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A mostrar mensagens de novembro, 2019

Crónica e livros de Natal

Hoje é dia de crónica. Ela aqui vai:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/16-nov-2019/ler-eou-escrever-11518084.html


Para quem quiser oferecer livros no Natal, haverá uma Festa do Livro que começa já no dia 3 de Dezembro e vai até dia 24, todos os dias das 10h00 às 20h00, em Oeiras. Irá decorrer no Centro Comercial Galerias Alto da Barra (ao lado da NATO)  e será organizada pela BooksLive by BL Livreiros. A Livraria irá contar com milhares de livros e também com uma oferta cultural variada, com horas do conto e sessões de autógrafos. A não perder.

Língua portuguesa em crise

No mesmo dia em que leio a notícia de que a UNESCO oficializou o dia 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, leio também como esta é tão maltratada nas nossas televisões. Em tempos, trabalhou comigo uma rapariga que tinha feito uma especialização em legendagem e tradução e se queixava de não arranjar colocação em nenhum dos canais existentes porque o trabalho era realizado havia anos pelas mesmas pessoas, que levavam pouco e por isso não eram substituídas. Eu não vejo muita televisão, embora já tenha apanhado erros cabeludos nos rodapés; mas desconhecia que estes são cada vez mais regulares; e Isabel A. Ferreira, no blogue O Lugar da Língua Portuguesa, conta: «A legendagem em Portugal é uma vergonha nacional. Diz da pobreza cultural e linguística em que o país está mergulhado.» E a seguir fala de «ignorância«, «analfabetismo», «falta de brio profissional» e, claro, da «forretice dos empregadores, que pagam uma ninharia». Então, o problema persiste? Pior, agrava-se: no artigo de Isabel A. Ferreira mostra-se a fotografia do ecrã de um telejornal da SIC em que, no rodapé, além de uma falta de concordância entre sujeito e predicado (que também é cada vez mais comum, mesmo na oralidade, em entrevistas), a palavra «produzido» aparece «pruduzido»… Enfim, criam-se especializações para quê, se depois o trabalho é sempre para quem leva menos dinheiro? Não há profissionalismo... nem vergonha. E a língua portuguesa ressente-se.

Rapazinho com cem anos

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Já ouviu falar de Lawrence Ferlinghetti? Se não costuma ler poesia, é natural que não, embora seja um dos nomes mais importantes da Beat Generation em matéria de poetas (com Allen Ginsberg, autor do famoso Uivo, e Gregory Corso). Mesmo assim, é difícil que não venha a ouvir falar dele nos tempos mais próximos em Portugal. É que o senhor Ferlinghetti (faço a devida vénia quando escrevo «senhor»), quase a completar cem anos, sabe-se lá como ainda conseguiu sacar um livro da cartola. Surpresa das surpresas, desta vez trata-se de um romance! Ao que parece, é semi-autobiográfico e preenchido por memórias do escritor. Chama-se (que título tão bonito) Rapazinho, e o agente de Ferlinghetti (que também já tem a linda idade de 98 anos) já o vendeu em não sei quantos países. Por cá, sai na Quetzal, que, ao anunciá-lo, refere: «É uma fonte de conhecimento literário com alusões ao mundo e à vida literária do autor, à sua geração, e um convite ao maravilhamento. Um romance leve, luminoso e destinado a recordar o mundo como ele devia ser.» Vamos ter de conferir.


Em tempo, a pedido da Maria, ponho a capinha.


