmo, em primeiro lugar, porque me recomendam estar sempre a mudar de posição e não passar mais de quinze minutos seguidos sentada; em segundo lugar, porque tenho carradas de coisas em atraso na editora e, regressando ao trabalho na próxima segunda, calculo que não tenha tempo para escrever diariamente, até porque fui consultando o email e só na primeira semana tenho três reuniões marcadas (uma delas é a celebração da maioridade da LeYa, que faz dezoito anos dia 7, calculem!). Mas disse que voltava em Janeiro e quero, por isso, partihar convosco o livro que andei a ler ultimamente para não quebrar esta rotina de anos. Chama-se Montanha, escreveu-o José Luís Peixoto, e fala de cancro com todas as letras (sempre que aparece no livro, a palavra é escrita assim a bold); fala de uma série de doentes oncológicos (homens e mulheres, jovens e não tão jovens) com quem o narrador se reuniu depois de uma proposta do IPO do Porto, juntamente com um médico e uma psicóloga, e daquilo de que conversaram e viveram; e fala da principal personagem do primeiro livro do autor (Morreste-me), o seu pai, perdido para o cancro quando Peixoto era ainda jovem e que agora regressa como memória, com uma voz que o chama às vezes e que quer ser ouvida, lembrada (e é). Subam esta Montanha, se puderem, quais alpinistas, e leiam um romance duro, de vez em quando algo estranho, comovente, perturbador, verdadeiro, ficcional. E digam o que andam a ler, claro, todos precisamos de recomendações. Até um dia destes.