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Canetas

Todos nós, que escrevemos – e não falo apenas de escrever para publicar, mas de redigir notas, letras, cartas, mensagens, listas, crónicas, poemas… –, temos sempre certas canetas de que gostamos mais. Actualmente, a minha preferida é uma caneta Uniball de tinta preta (uso também muito a vermelha quando estou a editar) que, por fora, é maioritariamente cinzenta e de que compro muitos exemplares ao longo do ano. Não cansa, é macia, nem fina nem grossa. Mas, quando era adolescente, a escolha era mesmo reduzida (lembram-se do anúncio Bic Laranja, Bic Cristal? Pouco mais havia...), pelo que fiquei muito contente quando, talvez por volta dos 14 anos, a minha avó me ofereceu uma esferográfica Parker, que era macia e contribuía menos para aquele calo que se formava no dedo médio de tanto escrever. Depois, num repente, apareceu tudo e mais alguma coisa, e a Parker ficou obviamente para trás, soterrada por marcas mais cotadas, como a Montblanc. E não é que hoje, no meio daquela publicidade que invade diariamente as nossas caixas de correio electrónico, me aparece um reclame da Parker, que eu já julgava mais do que defunta? Mostrava um modelo novo e dizia assim: «A Parker nasceu em 1888, na Grã Bretanha, como fabricante de canetas de luxo. […] quando a ocasião sugere um presente memorável, quando nenhum presente comum serve, escolha uma bela caneta Parker. Será uma lembrança que vai combinar com o seu bom gosto.» Bateu cá uma saudade… Qualquer dia ainda volto à velhinha Parker. (Passe a publicidade.)

Contos portugueses na TV

Parece que a RTP vai fazer a adaptação de treze contos portugueses, uns clássicos, outros contemporâneos, num projecto em que – tanto quanto me foi dado entender – os realizadores serão também todos diferentes: 13 contos de 13 autores resultam em 13 telefilmes realizados por 13 realizadores. É claro que o projecto não se poderia chamar senão… Trezes. Para José Fragoso, o director de programas do canal público, este projeto é importante sobretudo pelo facto de as telenovelas serem muito comuns e as séries estarem a ser produzidas com uma regularidade assinalável, mas o telefilme ser um género bastante raro nas estações de televisão portuguesas e ser gratificante poder fazer cinema em Portugal para ser visto por todos. Desde «A Abóbada», de Alexandre Herculano (que achei uma chatice enorme quando o li na escola, desculpem a sinceridade), até «Miss Beijo», de Lídia Jorge, ou «As Cinzas da Mãe», de Cristina Norton, passando por textos de Eça, Namora, Cardoso Pires ou Mário de Carvalho, há muito a esperar em 2020 destas adaptações de textos literários portugueses e dos seus realizadores (que incluem António-Pedro Vasconcelos ou António da Cunha Telles, mas também outros mais jovens e desconhecidos). Os guiões serão escritos por Pedro Marta Santos (de quem já publiquei um romance que tinha sido finalista do Prémio LeYa), Patrícia Muller (também autora de romances), Miguel Simal e Leandro Ferreira. Vamos aguardar.

Crónica e desassossego

Hoje é dia de crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/09-nov-2019/modernices-11492841.html


Regressaram ontem, como acontece todos os anos, os Dias do Desassossego, que unem os escritores Saramago e Pessoa. Depois de uma conversa sobre Mário de Sá Carneiro que deve ter sido bem gira, hoje à tarde, no antigo Cinema Europa, a conversa também promete. Susana Moreira Marques modera o diálogo de António Pinto Ribeiro com Margarida Vale de Gato subordinado ao tema «Leitores feitos de livros», ou seja, cada um falará dos livros que o formaram enquanto leitor, que o acompanham pela vida fora e aos quais regressa uma e outra vez. Amanhã e domingo haverá programação musical, oficinas para crianças, cinema e teatro. O melhor mesmo é consultarem a página da Fundação José Saramago e escolherem a que querem assistir. Bom fim-de-semana.

2020: Uma previsão

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Há dois anos, iniciou-se no Museu da Farmácia uma actividade anual ligada aos livros muito interessante. Foi inicialmente um encontro de editores pequenos, médios e grandes, que falaram dos principais problemas da profissão e da actividade, dos livros que iriam publicar e dos que tinham perdido para outros. Escolhiam três livros para aconselhar, um dos quais publicado por um colega. Esse primeiro encontro foi muito concorrido (também lá estive) e, no ano seguinte, voltou a acontecer com tradutores, alguns dos quais conheço há muitos anos (Maria do Carmo Figueira, por exemplo) e sei que foi um sucesso. Hoje, vai ser a terceira edição e, desta vez, estarão autores sentados à mesa para falar do que é escrever hoje em Portugal e para o mundo e quais são os livros de 2020 que preparam ou aconselham. A conversa será, como sempre, moderada por Luís Caetano, cujos programas dedicados aos livros e à poesia são conhecidos por muitos. Se quer saber o que se vai publicar em 2020, vá lá. Até porque o Museu da Farmácia é belíssimo e vale muito a pena ser visitado.


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Soma e segue

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As comemorações dos 50 anos de Mário Cláudio como escritor não param; depois de um momento alto no passado dia 9, em que foi possível mostrar a muitos as várias facetas deste autor prolixo através de um espectáculo que incluiu fado, poesia, teatro e uma entrevista ao vivo, amanhã inaugurar-se-á no Porto, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, às 18h30, uma exposição biográfica dedicada ao escritor, com livros, fotografias, manuscritos, objectos pessoais e muito mais. A curadoria é assinada por Jorge Velhote e Luís Barbot, o primeiro poeta e amigo de longa data de Mário Cláudio e o segundo seu primo direito, detentor por certo de fotografias de família e outras preciosidades. A exposição ficará patente até dia 4 de Janeiro. Mas não ficamos por aqui: nesta sexta à noite, a Livraria Lello abre também as suas portas a Mário Cláudio para uma conversa à roda da sua vida e obra. O momento contará com a presença do saxofonista João Guimarães a leitura de textos a cargo de Rui David. Apareçam, convites abaixo!


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Cuba e Eça

Estive em Cuba em 1994, ano muito difícil para o país, mas, apesar de todas as dificuldades, adorei a viagem e adorei sobretudo os cubanos, que não tinham ponta de hostilidade nem ressentimento com os estrangeiros, ou não os mostravam. Portugal teve em Cuba alguns diplomatas conhecidos, mas o mais célebre de todos foi obviamente o escritor Eça de Queiroz, que foi cônsul em Havana. Amanhã vão celebrar-se os 500 anos da fundação da capital cubana e, simultaneamente, o centenário das relações diplomáticas entre Cuba e Portugal com a inauguração de uma exposição, Havana: Uma Cidade com 500 Anos de História, às 16h00, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, antecedida de uma conferência da escritora cubana residente em Portugal, Karla Suarez, sob o título Cuba e Portugal: Eça de Queiroz em Havana, às 14h00, no Auditório da Torre B. Esta palestra é aberta a todos os interessados. Eça sempre a bombar.


 


 


 


 

Linguajar censurado

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Acabo de publicar um livro infantil de David Machado, com ilustrações incríveis de David Pintor, que é o melhor presente que pode haver para crianças que estão a aprender a ler: Chama-se O Alfabeto Nojento e é completamente escatológico. Acho que os miúdos sempre adoraram histórias com cocós, arrotos, puns, etc., e que por isso vão aprender o alfabeto em três tempos com as partidas (nojentas) do protagonista. Mas há sempre o perigo de os pais bota-de-elástico não pensaram assim… No Brasil bolsonarista, por exemplo, uma autora de literatura juvenil, Luisa Geisler, acaba de ser «desconvidada» de uma feira no interior de Rio Grande do Sul por indicação do prefeito, que alegou ter um dos seus últimos livros palavrões e «linguajar inadequado». Enfim… Os adolescentes falam bem? Sem palavrões? Não é suposto os leitores identificarem-se com as personagens nestas idades? Querem fazer leitores ou não? A editora já se pronunciou contra a censura sofrida por esta autora, que foi duas vezes vencedora do Prémio Sesc de Literatura e duas vezes finalista do Jabuti, além de ter ganho o Machado de Assis e estado na lista de smifinalistas do Prémio Oceanos de Literatura. Espero que os pais portugueses não venham advogar um alfabeto limpinho contra este livro que agora publico…


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Crónica e mais centenários

Voltando ao que é uso e costume, aqui vai a crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/02-nov-2019/plastificados-11462717.html


Este tem sido o ano de todos os centenários e de todas as festas, mas preparem-se porque para o ano há mais. Antes de todos, Amália Rodrigues, que nasceu em 1920 (embora a data seja incerta e ela festejasse em dois dias diferentes, sem saber qual o verdadeiro); mas também o dramaturgo Bernardo Santareno, que foi igualmente médico e que será objecto de uma grande exposição da responsabilidade da Sociedade Portuguesa de Autores. Não se esqueçam que Amália, além de fadista, foi autora de imensas letras de fado, entre as quais a do conhecidíssimo Estranha Forma de Vida, letras essas que estão reunidas numa colectânea publicada pela Cotovia. Leiam-nas!

Congressos

Ontem falei de Torga e hoje falo de outros dois grandes: um anterior (Eça), outro posterior (Saramago). É que, quase ao mesmo tempo, vão realizar-se dois congressos dedicados aos escritores que pus entre parênteses. É já hoje que o nosso Nobel da Literatura é festejado no Palácio Nacional de Mafra – sítio mais do que apropriado – num encontro organizado por Miguel Real, com a participação de inúmeros especialistas nacionais e internacionais, estudiosos e interessados na obra do escritor, e em estreita colaboração com a Fundação José Saramago, parceira estratégica desta iniciativa, que vai até dia 18.​ Por seu turno, amanhã inicia-se na Sociedade de Geografia o congresso «Eça de Queiroz nos 150 Anos do Canal de Suez», que dura igualmente até dia 18 e tem uma extensão na Biblioteca Nacional. A organização é da revista Nova Águia, do Movimento Internacional Lusófono (MIL) e do CLEPUL (Faculdade de Letras) e conta com vários painéis que prometem ser originais. Os programas completos podem ser consultados nos links abaixo:


https://rotamemorialconvento.wixsite.com/congresso


https://queiroz150suez.blogspot.com/2019/10/programa-do-congresso.html

Torga outra vez

Alguém me contou que Miguel Torga era forreta e raramente oferecia livros; e que era bastante avesso a autografar. Li também algures que uma vez, recebendo um recado de Amália Rodrigues dizendo que estava no andar de baixo em casa de amigos e, tendo descoberto que ele morava ali (ou tinha o consultório, já não sei), o queria conhecer, este mandou pela mesma via a resposta de que não tinha qualquer interesse no encontro com a fadista. Consta que não era um homem fácil, mas lá que era bom no que fazia isso não se pode negar – e se calhar só não ganhou o Nobel da Literatura por, no seu tempo, ser tremendamente difícil conseguir ser traduzido e publicado no estrangeiro. Não há, porém, qualquer dúvida de que era um escritor de mão cheia – e hoje, se quiser ser honesta, talvez lhe atribua uma boa parte da minha curiosidade livresca, pois foi, entre outras coisas, com os seus Contos da Montanha que, muito novinha, me apaixonei pela literatura. Depois vieram Os Bichos, os poemas, os diários; mas por acaso nunca li o seu único romance, Vindima, publicado em 1945, que, segundo um texto de Fernando Pinto do Amaral, trata das injustiças sociais vividas no Douro Vinhateiro nesse tempo e tem uma abordagem próxima do neo-realismo. O livro acaba de integrar aquela colecção que o Público está a fazer, de médicos-escritores, e sai dia 19. Vou decididamente espreitar.


Em tempo: Hoje começa o The Pessoa Festival com uma programação muito boa, conduzida por Mirna Queiroz, directora da revista Pessoa. Está tudo aqui:


https://www.revistapessoa.com/artigo/2862/the-pessoa-festival-chega-a-lisboa


 

O país amigo

Durante e logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, entre 1947 e 1952, num programa levado a cabo pela Cáritas para poupar os mais novos à fome e à destruição de suas casas e cidades, Portugal recebeu várias crianças austríacas que vinham para morar com famílias que nem sequer conheciam: algumas ficaram por aqui meses, outras muitos anos, outras para sempre (cheguei a conhecer uma dessas raparigas que acabou por se casar com um português). Vinham de comboio de Viena até Génova, em cujo porto apanhavam o barco para Portugal, e depois eram distribuídas por vários pontos do país amigo, chegando a chamar «pais» a estes pais que as acolhiam e lhes davam carinho num momento de trauma. Muitas delas nunca mais se esqueceram de Portugal, onde fizeram tantos amigos, e voltavam para passar férias sempre que podiam. A escritora de literatura infanto-juvenil Rosário Alçada Araújo, contemplada com uma bolsa de criação literária da DGLAB, dedicou-se à investigação das «Crianças Cáritas» – assim ficaram conhecidas – e publicou recentemente O País das Laranjas, uma história ficcionada à roda de dois irmãos austríacos – Martha e Peter – que vêm para Portugal nesses anos da guerra. Ainda não o li, mas é um bom assunto para um romance juvenil num tempo em que os «refugiados» estão na ordem do dia e muita gente foge de países em guerra e procura um destino melhor. Quanto mais cedo os pequenos leitores tiverem conhecimento destas histórias, melhor. Parabéns à autora pela escolha do tema.

Crónica e gastronomia

Excepcionalmente à segunda-feira, aqui vai o link da crónica:


https://www.dn.pt/edicao-do-dia/26-out-2019/eternos-meninos-11440133.html


Guida Cândido, autora do belíssimo e saborosíssimo Comer como Uma Rainha, que contém hábitos, modas, contributos e receitas de cinco rainhas portuguesas de várias épocas, acaba de ser sagrada vencedora do Prémio da Academia Portuguesa de Gastronomia, que lhe será entregue numa cerimónia em que estará presente o Primeiro-Ministro, no dia 27 deste mês. Parabéns, Guida Cândido! Há muito chefe mediático por aí, mas nada ultrapassa uma investigação a sério no âmbito da história da alimentação!


 

Mário Cláudio

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Hoje, a meio da tarde, viajarei para o Porto, onde amanhã realizaremos uma bonita festa (espero eu) em honra do escritor Mário Cláudio, que completa este ano 50 Anos de Vida Literária. Além de uma obra romanesca de grande dimensão (contos, romance e literatura biográfica), Mário Cláudio escreveu teatro, crónicas, poesia e letras de canções, pelo que vamos tentar mostrar ao público todas estas facetas em que foi premiado («Retrato», cantado por Carlos do Carmo com Bernardo Sassetti ao piano, é uma letra de Mário Cláudio que recebeu o galardão da Sociedade Portuguesa de Autores). Teremos connosco uma fadista, um actor, um diseur, músicos, e muitas outras pessoas (ao vivo e em filme) para animar a sessão. Tudo isto na Cooperativa Artística Árvore, local que tem que ver com a família do escritor e a sua obra (é a Quinta das Virtudes do livro homónimo). A entrada é livre. Se estiver no Porto, contamos consigo para cantar os parabéns e bater palmas.


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P. S. Para não misturar, a crónica virá na próxima segunda.

Poeta do tudo e do nada

Já vi muitos booktrailers de romances e vídeos de leituras de poesia por profissionais, às vezes até com música de fundo; mas ver uma espécie de aula de poesia sobre um poema de Álvaro de Campos em pouco mais de três minutos pelo grande especialista em Fernando Pessoa que é Richard Zenith é gratificante e pouco comum. O estudioso norte-americano, que reside em Portugal e é o responsável pela edição da obra pessoana na editora Assírio & Alvim, tem um trabalho meritório e foi galardoado em 2012 com o Prémio Pessoa. Quando, há vários anos, deu à estampa, com Fernando Cabral Martins (outro dos especialistas em Pessoa), o volume Teoria da Heteronímia, gravou para o «Ípsilon» este vídeo que partilho abaixo, em que lê com a sua pronúncia deliciosa um dos últimos poemas do heterónimo Campos e faz uma breve análise, chamando ao nosso ex-libris literário o poeta do nada e do tudo. Só partilho agora porque foi só  recentemente que o descobri. Mas Pessoa nunca passa de moda.


https://www.publico.pt/2013/01/18/culturaipsilon/video/zenith-20130118-112604


 


 


 

CLAX

Será esta sigla Clube de Leitura do Autor X? Bem, há muitos clubes de leitura, mas o CLAX parece diferente. Um autor de referência é desafiado pela EC.ON (uma escola de escrita criativa de Lisboa) a escolher quatro obras fundamentais da literatura universal ao longo de um ano. Trimestralmente, vai às instalações da escola para uma sessão de análise e debate com os «alunos» inscritos. Naquela que é já a 3.ª edição desta iniciativa, o coordenador do CLAX de 2020 será o escritor Gonçalo M. Tavares,  e as inscrições estão abertas desde de 1 de Novembro. Parece que há uma primeira reunião entre o coordenador e o grupo de interessados para definir as quatro horas e marcar o início da discussão e que as sessões ocorrem em Março, Junho, Setembro e Dezembro, dando tempo para a leitura dos livros à vontadinha. O número de vagas é limitado e sobre o resto está tudo no link abaixo. Alguém quer fazer apostas sobre os livros escolhidos por Gonçalo M. Tavares? Eu não arrisco.


http://escritacriativaonline.net/eventos/clax2020/

Sena, rio de livros

Não falo do rio de Paris, falo do fulgurante rio de livros que foi o grande Jorge de Sena, de quem, no último sábado, se comemorou o centenário do nascimento. Escritor que tem ficado mais arredado das celebrações públicas do que seria desejável por este ser um ano dedicado a muitos outros escritores vivos e mortos (entre eles a Sophia por todos amada), mereceu mesmo assim o destaque de várias sessões dedicadas à sua obra e vai ter ainda, na recta final do ano, dois congressos que lhe serão dedicados, um em Lisboa e outro em Braga. Suspeito, porém, de que, ainda assim, é hoje um autor menos lido do que merecia, até porque é um dos mais versáteis e prolixos escritores portugueses (acho que foi o jornalista Luís Miguel Queirós que, no passado fim-de-semana, o comparou a Fernando Pessoa), tendo escrito poesia, romance, teatro, ensaio, tradução… Para os Extraordinários que ainda não lhe deitaram a mão, sugiro um dos maiores romances do século XX, Sinais de Fogo (de que Luís Filipe Rocha fez um excelente filme) e essa pequena maravilha que é O Físico Prodigioso, mas, claro, podia sugerir do mesmo modo os livros de contos, a poesia e até a correspondência. Afoguem-se neste rio.


 

O que ando a ler

Ando a ler livros curtos, porque estou numa fase de muito trabalho e só tenho aqueles minutinhos antes de dormir para ler umas páginas. Voltei a Julian Barnes, um dos meus escritores favoritos, e leio um livro (Os Níveis da Vida) que trata de uma questão que sempre me interessou muito e sobre a qual, de resto, escrevi nos meus poemas: o que acontece quando se perde para sempre a pessoa amada? Barnes começa por falar de balões de ar quente, de fotografia e da fabulosa Sarah Bernhardt, por quem se apaixonou o coronel Fred Burnaby, mas em vão; porém, acaba a escrever sobre a própria viuvez, o luto, a raiva, as reacções dos amigos ao seu desgosto e à sua recuperação (mas é possível recuperar da morte de alguém que se amou tanto?), as conversas que ainda mantém com Pat, a mulher com quem foi casado anos a fio e que lhe desapareceu em apenas 37 dias, entre o diagnóstico e a morte. Como sempre em Barnes, a inteligência é acutilante e não há lamechice nem goduras. Este é um livro especial com que me indentifiquei e que nos ensina muita coisa sobre o sofrimento e a separação de duas pessoas que, quando estavam juntas, tinham realmente um caminho comum. Querido Barnes.